A Venezuela numa encruzilhada a nova bipolarização no contexto pós-Chávez: the
new post-Chavez bipolarization
No início de 2014 teve início uma série de manifestações na Venezuela
organizadas pela oposição, para demonstrar a indignação sobre o fracasso das
políticas chavistas. Apoiados pela oposição, estes grupos pediam a demissão de
Nicolás Maduro, Presidente recém-eleito depois da morte de Chávez em março de
2013. Entre outras reivindicações, argumentavam que o Governo não tinha sido
capaz de combater a alta taxa de criminalidade, a inflação galopante e a
escassez de produtos.
No entanto, estes novos movimentos de rua são consequência do estabelecimento
de uma bipolarização política entre as forças governamentais e a oposição
organizada na Mesa de la Unidad Democrática (MUD). Esta bipolarização é
ideológica e discursiva, em torno da consolidação democrática e das clivagens
socioeconómicas. Por um lado, a oposição tem uma concepção democrático-liberal
que não se coaduna com o projeto de democracia radical da revolução
bolivariana; por outro, os focos macroeconómicos da oposição têm sido o
controlo inflacionário, a política monetária e a política de privatizações,
contrariando a política chavista de nacionalizações e de afastamento do
investimento privado estrangeiro.
Neste cenário, o nosso objetivo será o de caracterizar a bipolarização presente
no sistema político venezuelano, à luz do novo Governo de Maduro e dos recentes
confrontos entre a oposição e o Governo, sem esquecer os efeitos do chavismo no
sistema político.
RUTURA E CONTINUIDADE
A vitória de Hugo Chávez nas presidenciais de 1998 marca o início de uma nova
era política na América Latina. O falhanço da implementação do modelo de
desenvolvimento proposto pelo "Consenso de Washington", levaria a
que nos finais da década de 1990 a esquerda latino-americana se aliasse aos
movimentos sociais que emergiram em setores desfavorecidos da sociedade. Os
líderes desta nova esquerda participaram nestes movimentos sociais contra
décadas de ditaduras militares que assolaram a vida política da região. No
entanto, a atuação dos. seus governos não corresponde a um movimento homogéneo,
antes seguindo fatores nacionais e contextuais1.
Durante quatro décadas, a Venezuela foi a democracia mais bem consolidada da
América Latina com um sistema partidário baseado no rotativismo entre a social-
democrata Acción Democrática (AD) e o cristão-democrata Comité de Organización
Política Electoral Independiente (COPEI)2. Ambos os partidos tinham uma
estratégia de massas e um discurso bipolar entre o centro-esquerda e o centro-
direita. Sem capacidade eleitoral, a esquerda venezuelana nunca apresentou uma
alternativa governativa à hegemonia da AD e do COPEI.
Depois do acordo do punto fijo, assinado em 1958, e a fragmentação do Partido
Comunista de Venezuela (PCV) em 1968, a esquerda concentrar-se-ia em torno do
Movimiento al Socialismo (MAS), resultante das dissidências do PCV, enquanto
esquerdistas da AD estabeleceriam o Movimiento Electoral del Pueblo3. Ambos
iriam apoiar Chávez na sua primeira campanha presidencial. Enquanto o mas se
consolidava como a terceira força do sistema partidário, formava-se La Causa
Radical (La Causa R) entre o sindicato da indústria do aço da região de Bolívar
e o bairro Catia de Caracas4. Durante a década de 1980, La Causa R fomentou o
radicalismo entre as classes operárias e fortaleceu o novo sindicalismo com
contornos de politização e de independência face ao Estado5.
No entanto, entre as décadas de 1980 e 1990 a gradual ascensão da esquerda
venezuelana ganha novo ímpeto com uma série de factos políticos que põem em
causa o contrato político do punto fijo.A corrupção endémica e o péssimo
desempenho económico deram força à oposição, entre massas populares,
intelectuais e movimentos sociais organizados. Enquanto os membros de La Causa
R e do mas garantem vitórias eleitorais em estados importantes, a organização
de motins e manifestações intensifica-se com o caracazoem 1989 contra as
privatizações e o aumento dos preços. Também os três golpes de Estado em 1992,
um deles orquestrado pelo então tenente-coronel Hugo Chávez, demonstram de que
forma alguns setores militares estavam sensíveis à promiscuidade e imoralidade
do poder político. As forças armadas na América Latina têm uma longa tradição
de bonapartismo e intervenção política característica que levou à
institucionalização de ditaduras militares ao longo da Guerra Fria também
motivadas pela defesa de interesses de determinadas elites políticas e
económicas6.
O período entre 1992 e a campanha presidencial de 1997 é caracterizado por uma
fragmentação entre as múltiplas forças oposicionistas e o Governo, levando ao
impeachmentdo Presidente Pérez em 1993 pela má gestão de fundos públicos7. No
entanto, o ex-membro do COPEI Rafael Caldera seria eleito presidente na
plataforma da Convergencia Nacional, onde se incluíam entre outros o mas e o
PCV. Enquanto Andrés Velásquez da Causa R não conseguiu ultrapassar os
candidatos da AD e do COPEI, a vitória de Caldera demonstrou que o eleitorado
venezuelano estava disposto a apoiar uma força emergente fora do punto fijo.
Além disso, é também visível uma enorme fragmentação do voto, demonstrando que
nenhum candidato mobilizara um consenso político alargado.
Apesar de o novo Presidente já ter sido eleito em pleno rotativismo (1969-
1974), representava uma nova era na vida política venezuelana depois de quase
quatro décadas. Cumprindo uma promessa eleitoral, Caldera liberta os
organizadores do golpe de Estado de 1992. Entretanto, Chávez, que tinha ganho
uma notoriedade mediática e carismática, junta-se ao Movimiento Bolivariano
Revolucionario-200 (mbr-200) formado em 1983 e pleno seguidor da doutrina
política de Símon Bolívar. Chávez e o mbr-200 serão os grandes mentores da
campanha por ahora por ninguno, que apelou à abstenção contra os partidos nas
eleições municipais de 1995. A vitória de Caldera a partir de um movimento
amplo mas institucionalmente pouco consolidado, e os anos de falhanço
económico, dariam um novo alento às forças oposicionistas em torno da liderança
de Chávez. Ao mesmo tempo, o Presidente torna-se alvo de duras críticas após a
implementação da Agenda Venezuela para a reestruturação económica e financeira
do Estado e a privatização do setor petrolífero, alinhadas com o fmi. Neste
contexto, consolida-se um discurso antipartidário que é bastante favorável à
ascensão de líderes carismáticos, sem carreira político-partidária e
concorrentes em movimentos eleitorais amplos e ideologicamente heterodoxos.
Em 1997, e após cisões no mbr-200 e na Causa R8, Chávez formaliza o Movimiento
V República (MVR) e concorre às eleições presidenciais. Durante o processo, o
mas e o Patria para Todos (PPT) juntam-se a Chávez no Polo Patriótico, enquanto
a AD e o COPEI, avizinhando a derrota eleitoral, fragmentam-se em disputas
internas9. Estava desenhado o caminho para o fim do sistema do punto fijo.
A ASCENSÃO DO CHAVISMO
A vitória de Chávez nas presidenciais de 1998 marca o início de uma nova vaga
de governos de esquerda na América Latina. No entanto, as eleições legislativas
no mesmo ano continuam a dar a vitória para a AD e para o COPEI, elegendo 90
deputados contra 66 do Polo Patriótico. É neste contexto que o Governo convoca
a discussão para uma nova Constituição, tendo em vista, por um lado, o controlo
legislativo e, por outro, a continuada estratégia de aglomeração das esquerdas.
A nova Constituição seria aprovada em 1999.
A consolidação da nova Constituição e a congregação de movimentos sociais em
torno do chavismo permitiu ao Governo iniciar as primeiras reformas económicas,
sociais e políticas através de uma estratégia apelidada de "socialismo do
século XXI". Na definição e consolidação da agenda da nova esquerda
latino-americana, o Governo demarcou-se não só do marxismo-leninismo, como da
velha esquerda derrotada no passado pelas dinâmicas internas e
internacionais10. A nacionalização do setor petrolífero, as reformas operadas
no setor agrário ou o apoio a associações de bairro, ganham adeptos entre a
esquerda, enquanto a oposição congrega apoios entre a classe média e alta,
agricultores e empresários. Aliás, o debate para a formação de uma nova
esquerda na América Latina tinha sido alavancado pela reunião de Buenos Aires
em 199711. Neste contexto, o chavismo emerge como um movimento social,
priorizando os grupos mais desfavorecidos. Já não interessava apenas a
alteração das estruturas económicas, mas também o engajamento e a autonomia
política dos grupos desfavorecidos no fomento de movimentos sociais12.
Hugo Chávez encaixa na tipificação da liderança carismática através da
utilização de elementos histórico-contextuais baseados no processo político
venezuelano quando ultrapassa a fragmentação derivada do puntofijismo, e no
processo histórico latino-americano quando defende uma agenda antidependência
de integração regional13. Para Chávez, deveria consolidar-se na Venezuela um
sistema que Steve Ellner cunhou de "democracia socialmente
baseada", ou seja, uma estratégia de democracia radical que
"promove a incorporação" de todos os grupos, permitindo a
legitimação do Governo14. O mesmo autor argumenta ainda que esta estratégia
acabou por ser uma resposta aos "falhanços da democracia liberal na
Venezuela e do bloco socialista no leste europeu"15. Contra estes dois
modelos, Chávez aposta num modelo de "socialismo humanista",
ambicionando encontrar um caminho entre o capitalismo e o socialismo, sem
descurar a crítica à globalização, enquanto põe em causa o papel do
proletariado no processo revolucionário16. Será, no entender de alguns autores,
uma perspetiva radical face à moderação de outros líderes latino-americanos que
procuram harmonizar o investimento privado com a intervenção estatal17. Ao
mesmo tempo, Carlos Romero considera que a revolução bolivariana se baseia no
legado histórico da revolução cubana quando pretende estabelecer um Estado
socialista que desafia o statu quoregional e internacional. No entanto, fica
difícil caracterizar a revolução chavista segundo os moldes das revoluções
latino-americanas se tivermos em conta que não existe uma monopolização
partidária, nem uma monopolização ideológica das Forças Armadas, que subsiste
um regime eleitoral e que ainda existe a presença do setor privado e da classe
média com ligações ao Ocidente18.
Em 2000, Chávez consolidaria o seu peso eleitoral ao ganhar as eleições
presidenciais com uma maioria expressiva, enquanto o MVR torna-se a organização
com mais deputados na Asemblea Nacional. Até 2002, a oposição multiplicou-se
com a formação da Coordinadora Democrática (CD) numa aliança entre Causa R, AD,
COPEI, Bandera Roja, mas e Primero Justicia. Através da CD seria organizada uma
greve massiva que iniciou o golpe de Estado de 2002, juntamente com o apoio de
algumas fações das Forças Armadas. Sendo apenas destituído por algumas horas do
poder, Chávez regressa ao Palácio de Miraflores com uma nova legitimidade
política.
Tal como considera Friedrich Welsch, os eventos de 2002 refletem, primeiro, que
"os militares são o árbitro absoluto no destino dos governos",
segundo, que "a sociedade continua abissalmente dividida",
terceiro, que "o povo continua a ter um papel reduzido mesmo no palco da
democracia participativa da República Bolivariana", e quarto, que o
"povo é um termo que exclui e divide, ao invés de incluir e unir, de
acordo com a posição que cada um ocupa"19. A polarização da sociedade
venezuelana é reforçada com o golpe de 2002 quando o chavismo e as forças
governamentais ganham legitimidade para reforçar o processo revolucionário
bolivariano e romper com as tendências conciliatórias visíveis na política
macroeconómica20.
Ao mesmo tempo, desde a vitória de Caldera que a fragmentação do sistema
partidário determinou tanto a busca de movimentos nacionais agregadores como a
fraca institucionalização dos partidos, o que criou as condições para o
aparecimento de um presidente centralizador21. A nova bipolarização sistémica
passou a ter uma importância fulcral no discurso e atuação políticas. Baseado
numa cultura classista assente em interesses e objetivos distintos, esta
bipolarização acabou por ditar a consolidação de dois blocos políticos.
A NOVA BIPOLARIZAÇÃO
Em 2007 é fundado o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV). Este nasce no
rescaldo das eleições presidenciais e legislativas, juntando o MVR com outras
organizações como o Movimiento Electoral del Pueblo (mep) ou o Movimiento
Revolucionario Tupamaro. Paralelamente, partidos com alguma expressão eleitoral
como o PCV, o PPT ou o podemos não deixaram de apoiar Chávez nas presidenciais
de 2006 e 2012. Estes apoios demonstraram que a estratégia da nova esquerda
representada pelo antigo MVR deu resultados. Estes materializam-se primeiro na
criação do PSUV, resultante de uma conglomeração de pequenos partidos e
movimentos em torno do chavismo e do Governo, e, segundo, na abordagem de
partidos como o PCV face ao novo centro gravitacional.
No entanto, tanto o MVR como o novo PSUV não lograram institucionalizar-se
devido à génese do novo sistema político. O novo contexto rompeu com a regra da
maioria e da busca de consenso partidário, e decretou o fim da concertação
social feita pelas comissões tripartidas22. Ao mesmo tempo, a centralidade do
Executivo e do Presidente, aliada à bipolarização política, minou a
consolidação institucional23. Este tipo de falhanço institucional tinha já
ocorrido com La Causa R, que com a sua abordagem antipartidária acabou por
perder terreno eleitoral24. Este cenário veio demonstrar que o sistema político
venezuelano tem desde a década de 1990 promovido a ascensão do presidencialismo
e a fragmentação político-partidária.
Ao mesmo tempo, a oposição firma o acordo de unidade nacional a 28 de janeiro
de 2008. Este acordo teve origem nas presidenciais de 2006, quando a maioria da
oposição apoiou Manuel Rosales. A sua génese remonta ainda à organização do
golpe de 2002 e à oposição da Confederación de Trabajadores de Venezuela e da
Federación de Cámaras de Industria y Comercio, que perderam a sua influência no
Estado com a ascensão do chavismo25. Também a campanha do "não"
feita pela oposição no referendo constitucional de 2007 deu um enorme incentivo
para a assinatura do acordo entre a AD, o COPEI, La Causa R, o mas, Primero
Justicia, Proyecto Venezuela, entre outros. Este iria ser o primeiro passo na
institucionalização da MUD, materializando-se na concertação parlamentar e no
candidato presidencial.
A bipolarização formada após as eleições legislativas e presidenciais de 2005 e
2006 não corresponde a uma dicotomia esquerda-direita. Entre as organizações
partidárias que formam a MUD encontram-se diferentes espectros ideológicos,
desde social-democratas, socialistas, liberais ou conservadores. O seu objetivo
é o de encontrar um consenso, impedindo a monopolização provocada pelo chavismo
no sistema político venezuelano. Internacionalmente, a oposição chavista possui
uma legitimidade moral que é garantida pela importância geoestratégica da
Venezuela para os eua, tornando-se para democratas e republicanos um eixo de
entendimento em política externa26. A política externa venezuelana e a sua
inserção económica internacional baseada no setor petrolífero, tem também
utilizado o seu discurso ideológico doméstico para promover a sua práxis
revolucionária27. No entanto, a consolidação do voto para as legislativas em
torno de Chávez e do Polo Patriótico não encontrou factos políticos que
dividissem o eleitorado. Tanto a tentativa de golpe de 2002 como a vitória do
"não" no referendo constitucional de 2007, não foram suficientes
para enfraquecer o eleitorado chavista.
A oposição tem consolidado apoios em estados como Carabobo, Miranda ou Yaracuay
e ainda em bairros de Caracas como Chacao. Na tentativa de bloquear o monopólio
eleitoral do chavismo, a oposição boicotou as eleições legislativas de 2005,
levando o MVR a garantir uma maioria absoluta de 114 deputados. É também
durante este mandato legislativo que Chávez garante uma coligação eleitoral
para a sua reeleição em 2006, enquanto o Governo firma acordos parlamentares,
garantindo a prossecução das reformas. A redução da pobreza através de
políticas com carácter assistencialista e de apoio à inserção social e política
tem também garantido o sucesso dos governos28. A política social das
missionestem servido para alterar as relações socioeconómicas cristalizadas
desde a década de 1990, tendo um largo espectro de atuação e de
beneficiários29.
A corrida da coligação oposicionista através do MUD às eleições parlamentares
de 2010 confirma a nova bipolarização no sistema político venezuelano. O
discurso de legitimação democrática deste grupo passa pela articulação com a
comunidade internacional, primeiro com o boicote eleitoral, alegando que o
Consejo Nacional Electoral não garantia o voto secreto; segundo, ao estabelecer
uma agremiação democrato-liberal, por oposição ao discurso chavista30. Por seu
turno, Chávez e o PSUV repetiram as alegações de intromissão norte-americana no
processo político do país, incluindo de novo uma variável internacionalista nos
processos políticos latino-americanos. Neste sentido, tanto o golpe de 2002
como o referendo de 2007 irão reforçar a bipolarização radica-lismo-
capitalismo, com a consequente construção da alternativa bolivariana31.
Em 2012, e com a quarta vitória eleitoral de Hugo Chávez, consolidou-se a nova
dinâmica bipolar no sistema político venezuelano. Esta nova bipolarização tem
um carácter esquerdista, possui feição consensual mas polarizada, e encontra-se
histórica e politicamente enraizada. Neste cenário, o discurso político
demonstra uma bipolarização que corresponde a diferentes abordagens sobre a
democracia, política externa, a economia e a gestão dos recursos nacionais. Ao
mesmo tempo, assume um conflito entre diferentes culturas políticas com raízes
no tecido social.
Estas eleições presidenciais suscitaram um intenso debate sobre a suposta perda
de influência de Chávez e a notícia da sua enfermidade32. O seu opositor,
Henrique Capriles da MUD, apresentou um movimento alargado e multipolar,
consolidando a posição do movimento face ao eleitorado chavista. No entanto,
Capriles não foi tão longe na sua crítica ao modelo governativo de Chávez, tal
como os candidatos anteriores e boa parte dos movimentos e partidos da
oposição. A única divergência que se pode apontar entre as candidaturas
centrou-se no discurso sobre a condução macroeconómica, as privatizações e a
inserção internacionalista da economia tal como foram apresentadas no paquetazo
económicoda oposição. Considerando-se um candidato de centro-esquerda, Capriles
não deixou de referir que se ganhasse as eleições não iria descartar as
missiones, pois estas "pertencem ao povo"33. Estas considerações
estratégicas demonstram que a bipolarização não tem um carácter ideologicamente
profundo, correspondendo antes a um conflito entre elites e grupos políticos e
sociais que procuram alcançar o Estado. Neste sentido, parece que apenas um
facto político poderá alterar o esquema de forças entre os dois lados da
contenda. Terá sido a morte de Chávez em março de 2013 facto suficiente para
despoletar uma nova dinâmica no sistema político?
PÓS-CHÁVEZ OU PÓS-CHAVISMO?
A estratégia de sucesso dos governos de Chávez apoiou-se em dois fatores: por
um lado, numa concepção de procura de consensos e, por outro, na aplicação de
políticas públicas com alcance de curto e longo prazo. Ao contrário do que tem
sido veiculado, o chavismo procurou desde cedo um amplo consenso não só na
esquerda como entre o centro e alguns setores democrata-cristãos do punto fijo.
Não sendo um movimento ideologicamente enclausurado, acabou por aglutinar e
ocupar o lugar que pertencia simbolicamente ao bolivarianismo das décadas de
1980 e 1990, destronando o velho bipolarismo partidário34. Paralelamente, as
políticas sociais transformaram-se num fator relevante no sistema político.
Primeiro, por serem medidas de curto prazo com sucesso, tornaram-se elementos
consensuais no debate político.
Segundo, tendo um alcance de longo prazo, produziram alterações na dinâmica e
nas estruturas de competição do sistema partidário. Como referimos
anteriormente, o próprio candidato presidencial da MUD não se impôs contra o
sistema de políticas assistencialistas, reconhecendo-as como prioritárias.
Terceiro, a criação do PSUV e o estabelecimento de uma concertação
oposicionista atesta não só os incentivos criados pelo fenómeno chavista, como
também a consolidação de um discurso antipartidário e antissistémico, com as
suas raízes no falhanço do anterior sistema rotativo. Neste cenário, houve quem
retomasse a discussão sobre o populismo argumentando que Chávez estabeleceu uma
relação entre líder e massas populares que descarta o papel de intermediários e
de instituições políticas como os partidos ou o Parlamento35. Além do mais,
Chávez e o chavismo tiveram a capacidade de entender o contexto político
venezuelano da segunda metade da década de 1990, dando uma resposta ao vazio de
poder criado pela decadência do punto fijo. Este facto permitiu consolidar um
discurso ideologicamente contextualizado, bem como estabelecer parcerias com
movimentos sociais emergentes36. No entanto, a fraca institucionalização de
organizações intermédias, como era esperado pelos chavistas e a polarização
política, acabaram por ditar uma ainda maior concentração de poderes no
Presidente37.
Com a morte de Chávez em março de 2013, abriu-se um intenso debate acerca do
futuro da revolução bolivariana. Por parte do PSUV, a sucessão estaria
assegurada pelo Vice-Presidente Nicolás Maduro e seria logo de imediato
resolvida pela convocação de eleições presidenciais para 14 de abril. Os
resultados eleitorais nas presidenciais demonstraram uma aproximação entre os
dois blocos, com o Gran Polo Patriótico (gpp) a perder eleitorado face à MUD.
Esta aproximação poderá ser explicada pelo próprio candidato que, apesar de
estar intimamente ligado aos governos de Chávez e de ter utilizado a sua figura
durante a campanha, não é um líder carismático. Maduro é uma figura de proa do
chavismo, tendo sido sindicalista, ocupou o cargo de presidente da Asamblea
Nacional (2005-2006) e de ministro das Relações Exteriores (2006-2013). O novo
Presidente herda uma crise económica, facto que tem sido explorado pela
oposição. Mas herda também a composição do Parlamento eleito em 2010 e a
esmagadora maioria de 20 governadores eleitos pelo gpp num total de 23 estados
federais, reforçado ainda pela vitória nas eleições municipais de 2013, tendo o
gpp elegido 242 candidatos contra 75 da MUD. Neste cenário político, e em caso
de vitória, Capriles teria dificuldades em implementar políticas, tal como o
paquetazo económico.
O período político que se vive hoje na Venezuela, mantendo-se a nova
bipolarização, demonstra, paradoxalmente, de que forma a morte de um líder
carismático num clima anti-institucional e antipartidos38pode consolidar um
sistema político baseado na legitimidade das instituições democráticas. A
hegemonia eleitoral do PSUV demonstra que o período é caracteristicamente pós-
Chávez, tendo claras consequências na condução política em ambos os lados da
contenda. No entanto, os resultados eleitorais aproximados entre Maduro e
Capriles apresentam uma oportunidade para que a oposição organizada em torno da
MUD e a oposição fragmentada em movimentos e grupos, encetasse uma estratégia
de descredibilização dos oficialistas e da revolução bolivariana, explorando os
sintomas da crise económica e a agenda ideológica do Governo.
CONSEQUÊNCIAS DA NOVA BIPOLARIZAÇÃO
Tal como analisámos anteriormente, o chavismo apresentou uma oportunidade para
a oposição se organizar em torno de movimentos e partidos. No entanto, a
oposição tem demonstrado sinais de fragmentação no que concerne à estratégia e
à liderança. As manifestações iniciadas em 2014 e a consequente intervenção das
forças militares e milicianas, dividiram a oposição entre um discurso
institucionalista representado por Henrique Capriles e outro marcado pela
desobediência civil liderado por Leopoldo López.
O arranque das manifestações em universidades e nas ruas, num total de 19
municípios, apresenta uma forma original de protesto contra as políticas do
Governo e a revolução bolivariana. Contrariamente aos protestos do Caracazo de
1989, estas manifestações são constituídas por membros da oposição e população
descontente oriunda de classes socioeconomicamente favorecidas. Paralelamente,
observou-se a organização de guarimbasou bloqueios de estrada em bairros com
setores das classes média e alta em jurisdições oposicionistas, demonstrando o
peso do discurso político e social divisionista no reforço de um clima de
desordem.
Numa entrevista a Luís Britto Garcia, este considera que as classes baixas e
parte da classe média não se reveem no protesto pois pela primeira vez na
história da Venezuela, a população frequenta escolas e universidades, tem
acesso a cuidados de saúde e poder de compra. Acrescenta ainda que estas
manifestações nada têm de original nos seus objetivos e formas de atuação,
aproximando-se dos soft coupse utilizando símbolos das revoluções coloridas39.
É também esta a leitura que têm o Governo e os oficialistas que apontam para a
repetição do golpe de 2002 através de uma inserção internacionalista do
discurso e ação da oposição. Numa entrevista, o Presidente Maduro considera que
o Governo enfrenta uma "síntese de todos os modelos de golpe
contrarrevolucionário, utilizados contra o projeto bolivariano", e que
caso existisse real escassez de produtos ele e os seus ministros juntar-se-iam
aos protestos da população40. É por essa razão que nos barriosninguém se juntou
às manifestações e às guarimbas41.
Leopoldo López, considerado o líder destes protestos de rua, tem-se afastado do
discurso institucionalista e moderado de Henrique Capriles e seus apoiantes. O
antigo alcaide de Chacao (2000-2008), é um economista formado em Harvard e um
dos descendentes de Simón Bolívar. Preso em fevereiro de 2014, enfrentava desde
2008 um impedimento legal para ocupar cargos públicos, depois de se ter
apresentado como candidato a Caracas. López é um político venezuelano bastante
conhecido, tendo uma carreira política consolidada na oposição ao chavismo. Foi
fundador do Primero Justicia com o qual entrou em desacordo em 2007, tendo
depois ingressado no movimento Un Nuevo Tiempo, para ser expulso em 2009. Nesse
mesmo ano apresenta o movimento Voluntad Popular a 5 de dezembro no fórum de
Valencia. Na apresentação pública confirma a sua visão pragmática de centro-
esquerda ao considerar que "os venezuelanos, todos sem exceção, são
iguais em direito (…) todos deverão ter acesso a um serviço público, saúde e
educação"42, discurso que não se afasta muito nem de Capriles nem do
chavismo.
A 25 de março de 2014, o New York Timespublicou um artigo de Leopoldo López,
escrito na prisão militar de Ramo Verde nos arredores de Caracas. Neste texto,
o líder dos protestos considera que o Governo é incapaz de proteger os
venezuelanos da maior taxa de homicídios no hemisfério ocidental, da alta taxa
de inflação e da escassez de produtos de primeira necessidade, criando um
"clima político opressivo" em que manifestações de carácter
pacífico são atacadas por militares e milícias. Ao mesmo tempo, apresenta-se
contra o discurso radicalizado, pedindo que seja "restaurada
imparcialidade" nas instituições que "formam a coluna vertebral da
sociedade civil" e que a alteração na liderança do país poderá ser
conquistada através do quadro constitucional, defen-dendo-se "os direitos
humanos; a liberdade de expressão; o direito à propriedade, habitação, saúde e
educação; igualdade no sistema judicial e o direito ao protesto"43. Ou
seja, o seu discurso não se afasta daquele democrata-liberal que a MUD tem
utilizado, salientando aqui as diferenças estratégias e estilo de liderança
entre Capriles e López.
O discurso dos oficialistas procura enfatizar as opções ideológicas destes
grupos oposicionistas relembrando a sua postura anti-inflacionista e o
alinhamento com o capitalismo global e a política externa norte-americana. O
discurso do Governo apoia-se na concepção de que os manifestantes são
"terroristas" e que tenham a todo o custo tentado montar um cenário
de "guerra civil" onde o "extremista de direita"
Leopoldo López é líder incontestado de um grupo organizado. Depois de preso, a
mulher de López, e líder do Voluntad Popular, nega o envolvimento em ações
terroristas, não se responsabilizando pelas mortes nos confrontos dos últimos
meses44. Ao mesmo tempo, os oficialistas menosprezam a legitimidade das
manifestações, considerando que a greve das universidades provocada no início
das manifestações não teve efeitos e não teve o apoio da Federación de
Asociaciones de Professores Universitarios de Venezuela45. Apesar deste
discurso confrontacional, a oposição liderada por Capriles tem encetado
negociações com o Governo no diálogo de paz. Até agora esta plataforma designou
representantes para a comissão de verdade para discutir os confrontos e apurar
os factos, além de ter elegido os novos juízes do Supremo Tribunal de Justiça e
três novos conselheiros da Comissão Nacional de Eleições46. Esta nova
plataforma de discussão tem sido uma peça-chave nas negociações, mas tem
relegado o Parlamento para um papel secundarizado, o que reforça a
bipolarização ao atribuir poderes de exceção ao Executivo e aos representantes
da oposição. No entanto, não será possível ao Governo ceder no diálogo quando
tem a lealdade dos militares, e enquanto a oposição não aceitar que o PSUV
continua a ser hegemónico em eleições livres e participadas.
Paralelamente, num relatório produzido pela Human Rights Watch em maio de 2014
e outro pela Amnistia Internacional, conclui-se que tem sido negado o acesso ao
tratamento médico aos presos e que os abusos físicos e psicológicos não têm
acontecido em casos isolados47. Estes e outros factos, como a
performanceeconómica, continuarão a ser explorados pela oposição, o que não
permitirá fechar tão cedo o ciclo desta nova bipolarização. Os confrontos são
uma consequência da bipolarização entre elites políticas emergentes e velhas
elites socioeconómicas da Venezuela, ambas com um discurso e programática
diferenciados. Restará saber de que forma as reivindicações da oposição serão
incluídas no sistema político, e de que maneira os governos chavistas poderão
ser ideologicamente aceites pela oposição no quadro democrático. Enfrentadas
estas questões, ambos os lados da contenda poderão encetar esforços para a
consolidação de um discurso político de aceitação e confronto democraticamente
consolidado.
CONCLUSÕES
A sucessão de vitórias eleitorais consolidou Chávez e o chavismo no caminho da
revolução bolivariana. A rutura do sistema do punto fijoque levaria à
fragmentação política seria monopolizada pelo discurso chavista através do
projeto da revolução bolivariana. No entanto, a tentativa de golpe de Estado de
2002 levaria à radicalização do novo regime político assente na Constituição de
1999 depois que o retorno de Chávez ao Palácio de Miraflores lhe garantiu uma
nova legitimidade política e democrática. Consequentemente, a oposição passa a
agremiar-se em torno da MUD, uma nova coligação protopartidária de diversas
forças políticas antichavistas e oposicionistas às forças governamentais. Este
cenário formaliza o contexto de bipolarização política confrontacional que em
nada se assemelha com o bipolarismo clássico e moderado que vigorou durante
quatro décadas na Venezuela. A nova inserção internacional da Venezuela reforça
esta mesma bipolarização conquanto o conflito entre a influência regional dos
Estados Unidos e a política externa venezuelana encontra eco no discurso
político do Governo e da oposição.
A morte de Chávez em 2013 abriu oportunidades na estratégia da oposição que
passou a apostar num candidato presidencial consensual, o que demonstra a
clivagem eleitoral e a aproximação entre os candidatos Henrique Capriles e
Nicolás Maduro nas eleições presidenciais de 2013. No entanto, o carisma de
Chávez, contrariamente ao clássico populismo latino-americano, não se basta a
si mesmo, visto que o atual regime bolivariano da Venezuela consolidou um
sistema eleitoral que permite a associação de movimentos e de forças
oposicionistas e a manutenção de políticas assistencialistas maioritariamente
consensuais, daí a dificuldade em caracterizar o atual sistema político. Pese
embora este cenário, a presente bipolarização política dificulta a
governabilidade conquanto o discurso político da oposição levará, por um lado,
à procura por parte das forças governamentais de legitimidade popular face ao
inimigo nacional-internacional, e, por outro lado, à escalada da violência.