Os Estados Unidos e o fim da Guerra Fria
"A Guerra Fria começou numa altura em que a América esperava uma época de
paz. E terminou no momento em que a América se preparava para uma nova era de
conflito."1
O fim do conflito bipolar que emergiu a seguir à Segunda Guerra Mundial foi
súbito e inesperado. Não só ninguém previu o colapso da União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas (URSS), como até bem próximo desse acontecimento a
maioria da literatura de relações internacionais, bem como muitos decisores
políticos norte-americanos, acreditava que os soviéticos gozavam de paridade ou
mesmo superioridade estratégica2. Além disso, na primeira metade da década de
1980, as relações entre Washington e Moscovo eram bastante tensas, com o
presidente Ronald Reagan a descrever a União Soviética como o "império do
mal" e os líderes desta a chegarem ao ponto de acreditar que os Estados
Unidos estavam a preparar um ataque nuclear preventivo contra o seu país3. É
certo que a situação se alterou radicalmente a partir de 1984/1985, tendo-se
verificado após esse momento os mais amplos e significativos acordos ao nível
dos armamentos estratégicos de toda a Guerra Fria4. Porém, a tensão e a
desconfiança nunca desapareceram por completo. Este artigo tem como objetivo
responder a duas questões centrais. Em primeiro lugar, por que razão terminou o
conflito Leste-Oeste quando nada o fazia prever. Em segundo lugar, qual o papel
dos Estados Unidos nesse resultado.
ESCOLAS DE PENSAMENTO SOBRE O FIM DA GUERRA FRIA
Da extensa produção académica relativa aos motivos do fim da Guerra Fria é
possível identificar três grandes escolas de pensamento. A primeira, concentra-
se nas causas norte-americanas, muito em particular no papel das administrações
Ronald Reagan e George H. Bush. A segunda, nas causas soviéticas, destacando a
tentativa reformadora de Gorbachev. A terceira, nas causas dos satélites da
URSS na Europa de Leste, mais precisamente nas revoluções aí ocorridas no ano
de 1989. Em relação ao primeiro caso, uma corrente interpretativa, designada de
"triunfalista", defende que os Estados Unidos venceram a Guerra
Fria, destruindo a sua Némesis, a União Soviética. Para eles, a administração
Reagan provocou o fim do conflito bipolar ao acelerar o colapso soviético
através da adoção de uma política externa ofensiva destinada a explorar as
fragilidades de Moscovo, supostamente conhecidas em Washington, como, por
exemplo, levando a cabo um programa de rearmamento maciço, lançando a
Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI, na sigla em inglês) e apostando numa
retórica mais contundente e neo-wilsoniana. Os "triunfalistas"
consideram que foi a combinação desta política ambiciosa, que conjugava poder
militar e ideologia com a incapacidade do Kremlin de acompanhar o ritmo dos
gastos em defesa e a competição tecnológica que levou à implosão da URSS5.
Outra corrente reverte a visão dos "triunfalistas" e sustenta que
as políticas mais duras de Reagan levaram antes a um adiamento do fim da Guerra
Fria, pois a retórica anticomunista, o SDI e os aumentos dos gastos na área
militar tornaram mais difícil a Gorbachev seguir um caminho de aproximação com
o Ocidente, sobretudo devido à reação da ala mais conservadora do Politburo,
crescentemente crítica do caminho escolhido pelo secretário-geral do Partido
Comunista da União Soviética (PCUS). Em resumo, segundo esta perspetiva, a
linha ofensiva do presidente norte-americano acabou por reforçar os setores
mais ultra em Moscovo, retirando apoio interno a Gorbachev para seguir as suas
políticas reformistas e, logo, impedindo a Guerra Fria de acabar antes6. Apesar
destas diferenças, as três visões têm em comum a defesa da existência de uma
política de linha dura por parte da administração de Ronald Reagan, mesmo que
chegando a conclusões diferentes sobre o impacto desta na implosão soviética e
no consequente fim da Guerra Fria7. A segunda grande escola de pensamento
desloca a atenção para a URSS, considerando que não foi Washington que venceu o
conflito bipolar, mas sim Moscovo que o perdeu ao implodir, sobretudo por três
motivos: as políticas de Gorbachev, o expansionismo excessivo no Terceiro Mundo
a partir de década 1970 e o colapso da sua economia8. Em relação ao primeiro
motivo, como escreveu Tony Judt só um comunista podia "abater" a
URSS. Existe um consenso na literatura relativamente ao papel que Mikhail
Gorbachev teve na transformação, primeiro, e implosão, depois, da União
Soviética.
Tendo ascendido ao cargo de secretário-geral do PCUS com apenas 41 anos, cerca
de menos 20 do que os seus antecessores, e tendo viajado pela Europa Ocidental
durante a década de 1970, o novo líder do Kremlin estabeleceu desde o início
como prioridade a "revisão da moribunda economia" do país9. Com
esse propósito, lançou a Perestroika,uma política de transformação gradual e
limitada da economia de planeamento centralizado em uma com elementos de
mercado, cujo momento seminal foi a aprovação da Lei de 1986 sobre a Atividade
Laboral Individual que permitiu a iniciativa privada de pequena escala.
Todavia, ele rapidamente percebeu que o problema da economia não era mais do
que um sintoma de um problema maior e que só podia ser resolvido por uma
reforma política, a começar pelo PCUS. Como já foi escrito, "Para o
Partido reformar a economia, teria primeiro de se reformar a si mesmo."
Assim, deu início à Glasnot, uma abertura política traduzida essencialmente no
incentivo à discussão pública de um conjunto restrito de tópicos e, mais
importante de tudo, na democratização do partido comunista através de eleições
internas (maio/junho de 1989), de forma a isolar os setores mais conservadores
e quebrar o seu bloqueio. Ora, foi justamente o efeito da conjugação da
Perestroikae da Glasnostno sistema soviético que levou ao colapso do país: o
comunismo, pelo menos na URSS, não era reformável10. Outro motivo muitas vezes
avançado é o excessivo expansionismo da União Soviética no Terceiro Mundo,
sobretudo a partir da década de 1970, altura em que os seus dirigentes pensavam
que "o vento soprava a seu favor"11 . Os anos que se seguiram foram
de avanço de Moscovo um pouco por toda a periferia do sistema internacional,
levando mesmo à generalização da ideia de que estava a ganhar a Guerra Fria. Em
1975, os seus aliados venceram no Vietname e em Angola, contando com um forte
apoio do Kremlin, traduzido no segundo caso no fornecimento ao MPLA de centenas
de toneladas de armamento pesado, tal como tanques T-33 e T-54, mísseis
antitanque sam-7 e aviões Mig-21, para além de ter inaugurado uma nova forma de
travar a Guerra Fria com os Estados Unidos: o recurso aos cubanos. No final de
1977, quando a Etiópia se envolveu num choque militar com a Somália por causa
da disputa em torno do deserto do Ogaden, a URSS transportou por via aérea e
terrestre entre 12 a 15 mil tropas cubanas para a Etiópia e forneceu mais de
mil milhões de dólares em armamento. Em 1978-79, foi estabelecido um regime
pró-soviético no Iémen do Sul, o que por sua vez deslocou o tradicionalmente
mais moderado Iémen do Norte para uma relação mais próxima com Moscovo. E, em
1979, Moscovo invadiu o Afeganistão12. Finalmente, alguns autores sublinham em
especial a dimensão económica, nomeadamente a persistente crise da economia
soviética e o impacto nesta última da renovada corrida aos armamentos. A
riqueza do país, que mal crescera durante um período longo de tempo, estava
agora a retroceder. A dívida pública estava descontrolada, totalizando 54 mil
milhões de dólares em 1989. O volume de produção era qualitativamente atrasado
e quantitativamente inadequado. A combinação de objetivos do planeamento
central arbitrariamente estabelecidos com a escassez endémica e a ausência de
indicadores de preço paralisavam toda a iniciativa13. Este já muito frágil
edifício foi definitivamente abalado pela agressiva política de rearmamento da
administração Reagan. Como afirmou Gorbachev perante o Politburo, "se uma
nova corrida aos armamentos começar, a pressão sobre a nossa economia será
inacreditável"14. A terceira escola de pensamento centra-se nas causas
localizadas nos satélites soviéticos da Europa de Leste. Segundo esta
perspetiva, as revoluções de 1989, que culminaram na "queda dos
muros", tiveram um papel relevante na implosão da URSS15. De facto,
"a narrativa convencional do colapso final do comunismo começa com a
Polónia"16. Na viragem de 1988 para 1989 iniciou-se a chamada
"Segunda Revolução Polaca", uma vez mais na sequência do
agravamento da situação económica, que desencadeou um movimento maciço de
protesto, traduzido em greves, paralisações e ocupações. Ao contrário do que
tinha sucedido no passado, onde, por regra, as autoridades recorriam à força,
desta vez decidiram negociar com a oposição, dando início a uma
"revolução negociada" e que serviu de modelo para a maioria (mas
não todos) dos satélites soviéticos da Europa de Leste. Em primeiro lugar,
legalizaram a oposição, neste caso concreto o "Solidariedade",
permitindo a existência de interlocutores legitimados entre os que se opunham
ao regime. Depois, iniciaram o processo de negociação, que ficou conhecido por
"mesa-redonda", tendo as partes chegado a acordo sobre um conjunto
abrangente de temas, com destaque para a eleição de uma nova Assembleia. Em
junho de 1989, realizaram-se as primeiras eleições parcialmente livres, tendo o
"Solidariedade" ganho no Senado todos os lugares exceto um (99 em
100) e a totalidade dos que lhe foi permitido concorrer na Assembleia
Parlamentar. Três meses depois tomava posse Tadeusz Mazawiecki, o primeiro
primeiro-ministro não comunista na Europa de Leste desde 1940. Finalmente, em
janeiro de 1990, foi dissolvido o partido comunista17. Os restantes casos
tiveram vários elementos comuns com o exemplo polaco. Em todos existiu um
"contágio" do precedente aberto pela Polónia, tendo as imagens
televisivas dos acontecimentos nesse país funcionado como um catalisador
decisivo18. Na maioria deles foi seguido o modelo polaco: legalização de
partidos políticos, negociações com a oposição no formato "mesa-
redonda", realização de eleições, tomada de posse de um novo governo,
abolição do partido comunista. Mas existiram também vários elementos
específicos. Na Hungria, houve uma transição conduzida pelos próprios
comunistas depois do golpe interno no partido no poder levado a cabo pelos
jovens reformistas, inspirados pelo exemplo de Gorbachev, que afastaram o
septuagenário Kadar. Na República Democrática Alemã (RDA), que foi
decisivamente influenciada pelos desenvolvimentos húngaros, nomeadamente pela
abertura (informal) da fronteira austro-húngara em setembro de 1989, por onde
passaram dezenas de milhares de cidadãos do Leste com o objetivo de chegarem à
rfa, assistiu-se à única verdadeira revolução popular, tendo o comunismo e o
muro sido derrubados pelas grandes manifestações nas ruas das principais
cidades do país. Na Checoslováquia, assistiu-se a um processo misto, combinando
elementos de revolução popular (a "revolução de veludo"), e de
transição política, destacando-se o papel desempenhado por redes e grupos
sociais informais, como o "clube John Lennon", as "Mães de
Praga" e o "Fórum Cívico", bem como pelos estudantes. Os
casos da Bulgária e da Roménia tiveram elementos semelhantes ao da Hungria,
tendo o processo sido iniciado, e no essencial conduzido, pelos próprios
comunistas depois de um "golpe palaciano" que afastou as lideranças
de Zhivkov e Ceausescu, respetivamente. Porém, especialmente no último exemplo,
conheceram níveis de viol&ecir c;ncia muito superiores, incluindo a execução do
líder romeno no dia de Natal de 198919. Como é sabido, existiram ao longo de
toda a Guerra Fria várias revoltas nos satélites soviéticos, sendo que as
primeiras ocorreram muito pouco tempo após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Então, por que razão, em 1989, tudo foi diferente? A explicação pode ser
encontrada em três motivos fundamentais. Primeiro, pela decisão de Gorbachev de
abandonar a "Doutrina Brejnev", que para todos os efeitos dotava a
URSS de um direito de intervenção militar nos países do Pacto de Varsóvia onde
os regimes comunistas e subordinados a Moscovo estivessem ameaçados por
subversões internas. Segundo, pelo incentivo dado por Gorbachev a uma
Perestroikae uma Glasnostna Europa de Leste, tendo o secretário-geral do PCUS
se empenhado em convencer os dirigentes locais a levarem a cabo processos de
reforma económica e política semelhantes aos da União Soviética. Terceiro, pela
grave crise económica e social que existia à época nos vários países, com
destaque para os que se tinham endividado mais no Ocidente, como a Polónia, a
Hungria e a Bulgária. Mas, tudo somado, apesar da existência de elementos
internos relevantes nos vários Estados da Europa de Leste, o fator decisivo
esteve na URSS. Como escreveu um autor, em última análise "era sempre
Moscovo que contava" e 1989 foi "a revolução de Gorbachev"20.
OS ESTADOS UNIDOS E O FIM DA GUERRA FRIA
No que diz respeito aos Estados Unidos, o fim da Guerra Fria aparece
maioritariamente associado às administrações Reagan e Bush. Mas qual o foi
papel destes dois presidentes? Qual foi decisivo? A versão dominante é a de que
a combinação da dimensão ideológica com uma política externa ofensiva,
sobretudo ao nível dos armamentos estratégicos, durante os anos de Ronald
Reagan foi decisiva para o resultado final do conflito bipolar. Dito de uma
forma mais simples: Reagan ganhou a Guerra Fria. Contudo, não se devendo
desvalorizar estes elementos, a realidade é mais matizada e o presidente em
questão não levou a cabo uma política igual do princípio ao fim do seu mandato
relativamente à União Soviética, sendo possível identificar em traços gerais
dois momentos distintos: entre 1981 e 1984, ele adotou uma política de
confronto geopolítico e ideológico com Moscovo; a partir daí procurou uma
diminuição da tensão na relação entre as superpotências, tendo mesmo negociado
os mais ambiciosos programas de redução de armamentos nucleares21. Durante a
sua campanha para a Casa Branca e nos seus primeiros anos de presidência,
Ronald Reagan e os seus conselheiros acreditaram, e fizeram questão de frisar,
que o aumento das capacidades soviéticas e da sua influência geopolítica
colocavam a segurança norte-americana em maior perigo do que em qualquer outro
momento no pós-Segunda Guerra Mundial22. Os factos pareciam comprovar esta
perspetiva. A queda da Indochina em 1975 foi seguida pela débâcleangolana, por
graves divisões internas depois da crise presidencial provocada pelo escândalo
"Watergate" e pela expansão da URSS um pouco por toda a periferia
do sistema internacional. Tropas cubanas espalhavam-se desde Angola até à
Etiópia. O Cambodja foi invadido pelo Vietname, aliado de Moscovo. O
Afeganistão estava ocupado por mais de 100 mil militares soviéticos. No Irão,
uma revolução islâmica depôs o governo pró-americano do Xá, tendo o novo regime
mantido como reféns 52 americanos. "Quaisquer que fossem as causas, os
dominós pareciam, de facto, estar a cair."23 Face ao que era percecionado
como uma séria ameaça soviética à segurança dos Estados Unidos, a administração
Reagan adotou uma política com três frentes, mas com um objetivo central:
recuperar a superioridade estratégica norte-americana. Para isso, ela
apresentou o maior orçamento de defesa de sempre em tempo de paz, procurou
desestabilizar a URSS através de uma "guerra económica" e reforçou
significativamente o apoio às forças nacionais que se opunham a Moscovo em
várias partes do mundo, como os Mujahedeens no Afeganistão, a UNITA em Angola,
os "Contra" na Nicarágua, para além de movimentos como o polaco DE
"Solidariedade" na Europa de Leste24. Central nesta política foi o
desenvolvimento de uma nova geração de armamentos estratégicos. Desde logo os
mísseis balísticos MXA (míssil balístico intercontinental terrestre) e Trident
II(míssil balístico intercontinental. lançado a partir de submarino). Também um
novo bombardeiro, o B-2, de uso dual - nuclear e convencional - com
capacidade de voar a baixa altitude e equipado com mísseis de cruzeiro, para
além da recuperação do B-1. E, ainda, a atualização do submarino nuclear Orion.
Mas as duas decisões estratégicas fundamentais foram a colocação de mísseis de
médio alcance na Europa e a Iniciativa de Defesa Estratégica25.
Logo no primeiro ano do seu mandato, Reagan decidiu dar prosseguimento à
decisão tomada ainda durante os anos de Jimmy Carter de enviar mísseis para a
Europa Ocidental no quadro da nato, o que foi concretizado em 1983 com a
colocação de mísseis balísticos Pershing IIe mísseis de cruzeiro Tomahawkem
vários países europeus, com destaque para a RFA. O objetivo imediato era o de
inverter a suposta superioridade estratégica soviética na Europa,
contrabalançando os seus mísseis ss-20. Porém, a decisão visava também manter a
unidade da Aliança Atlântica, abalada pelos receios europeus de um menor
compromisso americano na defesa do continente num eventual conflito com a URSS
devido ao projeto do SDI. Finalmente, os chamados "euromísseis"
destinavam-se ainda a evitar os sintomas de crescente nacionalismo e
neutralismo alemão, particularmente visíveis no SPD depois do afastamento de
Helmut Schmidt26. Em simultâneo, o governo norte-americano avançou com a
Iniciativa de Defesa Estratégica, mais conhecida como "Guerra das
Estrelas", que visava a criação de um escudo antimíssil capaz de conter a
força nuclear soviética. A ter sucesso, a sdi significaria uma verdadeira
rutura estratégica, fazendo com que um primeiro ataque americano fosse
exequível ao tornar o seu território praticamente inexpugnável. Porém, não só
tal nunca foi consensual entre os especialistas, como surgiram várias críticas
de outra natureza. Por exemplo, Richard Betts defendeu que a SDI era ineficaz
pois o poder nuclear da URSS conseguiria sempre saturar o "escudo
antimíssil". Para Robert Osgood, o sistema apresentava poucas vantagens e
muitos perigos, destruindo o Tratado abm e a política de controlo de
armamentos. Do lado dos defensores do projeto, Henry Kissinger escreveu que ele
aumentava a capacidade de dissuadir a União Soviética porque ampliava os seus
riscos de iniciar uma guerra nuclear27. A curto prazo, os críticos pareceram
ter razão. Como resposta à Iniciativa de Defesa Estratégica, bem como aos
"euromísseis", o Kremlin rompeu as negociações inf (Intermediate
Nuclear Force) e START (Strategic Arms Reduction Talks). Segundo Beth Fischer,
"no final de 1983, as relações entre as superpotências eram mais hostis
do que em qualquer outro período desde a crise dos mísseis de Cuba"28.
Porém, a médio prazo estas políticas contribuíram para o renovado interesse
negocial da URSS dada a sua incapacidade económica para uma redobrada corrida
militar. Mas a administração Reagan não olhava para o conflito com Moscovo
apenas numa perspetiva geopolítica. Para ela, a ideologia era uma variável
fundamental da ameaça soviética, e logo também da forma de lidar com ela, dadas
as profundas e irreconciliáveis diferenças entre a democracia liberal e o
comunismo. A sua abordagem neste plano era "uma versão
simplificada" do pensamento de Woodrow Wilson, "enraizada na utopia
americana" e traduzida na forma de "uma luta entre o bem e o
mal"29. Contudo, acreditando na existência de um direito natural e
universal à liberdade e na missão do seu país de defendê-lo em todos os
continentes, "do Afeganistão à Nicarágua", Reagan levou a
"Doutrina Wilson" até às últimas consequências. A América
"não esperaria passivamente que as instituições livres se desenvolvessem,
nem se limitaria a resistir a ameaças diretas à sua segurança", antes
iria promover "de forma ativa a democracia, recompensando os países que
cumprissem os seus ideais e punindo aqueles que não o fizessem"30. Como
não podia deixar de ser, inicialmente esta ideia de uma competição ideológica,
a par com a geopolítica, levou a um sério agravamento das relações entre as
superpotências. Mas Reagan estava longe de defender que o conflito era a única
alternativa. Pelo contrário, ele acreditava que seria capaz de converter o
adversário, levando-o a reconhecer que a sua filosofia política estava errada
e, uma vez ultrapassada a rivalidade ideológica, a disputa pelo poder entre as
superpotências acabaria. A retórica do presidente americano baseava-se
sobretudo na esperança de uma progressiva democratização da URSS, o que levaria
a uma melhoria relevante no relacionamento Leste-Oeste31. Todavia, no início de
1984, começou um segundo momento do governo Reagan. No dia 16 de janeiro, num
discurso sobre as relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, ele
anunciou a inauguração de uma nova política, designada de realistic
reengagement, baseada na cooperação e no entendimento entre os dois países32.
Esta tinha dois grandes objetivos. Antes de tudo, e mais importante, reduzir o
enorme volume de armamentos estratégicos, diminuindo assim o risco de guerra
total, principalmente de um conflito nuclear. Depois, terminar com os muitos
conflitos regionais, da Ásia Central, a África, passando pela América Central.
O presidente norte-americano deixou então de denunciar as políticas
expansionistas de Moscovo e passou a afirmar que as superpotências
"deviam analisar juntamente ações concretas que pudessem tomar para
reduzir o confronto" nas várias partes do mundo33. Uma explicação para a
alteração da política soviética dos Estados Unidos reside no facto de as
estratégias ofensivas levadas a cabo entre 1981 e 1983 terem conduzido a um
clima de hostilidade com poucos precedentes, sem qualquer ganho significativo
para os dois países. Contra o que sustenta a escola triunfalista, dominante
durante vários anos, têm surgido mais recentemente estudo s críticos que
defendem justamente que as políticas do primeiro mandato de Ronald Reagan não
tiveram muito êxito. A sua retórica e atuação duras reforçaram os setores mais
radicais na URSS, criaram tensões dentro da Aliança Atlântica e contribuíram
para o fortalecimento de alguns movimentos antiamericanos na Europa Ocidental.
Para agravar, a sua política para o Terceiro Mundo não só não conseguiu muitos
novos aliados, como acabou por estar na base de uma grave crise quando, em
1986, foi revelado publicamente que a administração estava a fornecer apoio aos
anticomunistas na Nicarágua, violando a proibição imposta pelo Congresso, ao
mesmo tempo que vendia armas para o Irão com o intuito de financiar aquela
operação secreta e de conseguir a libertação dos reféns norte-americanos no
Líbano34.
Outra explicação para a mudança está no facto de a própria URSS ter mudado. A
ascensão de Gorbachev ao poder, para além das reformas internas já referidas,
significou não apenas a existência de um interlocutor do outro lado do muro,
mas também uma profunda revisão da política externa soviética, traduzida em
quatro objetivos ambiciosos. Primeiro, sair do Afeganistão, o que levou o
Kremlin a começar um processo negocial, sob os auspícios da onu, que culminou
numa série de acordos, na primavera de 1988, prevendo a retirada das tropas
para o início do ano seguinte. Segundo, reduzir os compromissos um pouco por
todo o Terceiro Mundo, de Angola à Nicarágua, passando, por via indireta, pelo
Iémen do Sul e pelo Cambodja35. Terceiro, como já foi dito, acabar com a
"Doutrina Brejnev", deixando claro aos líderes comunistas da Europa
de Leste que não haveria mais intervenções militares de Moscovo e que cada um
era livre de seguir a sua própria via36. Quarto, reduzir substancialmente o
armamento nuclear, quer por razões económicas, quer pelo seu receio de que
"a Guerra Fria se tornasse quente", mesmo que por mero erro de
cálculo ou acidente.37Importa sublinhar que o segundo momento do governo de
Ronald Reagan não se deveu apenas às mudanças no Kremlin, o que, de resto, pode
ser visto desde logo pelo simples facto de a data do seu início ser anterior a
Gorbachev se tornar secretário-geral. Além disso, sabemos hoje que apenas
quatro meses depois do seu discurso do eixo do mal o presidente norte-americano
enviou uma carta escrita à mão ao então líder soviético, Yuri Andropov,
sugerindo conversações e oferecendo uma comunicação ao mais alto nível e de
caráter privado entre ambas as partes. Contudo, Reagan não encontrou nessa
altura um interlocutor no Kremlin, o que muito se deveu às várias mudanças de
liderança. Nos primeiros quatro anos na Casa Branca, e antes que Gorbachev
chegasse ao poder, a URSS teve três secretários-gerais - Brejnev,
Andropov e Chernenko - que, por motivos de saúde, estiveram muito pouco
tempo em funções38. Mas Gorbachev fez a diferença, desde logo no campo
essencial dos armamentos estratégicos. Como o próprio afirmou em 1987, um dos
principais objetivos do seu governo era conseguir um extenso acordo com os EUA
sobre os respetivos arsenais nucleares39. Para além dos motivos já enunciados,
tal deveu-se à sua convicção, partilhada por Reagan, de que a dissuasão baseada
no conceito de "Destruição Mútua Assegurada" não fazia sentido
quando os dois lados tinham armas nucleares suficientes para resistirem a um
ataque e retaliar em proporções ainda assim apocalípticas40. O ponto de viragem
deu-se na Cimeira de Reiquiavique. Em outubro de 1986, os líderes das duas
superpotências encontraram-se na capital islandesa e chegaram a um acordo de
princípio sobre a redução das forças estratégicas em cinco anos e a destruição
de todos os mísseis balísticos em dez anos. Reagan chegou mesmo a afirmar que
estava preparado para aceitar a proposta de Gorbachev de eliminar todas as
armas nucleares. Contudo, o acordo falhou à última hora por causa da
insistência soviética em ligá-lo ao abandono, por parte dos norte-americanos,
da Iniciativa de Defesa Estratégica.
Mas Reiquiavique estabeleceu um clima de diálogo que iria durar até ao fim da
Guerra Fria. A seguir ao encontro na Islândia, a URSS alterou a sua posição e
deixou de exigir que um acordo sobre o SDI fosse um pré-requisito para o avanço
das negociações. Os Estados Unidos, por seu lado, avançaram com a redução das
suas forças estratégicas em 50 por cento. E, em dezembro de 1987, na Cimeira de
Washington, os dois países assinaram o Tratado INF (Intermediate-Range Nuclear
Forces) que estabelecia a eliminação dos mísseis de alcance intermédio41. O
novo estado das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética ficou
retratado de forma exemplar no encontro entre os líderes dos dois países em
Moscovo, na primavera de 1988. De acordo com as transcrições das conversas
então mantidas, Ronald Reagan expressou apoio a Gorbachev e às suas políticas
e, num comportamento pouco usual neste tipo de situações, chegou a tentar
persuadi-lo da existência de Deus42. Já na conferência de imprensa dada ainda
em Moscovo, o presidente norte-americano disse aos jornalistas que tinha mudado
a sua perceção da URSS devido a Gorbachev, que ele achava diferente de todos os
anteriores dirigentes do Kremlin, confidenciando ainda que tinha lido o livro
Perestroikae concordava com muitas das coisas escritas nele43. Indo ainda mais
longe nas suas declarações, confrontado com a questão se a Guerra Fria tinha
terminado, Reagan, depois de um momento de hesitação, respondeu que naquele
momento, de facto, a Guerra Fria tinha acabado44. Mas se a narrativa
convencional da escola de pensamento que considera que a Guerra Fria terminou
maioritariamente devido a causas norte-americanas é a de que tal se deveu
sobretudo a Ronald Reagan, vários autores não esquecem George H. Bush. Por
exemplo, para Beth Fischer, Bush desempenhou igualmente um papel importante
neste contexto ao apoiar Gorbachev e ao manter o bom relacionamento entre as
superpotências, resistindo à tentação de fomentar a queda da URSS, o que
tornou, apesar de tudo, a vida menos difícil ao líder soviético para prosseguir
com as suas reformas durante mais algum tempo45. De facto, coube a este
presidente gerir a fase final do conflito bipolar, bem como fazer a transição
para o pós-União Soviética, tendo de lidar com problemas tão difíceis e
perigosos quanto a queda do muro de Berlim e a subsequente reunificação alemã,
as ondas de choque da implosão da URSS nas suas antigas repúblicas e satélites
da Europa de Leste, o que fazer com os arsenais nucleares espalhados por mais
do que um país, sem esquecer outra dinâmica distinta, mas igualmente séria e
interligada, como seja o colapso da Jugoslávia. Depois de inicialmente ter
colocado as relações com Moscovo "em espera", quer pela
desconfiança que ainda tinha relativamente às intenções de Gorbachev, quer por
ter decidido levar a cabo uma profunda revisão da política externa dos eua,
consciente dos vários perigos a administração Bush adotou uma estratégia
cautelosa, defendendo uma mudança controlada e gradual em todo o bloco
comunista. Para isso, acreditava o presidente norte-americano, era vital que a
URSS se mantivesse unida e a posição de Gorbachev permanecesse forte, razão
pela qual acabou por dar-lhe todo o apoio possível46.
Todavia, a velocidade das mudanças que aconteceram na Europa de Leste,
primeiro, e na própria União Soviética, depois, alterou completamente a equação
de Washington, bem como a de Moscovo, merecendo um especial destaque a questão
da reunificação alemã, pois se nos outros casos o papel Estados Unidos foi
secundário, na Alemanha foi o principal, a par com o de Helmut Kohl47.
Compreendendo rapidamente o novo ambiente, sobretudo depois de 58% dos alemães
ocidentais se ter pronunciado a favor de uma Alemanha unida e neutral numa
sondagem de fevereiro de 1990, precisamente o que os norte-americanos mais
temiam, a administração Bush decidiu dar um "apoio total" à
reunificação48. Nesse mesmo mês, num encontro em Camp David, Bush, o secretário
de Estado, James Baker e Kohl alinharam o plano para a Alemanha49. Ficou
decidido que as conversas deviam envolver os dois Estados alemães num fórum
quadripartido e não no âmbito da Conferência de Segurança e Cooperação na
Europa (CSCE). O presidente dos Estados Unidos deixou ainda claro que, para o
seu país, a continuação da Alemanha na nato era fundamental e condição ao seu
apoio. Foi também acordado que a URSS devia estar envolvida nas negociações mas
sem poder bloquear o processo, além de que as conversas com Gorbachev seriam
feitas diretamente por George H. Bush50. Ainda em fevereiro, os Estados Unidos
puseram em marcha este plano. Baker convenceu os líderes do Reino Unido, da
França, da União Soviética e das duas Alemanhas a participar nas chamadas
conversações "dois mais quatro" para analisarem o futuro da
Alemanha. Seguiram-se cinco meses de intensa atividade diplomática, incluindo
uma reunião de cúpula entre Washington e Moscovo para convencer Gorbachev a
aceitar a unificação e a continuação dos alemães na NATO, bem como vários
encontros com Londres e Paris51. Não foi fácil convencer soviéticos, britânicos
e franceses a aceitarem a reunificação alemã, tendo aqui o papel de Bush
- e Kohl - sido decisivo. A estratégia passou por convencer em
primeira instância o Reino Unido, recorrendo à "relação especial" e
ao facto de que Thatcher "nada tinha a propor como alternativa".
Seguiu-se a França, que só cedeu a muito custo e em troca do compromisso de
Helmut Kohl de inserir a Alemanha no seio de uma união "mais estreita do
que nunca", o que se traduziu na criação da União Europeia, em
Maastricht, em fevereiro de 199252. Faltava a URSS. O essencial das negociações
com os soviéticos ocorreu à margem dos "dois mais quatro",
nomeadamente em encontros bilaterais envolvendo numa geometria variável três
atores-chave: Bush, Gorbachev e Kohl. O ponto mais difícil era o da inclusão,
ou não, da Alemanha unificada na NATO. O Kremlin exigiu que o futuro Estado
alemão fosse neutro, ou alternativamente parte da Organização do Tratado do
Atlântico Norte e do Pacto de Varsóvia. Além disso, ele insistiu que a
reunificação só ocorresse no quadro mais vasto de uma "casa
europeia" inserida na CSCE. Por fim, as fronteiras tinham de ser
garantidas e o estatuto alemão estabelecido e reconhecido através de um tratado
internacional53. No final, Bush e Kohl conseguiram convencer Gorbachev de que
não tinha outra escolha que não aceitar a unificação alemã e a sua presença na
NATO. Efetivamente, o que o líder soviético "pôde fazer foi,
literalmente, estabelecer um preço para as suas concessões", mostrando-se
"recetivo à persuasão financeira": esta custou 71 mil milhões de
dólares54. O acordo final sobre a Alemanha foi assinado pelos ministros dos
Negócios Estrangeiros dos "dois mais quatro", a 12 de setembro de
1990, em Moscovo. A respeito deste resultado final, George H. Bush escreveu:
"em menos de um ano nós realizamos a mais profunda mudança na política e
na segurança europeia em muitos anos, sem confrontação, sem ter dado qualquer
tiro (…). Provavelmente não haverá outro tempo na história onde eventos de tal
magnitude ocorrerão sem conflito. (…) Estou convencido de que se os Estados
Unidos tivessem ficado à margem, os resultados poderiam ter sido
desastrosos."55
CONCLUSÃO
Numa síntese certeira, Raymond Garthoff escreveu: "(…) o Ocidente e,
sobretudo, o papel americano no fim da Guerra Fria foi necessário, mas não
fundamental"56. Efetivamente, apesar de terem participado no desfecho do
conflito bipolar, tanto Reagan como Bush foram atores secundários, o que se
explica pelo facto de os próprios Estados Unidos terem tido um papel
relativamente pequeno na revolução de 1989/1991. É certo que há várias decisões
tomadas pelo governo norte-americano que contribuíram para o colapso da URSS.
Desde o início de uma nova corrida aos armamentos estratégicos, que esta não
podia acompanhar económica e tecnologicamente, até a auxílio às forças
anticomunistas nos países clientes de Moscovo, da Nicarágua ao Afeganistão (na
célebre expressão de Reagan), passando pelo amplo financiamento dado ao
"Solidariedade" na Polónia e pelo apoio oficial aos manifestantes
nas ruas de Berlim e de outras cidades da Europa de Leste. Contudo, dito de
forma simples, não foram os Estados Unidos que ganharam a Guerra Fria mas sim a
URSS que a perdeu. E aqui Gorbachev foi o grande protagonista. Como defendeu
Tony Judt, apesar dos custos da corrida aos armamentos, do desastre do
Afeganistão e das sublevações europeias, "não havia nenhuma autoridade
compensadora, nenhum movimento dissidente - quer na União Soviética, quer
nos Estados seus clientes - que a tivesse podido abater. Só um comunista
o poderia fazer. E foi um comunista que o fez." Gorbachev levou a cabo a
Perestroikae a Glasnostpara salvar a URSS, mas, ironicamente, foi essa
tentativa de reforma que a fez implodir57. Os Estados Unidos foram fundamentais
não no fim mas no pós-Guerra Fria. Foram-no, como vimos, desde logo no processo
de reunificação alemã. Mas, mais importante ainda, a transição do sistema
internacional bipolar para o unipolar, restando apenas a América como única
superpotência e com uma concentração de poder só comparável historicamente ao
império romano, fez com que Washington tivesse mais do que nunca em condições
de definir o mundo que queria ter. A grande questão do pós-1989/91 era o que os
Estados Unidos pretendiam fazer com o novo poder esmagador. O primeiro esboço
de resposta surgiu a 1 de outubro de 1990. Nesse dia, num discurso na onu,
George H. Bush anunciou o que chamou de nova ordem mundial, cujo conteúdo se
inscrevia no quadro de uma estratégia conservadora de manutenção do status
quointernacional, ou seja, de preferência pela ação multilateral, de
valorização das organizações internacionais - incluindo a subordinação da
ação externa dos Estados Unidos ao Conselho de Segurança da onu - e de
respeito pelo direito internacional58. Esta orientação estratégica conservadora
foi seguida pela administração Bill Clinton, ainda que com a introdução de
algumas variantes importantes. Desde logo, uma visão pós-soberanista das
relações internacionais, refletida nas intervenções humanitárias na Somália
(embora esta tivesse começado por ser uma decisão de George Bush, ainda que com
uma natureza diferente daquela que veio a adquirir), na Bósniae no Kosovo.
Depois, uma nova doutrina, designada de "Alargamento"
(Enlargement), definida por Anthony Lake, o conselheiro de segurança nacional
de Clinton, como "o alargamento da comunidade mundial das democracias de
mercado" e que se traduziu em concreto na expansão do modelo democrático
liberal à escala global e no alargamento da NATO, bem como da União Europeia
com o apoio de Washington, a vários países do antigo bloco soviético, aspeto
decisivo da ordem europeia no pós-colapso do comunismo. Ainda uma conceção
mitigada do multilateralismo, traduzido na famosa declaração de Madeleine
Albright "Act multilaterally if we can, act unilaterally if we
must."59Também uma menor subordinação da ação norte-americana à onu, como
prova a intervenção militar no Kosovo sem mandato do Conselho de Segurança (por
oposição da Rússia e da China). Finalmente, a não exclusão da adoção de uma
política de "Mudança de Regime" (Regime Change) no Iraque, ainda
que ela não tenha chegado a ser posta em prática, apesar da operação militar
Desert Foxem 199860. Os ataques às Torres Gémeas e ao Pentágono, a 11 de
setembro de 2001, marcaram uma profunda mudança na política externa norte-
americana, com a adoção de uma orientação estratégica revisionista. A nova
política de alteração da ordem internacional ficou consagrada na Estratégia de
Segurança Nacional de 2002, mais conhecida por "Doutrina Bush", que
introduziu um conjunto de conceitos em larga medida contrários à visão de
relações internacionais dos Estados Unidos pelo menos desde 1945: o
unilateralismo, que substituiu a preferência pelo multilateralismo; a
"guerra preventiva", que substituiu o conceito tradicional de
"contenção"; as "coligações variáveis", em substituição
das "coligações institucionais" ou "permanentes"; a
subalternização das Nações Unidas e do Direito Internacional à liberdade de
ação dos Estados Unidos; a "Mudança de Regime" pela força, com o
seu extremo de democratização do grande Médio Oriente, a começar pelo Iraque61.
A partir de 2006, a América regressou à orientação conservadora, ainda que com
uma variante de retraimento estratégico, traduzida, por exemplo, no início do
processo de saída do Iraque. Embora isso tenha acontecido ainda durante o
mandato de George W. Bush (com a Estratégia de Segurança Nacional 2006),
acentuou-se após a eleição de Barack Obama. Inscrevendo-se na escola
"declinista", segundo a qual estamos a assistir a uma nova
transição de poder no sistema internacional, agora da unipolaridade para a
multipolaridade, em resultado da combinação do declínio relativo dos Estados
Unidos com a "ascensão do resto", destacando-se aqui a China, a
administração Obama adotou uma Grande Estratégia de Offshore Balancingtraduzida
numa significativa redução do perímetro de envolvimento norte-americano no
exterior, agora limitado às três regiões estrategicamente vitais para
Washington, como sejam, a Europa, o Nordeste Asiático e o Golfo Pérsico, bem
como no abandono da preferência pela colocação do seu poder militar Inshore62.
A grande questão que se coloca na atualidade é então a de saber se estamos a
assistir a uma nova transição de poder e qual o seu impacto na ordem
internacional liberal estendida à escala global pelos Estados Unidos após a
implosão da União Soviética63.
Data de receção: 7 de julho de 2014
Data de aprovação: 29 de agosto de 2014
NOTAS
1
KISSINGER, Henry - Diplomacia, 3ª edicao, Lisboa: Gradiva, 2007, p. 666.
2
A este respeito, ver, por exemplo: GARTHOFF,Raymond - A Journey Through
theCold War: A Memoir of Containment and Coexistance, Nova Iorque, Brookings
Institution, 2001
3
HASS, Mark L. - The Ideological Originsof Great Power Politics, 1789-
1989,Ithaca, Cornell University Press, 2005, p. 176.
4
Como, por exemplo, o Tratado INF (Intermediate Nuclear Force), assinado
durante a Cimeira de Washington de Dezembro de 1987.
5
FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policy under Reagan and Bush"
6
FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policyunder Reagan and Bush".
7
FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policy under Reagan and
Bush", InLEFFLER, Melvyn P. e WESTAD, Odd Arne - The Cambridge
History of The Cold War,Volume 3, Cambridge: Cambridge University Press, 2010,
pp. 267-269.
8
JUDT, Tony - Pos-Guerra.Historia da Europa desde 1945.
9
JUDT, Tony - Pos-Guerra. Historia da Europa Desde 1945, Lisboa, p. 672
10
JUDT, Tony - Pos-Guerra. Historia da Europa desde 1945,Lisboa, Edicoes
70, 2005, pp. 671-674
11
ANDREW Christopher e MITROKHIN Vasiki - The Mitrokhin Archive II, The KGB
and the Word, Penguin, 2006, p. 24.
12
WESTAD, Odd Arne - The Global Cold War, Third World Interventions and
the Making of Our Time,Cambridge: Cambridge University Press, 2007; GLEIJESES,
Piero - Conflicting Missions: Havana, Washington and Africa 1959-1976,
Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2002.
13
JUDT, Tony - Pos-Guerra. História da Europa desde 1945, 2005, pp. 672-
673
14
ZUBOK, Vladislav M. - "Why did the Cold War end in 1989?
Explanations of "The Turn"", InW ESTAD, Odd Arne (ed.)
- Reviewing the Cold War: Approaches, Interpretations, Theory, Londres,
Frank Cass, 2000, p. 349
15
STOKES, Gale - The Walls Came Tumbling Down. The Collapse of Communism in
Eastern Europe,Oxford, Oxford University Press, 1993.
16
JUDT, Tony - Pós-guerra. Historia da Europa desde 1945.
17
JUDT, Tony - Pós-guerra. Historia da Europa desde 1945, 2005, pp. 661-
666 e 683-686.
18
Para a questão do contágio nas transições de regime ver, em especial:
WHITEHEAD, Laurence, (ed.) - The International Dimensions of
Democratization: Europe and America,Oxford: Oxford University Press, 1996, pp.
2-14; PRIDHAM, Geoffrey - Encouraging Democracy: The International
Context of Regime Transition in Southern Europe, Nova Iorque, St.
Martin's Press, 1991, pp. 2-29.
19
Da vasta literatura sobre as chamadas revoluções da Europa destacamos dois
livros: STOKES, Gale - The Walls Came Tumbling Down.The Collapse of
Communism in Eastern Europe; ASH, Timothy Garton - The Magic Lantern: The
Revolution of '89 Witnessed in Warsaw, Budapest, Berlin, and Prague, Nova
Iorque: Vintage Books, 1993.
20
JUDT, Tony - Pós-guerra. História da Europa desde 1945, pp. 661-666 e
712-713.
21
A mais recente investigação sobre a administração Reagan acentua ainda mais
esta versão, que não e nova, da existência
22
HASS, Mark L. - The Ideological Origins of Great Power Politics, 1789-
1989, p. 194.
23
KISSINGER, Henry - Diplomacia, pp. 666-667. A revolução iraniana não
teve a ver diretamente com a URSS, mas, na lógica de jogo se soma nula da
Guerra Fria, o mero facto de ser uma perda muito importante para Washington fez
dela um ganho para a URSS, não obstante as dificuldades que também colocou a
esta última.
24
GARTHOFF, Raymond - The Great Transition: American-Soviet Relations and
the End of the Cold War,Washington D.C.: Brookings Institution, 1994, p. 29.
25
PAINTER, David S. e BL ANTON, Thomas S. - "The End of the Cold
War", In AGNEW, Jean-Christophe e ROSENZWEIG, Roy (eds.) - A
Companion to Post-1945 America, Malden: Blackwell Publishers, 2002, p. 481.
26
FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policy under Reagan and
Bush", p. 271. Os receios de um crescente nacionalismo e neutralismo
alemão eram só em parte exagerados. Por essa altura, um destacado dirigente do
SPD, Oskar Lafontaine, chegou a defender que a RFA abandonasse o comando
militar integrado da NATO. KISSINGER, Henr y, Diplomacia, p. 687.
27
Ibidem, p. 672.
28
FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policy under Reagan and
Bush", p. 272.
29
KISSINGER, Henry - Diplomacia.
30
KISSINGER, Henry, - Diplomacia, p. 675.
31
HASS, Mark L. - The Ideological Origins of Great Power Politics, 1789-
1989, p. 196.
32
George P. Shultz - Turmoil and Triumph, My Years as Secretary of
State,Nova York: Prentice Hale, 1993.
33
FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policy under Reagan and
Bush", p. 273.
34
Ibidem, pp. 276-278.
35
PAINTER, David S. e BL ANTON, Thomas S. - "The End of the Cold
War", pp. 483-484.
36
O que ficou conhecido como "Doutrina Sinatra", inspirada na
célebre música "My Way" do cantor norte-ame-ricano Frank Sinatra.
BROWN, Archie - "Gorbachev and the End of the Cold War", In
HERRM A NN, Richard K. e LEBOW, Richard Ned (eds.) - Ending the Cold War:
Interpretations, Causation, and the Study of International Relations,Nova
Iorque: Palgrave Macmillan, 2004, pp. 47-49; BROOKS, Stephen e WOHLFORTH,
William C. - "Power, Globalization and the End of Cold War:
Reevaluating a Landmark Case for Ideas", In International Security, Vol.
53, N.º 3, 2000-2001, pp. 3-53.
37
BROWN, Archie - "Gorbachev and the End of the Cold War", pp.
47-48; FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policy under Reagan and
Bush", p. 277.
38
PAINTER, David S. e BL ANTON, Thomas S. - "The End of the Cold
War", p. 482.
39
HASS, Mark L. - The Ideological Origins of Great Power Politics, 1789-
1989,p. 196.
40
FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policy under Reagan and
Bush", p. 277.
41
PAINTER, David S. e BL ANTON, Thomas S. - "The End of the Cold
War", p. 483.
42
MANN, James - The Rebellion of Ronald Reagan: A History of the End of the
Cold War, p. 294.
43
Ibidem, p. 304
44
HASS, Mark L. - The Ideological Origins of Great Power Politics, 1789-
1989, p. 198.
45
FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policy under Reagan and Bush",
p. 287.
46
PAINTER, David S. e BL ANTON, Thomas S. - "The End of the Cold
War", p. 484; FISCHER, Beth A. - "US Foreign Policy under
Reagan and Bush", p. 282.
47
Em rigor, como escreveu Tony Judt, "O mérito pela reunificação da
Alemanha - caso único de fusão numa década de divisão - deve, antes
de mais, ser atribuído a Helmut Kohl." JUDT, Tony - Pós-Guerra.
História da Europa desde 1945, p. 718.
48
JUDT, Tony - Pós-Guerra.História da Europa Desde 1945, p. 721;
WOHLFORTH, William C. (ed) - Cold War Endgame: Oral Histor y, Analysis,
Debates,Pennsylvania State University Press, 2003, p. 49.
49
HAFTTENDORN, Helga - "The Unification of Germany, 1985-
1991".
50
HAFTTENDORN, Helga - "The Unification of Germany, 1985-
1991",InLEFFLER, Melvyn P. e WESTAD, Odd Arne - The Cambridge
History of The Cold War,Volume 3, Cambridge: Cambridge University Press, 2010,
p. 343.
51
Ibidem, pp. 343-346.
52
JUDT, Tony - Pós-Guerra. História da Europa desde 1945, pp. 720-722.
53
HAFTTENDORN, Helga - "The Unification of Germany, 1985-
1991", pp. 347-348.
54
JUDT, Tony - Pós-Guerra. História da Europa desde 1945, pp. 722-723.
Outra concessão feita foi a promessa norte-americana de não alargar a NATO para
Leste, o que, como é sabido, não foi cumprido. GADDIS, John Lewis - The
Cold War,Londres: Penguin Books, 2007, p. 251.
55
BUSH, George e SCOWCROFT, Brent - A World Transformed, Nova Iorque:
Vintage Books, 1998, p. 299.
56
GARTHOFF, Raymond - "Why Did the Cold War Arise, and Why it
End?", In HOGAN, Michael J. (ed.) - The End of the Cold War: Its
Meaning and Implications, Cambridge: Cambridge University Press, 1992, pp. 131-
132.
57
JUDT, Tony - Pós-Guerra. História da Europa desde 1945, p. 671.
58
BUSH, George e SCOWCROFT, Brent - A World Transformed, p. 299; BAKER,
James - The Politics of Diplomacy: Revolution, War and Peace 1989-
1992,Nova Iorque: Perigee, 1995.
59
ALBROGHT, Madeleine - Madam Secreary: A Memoir,Nova Iorque: Miramax
Books, 2003.
60
LAKE, Anthony - From Containment to Enlargement, [Consultado a 12 de
julho de 2014]. Disponível em: https://www.mtholyoke.edu/acad/intrel/
lakedoc.html; CHOLLET, Derek e GOLDGEIER, James - America Between the
Wars: From 11/9 to 9/11, Nova Iorque: Public Affairs, 2008.
61
National Securit y Strategy 2002, [Consultado a 12 de julho de 2014].
Disponível em: http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/nsc/nss/2002/; DA
ALDEER, Ivo e LINDSAY, James - America Unbound. The Bush Revolution in
Foreign Policy, Washington D.C.: Brooking Institution Press, 2003. Para uma
visão contrária ao argumento aqui defendido ver, em especial, LYNCH, Timothy J.
e SINGH, Robert S. - After Bush: The Case for Continuity in American
Foreign Policy, Cambridge: Cambridge University Press, 2008.
62
National Security Strategy 2010; INDYK, Martin S; LIEBERTHAL, Kenneth G. e
O`HANLON, Michael E. - Bending History: Barack Obama´s Foreign Policy.
Washington D.C.: Brookings Institution Press, 2012.
63
Para uma interessante reflexão sobre esta questão, ainda que refletindo apenas
a visão institucionalista liberal, ver: DEUDNEY, Daniel e IKENBERRY, G. Jonh
- Democratic Internationalism. An American Grand Strategy for a Post-
Exceptionalist Era. [Consultado a 12 de julho de 2014]. Disponível em: http://
www.cfr.org/grand-strategy/democratic-internationa-lism-american-grand-
strategy-post-exceptionalist-era/p29417
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
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