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Representação em texto

BrBRCVAg0100-29452002000100009

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioLife Sciences
Great areaAgricultural Sciences
ISSN0100-2945
ano2002
Issue0001
Article number00009

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Aparência, compostos fenólicos e enzimas oxidativas em uva 'Itália' sob influência do cálcio e do armazenamento refrigerado APARÊNCIA, COMPOSTOS FENÓLICOS E ENZIMAS OXIDATIVAS EM UVA 'ITÁLIA' SOB INFLUÊNCIA DO CÁLCIO E DO ARMAZENAMENTO REFRIGERADO1

INTRODUÇÃO Em se tratando de um fruto perecível, a uva está suscetível à ocorrência de danos de diversas origens. Além daqueles decorrentes do manuseio inadequado, uma injúria conhecida como abrasão pode ocorrer durante as operações de embalagem e transporte. Geralmente, segundo Salunkhe e Desai (1984), ocorre em bagas friccionadas ou pressionadas contra a embalagem, sendo a cultivar Itália especialmente sensível.

Os principais problemas de conservação pós-colheita da uva 'Itália' são a ocorrência de danos mecânicos, o escurecimento das bagas e o secamento do engaço. Segundo Carvalho (1994), os danos mecânicos devem-se ao manuseio inadequado durante a colheita, a embalagem e o transporte, enquanto o escurecimento das bagas e o secamento do engaço são desordens de natureza fisiológica.

O escurecimento das bagas pode ter origem enzimática, envolvendo a atuação das enzimas polifenoloxidase (PPO-E.C. 1.14.18.1) e peroxidase (POD-E.C. 1.11.17) (Wissemann e Lee, 1980). Pode ocorrer quando a PPO e os compostos fenólicos entram em contato, em conseqüência de danos sofridos pelas bagas durante a colheita ou na produção de vinho. A quebra da integridade física acelera a oxigenação dos tecidos e coloca as PPOs, os fenóis e as proteínas em contato direto, acelerando as reações químicas e a formação de melaninas.

A oxidação de fenóis pode resultar também da atividade da POD, que está relacionada, por exemplo, a alterações na cor e ao desenvolvimento de aromas estranhos durante o armazenamento (Hernández et al., 1996). Assim, uma alta taxa de atividade enzimática implica maior potencial de deterioração das características sensoriais da fruta, reduzindo sua vida útil.

Tratamentos pré ou pós-colheita com cálcio têm sido utilizados em frutos e hortaliças, visando a prolongar o período de conservação. Tal efeito pode ser obtido uma vez que o cálcio altera processos intra e extracelulares envolvidos no amadurecimento e na senescência, como taxas de respiração e de produção de etileno; alterações na cor, no teor de açúcares e de ácidos orgânicos totais; amolecimento da polpa de frutos e atividade de algumas enzimas (Siddiqui e Bangerth, 1995).

O objetivo deste estudo foi avaliar o efeito da aplicação pré-colheita de cálcio na aparência, no teor de fenóis e na atividade de enzimas oxidativas da uva 'Itália', durante o armazenamento refrigerado.

MATERIAL E MÉTODOS O experimento foi conduzido em Petrolina, Pernambuco, Brasil, cujo clima é do tipo semi-árido quente BSh'W, conforme classificação de Köppen (Amorim Neto, 1989). O parreiral da cultivar Itália, sobre o porta-enxerto IAC 313, estava no quinto ano de produção e era conduzido em sistema de latada, num espaçamento de 3,0 m x 2,5 m, sob irrigação por gotejamento, em Latossolo Amarelo Distrófico, textura areno-argilosa.

Os tratamentos consistiram da aplicação de cálcio, nas doses 0 e 1,5%, e do armazenamento por 0; 14; 28; 42; 56 e 70 dias, a 3,5±0,2°C e 93±6% U.R. O cálcio foi aplicado, através de soluções de CaCl2, imergindo os cachos marcados de cada uma das três plantas que compunham cada parcela, na fase de mudança de cor e início de amolecimento das bagas (57 dias após a formação dos frutos), durante 10 segundos. À solução, adicionou-se o espalhante adesivo alquil- polifenol-glicoléter (0,3 mL/L).

Os cachos foram colhidos aos 35 após a aplicação de cálcio, quando atingiram o ponto de maturação comercial para a cultivar. Para a colheita, foram utilizados tesouras adequadas e contentores plásticos forrados com espuma de 0,5 cm de espessura. Após a colheita, os frutos foram imediatamente transportados para packing house, submetidos à seleção, limpeza, acondicionamento em caixas de papelão ondulado com capacidade para 2 kg, com dimensões de 34,0 x 28,0 x 9,7 cm, e armazenados em câmara fria.

O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado, em esquema fatorial 2 x 6, com três repetições. As características avaliadas, conforme metodologias especificadas, foram as seguintes: Compostos fenólicos: doseados, após fracionamento, conforme Reicher et al.

(1981). As leituras foram feitas em espectrofotômetro a 720 nm e os resultados, expressos em percentagem de matéria fresca.

Polifenoloxidase: extraída segundo método proposto por Wissemann e Lee (1980).

As leituras foram feitas a 395 nm e expressas em unidade de atividade enzimática (UAE)·min-1·g-1 de matéria fresca. Considerou-se 1 UAE como a quantidade de atividade da enzima que produziu uma mudança de 0,001 na absorbância.

Peroxidase: a extração foi feita segundo método de Wissemann e Lee (1980). A atividade foi medida conforme recomendação de Matsuno e Uritani (1972), substituindo-se o substrato o-fenilenodiamina por guaiacol 1,0%. As leituras foram feitas a 470 nm e expressas em UAE·min-1·g-1 de matéria fresca.

Secamento do engaço: avaliado por escala subjetiva, atribuindo-se as notas: ausência de secamento do engaço; início do secamento da região do pedicelo (até 50% atingido) e/ou do ápice do engaço; secamento da região do pedicelo, do ápice e de até 10% do eixo principal do engaço; secamento total do pedicelo e do ápice e de até 50% do eixo principal do engaço; secamento do pedicelo, do ápice e de mais de 50% do eixo principal do engaço.

Injúrias mecânicas: utilizou-se a seguinte escala: 0- ausência de manchas causadas por abrasão e/ou pressão; 1- presença de manchas de abrasão e/ou pressão em até 10% das bagas; 2- presença de manchas de abrasão e/ou pressão em mais de 10% e até 25% das bagas; 3- presença de manchas de abrasão e/ou pressão em mais de 25% e até 50% das bagas; 4- presença de manchas de abrasão e/ou pressão em mais de 50% das bagas.

Podridões: determinadas pela relação percentual entre o número de bagas com sintomas de podridões e o número total de bagas da amostra.

Os valores de percentagem de podridões foram transformados em arc-sen Öx/100.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Durante os 70 dias de armazenamento, as uvas não tiveram variações significativas no teor de fenóis, cuja média foi 0,332% (Tabela_1). Esta resposta pode ser favorável ao prolongamento da conservação pós-colheita da uva 'Itália' uma vez que, de acordo com Landrigan et al. (1996), o escurecimento da casca decorrente da perda de água do fruto após a colheita aumenta com o decréscimo no nível de fenóis.

Independentemente da aplicação de cálcio, a atividade da PPO aumentou desde a colheita até os 28 dias de armazenamento (Figura_1A), quando atingiua215,78 UAE·min-1·g-1. Aos 42 dias, a atividade foi reduzida, mas, aos 56 dias, obteve- se a atividade máxima (218,95 UAE·min-1·g-1). Ao final dos 70 dias de armazenamento, no entanto, caiu a valores próximos dos 180,44 UAE·min-1·g- 1 obtidos inicialmente, sugerindo uma possível redução no nível de proteínas.

Esta tendência também foi observada por Cenci (1994), em uva 'Niagara Rosada'.

O autor registrou decréscimo nas atividades de PPO e POD até o 10º dia de armazenamento refrigerado, seguido por aumento até o 30º dia e nova redução no final do período.

O tratamento com cálcio reduziu em 20,59% a atividade da PPO, em relação ao controle (Tabela_1), confirmando seu efeito em retardar a senescência. Cenci (1994) também obteve redução significativa na atividade desta enzima por meio da aplicação de CaCl2 1,0%. Segundo Silva (2000), a atividade das enzimas é alterada com o início da senescência em decorrência da desintegração das membranas das organelas.

Considerando que o tratamento com cálcio, neste experimento, não exerceu efeito sobre o conteúdo de fenólicos durante o período estudado, a redução na atividade da PPO pode representar uma menor suscetibilidade ao escurecimento enzimático.

Não houve efeito nem do período de armazenamento nem do tratamento com cálcio sobre a atividade de POD, cuja atividade média foi 58,82 UAE·min-1·g-1 (Tabela 1).

Cenci (1994), no entanto, observou aumento na vida útil da uva 'Niagara Rosada' em conseqüência da redução na atividade da POD e do atraso no pico de atividade, em decorrência da aplicação de cálcio. Esta resposta, segundo o autor, indica retardamento da senescência.

A desidratação do engaço, observada pelo escurecimento e secamento, intensificou-se a partir dos 28 dias de armazenamento, nos frutos tratados ou não com cálcio, comprometendo o aspecto visual do cacho aos 56 dias, ocasião em que as notas obtidas se aproximaram do valor máximo (Figura_1B).

Neste trabalho, não se observou resposta desta característica à aplicação de cálcio. No entanto, em uva 'Niagara Rosada', Cenci (1994) constatou uma redução no escurecimento do engaço durante o amadurecimento, após o tratamento com 1,0% de CaCl2. O autor indicou que o escurecimento e secamento do engaço, acompanhado do amolecimento das bagas, são os principais sintomas de desidratação das uvas.

Um aumento contínuo dos sintomas de injúrias mecânicas (Figura_1C) foi observado durante o armazenamento. A partir dos 42 dias, os sintomas, caracterizados principalmente por abrasão, acentuaram-se, até atingir o valor 3,0. Esta nota equivale a frutos de restrito valor comercial.

A aplicação de 1,5% de cálcio reduziu em 21,12% os sintomas de injúrias mecânicas no fruto, em relação ao controle (Tabela_1). Esta resposta pode ser atribuída à maior resistência da parede celular e à menor atividade ide PPO dos frutos tratados.

Estes resultados são concordantes com os de Cenci (1994), que verificou que o aumento na concentração de cálcio, após tratamentos pré-colheita com CaCl2, promoveu uma melhoria na qualidade da uva 'Niagara Rosada', reduzindo, inclusive, o número de bagas com rachaduras. Por sua vez, García et al. (1996) observaram que a aplicação de cálcio não afetou a qualidade sensorial dos frutos. Gonçalves et al.(1996) consideraram que a utilização de 3% de CaCl2 foi prejudicial à aparência do limão-'Tahiti', afetando a turgidez, o frescor, o brilho e a coloração da superfície.

Bagas com podridões começaram a ser observadas a partir dos 42 dias de armazenamento (Figura_1D). Apesar de o valor máximo, obtido aos 70 dias, ser de apenas 0,75%, constitui um fator prejudicial à comercialização para consumo in natura. O mercado externo, por exemplo, segundo Gayet (1993), não admite presença de fungos em uvas de mesa.

Eris e Turkben (1989) também observaram um aumento na percentagem de perdas patológicas em algumas cultivares de uvas selecionadas para estudo, à medida que o período de armazenamento se estendia.

Segundo Conway e Sams (1987), o cálcio fornece proteção contra fungos altamente colonizadores. Neste sentido, Subburamuet al. (1990) obtiveram redução de podridões durante o armazenamento, por meio de tratamentos com cálcio, em uvas Moscato.

CONCLUSÕES 1. Independentemente do tratamento com cálcio, a vida útil da uva 'Itália' sob refrigeração é de aproximadamente 56 dias, ocasião em que se inicia a ocorrência de sinais de senescência, como podridões e intensificação dos sintomas de injúrias mecânicas. No entanto, as uvas que recebem a aplicação pré-colheita de 1,5% de Ca têm uma menor atividade de PPO e uma redução de 21,12% nos sintomas de injúrias mecânicas e, conseqüentemente, melhor aparência, durante todo o período. Estes frutos, portanto, teriam maior aceitação para compra pelos consumidores do que aqueles do controle, podendo ser mais valorizados comercialmente.

2. Prolongando-se o período de armazenamento além de 56 dias, o secamento do engaço, as injúrias mecânicas e a ocorrência de podridões intensificam-se de forma semelhante tanto nos frutos tratados como nos não tratados.


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