O momento da Alemanha que rumo para a política externa alemã num mundo em
transformação?
Em 1989, a queda do muro de Berlim deu início a um processo de grandes
transformações geopolíticas, cujo fim ainda não é percetível. Como se de uma
metáfora se tratasse, os acontecimentos pacíficos daquela noite de 9 de
novembro numa cidade dividida no centro da Europa fizeram ruir certezas e
equilíbrios, dissolveram fronteiras e pactos e remeteram-nos, desde então, para
o difícil desafio da (re)invenção de uma nova ordem mundial.
Vinte e cinco anos depois, a Alemanha volta a estar no centro das atenções,
mas, ao contrário do que se poderia esperar, continua sem uma posição
claramente definida quanto ao papel que quer ou deve desempenhar no palco
internacional. Convicta da sua responsabilidade para com outros povos, mas
muito reticente em assumir uma posição de liderança, oscila na forma de
afirmação dos seus interesses nacionais. Contudo, o seu crescente poder
económico sugere tacitamente uma voz mais determinada nos assuntos externos,
cada vez mais percecionados como "Weltinnenpolitik" (política
interna mundial), como Willy Brandt, então chanceler da rfa, o antecipou já em
1973 perante a Assembleia Geral da onu, aquando da integração da Alemanha
Federal nesta instituição.
Hoje, quase 70 anos após a sua "hora zero"1e uma geração após a
unificação da Alemanha, o novo (e velho) Governo de Coligação da Alemanha
ensaia uma nova política externa tentando superar as aporias que marcam a sua
estratégia desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Tendo em conta as memórias do
passado, bem como o contexto geopolítico e sobretudo económico-financeiro
atual, continua a não ser fácil traçar um novo mapa de política internacional
para Berlim. As exigências de maior participação (política, económica e
militar) alemã são sempre lançadas num tom contraditório de receio e crítica,
por um lado, receia-se o protagonismo político excessivo, por outro, critica-se
a falta de participação do mero papel de "espectador-pagador" nos
conflitos internacionais.
Esta dificuldade, ligada às expectativas dos outros países relativamente à
Alemanha, é repercutida no interior da sociedade alemã, onde ainda há muitos
que, recordando os fantasmas do passado, e a consequente revindicação
"Nie wieder Krieg" ("Nunca mais Guerra"), preferem uma
postura política discreta sem protagonismos e participações militares nos
conflitos mundiais - e outros que, desejando um regresso a uma
"normalidade" perdida (ou que, provavelmente, ainda nunca existiu),
defendem para a RFA um papel emancipado e sem complexos, que assuma, ao lado
das outras nações democráticas e dos seus parceiros da União Europeia (UE) e da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), a sua responsabilidade de
"potência média" no palco internacional.
Neste, e em muitos outros aspetos, a Alemanha é uma "pátria
difícil"2. A complexidade da identidade alemã, que muitas vezes a
empurrou para um "Sonderweg"3, traça-se, desde já, pela sua
dimensão e situação geográfica, no centro da Europa, tornado palco por
excelência de guerras e disputas, de migrações, deslocações e perseguições.
Depois, temos de considerar a sua dimensão populacional e económica, que também
é crítica. Como observava o seu Presidente em 1969, antevendo com algum
ceticismo a possibilidade de uma unificação alemã: "A Alemanha seria
grande demais para não ter um papel no equilíbrio das forças mundiais e pequena
demais, para equilibrar os poderes à sua volta."4 E, por, fim, temos a
memória do "Terceiro Reich" que contaminou irremediavelmente toda a
história alemã e comprometeu os destinos da nação desde então5. Não é por acaso
que ainda hoje se fala da "questão alemã" quando se tenta uma
definição de uma nação que, marcada pelo estigma do passado, ainda está à
procura do seu lugar - dentro e fora das suas próprias fronteiras. Assim,
as dificuldades de busca de identidade a um nível interior repercutem-se para a
definição de um papel no mundo e, mais concretamente, para a formulação de uma
política externa.
Neste contexto, convém recordar que a população alemã teve, desde sempre, uma
relação distante com a "política", isto é, com a esfera de
participação e tomada de decisão política. A elite intelectual teve sempre uma
atitude de distância cética relativamente à esfera da política na sua vertente
prática e partidária, como evidenciam, por exemplo, os trabalhos de Max Weber6,
sobre os obstáculos ao desenvolvimento do liberalismo na Alemanha (denunciando
a burguesia de pouco burguesa e a cultura política estranhamente apolítica). O
grande desenvolvimento económico, tecnológico e industrial, mas também a enorme
produtividade artística, cultural e científica, devendo destacar-se aqui
especialmente a área jurídica e administrativa, não teve qualquer equivalência
política, no sentido da participação dos cidadãos nos assuntos políticos, ou do
fomento de um espírito organizado de contestação - sempre astuciosamente
suprimido por regimes autoritários e repressivos7.
Só mais tarde, em 1949, é que a República Federal Alemã (RFA) aprende a
Democracia que recebe por imposição das forças de ocupação, pois ao longo da
sua história, as experiências de tentativa de participação política ou de
Democracia foram ou cruelmente caladas ou, no caso da República de Weimar,
fatidicamente derrotadas. Consequentemente, também a política externa alemã foi
sempre definida sem a participação da população, desde a sua entrada no palco
internacional, marcada pela primeira unificação nacional em 1871, conseguida
através da mão de ferro do chanceler Otto von Bismarck, passando pela tragédia
da Primeira Guerra Mundial e a ascensão de Hitler ao poder, até à queda do III
Reich em 1945. A política externa alemã foi, assim, continuamente, uma política
determinista, definida sem transparência de cima para baixo, ou de modo
unidimensional do exterior para o interior. Particularmente depois de 1945, a
política externa alemã (da RFA e da República Democrática Alemã (RDA)) foi
determinada sem qualquer possibilidade de alternativa, sem poder de decisão,
nem margem para autonomia. As duas Alemanhas eram, de facto, países
"menores" que ainda não tinham alcançado a maioridade política. E a
sua identidade no mundo era definida pela comunidade de valores a que
pertencia. Assim, Konrad Adenauer, o primeiro chanceler da RFA, definia os
desígnios para a política externa com a fórmula geral: "Estamos seguros
porque estamos na NATO", fazendo da Alemanha um parceiro especial dos
EUA. Efetivamente, ao longo de toda uma geração, a política externa alemã
desenvolveu-se, desde a sua "hora zero", sob o olhar atento dos
seus aliados - o que constituiu um importante fator de estabilização do
próprio processo de democratização e de participação política interna8.
Talvez por causa de toda esta experiência, a política externa alemã continua a
ser um tema menos relevante na consciência dos alemães. Sobre a política
externa há, em geral, mais unanimidade (mesmo entre os diferentes partidos) e,
mesmo neste momento, os alemães estão muito mais preocupados com outras
questões, como, por exemplo, a energia ou a reforma do Estado Providência.
Conformada com o seu estatuto especial que lhe fora imposto em 1945 e que a
impediu de intervenções militares no exterior, mas também de protagonismos no
palco da grande política internacional, ajustou-se a um papel menor e mais
recatado e confiou a sua defesa em larga medida aos EUA e à NATO - sem,
no entanto, abdicar de olhar de modo atento para o mundo e de procurar vias
alternativas para aí intervir discretamente.
Contudo, depois de um processo de unificação que já tem a idade de uma geração,
depois do Kosovo, do Afeganistão e do Iraque, mas também depois do choque
económico de 2008, que colocou a Alemanha num lugar cimeiro na Europa, a nova
República de Berlim terá inevitavelmente de assumir a sua
"maioridade" e responsabilidade em assuntos de política externa.
Qualquer tentativa de regresso ao passado, isto é, à postura do tempo da Guerra
Fria, representaria hoje uma insustentável leveza sem razão de ser. Nem que
seja porque a Ucrânia é mesmo ali ao lado e desafia todo o ténue equilíbrio da
Europa. Nem que seja porque a Rússia desperta velhos fantasmas que a Alemanha
jurou não voltar a evocar. Será, então, que a exclusividade de uma alternativa
de "paz e cooperação" para a definição da política externa deixou
de ser sustentável num mundo em acelerada transformação geopolítica?
No contexto de uma conceção da ordem mundial ainda muito marcada pela lógica do
poder da força, os seus aliados (na NATO, mas também na UE) exigem à Alemanha
uma atuação militar mais determinada. Os planos para a reforma das forças
armadas da RFA (iniciadas já há alguns anos) e os novos planos da atual
Ministra da Defesa podem ser disso um primeiro indício9.
Todavia, isto não significa que Berlim deva fazê-lo necessária ou
obrigatoriamente intervindo nos conflitos internacionais com mais forças de
combate ou que deva pintar a águia federal de falcão europeu - mas sim
que deve apresentar, de facto e em viva voz, sem pretextos e responsabilizações
externas, a sua agenda para a ordem internacional que se fundamenta na sólida
cultura política originada em 1949 e que é movida pelos seus legítimos
interesses nacionais desde 1990. É provavelmente esta uma oportunidade
histórica para a Alemanha.
Ao contrário do que se afirma, gostaria assim de defender que as políticas de
cooperação e para a paz (e expressas, por um lado, através de missões militares
de paz no âmbito da ONU e da NATO ou, por outro, através de programas culturais
e educativos, dos quais o trabalho desenvolvido pelo Instituto Goethe em zonas
de pós-conflito é um excelente exemplo) constituem uma alternativa muito
pertinente no contexto geopolítico atual, apresentando um contributo essencial
para uma nova gestão de poder no mundo. Mas será essa via ainda sustentável
quando pensamos na atual política externa da Rússia, no terrível drama
humanitário na Síria ou no terror espalhado pelo movimento do "Estado
Islâmico"?
Para melhor observarmos este argumento a favor de uma via alternativa da gestão
da política internacional, deve recordar-se muito brevemente apenas três das
principais orientações da política externa alemã desde a sua fundação em 1949 e
que constituem um rumo importante a ter em conta para a definição das relações
internacionais.
A POLÍTICA EXTERNA COMO POLÍTICA DA PAZ
Desde 1949, as relações internacionais alemãs definiram-se essencialmente por
três vias: (1) a participação (ativa ou mais passiva) em organizações
internacionais, (2) a construção europeia e, a outro nível, (3) a divulgação e
o fomento da sua cultura, investigação e ciência (através de instituições como
o Instituto Goethe ou o Instituto Max-Planck, através de programas de
intercâmbio e de formação)10. Enquanto nação de "mãos atadas" em
matéria de assuntos exteriores, como já vimos na presente reflexão, a RFA
tentou fazer, então, o melhor da sua situação de "menoridade
política", afirmando-se sob as sombras do passado como "soft
power" ou poder civil. Evidentemente, o comércio e a economia
(nomeadamente a exportação dos seus produtos para todo o mundo) têm aqui um
papel igualmente relevante.
Da necessidade nasceu assim uma via especial (um novo "Sonderweg")
que se tornou muito eficaz e que poderá apontar para novos caminhos da política
internacional. Trata-se de uma tentativa de conciliar o interesse nacional (que
subsiste obviamente) com propostas não militares para a promoção da cooperação,
da segurança e da paz. Assim, e tendo em conta toda a sua breve história, a
política externa da RFA foi, desde o início, entendida como "política da
paz". Este desígnio de paz está já inscrito no Preâmbulo da Lei
Fundamental de 1949 e assume-se como o slogando novo papel da Alemanha no
mundo. De modo muito significativo, é com esta frase que o sitedo Ministério
dos Negócios Estrangeiros (Auswårtiges Amt) abre uma das suas páginas mais
importantes: "A política externa é política para a paz"11. A ideia
de que a Alemanha nunca mais deverá fazer surgir uma guerra está, de facto,
profundamente impregnada na consciência dos alemães. Um dos mais importantes
exemplos da sua política da paz é a participação alemã nas Nações Unidas
- em que se empenhou (tal como o Japão) com grande determinação12.
Para melhor justificar esta afirmação, vale a pena recordar brevemente o
percurso que levou as duas Alemanhas à entrada nas Nações Unidas. A admissão
dos dois Estados Alemães na comunidade da Organização das Nações Unidas deve-
se, em grande medida, à "Ostpolitik" de Willy Brandt (que levou à
assinatura do "Vier-Måchte-Abkommen de 3 de setembro de 1971" e do
"Grundlagenvertrag" em 1972). Mas por causa do estatuto especial da
Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, o caminho até 1973 foi muito
complexo e sinuoso. De acordo com os artigos 53º e 107º da Carta das Nações
Unidas, os assuntos dos países derrotados não eram de respeito da ONU, mas sim
dos vencedores, isto é, das respetivas forças de ocupação. Depois da guerra, as
questões da Alemanha eram, assim, basicamente tratadas pelos Estados Unidos,
por um lado, e pela União Soviética, por outro. Nesta lógica ditada pela Guerra
Fria, os dois Estados Alemães seguiram ao longo dos anos cinquenta objetivos e
estratégias diferentes relativamente às Nações Unidas. A RFA (e o Ocidente),
que ainda defendia o seu desejo de reunificação, não tinha interesse em ver um
reconhecimento internacional oficial da RDA. Era esse um dos propósitos
principais da RDA, motivo pelo qual apresentou um primeiro pedido de adesão em
1966 - recusado indiretamente no Conselho de Segurança, uma vez que a
admissão de novos Estados na ONU está sujeita à apreciação dos membros deste
órgão mais poderoso. Como, em contrapartida, a RFA não tinha interesse em levar
a questão das duas Alemanhas à ONU, esta não formulou qualquer pedido de adesão
formal. Contudo, encontrou gradual e muito discretamente outras formas de
participação nas Nações Unidas. Essa participação é veiculada na sequência da
assinatura de dois Tratados que comprometem definitivamente a RFA com a ONU. A
3 de outubro de 1954, a RFA adere à NATO e compromete-se a orientar a sua
política pelos princípios da Carta das Nações Unidas (curiosamente, não houve
comemorações dignas de nota quando em 2004 passaram 50 anos sobre essa data).
Alguns dias mais tarde, celebra-se a assinatura do
"Deutschlandvertrag" (ratificado em maio de 1955), pelo qual a
Alemanha volta a adquirir grande parte da sua soberania. Ora, no artigo 3º
deste "Tratado da Alemanha", há novamente a promessa de formular as
políticas de acordo com a Carta das Nações Unidas13. Esta promessa vai tornar-
se não só um fator de estabilização política e social, como ainda um valioso
estímulo que cria um horizonte de expectativa (com dimensão cultural) para a
construção da paz.
A participação em diversas suborganizações das Nações Unidas (com estatuto
jurídico independente)14 tornava a aspiração de contribuir para a paz no mundo
muito concreta. Curiosamente, a cooperação com organizações como a FAO (1950),
a OMS e a UNESCO (1951), a IDA (1960) ou o PNUD (1965) - onde se destaca
o grande contributo financeiro - vai beneficiar não só os objetivos das
Nações Unidas, como ainda a consolidação da paz na própria Alemanha que, num
intercâmbio de valores e conhecimentos, começa a aprender a paz - o que
se repercute quer no debate teórico dos estudos da paz, quer nas práticas
políticas, sociais e culturais que marcam a realidade alemã15.
No seu discurso perante a Assembleia Geral em 1973, o nobel da paz Willy Brandt
apontou, de imediato, para a urgência de políticas concertadas entre todas as
nações para fazer face a problemas globais: "A globalização das ameaças
através da guerra, do caos e da autodestruição exige uma espécie de
"política mundial interna"."16Essa preocupação multilateral,
foi, particularmente desde 1990, uma marca fundamental da política externa
alemã.
Como nação que conheceu, como poucas outras, os terrores da guerra, sentiu,
talvez, com mais intensidade a necessidade de contribuir para a paz, como forma
de redenção tácita e silenciosa, provando não só a possibilidade da
reconstrução da paz no próprio país, mas afirmando discretamente uma Alemanha
empenhada na paz ao nível internacional. É neste sentido que podemos entender
as declarações do Chanceler Schröder perante a Assembleia Geral das Nações
Unidas, reunida 30 anos depois da adesão da Alemanha: "Conscientes da
nossa própria história, aceitamos cumprir a nossa responsabilidade para uma
política de cooperação para a paz"17. Note-se aqui que Schröder vem,
aliás, mudar radicalmente a postura discreta da Alemanha na política
internacional, dando-lhe mais força e visibilidade, e afirmando claramente a
sua ambição de participar, lado a lado com os seus aliados, no velho jogo de
poder no palco mundial18.
DA VELHA RESPONSABILIDADE À NOVA OPORTUNIDADE
Esta declaração de princípios deixa bem claro que, no novo milénio, a Alemanha
unida vem reclamar uma nova estratégia para a sua política externa que torna o
velho equilíbrio mais imprevisível e desafiador. Chegou o momento que já se
aguardava, desde 1990, com grande especulação: O que aconteceria ao
"gigante económico" quando assumisse a sua maioridade política? O
que seria do tão previsível e bem comportado "discípulo dos EUA"? A
Europa e o mundo começavam a ver os velhos fantasmas desde Bismarck, passando
pelo velho Kaiser, até ao hediondo espectro de Hitler. Mas, ao mesmo tempo,
começavam a ouvir-se igualmente as vozes daqueles que reclamavam um papel mais
participativo da Alemanha - o que aconteceu, por exemplo, durante a
primeira Guerra do Golfo, em 1991, quando se exigia da Alemanha mais do que o
mero apoio moral e monetário, desafiando-a para assumir a sua responsabilidade
e para intervir diretamente nos conflitos internacionais19. A Alemanha viu-se,
assim, durante anos, na aporia entre passado e presente, que levou a uma
política externa ainda pouco delineada e determinada20. A grande exceção aqui é
a Sentença do Tribunal Constitucional Federal de 12 de julho de 1994,
permitindo as missões "out of area" de tropas alemãs, deixando, no
entanto, na sua formulação vaga, muitas interrogações21.
Só em 1998, com a mudança governativa (depois de uma era de 16 anos de Helmut
Kohl), é que começa uma verdadeira "nova" política externa alemã.
As afirmações de Gerhard Schröder confirmaram o novo estilo de liderança (menos
modesto ou discreto) de uma nova geração de políticos que da Segunda Guerra
Mundial apenas tinham memórias de criança, anunciando que a Alemanha ia
conduzir uma política de uma nação adulta e emancipada, que assumia a sua
responsabilidade e o seu passado (nunca negando a sua catastrófica história
nacional, como declarou o ministro dos negócios estrangeiros Joschka Fischer),
mas que olharia para a frente, com normalidade e sem constantes complexos de
culpa22.
Lança-se assim toda uma nova agenda, guiada por um novo sentido de autonomia,
que encontrou a sua expressão simbólica com a mudança política de Bona para
Berlim, decidida formalmente em 1991 e concretizada em 1999. Destacamos deste
período de coligação Schröder/Fischer (SPD/Bündnis 90-Die Grünen), para além da
continuação do fomento das políticas económicas e culturais (se bem que com
deslocação de acentuação para os países de Leste e da Ásia), a intervenção
militar no Kosovo23, a participação de tropas alemãs em missões de paz em todo
o mundo (destacando-se aqui particularmente o seu trabalho no Afeganistão), a
afirmação clara (e pensada de um modo mais concertada do que em 1992) do
objetivo de um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, perseguido com
grande empenho pelo Governo de Schröder (e com moderação e prudência por
Merkel) e - depois de 2003 - de um certo afastamento dos EUA, como
consequência da recusa de participação na operação militar no Iraque e na
crítica pública e demarcação da estratégia do seu aliado mais importante.
Foi esta a herança híbrida de Angela Merkel e Franz-Walter Steinmeier, no
primeiro Governo da grande coligação, entre 2005 e 2009 e novamente desde
dezembro de 2013. Mas hoje a situação é diferente. Há muito mais pressão sobre
a Alemanha. Hoje já não é possível voltar à "zona de conforto" de
um espetador discreto que marcou a época do pós-guerra. O mundo mudou e, no
novo cenário mundial, é fundamental que a Alemanha assuma inequivocamente as
suas responsabilidades. São, aliás, os seus vizinhos na Europa Central e de
Leste que, no passado, mais temiam uma Alemanha poderosa (como, por exemplo, a
Polónia), que hoje apelam a uma liderança forte e determinada da RFA na Europa
e no mundo. As recentes visitas de Angela Merkel e de Frank-Walter Steinmeier a
esses países parecem ser uma resposta clara a essas solicitações que têm um
peso não só simbólico quando acompanhados de garantias de solidariedade
inquestionáveis e da determinação em aplicar sanções mais duras à Rússia.
Contudo, nas mais recentes declarações do atual Ministro de Negócios
Estrangeiros sobre a situação na Ucrânica chama-se igualmente atenção para a
importância de manter a porta do diálogo com a Rússia aberta e de apontar
alternativas, contrariando com persistência "a linha dura de confrontação
que corre o sério risco de conduzir á exaltação da violência"24.
Na verdade, a grande questão a que os alemães (e não só os seus dirigentes
políticos) terão de responder é como pretendem redefinir a ideia da política
externa enquanto "responsabilidade para a paz" numa era em que a
insegurança e violência se tornou global. Como deverá fazer valer os seus
créditos de "poder civil" com um enorme potencial económico e
assumir ao mesmo tempo uma liderança forte, destacada e consequente nas
relações internacionais? Como poderá assumir uma força de intervenção mais
determinada e musculada sem tentações nem complexos imperiais? Na resposta a
estas interrogações está também a grande oportunidade para a Alemanha.
Na inevitável e inadiável redefinição do rumo para a sua política externa num
mundo em transformação, seria bom que a Alemanha soubesse insistir em afirmar
novos "espaços de possibilidades geopolíticas". É justamente pela
responsabilidade histórica que tem - mas também pela mudança política que
conseguiu ao longo de processo de democratização que passou pelo trabalho na
memória, pela superação coletiva de duas ditaduras, pela aprendizagem da
liberdade, da cidadania ativa e da participação crítica e solidária, e ainda
pela capacidade de reconstrução e conciliação da sua nação - que a
Alemanha se encontra numa posição especial para apontar vias alternativas de
gestão de poder na política externa.
Um bom exemplo para esta abordagem diferente no espaço internacional é a
Ostpolitik. Quando a Europa ainda estava separada por um muro e se vivia numa
"Guerra Fria" fundada numa clivagem ideológica que era marcada pela
ameaça nuclear e uma hostilidade violenta entre Ocidente e Oriente, Willy
Brandt desenvolveu um programa que teve por objetivo uma "mudança
política através da aproximação"25. Tendo em consideração o difícil
contexto político internacional para a reconciliação do povo alemão, entendeu
que a única possibilidade para alcançar esse fim seria o diálogo, que
pressupunha primeiro o reconhecimento e a reaproximação, para promover depois
uma política de mediação e transformação pacífica. Foi assim que o Muro de
Berlim começou a ruir, levando, em 1990, à unificação da Alemanha.
Não é difícil ver que o que mais precisamos hoje é uma nova Ostpolitik, para a
paz na Europa (e no mundo), bem fundada e serena e que aposta ousadamente na
força da conciliação, ajustando a sua estratégia aos desafios do século XXI. Na
verdade, a Guerra Fria ainda não acabou, como agora está à vista. Mas a
Alemanha pode voltar a dar um contributo decisivo para terminá-la.
Num momento em que a Europa olha para Berlim, seria estimulante saber que a
Alemanha (co-)responde e assume um novo protagonismo, definido pela sua vontade
e os seus princípios: Aprofunda a agenda da sua política externa (sempre
entendida como política para a segurança e paz, como a homepagedo Ministério de
Negócios Estrangeiros realça estrategicamente) e aposta ainda mais nas vias
diplomáticas de pressão, mas também de cooperação - envolvendo forças
económicas, civis e militares em objetivos de sustentabilidade da paz (e não da
guerra). Empenha-se ativamente no desescalar de conflitos (e não no escalar).
Reinventa uma Ostpolitikpara o século XXI. Participa ativamente na tão urgente
reorganização da gestão do poder mundial. Assume assim uma nova liderança
- certo - mas preservando o melhor da sua experiência enquanto
"Friedensmacht" ("força de paz") assente em novos
modelos de poder e comunicação, segurança e liberdade e ajustados a um mundo
global em transformação.
Data de receção: 17 de agosto de 2014
Data de aprovação: 25 de setembro de 2014
NOTAS
1
O período imediatamente após o fim da 2ºGuerra Mundial é frequentemente
referido como "hora zero" da Alemanha. Caracteriza-se assim um país
em escombros que tenta ultrapassar o terrível passado para conseguir
reconstruir-se política e economicamente. Este conceito é, no entanto, muito
contestado, pois em História não há a possibilidade de fazer do passado uma
tabula rasa e a memória do passado é justamente a chave para um futuro mais
maduro, consciente e responsável.
2
Gustav Heinemann (SPD), Presidente da RFA entre 1969 e 1964, no seu discurso
inaugural proferido a 1 de julho de 1969. IN: http://germanhistorydocs.ghi-
dc.org/sub_document.cfm?document_id=169&language=german
3
Para uma discussão deste conceito que significa "via especial",
veja-se WEHLER, Hans-Ulrich Wehler - Deutsche Gesellschaftsgeschichte. Vol. 3:
Von der „Deutschen Doppelrevolution" bis zum Beginn des Ersten
Weltkrieges. 1849-1914. München: Beck, 1995; WINKLER, Hans August, Der lange
Weg nach Westen. München: Beck 2005
4
HEINEMANN, Gustav - "Discurso inaugural", 1969.
5
SCHEIDL, Ludwig et al. (Org.), Dois Séculos de História Alemã, Coimbra:
Minerva, 1996; WEIDENFELD, Werner, Handbuch zur Deutschen
Einheit, Frankfurt a. M. [u.a.] : Campus-Verl., 1999
6
Veja-se aqui, entre outros, WEBER, Max, Die protestantische Ethik und der
Geist des Kapitalismus, Vollståndige Ausgabe. München: C.H. Beck 2010
7
Veja-se aqui SCHEIDEL, Ludwig et al. (Org.), Dois Séculos de História Alemã,
Coimbra: Minerva, 1996 e STERN, Carola e Heinrich A. Winkler
(Org.) - Wendepunkte deutscher Geschichte 1848-1990, Frankfurt am Main:
Fischer, 1997,
8
As forças de ocupação na RFA (que rapidamente se tornaram "aliados")
reorganizaram a seguir ao fim da II Guerra Mundial as estruturas
administrativas, económicas e políticas no país, tendo por exemplo introduzido
o Federalismo e monitorizado a fundação de jornais ou de empresas.
9
Veja-se aqui os projetos de Guttenberg e mais recentemente de von der Leyen,
bem como o estudo do Ministério da Defesa da RFA "Eckpunkte für die
Neuausrichting der Bundeswehr" de 27 de maio de 2011 e, de um modo mais
amplo, o site deste mesmo Ministério em: http://www.bmvg.de/portal/a/bmvg/!ut/
p/c4/TcoxDoAgDEDRs3gBurt-
5C3UxoBUatBBoMfH0Mpo_vg8r9Ng28lYosb1ghmWn0T3G3c2bSnvAEp-Ck5nSRUDRO-
cD6YCiGUa3W0h9R9j__ZDizbq1pFMhxGj6qrQnv
10
Neste contexto é curioso chamar atenção para a missão do Instituto Alemão, tão
bem conhecido em Portugal (sobretudo tendo em conta o papel que teve antes e
durante a Revolução) e da política cultural da Alemanha que é considerada, com
base numa formulação de Willy Brandt, como a "terceira coluna da política
externa alemã" (vide ROSSBACH, Udo - Die auswårtige Kulturpolitik
der Bundesrepublik Deutschland: Grundlagen, Ziele, Aufgaben.Stuttgart: Noll,
1980).
11
Videhttp://www.auswaertigesamt.de/DE/Aussenpolitik/Friedenspolitik/Ueber-
sicht_node.html.
12
Veja-se aqui HAFTENDORN, Helga, Deutsche Außenpolitik zwischen
Selbstbeschrånkung und Selbstbehauptung 1945-2000. München: DAV, 2001 p. 419.
13
Videhttp://www.auswaertigesamt.de.
14
Note-se que desde o Acordo de Petersberg (Bona) de 22.11.1949, a RFA fica
autorizada a cooperar com Organizações Internacionais.
15
STERN, Carola e Heinrich A. Winkler (Org.) - Wendepunkte deutscher
Geschichte 1848-1990, Frankfurt am Main: Fischer, 1997, FULBROOK, Mary -
History of Germany: 1918-2000. The divided Nation, Oxford: Blackwell, 2002.
16
"Die Globalisierung von Gefahren durch Krieg, Chaos, Selbstzerstörung
erfordert eine Art `Weltinnenpolitik' (Brandt, 1973)" in: http://
www.auswaertiges-amt.de.
17
Consulte-se aqui os documentos do Ministério de Negócios Estrangeiros da RFA
disponíveis em http://www.auswaertiges-amt.de.
18
A atitude algo arrojada com que Schröder reclamou um lugar de maior
protagonismo para a Alemanha ao nível mundial e que se prende muito com o seu
estilo de liderança transparece ainda nas suas opções profissionais após ter
abandonado o cargo de Chanceler ou nas recentes declarações pouco discretas a
propósito da situação na Ucrânia.
19
HAFTENDORN, Helga, p. 392.
20
Haveria aqui muitos exemplos que mostram uma espécie de procura de nova
identidade, no difícil equilíbrio entre o desejo de aceitação de novas
responsabilidades, a continuação da lealdade perante as velhas alianças e a
afirmação de interesses nacionais próprios. As políticas e a diplomacia
desenvolvida durante a guerra do Golfo, durante a guerra na antiga Jugoslávia
(e especialmente no que diz respeito à Croácia), e a revelação feita pelo
Ministro de Negócios Estrangeiros em 1992, perante a Assembleia da ONU, da
ambição de um lugar permanente no Conselho de Segurança da Organização -
ambição ainda muito pouco amadurecida - são disso um bom exemplo. Veja-se
aqui MÜLLER, Jan-Werner - Another Country. German Intellectuals,
Unification and National Identity, New Haven: Yale University Press, 2000.
21
Videhttp://www.asfrab.de/urteilbverfg12719942bve392.html.
22
Para uma análise mais aprofundada desta questão veja-se Haftendorn (idem), pp.
389-390.
23
Desta participação numa operação de combate que tanta polémica gerou,
destacamos aqui apenas a Resolução Diplomática de 1999 (videHaftendorn, 418).
24
Videhttp://www.auswaertiges-amt.de/DE/Infoservice/Presse/
ArchivReden_node.html?gtp=532008_unnamed%253D1.
25
Esta expressão que marca o objetivo da Ostpolitik surgiu de uma série de
Conferências proferidas por Egon Bahr e Willy Brandt em 1963. Para um
aprofundamento deste tema que não é possível prosseguir aqui veja-se, por
exemplo, http://www.zeit.de/zeit-geschichte/2013/04/willy-brandt-neue-
ostpolitik.
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