Uso de ácido giberélico em sementes de fruta-do-conde (Annona squamosa L.)
visando à produção de mudas em diferentes embalagens
USO DE ÁCIDO GIBERÉLICO EM SEMENTES DE FRUTA-DO-CONDE (Annona squamosaL.)
VISANDO À PRODUÇÃO DE MUDAS EM DIFERENTES EMBALAGENS1
INTRODUÇÃO
A fruta-do-conde (Annona squamosaL.), conhecida regionalmente por diversos
nomes como ata, pinha e anona, tem despertado interesse de produtores de várias
regiões desde a década de oitenta. A cultura é, basicamente, propagada por
sementes e a enxertia é utilizada para multiplicação de clones mais produtivos.
Porém, a produção de mudas por via sexuada esbarra na dormência das sementes,
que, por alguma razão ainda desconhecida, inibe a germinação após a secagem das
sementes (Kavati, 1992).
Lemos et al. (1988), trabalhando com quebra de dormência em sementes de A
squamosa L., obtiveram 75% de germinação quando submeteram as sementes a
escarificação com lixa, eliminando assim a impermeabilidade do tegumento.
Porém, Ferreira et al. (1997), estudando a curva de embebição de sementes de A.
squamosa e de A. Cherimola Mill. X A. squamosa L. (atemóia), verificaram que as
sementes de tais espécies não apresentam impedimentos físicos à entrada de
água, descartando-se assim a possibilidade de a dormência ser devida à
impermeabilidade do tegumento.
De acordo com Esquinca et al. (1997), sementes de A. diversifolia apresentam
dormência que pode ser quebrada com o uso de ácido giberélico. Para os autores,
o mecanismo de dormência encontrado nesta espécie não é devido à dureza do
tegumento ou à imaturidade, mas, sim, ao mecanismo de dormência que eles
relacionam como 'sobrevivência estacional'.
Weaver (1987) relata que a dormência pode ser resultado do balanço hormonal
entre promotores e inibidores de crescimento. Da mesma forma, Bryant (1989) e
Kigel & Galili (1995) concordam que a quebra de dormência pode ser
realizada pela mudança no balanço hormonal e que o ácido giberélico atua na
promoção da germinação. Em sementes de cereais, as giberelinas ativam a síntese
de enzimas que irão hidrolisar as reservas da semente, liberando energia para o
crescimento do embrião (Taiz & Zeiger, 1991), além de aumentar o
alongamento celular, fazendo com que a radícula e a parte área possam
desenvolver-se (Salisbury & Ross, 1992).
Embora o uso de ácido giberélico seja uma das alternativas para quebra de
dormência em sementes de diversas espécies, não foi possível detectar muitos
trabalhos específicos para A. squamosa.
Pinto (1976), trabalhando com sementes de graviola (Annona muricataL.), obteve
82,1% de germinação, com o uso de 300 mg.L-1 de ácido giberélico, enquanto a
testemunha apresentou 75,1% de germinação. Hernández (1993) relata que o ácido
giberélico usado em concentração de 100 mg.L-1 promoveu significativo aumento
na germinação de Annona cherimolaL. de 57,25% (testemunha) para 70,00%.
Yousif et al. (1989), trabalhando com sementes de laranja-'Azeda' (Citrus
aurantium L.), obtiveram uma germinação de 83%, com a aplicação de 50 mg.L-1 de
GA3, por 6 horas. Leonel et al. (1994) também conseguiram bons resultados com a
aplicação de 50 mg.L-1 em sementes de Citrus amblycarpa (72% de germinação),
porém os tratamentos com 100 mg.L-1 e 250 mg.L-1 não se mostraram benéficos,
sendo inferiores à testemunha (68,75% de germinação).
Segundo Ono et al. (1995), o tratamento de sementes de citrumelo 'Swingle'
(Poncirus trifoliatax Citrus paradisi), com 250 mg.L-1 de GA3,por 24 horas,
provocou uma menor porcentagem de germinação (63,75%), quando comparada com a
concentração de 50 mg.L-1 (76%).
De acordo com Ferreira et al. (1998), a aplicação de 200 mg.L-1de GA3promoveu
considerável aumento da germinação de sementes de Annona squamosaL. em
condições de câmara de germinação com temperatura alternada entre 20 e 30 ºC.
O objetivo deste trabalho foi verificar o efeito de diferentes concentrações de
GA3 na germinação de sementes e na emergência de plântulas de fruta-do-conde
(Anona squamosa L.) em diferentes embalagens, visando à produção de mudas.
MATERIAL E MÉTODOS
O Experimento foi conduzido em casa de vegetação e também no laboratório de
sementes da UNIOESTE, câmpus de Marechal Cândido Rondon - PR.
Os frutos de Annona squamosa(fruta-do-conde), de onde foram extraídas as
sementes para o experimento, apresentavam em média 7,5 cm de diâmetro, 8,0 cm
de comprimento, 250 g e 65 sementes por fruto. As sementes foram extraídas
manualmente, lavadas e colocadas para secar à sombra por uma semana.
O experimento foi instalado em delineamento experimental inteiramente
casualizado. No laboratório, os tratamentos foram compostos pela embebição das
sementes em sete concentrações de GA3 (0; 50; 100; 250; 500; 750 e 1.000 mg.L-
1 de GA3), por 5 horas. Na casa de vegetação, os tratamentos foram constituídos
pela embebição das sementes em sete concentrações de GA3: 0; 50; 100; 250; 500;
750 e 1.000 mg.L-1, por 5 horas; e semeadas em dois tipos de embalagem:
bandejas de isopor, com 72 células e dimensões de 12 x 34 x 67 cm; e sacolas de
polietileno, com capacidade de 0,5 L. Empregaram-se 4 repetições de 25 sementes
cada, sendo empregado uma semente por sacola ou por célula da bandeja.
As sementes empregadas no experimento foram tratadas com captan a 0,5% logo
após os tratamentos com o fitorregulador. No laboratório, realizou-se a
semeadura em rolos de papel para germinação, os quais foram mantidos em câmara
de germinação com temperatura alternada de 20-30ºC, no escuro. No campo,
procedeu-se a semeadura nas sacolas de polietileno e bandejas de isopor, a uma
profundidade de 3 cm, contendo substrato comercial para mudas (GIOPLANTAII), as
quais foram mantidas em casa de vegetação e temperatura média de 27ºC. O
substrato era composto por vermiculita, fibra de coco e casca de arroz
carbonizada.
As avaliações foram realizadas diariamente até o início da germinação e
emergência de plântulas e, posteriormente, a cada 2 dias. Os parâmetros
avaliados em laboratório constaram de porcentagem total de sementes germinadas
(sementes que somente emitiram radícula ou se tornaram plântulas até a
avaliação final do experimento), dormentes e mortas; porcentagem total de
plântulas normais e anormais (porcentagens em relação ao valor total de
sementes germinadas), comprimento das plântulas (cm) e índice de velocidade de
germinação (IVG), calculados no final do experimento. Os parâmetros avaliados
no material do campo foram compostos pela porcentagem total de plântulas
emergidas; índice de velocidade de emergência (IVE), altura das plântulas (cm)
e número de folhas, obtidos no final do experimento. Os cálculos do IVG e IVE
foram feitos de acordo com recomendações de Silva & Nakagawa (1995). As
avaliações foram encerradas no laboratório aos 33 dias e, no campo, aos 39 dias
após a semeadura. Os dados obtidos foram submetidos a análise de variância e as
médias comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade, sendo que, no
campo, os dados foram analisados em esquema fatorial 7 x 2 (concentrações x
embalagens).Para o parâmetro número de folhas, o teste Tukey foi realizado a
partir dos dados transformados em V x+0,5, mas os valores apresentados nas
tabelas de resultados são os originais.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados referentes à germinação das sementes encontram-se na Tabela_1.
Observa-se que o ácido giberélico, na concentração de 250 mg.L-1, proporcionou
as melhores respostas para porcentagem de sementes germinadas e IVG, diferindo
significativamente da testemunha. Além disso, este tratamento promoveu a menor
porcentagem de sementes dormentes, diferindo do tratamento sem o uso de GA3
(testemunha).
Ao se analisar as porcentagens de plântulas normais e anormais e altura das
plântulas, não se verificaram diferenças significativas entre os tratamentos.
Embora 250 mg.L-1 de GA3 tenha promovido elevada porcentagem de plântulas
anormais, sendo o pior resultado, esta concentração não interferiu na
porcentagem de plântulas normais de forma significativa (Tabela_1).
As respostas positivas quanto ao uso do ácido giberélico em sementes estão de
acordo com citações de Weaver (1987), Bryant (1989), Taiz & Zeiger (1991),
Salisbury & Ross (1992) e Kigel & Galili (1995). Além disso, Pinto
(1976) e Ferreira et al. (1998) também obtiveram aumento na porcentagem de
germinação de sementes do gênero Annona com o uso de concentrações semelhantes
de GA3, sendo 300 mg.L-1para A. muricatae 200 mg.L-1 para A. squamosa,
respectivamente. Segundo Hernández (1993),100 mg.L-1 de GA3 foram suficientes
para aumentar significativamente a porcentagem de germinação de Annona
cherimola. Neste experimento, tal concentração não diferiu de 250 mg.L-1 para
porcentagem de germinação e IVG; no entanto, foi semelhante à testemunha, que
apresentou os piores resultados.
Na casa de vegetação, a aplicação de GA3, nas sementes de fruta-do-conde, não
influenciou na porcentagem de emergência (Tabela_2), pois não ocorreu diferença
entre as médias de bandeja e sacola. O tratamento com 250 mg.L-1 de GA3
promoveu a menor porcentagem de emergência (30,00%) nas sacolas, embora não
tenha diferido significativamente dos tratamentos 50, 500 e 1.000 mg.L-1 e da
testemunha (32,00%, 52,00%, 45,00% e 44,00%, respectivamente). Estes dados
assemelham-se aos relatados por Leonel et al. (1994) e Ono et al. (1995) com
sementes deCitrus amblycarpa e citrumelo 'Swingle'. Porém, cabe salientar que
Ono et al. (1995) mantiveram as sementes embebidas por 24 horas, o que pode ter
afetado a germinação; além disso, os autores citados obtiveram bons resultados
com concentrações menores, o que, neste experimento, não foi verificado.
Em relação ao índice de velocidade de emergência das plântulas em casa de
vegetação, a aplicação de GA3não o influenciou, tanto nas bandejas como nas
sacolas (Tabela_2). Porém, entre as médias, a bandeja foi significativamente
superior à sacola, promovendo maior velocidade de emergência.
Considerando-se o desenvolvimento inicial das mudas, verifica-se que não
ocorreram diferenças significativas entre os tratamentos com GA3 para os
parâmetros estudados, nem interações entre os fatores (Tabela_3). Mas há
diferenças entre as médias das embalagens, sendo a sacola superior à bandeja
nos parâmetros avaliados. Pode-se observar que, embora a bandeja tenha
favorecido anteriormente o IVE (Tabela_2), esta diferença é anulada logo em
seguida, pois o sistema radicular da espécie desenvolve-se muito rapidamente,
necessitando de espaço que não existiu nas bandejas e, conseqüentemente, as
plântulas desenvolveram-se menos que nas sacolas (Tabela_3).
CONCLUSÃO
Nas condições em que foi conduzido o presente trabalho, pode-se concluir que a
aplicação de GA3 influenciou positivamente a germinação de sementes de A.
squamosa L., porém não afetou a emergência das plântulas nas embalagens em casa
de vegetação.