Diferenciadores estratégicos da Guerra Aérea Remota
Introdução
Em menos de uma década, os sistemas aéreos não tripulados (Unmanned Aircraft
Systems ' UAS) militares passaram de dezenas de exemplares para milhares de
sistemas empregues por todos os ramos das Forças Armadas, incluindo mesmo
organizações civis. A propagação global da modalidade de Guerra Aérea Remota
(GAR) é revelada na atualidade pelo emprego de UAS americanos em combate, de
forma simultânea e discreta, em seis teatros de operações, exprimindo a
emergência da guerra unilateral sem risco, assética para a ofensiva, letal para
o inimigo e com reduzidas baixas colaterais. Esta é a promessa e a realidade do
emprego de UAS em que o novo interface da guerra aérea é uma imagem de alta
definição, num monitor de computador, algures num bunkercom ar condicionado, a
milhares de quilómetros de distância do impacto da bomba.
Aceitando a objetividade das vantagens operacionais da GAR, pretendemos
inquirir neste ensaio sobre que diferenciadores estratégicos concorrem para a
preeminência futura da GAR, descortinando possíveis implicações para as
relações internacionais.
Ao procurarmos respostas para estas dúvidas, sustentamos que a tendência de
preeminência crescente da GAR tem efeitos ao nível operacional, com impacto na
conduta da Guerra; efeitos genéticos refletidos na alteração das
características e capacidades do Poder Aéreo; e efeitos políticos com impacto
no processo de decisão sobre o uso da força. Para procurarmos apurar a natureza
da problemática focaremos a análise, necessariamente breve, nas dimensões
políticas, legais e no relacionamento do indivíduo e da sociedade com a Guerra.
A sedução política pela guerra aérea remota
O instrumento militar existe para impor a vontade de um regime sobre outro, no
sentido de coagir o adversário a mudar a sua opinião, através de um espetro de
opções que se estende desde o apoio humanitário até ao emprego de força letal
ofensiva.
A capacidade de os militares encontrarem e destruírem coisas à distância nunca
deixou de admirar os políticos americanos2. A tendência política americana de
recorrer a contingentes militares limitados, sempre que confrontada com
desafios que ameacem os interesses nacionais, está a ser levada aos limites com
o recurso crescente à GAR. A isso não é alheio o facto de estes sistemas serem
uma opção de relativo baixo custo, sempre disponível e com eficácia operacional
elevada. Até porque, nos momentos que precedem a decisão política de ir para a
Guerra, deparamo-nos com dois fatores desmotivadores essenciais: os interesses
em jogo e o custo do esforço despendido, expresso em «sangue» e «tesouro». Um
desses fatores, limitativos duma política militar agressiva, tem a ver com o
risco para as próprias forças. Ou seja, a ênfase das populações e políticos
ocidentais em encontrarem formas relativamente seguras de empregar a força
letal, como a artilharia e o bombardeamento aéreo, leva a crer que valorizam
mais as baixas militares amigas do que as baixas causadas entre a população
civil adversária3.
Nesse sentido, o Predatore o Reapersão para a Administração Obama uma evolução
tecnológica ao nível do que os mísseis de cruzeiro foram para o Presidente
Clinton na década de 90 do século passado: uma forma de exercer uma política
externa musculada, mas sem os custos inerentes ao emprego de forças terrestres.
Esta ambição política é um dos catalisadores para a preeminência futura dos UAS
e acima de tudo para impulsionar o desenvolvimento de sistemas mais capazes,
nomeadamente em termos de alcance, persistência e autonomia. A atualidade da
preferência política pelo emprego de UAS pode ser verificada na prática,
constatando que em finais de 2011 os Estados Unidos da América (EUA) empregavam
dronesde ataque, de forma simultânea e contínua, em seis teatros distintos4,
para além de conduzirem missões de vigilância em diversos países, incluindo a
nível doméstico. Neste contexto, a operação em ambientes aéreos permissivos, em
que a ameaça para os UAS é mínima, com apoio tácito ou explícito dos governos
locais, permite maximizar a capacidade de persistência na recolha de
intelligencee eventual ataque a alvos emergentes. Considerando a importância
que a informação pode ter, enquanto poder, no âmbito das relações
internacionais, facilmente se antecipa o impacto de uma capacidade persistente
de vigilância na prevenção e combate de ameaças à segurança.
Como instrumentos de diplomacia coerciva, isto é, no âmbito da dissuasão e
compulsão, o emprego de UAS de combate, ao reduzir os custos potenciais da
ameaça e uso da força, pode ter implicações substanciais5. Em particular nas
situações de maior assimetria entre os atores em disputa, e considerando que os
custos humanos se afiguram praticamente nulos, a credibilidade de tais ameaças
sairá reforçada, uma vez que o uso da força ocorrerá com maior facilidade e sem
o demorado escrutínio político e público associado ao emprego de meios
tradicionais. Da mesma forma, será de esperar que os estados possuidores de UAS
de combate se tornem mais audaciosos e recorram mais frequentemente à GAR, de
forma preventiva e como instrumento primordial de resolução de conflitos. O
emprego de UAS traduz-se numa menor footprintmilitar que pode ser politicamente
atrativa. O conceito de operação remota e as características associadas aos UAS
para executarem ataques de longo alcance, permitem uma redução da necessidade
de bases avançadas para a projeção de poder. Sem a necessidade deste requisito
estratégico, reduz-se também a interferência internacional e a obrigação de
reunir consensos alargados e mesmo coligações que apoiem o uso da força.
A aventura americana no Iraque e Afeganistão afastou o apetite de invadir
regiões tribais no Paquistão. No entanto, a necessidade de substituir a opção
convencional por uma solução política e publicamente mais aceitável, catapultou
os UAS para um patamar de requisito operacional urgente. As «guerras
clandestinas», porque não declaradas e empreendidas fora dos teatros de
operações ativos, desenrolam-se sob a forma de «execuções seletivas» de alvos
terroristas, efetuadas por dronese forças especiais em locais remotos do
Paquistão, Iémen ou Somália. Desde 2002 foram efetuados, apenas nestes teatros,
mais de quatro centenas de ataques, fazendo emergir o estatuto primordial desta
modalidade na estratégia americana de GAR.6
Na campanha contraterrorista americana, o objetivo não será compelir a Al-Qaeda
a parar as suas atividades terroristas, mas sim reduzir a sua capacidade
efetiva para concretizar tais ameaças. Na perspetiva da Administração, a
contabilização de insurgentes mortos e o constrangimento psicológico imposto
aos seus contactos e movimentos demonstra a eficácia de tais ações, na medida
em que a aniquilação sucessiva dos dirigentes terroristas dificulta a ascensão
de elementos experientes e, como tal, diminui a ameaça da Al-Qaeda em
concretizar ações terroristas de grande escala7. Neste sentido, a organização
terrorista está severamente afetada após uma década de «execuções seletivas»,
na sua esmagadora maioria através de bombardeamento aéreo remoto.
Estas visões otimistas encaram o uso de UAS como a forma mais eficaz e precisa
de empregar a força militar contra insurgentes. Todavia, a flexibilidade e
adaptabilidade das redes terroristas torna difícil o objetivo de disrupção ao
nível tático. Para além disso, os novos dirigentes tenderão a mostrar-se mais
radicais, tanto no discurso como na execução de ações terroristas. De igual
modo, as baixas civis causadas contribuem para uma alteração da lealdade da
população no sentido de maior apoio aos insurgentes. Muitos questionam a
eficácia de tal campanha uma vez que tais grupos não possuem objetivos
políticos limitados, e como tal não são passíveis de ser dissuadidos ou
compelidos8. Assim, até que se consiga enfrentar a ideologia da Al-Qaeda, assim
como o apoio estatal que recebe e a sua capacidade de explorar espaços
desgovernados, não será expectável a derrota desta ameaça.
A história dos combates irregulares pode questionar esta aproximação
minimalista de uso da força com recurso a UAS, mísseis de cruzeiro, forças
especiais e um reduzido quantitativo militar no terreno. Para além disso, a
inexistência de uma face humana na GAR impede o contacto direto com as
populações e mina os esforços de reconstrução. Independentemente de se
conseguir estabelecer uma relação direta de causa-efeito, é possível antecipar
uma erosão da credibilidade americana na região, que gradualmente se vai
expandindo ao nível mundial.
No que concerne à utilidade estratégica da GAR em coagir estados a alterarem o
seu comportamento, ainda estaremos longe de poder avaliar com precisão essa
opção. Tal como o poder aéreo na sua aplicação mais alargada ainda não garante
por si só o sucesso, dificilmente o recurso à GAR, nos moldes atuais,
constituirá alternativa eficaz ao uso de outros instrumentos de poder. No
entanto, pelos benefícios operacionais e políticos apontados, os UAS
constituirão uma capacidade essencial para aumentar a consciência situacional
do espaço de batalha, ao mesmo tempo que possibilitam a aplicação letal da
força de forma discreta e precisa. Esta ubiquidade e persistência poderão, em
si mesmas, constituir fatores de dissuasão a possíveis agressores.
Devido à relativa infância dos UAS, por ora, apenas os EUA dispõem de
capacidade para sustentar tais campanhas com impacto global. Em breve, com a
proliferação global das frotas de UAS, maior será a probabilidade destas ações
militares se replicarem. Desde 2005, o número de países que adquiriu UAS
praticamente duplicou, totalizando 76 em 2012, enquanto o número de produtores
dos mais de 900 tipos de UAS existentes ultrapassa os 50 países9. O principal
exportador da tecnologia de dronesé Israel, tendo já disseminado sistemas
avançados a mais de uma dúzia de países, ao mesmo tempo que deu assistência a
outros no desenvolvimento de capacidade própria, satisfazendo também a
tendência crescente de leasingde serviços nos teatros de operações. Por seu
lado, os EUA exportaram UAS sofisticados para seis países, alguns dos quais na
versão mais letal, encontrando neste nicho de mercado uma atrativa fonte de
receitas para a sua indústria de defesa. O futuro parece efetivamente promissor
para as nações que até aqui não dispunham de recursos suficientes para manter
um portfoliode capacidades aéreas ofensivas. Isto implicará uma alteração das
dinâmicas de poder regional, permitindo a expansão da capacidade de nações mais
pequenas, mas ricas.
Ao tentarmos sintetizar de que forma é que a natureza do debate político se
altera com o recurso crescente à GAR, constatamos que o advento dos UAS pode
tornar o processo de decisão política mais facilitado no sentido de usar a
força, uma vez que estes oferecem a possibilidade de empregar capacidades
militares num conflito sem necessidade de construir um amplo consenso político
e público. Neste sentido, os UAS fornecem aos políticos um aumento de controlo
que se estende a três níveis10: o controlo da oportunidade e ritmo das
operações na medida em que minimizam as interferências externas; o controlo
sobre o debate político referente ao uso da força; e por fim, a perceção do
controlo preciso desde o nível estratégico até ao emprego tático das forças,
instigando uma maior interferência em todos os detalhes da condução da guerra.
Assim, a guerra torna-se uma solução política, ainda mais proeminente, porque
menos exigente, facilmente justificável e aceitável. Isto é ainda mais verdade
para a opção de uso exclusivo da GAR. Ao limitarem as baixas e eliminarem a
possibilidade de prisioneiros de guerra, os UAS permitem que as missões possam
ser planeadas e executadas de forma mais discreta e em áreas remotas,
maximizando a surpresa operacional dos ataques, sem o ónus da exploração
mediática prévia. Para além disso, a retirada progressiva dos teatros de
operações atuais e a produção crescente de UAS, disponibilizarão novos recursos
que podem ser afetados a outras contingências, refletindo uma preocupação
associada à proliferação de sistemas de armas: quantos mais uas estiverem
disponíveis, maior será a tendência para os usar.
Legalidade da modalidade de «Execuções Seletivas»11
O uso de drones funciona como um antídoto encontrado para um desequilíbrio
legal existente na conflitualidade irregular. Enquanto uma das partes tenta
seguir as obrigações impostas pelo direito da guerra, a outra parte, numa
resposta assimétrica, aproveita as vantagens de operar em ambientes urbanos e o
recurso a armas de efeitos massivos, em locais densamente povoados e altamente
mediatizados. Isto representa uma longa tradição de usar o direito
internacional como uma forma de combate, constrangendo as ações de quem o
respeita12. Neste ambiente, os drones são vistos como a resposta disponível
mais contida e discriminada. Contudo, a GAR, nos moldes em que está a ser
empregue, enferma ainda de vários dilemas legais.
Ao longo dos anos, talvez por falta de esclarecimento público, foi crescendo o
estereótipo de que os UAS são armas desumanas e que desrespeitam o direito
internacional. No entanto, os debates legais sobre os UAS fazem esquecer o
cerne da questão: não é a tecnologia que é controversa, mas sim o emprego que
lhe é dado.
O direito da guerra não proíbe o emprego de sistemas de armas sofisticados num
conflito armado, desde que estes sejam empregues em conformidade com as leis
aplicáveis. Neste sentido, as melhorias introduzidas no processo de
identificação dos alvos permitem uma aplicação de força letal cada vez mais
cirúrgica. Por outro lado, os tratados internacionais estabelecem que o
sofrimento imposto aos combatentes seja tão humano quanto possível e que o
sofrimento infligido aos não combatentes seja minimizado. Quando um sistema de
armas não cumpre estes requisitos, é normalmente banido pela comunidade
internacional. Tal foi o caso de armas de efeitos indiscriminados, ou seja, que
não conseguem ser controladas após o seu emprego, como as armas químicas, as
munições clusterou as minas antipessoal.
A argumentação acerca da violação do direito da guerra é aplicável da mesma
forma a qualquer outro sistema de armas, tripulado ou não. Quando tentamos
aplicar a mesma moldura aos dronesarmados, verificamos que estes são apenas a
plataforma através da qual é efetuado o lançamento de uma munição. A única
diferença reside no método de controlo: à distância. Assim, a argumentação terá
de se desenvolver numa perspetiva de conceito de operação e de possíveis
efeitos indesejados que resultem do emprego extensivo deste sistema de armas.
Neste sentido, a controvérsia do debate incide particularmente no emprego de
UAS de ataque fora das zonas oficiais de combate e, em particular, por
entidades civis como a Central Intelligence Agency (CIA). Assim, o emprego de
UAS no Iraque, Afeganistão ou Líbia, quando efetuado pelas forças armadas, não
oferece grandes comentários.
A campanha de «execuções seletivas» com recurso a UAS teve início em novembro
de 2002 com um ataque no Iémen. Foi também neste país que foi morto o primeiro
cidadão americano em resultado de um ataque aéreo seletivo. O segredo
operacional, proporcionado pela campanha aérea da CIA, a par com a
desresponsabilização das ações, parecem seduzir politicamente a Administração
Obama para fazer alastrar o emprego desta modalidade de GAR.
Um dos principais desafios na contabilização e categorização de baixas num
conflito à distância, em zonas remotas, tribais e inacessíveis a órgãos
independentes e imparciais, tem a ver com as diferentes perspetivas das partes
em confronto. Enquanto para Washington a maioria das baixas são insurgentes,
para a oposição a maioria são vítimas civis. Para além disso, a complexidade
deste processo é aumentada devido à dificuldade em qualificar o estatuto dos
alvos (como combatentes ou não), resultante, por exemplo, das táticas empregues
pelos insurgentes de diluição entre a população. De acordo com o The Bureau of
Investigative Journalism, entre 2004 e novembro de 2012 os reportes de
fatalidades causadas por 350 ataques de dronesda CIA, apenas no Paquistão,
variavam de 2593 a 3378, das quais 475 a 885 civis. Já de acordo com a New
American Foundation, no mesmo período, os 337 ataques contabilizados causaram
entre 1908 e 3225 vítimas mortais, das quais 16 por cento civis.
O secretismo acerca do programa da CIA tem impedido a necessária discussão
pública acerca das questões legais e éticas. Apenas em janeiro de 2012, após
três anos de uso extensivo desta modalidade, o Presidente Obama confirmou a
existência formal do programa de «execuções seletivas»13. A iniciativa
presidencial deu início a uma maior necessidade de explicação pública acerca
dos meandros do programa, fazendo multiplicar as declarações de responsáveis
governamentais14.
Contudo, a posição oficial americana enferma de alguns paradoxos. Em primeiro
lugar, transmite uma interpretação expansiva do enquadramento legal enquanto
simultaneamente sustenta critérios limitados. Em segundo lugar, procura
justificar legalmente uma modalidade de ação que se desenrola de forma secreta.
Finalmente, tenta advogar uma imagem de transparência, ao mesmo tempo que se
escusa a fornecer detalhes factuais acerca do processo de decisão e de conduta
dos serviços de informações.
A racional defendida por vários representantes governamentais americanos para o
emprego de força letal em operações contraterroristas, assenta na autorização
do Congresso de 2001, em que era atribuído ao Presidente o poder para usar toda
a força necessária e apropriada contra grupos terroristas, para proteger os
Estados Unidos de qualquer ameaça iminente. Para além disso, esta moldura legal
apenas se refere àqueles que planearam, autorizaram, cometeram ou ajudaram nos
ataques terroristas do 11 de setembro. Todavia, passados mais de dez anos,
existe alguma dificuldade em comprovar o relacionamento dos grupos atuais
associados à Al-Qaeda com os eventos ocorridos àquela data. Assim, uma década
após a aprovação da Lei do Congresso, ainda se mantém a mesma sustentação legal
para uma conduta que permite atacar qualquer alvo, em qualquer parte do mundo,
a qualquer momento. Neste âmbito, a perspetiva de que um mero envolvimento no
planeamento de ataques passados seja suficiente para constituir um indivíduo
como alvo a abater, apesar de não existirem provas concretas de ataques
imediatos, distorce os requisitos estabelecidos no direito internacional15.A
conduta seletiva da Guerra Aérea Remota faz sobressair questões legais
complexas. O espetro de opiniões estende-se desde aqueles que defendem a
legalidade das «execuções seletivas» como uma resposta adequada à ameaça do
terrorismo, passando por aqueles que qualificam este programa como uma forma de
execução extrajudicial sem o processo legal adequado. Parece-nos que grande
parte dos dilemas, nomeadamente a retórica antiamericana, poderá ser minimizada
com uma postura de maior transparência relativamente aos critérios de condução
desta modalidade. Neste domínio, afigura-se adequada a recomendação do relator
especial da ONU, Christof Heyns, para que os Estados Unidos continuem a
explicar de forma mais detalhada as regras do direito internacional que cobrem
a modalidade de «execuções seletivas», explicitando as bases para a decisão de
matar em vez de capturar determinados indivíduos, ao mesmo tempo que esclarecem
se o ataque foi perpetrado com autorização do Estado onde ocorre16. Para além
disso, os EUA deverão tornar público o número de civis mortos em resultado dos
ataques, assim como os procedimentos estabelecidos para minimizar a sua
ocorrência.
O perigo de os Estados Unidos tratarem o globo como um campo de batalha
encoraja outros países a seguir o seu exemplo. Independentemente dos juízos
legais que possam ser feitos acerca da operação de dronespela CIA, de uma
perspetiva moral e política, os Estados Unidos ficam fragilizados a partir do
momento em que procuram julgar outros estados por condutas similares. Tal como
hoje se assiste ao sobrevoo impune de dronesamericanos sobre o Paquistão, Iémen
e Somália, não será descabido, no plano teó rico, pensar que no futuro outros
países ou organizações o possam fazer sobre Nova York ou Washington. Assim, a
even tualidade de outros estados e atores não, estatais enveredarem por conduta
similar, contra interesses americanos obriga os Estados Unidos a considerar
possíveis alternativas para minimizar os efeitos adversos da proliferação de
UAS. Entre elas sobressaem o estabelecimento de normas de uso, à semelhança das
armas nucleares; uma política de contraproliferação, como efetuado no advento
dos mísseis de cruzeiro; ou resignar-se à adoção de contramedidas táticas a
sistemas adversários.
Como destaca Little, a perda de legitimidade dos Estados Unidos implica o
sacrifício do apoio de outros estados e galvaniza a causa terrorista,
aumentando o seu universo de recrutamento17. O respeito pelo direito
internacional é por isso um dos instrumentos-chave não só para prevenir o
terrorismo, mas também para reduzir a conflitualidade hostil. O uso crescente
de UAS em ações letais de «execuções seletivas» poderá eliminar alguns dos
constrangimentos atuais acerca do uso de força militar. Contudo, caso se
verifique o alastramento do desrespeito pelo direito internacional, a
inevitável proliferação destas tecnologias conduzirá a um ambiente futuro ainda
mais caótico. É nosso entendimento que, apesar dos esclarecimentos fornecidos
pela Administração Obama nos últimos meses acerca do processo de decisão e dos
protocolos de ataque, a verdade é que a informação disseminada acerca dessas
metodologias, ou seja, as evidências factuais, são manifestamente
insuficientes, nem tão-pouco são passíveis de ser comprovadas por fontes
independentes. Assim, esta perspetiva americana de soberania global ameaça, por
isso, sobrepor-se ao direito tradicional de soberania individual.
Relacionamento do Indivíduo e da Sociedade com a Guerra
Estamos perante uma nova era de «telecombate». A desconexão física e emocional
desta modalidade de operação remota, semelhante a um jogo de vídeo, altera a
dinâmica da tomada de decisão, aumentando as preocupações sobre os princípios
básicos de moralidade e humanidade que antecedem a decisão de matar um
adversário.
Uma das implicações resultantes do aumento da distância entre combatentes é que
possa provocar uma dessensibilização à morte similar à experiência vivida nos
jogos de vídeo. Esta «mentalidade de combate Playstation», por parte de
indivíduos que nunca foram expostos aos riscos e rigores da guerra, pode
originar excessos e desrespeitos das convenções internacionais18. O receio de
que a guerra se possa transformar num jogo de vídeo é demasiadamente simplista.
Contudo, este argumento assenta no pressuposto que quando não temos de
enfrentar fisicamente o adversário, se torna mais fácil matar.
Existe efetivamente uma tendência histórica de diminuição da resistência a
matar em combate, à medida que a distância entre combatentes aumenta19. Ou
seja, quanto mais longe estiver o adversário, mais fácil se torna matá-lo. Por
exemplo, a resistência a impor a morte através do bombardeamento aéreo a 20 000
ft ou através do uso de artilharia situada a dois quilómetros de distância do
alvo, é mínima20. A estas distâncias, a despersonalização do alvo facilita o
emprego de armamento, tornando a guerra altamente impessoal. Todavia, com o
aumento da distância, o efeito psicológico sobre o inimigo é mais reduzido, na
medida em que o combate a curta distância, e em particular o medo sentido por
poder ser morto em combate próximo, é que modifica o comportamento do
adversário21. Neste sentido, a visão pessoal da morte e destruição torna-se
extremamente eficaz na modificação do comportamento humano. Por outro lado, as
armas que constituem uma ameaça direta são psicologicamente mais eficazes do
que as armas de área. Ou seja, o atirador furtivo é psicologicamente mais
eficaz do que uma salva de metralhadora, ou uma bomba de precisão tem maior
impacto psicológico do que uma barragem de fogo de artilharia22. De igual
forma, a constante antecipação de ser atacado pode ter um efeito nefasto, em
particular quando esta incerteza se prolonga no tempo23.
Podemos assim concluir que, apesar do aumento da distância, quanto mais precisa
é a arma maior é o medo que inspira ao adversário. Se a isto adicionarmos um
caráter de furtividade, surpresa e incerteza acerca da chegada da morte,
conseguiremos levar a extremos o efeito psicológico sobre o inimigo. É nesta
perspetiva que a quase omnipresença do bombardeamento de precisão revela o
efeito psicológico devastador da GAR. Embora o maior afastamento entre
combatentes possa induzir uma despersonalização do combate, Gregory advoga um
fenómeno contrastante de personalização do combate resultante da proximidade
emocional com as forças amigas no terreno24. Apesar deste paradoxo, ambos os
fenómenos contribuem para aumentar a predisposição para o uso da força letal e,
com ela, o aumento de risco para os não combatentes.
Em primeiro lugar, apesar de estarem a milhares de milhas de distância física
do alvo, os operadores dispõem de uma visão do espaço de batalha em alta
definição que lhes fornece uma sensação de proximidade com a ação. Este efeito
de proximidade resultante de estímulos multissensoriais (imagem e áudio)
aumenta, por um lado, a consciência situacional dos operadores, mas, por outro,
personaliza o combate tornando-o mais íntimo, em particular quando forças
amigas estão sob ataque. A visão quase microscópica dos alvos e da destruição
em alta resolução parece contribuir para agravar este sintoma, uma vez que a
consola de vídeo mostra não só a destruição imposta mas também a sequência dos
eventos, ao contrário da presença efémera do piloto na área do alvo. Assim, a
dicotomia conceptual da distância, que simultaneamente separa fisicamente os
operadores de UAS, mas imerge-os psicologicamente em combate, poderá contribuir
para precipitar o uso de força letal contra elementos na proximidade das forças
amigas, aumentando o risco de danos colaterais e fratricídio.
Outro dos fatores que importa realçar é o processo de desumanização do inimigo
que, como uma das constantes da guerra, faz diminuir as barreiras ao combate,
quer da parte da sociedade, quer do próprio militar que impõe a morte ao
adversário. Ao remover as qualidades humanas do adversário, como, por exemplo,
a demonização do oponente25, desinibe-se a atuação do ofensor, favorecendo a
execução de atos violentos que de outra forma não seriam considerados nem
aceitáveis26.
É seguindo este raciocínio que autores como Wilson advogam que o afastamento
psicológico resultante da condução da GAR implica uma nova forma de
desumanização do adversário27. Para ele, ao manterem a distância da agonia
humana, transformam a guerra real numa simulação brutal. Por exemplo, a
referência aos insurgentes mortos no Paquistão por mísseis disparados de
drones, como bugsplat28, acentua a técnica psicológica de desumanização dos
alvos, diminuindo a inibição para matar e tornando a morte mais aceitável.
Este ambiente de combate sintético propicia a desumanização dos inimigos e,
como tal, a desconexão moral dos operadores, que se reflete na
dessensibilização à morte e com ela uma maior probabilidade de ocorrência de
comportamentos antiéticos. Numa perspetiva tecnológica, a imersão neste
ambiente de realidade virtual faz esbater as diferenças entre um jogo de vídeo
e a realidade, confundindo um alvo virtual e um alvo real, ao mesmo tempo que
no plano ético provoca um distanciamento físico e emocional das ações
produzidas. Neste cenário extremo, também o operador será desumanizado, privado
de sentimento moral de responsabilidade, ou de culpa pelos seus atos29. Com o
aumento da autonomia dos UAS e com a perspetiva da transição humana de
executante para supervisor poderemos antecipar um agravamento desta condição30.
As implicações do relacionamento do indivíduo com a guerra fazem-se notar na
própria experiência da guerra. «Ir para a guerra» tornou-se um processo
devidamente ritualizado em que se pressupunha a assunção do risco da própria
vida. Implicava a separação dos entes queridos e a exposição aos horrores do
combate. Isto mudou irremediavelmente com a operação remota de UAS, tornando
cada vez mais difícil distinguir o evento «ir para a guerra» de «ir para o
trabalho»31.
A habilidade da geração Playstationtorna-a indicada para gerir as múltiplas
tarefas com a rapidez exigida pelos conflitos atuais, porém, esta habituação à
realidade virtual faz distorcer a realidade da Guerra. No ambiente assético da
consola do operador do Reaper, as explosões parecem autênticos jogos de
computador, onde a diferença de um jogador para o operador reside nas
consequências reais dos clicksno rato. Comparativamente com a vivência
operacional do combatente terrestre, o horror da guerra não é tão nítido quando
visto de um monitor. Contudo, apesar do afastamento entre combatentes poder
facilitar a imposição da morte, não os isenta de sentir remorsos.
Apesar da agilidade natural da geração Playstationem alternar entre os dois
mundos, esta nova geração não compreende o horror da guerra, nem os laços de
camaradagem e de espírito de corpo que se fortalecem em combate e que não são
reproduzíveis em ambientes sintéticos. O património imaterial dos militares, os
seus valores e virtudes, consubstanciadas sob a forma do ethos militar,
encontram as suas origens em conceitos de honra, bravura e cavalheirismo
derivados da realidade física do combate direto. Ao pouparem os combatentes ao
perigo e ao sacrifício, os UAS transformam a conflitualidade hostil numa
modalidade de «guerra sem virtudes» isenta de coragem e de heroísmo. O
«guerreiro virtual», poupado às condições austeras do ambiente de combate, é
privado da identidade e do sentimento de pertença característico do corpo de
militares que tradicionalmente se submete ao risco de combate.
Neste âmbito, o uso de UAS armados desafia as noções tradicionais do
ethosmilitar e o estatuto moral da guerra enquanto forma de violência. É esta
possibilidade de competição letal, em que um combatente usa a força contra
outro arriscando a própria sobrevivência, que distingue a essência da guerra.
Por isso, não será de esperar que esta nova geração de militares, apelidada por
Dunlap como «guerreiros de consola», e que faz a guerra sem nunca ter sido
exposta às suas consequências mortais, partilhe dos valores militares
tradicionais que restringem a conduta ilegal e imoral na guerra32.
A dependência ocidental do uso de UAS pode influenciar a própria perceção e
ligação da sociedade à guerra. Numa sociedade em que o recrutamento militar
obrigatório foi eliminado, onde as declarações de guerra deixaram de existir,
em que os orçamentos de defesa deixaram de ser prioritários, a remoção dos
combatentes humanos do espaço de batalha afigura-se como a eliminação do
derradeiro custo político e social de fazer a guerra.
Aquilo que Luttwak designou de guerra pós-heroica assume atualmente novas
proporções33. O mesmo autor relembra que apesar das forças armadas modernas
estarem estruturadas para a guerra de larga escala, a base demográfica das
sociedades avançadas pós-industriais, com famílias pequenas, demonstra uma
tolerância reduzida para baixas em combate34. Contudo, estas condicionantes
podem tornar-se demasiado constrangedoras para uma grande potência, uma vez que
a sua condição a obriga a arriscar combater para além dos seus interesses
vitais, defendendo aliados, clientes ou outros fins periféricos35. É segundo
este paradigma que a GAR revela a sua utilidade.
Contudo, Dudziak alerta para a possibilidade de os drones contribuírem para
isolar cada vez mais a sociedade americana das ações militares, reduzindo o
controlo da conduta política e ajudando a prolongar perpetuamente a guerra36. A
indiferença da opinião pública ocidental à expansão global dos bombardeamentos
aéreos por UAS é um dos indicadores de que os custos políticos de uma guerra em
sociedades democráticas são cada vez mais reduzidos, minimizando os
constrangimentos políticos ao seu emprego. Por outro lado, a indiferença que os
UAS provocam na sociedade, transformando o cidadão-soldado em espectador, e a
guerra em mais um espetáculo televisivo que concorre por sharecom outras
atividades lúdicas, levam também a pensar que o escrutínio público desta
atividade vital possa ter diminuído, e com ele fazer aumentar a frequência da
guerra. O vídeo em tempo real da zona de operações e a sua disseminação pública
ocorre de forma mais rápida e global do que em conflitos anteriores. Algo que
deveria causar medo e angústia, é visto agora como uma forma de entretenimento
que recebemos no emaildiário, fomentando a vulgarização da experiência da
guerra, dos seus custos e das suas consequências, podendo em última análise
levar a um completo desinteresse da sociedade.
As Forças Armadas existem porque pessoas estão dispostas a morrer pela sua
pátria. Mas a GAR permite que os conflitos sejam travados sem dispêndio da
própria vida, colocando-nos perante o risco de transformação do conceito
histórico de Forças Armadas. Em última análise, Engelhardt alerta sobre o
perigo da robotização militar como estágio final do outsourcingda guerra para
«coisas» que não protestam, não votam e para as quais não existe significado de
mobilização nacional para combate37. Todavia, podemos encarar o uso da
tecnologia como uma forma de reduzir os custos e as paixões na guerra, e como
tal os seus crimes38. A esperança de que novas invenções possam limitar a
crueldade e os crimes da guerra, evitando o derramamento de sangue, é uma
constante histórica da conflitualidade hostil. Neste domínio, a omnipresença
das câmaras no espaço de batalha modifica o contexto em que as decisões e
também os abusos na guerra são feitos. Em última análise, mesmo que não seja
mais difícil cometer um crime, torna-se, pelo menos em teoria, mais fácil
descobrir os criminosos e responsabilizá-los.
Caminhamos a passos largos para uma completa omnisciência do espaço de batalha,
que permitirá, segundo os seus defensores, monitorizar o quotidiano de um
indivíduo numa sociedade, distinguindo onde vive, com quem se relaciona e o que
faz, oferecendo opções mais variadas, letais ou não, de influenciar o seu
comportamento. À medida que estes sistemas atingem níveis mais elevados de
maturação, é possível antecipar a sua miniaturização e migração para outros
domínios da interação humana, sob o auspício da segurança interna dos estados.
De uma perspetiva mais crítica e catastrofista, podemos encarar esta ambição,
de vigilância persistente e ubíqua, como uma possível semente que faça germinar
uma verdadeira sociedade orwelliana.
Conclusão
Ao efetuarmos uma análise ao cálculo político, estamos inclinados a responder
que os benefícios da GAR contribuem para aumentar o desejo político de recorrer
ao uso da força, não em último recurso, mas como primeira escolha. Neste
sentido, a preeminência da GAR poderá contribuir para alterar a cultura
estratégica dos estados em recorrer à força coerciva para alcançar objetivos
políticos, fazendo aumentar o desejo de empregar o poder aéreo como instrumento
preferencial e quase exclusivo de guerras futuras.
A opinião pública é, nos estados democráticos, uma força condicionante, e
reguladora, das ambições políticas do regime. Contudo, a tolerância às baixas
em combate torna-se um indicador do risco que a sociedade está disposta a
correr. Esta aversão ao risco é afetada pela emergência da GAR, uma vez que
esta modalidade contribui para baixar cada vez mais a tolerância a baixas,
porventura, até um ponto em que o combate direto entre homens esteja banido. No
entanto, e numa visão mais realista, antevê-se também como consequência uma
maior propensão política para recorrer ao instrumento militar, como a primeira
solução para uma crise, contribuindo dessa forma para a proliferação de
conflitos, criando maior hostilidade e perigosidade num ambiente futuro
complexo e adverso para as relações internacionais.
Os incentivos estratégicos e morais para tornar esta modalidade cada vez mais
precisa e exercida de forma remota, vão aumentando à medida que a opção por
guerras de larga escala decresce em número e intensidade. As perspetivas de
confrontos convencionais entre grandes exércitos parecem ser cada vez mais
remotas, o mesmo se aplicando à probabilidade de se registarem intervenções
militares americanas de larga escala, com o intuito de invadir, pacificar e
administrar um país do terceiro mundo. Esta antevisão realista incentiva uma
postura americana que favorece o recurso à GAR, em áreas como a Ásia, o
Pacífico ou o golfo Pérsico.
O uso desta modalidade tem sido justificado como resposta legítima às ameaças
terroristas e aos desafios da guerra assimétrica, mas com o risco de
esbatimento das fronteiras do enquadramento legal. Com a expansão das operações
secretas da CIA do Paquistão para o Iémen e a Somália, alastra também a
modalidade de «execuções seletivas» a outros países com quem os Estados Unidos
não estão oficialmente em guerra. Esta erosão do conceito de campo de batalha
faz elevar a preocupação de que programas semelhantes se expandam, de forma
preventiva, a períodos de crise entre estados. Assim, julgamos que as objeções
apresentadas qualificam a existência de um desafio mais profundo e com efeitos
futuros mais preocupantes: será absolutamente necessário e ético deixar os
civis combaterem em nome do Estado?
A proliferação de UAS de combate traz consigo preocupações de que ao nos
distanciarmos dos horrores da guerra possamos abdicar de algumas barreiras
cruciais que impedem o alastramento da conflitualidade hostil. Ou seja, numa
perspetiva política, tornando o emprego do instrumento militar ainda mais
apetecível, e fazendo aumentar as possibilidades de maiores danos civis no
adversário. Neste caso, os efeitos adversos da vigilância persistente e da
precisão criam uma presunção de infalibilidade que motiva decisões políticas
mais arriscadas, como os ataques em zonas urbanas. Apesar disto, o emprego de
UAS pode contribuir para a adoção de uma postura de dissuasão que evite a
guerra. Nesta perspetiva, a criação de uma força militar ultrassofisticada
poderá impedir qualquer adversário de arriscar combater. No entanto, esta
expectativa contribuirá, em nossa opinião, para mais uma mutação nos meios e
nas modalidades de combate, repetindo momentos históricos em que, por exemplo,
as armas nucleares dissuadiram a guerra para níveis convencionais, tendo
posteriormente a supremacia aérea ocidental contribuído para uma nova
transformação para dimensões híbridas.
A alternância entre proximidade (intimidade com os acontecimentos) e
afastamento (distância física do espaço de batalha), a que se junta uma
permanência temporal aumentada, torna mais complexa a análise dos efeitos da
GAR no próprio indivíduo. Isto é, as melhorias verificadas na capacidade de
transmissão de vídeo em tempo real distorcem os efeitos da distância entre o
operador e o alvo, afetando qualitativamente o risco para os inocentes. Para
além disso, estes fatores (proximidade, afastamento, permanência), nunca
presentes de forma simultânea na história da guerra aérea, afetam de forma
paradoxal o paradigma da GAR. Apesar da sua ambivalência, contribuem para
reduzir as barreiras ao uso da força letal, facilitando a decisão de matar e
como consequência, aumentando o risco para os não combatentes, danos colaterais
e fratricídio. A ultrapassagem da derradeira fasquia da autonomia parece
indicar um ponto de inflexão no futuro da GAR, ameaçando alterar o envolvimento
humano na guerra, de executante, a supervisor, a observador. Por enquanto,
ainda se torna necessário que o homem opere os veículos, interprete os dados e
coordene as tarefas entre diversos sistemas. Lentamente, o homem vai
abandonando a função de executante para supervisionar o comportamento da
máquina e autorizar o uso de força letal. Neste sentido, o homem converte-se no
mínimo denominador comum de um sistema autónomo, que atrasa o processo de
decisão, expondo por isso vulnerabilidades operacionais. Ao procurarmos um
sistema que tome decisões e reaja a velocidades sobre-humanas, arriscamos a que
o homem não consiga acompanhar a função de supervisor. Quando isso acontecer, a
interferência humana na conduta da guerra será de mera observação.
Ao longo deste ensaio foi possível verificar que com o inevitável alastramento
da GAR poderemos assistir a uma transformação fundamental da guerra. Para além
de mudar a forma de combater, expressa na capacidade, letalidade e eficácia
operacional, altera também o protótipo de combatente, transformando
qualitativamente a interferência humana na guerra e a experiência em si, tanto
ao nível individual, como enquanto instrumento político e derradeira expressão
da interação entre as sociedades.
Ao removermos parte do horror, ou, pelo menos, o mantivermosà distância,
estamos a arriscar perder o controlo sobre a frequência da guerra. Em vez de se
procurarem formas de erradicar os problemas que conduzem à guerra, assistimos a
uma tendência de afastar o homem para cada vez mais longe do local de combate
e, em última análise, das consequências das suas ações.
Um futuro repleto de UAS autónomos constitui uma mudança de paradigma em termos
de uso da força. O seu emprego pode alterar de forma fundamental a natureza da
dinâmica da guerra, transformando irremediavelmente as culturas estratégicas
dos estados. Quando isso acontecer, estaremos perante uma revolução nos
assuntos militares de proporções épicas.
Data de receção: 19 de fevereiro de 2013 |Data de aprovação: 26 de agosto de
2013
Notas
1
As temáticas abordadas neste ensaio foram desenvolvidas, pelo autor, em maior
detalhe nas obras Guerra Aérea Remota: A Revolução do Poder Aéreo e as
Oportunidades para Portugale A Essência da Guerra Aérea Remota.
2
ZENKO, Micah ' Addicted to Drones. [Consultado em: 18 de fevereiro de 2013].
Disponível em: http://www.foreignpolicy.com/articles/2010/10/01/
addicted_to_drones
3
OLSTHOORNl, Peter, e ROYAKKERS, Lambèr ' «Risks and robots ' some ethical
issues». Seminário «The Ethics of Emerging Military Technologies».
International Society for Military Ethics. Universidade de San Diego, 2011.
4
Líbia, Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iémen e Somália.
5
NOLIN, Pierre ' Unmanned Aerial Vehicles: Opportunities and Challenges for the
Alliance. NATO Parliamentary Assembly Committee Report. Bruxelas: NATO, 2012,
p. 13.
6
NEW AMERICAN FOUNDATION' The Year of the Drone. [Consultado em: 18 de fevereiro
de 2013]. Disponível em: http://counterterrorism.newamerica.net/drones
7
BRENNAN, John ' Brennan's Speech on Counterterrorism.[Consultado em: 18 de
fevereiro de 2013]. Disponível em: http://www.cfr.org/counterterrorism/
brennans-speech-counterterrorism--april2012/p28100
8
NOLIN, Pierre ' Unmanned Aerial Vehicles: Opportunities and Challenges for the
Alliance, p. 13.
9
US GAO' Nonproliferation: Agencies Could Improve Information Sharing and End--
Use Monitoring on Unmanned Aerial Vehicle E x p or t s . W a s hin g to n D C:
U S Government Accountability Office, 2012, pp. 9-14.
10
DAWKINS, James ' Unmanned Combat Aerial Vehicles: Examining the Political,
Moral, and Social Implications.Maxwell AFB: School for Advanced Air and Space
Studies, 2005, pp. 21-24.
11
Relativamente à temática de targeted killingsver Alston, Philip ' Study on
Targeted Killings. Nova York: Nações Unidas, 2010; ANDERSON,
Kenneth ' Targeted Killing in U.S. Counterterrorism Strategy and Law.Washington
DC: Brookings Institution, the Georgetown University Law Center, and the Hoover
Institution, 2009; FISHER, Jason ' «Targeted killing, norms,
and international law». In Columbia Journal of Transnational Law, Columbia.
Vol. 45, N.º 3, 2007, pp. 711-758; MELZER, Nils '
Interpretive Guidance on the Notion of Direct Participation in Hostilities
under International Humanitarian Law. Genebra: International Committee of the
Red Cross, 2009; RAEMDONCK, Nathalie ' «Vested inter e s t or
mo r a l in d e cisiv en e s s? Explaining the EU's silence on the ustargeted
killing policy in Pakistan». In IAI Working Papers 12. Roma: Istituto Affari
Internazionali, 2012; SOLIS, Gary ' «Targeted killing and the law of armed
conflict». In Naval War College Review. Newport. Vol. 60, N.º 2, primavera de
2007, pp. 127-146.
12
DUNLAP, Charles ' Lawfare amid Warfare. [Consultado em: 18 de fevereiro de 2
013]. Disponível em: http://www.washingtontimes.com/news/2007/aug/03/lawfare-
amid-warfare/.
13
OBAMA, Barack ' President Obama Hangs Out With America. [Consultado em: 18 de
fevereiro de 2013]. Disponível em: http://www.whitehouse.gov/blog/2012/01/30/
president-obama-hangs-out-america.
14
Cf. BRENNAN, John ' Brennan's Speech on Counterterrorism. [Consultado em: 18 de
fevereiro de 2013]. Disponível em: http://www.cfr.org/counterterrorism/
brennans-speech-counterterrorism-april2012/p28100; Holder, Eric ' Attorney
General Eric Holder Speaks at Northwestern University School of Law.
[Consultado em: 18 de fevereiro de 2013]. Disponível em: http://
www.justice.gov/iso/opa/ag/speeches/2012/ag-speech1203051.html; Johnson, Jeh '
National Security Law, Lawyers and Lawyering in the Obama Administration, 2012.
[Consultado em: 18 de fevereiro de 2013]. Disponível em: http://
www.lawfareblog.com/2012/02/jeh-johnson-speech-at-yale--law-school/.
15
HEYNNS, Christof ' Report of the Special Rapporteur on Extrajudicial, Summary
or Arbitrary Executions. Nova York: Nações Unidas, 2013, p. 8.
16
Ibidem, pp. 20-21.
17
LITTLE, Laura ' «Transnational guidance in terrorism cases». In George
Washington University International Law Review. Washington DC. Vol. 38, N.º 1,
2006, pp. 1-31.
18
ALSTON, Philip ' Study on Targeted Killings, p. 25.
19
GROSSMAN, Dave ' On Killing: The Psychological Cost of Learning to Kill in War
and Society. Nova York: Little Brown, 1996.
20
GROSSMAN, Dave, CHRISTENSEN, Loren ' On Combat: The Psychology and Physiology
of Deadly Conflict in War and in Peace. Milstadt: Warrior Science Publications,
2008, p. 203.
21
Ibidem, p. 204.
22
Ibidem.
23
Ibidem, p. 273.
24
GREGORY, Derek ' Lines of Descent. [Consultado em: 18 de fevereiro de 2013].
Disponível em: http://www.opendemocracy.net/derek-gregory/lines-of-descent.
25
Relembre-se a expressão contemporânea «Axis of Evil» introduzida pelo
Presidente George Bush num discurso do Estado da União em 2002.
26
BANDURA, Albert ' «The role of selective moral disengagement in terrorism and
counterterrorism». In Understanding Terrorism: Psychosocial Roots, Consequences
and Interventions. Washington DC: American Psychological Association, 2004, pp.
135-137.
27
WILSON, Gary ' The Psychology of Killer Drones ' Action Against Our Foes;
Reaction Affecting Us. [Consultado em: 18 de fevereiro de 2013]. Disponível em:
http://fabiusma-ximus.wordpress.com/2011/09/28/29263/.
28
Em referência a jogos de computador em que o objetivo é esmagar baratas. Este
termo atribui uma conotação depreciativa, sub-humana, ao caracterizar os alvos
como vermes, fazendo reavivar a terminologia introduzida por Hitler ao
referenciar os judeus como parasitas e vermes. Robinson, Jennifer ' «Bugsplat»:
The Ugly US Drone War in Pakistan. [Consultado em: 18 de fevereiro de 2013].
Disponível em: http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2011/11/
201111278839153400.html.
29
ROYAKKERS, Lambèr, e Est, Rinie van ' «The cubicle warrior: the marionette of
digitalized warfare». In Ethics and Information Technology. Vol. 12, N.º 3,
2010, p. 293.
30
Ibidem, p. 292.
31
SINGER, Peter ' Wired for War. Nova York: Penguin Press, 2009, p. 327.
32
DUNLAP, Charles ' Technology and the 21st Century Battlefield. Carlisle:
Strategic Studies Institute, 1999, p. 30.
33
LUTTWAK, Edward ' «Towards post-heroic warfare». In Foreign Affairs. New York.
Vol. 74, N.º 3, maio-junho de 1995, pp. 109-122.
34
LUTTWAK, Edward ' Dead End: Counterinsurgency Warfare as Military Malpractice.
[Consultado em: 18 de fevereiro de 2013]. Disponível em: http://harpers.org/
archive/2007/02/0081384.
35
LUTTWAK, Edward ' «Post-heroic warfare and its implications». Proceedings of
NIDS International Symposium on Security Affairs ' War and Peace in the 21st
Century: Reflections upon the Century of War. Tóquio: National Institute for
Defense Studies, 2000, p. 136.
36
DUDZIAK, Mary ' On Drones and the War Power. [Consultado em: 18 de fevereiro de
2013]. Disponível em: http://legalhistory-blog.blogspot.com/2009/09/on-drones-
and--war-power.html.
37
ENGELHARDT, Tom ' How Drone War Became the American Way of Life. [Consultado
em: 18 de fevereiro de 2013]. Disponível em: http://www.aljazeera.com/indepth/
opinion/2012/02/201222791327288883.html.
38
SINGER, Peter ' Wired for War, p. 393.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt