Repensar as origens da emergência económica da Europa moderna
RECENSÕES
Repensar as origens da emergência económica da Europa moderna
Luís Mah
Investigador de pós-doutoramento no Centro de Estudos sobre África e do
Desenvolvimento (CESA) do ISEG. É doutorado em Estudos de Desenvolvimento pela
London School of Economics (LSE) e tem como áreas de investigação atuais o
papel do Estado nas economias emergentes e as relações económicas Ásia-áfrica.
É coautor, com Enrique Martinez Galan (Banco Asiático de Desenvolvimento), do
blogue "O Retorno da Ásia".
Kenneth Pomeranz, A Grande Divergência: A China, a Europa e a Construção da
Economia Mundial Moderna, Lisboa, Edições 70, 2013, 624 páginas
Até 1820, diz-nos Angus Maddison, a Ásia, com a China à cabeça, liderava a
economia global1. Mas a partir desse momento, a Europa Ocidental ultrapassa a
Ásia, e a China em particular. A Grande Divergência: A China, a Europa e a
Construção da Economia Mundial Moderna, de Kenneth Pomeranz, é uma obra
fundamental da história global porque nos oferece uma nova visão sobre as
razões que levaram, no século xix, a Europa (Ocidental) a ultrapassar a China e
a transformar estruturalmente a sua economia. Graças a esta obra, Pomeranz
recebeu em 2000 o maior prémio da Associação Americana de História (AHA), o
Prémio John K. Fairbank, e no ano seguinte foi um dos vencedores do Prémio para
o Melhor Livro da Associação Mundial de História. Este trabalho de Pomeranz,
publicado pelas Edições 70 e com direitos reservados para todos os países de
língua portuguesa, chega treze anos depois da publicação do original em língua
inglesa em 2000. Integra a Coleção História e Sociedade coordenada por Diogo
Ramada Curto (unl), Miguel Bandeira Jerónimo (ics/ul) e Nuno Domingos (ics/ul)
e que são também os autores do excelente estudo introdutório que acompanha esta
edição de língua portuguesa. Neste estudo, os historiadores destacam a
necessidade de olhar para o trabalho de Pomeranz como uma tentativa de
"pensar a existência de uma humanidade comum, fundamentalmente separada
por razões de índole material" (p. xxv). Esta tentativa parece, de facto,
fazer parte de uma missão assumida por Pomeranz de questionar o
"excepcionalismo europeu" para explicar a ascensão económica da
região a partir do século xix2. A grande novidade deste trabalho de Pomeranz
passa por comparar a China e a Europa no século xix e justificar porque,
partindo ambas do que demonstra serem condições similares, acabaram por
divergir, em termos de desenvolvimento.
Para Pomeranz, a justificação é essencialmente uma de índole ecológica. Ao
contrário da China, a Europa, e a Inglaterra em particular, beneficiou do
acesso a recursos ecológicos importantes. Primeiro, através do rápido aumento
da extração e utilização do carvão inglês, conseguiu substituir a crescente
escassez de madeira. E segundo, e claramente mais importante, através dos
territórios coloniais ultramarinos, teve acesso a recursos minerais abundantes
e novos mercados de consumidores, e para o qual contribui o uso da coerção e
força bélica desenvolvida a partir da crescente competição militar dentro e
fora das fronteiras europeias.
DE UMA HISTÓRIA EUROCÊNTRICA PARA UMA HISTÓRIA GLOBAL
A obra de Pomeranz está dividida em três partes e seis capítulos. Nas duas
primeiras partes, que correspondem aos capítulos 1 a 4, Pomeranz questiona os
argumentos que encontram justificações endógenas - e desta forma promovem
uma "história eurocêntrica" - para a transformação industrial
e ascensão económica da Europa no século xix em relação ao resto do mundo.
Entre estas justificações endógenas estão desde especificidades demográficas
(como melhor qualidade de vida ou maior longevidade), vantagens tecnológicas
(ao nível da agricultura e transporte), existência de economias de mercado mais
perfeitas e a emergência do capitalismo e do "consumismo". Olhando
para os casos da China e do Japão, Pomeranz mostra como também aqui se
encontravam estas condições que se pensavam ser únicas e endógenas à Europa e
que por isso:
"fará talvez mais sentido ver a Europa Ocidental deste período como uma
economia relativamente vulgar; só se tornou numa bizarria feliz quando, em
finais do século xviii e em, especial, no século xix, um conjunto de
descontinuidades inesperadas e significativas lhe permitiu romper as limitações
fundamentais da utilização de energia e disponibilidade de recursos que tinham
limitado os horizontes de todaa gente" (pp. 348-349).
São essas "descontinuidades inesperadas e significativas" que
Pomeranz explora na terceira parte da obra e nos capítulos 5 e 6. Pomeranz não
afirma que estas "descontinuidades" ou, por outras palavras,
vantagens, foram "obrigatoriamente conducentes a um salto
industrial", mas antes que "aumentaram bastante essa possibilidade
e tornaram-no muito mais fácil de sustentar" (p. 353). Foram vantagens
que ajudaram a resolver um problema crescente na Europa como os limites à
capacidade de substituir terra por mão de obra e capital:
"com estes limites, era difícil manter o crescimento populacional,
incrementar o consumo per capita e aumentar o grau de especialização industrial
das regiões em simultâneo, e muito menos as taxas de crescimento aceleradas do
século xix" (p. 353).
O capítulo 6 explica de forma clara como foi o Novo Mundo, a
"periferia" que salvou e permitiu à Europa eliminar essas
limitações da terra ao oferecer não só produtos agrícolas mas também metais
preciosos.
Os produtos agrícolas vinham das Caraíbas e do Noroeste do Brasil e mais tarde
dos Estados Unidos e eram principalmente cultivados por escravos. Em
simultâneo, os próprios escravos tornaram-se num mercado importante para as
importações europeias. Apesar da sua pobreza, as suas necessidades em termos de
vestuário acabaram por representar uma parte importante das importações de bens
manufaturados que vinham não só da Europa, mas também da Índia via Europa e que
mais tarde foram substituídos por produções inglesas. Como afirma Pomeranz,
"a combinação da população com o repovoamento com escravos converteu a
região circum-caribenha num mercado perversamente grande para as exportações
(inglesas) e numa fonte de exportações (caribenhas) de produtos exigentes em
terra. A região tornou-se, de facto, a primeira periferia a assumir o perfil
hoje familiar de "Terceiro Mundo": uma grande importadora de bens
de produção (neste caso, andantes, falantes, raptados) e de produtos
manufaturados para uso quotidiano, com exportações cujos preços foram descendo
à medida que a produção se tornou mais eficiente, exigente em capital e
disseminada […]. As plantações do Novo Mundo foram, pois, um novo tipo de
periferia, uma periferia que importava o suficiente para manter relativamente
equilibrado o seu comércio com o núcleo" (p. 447).
Para além dos produtos agrícolas, o Novo Mundo tornou-se também o fornecedor de
um outro "maná": metais preciosos. Grande parte destes metais
preciosos servia de moeda para obtenção de produtos agrícolas e bens
manufaturados na Europa Oriental, Próximo Oriente e Ásia Oriental. A venda dos
produtos manufaturados ajudava a cobrir grande parte das despesas com a compra
de escravos para as Américas. Para Pomeranz, a importância do Novo Mundo para a
Europa não deve ser minimizada:
"A terra e a mão de obra que geravam as exportações de recursos do Novo
Mundo eram frutos da coerção extra-mercado e foram necessários os esquemas
singulares das plant ações caribenhas e das políticas mercantilistas no Novo
Mundo para escapar a todas as forças que levaram à estagnação das trocas
núcleo-periferia no Velho Mundo. Sem estas características e sem a prata que
ajudou a pagar a administração colonial e possibilitou o transbordo de produtos
asiáticos para África e para as Américas, é difícil ver como poderia o
"maná ecológico" ter chegado à Europa em tamanha qualidade, nem é
claro como poderia a Europa ter obtido tanto alívio ecológico do resto do Velho
Mundo" (pp. 457-458).
DA GRANDE DIVERGÊNCIA PARA A GRANDE CONVERGÊNCIA?
Esta história inovadora de Pomeranz não tem, no entanto, deixado de ser sujeita
a múltiplas críticas que a acusam de reduzir o desenvolvimento a uma visão
puramente economicista, ignorando a complexidade do tema e a importância de
outras variáveis como a cultura, a política ou a religião, tal como aponta o
estudo introdutório. No entanto, se olharmos para a China atual e que o Fundo
Monetário Internacional (FMI) indica ser já em 2014 a maior economia mundial
segundo o critério da paridade de poder de compra, o mesmo argumento ecológico
de Pomeranz poderia ser explorado para explicar a "grande"
convergência económica da China com o continente europeu nas últimas décadas,
principalmente a partir de 2001, quando o país acede à Organização Mundial do
Comércio (omc).
A reemergência da China como uma das principais potências económicas globais
coincide com o seu papel primordial no mercado internacional de recursos
minerais onde tem vindo a determinar de forma significativa os seus preços3. De
acordo com a agência norte-americana para a Informação Energética (eia), e em
resposta à sua necessidade de manter o rápido desenvolvimento económico do
país, a China é, em 2014, simultaneamente, o maior produtor e consumidor de
energia a nível global4. Não só é a maior produtora, consumidora e importadora
de carvão como também a segunda maior consumidora de petróleo. E segundo os
cálculos da Agência Internacional de Energia (aie), a China estará perto de se
tornar um produtor considerável de petróleo, rivalizando com membros da OPEC
como o Koweit ou os Emiratos Árabes Unidos, nos próximos anos devido aos
investimentos que têm vindo a ser feitos fora das suas fronteiras pelas
empresas petrolíferas nacionais5.
A nível internacional, são a África Subsariana, o Médio Oriente e a América
Latina as regiões que mais têm beneficiado com esta procura energética (e
alimentar) por parte da China6. E a importância desta presença chinesa no
mercado internacional de recursos minerais começa-se a desenhar precisamente a
partir de 2000 (acentuada com a sua entrada na OMC em 2001), por coincidência
no mesmo ano de publicação desta obra de Pomeranz no seu original em língua
inglesa, quando a liderança chinesa decide lançar a estratégia -
"Vai Global" - de globalização das empresas chinesas
(principalmente estatais) a investir no estrangeiro em setores energéticos,
tecnológicos e agrícolas considerados estratégicos para o país.
E tal como a Europa Ocidental no século xix, em troca de exportações de
recursos minerais, os mercados da África Subsariana, Médio Oriente e América
Latina têm-se tornado progressivamente em mercados de consumo importantes
(embora ainda longe de estarem ao nível de mercados com maior poder de compra
como os norte-americano, europeus ou asiáticos) para os produtos manufaturados
chineses como maquinaria elétrica, máquinas (incluindo computadores), têxteis,
mobiliário ou produtos óticos e médicos7. Desde 2000, a transformação
industrial da China tem sido de tal forma meteórica que em 2013 ultrapassou os
Estados Unidos como a maior potência comercial do mundo com o valor total das
suas exportações (2209 biliões de dólares) e importações (1949 biliões de
dólares) a atingirem mais de quatro biliões de dólares8.
Para manter o seu crescendo comercial, a China tem procurado seguir uma
política ativa de promoção de acordos de comércio livre em todo o mundo, em
particular com países asiáticos: ASEAN (Associação dos Países do Sudeste
Asiático), Paquistão, Chile, Hong Kong, Macau, Nova Zelândia, Singapura, Peru,
Costa Rica e Islândia (o primeiro país europeu a ter este tipo de acordo com a
China). E embora as negociações estejam agora suspensas devido a conflitos
diplomáticos, desde 2012 que a China, Japão e Coreia do Sul começaram as
negociações para um acordo de comércio livre entre estes três países. Ao mesmo
tempo, a China tem apostado na criação de uma parceria económica regional na
Ásia Oriental (que seria o maior bloco comercial livre com três mil milhões de
pessoas e um PIB conjunto de 17 biliões de dólares) e já demonstrou interesse
em negociar um acordo de comércio livre com a União Europeia, e, depois de uma
hesitação inicial, em fazer parte da Parceria Transpacífica para a criação de
uma zona de comércio livre no Pacífico e que tem sido liderada pelos Estados
Unidos.
Talvez as melhores palavras para olhar para a "grande convergência"
da China possam ser encontradas em Jonathan Spence, o famoso professor de
História da China em Yale e com quem Pomeranz estudou, numa entrevista em 2010
à National Endowment for the Humanitiesna ocasião da sua Jefferson Lecture:
"Quando eu ensinei sobre a China - tive a sorte de ter passado
muitos anos a fazer isso - começava sempre no século xvii quando uma nova
dinastia assumia o poder na China, a Qing. Eu queria que os estudantes
começassem a ter uma ideia clara sobre uma China extremamente vigorosa, bem
orquestrada, bem organizada que tinha passado por uma difícil guerra civil e
uma invasão estrangeira e que depois tinha desenvolvido uma liderança
excecionalmente boa, apesar de não ter sido escolhida de forma democrática.
No final do século xvii - e princípios do século xviii, os imperadores
tinham um forte sentido de governo e um bom sentido da responsabilidade
associada à liderança. Eles eram analiticamente muito astutos e tinham um bom
enten dimento sobre finanças. Trabalhavam arduamente, 12-15 horas por dia, e
tinham acesso a uma imensa documentação sobre o país em geral.
Eles eram também duros como ninguém e dispostos a tomar decisões que podemos
considerar cruéis. A minha principal premissa para as aulas era 'Vamos
começar com uma China forte, que olha para o mundo e que também é
expansionista. É um período em que a China aumenta a sua extensão em 80-90
anos, um período no qual a China incorpora Taiwan e envia forças para o
Tibete'. Conquistou muito no seu extremo ocidental, o que lhe deu uma
vasta população muçulmana. Havia o seu próprio domínio na Manchúria, o
estabelecimento de fronteiras com a Rússia, e a contenção do Ocidente,
particularmente britânico, francês e outros estados europeus que
comercializavam na China. Se olharmos para a China a partir dessa perspetiva,
parece-se cada vez menos com o século xix.
O período fraco parece mais uma aberração. E a China nos últimos vinte e cinco
ou mais anos parece ter voltado aquele caminho anterior: vigorosa, pragmática e
por vezes impiedosa, por vezes determinada a fortalecer o controlo sobre as
áreas fronteiriças, muito atenta em relação a qualquer tipo de manifestação de
massas, extremamente atenta com a palavra escrita que possa ser crítica em
relação ao Governo, extremamente cautelosa sobre qualquer tipo de multidão que
se constitua"9.
NOTAS
1
Cf. Maddison, Angus - Chinese Economic Performance in the Long Run,
Second Edition, Revised and Updated, 960-2030 AD. Development Studies Centre.
Paris: ocde, 2007.
2
Ver, por exemplo, o projeto pedagógico em conjunto com o seu colega Bin Wong e
intitulado "China and Europe 1500-2000 and beyond: what is
"modern"?". Disponível em: http://afe.easia.columbia.edu/
chinawh/index.html
3
Sobre o modelo de desenvolvimento chinês, cf. Mah, Luís - "A
emergência do modelo de desenvolvimento chinês". InRelações
Internacionais. N.º 38, junho de 2013, p. 38. [Consultado em: 16 de novembro de
2014]. Disponível em: http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/scielo.php?pid=S1645-
91992013000200005&script=sci_arttext. Para uma análise recente do impacto
da entrada da China no mercado internacional de recursos minerais, cf. Economy,
Elizabeth C., e Levi, Michael - By All Means Necessary: How China's
Resource Quest is Changing the World. Nova York: Oxford University Press, 2014.
4
Cf. "China country analysis brief", US Energy International
Administration. Washington: Departamento de Energia, 4 de fevereiro de 2014.
[Consultado em: 16 de novembro de 2014]. Disponível em: http://www.eia.gov/
countries/cab.cfm?fips=CH
5
Cf. Makan, Ajay, e Hook, Leslie − "China's foreign oil output
surges". In Financial Times, 20 de fevereiro de 2013. [Consultado em: 16
de novembro de 2014]. Disponível em: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/60e4474e-
7aad-11e2-9c88-00144feabdc0.html#axzz3JH8frSYq. Ver também o trabalho que a aie
tem vindo a desenvolver desde 2011 sobre as empresas petrolíferas chinesas. Cf.
"Chinese national oil companies's investments: going global for
energy", 3 de novembro de 2014. [Consultado em: 16 de novembro de 2014].
Disponível em: http://www.iea.org/ieaenergy/issue7/chinese-national-oil-
companies-investments-going-global-for-energy.html
6
Para o caso das relações entre a China e África, cf. Sun, Yun -
"Africa in China's foreign policy". Washington: The Brookings
Institute, abril de 2014. Disponível em: http://www.brookings.edu/research/
papers/2014/04/10-africa-china-foreign-policy-sun. Ver também: "Africa-
China trade". Tralac. Disponível em: http://www.tralac.org/resources/our-
resources/4795-africa-china-trade.html
7
O lado negativo destas trocas comerciais entre a China os países em
desenvolvimento na África Subsariana, América Latina e Médio Oriente é o
impacto de um abrandamento da economia chinesa. Cf. Tyson, Judith, Kennan,
Jane, e Hou, Zhenbo - "Shockwatch Bulletin: developing countries
and the slowdown in China". In ODI Working Paper 404. Londres: Over-seas
Development Institute, setembro de 2014.
8
Cf. Anderlini, Jamil, e Hornby, Lucy - "China overtakes us as
world's largest goods trader". In Financial Times, 10 de janeiro de
2014. Disponível em: http://www.ft.com/cms/s/0/7c2dbd70-79a6-11e3-b381-
00144feabdc0.html#axzz3JH8frSYq. Ver também Cf. "China Trade
Profile", WTO, setembro de 2014. Disponível em: http://stat.wto.org/
CountryProfile/WSDBCountryPFView.aspx?Language=E&Country=CN
9
"Jonathan Spence Interview", National Endowment for the
Humanities. Disponível em: http://www.neh.gov/about/awards/jefferson-lecture/
jona-than-spence-interview
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