SELETIVIDADE DE CHLORFENAPYR E FENBUTATIN-OXIDE SOBRE DUAS ESPÉCIES DE ÁCAROS
PREDADORES (ACARI: PHYTOSEIIDAE) EM CITROS
SELETIVIDADE DE CHLORFENAPYR E FENBUTATIN-OXIDE SOBRE DUAS ESPÉCIES DE ÁCAROS
PREDADORES (ACARI: PHYTOSEIIDAE) EM CITROS1
INTRODUÇÃO
Os ácaros predadores pertencentes à família Phytoseiidae são os mais
importantes e mais estudados (McMurtry et al., 1970; Moraes, 1991). Segundo
Moraes (1992), até 1986, essa família apresentava cerca de 1500 espécies
descritas mundialmente, das quais mais de 50 já tinham sido assinaladas no
Brasil.
Iphiseiodes zuluagai Denmark & Muma e Euseius alatus DeLeon (Acari:
Phytoseiidae) são predadores encontrados na cultura de citros (Citrusspp.)
(Delalibera Jr. et al., 1989; Reis et al., 2000a), associados ao ácaro-da-
leprose Brevipalpus phoenicis(Geijskes) (Acari: Tenuipalpidae) (Gravena, 1993;
Sato et al., 1994). Ambas as espécies de ácaros predadores, principalmente no
estádio de fêmea adulta, são consideradas eficientes predadoras de todas as
fases do desenvolvimento do ácaro fitófago B. phoenicis (Reis et al., 2000b).
Para pleno sucesso do manejo integrado de ácaros, com o uso de produtos
fitossanitários como uma tática, é necessário que os produtos empregados no
controle de pragas não afetem os inimigos naturais.
Os objetivos desta pesquisa foram conhecer os efeitos residual de contato,
ovicida e de persistência do chlorfenapyr do grupo dos pyrrole e fenbutatin-
oxide do grupo dos organoestânicos sobre os ácaros predadores I. zuluagai e E.
alatus.
MATERIAL E MÉTODOS
Avaliou-se o efeito dos produtoschlorfenapyr (Citrex 240 SC) nas dosagens de
31,3 e 62,5 ml /100 litros de água e fenbutatin-oxide (Torque 500 SC) na
dosagem de 80 ml /100 litros de água, sobre os ácaros predadores I. zuluagai e
E. alatus, por serem as recomendadas pelos fabricantes para uso no controle de
ácaros-praga dos citros em condições de campo. O produto fenbutatin-oxide,
neste experimento, foi usado como padrão de seletividade fisiológica, por
apresentar esta característica (Reis et al., 1998; Reis et al., 1999).
1 - Efeito Residual de Contato.Utilizou-se o método residual da pulverização em
superfície de vidro, recomendado como padrão para testes em laboratório, de
efeitos adversos de produtos fitossanitários a ácaros predadores, pelo Grupo de
Trabalho "Pesticidas e Artrópodes Benéficos" da IOBC /WPRS
(International Organization for Biological and Integrated Control of Noxious
Animals and Plants /West Paleartic Regional Section") (Hassan et al.,
1994).
Lamínulas de vidro de 20x20 mm, flutuando em água, numa placa de Petri de 5 cm
de diâmetro x 2 cm de profundidade, sem tampa, foram usadas como superfície
para aplicação dos produtos, e suporte para os ácaros (Reis et al., 1998).
O trabalho foi realizado em experimentos de quatro tratamentos e seis
repetições, para cada espécie de ácaro predador (Tabela_1).
1.1 - Aplicação dos Produtos.Foi feita em torre de Potter a uma pressão de 15
lb /pol2, e a mesa a uma distância de 1,7 cm do tubo de pulverização, e cada
lamínula recebeu um depósito fresco de calda da ordem de 2,12 ± 0,09 mg /cm2,
de acordo com o proposto pela IOBC /WPRS (Hassan et al., 1994).
1.2 - Origem dos Ácaros.Os ácaros utilizados nos testes foram oriundos de
criação de manutenção em laboratório (Reis & Alves, 1997ab), iniciada com
ácaros provenientes de laranjeira-'Valência' (Citrus sinensis Osbeck), com 12
anos de idade, de pomar nunca pulverizado com produtos fitossanitários, o que
pode ser uma garantia de que o trabalho foi feito com uma população que não
apresentava resistência adquirida, por não ter sofrido pressão de seleção, e
que apenas apresentava seletividade fisiológica, ou seja, capacidade inerente
em resistir ao efeito do agroquímico. A criação em laboratório também permitiu
a utilização de fêmeas de idade uniforme.
1.3 - Critérios Utilizados na Avaliação do Efeito Residual de Contato.O efeito
adverso ou total (E%) foi calculado levando em conta a mortalidade no
tratamento (corrigida em função da mortalidade na testemunha) e o efeito na
reprodução (Overmeer & van Zon, 1982) sendo E% = 100% - (100% - Mc) x Er,
onde Mc = mortalidade corrigida (Abbott, 1925) e Er = efeito na reprodução.
O efeito na reprodução (Er) foi obtido pela divisão da produção média de ovos
viáveis nos tratamentos pela produção média de ovos viáveis na testemunha (Er =
Rtratamento /Rtestemunha). A produção média de ovos (R) foi obtida através da
relação: R = número de ovos viáveis /número de fêmeas vivas.
Durante oito dias, foram diariamente contadas as fêmeas vivas, e retiradas as
mortas, bem como o número de ovos viáveis postos (que deram origem a larvas).
Foram considerados como válidos somente os testes em que a mortalidade na
testemunha foi menor do que 20% (Bakker et al., 1992).
Os efeitos totais, encontrados para cada produto e dosagem, foram classificados
nas classes 1 a 4 conforme critérios estabelecidos pela IOBC /WPRS para
enquadrar produtos fitossanitários quanto ao efeito adverso causado a
organismos benéficos em testes de laboratório (Bakker et al., 1992; Hassan et
al., 1994) sendo: classe 1 = E < 30% (inócuo ou não nocivo); classe 2 = 30% < E
< 79% (levemente nocivo); classe 3 = 80% < E < 99% (moderadamente nocivo) e
classe 4 = E > 99% (nocivo).
2 - Efeito Ovicida.O efeito do chlorfenapyr e fenbutatin-oxide sobre a eclosão
de larvas de I. zuluagai e E. alatus foi obtido pulverizando ovos postos pelos
ácaros em lamínulas de vidro. Para cada tratamento, foram realizadas seis
repetições, sendo cada repetição uma lamínula de vidro de 20x20 mm, flutuando
em água numa placa de Petri de 5 cm de diâmetro x 2 cm de profundidade, onde 15
fêmeas /lamínula colocaram ovos durante dois dias. Nos testes, foram
considerados todos os ovos postos pelas fêmeas durante os dois dias de postura
(Tabelas_2 e 3).
2.1 - Aplicação dos Produtos.As lamínulas contendo os ovos, foram pulverizadas
em torre de Potter de acordo com o preconizado no item 1.1.
2.2 - Critérios Utilizados na Avaliação do Efeito Ovicida.Após a pulverização,
as lamínulas voltavam a ser colocadas flutuando em água nas placas de Petri, e
diariamente, durante oito dias, foi observada a eclosão de larvas e sua
sobrevivência, considerando-se a eclosão de larva como ausência de efeito
ovicida dos produtos.
3 - Persistência dos Produtos sobre as Folhas. Neste ensaio, foi avaliado o
efeito total (E%) dos resíduos dos produtos nas folhas, sobre os ácaros
predadores, até os 30 dias após o tratamento (DAT), testados aos 0; 5; 15 e 30
DAT.
3.1 - Aplicação dos Produtos.A pulverização da calda acaricida foi feita sobre
plantas no campo, com pulverizador manual de pressão constante, até o ponto de
escorrimento, em 24-04-1997.
3.2 - Critérios Utilizados na Avaliação da Persistência.Logo após a aplicação
dos produtos e aos 5; 15 e 30 DAT, foram coletadas folhas, ao acaso, nas
plantas onde foram aplicados os produtos e levadas ao laboratório onde foram
retirados discos de ± 3 cm de diâmetro. Os discos, em número de seis por
tratamento, foram postos a flutuar em água, individualizados em placas de Petri
de 5 cm de diâmetro por 2 cm de profundidade. Cada disco recebeu cinco fêmeas
acasaladas originadas da criação de manutenção, que foram observadas durante
oito dias, com a mesma metodologia descrita para o efeito residual de contato.
Foram realizadas avaliações da persistência, para os produtos em teste, aos 0;
5; 15 e, no máximo, aos 30 DAT com a mesma metodologia descrita no item 1.3, ou
seja, até que fosse constatada a classe 1 (inócuo) dentro do período dos 30
dias, o que significou ausência de efeito de contato residual.
Os produtos que apresentaram classe 1 entre 0 e 5 DAT foram considerados de
baixa persistência ou de vida curta; os que apresentaram classe 1 entre 5 e 15
DAT foram considerados levemente persistentes; os que apresentaram classe 1
entre 16 e 30 DAT foram considerados moderadamente persistentes e com mais de
30 DAT como persistentes (Hassan et al., 1994).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
1 - Efeito Residual de Contato.Os resultados obtidos mostraram que o
chlorfenapyr, nas dosagens de 31,3 e 62,5 ml /100 litros de água, foi nocivo
tanto ao I. zuluagai como ao E. alatus (classe 4), Fenbutatin-oxide foi
levemente nocivo a E. alatus (classe 2) e inócuo a I. zuluagai (classe 1 )
(Tabela_1). Esses resultados, para a dosagem de 62,5 ml do chlorfenapyr e para
o padrão de seletividade fenbutatin-oxide, são semelhantes àqueles obtidos por
Reis et al. (1998) com I. zuluagai e Reis et al. (1999) com E. alatuscom esses
mesmos produtos em citros e metodologia da IOBC. Ainda, o fenbutatin-oxide
apresentou menor efeito na reprodução de I. zuluagai (Er = 0,89) do que na deE.
alatus (Er = 0,36) (Tabela_1).
Com base nos resultados, concluiu-se que o fenbutatin-oxide pode ser
considerado seletivo aos predadores estudados, embora E. alatus tenha sido mais
sensível ao produto do que I. zuluagai. O chlorfenapyr não apresentou
seletividade fisiológica às espécies de ácaros estudadas, mesmo na menor
dosagem (31,3 ml) utilizada nos testes.
2 - Efeito Ovicida. Não houve efeito ovicida dos produtos a I. zuluagai,
entretanto ocorreu alta mortalidade de larvas eclodidas e/ou ninfas nos
tratamentos chlorfenapyr 31,3 ml e 62,5 ml. Fenbutatin-oxide, além de não ter
apresentado efeito ovicida, causou baixa mortalidade de larvas dessa espécie de
ácaro predador (Tabela_2). Os produtos testados também não tiveram efeito
ovicida sobre E. alatus, entretanto ocorreu alta mortalidade de larvas e/ou
ninfas em todos os tratamentos (Tabela_3).
Os resultados mostraram maior suscetibilidade do E. alatus, no estádio de larva
e/ou ninfa, aos produtos do que oI. zuluagai, confirmando resultados obtidos no
experimento do efeito de contato residual, pois, neste caso, o efeito do
produto foi também do resíduo do mesmo na superfície de vidro.
3 - Persistência. No campo, o fenbutatin-oxide mostrou baixa persistência, ou
vida curta, para I. zuluagai e E. alatus, apresentando classe 1 (inócuo) para
I. zuluagai no mesmo dia da aplicação e classe 1 ao E. alatus antes dos 5 DAT,
ou seja, foi inócuo para fêmeas de ambas as espécies entre 0 e 5 dias da
aplicação (Tabela_4).
O chlorfenapyr, na dosagem de 31,3 ml, foi considerado de baixa persistência,
para ambas as espécies, pois apresentou classe 1 entre 0 e 5 DAT, embora no dia
da aplicação tenha apresentado classe 4 e, na dosagem de 62,5 ml, mostrou-se
moderadamente persistente para I. zuluagai e E. alatus, apresentando classe 1
entre 15 e 30 DAT (Tabela_4). Nenhum produto se apresentou como persistente
(efeito além dos 30 DAT) às duas espécies de ácaros predadores estudadas,
porém, assim como nos testes anteriormente relatados, de contato residual e
ovicida, E. alatus mostrou-se mais sensível aos produtos pesquisados que I.
zuluagai.
A baixa a moderada persistência apresentada pelo chlorfenapyr, dependendo da
dosagem, sobre os ácaros predadores, é uma característica desejável em um
produto para uso em manejo integrado de pragas. Apesar de não ter apresentado
seletividade fisiológica nos testes de laboratório, o chlorfenapyr poderá
apresentar outros tipos de seletividade em condições de campo, os quais não
foram objetos deste trabalho.
CONCLUSÕES
1. Os acaricidas fenbutatin-oxide e chlorfenapyr não apresentam efeito ovicida
aos ácaros predadores I. zuluagai e E. alatus.
2. Fenbutatin-oxide apresenta-se como inócuo e de baixa persistência sobre I.
zuluagai e levemente nocivo e de baixa persistência ao E. alatus.
3. Chlorfenapyr não é seletivo para os ácaros predadores I. zuluagai e E.
alatus, porém apresenta baixa a moderada persistência, dependendo da dosagem.