CIANAMIDA HIDROGENADA, THIDIAZURON E ÓLEO MINERAL NA QUEBRA DA DORMÊNCIA E NA
PRODUÇÃO DO PESSEGUEIRO cv. CHIRIPÁ
CIANAMIDA HIDROGENADA, THIDIAZURON E ÓLEO MINERAL NA QUEBRA DA DORMÊNCIA E NA
PRODUÇÃO DO PESSEGUEIRO cv. CHIRIPÁ1
INTRODUÇÃO
O Rio Grande do Sul é o maior produtor nacional de pêssegos com 45,22% da
produção (Mondin, 1999). Dentre as cultivares de maior exigência de frio,
destaca-se a Chiripá, como a mais importante na serra gaúcha, tendo sido criada
pela EMBRAPA de Pelotas em 1975. É uma planta com exigência de frio entre 400 e
500 horas, vigor mediano e frutos destinados ao consumo in natura, de forma
redondo-ovalada, com sutura desenvolvida e pequena ponta, de tamanho médio a
grande, película creme, com 30% de vermelho, polpa branca, firme, vermelha
junto ao caroço e livre deste, sabor doce e baixa acidez. A maturação ocorre na
primeira semana de janeiro e a colheita, no início da segunda semana do mesmo
mês. É uma cultivar muito suscetível à podridão-parda - Monilinia fruticola
(Wint) Honey, (Medeiros et al., 1998).
A quebra de dormência das plantas caducifólias envolve fatores internos, como
balanço dos promotores e inibidores de crescimento, e fatores externos, como
temperatura, fotoperíodo e radiação solar, entre outros. Dos fatores externos,
o que mais se destaca é a temperatura no inverno, sendo que, quando as plantas
são cultivadas em regiões com insuficiências de frio hibernal, apresentam
sintomas de falta de adaptação, como atraso e maior duração do período de
floração e abertura de menor número de gemas floríferas e vegetativas,
resultando em redução na produção, com frutos desuniformes e de baixa qualidade
(Marodin et al., 1992).
Para completar sua formação, as gemas floríferas e vegetativas do pessegueiro
devem atravessar um período de repouso, cuja medida está relacionada com
temperaturas abaixo de 7,2ºC. Constatou-se, porém, que temperaturas acima de
7,2ºC também têm influência, principalmente em cultivares de menor exigência. A
necessidade, para pessegueiro, foi satisfeita com temperaturas médias de 9,7ºC
(Marodin et al., 1991).
Em muitos anos, não ocorre a superação, efetivamente, da dormência das plantas
pela insuficiente acumulação de frio. Nestes casos, a utilização de produtos
químicos é prática comum na viabilização dos cultivos de frutíferas de clima
temperado. Associações de óleo mineral e sais de dinitro foram as combinações
mais utilizadas na quebra da dormência das frutíferas temperadas no Brasil
(Petri, 1986). Porém, o uso dos sais de dinitro foi proibido, fazendo com que a
melhor opção para a quebra de dormência passasse a ser a utilização de
Cianamida Hidrogenada (C.H.), Óleo Mineral (O.M.) e nitrato de potássio (Araújo
et al., 1991). A utilização de Thidiazuron (TDZ) em macieira (Fortes &
Araújo, 1991) e C.H. e O.M. em pessegueiro da cultivar Chiripá (Marodin et al.,
1989), apresentaram resultados promissores na quebra da dormência.
Uma série de fatores, como concentração dos produtos, épocas de aplicação,
estádio das gemas, volume da solução aplicado por planta, somatório das horas
de frio acumuladas pela planta e do ingrediente ativo, levam à quebra de
dormência, sendo necessários trabalhos para identificar tais fatores para cada
local e cultivar (Francisconiet al., 1992). O objetivo principal deste trabalho
foi avaliar o efeito de produtos químicos na quebra da dormência, na produção e
na antecipação da colheita da cultivar Chiripá.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido no ano de 1999, em pomar de pessegueiro da cultivar
Chiripá, com 8 anos de idade, localizado no Setor de Horticultura e
Silvicultura da Estação Experimental Agronômica da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (EEA/UFRGS), situada no município de Eldorado do Sul, Estado do
Rio Grande do Sul, latitude 30º05'52" S, Longitude 51º39'08" W e
altitude de 46 metros.
Na Tabela_3, estão registrados os dados meteorológicos na EEA/UFRGS, situada no
município de Eldorado do Sul, de janeiro a dezembro de 1999. A partir de dados
coletados em termoigrógrafo, verificou-se que o número de horas de frio iguais
ou inferiores a 10ºC em maio, junho, julho, agosto e setembro foi de 56; 87;
98; 83 e 38, respectivamente, totalizando 362 horas.
O delineamento experimental utilizado foi o de blocos ao acaso, com 4
repetições, uma planta por parcela e 8 tratamentos. Todos os tratos culturais
necessários foram realizados segundo recomendações técnicas difundidas na
região, como a poda realizada em 4 de agosto de 1999. O tipo de poda usado foi
o de desponte e desbaste dos ramos do ano, onde os ramos mais vigorosos e
verticais foram retirados e, nos débeis e laterais, foi feita a eliminação dos
direcionados para o centro e dos excedentes de fora da planta, conservando-se
os laterais sem despontes. Foram amostrados quatro ramos periféricos por planta
nos quatro quadrantes da planta que não sofreram poda de desponte. Nestes
ramos, foram avaliados, através da contagem das gemas, as seguintes variáveis:
percentual de gemas vegetativas e floríferas brotadas, além das observações
fenológicas.
No dia 06 de agosto, com as gemas em estádio fenológico A, foram aplicados os
seguintes tratamentos:1) C.H. 0,5% + O.M. 1,0%; 2) C.H. 1,0% + O.M. 1,0%; 3)
C.H. 1,5% + O.M. 1,0%; 4) O.M. 1,0%; 5) O.M. 2,0%; 6) TDZ 200 ppm + O.M. 2,0%;
7) TDZ 400 ppm + O.M. 2,0%; 8) Testemunha.
Como fontes de ingrediente ativo, foram utilizados os produtos comerciais
"Dormex" (49% de C.H.), óleo mineral "Assist" (756 gramas
por litro de óleo emulsionável) e "Dropp" (50% de TDZ). A aplicação
foi feita com pulverizador costal manual, com gasto médio de 2,5 litros de
calda por planta (10 litros em 4 repetições). O dia da aplicação (06 de agosto)
estava com neblina e sem vento, com temperatura média do ar de 20ºC e 90% de
umidade relativa do ar às 9 horas da manhã.
Foram obtidos dados em duas colheitas (03 e 07 de janeiro de 2000), onde se
avaliaram os parâmetros de percentual de colheita em cada data (transformação:
arco-seno Öx), produção em peso, número de frutos e peso médio dos frutos
através de análise de variância a 5% de probabilidade e, em caso de
significância, procederam-se as comparações entre médias pelo teste de Duncan,
ao mesmo nível de probabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A percentagem de gemas vegetativas brotadas após 12 dias da aplicação foi baixa
em todos os tratamentos, não havendo diferenças significativas em relação à
testemunha (Tabela_1), o que evidenciou que os tratamentos não tiveram a ação
esperada no período. Isto se deve, provavelmente, à pequena acumulação de horas
de frio do período, que não supriram as necessidades para a superação da
dormência das gemas vegetativas. Houve uma tendência de o tratamento C.H. 1,5%
+ O.M. 1,0% apresentar maior percentual de gemas brotadas, fato que se refletiu
no maior número de frutos e maior produção por planta (Tabela_2).
Verificou-se, também, que os tratamentos não anteciparam a colheita em relação
à testemunha (Tabela_1), em desacordo com o trabalho de Marodin et al. (1991),
no qual houve antecipação de uma semana na colheita, quando as plantas de
pessegueiro "Premier" foram tratadas com doses de C.H. de 0,5%,
associado ou não a O.M., e de Fortes & Araújo (1991), em que o tratamento
com TDZ em doses de 20 a 320 ppm, associado a O.M., antecipou a brotação,
floração e colheita de maçã cv. Golden Delicius. Isto se deve, provavelmente,
ao fato de que, no ano de 1999, as exigências de horas de frio não foram
compensadas pelos produtos, o que levou à não-superação natural da dormência
das gemas. Além disto, os meses de agosto e setembro tiveram temperaturas
bastante baixas (Tabela_3), quando eram necessárias temperaturas mais elevadas
para que houvesse uma brotação mais uniforme das gemas.
Para os dados de produção (Tabela_2), constatou-se que o melhor tratamento foi
C.H. 1,5% + O.M. 1,0%, com rendimento comparável à melhor média de produção da
região, mas sem diferir do O.M. 2% em número e peso de frutos e TDZ 400ppm +
O.M. 2% em peso de fruto por planta. A causa provável foi a maior capacidade de
produção de fotoassimilados, devido ao melhor enfolhamento que este tratamento
proporcionou, e ao maior número de frutos por planta, devido a uma provável
menor queda natural dos frutinhos, em conformidade com os resultados obtidos
por Marodin et al.(1989) com a mesma cultivar que, utilizando C.H. acima de
0,5%, associado ou não a O.M., obteve menor queda natural dos frutos, mas que
não foi medido neste trabalho. Com relação ao peso médio dos frutos, verificou-
se que não houve diferença significativa entre os tratamentos e a testemunha,
mostrando que a baixa quantidade de frutos de alguns tratamentos não resultou
em frutos de maior tamanho, provavelmente, pelo baixo enfolhamento e menor
produção de fotoassimilados. Os tratamentos com O.M. 2,0% e TDZ 400 ppm com
O.M. 2,0% não diferiram estatisticamente do melhor tratamento.
Se o somatório de horas de frio fosse efetivo para a superação da dormência e
houvesse temperaturas mais elevadas nos meses de brotação, provavelmente, o uso
dos tratamentos químicos traria um efeito de antecipação de colheita, como
ocorreu no trabalho conduzido com a cultivar Premier por Marodin et al. (1991),
que obtiveram antecipação de uma semana em relação à testemunha, nos
tratamentos com C.H. 0,5%.
CONCLUSÕES
1- Os tratamentos não anteciparam a brotação das gemas vegetativas, em
comparação com a testemunha.
2- O melhor tratamento: C.H. 1,5% com O.M. 1,0% proporcionou produção
suficiente para viabilizar o cultivo do "Chiripá" em condições de
inverno ameno, mas não diferiu estatisticamente de O.M. 2% E TDZ com O.M. 2%.
3- Não houve efeito de antecipação de colheita por parte dos tratamentos em
relação à testemunha.