Booth e smith em aberystwyth: a teoria serve sempre alguém e algum propósito
INTRODUÇÃO
A história disciplinar das relações internacionais (RI) está intimamente
relacionada com a história de Aberystwyth e a criação de uma cátedra de
Relações Internacionais nesta cidade costeira do País de Gales em 1919, por
iniciativa de David Davies1. A história está suficientemente documentada e há
muito faz parte dos mitos fundadores da autonomia disciplinar2. O que está
ainda por apurar e descrever é o processo de viragem ocorrido no início dos
anos 1990 com a chegada de Steve Smith a Aberystwyth e a sua aproximação a Ken
Booth. Este facto foi crucial tanto para a transformação intelectual de Ken
Booth como para a do próprio departamento. Em entrevista concedida no passado
mês de junho, Booth referiu aos autores deste artigo que quando começou a
querer expandir a análise das relações internacionais para lá do âmbito
realista que então dominava o departamento, deparou-se com um ambiente muito
hostil por causa do seu apego a uma interpretação realista muito estrita, ao
suposto caráter científico desta interpretação e à convicção de que a própria
«natureza humana» tornaria inválidas outras formas de abordar as relações
internacionais. A opção de Booth por uma abordagem mais historicista e
normativa não encontrou muito apoio no departamento, mas a chegada de Steve
Smith a Aberystwyth significaria a possibilidade de colaboração com alguém que
partilhava as suas ideias acerca da necessidade de expandir o âmbito da
disciplina, de superar as limitações do paradigma realista e avançar para uma
abordagem das relações internacionais fundada na história, na transformação
histórica dos grupos humanos e dos indivíduos em vez dos estados.
Como relata Booth na mesma entrevista, a chegada de Steve Smith a Aberystwyth
coincidiu igualmente com o início do processo de avaliação das universidades
britânicas. Estas avaliações externas colocavam forte ênfase no volume e
qualidade das publicações e da investigação produzida. a maioria dos académicos
em Aberystwyth, especialmente os mais velhos, não era particularmente dada à
investigação, e como tal encontrava-se mal posicionada nesse processo de
avaliação centrado na produção. O departamento criou então um esquema de
reforma antecipada e progressiva que levou à saída dos professores mais velhos
e à contratação de novos professores.
Na liderança do departamento, o papel de Steve Smith foi determinante para que
muitas das novas contratações tivessem em vista alargar o âmbito da
investigação e das relações internacionais. Desta forma, um núcleo duro formado
por Ken Booth e Steve Smith, em conjunto com alguns dos seus discípulos, como
Richard Wyn Jones, dirigiu efetivamente o departamento rumo a uma viragem
crítica das relações internacionais, o que também significou assumir a
liderança desse processo a nível internacional. De acordo com Booth, Steve
Smith foi determinante nesta trajetória. Sem a aproximação a Smith, Booth não
teria beneficiado de um ambiente institucional propício ao germinar de novas
ideias, o seu pensamento não se teria desenvolvido no sentido em que se
desenvolveu e teria sido muito mais difícil ao departamento efetuar a viragem
que finalmente logrou fazer.
Fruto desta aproximação institucional e colaboração, Booth e Smith promovem,
entre 1995 e 1996, a publicação de duas coletâneas de textos sobre teoria que
depressa se tornaram referência obrigatória no mundo académico britânico e que
estão hoje entre as mais lidas e citadas. International Theory: Positivism and
Beyonde International Relations Theory Todaysão exercícios de questionamento da
disciplina num momento que os autores definiam como confuso mas estimulante
para o estudo das relações internacionais, imediatamente após o fim da Guerra
Fria, e que coincidia com os setenta e cinco anos do Interpol Department. Tal
como havia acontecido em 1969, aquando do quinquagésimo aniversário, Booth e
Smith promovem em 1994 a realização de uma conferência e posterior publicação,
à semelhança de The Aberystwyth Papers, volume editado por Brian Porter em
1972. O intuito era o de celebrar o nascimento institucional da disciplina
autónoma das RI e trazer para o centro do debate as diferentes ideias e
posições metateoréticas em disputa. O grande desafio passava por examinar o
estado da arte da disciplina face aos ataques movidos à tradição positivista
desde início dos anos 1980. Como alegam Booth e Smith (e Zalewski) no prefácio,
International Theory: Positivism and Beyond «não defende que o positivismo
esteja morto na teoria internacionalista, apenas que hoje existe uma noção
muito mais clara quanto às suas alternativas»3. Booth e Smith assumem a
crescente centralidade do debate entre positivismo e pós-positivismo para a
identidade da disciplina e procuram dar espaço e voz às alternativas
marginalizadas deixando claro, na linha do que defendeu Robert W. Cox num
artigo crucial, que não há teorias neutrais e que o importante é identificar as
práticas sociais e os interesses inerentes a cada uma4. O subtítulo do presente
artigo recupera o famoso axioma de Cox segundo o qual todas as teorias derivam
de perspetivas situadas no tempo e espaço políticos e aplica-a ao tipo de
projeto epistemológico crítico desencadeado por Booth e Smith em Aberystwyth5.
De facto, o projeto de Booth e Smith apresenta óbvios pontos de contacto com o
que são as referências iniciais da escola crítica em RI, designadamente Robert
W. Cox e Andrew Linklater. A investigação epistemológica que procuraram
desenvolver em Aberystwyth é crítica, antes de mais, «no sentido em que se
afasta da ordem prevalecente no mundo e questiona a forma como essa ordem foi
produzida»6. Trata-se de uma teoria que questiona as relações de poder no
universo social e investiga o potencial de mudança crítica que existe no
interior da ordem prevalecente. Mais, trata-se de um projeto centrado nas
complexas relações entre teoria e prática mas que põe em causa o quadro de
referência comummente aceite para avaliar essa relação. O conhecimento que esse
projeto procura não é neutro, mas ética e politicamente comprometido com a
transformação social e traduz-se, na linha de Cox, na «escolha normativa em
favor de uma ordem política e social diferente da prevalecente»7. O vínculo
entre teoria e prática é também o elemento fulcral no projeto crítico de Booth
e Smith que o liga à investigação de Andrew Linklater. Dispondo de uma dupla
dimensão normativa e empírica, esse projeto é crítico porque assume como missão
central a reconstrução do materialismo histórico8. A dimensão normativa permite
mobilizar a razão para identificar diferentes princípios de ordem política,
enquanto a dimensão empírica permite identificar tendências imanentes na ordem
prevalecente, facilitadoras de mudança e emancipação social9. Como escreve
Linklater, o compromisso com o mundo real e com a mudança tem que ver com o
confronto entre obrigações morais, o que lhe permite sublinhar que «a
contradição entre homens e cidadãos veio a ser vista como o problema crítico
das relações internacionais»10.
Assim, e se International Theory: Positivism and Beyondé assumidamente uma
publicação sobre o estado da arte das RI, para os seus editores o compromisso
com o mundo real começa precisamente numa investigação sobre teoria e seus
fundamentos epistemológicos. A introdução é inequívoca ao sublinhar que a
preocupação dos autores se centrava no que então sucedia em lugares como a
Bósnia e o Ruanda, com a guerra e a paz e com as possibilidades da política
global no século xxi, apesar de estas questões serem abordadas apenas
marginalmente. Contudo, Booth e Smith insistem em que a forma de pensar e agir
no mundo real está diretamente relacionada com a teoria, que «[o] que pensamos
sobre estes acontecimentos e possibilidades, e aquilo que pensamos que podemos
fazer acerca deles, depende de forma crucial de comopensamos sobre eles»11. Um
tema fundamental do legado de Booth e Smith em Aberystwyth emerge destas
palavras, a saber, a relação direta entre teoria e prática, que faz com que o
seu contributo não possa ser visto como meramente teórico, nem sequer
teorético, mas com profundas influências no mundo real das relações
internacionais. Como esclarecem, e «como pessoas interessadas e preocupadas com
o mundo real, temos de estar interessados e preocupados com a teoria»12. A
relação direta entre teoria e prática advém do facto de o mundo real ser
constituído pelas respostas a questões eminentemente teóricas como «Quem
somos?», «o que podemos conhecer e como o podemos conhecer?», «Para onde se
encaminha a teoria?».
No prefácio a International Relations Theory Today, Booth e Smith assumem que
teorizar sobre relações internacionais é apenas um aspeto da teorização da
política em termos gerais, uma especulação que tradicionalmente decorre em três
arenas distintas, a saber, a esfera doméstica, as relações internacionais e o
espaço global. Embora reconheçam que as tradições académicas e os dispositivos
de poder pressionam no sentido de manter intocadas as fronteiras entre as três
formas de especulação, Booth e Smith defendem que isso é cada vez mais
insustentável e que o razoável é conceber a teorização da política na forma de
um palimpsesto. As três arenas devem ser vistas como narrativas que se
intrometem umas nas outras, de forma que «[o]s diferentes textos da teoria
política existem na mesma página, não em livros diferentes. Cada uma das
narrativas ' doméstica, internacional e global ' desenvolve-se num
contexto em parte definido pelas outras»13. Desta forma, concluem, e tal como a
teorização da política doméstica não pode deixar de tomar em conta o contexto
das relações interestaduais e as tendências globais, também a disciplina de RI
deve adotar uma perspetiva global se quiser assumir-se como a disciplina das
disciplinas no âmbito das ciências sociais.
STEVE SMITH
A relação entre teoria e prática é decididamente o tema privilegiado por Steve
Smith durante os anos em Aberystwyth, e essa é a questão em foco na segunda
secção do artigo. Num texto em que se propõe analisar as diferentes imagens que
a disciplina foi produzindo sobre si mesma ao longo do século xx ' os famosos
grandes debates mas não só ' Smith levanta questões cruciais sobre a natureza
da relação entre poder e conhecimento. Assume duas influências fundamentais
nesta análise, de Bauman e de foucault, e argumenta que os silêncios da
história disciplinar são os seus traços mais significativos. «os silêncios são
as vozes mais audíveis.»14 De Bauman, Smith recupera os comentários sobre o
silêncio da sociologia relativamente ao holocausto e sobre a natureza da razão
e do iluminismo. A ponte para a teoria das relações internacionais está em que
é preciso reconhecer que as imagens que a disciplina criou de si mesma sempre
negligenciaram a relação íntima entre práticas sociais e constituição do
conhecimento. Tal como a sociologia em relação ao holocausto, a teoria das
relações internacionais mantém-se demasiado silenciosa sobre vastas áreas do
«internacional» e trata-o como «campo de barbárie pré-moderna e domínio
espácio-temporal isolado da identidade cultural e da interpretação»15. No
entender de Smith, as imagens dominantes insistem numa visão disciplinadora da
disciplina de acordo com a qual esta comenta, observa, avalia e explica as
relações internacionais mas não as constitui.
De Foucault, Smith retira as bases para uma leitura genealógica e pós-
estruturalista das relações internacionais que envolve, não a identificação de
estruturas trans-históricas mas o confronto e sucessão de discursos e regimes
de verdade, ao longo da história, que suportam certas estruturas ou lhes
resistem. A visão genealógica de Smith recupera assim a análise dos discursos e
práticas discursivos (metanarrativas, imperativos morais, estruturas, verdades
universais) como formas de dominação e repositório do poder social, e procede à
crítica das ideias feitas e não questionadas que dominam as relações
internacionais. De acordo com esta visão, Smith conclui que «a teoria
internacional está implicada na prática internacional devido à forma em que a
teoria, em geral, divorcia a ética da política e promove a compreensão através
de uma razão separada de considerações éticas ou morais»16. O argumento
central é o de que a disciplina de ri é uma sucessão de discursos
disciplinadores que impõem e perpetuam uma abordagem situada do «internacional»
e não uma sucessão de debates que permitem uma explicação cada vez mais próxima
da realidade. Assim, uma visão genealógica das RI permite dirigir a nossa
atenção para «as imagens da disciplina que a disciplina produz de si mesma»17 e
questionar as práticas de poder que perpassam essas imagens e quais as vozes
privilegiadas e silenciadas nesse processo. Longe de serem um dado adquirido ou
resultado de revelação divina, as disciplinas académicas são historicamente
constituídas e campos de batalha entre interpretações rivais. A sua pretensa
autonomia e identidade é o resultado de complexas práticas discursivas
atravessadas por jogos de poder. No entender de Smith, as questões cruciais a
colocar são: «a quem servem os interesses representados na teoria
internacional? Que interesses e identidades são ignorados, silenciados e vistos
como irrelevantes? acima de tudo, qual é o porquêda teoria internacional?»18
A natureza intrinsecamente política da produção de teoria em relações
internacionais é desenvolvida por Smith num texto crucial. Em «Power and Truth:
a reply to William Wallace», Smith é perentório ao defender que não há
separação entre as teorias e o mundo empírico que aquelas investigam. Ao
contrário, as teorias constituem o mundo social no sentido em que forjam os
consensos e determinam o senso comum validados pelos decisores políticos, e que
estes tomam como ponto de partida no exercício das suas funções. a resposta ao
artigo de Wallace serve de pretexto para esclarecer uma série de pressupostos
quanto à natureza da sua própria atividade académica e acaba por concretizar o
desafio pós-positivista, pós-estruturalista, ao mainstreampositivista em ri.
Para Smith, Wallace tem uma visão restrita da teoria e dos propósitos que ela
serve. A teoria de Wallace é explicativa e de resolução de problemas,
naturalista e empirista, e assume a presente ordem social como dado adquirido.
Isto serve como prova de que o mainstreamem ri é desprovido de «uma teoria ou
de interesse pela história, e não vê a teoria comprometida, nem com a
compreensão do mundo nem com a emancipação»19. O argumento de Smith não é o de
que Wallace deve adotar uma versão alternativa da teoria, mas que a sua teoria
enquanto explicação do mundo tem consequências normativas que devem ser
explicitadas e desmistificadas, a começar pela definição restrita de política
que assume. O mito positivista da verdade como correspondência é alvo de
crítica por parte de Smith que assume uma visão abrangente da política enquanto
produção de discursos de verdade. Assim, a sua obra crítica procura inquirir
sobre a forma como diferentes versões da política são forjadas e sobre que
interesses políticos saem privilegiados da separação entre o que é considerado
político e o que é considerado não político. Nas palavras de Smith, «a forma
como conhecemos a realidade determina aquilo que vemos, e o domínio público da
política é ele próprio o resultado de uma série de estratégias epistemológicas
(políticas) prévias que redundam numa visão da política assumida como natural
ou matéria de senso comum»20. Como escreve noutro texto, definir o que é do
foro do senso comum torna-se por isso o ato supremo do exercício do poder
político21.
A preocupação com a epistemologia é então eminentemente política. Smith
considera mesmo a sua produção neste domínio como o seu trabalho de natureza
mais política, pelo facto de inquirir diretamente sobre as formas como
produzimos conhecimento e reclamamos verdades no universo político das RI.
Assumindo uma abordagem pós-positivista e pós-estruturalista, Smith acusa o
mainstreamem RI de assentar numa versão inconsistente de como se produz
conhecimento (uma epistemologia empirista aliada a uma metodologia
positivista), e que os propósitos políticos que serve (reificação da ordem
estabelecida) se escondem debaixo da «máscara falsa e sedutora da
objetividade»22. É que a teoria não se limita a explicar ou a prever, mas
aponta de forma crítica as possibilidades que existem para a ação humana e
determina o horizonte ético e prático dessa ação. Para além disso, Smith assume
uma posição epistemológica antifundacionista quanto à produção de conhecimento,
no sentido em que defende que não é possível encontrar fundamentos inequívocos,
fora de cada teoria, que sirvam para comparar os seus méritos e as suas agendas
de investigação. Para Smith, o debate entre fundacionismo e antifundacionismo é
o mais estimulante no panorama teorético atual e coloca a disciplina em
sintonia com os debates em desenvolvimento no resto das ciências sociais. Numa
réplica a Østerud e à sua invetiva contra a influência do pós-modernismo em RI,
Smith reconhece que «não existe uma posição epistemológica universalmente
aceite na filosofia das ciências sociais, nem nunca houve uma desde a
divergência entre Platão e Aristóteles»23. No seu entender, as questões
epistemológicas são especialmente delicadas em todas as teorias e a
possibilidade de recorrer a fundamentos inequívocos, capazes de legitimar os
conhecimentos de forma universal, simplesmente não existe.
Lembremos que é esta a questão em causa sempre que Smith critica o desafio
lançado por robert Keohane em 1988, no seu discurso como presidente da
International Studies Association, segundo o qual a legitimidade académica das
teorias pós-positivistas (Keohane chamou-lhes na altura refletivistas) estaria
dependente do desenvolvimento de um programa de investigação testável por meios
empíricos, ou seja, claramente ancorado em terreno epistemológico positivista.
Convidado a participar num fórum, promovido pela International Studies Review,
para discutir a possibilidade de diálogo e síntese em RI, Smith reconhece que a
questão só faz sentido no contexto de um posicionamento metateorético que
aceite pontos de contacto e de referência entre teorias, ou seja, que «as
teorias em competição se referem a um mundo comum e exterior, e onde cada
teoria tem aplicabilidade em algumas partes desse mundo»24. Como tantas vezes
esclarece, a sua posição é a de que as teorias não representam visões
alternativas do mesmo mundo, mas visões de mundos diferentes, pelo que se torna
impossível alcançar a verdade acerca de um «mundo exterior» através da
combinação de teorias e abordagens. No mundo de Smith, é impossível ignorar a
epistemologia. Ontologia e epistemologia determinam-se mutuamente e são
cruciais em qualquer teoria social25. Em conclusão, Smith ilustra este
argumento ao comprovar a influência do positivismo na disciplina académica de
RI e a forma como acabou por determinar, em nome da ciência, aquilo que é
válido como objeto de estudo. Desta forma, é crucial reconhecer que «a sua
epistemologia teve efeitos ontológicos significativos e estes afetaram, por sua
vez, não só o estudo mas também a prática das relações internacionais»26.
KEN BOOTH
Esta secção procura destacar a viragem crítica que Ken Booth imprimiu às RI em
Aberystwyth. Booth iniciou a sua carreira académica em RI no decurso dos anos
1960, identificando-se a si próprio como um pensador de estudos estratégicos no
contexto de uma disciplina cujo paradigma dominante era o realismo. Segundo
Booth, a disciplina de relações internacionais vivia então à base de uma «dieta
de realismo. Mas tratava-se de uma dieta, não de alta cozinha (composta pelos
trabalhos dos fundadores dessa escola) mas antes uma forma de realismo fast-
food»27. O realismo ensinado nas universidades revelava pouco da complexidade,
sofisticação e angústia moral do realismo clássico e consistia antes num mero
pacote de ideias simplificadas voltado para o ensino. O predomínio desta forma
de explicar e ensinar o realismo tendeu a reforçar-se dada a necessidade de
cada geração de professores «assumir [ ] as convicções convencionais da
profissão. Deste modo, [a disciplina passou a ser] essencialmente constituída
pelo ensino e expectativas de [ ] realistas/positivistas»28. Para mais, o
próprio contexto internacional e cultural à data suportou esta tendência, pois
ao ter sido educada no contexto de uma cultura popular e mediática centrada nas
relações entre estados e numa visão militarizada da realidade internacional, a
geração de académicos formada durante a Guerra fria «encontrava-se
particularmente apta a acreditar numa teoria que afirmava, segundo a frase de
Raymond Aron, que aquilo que diplomatas e soldados fazem, explica os eventos
mundiais»29.
Durante todo o seu período de formação e nos anos iniciais de professor, o
paradigma realista sempre pareceu a Booth uma explicação adequada das relações
internacionais, baseada no pressuposto, que na altura partilhava, da
imutabilidade da natureza humana. O momento de viragem, que o levou a
aperceber-se dos limites do realismo, ocorreu no decurso dos anos 1970 quando
procurou compreender as diferentes abordagens que o pensamento ocidental tinha
produzido para explicar o fenómeno soviético30. Segundo o próprio, o
desconforto com algumas das análises e conclusões do realismo foi-se acentuando
nessa época e «[u]ma quebra significativa ocorreu quando me cruzei com a ideia
de etnocentrismo e procurei [ ] inserir o conceito na literatura de estudos
estratégicos. [ ] [P]assei a ver a instituição da guerra [ ] e até o mundo dos
estados, como um fenómeno cultural, e não como algo natural ou uma
necessidade histórica»31.
Este estudo levou-o à conclusão de que aquilo que frequentemente era apregoado
como uma «teoria estratégica racional e objetiva era antes uma racionalização
de preconceitos nacionais»32. A conclusão levou Booth a aperceber-se de que não
apenas a realidade condiciona a teoria, como é sustentado pelo paradigma
realista/positivista, mas que a teoria condiciona a interação humana com a
realidade e, consequentemente, molda a própria realidade. Assim, Booth afirma
que ao aperceber-se de que vivemos dentro de estruturas que são teorias, de
«que as circunstâncias materiais [ ] são também em parte uma manifestação de
teorias, [e] que as teorias sobre segurança condicionam os factos estratégicos
[ ] levou-me a uma crescente inquietação com o realismo e os seus familiares
métodos positivistas»33.
Como tal, Booth começou a questionar os pressupostos de objetividade que
caracterizam o paradigma realista. Este processo foi reforçado pela cooperação
de Booth com a amnistia internacional e pelo contacto com literatura
normalmente excluída dos debates realistas, como era o caso dos trabalhos de
Richard Falk, Johan Galtung, Robert Cox ou Marx Hoffmann34. Assim, Booth
apercebeu-se não só dos limites conceptuais do realismo, mas também das
consequências reais da configuração realista do sistema internacional. Para
Booth, «escrever as primeiras cartas a governos acerca de perfeitos estranhos '
vítimas desses governos ' foi um verdadeiro ponto de viragem. Aqui estavam
algumas das vítimas, até agora invisíveis, das estruturas das relações
internacionais»35. As vítimas individuais passaram a ser vistas como parte do
sistema internacional que se constitui como jogo de poder através de um misto
de racionalidade e acidente histórico. a perspetiva individual da vítima
começou a mudar o que Booth pensava acerca dos estados e do poder social,
alertando-o para questões alternativas de segurança para lá dos inventários
militares das superpotências: «[P]rogressivamente, o estado soberano começou a
parecer uma importante parte do problema da insegurança, e não a sua
solução.»36
Deste modo, o pressuposto de objetividade do paradigma realista foi questionado
e Booth passou a investigar o papel da teoria na constituição da realidade
internacional. Se a teoria constitui ela própria o real, e não é um mero
retrato objetivo do mundo, o caráter necessitista da realidade fica posto em
causa. A realidade internacional passa a ser entendida não como a natural e
necessária condição humana, mas como o produto de um conjunto de circunstâncias
históricas específicas influenciadas por uma particular forma de interpretar o
mundo. Como tal, aquilo que a sociedade internacional é no presente passa a ser
circunstancial, o resultado de um processo histórico específico. Esta conceção
historicista das relações internacionais abre a porta à conceção de
transformação e à ideia de que o mundo não só não foi sempre aquilo que é, como
não tem de continuar a sê-lo. As RI surgem assim como «uma construção
histórica, como o resultado do mercado, e por vezes do campo de batalha, de
teorias em competição»37. O corolário é que nós (a sociedade humana como um
todo) podemos tornar-nos naquilo que esperamos ser, o que cria um novo
horizonte ao «eterno presente» do realismo. A viragem «crítica» de Ken Booth
expõe assim o paradigma realista como uma perspetiva da realidade que ajuda a
manter os custos humanos associados ao atual sistema internacional e elimina
qualquer alternativa nas RI. Ao fazê-lo, prende tanto a disciplina como a
prática num entendimento reificado, fixo e limitado da condição humana e das
suas potencialidades políticas.
No entanto, esta viragem «crítica» não pode ser entendida como um total repúdio
do realismo. Como afirma Booth, o conhecimento derivado de uma abordagem
realista das relações internacionais continua a reter valor. O realismo de
Kenneth Waltz, com o seu foco no estudo dos estados, na distribuição de poder e
nos ganhos relativos continua a ser uma ferramenta fundamental para analisar e
compreender as relações internacionais. Além do mais, o realismo,
principalmente na sua versão clássica, apresenta frequentemente um potencial
crítico na análise da ordem internacional vigente que é frequentemente ignorado
pela ortodoxia realista contemporânea. Morgenthau, por exemplo, manifestou «a
visão de que o estado-nação estava obsoleto, e procurou desenvolver ideias
suportando a criação de uma comunidade mundial como base para um governo
mundial, e favoráveis ao desarmamento nuclear como base para a segurança
internacional»38. Apesar das suas conquistas teóricas, o realismo precisa de
ser contextualizado e complementado por uma compreensão do caráter histórico da
consciência humana. Deste modo, Booth considera-se «um ex, anti, e pós-
realista»39. Ex-realista porque foi no realismo que se iniciou; antirrealista
no sentido em que se posiciona em desacordo com importantes figuras fundadoras
do realismo, como Niebuhr; e pós-realista porque reconhece o valor do realismo
de certos autores como Kenneth Waltz, Hans Morgenthau e E. H. Carr mas
considera ser necessário superá-lo.
Esta superação do realismo deve ocorrer, segundo Booth, através da integração
na disciplina de temas e abordagens oriundos da teoria crítica, principalmente
na versão da escola de Frankfurt, trilhando assim o caminho aberto por Robert
Cox, Richard Ashley e Andrew linklater no início da década de 1980. Nas
palavras do próprio Booth, a viragem crítica implica reconhecer «a natureza
histórica do conhecimento no universo social; a importância da reflexividade
(incluindo ser crítico da teoria crítica); os méritos do holismo por oposição
ao pensamento reducionista; o entendimento da teoria como constitutiva; o
idealismo pragmático da crítica imanente; e a ancoragem da teorização no
conceito de emancipação»40.
Além disso, e no entendimento que faz da teoria crítica, Booth segue de perto
Robert W. Cox e a distinção entre teorias de resolução de problemas, como o
realismo, e teorias críticas. Segundo Cox, toda a teoria deriva de uma forma de
olhar a realidade que condiciona o comportamento dos atores sociais e
condiciona a própria realidade. Deste modo, não existem teorias objetivas,
retratos fiéis da realidade. Como espelhos de uma determinada perspetiva, as
teorias são sempre normativas, incorporando os interesses, valores, juízos
morais e preconceitos da perspetiva em que assentam. Esta é uma relação que Cox
expressa ao afirmar que «toda a teoria serve sempre alguém e algum
propósito»41. As teorias de resolução de problemas reificam o mundo tal como o
encontram e legitimam as relações sociais e de poder dominantes e as
instituições existentes como contexto legítimo da sua ação. A viragem crítica
que Booth reclama para a disciplina de RI caracteriza-se justamente pelo
reconhecimento do caráter contingente e histórico tanto das condições sociais
dominantes como das teorias que os atores sociais usam para interpretar a
realidade social.
Assim, uma teoria crítica caracteriza-se pelo reconhecimento da possibilidade
de transformar a realidade e assume a intenção normativa de o fazer no sentido
de promover o potencial humano para a obtenção de liberdade e bem-estar. Ao
estar normativamente comprometida com a causa da liberdade humana, a teoria
crítica de Booth procura desenvolver os recursos necessários para um projeto
emancipatório. Emancipação significa «libertar as pessoas (tanto indivíduos
como grupos) daqueles constrangimentos físicos e humanos que os impedem de
realizar aquilo que eles livremente escolheriam fazer. A guerra e a ameaça de
guerra, em conjunto com a pobreza, a falta de educação e a opressão política
são alguns desses constrangimentos»42. Esta transformação emancipatória é
entendida não só como possível, dado o caráter histórico e socialmente
construído da humanidade organizada, mas também como essencial para assegurar o
futuro da liberdade e bem-estar. É a incapacidade de o realismo pensar o futuro
e conceber a transformação social que o leva a reificar o atual sistema
internacional, perpetuando assim a incapacidade de responder às grandes
problemáticas do século xxi. Apesar da forte convicção no potencial
transformador da humanidade e do compromisso com o ideal de emancipação, Booth
procura fundamentar as suas asserções teóricas e práticas num entendimento
«realista» da realidade internacional e do seu potencial transformador. É esta
tentativa de sintetizar as aspirações da emancipação humana com a análise das
possibilidades reais de transformação do sistema internacional que Booth
identifica como realismo emancipatório. Booth afirma que emancipação é um
conceito aberto, que o seu conteúdo não está definido, não configura uma
qualquer visão fixa do mundo a alcançar. A emancipação é melhor entendida como
um horizonte político, algo a que aspirar e que estabelece uma perspetiva mas
que, por definição, não pode ser totalmente alcançado: «[e]mancipação não é um
estado, é algo que se encontra constantemente em processo de se tornar
realidade»43. Deste modo, Booth prefere entender o conceito de emancipação como
uma ancoragem filosófica, ponto central mas não fixo num processo dinâmico e
base para o desenvolvimento de uma crítica imanente da realidade social. o
realismo emancipatório de Booth afirma-se assim como uma teoria «intimamente
preocupada com a praxis, e não apenas com a crítica teórica: encontra-se focada
em pessoas reais, em locais reais, e procura melhorar as suas condições, ao
mesmo tempo que transforma a política mundial de forma estrutural. Trata-se
portanto de uma teoria crítica que procura construir utopias concretas a
partir das reais possibilidades que se encontram imanentes em diferentes e
particulares contextos sociais»44.
Nas palavras de Booth, o realismo emancipatório «baseia-se tanto em teorias
normativas como empíricas (realistas)»45 e vai na linha da convergência entre a
«ciência» de Marx e a «ciência» de Morgenthau46. Uma teoria cujo objetivo é não
apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo, de acordo com potencialidades
imanentes nas atuais condições políticas, sociais, económicas, culturais,
materiais, tecnológicas e ambientais da espécie humana.
CONCLUSÃO
Estudar Booth e Smith é estudar uma parte fundamental do legado de Aberystwyth
para a disciplina académica de RI. Hoje, o Aberystwyth afirma-se como um centro
dinâmico, um dos mais conceituados no sistema universitário britânico, onde se
tem promovido o debate e a diversidade de perspetivas nas RI. O fim do consenso
em torno do paradigma realista não se traduziu porém num novo consenso em torno
da perspetiva crítica. De facto, a disciplina encontra-se hoje extremamente
fragmentada e dividida em inúmeras abordagens e perspetivas, entre as quais
estão o realismo e a teoria crítica, mas também o construtivismo, o pós-
modernismo, o pós-colonialismo ou os feminismos. Aberystwyth é hoje sinónimo
dessa diversidade, que é vista como valor acrescentado, especialmente após tão
longo período de consenso monolítico em torno da ortodoxia realista. Contudo, a
diversidade também coloca a disciplina em risco de fragmentação em pequenos
nichos teoréticos, incomunicados e desprovidos de uma visão de conjunto do
fenómeno internacional, o que a poderá conduzir da saudável diversidade
intelectual à irrelevância teorética.
Acreditamos, por isso mesmo, que a tendência no sentido da fragmentação deve
ser equilibrada pela tentativa de encontrar pontes e diálogos que permitam uma
visão de conjunto ' a política como palimpsesto ' sem que sejam impostos novos
dogmatismos metateoréticos. Se for possível desenvolver tal coesão na
disciplina, capaz de produzir unidade enquanto se cultiva a diversidade, então,
«devido à sua abordagem global, à sua preocupação com o poder e a verdade e à
sua sabedoria prática»47, as RI podem justificar a pretensão de virem a ser a
disciplina das disciplinas sociais. Para que a disciplina possa desenvolver
este potencial, torna-se necessário explorar o caminho aberto por Booth e
Smith. Em Aberystwyth como noutras instituições onde as RI são pensadas e
ensinadas ' designadamente em Portugal, onde a consciência disciplinar é ainda
recente ' torna-se necessário desenvolver uma abordagem crítica que parta do
valor acrescentado do realismo, reconheça os seus limites e dê voz às
perspetivas tradicionalmente marginalizadas. Cabe a todos nós, estudiosos
destas matérias, escolher a trajetória que melhor realize o imperativo. E no
nosso entender, o ponto de partida imprescindível é o de cultivar a
curiosidade, inovação, rigor e coragem intelectual demonstrados por Ken Booth e
Steve Smith em aulas e seminários e em tantos dos textos publicados48.
NOTAS
1
O Departamento de Relações Internacionais, erguido em Aberystwyth com base na
cátedra criada por David Davies em 1919, viria a ficar conhecido por Interpol
Department (Department of International Politics).
2
A história disciplinar das relações internacionais (RI) tem sido objeto de uma
análise exaustiva por parte de vários autores que insistem quer nos mitos
fundadores, quer nos grandes debates que têm estruturado ou orientado a
disciplina. Cf. Booth, Ken ' «75 years on: rewriting the subject's past '
reinventing its future». In International Theory: Positivism and Beyond.
Cambridge: Cambridge University Press, 1996, pp. 328-339;
Dunne, Tim ' «Mythology or method-ology: traditions in international theory».
In Review of International Studies. Vol. 19, N.º 3, 1993, pp. 305 -318; Dunne, Tim ' Inventing International Society. Londres:
Macmillan, 1998; George, Jim ' Discourses of Global Politics.
Boulder, CO: Lynne Rienner, 1994; Hoffmann, Stanley ' «An
American social science: international relations». In Derian, James Der (org.)
' International Theory: Critical Investigations. Londres: Macmillan, 1995, pp.
212 -241; Hollis, Martin, e Smith, Steve ' Explaining and
Understanding International Relations. Oxford: Clarendon, 1990; Ferreira, Marcos ' Cristãos e Pimenta: A Via Média na Teoria das
Relações Internacionais de Adriano Moreira. Coimbra: Almedina, 2007; Osiander, Andreas ' «Rereading early twentieth century ir theory:
idealism revisited». In International Studies Quarterly. Vol. 42, N.º 3, 1998,
pp. 409 -432; Schmidt, Brian ' The Political Discourse of
Anarchy: A Disciplinary History of International Relations. Nova York: State
University of New York Press, 1998; Wilson, Peter ' «The myth
of the first great debate». In Review of International Studies. Vol. 24, N.º 5,
1998, pp. 1 -16.
3
Smith, Steve, Booth, Ken, e Zalewski, Marysia ' «Preface and
acknowledgements». In International Theory: Positivism and Beyond. Cambridge:
Cambridge University Press, 1996, p. xi.
4
Cox, Robert W. ' «Social forces, states and world orders: beyond international
relations theory». In Keohane, Robert O. (org.) ' Neorealism and Its Critics.
Nova York: Columbia University Press, 1986, pp. 204-254.
Publicado originalmente em Millennium. Vol. 10, N.º 2, 1981, pp. 126 -155.
5
No original «Theory is always for someone and for some purpose. All theories
have a perspective», cf. Cox, Robert W. ' «Social forces, states and world
orders: beyond international relations theory», p. 207.
6
Ibidem, p. 208.
7
Ibidem, p. 210.
8
Cf. Devetak, Richard ' «Critical theory». In AAVV ' Theories of International
Relations. Londres: Macmillan, 1996, pp. 155 -156.
9
Linklater, Andrew ' Beyond Realism and Marxism: Critical Theory and
International Relations. Londres: Macmillan, 1990, p. 148.
10
Linklater, Andrew ' «Men and citizens in international relations». In Review
of International Studies. Vol. 7, N.º 1, 1981, p. 25.
11
Smith, Steve, Booth, Ken, e Zalewski, Marysia ' «Introduction». In Smith,
Steve, Booth, Ken, e Zalewski, Marysia (eds.) ' International Theory:
Positivism and Beyond, p. 1.
12
Ibidem, p. 1.
13
Booth, Ken, e Smith, Steve ' «Preface». In Booth, Ken, e Smith, Steve (org.) '
International Relations Theory Today. Cambridge e Oxford: Polity Press, 1995,
p. xii.
14
Smith, Steve ' «The self-images of a discipline: a genealogy of international
relations theory». In Booth, Ken, e Smith, Steve (org.) ' International
Relations Theory Today, p. 2.
15
Ibidem, p. 2.
16
Ibidem, p. 3.
17
i>Ibidem
, p. 7.
18
Ibidem, p. 32.
19
Smith, Steve ' «Power and truth: a reply to William Wallace». In Review of
International Studies. Vol. 23, N.º 4, 1997, p. 513.
20
Ibidem, p. 509.
21
Smith, Steve ' «Positivism and beyond». In Smith, Steve, Booth, Ken, e
Zalewski, Marysia (eds.) ' International Theory: Positivism and Beyond, p. 13.
22
Smith, Steve ' «Power and truth: a reply to William Wallace», p. 509.
23
Smith, Steve ' «Epistemology, postmodernism and international relations
theory: a reply to Østerud». In Journal of Peace Research. Vol. 34, N.º 3,
1997, p. 335.
24
Smith, Steve ' «Dialogue and the reinforcement of orthodoxy in international
relations». In International Studies Review. Vol. 5, N.º 1, 2003, p. 141.
25
Smith, Steve ' «Wendt's world». In Review of International Studies. Cambridge.
Vol. 26, N.º 1, 2000, p. 162.
26
Smith, Steve ' «Positivism and beyond». In Smith, Steve, Booth, Ken, e
Zalewski, Marysia (eds.) ' International Theory: Positivism and Beyond, p. 38.
27
Booth, Ken ' «Security and self: reflections of a fallen realist». In YCISS
Occasional Paper. Toronto, N.º 26, 1994, p. 7.
28
Ibidem, p. 8.
29
Ibidem, p. 7.
30
Booth, Ken ' Strategy and Ethnocentrism. Londres: Croom Helm, 1979.
31
Booth, Ken ' «Challenging the ideas that made us». In Brincat, Shannon, Lima,
Laura, e Nunes, João (org.) ' Critical Theory in International Relations and
Security Studies: Inter views and Reflections, Abingdon: Routledge, 2011, p.
61.
32
Booth, Ken ' «Security and self: reflections of a fallen realist», p. 9.
33
Ibidem, p. 9.
34
Booth, Ken ' «Challenging the ideas that made us», pp. 63 -64.
35
Ibidem, p. 11.
36
Ibidem.
37
Ibidem, p. 13.
38
Booth, Ken ' «Challenging the ideas that made us», p. 75.
39
Booth, Ken ' «Security in anarchy: utopian realism in theory and practice». In
International Affairs. Vol. 67, N.º 3, 1991, p. 533.
40
Booth, Ken ' «Challenging the ideas that made us», p. 65.
41
Cox, Robert W. ' «Social forces, states and world orders: beyond international
relations theory», p. 207.
42
Booth, Ken ' «Security and emancipation». In Review of International Studies.
Vol. 17, N.º 4, 1991, p. 319.
43
Booth, Ken ' «Three tyrannies». In Human Rights in Global Politics. Cambridge:
Cambridge University Press, 1999, p. 41.
44
Ibidem, p. 45.
45
Booth, Ken ' «Security in anarchy: utopian realism in theory and practice», p.
534.
46
Ibidem, p. 534.
47
Booth, Ken ' «Dare not to know: inter-national relations theory versus the
future». In International Relations Theory Today. Cambridge: Polity Press,
1995, p. 340.
48
Booth, Ken ' «75 years on: rewriting the subject's past ' reinventing its
future», pp. 328 -339.
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