Estratega, diplomata, guerrilheiro: Cabral reexaminado
Estratega, diplomata, guerrilheiro. Cabral reexaminado
Aurora Almada e Santos
Licenciada e mestre em História pela FCSH'UNL, neste momento frequenta o
doutoramento em História Contemporânea, estando a desenvolver um projeto de
tese sobre «A Organização das Nações Unidas e a Questão Colonial Portuguesa
(1960-1976)».
Julião Soares Sousa.
Amílcar Cabral (1924-1973). Vida e Morte de um Revolucionário Africano
Lisboa: Nova Vega, 2011, 570 páginas
Figura incontornável na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, a Amílcar Cabral é
reconhecida a liderança do processo de emancipação política dos dois países.
Atribuindo à força e personalidade de Amílcar Cabral o êxito da luta armada de
libertação nacional da Guiné-Bissau, Julião Soares Sousa estudou a vida e a
morte daquele que classifica como um revolucionário africano. Produto de uma
tese de doutoramento, a obra apresenta-se como um estudo bem documentado e
baseado num extenso repertório de fontes escritas, orais e audiovisuais.
Pretendendo dar espaço à crítica histórica no estudo biográfico de Cabral, o
autor vem demonstrar que o seu percurso pessoal e político estava até aqui
repleto de episódios ainda não totalmente esclarecidos. Ao adotar o tempo de
vida de Amílcar Cabral como âmbito cronológico, Julião Soares Sousa avança com
conclusões fundamentadas que procuram responder a uma questão central: qual a
estratégia seguida no lançamento e consolidação da rejeição das estruturas
coloniais e na transformação radical da vida política, económica e social da
Guiné-Bissau?
O PERCURSO PARA A LIDERANÇA
Filho de cabo-verdianos, Amílcar Cabral passou a sua primeira infância na
Guiné-Bissau, onde nasceu em 1924. Traçando o percurso da sua formação e
culminando na tomada da liderança do movimento de libertação da Guiné e Cabo
Verde, a primeira parte da obra, composta por cinco capítulos, segue no
essencial uma estrutura cronológica linear. Explorando as poucas fontes diretas
disponíveis, Julião Soares Sousa consegue apresentar-nos no primeiro capítulo
uma narrativa convincente sobre as origens de Cabral, a sua vivência na Guiné e
em Cabo Verde e a sua socialização familiar e escolar. Discutindo as diferentes
teses em torno de questões como a data do regresso definitivo a Cabo Verde, com
qual dos progenitores partiu da Guiné, o período e o local de frequência do
ensino primário ou o papel dos pais na sua formação, o autor revela um domínio
bastante seguro do seu objeto de estudo, algo que os seguintes capítulos vêm
depois confirmar.
Localizando no Mindelo o espaço onde decorreu a primeira consciencialização de
Cabral, o autor entende que as suas primeiras manifestações de revolta
estiveram longe de contemplar a construção de uma nação independente. Ao
defender que inicialmente Cabral teria sido partidário da reforma do sistema
colonial português, Soares Sousa acredita que foi em Portugal, para onde veio
em 1945, que começou a descrer dessa hipótese. Aflorada no primeiro capítulo e
desenvolvida com mais detalhe no segundo, a explicação do autor é a de que
Cabral teria feito a sua aprendizagem política entre os movimentos portugueses
de oposição ao Estado Novo. Os contactos com estudantes de outras colónias, a
influência do movimento da negritude e o desencanto com o pouco acolhimento
dado pela esquerda portuguesa à descolonização conduziriam, porém, a que
gradualmente passasse a favorecer a autonomização e a defesa dos interesses
africanos.
Já nessa época, em finais dos anos 1940, Julião Soares Sousa consegue
descortinar em Cabral manifestações de um desejo de regressar a África para
cumprir aquela que considerava ser a sua missão enquanto «intelectual
comprometido»: a consciencialização e luta pela melhoria das condições de vida
das populações da Guiné. Partindo para a colónia em 1952 como engenheiro
agrónomo, envolveu-se então numa luta legal contra o regime colonial, que muito
contribuiu para ativar o sentido de consciência entre a população da Guiné.
Tendo abandonando a colónia em 1955, por motivos de saúde, o autor procura
desmistificar as alegações que situam nessa etapa da vida de Cabral a sua
participação na alegada fundação do mpla e do pai/paigc. Datando a constituição
desses movimentos como posteriores a 1956, Julião Soares Sousa entende, como
explica no terceiro capítulo, que até 1959 a participação de Cabral em
organizações clandestinas se resumiu exclusivamente aos que chamavam para si a
representação do conjunto das colónias portuguesas.
Tendo esses movimentos apostado no estabelecimento de organizações políticas ao
nível dos territórios ultramarinos portugueses, Amílcar Cabral teria então
participado na criação do pai/paigc em 1959, fixando-se em seguida na Guiné-
Conakry. Coincidindo a constituição do movimento com a elaboração do projeto de
unidade entre a Guiné e Cabo Verde, o autor analisa no capítulo quarto a ideia
de federação entre as duas colónias no contexto das diferentes uniões
concebidas em África. Ao abranger a conquista da liderança do movimento de
libertação da Guiné e Cabo Verde, Julião Sousa conclui a primeira parte da obra
com o estudo dos complexos obstáculos que Cabral teve de vencer em Conakry e no
Senegal. Ricos em pormenores, estes capítulos, como de resto os restantes, têm
no entanto escassas referências ao contexto internacional. Embora o autor
tivesse defendido que Cabral era fruto de uma época controversa e em rápida
evolução é com surpresa que notamos que não foram feitas referências
significativas ao processo de descolonização das colónias britânicas e
francesas. Fica por saber quais as influências e os ensinamentos colhidos por
Cabral dos processos de luta desenvolvidos nesses territórios, designadamente
na Argélia, onde a Frente de Libertação Nacional se distinguiu por uma intensa
ação diplomática que acreditamos ter servido de modelo aos movimentos das
colónias portuguesas.
O DESENVOLVIMENTO DA LUTA
Com uma estrutura mais densa, que combina uma dimensão cronológica com uma
vertente mais temática, a segunda parte da obra, também composta por cinco
capítulos, abarca a atuação de Cabral em território guineense até ao seu
assassinato. Reunindo contributos que estavam dispersos, Soares Sousa afasta-se
das narrativas como as de Oleg Ignátiev, autor de Amílcar Cabral: Filho de
África. Narração Biográfica(1975), ou de Tomás Aquino com O Fazedor de Utopias.
Uma Biografia de Amílcar Cabral(2007), que embora reconstruindo o percurso de
vida de Cabral não aprofundam o suficiente a análise do seu pensamento. Soares
Sousa distingue-se pelo maior detalhe no exame dos ensaios e escritos políticos
de Cabral, complementando a contribuição que Patrick Chabal em Amilcar Cabral:
Revolutionary Leadership and People's War (1983) já tinha avançado.
No primeiro capítulo, dedicado à produção teórica de Cabral, é exposta a
caracterização que fazia da dominação colonial portuguesa e o papel por ele
atribuído à cultura no processo de libertação. Ao traçar o seu percurso em
direção à etapa revolucionária, o segundo capítulo demonstra que, até 1963, a
estratégia revolucionária adotada teve por base a legalidade internacional, com
recurso às Nações Unidas para a luta contra a dominação portuguesa. Com a
descrição que nos é apresentada do processo de mobilização para a passagem à
ação direta, da prioridade concedida à politização das massas e da
circunstância de ter sido lançada uma intensa campanha internacional para a
obtenção de apoios, ficamos a saber que Cabral passaria, após concluir que as
resoluções da organização eram insuficientes, a defender a legitimidade do uso
da violência e o abandono dos métodos pacíficos.
Os progressos da guerrilha teriam, como revelado no capítulo seguinte sobre os
problemas internos e externos da luta, colocado em evidência as fraquezas
organizacionais e estruturais do paigc, ocorrendo desvios de orientação,
abusos, lutas fratricidas e crises de liderança. Naquele que é um dos capítulos
mais bem conseguidos da obra, Soares Sousa não tem dúvidas em afirmar que o
paigc alcançou o controlo sobre uma parte significativa da Guiné, datando de
1965-1966 os primeiros sinais de um proto-governo nas áreas libertadas, com a
criação de estruturas político-administrativas, judiciais, militares,
económicas e socioculturais. É de lamentar contudo o facto de não terem sido
incluídas na narrativa os aspetos táticos das ações de guerrilha. São poucas
também as referências ' com a exceção do projeto de Spínola e da criação de
aldeias estratégicas ' às operações militares desenvolvidas por Portugal para
contrariar os avanços de Cabral, uma dimensão para a qual já existem alguns
trabalhos em que o autor se poderia ter apoiado.
Objeto de maior atenção, o projeto para o período pós-independência, muito
centrado na construção do socialismo na Guiné e em Cabo Verde, ocupa a primeira
parte do quarto capítulo. Sem deixar de aludir à influência de Marx, o autor
realça a influência que o contexto africano, onde várias experiências de
construção nacional baseadas em conceitos doutrinários marxistas estavam em
curso, teve na teorização social desenvolvida por Cabral. A relevância da luta
político-diplomática na estratégia de Cabral, que abarca a segunda parte do
capítulo, poderia em nossa opinião ter sido analisada à parte, dado ter ficado
demonstrado que em alguns momentos condicionou as ações de guerrilha, que eram
intensificadas em função de determinados objetivos internacionais. Ao
estabelecer uma periodização para as proto-relações diplomáticas do paigc,
Soares Sousa acaba por evidenciar o quão importante foram na tentativa de
proclamação do Estado da Guiné, que era o objetivo que Cabral perseguia quando
foi assassinado, em janeiro de 1973.
Da trama e das diversas e contraditórias versões sobre o assassinato, que são
expostas com detalhe no último capítulo, Soares Sousa retira a conclusão ' que
segue no essencial as hipóteses de José Pedro Castanheira em Quem Mandou Matar
Amílcar Cabral (1995) ' de que os assassinos teriam sido dissidentes do paigc,
negando que Portugal tivesse tido a oportunidade e as condições para cometer o
crime.
Na sua substância, a obra de Julião acaba por ser mais do que um mero
contributo, a somar aos demais existentes, sobre o estudo de uma personalidade
tão complexa. Tal como a entendemos, é em grande medida uma narrativa sobre
aqueles com os quais Amílcar Cabral se cruzou no seu percurso, permitindo-nos
compreender melhor o processo que fez da independência da Guiné e de Cabo Verde
um caso relativamente singular no contexto da descolonização portuguesa.
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