DESENVOLVIMENTO DE MUDAS DE MARACUJAZEIRO-AMARELO OBTIDAS DE SEMENTES EXTRAÍDAS
POR FERMENTAÇÃO
DESENVOLVIMENTO DE MUDAS DE MARACUJAZEIRO-AMARELO OBTIDAS DE SEMENTES EXTRAÍDAS
POR FERMENTAÇÃO1
INTRODUÇÃO
O maracujazeiro é basicamente propagado através de sementes, o que acarreta uma
grande variabilidade em suas características, podendo também disseminar uma
série de doenças, que comprometem o empreendimento (Rizzi et al., 1998).
O método de extração de sementes mais utilizado é aquele no qual os frutos
selecionados são cortados ao meio e a polpa retirada e colocada em um
recipiente de vidro, onde permanecem em fermentação natural durante alguns dias
para facilitar a remoção do arilo aderente às sementes. No entanto, quando se
usa o processo de fermentação na limpeza das sementes, para evitar prejuízos na
germinação, o tempo de fermentação não deve ser superior a 72 horas (Teixeira,
1994), com o processo realizado à sombra, em recipiente de vidro ou louça, com
duração de 24 a 72 h (Ruggiero et al., 1996; Rizzi et al., 1998). A fermentação
tem a finalidade de facilitar a separação entre as sementes e a mucilagem que
as envolve e geralmente exige um período de 2 a 6 dias (Lima et al., 1994;
Maldonado et al., 1999). A maior duração da fermentação (3 a 5 dias) é
justificável quando há eliminação de alguns patógenos superficiais e não
danifica fisicamente nenhuma estrutura interna da semente (Melleti e Maia,
1999). Além disso, a germinação de plântulas normais e o vigor das sementes
extraídas por fermentação são maiores que sementes extraídas sem fermentação
(Tsuboi e Nakagawa, 1992). O investimento em mudas e ou sementes selecionadas,
além de ser importante componente do investimento total na fruticultura, por
constituir um pré-requisito fundamental ao sucesso da atividade, é também um
dos itens mais expressivos, especialmente em capital, principalmente nos
empreendimentos que visam a atingir as parcelas mais nobres do mercado
consumidor (David et al., 1999). Em função disso, instalou-se o presente
experimento com o objetivo de avaliar o efeito do período da fermentação das
sementes do maracujá-amarelo na emergência e no desenvolvimento de mudas.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido em casa de vegetação do Departamento de Fitotecnia
da Escola Superior de Agricultura de Mossoró, Rio Grande do Norte, durante o
período de março a abril de 2000. O delineamento experimental utilizado foi o
de blocos completos casualizados, com sete tratamentos e quatro repetições. Os
tratamentos foram constituídos pelo tempo de fermentação, variando de 1 a 6
dias, mais a testemunha, e a parcela composta de 45 sementes distribuídas em 15
recipientes. Os frutos selecionados, obtidos em pomares da região, foram
cortados ao meio, e as sementes retiradas foram colocadas em 6 recipientes de
vidro, para a fermentação natural, durante 1; 2; 3; 4; 5 e 6 dias,
respectivamente, e a testemunha (sem fermentação). Após a fermentação, as
sementes foram lavadas em água corrente sobre peneiras e colocadas para secar à
sombra por dois dias, sobre folha de jornal, e a seleção das sementes foi
realizada conforme recomendação de Ruggieiro et al. (1996), colocando-as em um
recipiente com água e eliminando as que boiaram. A semeadura foi realizada em
09-03-2000, empregando-se 3 sementes por recipiente, a uma profundidade de 1
cm; posteriormente, quando as mudas atingiram 5 cm de altura, efetuou-se o
desbaste, deixando-se a mais vigorosa. Como recipiente, foi empregado copo
descartável com capacidade de 300 ml, e como substrato, utilizou-se de uma
mistura comercial, constituída de matéria orgânica, composto e vermiculita
expandida.
Durante 30 dias, em contagens diárias, foram avaliadas as seguintes
características: percentagem de emergência (PE): feita com a população final,
até 30 dias após a semeadura, com a contagem diária do número de plântulas
emergidas por parcela; velocidade de emergência, avaliada pela população
inicial, feita através do número de dias para atingir 50% de emergência (ND):
em contagens diárias das plântulas emergidas (Silva et al., 1993). Foram
consideradas plântulas emergidas aquelas cujos cotilédones estavam inteiramente
fora do solo; vigor de semente (NM): avaliado pelo "número médio de dias
para a emergência".
Aos 30 dias após a semeadura, empregando-se 15 plântulas por parcela e ao
acaso, foram avaliadas: altura da muda (ALT): medindo-se do colo da plântula
até a gema apical, obtida com uma régua milimétrica; diâmetro do caule (DAM):
determinado a um centímetro do colo da plântula; número de folhas (NF):
partindo-se da folha basal até a última folha aberta; comprimento da raiz
pivotante (CRP): obtido com o auxílio de uma régua milimétrica, medindo-se do
colo até a extremidade da raiz; peso da matéria seca da parte aérea (MSPA) e
raiz (MSSR): determinada em uma balança analítica com precisão de 0,0001 g após
acondicionamento em saco de papel e manutenção em estufa a 75ºC, com circulação
forçada de ar, até peso constante.
Os dados foram submetidos à análise de variância, teste de Lilliefors para
normalidade dos dados, teste de Cochran e Bartlett para homogeneidade dos dados
e as médias submetidas ao teste de Tukey, a 5% de probabilidade, através do
"softwere" SAEG. Para as características onde a regressão foi
possível, as curvas foram ajustadas através do softwere Table Curve (Jandel
Scientific, 1991).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Apercentagem de emergência apresentou uma tendência de aumento com o emprego da
fermentação (Figura_1), confirmando o relato de Meletti & Maia (1999),
sugerindo que esse processo não danifica fisicamente nenhuma estrutura interna
da semente.
Ao avaliar diferentes métodos para uniformizar a germinação, Tsuboi &
Nakagawa (1992) constataram, sete dias após a semeadura, que as sementes
fermentadas, por três dias, apresentaram-se com 82% contra apenas 70% naquelas
que não foram submetidas a esse tratamento. Como as Passifloráceas são
consideradas entre as famílias cujas sementes apresentam dormência, devido aos
mecanismos de controle de entrada de água para o seu interior, pode-se atribuir
esse efeito a uma possível interferência da fermentação neste processo. Com o
aumento do período de fermentação, tornou-se mais fácil a retirada da mucilagem
no processo de lavagem das sementes. Este fato, que se constitui numa
facilidade para a obtenção de sementes, também foi constatado por Lima et al.
(1994) e Maldonado et al. (1999).
A velocidade de emergência (ND), determinada pelo número de dias até que 50%
das plântulas estivessem emergidas (Silva et al. 1993), demonstrou, a exemplo
do que ocorreu com a porcentagem de emergência, um efeito positivo da
fermentação (Figura_2).
O padrão de comportamento da ND, em função do período de fermentação das
sementes de maracujá, foi decrescente. Este efeito positivo da fermentação,
entre 3 e 6 dias (Tabela_1), vem confirmar as recomendações de Lima et al.
(1994), Maldonado et al. (1999) e Meletti & Maia (1999), no que se refere
ao período de fermentação requerido por essas sementes. Para o vigor das
sementes (NMD), determinado pelo número médio de dias para atingir o máximo de
emergência, observou-se um padrão de comportamento similar ao obtido na ND
(Figura_3).
Ao contrário do que afirma Teixeira (1994), não se constatou nenhum prejuízo na
emergência em função do emprego da fermentação por períodos superiores a 72
horas. Pois, conforme dados apresentados na Tabela_1, o maior vigor foi
observado entre 3 e 6 dias de fermentação. Este efeito do período de
fermentação, provavelmente, pode estar relacionado à inativação de
fitorreguladores presentes no envoltório, conforme hipótese levantada por São
José (1987), citado por Tsuboi & Nakagawa (1992).
A altura das plântulas e o diâmetro do caule, aos 30 dias após a semeadura, não
variaram em função do tempo de fermentação das sementes (Tabela_1). Mesmo sem
diferir estatisticamente, contatou-se uma tendência de aumento na altura das
plântulas com o tempo de fermentação. Tal comportamento pode ser atribuído ao
efeito positivo da fermentação na velocidade de emergência e no vigor da
semente, confirmando a hipótese de que a variação de diâmetro é resultado
direto do volume de substrato disponível à muda (Araújo, 1995; Dantas, 1995;
Chagas, 1997). Não foram observadas variações neste parâmetro, uma vez que o
volume do recipiente utilizado foi o mesmo em todos os tratamentos.
O número de folhas e massa seca da parte aérea não diferiram em função dos
tratamentos (Tabela1).
Essa tendência de comportamento vem reforçar a hipótese de que a fermentação
das sementes de maracujá, por até seis dias, não as comprometeu, ao contrário
do que afirmam Teixeira (1994) e Manica (1981).
O comprimento da raiz pivotante foi influenciado pela fermentação; entretanto,
não se observaram diferenças em função do tempo empregado (Tabela_1). Pode ser
explicado pela velocidade de germinação das sementes que foram submetidas ao
tratamento.
Com relação à massa seca do sistema radicular, não foram observadas diferenças
entre os tratamentos (Tabela_1). Isto demonstra, a exemplo do que foi
constatado para número de folhas e massa seca da parte aérea, que a fermentação
não interferiu no desenvolvimento das mudas.
CONCLUSÕES
Considerando-se as condições nas quais o experimento foi realizado, pode-se
concluir:
1 - Afermentação facilitou a retirada da mucilagem sem prejudicar a emergência
das plântulas de maracujá-amarelo.
2 - A fermentação promoveu um maior vigor das sementes e emergência de
plântulas em menor tempo que as sementes sem fermentação.
3 - O desenvolvimento das mudas não foi afetado pela fermentação das sementes.