A Guerra que começou em Agosto e ia acabar no Natal
RECENSÃO
A Guerra que começou em Agosto e ia acabar no Natal1
Manuela Franco*2
*Diretora do Instituto Diplomático. Diplomata. Investigadora do IPRI-UNL. Foi
secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação do XV Governo
Constitucional.
Cem anos depois da Guerra de 1914, com tantas outras guerras, tantos outros
países feitos e desfeitos, e tantos mais milhares de milhões de caídos,
desaparecidos e mutilados, é impressionante o afã e zelo com que se continua a
escrever sobre o facto do incidente ' hoje considerado de importância menor '
do assassinato do herdeiro do trono imperial da Áustria-Hungria por um
revolucionário sérvio ter resultado numa guerra mundial de tão graves e
profundas consequências. Como pôde soçobrar com tanta facilidade uma ordem,
politicamente estável desde 1815, em crescente prosperidade, alfabetização e
melhoria de condições de vida? Porventura a estabilidade cria instabilidade?
É um facto que, fechado o ciclo da Guerra Fria e de seis décadas de paz na
Europa ocidental, novas e graves ameaças se desenham no futuro da região euro-
asiática. Toda a clássica fronteira oriental, do Mar do Báltico ao Mar Negro,
do Mediterrâneo Oriental ao Golfo Pérsico sofre uma forte onda de contestação
geopolítica cujos resultados não podemos antecipar. Assim ganham novo interesse
os trabalhos que estudam e analisam o comportamento dos actores que, milenar e
principalmente, governam tão vastos territórios. Pode também dizer-se que
nesse, já longínquo, princípio do século XX, os «jovens» anarquistas e
socialistas revolucionários, embebidos em leituras de Nietzsche e Bakunin,
movidos pelo objectivo comum de romper com a ordem estabelecida, pululavam por
toda a Europa e América, atirando bombas para dentro das Bolsas e comboios e
assassinando a tiro ou à facada figuras de proa e governo desde a Imperatriz
Sissi ao presidente dos Estados Unidos
3
.
Pode ainda dizer-se que em 1914, o assassinato de um herdeiro de um trono
imperial não era coisa menor. Pelo contrário, tocava fundo na luta pela melhor
forma de governo que então corria, a terrível oposição entre o «antigo regime»
de monarca por direito divino e os governos saídos da «soberania popular», a
libertação dos «povos sujeitos» pelo exercício do supremo direito político á
autodeterminação. Que tais territórios deixassem de ser «herança dinástica»,
negociável, e que as populações passassem a deter autoridade sobre fronteiras
rigidamente soberanas, eram factores que convergiam numa dimensão de combate
político brutal, em boa parte responsável pela radicalidade das posições em
confronto e pela dificuldade de «pazes de compromisso».
Certo é que a Áustria apontou as culpas à Sérvia, e lhe declarou guerra. Em
apoio à Sérvia, a Rússia, sua patrona, mobilizou o exército. A Alemanha, aliada
da Áustria, considerou essa mobilização uma ameaça inaceitável e declarou
guerra à Rússia e à sua aliada França. O plano Schlieffen obrigava o exército
alemão mobilizado a iniciar marcha para França, via Bélgica, cuja invasão desta
juntou o Reino Unido à guerra contra a Alemanha. Escassas semanas depois do
assassinato, todas as grandes potências europeias estavam em guerra. E, com
elas, todo o mundo onde a respectiva bandeira determinava fronteiras e povos
coloniais. Em breve se lhes juntaria o Império Otomano, também ele em defesa da
sua periclitante integridade.
Todos acreditavam que seria assunto para umas belas marchas e umas grandes
batalhas, rapidamente resolvidas. De regresso no Natal.
«... The Terrible Ifs' Accumulate...»4
Porém, uma vez empenhados, os povos da Europa não revelaram urgência em
retirar. O bloqueio que se impôs em 1916 na frente ocidental poderia ter
produzido uma paz de compromisso. Mas poucos favoreciam tal solução. Porque
haviam os alemães, com batalhas ganhas por todo o lado, abandonar um centímetro
do solo que tanto lhes havia custado a conquistar? Para ceder a um adversário
que em breve, contra si, o usaria noutra guerra, decerto pior? Como podiam os
franceses contemplar celebrar paz com o invasor ainda a ocupar muito do seu
território? E os britânicos, aquiescer num compromisso que deixasse a Bélgica
em mãos alemãs?
Os austríacos lutavam pela preservação do seu império histórico, multinacional,
corporizando na velho adversário russo todos os impulsos de autonomia dos
«eslavos do sul». Os russos lutavam pela conservação do estatuto de potência,
pela capacidade de proteger os povos eslavos (mesmo quando estes não pediam),
para conter a Alemanha, para cumprir as obrigações da aliança com a França. Os
franceses, apostados em recuperar a Alsácia-Lorena, batiam-se contra o avanço
do inimigo tradicional. Aos britânicos, confrontados com a maior ameaça
continental desde 1815, importava defender as regras do direito das nações,
trampolinadas com a violação do estatuto de neutralidade da Bélgica, país que '
recorde-se ' era filho da sua precaução estratégica com o continente, após a
debaclenapoleónica. Os alemães lutavam pela causa austríaca, pretendiam
rechaçar a ameaça eslava a oriente e bater os rivais que, a ocidente, invejosos
e hipócritas, obstavam consistentemente à sua afirmação como potência mundial.
Os diplomatas podiam tentar ansiosamente evitar uma guerra, no que estavam
decerto acompanhados por muitos homens de negócios. Dir-se-ia hoje que a gestão
política não esteve à altura. Isto se quisermos acreditar que todos queriam a
paz. Muitos eram os que reclamavam, impacientemente, a guerra imediata.
Kriegsschuldfrage à la Russe
Com este livrinho agitado, McMeekin vem juntar-se a um grupo crescente de
historiadores e investigadores que procuram um lugar ao sol nas fileiras da
veneranda questão da «culpa da guerra». Trata-se de redistribuir culpas, aqui e
no concreto, tirando da Alemanha e da Turquia para dar a Rússia.
Do seu ponto de observação no Bósforo, McMeekin professor da Koç University em
Istambul, já se debruçou, com interesse, sobre a construção do Caminho de Ferro
Berlim Bagdade (The Berlin-Baghdad Express, The Ottoman Empire and Germany's
Bid for World Power 1898-1918) em que desenterra a história do famoso Drang
Nach Ostenda Alemanha desde o final do século XIX, e da montagem da Parceria
Público Privada que construiu parcela significativa da rede ferroviária
otomana, e cujas peripécias duraram até as vésperas da Grande Guerra. Mais
recentemente, McMeekin escreveu, sob título July 1914, uma investigação sobre
os actores e os acontecimentos dos trinta e sete dias entre o assassinato do
herdeiro do trono austríaco e o início da Grande Guerra, onde já introduz algum
correctivo à sua versão das culpas: entre acções, omissões, e erros
diplomáticos crassos, não se recorta um culpado «limpo». Resumindo: a Alemanha
teve mais responsabilidade no início, fosse por dar o «cheque em branco» a uma
Áustria vingativa, fosse pela loucura da invasão da Bélgica. Mas: a própria
Alemanha foi acicatada pelos austríacos, cuja inflexibilidade e atrapalhação
levaram longe demais o acerto de contas com a Sérvia; e pela Rússia e França,
cujas pré mobilizações pareciam confirmar aos alemães o cenário pesadélico de
um ataque iminente em duas frentes.
Com as Origens Russas da Primeira Guerra Mundial, um trabalho anterior e que
aqui se analisa, Sam McMeekin dedicou-se a trazer ao palco o papel da Rússia no
deflagrar, no batalhar e no concluir da Grande Guerra. Apoiado em documentação
russa, turca, alemã, austríaca e britânica, incluindo os Arquivos da Política
Externa Imperial Russa (AVPRI) e o Arquivo da História Militar do Estado Russo
(RGVIA), o autor pretende convocar interesse numa reinterpretação da
participação russa na Grande Guerra. Argumenta, bem, que sem referência
política russa, é impossível tratar os últimos cem anos de história nas terras
do ex-império otomano ' quando este se alargava da Trácia e do Mar Egeu ao Mar
Negro, à Anatólia, Arménia turca, Cáucaso, Pérsia, Mesopotâmia e Síria.
Sustenta aliás que mesmo a cronologia-base da Grande Guerra só pode ser bem
compreendida se atenderaos objectivos de guerra da Rússia imperial. Desde o
incidente de Sarajevo que provocou a crise, ao drama da mobilização que marcou
o rebentar da guerra, os problemas do plano de guerra alemão, o bloqueio na
frente ocidental, a tragédia de Gallipoli, os massacres arménios de 1915, o
acordo Sykes-Picot, a partilha da Turquia asiática, a revolução de 1917, todos
eventos notáveis, todos intimamente relacionados com a política externa da
Rússia.
Capítulo a capítulo, o autor explora de entre estas, todas questões que podem
apoiar o seu ponto de vista, deixando cair, por vezes com ligeireza o que
porventura exceda o número de páginas que terá alocado. Em apoio desta
severidade, veja-se o capítulo introdutório onde tropeçamos em frases como
«nada de importância estratégica duradoura estava em jogo» na frente da
Flandres ou a afirmação que a Rússia nada tinha a recear das forças alemãs na
frente oriental, ou ainda que a sua colossal derrota em Tannenberg foi
«acidental». Numa das suas afirmações mais fúteis, McMeekin adianta que esta
Guerra se poderia chamar «Guerra da Sucessão Otomana», na medida em que a
dissolução do Império otomano foi um dos resultados! Mas como também foi
determinante para a dissolução do Império austro-húngaro e do próprio Império
russo, ficamos ligeiramente em dúvida sobre qual a guerra que o autor tem em
mente.
O primeiro grande argumento incriminatório da Rússia Imperial é o de ter
avançado para mobilização de forma dissimulada, provocando a resposta da
Alemanha e daí a guerra. Com um entusiasmo que se compreende causado por
interessantes fontes primárias, McMeekin alinha a questão dos cronogramas de
mobilização, estabelecendo a precedência da mobilização russa, questão
interessante mas rarefeita e com as características do vernacular «antes de ser
já o era».
É sabido que as lições de 1870 estavam gravadas na cabeça de cada oficial de
estado maior europeu: perder a corrida na mobilização era meio caminho para
perder a guerra. Há 40 anos que as potências europeias vinham devotamente
fortificando as suas máquinas militares. A campanha italiana na Tripolitânia
tinha sido uma limpeza; as Guerras Balcânicas de 1912 e 1913, guerras
relâmpago, ofensivas, com resultados imediatos. Em 1914, a teoria militar
ensinava que a guerra futura seria curta,decidida por batalhas ofensivas
iniciais, travadas pelos exércitos de recrutas concentrados, em massa, nas
fronteiras. O objectivo de toda esta mobilização e concentração era chegar ao
campo de batalha com um máximo de força, pois era com força que se ganhavam as
batalhas. Milhões de homens tinham de ser chamados, organizados em unidades de
combate, equipados com um vasto aparelho de armas e serviços de apoio, enviados
por comboio para os respectivos pontos de concentração, tudo num par de dias.
Quando cada barco, cada comboio tinham, há anos, sido designados ' como tinham
de ser ' para transporte de tropas que teriam de chegar a horas e em boas
condições à frente de combate, em nenhum país era possível alterar os
requisitos militares ao sabor das contingências políticas. Prevalecia assim, de
facto, um entendimento que a mobilização significava a guerra mas, na verdade,
também houvera mobilizações parciais nas recentes guerras balcânicas, das quais
tinha sido possível retroceder.
Nas suas «incursões» nas origens da Primeira Guerra Mundial, AJP Taylor
sublinhou bem que só na Alemanha é que a mobilização inevitavelmente
significava a guerra: os planos envolviam não só a concentração mas também a
marcha para o território dos vizinhos. Para o governo austríaco, uma declaração
de guerra era uma manobra política, para o governo russo uma ordem de
mobilização era uma contra-manobra; mas tais ordens punham em marcha processos
administrativos que não podiam ser nem interrompidos nem revertidos sem causar
um caos que iria colocar a nação a mercê dos seus adversários.
Por outro lado, Taylor concluiu que, apesar de todas as grandes potências
desejarem aumentar seu próprio poder relativo, nenhuma procurou conscientemente
a guerra antes de 1914. Ao invés: todas as grandes potências acreditavam que se
possuíssem a capacidade de mobilizar as suas forças armadas mais rápido do que
qualquer um dos potenciais adversários, tal seria elemento de dissuasão
suficiente para evitar a guerra e permitir alcançar os respectivos objectivos
de política externa. Assim, os estados-maiores das grandes potências
desenvolveram cronogramas elaborados para mobilizar mais rápido do que qualquer
um de seus rivais. Quando a crise começou em 1914, embora nenhum dos estadistas
da Europa quisesse uma guerra mundial, a necessidade de mobilizar mais rápido
do que potenciais rivais criou um movimento inexorável rumo à guerra. Foi
assim, que os líderes de 1914 se tornaram prisioneiros da lógica dos
calendários de mobilização e estes calendários que foram feitos para servir
como elemento dissuasor trouxeram, implacavelmente, a guerra. O estado maior
russo mantinha que a mobilização era equivalente a guerra. A mobilização geral
era por conseguinte uma acção belicosa dirigida às Potências Centrais.
McMeekin produz peças de arquivo interessantes mas não chega a traduzir ao
leitor por que forma os russos se podiam autonomizar do colectivo europeu: o
tempo era precioso e a liderança russa não tinha qualquer razão para adiar o
inevitável, tanto mais quanto era sabido que na linha da partida estava em
séria desvantagem vis-a-visos seus adversários: maior território, piores linhas
de comunicação interna. As preparações da Áustria quanto à Sérvia eram
evidentes. Os russos estavam agudamente cientes das fraquezas das suas forças
de combate. Os planos estavam incompletos e mal preparados. Não havia uma
estratégia coordenada para a tal herança otomana. Como boa parte dos seus
pares, a maior parte dos líderes russos acreditava que a guerra ia ser curta.
Depois se veria.
O segundo argumento incriminatório versa os objectivos políticos e os
acontecimentos militares no teatro oriental. McMeekin argumenta que as
circunstâncias reunidas em 1914 vieram dar asas a antigos sonhos russos de
derrubar e expulsar os turcos de Constantinopla, assegurar a preponderância no
Mar Negro e alargar os seus domínios a Anatólia oriental, Pérsia e
Azerbaijão.Aventa que a Rússia teria por objectivo de guerra não tanto os
Balcãs como todo o conjunto do Próximo Oriente, «uma guerra que toda a gente
queria». Aos sonhos imemoriais de conquistar Constantinopla, a que sempre se
refere pelo nome czarista de TsargradMcMeekin considera também que o interesse
pelos Estreitos dos Dardanelos estavam agora inflacionados pelas rivalidades
dos novos e ascendentes estados balcânicos e a ameaça de um renovado poderio
naval turco
O autor assinala, bem, que há mais de um século que a Rússia procurava expandir
para sul, à custa dos turcos. Os russos travaram guerras contra territórios
otomanos em 1811-1812, 1828-1829, 1853-1856 e 1877-1878, resultando na
aquisição de maior parte da costa do Mar Negro e grande parte do Cáucaso.
McMeekin porém relega para plano muito secundário factores relevantes em todo
este contexto complicado do pan-eslavismo e pan-germanismo, traços que
caracterizavam o pensamento dominante e constrangiam consideravelmente a acção
dos decisores, fossem reis, políticos, militares ou diplomatas. O autor nunca
entra realmente nos assuntos balcânicos. Antes revela uma enorme distância,
falando em «bagatelas balcânicas» (p. 101). Ao avaliar as razões de entrada da
Rússia na guerra, não valora, por exemplo, o impacto da crise de anexação da
Bósnia Herzegovina pela Áustria em 1908, quando a Rússia teve de se dobrar às
ameaças da Áustria e Alemanha, dali tirando a convicção profunda de que, como
protector universal da gente eslava, não poderia sustentar nem mais uma
semelhante humilhação. Em Moscovo, um tal impacto em sede de política interna
era visto como incalculável e «acção no local» era decerto preferível à
vergonha da passividade.
Apesar de muitos aspectos positivos, como industrialização, medidas de
transformação interna e esforço de modernização das forças armadas, na sua
imensidão, autocracia e atraso secular, a Rússia era uma potência com pés de
barro. A vitória contra Napoleão tinha deixado o país de rastos; e a segunda
metade século XIX não lhe tinha corrido especialmente bem. A destruição total
da frota otomana por ocasião da Guerra da Crimeia motivara a aliança europeia
que levou à derrota da Rússia e lhe vedou o acesso ao Mar Negro; e as vitórias
estrondosas que obtivera na Guerra Russo-Turca de 1877 foram-lhe violentamente
sonegadas no Congresso de Berlim, tanto na frente oriental como na frente
balcânica; em 1904, fora derrotada na guerra com o Japão; em 1905 tivera uma
primeira revolução; em 1909, tivera de obrigar a Servia a «engolir» a anexação
austríaca da Bósnia-Herzegovina; e apesar dos sucessos da Liga Balcânica contra
a Turquia, em 1913, tivera que se encolher seriamente no apoio às
reivindicações sérvias de acesso ao Mar Adriático. Para cúmulo, no início de
1914, assistira, impotente e desesperada, à chegada a Constantinopla do general
alemão Liman von Sanders, que vinha treinar e assumir funções no exército
otomano.
Não admira pois a apreensão com que o Czar e os seus ministros ' bem apoiados
no seu ultra competente serviço de espionagem em terras otomanas ' seguiam o
que lhes parecia tornar-se cada dia uma mais preponderante posição alemã junto
da Sublime Porta.
A entrada da Turquia na guerra teve um impacto considerável nos russos, e um
dos mais interessantes capítulos de McMeekin versa os pormenores da entrada dos
Otomanos na guerra ao lado das Potências Centrais. A matéria não é nova, mas a
forma desenvolta com que o episódio é relatado vale a leitura.
Uma das consequências do Tratado de Berlim era a Rússia estar proibida de fazer
passar vasos de guerra pelos Estreitos. Tinha que os construir in situ, e a
data mais breve em que os seus estariam construídos seria 1915. Ora, em Janeiro
de 1914 a Turquia aguardava entrega iminente de 5 vasos de guerra, 3 couraçados
em construção em Inglaterra e 2 nos Estados Unidos, para além de outros barcos,
menores, mas também de guerra, encomendados a Itália e a França. Estava assim
perspectivada uma superioridade naval turca a muito curto prazo.
Oficialmente, o Império Otomano era neutro. A 2 de Agosto de 1914 assinou um
acordo secreto com os alemães, mediante o qual iria receber algumas
compensações territoriais, mas sobretudo alcançar o grande objectivo de acabar
com o regime das capitulações. Na semana seguinte, dois vasos de guerra
alemães, o Breslaue o Goeben, entraram no Bósforo contrariando as leis da
neutralidade. Os turcos inventaram então a solução engenhosa de «comprar» os
barcos aos alemães, mudando o pavilhão e eliminando a questão da violação da
neutralidade. O passo seguinte foi a 29 de Outubro de 1914, quando, sob comando
alemão, os ditos couraçados avançaram para o Mar Negro e deram cabo da marinha
de guerra russa. Com o panachedeste pequeno ajuste pela destruição da sua frota
na Guerra da Crimeia, os otomanos juntavam-se oficialmente à Grande Guerra. A
partir de 1915, novas dinâmicas se geraram. McMeekin leva a sua história às
frentes leste e sudeste, procurando aprofundar nomeadamente a frente
caucasiana. Algumas das partes mais atrevidas referem-se ao incitamento do
governo russo a que os seus aliados tratassem dos aspectos da guerra que mais
lhes convinham, em Gallipoli, na Transcaucásia ena campanha da Pérsia. No seu
Capítulo VI entra com pormenores interessantes na chamada campanha da
Transcaucásia, uma frente dura e difícil, assegurada com bastante glória pelos
russos.McMeekin apoia-se em documentação russa para mostrar como os jogos de
guerra russos planeavam que gregos, arménios e outros cristãos se voltassem
contra o governo turco, dentro de linhas, queimando habitações muçulmanas e
destruindo pontes e outras vias de comunicação. É aqui que o autor traz
elementos sobre os arménios capazes de inflamar os difíceis debates que esta
questão sempre gera. Deixa entender que a administração russa recorreu a
cumplicidade religiosa para convencer elementos da população arménia a receber
armas e preparar movimentos de insurreição em território otomano. McMeekin não
recua em explorar as ilusões infundidas pelos russos ao prospectivo movimento
insurreccionista arménio, ligando o seu drama claramente a uma traição russa e
consequente retaliação turca. No fundo dá apoio ao argumento turco de que houve
excessos mas se tratou de uma questão de guerra.
«Russian Diplomatic Bullying»
Tomar controle dos estreitos, impor a autoridade russa na Trácia e em
Adrianopla: McMeekin atribui à diplomacia russa uma colossal capacidade de
manipular britânicos e franceses, os quais ' passivos e em detrimento próprio '
aparecem a prosseguir os objectivos prioritários definidos pela Rússia para se
alcandorar a potência principal. Nesta versão, a manipulação russa era tão
competente que a sua candidatura a Constantinopla obteve a anuência de Lord
Grey, do Rei Jorge V e de Churchill, que disseram imediatamente que sim ao
Czar, sem pensar sequer em reclamar coisa nenhuma para Inglaterra. Nada mais
nada menos.
A manipulação russa é apresentada como instigadora do envolvimento em
Gallipoli. No entanto, existe ampla documentação diplomática inglesa mostrando
que a ideia de uma segunda frente contra as Potências Centrais, a abrir numa
região austríaca ou otomana, foi ponderada desde o início como forma de quebrar
o bloqueio na frente ocidental, sendo resistida pelo SE Guerra Kitchener, no
final de 1914, apenas por não dispor de recursos para montar a operação
5
. Na altura, pensavam poder contornar e furtar-se a um ataque frontal na frente
francesa, usando o poder naval para entrarem no Mar Negro pelo Mediterrâneo e
abrir uma frente de enfraquecimento do lado alemão. Foi no princípio de Janeiro
de 1915, quando os russos, sob pressão no Cáucaso, pediram apoio dos Aliados
para uma diversão contra os exércitos otomanos, que se firmou a decisão de
lançar a Campanha de Gallipoli. Os britânicos acharam-se capazes de forçar os
Dardanelos, desembarcar em Constantinopla, tirar os turcos da guerra e ajudar
os russos. Uma ideia magnífica. O desastre aconteceu... os aliados australianos
e neo-zelandeses sofreram o principal embate. E Churchill teve de se retirar do
jogo.
Antes de malograda, Gallipoli foi a ocasião em que se formalizou o pedido do
Czar de, no caso de vitória aliada, Constantinopla ser anexada pela Rússia.
Aliás a concordância inglesa a que a questão de Constantinopla e dos Estreitos
fosse resolvida em consonância com as «necessidades russas» fora adiantada na
ocasião da entrada dos turcos na guerra, em Outubro de 1914, na altura motivada
pelas divisões no governo russo onde havia que acomodar uma corrente pro-alemã.
«Russian diplomatic bullying» é a referência às manobras do MNE Sazonov invocar
estas pressões políticas internas que favoreciama transferência da Rússia para
o campo alemão, para «arrancar» a ingleses e franceses a «cedência» de
Constantinopla.
Sobre isto o presidente francês Poincaré escrevia, em Março de 1915, ao seu
embaixador em Moscovo: «a atribuição de Constantinopla, da Trácia, dos
Estreitos e das margens do Mar de Marmara à Rússia implica a partição do
Império Otomano. Não temos nenhuma boa razão para desejar tal partição». E
acrescentava que introduzir a Rússia no Mediterrâneo faria dela um grande poder
naval, mudando todo o equilíbrio de poder europeu
6
. Teria de ser... «Mas, "dizia Grey" nem nós nem os franceses gostamos da
coisa»
7
.
É difícil caracterizar o governo russo como especialmente oportunista, num
tempo de deslocação social e política brutais... sobretudo se comparado com
aliados ou adversários.
Os «Sonhos Imemoriais»
Desde a conquista da Alsácia-Lorena e da confirmação do Império em 1871 que a
potência alemã podia e queria ser notada. Qualquer colectânea de documentos
diplomáticos que se consulte revela pormenores de conversa em que algum líder
ou diplomata europeu ouviu de um governante ou diplomata alemão frases
«grosseiras» ou «imperiosas». As crises sucediam-se, em curva ascendente.
Contando já só as do século XX: 1902, Guerra Anglo-Boer; 1904, a Guerra Russo
Japonesa; 1905, 1906, 1911, 1º, 2º e 3º dramáticos incidentes germano-franceses
sobre Marrocos; 1908, anexação pela Áustria da Bósnia-Herzegovina; 1912 e 1913,
1ª e 2ª guerra balcânica; ocupação de Scutari, iminência de guerra com a
Sérvia, Áustria, Rússia; fim do Império Otomano na Europa, redefinição de
sistema de alianças, novas fronteiras, novas tensões deixando toda a imprensa a
anunciar a guerra iminente.
A Itália separava-se da Áustria-Hungria que permanecia ligada à Alemanha,
dentro do laço que os unia como Potências Centrais, com a monarquia dual
sobranceiramente descrita como «numero dois». A Inglaterra estabelecia uma
aliança com o Japão, assinava com a Rússia um acordo de esferas de influência
na Pérsia em 1907, e aproximava-se da Entente. Em contrapartida, a Rússia
voltava-se de novo para o sudeste europeu, visto que ao procurar porto de águas
quentes no Pacífico entrara em choque com o Japão, que lhe infligira uma
derrota surpreendente fechando a possibilidade de expansão nesta região.
A França republicana e a Rússia czarista tinham uma relação mais estreita e de
certa forma co-dependente, em parte dirigida contra a ameaça alemã e por outra
parte, sustentada pelo importante investimento francês na industrialização
russa. Os franceses eram porventura os mais vocais quanto ao perigo alemão. Já
em 1911, quanto os alemães haviam provocado o famoso episódio do «Salto do
Panthera» (um barco de guerra que fizeram entrar em Agadir) quase começara a
«Guerra». Na altura, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Delcassé, dizia que
não se podia nem sonhar em viver em paz duradoura com a Alemanha e que Paris,
Londres e São Petersburgo tinham de se convencer de que a «guerra é,
infelizmente! Inevitável»; e que importava preparar-se, sem perder um minuto.
Sucessivamente, na primeira Guerra Balcânica, Poincaré, então presidente do
Conselho, tinha assumido uma linha mais dura que o próprio Ministro dos
Negócios Estrangeiros Sazonov, a quem queria convencer a arrancar para a
guerra. Era natural da Lorena e segundo as suas próprias palavras, vivia para
recuperar as províncias perdidas para a Alemanha em Sedan. Uma vez eleito
Presidente da República, na primavera de 1913, Poincaré foi um advogado
incansável da renovação militar e da mobilização russa. Deslocou-se em visita a
Moscovo nos dias de Julho que precederam a I Guerra Mundial e até hoje não se
sabe bem qual foi o teor das conversas que teve com Nicolau II.
«Nous aimons mieux contribuer à la culture d'un grand jardin Ottoman que
d'avoir à nous seuls un petit jardin en Syrie»8
A partição do império otomano era um destes sonhos imemoriais. Importa entender
que se tratava de uma função da política europeia e que estava estreitamente
associada às fronteira russa, austro-húngara e, conforme o poder otomano ia
sendo expulso da Europa por força dos exércitos e do princípio das
nacionalidades foram-se constituindo outras soberanias, com fronteiras
geralmente problemáticas, como a grega, a búlgara, a romena, a sérvia. Daí a
importância geopolítica da frente balcânica durante toda a Grande Guerra Estas
autodeterminações foram-se afirmando durante o século XIX e após a Grande
Guerra tornaram-se entidades politicas independentes ou autónomas. Desde então,
quando falamos em sucessão do Império Otomano referimo-nos a «Turquia
Asiática», à parte que corresponde às províncias que não foram incorporadas na
constituição da República Turca de Ataturk e constituem hoje o moderno Médio
Oriente e que vão até a fronteira do Irão, abarcando parte da antiga
Transcaucásia, Kurdistão, Grande Síria, Arábia, Mesopotâmia.
Note-se que só em 1830, com a invasão da Síria, derrota e quase conquista de
Constantinopla por parte do Pasha do Egipto, o albanês Mehmet Ali, é que a
Inglaterra definiu uma política otomana. Fosse durante as guerras napoleónicas,
fosse durante a guerra da independência grega, a política adoptada para o
império otomano era ditada pela preocupação predominante com o equilíbrio de
poder na Europa e com as exigências de manutenção desse equilíbrio. O destino
otomano não era uma preocupação... e quiçá, apenas esquecendo a existência
desse império e lembrando a questão austríaca se possa compreender a política
britânica da época da independência grega. Aqui nasceu a política de
«independência e integridade do império otomano», forma inglesa de dizer que os
desígnios franceses e russos sobre Constantinopla não seriam tolerados.
Tratava-se mais de obstar a que a partição aproveitasse a terceiros do que,
sobre ela, exercer um desejo activo. Esta política foi definida nos idos de
1830 e manteve-se até 1914.
Todavia, evitar o colapso e partição do Império Otomano colocava enormes
dificuldades, isto é, as próprias dificuldades dos otomanos se defenderem
contra o enorme poder científico e industrial adquirido pela Europa desde a
revolução industrial.
O Império Otomano tinha de permanecer inviolado, porém não se conseguia
defender a si próprio. E foi assim que, sob o nome de «reforma», os elementos
de emulação dos métodos europeus vieram subverter ainda mais a, já de si fraca,
capacidade de funcionamento do IO. Agora, ou o IO soçobrava pela introdução de
tantas politicas que contrariavam o seu próprio sistema ou se tornava um
protectorado europeu. Não podia porém tornar-se protectorado de um único
estado, pois as outras potências não o permitiriam. Assim ou as potências se
guerreavam, ou negociavam pacificamente a divisão do «bolo»: dilemas que a Grã-
Bretanha e a Europa cada vez mais teriam de encarar.
Por uma razão ou por outra as partições propostas desde a guerra da Crimeia,
ora por russos ora por ingleses nunca chegaram a acontecer: se se pudesse
fazer, como se faria? A que potências se atribuiriam que regiões? Não havia uma
maneira boa... mas havia presunções, noções, expectativas que Se e Quando o IO
fosse partilhado, certas regiões iriam para certas potências. Um bom índice
destas ideias consta numa comunicação do embaixador britânico em Constantinopla
a Lord Gray, em Junho de 1913: comentando as propostas turcas de nomeação de
inspectores gerais europeus para as diversas províncias, dizia
«alinha de menor resistência e fricção seria que os funcionários
estrangeiros para as províncias nordeste da Anatólia fossem russos;
para a Mesopotâmia, britânicos; para a Síria, franceses; e para Adana
e Ásia Menor ocidental, alemães ou outros».
Ainda em 1913, Lord Grey, Ministro dos Negócios Estrangeiros britânicos
sustentava que
«a única política que podemos subscrever é a que visa evitar o
colapso e partição da Turquia asiática... pois qualquer outra
política poria em questão a posse de Constantinopla e muito
provavelmente resultaria numa guerra europeia»
9
.
Todos estes esquemas deixavam de fora a questão de Constantinopla e dos
Estreitos. Era uma questão crucial. A Rússia estava determinada a alcança-los e
as outras potências determinadas a negar-lhos. Enquanto esta questão estivesse
pendente, o Império Otomano tinha chances.
Sykes -Picot
Tanto a França como a Grã-Bretanha tinham de arranjar maneira de equilibrar o
enorme aumento de poder que poderia advir a Rússia da ocupação de
Constantinopla em caso de vitória aliada. Daí que esta decisão tivesse que
levar a outras decisões.
Os franceses, de resto detentores de mais de 60 por cento da divida pública
otomana, informaram logo de seguida os russos que o governo da república
tencionava, oportunamente anexar a Síria. Em francês, «Síria» queria dizer a
«Síria integral», das montanhas do Taurus ao Sinai e do Mediterrâneo ao
deserto, incluindo o velayetda Palestina. Em Março de 1915 o Comité de l'Asie
Françaisecomentava
«Quant a l'incorporation des colonies allemandes... un surcroît de
savanes tropicales et de Nègres peut être désirable, on ne saurait en
tout cas le mettre en ligne avec l'affirmation de nos titres
héréditaires sur les pays des Croisades, sur les territoires d'Adana
et d'Antioche, où l'action occidentale a été si française depuis le
commencement du moyen âge que tous les Européens s'y appellent encore
des Francs».
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Com a política para o oriente em ruínas, a Grã-Bretanha precisava fazer alguma
coisa: ou tomava o seu quinhão ou resignava-se a perder posição. É a lógica da
posição imperial. Inicialmente, em Novembro de 1915, os ingleses indicaram
Bassorá, Golfo Pérsico, Mesopotâmia até Bagdade e Haifa. Logo depois surgiu a
possibilidade de investir na revolta árabe contra os otomanos. Era mais um
interesse para conciliar com os franceses pois seria na zona deles que iria
cair o que Lord Gray via
«quando a Turquia desaparecer, deve haver ' no interesses do Islão ' uma
unidade política muçulmana independente, centrada nos lugares santos islâmicos
e que inclua a Arábia».
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Quanto ao segredo, Gray explica-se bem: primeiro, e antes que houvesse uma
vitória sobre a Turquia no campo de guerra, seria muito negativo para todos
admitir a partição. Logo, tudo devia permanecer secreto até a vitória aliada;
também era preciso esconder que o Sherife de Meca estava a negociar com infiéis
contra o seu legítimo Califa (...). E o importante estava plenamente explicado
e escrito entre quem tinha que saber, i.e., os aliados.
Esta perspectiva ilumina uma questão que arcou todo o esforço de guerra aliado:
o temor constante com a precariedade das alianças numa guerra «empatada» onde
qualquer coisa era vista como podendo favorecer drasticamente o adversário. Daí
o empenho posto em negociar um máximo de trâmites por forma a não dar azo a
rupturas nem mudanças de campo. Assim se constituiu a equipa Sykes-Picot, cujos
mapas, inicialmente pensados para evitar zangas dentro da Entente, assumiram
uma fama desproporcionada graças às sensacionais revelações soviéticas dos
acordos de guerra em 1917 e, mais tarde, por via do conflito da criação dos
Mandatos da Liga das Nações, e das crises da sucessão otomana, vieram a ser
constituídos em arma de arremesso anti-britânica e anti-francesa. Os soviéticos
tiraram a Rússia da guerra. Em m Fevereiro de 1919, a trote, num cavalo branco,
o General francês, Franchet d'Espèrey, entrou em Constantinopla e a cidade
começou a ser efectivamente dividida. Só o contra ataque e a vitória de Ataturk
é que asseguraram que a capital de impérios se mantinha sob a bandeira turca.
Notas
1
A pedido da autora o texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
A autora escreve estritamente a título pessoal.
3
Macmillan, Margaret ' «The Great War's Ominous Echoes», New York Times, 13 de
Dezembro de 2013
4
Winston Churchill, a propósito de Gallipoli, Churchill, Winston ' The World
Crisis, 2ª edição, Londres, 1938, pp. 208-209.
5
Kedourie, Elie ' England and theMiddle East, The Destruction of the Ottoman
Empire, 1914-1921, Londres: Bowes& Bowes, 1956
6
Idem
7
Idem
8
«Comité de l'Asie Française, Jul-Dec. 1914», Andrew, C. M. e Kanya-Forstner, A.
S.' «The French Colonial Party and French Colonial War Aims, 1914-1918», In The
Historical Journal, Vol. 17, N.º 1, 1974, pp. 79-106.
9
Kedourie, Elie ' England and theMiddle East, The Destruction of the Ottoman
Empire, 1914-1921
10
Andrew, C. M. e Kanya-Forstner, A. S.' «The French Colonial Party and French
Colonial War Aims, 1914-1918».
11
Kedourie, Elie ' England and theMiddle East, The Destruction of the Ottoman
Empire, 1914-1921
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