Os limites do multilateralismo da Administração Obama: A reforma do Conselho de
Segurança
Precisamos de uma ONU capaz de cumprir o seu propósito fundador 'manter a paz e
a segurança internacionais, promover a cooperação global e promover os direitos
humanos. [ ] Favorecemos uma reforma do Conselho de Segurança que melhore o
desempenho, credibilidade e legitimidade da onu.
Estratégia nacional de Segurança, 20101
O Conselho de Segurança de hoje deveria logicamente ser diferente do Conselho
de Segurança que foi criado há mais de 60 anos.
Embaixadora Susan Rice2
O empenho da administração obama no multilateralismo e na centralidade da
organização das Nações unidas ( onu) como palco privilegiado da diplomacia
nacional tem manifestamente ultrapassado o nível da retórica das boas
intenções. a nova era de engajamento, anunciada pelo Presidente no início do
seu mandato, reparou muitas das fricções acumuladas durante a administração
anterior; através de decisões como o pagamento das contribuições nacionais para
o orçamento da organização, em atraso desde 2005, até à liderança na promoção
de um conjunto de reformas institucionais (desde a disciplina financeira à
melhoria da logística de apoio a operações de manutenção da paz), os estados
unidos recuperaram muito do seu papel tradicional de liderança na organização.
os dividendos estratégicos deste empenho do capital político americano têm sido
significativos, medidos em termos da capacidade de promover consensos em
torno das posições favorecidas pela diplomacia de Washington em questões como a
crise da líbia, as sanções contra o irão, a pressão sobre a Coreia do Norte,
mesmo quando não acompanhados por outros membros permanentes do Conselho de
Segurança das Nações unidas (csnu), como no caso da crise síria.
No entanto, numa questão que parece ser de grande interesse para muitos membros
da organização ' o alargamento do Conselho de Segurança ' os estados unidos têm
mantido uma postura de distanciamento sustentada por declarações de intenção
deliberadamente vagas. Durante a presente oitava ronda de negociação
governamental sobre a reforma do Conselho de Segurança (cujo quinto encontro
teve lugar no passado mês de abril) os estados unidos mantiveram o mesmo
discreto não comprometimento que têm cultivado desde as últimas declarações
presidenciais sobre o assunto em novembro de 2010, perante o Parlamento
indiano. esta cautela resulta de uma clara ambivalência sobre as consequências
de um processo de alargamento que poderia prejudicar a capacidade de projeção
de poder de todos os membros permanentes. No caso da administração obama, um
conjunto de fatores condicionam a presente paralisia, nomeadamente a história
do processo de reforma, os contornos das propostas em discussão na presente
ronda negocial, a leitura do interesse nacional e as contingências domésticas
de um período marcado pela campanha eleitoral presidencial.
O CONTEXTO HISTÓRICO DO PROCESSO DE REfORMA DO CONSELHO DE SEGURANÇA
O corrente processo de discussão intergovernamental sobre projetos de reforma
do csnu corresponde à segunda iniciativa de aprofundar a sua representatividade
e efetividade, refletindo quer o alargamento de número de estados-membros (de
51 em 1945 aos presentes 192), quer a crescente insatisfação perante o
desequilíbrio entre a sua composição e a presente distribuição de poder na
comunidade internacional. a história da tentativa de alteração substantiva da
Carta das Nações unidas, ao abrigo do artigo 109.º, tem sido pouco encorajadora
para os vários proponentes. a única reforma da composição do Conselho de
Segurança ocorreu em 1965, depois de dois terços dos estados-membros (incluindo
os cinco membros permanentes) ratificarem a resolução 1990 de 1963, que
propunha o alargamento do Conselho de Segurança de 11 para 15 membros, alterava
a maioria de sete para nove votos e deixava intacto o direito de veto.
O atual processo, desencadeado em 2005 por proposta do então secretário-geral
Kofi annan, retoma o apelo de 1995, do secretário-geral Boutros Boutros-Ghali,
para uma «reestruturação da composição do Conselho de Segurança» e revisão dos
seus «procedimentos anacrónicos» que levam a que «questões de poder se
sobreponham a questões de justiça»3. este apelo resultava da pressão de países
como o Japão e a alemanha (respetivamente, os segundo e terceiro maiores
contribuintes para a onu), para a sua inclusão como membros permanentes. a
estes se viriam a juntar o Brasil e a Índia (que tinham do seu lado argumentos
territoriais e demográficos) formando assim o mais influente dos grupos de
estados-membros que passará a ser designado como G4.
A este grupo de pressão se juntarão outras duas alianças de estados, a saber, o
grupo «unidos pelo Consenso», fundado em 1995 pela itália, Paquistão, México e
egito, a que se juntarão outras nações4, mais interessado no alargamento dos
membros não permanentes e em parte motivados por rivalidades regionais com
membros do G4, bem como o «Grupo africano» que exigia dois assentos permanentes
no Conselho de Segurança.
Entre 1995 e a iniciativa de Kofi annan, dez anos depois, os debates tinham
sido organizados em torno de uma estrutura criada especificamente para o
efeito, um working group5 sem limite de prazo, responsável pela elaboração de
relatórios e recomendações. A ineficiência deste mecanismo levará Kofi annan a
propor uma aceleração do processo,nomeando um painel6, composto por vários
dignitários internacionais, com a missão de analisar futuras ameaças à paz e
segurança e avaliar os instrumentos e mecanismos ao dispor da comunidade
internacional, incluindo a reforma do Conselho de Segurança. O relatório do
painel7 incluía 101 recomendações em torno de duas hipóteses que os estados-
membros deveriam considerar, incluindo dois modelos alternativos de reforma do
Conselho de Segurança, ambos prevendo a expansão do csnu para 24 membros.
O modelo a propunha adicionar mais seis novos assentos permanentes sem direito
de veto, e três novos assentos temporários, eleitos por um período de dois
anos. o critério de seleção dos novos membros permanentes era essencialmente
regional (dois para a ásia, dois para a áfrica, um para a europa e outro para
as américas). O modelo b propunha a criação de uma nova categoria de oito
assentos, renováveis de quatro em quatro anos, e um novo assento não renovável
eleito por dois anos. enquanto os grupos de interesse se manifestavam
favoráveis a um ou a outro modelo (os países do grupo «unidos pelo Consenso»,
favorecendo o modelo b, apelavam a um processo de decisão baseado no consenso,
enquanto que o G4, favorecia o modelo a, apelavam a um voto na assembleia
Geral8 e caraterizavam a exigência de consenso como uma manobra dilatória que
sabotaria de facto qualquer ação decisiva) e apresentavam modelos alternativos
(ver quadro 1), o processo pouco avançou, levando a uma série de tentativas de
reorganizar estruturalmente o debate. o primeiro passo importante foi a
sistematização das cinco áreas de reformas anunciada em 2007 pela presidente da
assembleia Geral, Sheikha al Khalifa: (i) tamanho de um Conselho de
Segurança alargado, (ii) categorias de composição, (iii) questões relacionadas
com a representação regional, (iv) questões relacionadas com a extensão do
poder de veto aos novos países-membros, (v) metodologia de trabalho do Conselho
de Segurança e relação do mesmo com a assembleia Geral. este modelo
organizativo tem sido o usado durante as discussões subsequentes.
Quadro 1
As coligações e as suas propostas de alargamento
A segunda alteração significativa para a evolução do processo remonta à decisão
de 2008 (decisão 62/557) de mover o debate do Grupo de trabalho para o nível
das Negociações intergovernamentais, com o objetivo de aproximar o debate de
uma conclusão, mesmo que esta não viesse a ser consensual, uma decisão não
apoiada pelo grupo «unidos pelo Consenso». foi nessa altura nomeado um
presidente das Negociações intergovernamentais, o embaixador Zahir tanin,
representante permanente do afeganistão, consecutivamente reconduzido.
O PRESENTE MOMENTO NEGOCIAL
Após o início dos trabalhos do instrumento de Negociações intergovernamentais
em 2009, este torna-se o fórum oficial onde os estados-membros discutem a
reforma do Conselho de Segurança. a metodologia aplicada baseia-se na
apresentação de posições de países individuais e coligações de nações que são
depois coligidas num único texto. esse texto foi já revisto três vezes, tendo
sido a sua última versão9 apresentada pelo embaixador tanin em março de 2011, e
não tendo alcançado apoio de todos os estados-membros. o impasse nesta sétima
ronda negocial levou a que não houvesse qualquer movimento significativo
durante cerca de oito meses, apesar de iniciativas informais como a Conferência
do Qatar em maio de 2011, que reuniu organizações não governamentais e
académicos, e a série de reuniões promovida pelo secretário-geral durante o
verão de 2011, com a designação de Grupo de amigos do Conselho de Segurança,
com o objetivo de flexibilizar a intransigência dos estados-membros, bem como
das iniciativas de dois grupos de estados-membros, que fizeram propostas
específicas durante este interregno. o grupo dos Pequenos Cinco (S5)10
apresentou um projeto de resolução enfatizando a necessidade de implementar
reformas atempadamente, mesmo que tais reformas não sejam consensuais. Por seu
lado, o G4 reiterou a sua proposta de alargamento de membros permanentes e não
permanentes, bem como alterações da sua metodologia de trabalho, e os países
deram indícios da intenção de submeter uma proposta formal para votação antes
do fim da 65.ª sessão da assembleia Geral, o que não veio a ocorrer. Na
sequência deste impasse, o presidente da 66.ª assembleia Geral viria a apelar
para uma revitalização dos esforços e a oitava ronda de negociações viria a ser
iniciada a 8 e 9 de novembro de 2011.
Durante o presente debate tem-se tornado evidente a divisão suscitada pela
proposta do G4, apoiado por setores significativos dos estados-membros, de
agendar a votação da sua proposta, liminarmente recusada pelo grupo upC, que
sistematicamente tem vindo a argumentar que a reforma do Conselho de Segurança
não se obtém, nas palavras da representação canadiana, «estendendo os
privilégios de uns quantos a mais uns quantos, através do aumento dos membros
permanentes»11.
Na presente ronda os membros permanentes têm reiterado as suas posições
conhecidas. a frança e o reino unido, vulneráveis a acusações de que uma
representação da união europeia faria mais sentido do que a de estados-membros
individuais, têm dado o seu apoio à posição do G4 e à representação permanente
de países africanos. a China tem alertado para o perigo da aceleração do
processo e da aprovação de uma solução não aceite por muitos estados-membros,
reiterando ainda a interligação entre as cinco áreas de reforma. a rússia e os
estados unidos têm declarado ver favoravelmente uma expansão limitada do
Conselho de Segurança (não mais de 20, de acordo com a rússia, que também
alertou para a necessidade de um apoio de estados-membros para além dos dois
terços requeridos). os estados unidos em particular têm mantido a posição de
que o critério de seleção de novos membros permanentes deve ser baseado no
perfil individual de cada país candidato, e de que a presente estrutura do
direito de veto não deve ser alterada.
É portanto de salientar que se mantêm as razões que têm gerado o impasse nas
negociações, com o G4 a acusar o grupo upC de sabotar as possibilidades de uma
resolução através de um voto da assembleia Geral, os países do upC a alertar
para os limites da reforma proposta pelo G4, os países do Grupo africano
apoiados teoricamente por todos os grupos e coligações, mas incapazes de chegar
a um consenso sobre o país que nomeariam para membro permanente, os membros
permanentes (P5) ' com a exceção da inglaterra e da frança ' mais interessados
em arrastar um processo que inevitavelmente lhes vai retirar alguma influência,
e as alianças e rivalidades regionais tão acesas como nas últimas rondas.
A POSIÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS: DE BUSH A OBAMA
Os estados unidos, fundadores da onu e principais arquitetos da sua estrutura
interna, têm valorizado mais a reforma geral da organização do que a
reformulação da constituição do Conselho de Segurança, tendo insistido na
necessidade de otimizar a sua estrutura burocrática e melhorar a sua
transparência, dando aos estados-membros maior capacidade de supervisão da sua
gestão operacional e financeira. No que diz respeito ao alargamento do Conselho
de Segurança, os estados unidos, mantendo-se muito reservados quanto ao intenso
debate dos últimos quinze anos, têm preferido emitir declarações gerais de
princípio sobre apoio ao conceito de expansão do Conselho de Segurança, sem
pronunciamentos muito específicos. esta reticência resulta quer da natural
inclinação para manter o status quoperante a possibilidade de uma reforma que
pode não beneficiar os interesses nacionais dos estados unidos, por diluir o
seu poder, quer do receio de que um alargamento significativo venha a
enfraquecer a função e operacionalidade do Conselho de Segurança, conduzir à
paralisia ou a um alinhamento pelo mais baixo denominador comum. esta postura
de discrição espelha também a complexidade do governo dividido americano,
sobretudo no que diz respeito às visões frequentemente não coincidentes do
executivo e do Congresso.
Do ponto de vista da substância, a posição da administração obama face à
reforma do Conselho de Segurança, baseada, como sucede com todas as outras
nações, numa leitura do interesse nacional e num cálculo de custos/benefícios,
não diverge muito da delineada em 2005 pela administração Bush, apesar da
evidente mudança de avaliação, tanto ao nível retórico como ao nível político,
das vantagens e imperativos da cooperação internacional.
A posição de 2005 enquadrava a reforma do Conselho de Segurança num conjunto de
propostas de reformas mais extensivas, que abrangiam sete áreas. a primeira
dizia respeito ao orçamento, gestão e administração, estando os objetivos dos
estados unidos nesta rubrica centrados na melhoria da gestão interna, no
aumento da transparência, incluindo a identificação e alocação de recursos para
programas de maior prioridade. a segunda área de preocupação dizia respeito
ao reforço das capacidades da Peace Building Comission na área da reconstrução
pós-conflito, apelando à melhoria das capacidades da Comissão em missões de
apoio humanitário e ajuda ao desenvolvimento12. A reforma da Comissão dos
Direitos humanos era a terceira exigência dos estados unidos. Perante a
situação caricata gerada pelo sistema de rotatividade que colocara uma nação
não democrática como a líbia na sua presidência, os estados unidos exigiam a
substituição da vasta Comissão dos Direitos humanos por um Conselho de Direitos
humanos, mais reduzido e efetivo, sem a participação de estados que violassem
os direitos humanos13.
A quarta consideração dizia respeito à criação de um fundo das Nações unidas
para a Democracia capaz de apoiar a promoção da democracia e dar assistência a
iniciativas da sociedade civil, sendo a quinta exigência a aprovação de uma
Convenção Global sobre terrorismo.
A sexta área, a necessitar de reforma urgente, era, em 2005, um renovado apoio
ao desenvolvimento, tendo os estados unidos proposto o reforço do encorajamento
das Nações unidas à promoção da boa governança e à liberalização económica dos
países em vias de desenvolvimento.
A última das grandes rubricas constantes da proposta da administração Bush
dizia respeito à reforma do Conselho de Segurança. os estados unidos
consideravam a eficiência do Conselho de Segurança como a base da sua posição
sobre qualquer espécie de reforma da composição do Conselho, salientando que
qualquer novo membro deveria ter um historial de proteção dos direitos humanos.
especificamente apoiavam de imediato a inclusão do Japão como membro permanente
e mostravam-se abertos à consideração de mais lugares renováveis, por períodos
mais longos14.
Sobre o alargamento do Conselho de Segurança a posição enunciada em 200515 era
guiada por quatro parâmetros específicos, todos partilhados pela administração
obama. em primeiro lugar, qualquer mudança deverá ser pautada pela necessidade
de não diminuir a efetividade ou eficiência do csnu o que implica a rejeição de
um alargamento descontrolado tanto dos membros permanentes como dos não
permanentes. em segundo lugar, qualquer alargamento deverá ser função de um
critério baseado em capacidades específicas e não numa representatividade
formal regional ou outra. em terceiro lugar, qualquer candidato a membro
permanente deve ser avaliado em termos da sua capacidade de contribuir para a
paz e segurança, ou seja, deve ser razoavelmente democrático, politicamente
estável e ter recursos e vontade política de assumir responsabilidades na ordem
internacional. finalmente, não deverá haver alteração no direito de veto.
Em termos práticos, em 2005, os estados unidos declaravam inicialmente apoiar
um crescimento modesto do Conselho de Segurança, com a admissão de dois ou três
novos membros permanentes e dois ou três não permanentes, apoiando em
particular a inclusão imediata do Japão, o segundo maior contribuidor para o
orçamento das Nações unidas. esta posição parece ter evoluído, ainda durante a
administração Bush, para a consideração da hipótese de adesão dos países do G4
como membros permanentes, tendo sido estabelecidos contactos suficientemente
específicos, para membros do Departamento de estado de então poderem assegurar
que nenhum dos candidatos exigia o direito de veto16. essa admissão tácita
(nunca enunciada publicamente) da quase inevitabilidade dessas candidaturas,
apesar de avaliações pouco otimistas sobre o padrão de votações dos países
candidatos em questões consideradas então vitais para os estados unidos (cf.
quadro 2) era, no entanto, vista como dependente do progresso da agenda geral
de reforma estrutural das Nações unidas. apesar das declarações públicas do
Departamento de estado, o alargamento não foi prioridade para os estados unidos
durante a administração Bush, ao contrário dos planos mais globais de reforma
institucional.
Quadro 2
Candidatos ao Conselho de Segurança da onu ordenados por coincidência de voto
com os Estados Unidos em grandes questões, 2000-2004
A mesma ausência de liderança no processo de alargamento do Conselho de
Segurança parecia caraterizar também a administração obama, que, no entanto,
introduzirá uma importante nuancena metodologia enunciada pela anterior
administração, deixando de condicionar o alargamento do Conselho de Segurança
às reformas mais globalizantes nas áreas da gestão das Nações unidas e reforma
orçamental. isto mesmo consta da declaração da embaixadora Susan rice na
reunião informal da assembleia Geral sobre a reforma do Conselho de Segurança.
enquanto a representante permanente enfatiza que os estados unidos «acreditam
que a legitimidade e viabilidade do Conselho de Segurança das Nações unidas a
longo prazo depende da forma como reflete o mundo do século xxi» e já «não
fazem depender a reforma do Conselho de Segurança a outros aspetos de reforma
das Nações unidas», não deixa, no entanto, de avisar que o seu governo «apoia
um alargamento do Conselho de Segurança que não diminua a sua eficiência» e de
reiterar a posição de considerar como principal critério de seleção, não a
representatividade geográfica, mas «a capacidade de os países contribuírem para
a manutenção da paz e segurança»17. o Presidente quebrará o silêncio com a
declaração ao Parlamento indiano a 9 de novembro de 2010, apoiando a
candidatura da Índia, acabada de ser eleita para um lugar não permanente, ao
estatuto de membro permanente, usando para isso argumentos que reiteram a
posição americana de que cada novo país aceite no Conselho de Segurança o deve
ser devido ao mérito intrínseco do seu perfil. a Índia é saudada pelo seu longo
historial de participação em operações de manutenção de paz, assim como pela
capacidade de assumir as suas responsabilidades numas Nações unidas que sejam
«eficientes, eficazes e legítimas»18.
Esta declaração surge no contexto do que os críticos da administração vinham a
classificar como uma posição de desinteresse pela agenda de reforma global das
Nações unidas prosseguida pela anterior administração (incluindo atraso na
nomeação do embaixador para a Gestão e reforma19) e de falta de clareza sobre o
empenho da nova administração no processo de alargamento. Se a primeira postura
parece refletir uma escolha deliberada de abandonar o condicionalismo da
administração Bush, sacrificado em troca de uma melhoria de relações com a
organização, a segunda parece resultar de hesitações e reticências dentro
da administração. em março de 2009, por exemplo, questionada sobre o clamor
por um assento africano permanente no csnu, a administração afirmava não ter
ainda tomado uma posição sobre as exigências da união africana, nem sobre
outras questões relacionadas com o alargamento, insistindo no entanto na
necessidade de não transformar o Conselho de Segurança num fórum de debates,
com uma efetividade diminuída20. É claro que o melhor cenário para a
administração obama seria um alargamento limitado ao G4, no que diz respeito
aos membros permanentes, mas nenhuma decisão estratégica definitiva parece ter
ainda sido tomada.
No entanto, a declaração pública de novembro de 2010 parecia sugerir que um
processo de debate interno dentro da administração tinha chegado a conclusões
preliminares, ao explicitar o que nunca tinha passado de um processo vago de
intenções da administração anterior (a inclusão da Índia ao lado do Japão na
lista de países que os estados unidos expressamente desejam ver num Conselho de
Segurança alargado), alimentando a hipótese de uma intenção, por parte da
administração, em usar a abertura da sessão da assembleia Geral em setembro de
2011 para enunciar um roadmappara o alargamento do Conselho de Segurança, o que
de facto, não veio a suceder. Pelo contrário, a Casa Branca divulgou, em
setembro de 2011, uma Fact Sheet Advancing U.S. Interests at the United
Nations21 em que faz um balanço exaustivo dos resultados da nova atitude dos
estados unidos nas Nações unidas, guiadas pelo novo espírito de empenho
anunciado pelo Presidente obama, incluindo uma secção sobre a reforma das
Nações unidas em que não é feita uma única menção à reforma do Conselho de
Segurança e à contribuição americana para o debate.
Não parece previsível que a administração dê quaisquer passos significativos
durante o que resta da presente oitava ronda negocial no sentido de apresentar
um plano coerente de reforma do Conselho de Segurança, não só pela sua leitura
das prioridades do seu interesse nacional, e pelas dificuldades práticas da
implementação de quaisquer dos modelos em discussão, mas também pela
intensidade do debate interno e da pressão de um Congresso que não se revê na
política de comprometimento com as Nações unidas do Presidente obama.
É portanto previsível que a administração (e a que eventualmente se lhe seguir
após as eleições de 2012) mantenha a adesão aos quatro princípios enunciados em
2005, insistindo num alargamento moderado (cerca de mais cinco membros, dois
permanentes e três eleitos) que não transforme o Conselho de Segurança num
fórum de debate ineficaz, num critério baseado no mérito individual de cada
país, sendo que esse mérito não deve ser medido em termos de representatividade
mas de contribuição efetiva para a missão da onu não só em termos de orçamento
mas de comprometimento ativo com as tarefas de resolução de conflitos e
manutenção da segurança internacional (cf. quadro 3), e na manutenção do
direito de veto dos P5.
Quadro 3
Orçamento Regular das Nações Unidas, Orçamento de Operações de Manutenção de
Paz e Contribuição para Forças de Manutenção de Paz
A POSIÇÃO DO CONGRESSO
O Congresso, nomeadamente a Câmara dos representantes através dos influentes
comités dos Negócios estrangeiros, presidido na atual legislatura pela
republicana ileana roslehtinen, e do orçamento, presidido pelo republicano
harold rogers, tem liderado o processo de confronto com o que considera ser a
ineficácia, desperdício e parcialidade das Nações unidas, usando a ameaça da
retirada de fundos gerais ou destinados a organismos específicos considerados
mais perdulários ou politicamente inoperantes, como é o caso do Conselho de
Direitos humanos que substituiu em 2006 a controversa Comissão de Direitos
humanos, sem alterações substanciais na sua prática.
A ameaça de retirar fundos como forma de pressão para obter reformas tem a
potencialidade de alterar as novas boas relações do executivo com a
organização, e vem na linha de uma longa prática do Congresso que atingiu o
auge na decisão de 1985 de recusar o pagamento da contribuição americana,
considerada demasiado alta (então 25 por cento do orçamento global da
organização). em 1999, a lei helms-Biden altera esta postura, condicionando o
pagamento das contribuições americanas em atraso a um conjunto de reformas,
nomeadamente a redução da contribuição geral americana para 22 por cento do
orçamento geral e 27 por cento do orçamento de operações de manutenção de paz.
No verão de 2011, depois de audições no Comité de Negócios estrangeiros, a sua
presidente apresentou um projeto de lei, «uN transparency, accountability and
reform act», que visava tornar voluntária a contribuição dos estados unidos, ao
invés da contribuição calculada (com base no outputeconómico de cada país) e
obrigatória. a aprovação desta disposição daria, segundo os seus proponentes,
uma maior capacidade de pressionar a organização a proceder a reformas, algumas
das quais são listadas. o articulado indica também especificamente que «a
política dos estados unidos é opor-se a qualquer expansão do Conselho de
Segurança que diminua a influência dos estados unidos no Conselho de Segurança
ou que inclua o direito de veto para novos membros do Conselho de Segurança»22.
A administração obama enunciou claramente a sua oposição a este projeto de lei,
que está neste momento em fase de discussão no Comité, acusando-o de ameaçar a
reputação internacional dos estados unido e enfraquecer as Nações unidas como
instrumento de implementação dos interesses da segurança nacional americana.
O confronto entre o Congresso e a administração em torno deste projeto de lei,
num período marcado pela intensidade de uma campanha eleitoral, irá ocupar a
agenda do executivo exatamente ao mesmo tempo que a oitava ronda negocial se
desenrola, aumentando ainda mais a hipótese de que, também por razões de
política interna, não se venha a verificar um aumento significativo de empenho
americano do debate sobre o alargamento do Conselho de Segurança, apesar da
crescente atenção que o establishmentpolítico lhe tem vindo a prestar,
nomeadamente pela voz dos think tanksdedicados ao debate da política externa
americana.
O DEBATE NO ESTABLISHMENTPOLÍTICO AMERICANO
Subjacente a qualquer alteração da postura americana sobre o possível
alargamento do Conselho de Segurança está o debate interno, envolvendo tanto
setores políticos influentes como o establishmentde política externa. Sondagens
parecem indicar alguma abertura da opinião pública a um alargamento a
determinados países. uma sondagem do think tankCommon Cause Georgia em 2008,
que indicava que 66 por cento e 67 por cento dos inquiridos apoiavam a entrada,
respetivamente, da alemanha e do Japão, e 53 por cento apoiavam a candidatura
da Índia23 e do Brasil, parece confirmar essa hipótese.
As linhas gerais do debate sobre o alargamento do Conselho de Segurança no
mundo da opinião política interna consubstanciam três posições mais ou menos
consolidadas. a rejeição de qualquer alteração do status quoé defendida por
think tanksconservadores como a heritage foundation e por alguns setores do
Partido republicano. esta rejeição aponta a diminuição do poder dos estados
unidos dentro do Conselho de Segurança, baseada nas tendências de voto dos
países candidatos, e a diminuição da eficácia do órgão, em virtude do risco de
paralisia do processo de decisão. as correntes antialargamento retomam
frequentemente as propostas da administração Bush, insistindo na prioridade de
uma reforma geral da instituição, como se pode ver na iniciativa
legislativa acima discutida. Dentro do tea Party, particularmente influente
na atual Câmara de representantes, a maioria dos congressistas revê-se na
proposta presentemente em discussão no Comité de Negócios estrangeiros; a
fação hiperisolacionista representada por ron Paul, que tem uma posição muito
mais radical em relação a todas as instituições multilaterais e favorece o
descomprometimento internacional dos estados unidos, continua minoritária.
O apoio condicionado à ideia de alargamento é defendida por correntes de
opinião que, em princípio, apoiam a necessidade política da liderança americana
no processo de alargamento, mas que apontam para dois obstáculos que podem
condicionar a capacidade dos estados unidos em tomar a iniciativa nesta área.
as dificuldades intrínsecas ao processo negocial (as oposições regionais como
as da China e Coreia do Sul à inclusão do Japão, da argentina e do México à
inclusão do Brasil, a oposição do G77 à inclusão de mais um país europeu se
nenhuma das nações do grupo for também aceite, a posição da rússia que favorece
um alargamento dos membros não permanentes mas não dos permanentes) a que se
acrescentam as dificuldades do processo de votação e ratificação são obstáculos
que implicariam um tal investimento do capital político americano que um
possível fracasso seria politicamente desastroso. a estes obstáculos junta-se a
conjuntura específica da política interna americana, em que apesar do apoio
provável de setores moderados do Partido republicano, a agenda da nova geração
republicana na Câmara de representantes não parece ser compatível com a
necessária colaboração bipartidária necessária ao processo de ratificação pelo
Senado, não podendo o presidente investir o seu capital político doméstico, nos
meses que restam do seu primeiro mandato e num eventual início de segundo
mandato, numa agenda tão arriscada, cujos possíveis benefícios só seriam
sentidos a longo prazo.
Os defensores de uma liderança americana no processo de alargamento (entre eles
os autores do influente relatório do grupo de estudo do Council on foreign
relations publicado em dezembro de 201024) salientam uma grande vantagem
imediata de um empenhamento imediato, a de que os estados unidos nunca poderiam
perder politicamente como resultado da tomada de iniciativa, mesmo se esta se
traduzir em insucesso, ganhando durante o processo novas alianças e colocando-
se ao lado dos «não representados». De uma maneira geral defendem (como os
apoiantes condicionais) os critérios acima apontados, nomeadamente a rejeição
de uma representatividade geográfica como critério para a escolha dos membros
permanentes (considerando-a relevante só para os não permanentes). Sugerem
ainda que uma grande vaga de pressão poderia flexibilizar a China e a rússia e
diminuir as rivalidades regionais. Quanto às dificuldades com o Congresso,
defendem a inclusão do Congresso nas negociações desde o seu início, apontando
para o facto inegável da extensão temporal de todo o processo (muito longe dos
três anos de 1965), que empurrará a ratificação para um Congresso futuro, de
perfil político desconhecido, cuja postura não é possível prever.
CONCLUSÃO
O Governo norte-americano tem tentado, na presente administração, gerir agendas
contraditórias impostas quer pela sua leitura da melhor forma de implementar os
interesses nacionais, quer por condicionalismos políticos internos. o
imperativo de comprometer os estados unidos com a renovação dos organismos
internacionais, entre os quais as Nações unidas, e o manifesto interesse em
afirmar uma posição de liderança através de processos multilaterais implica uma
necessária atenção ao debate sobre o alargamento do Conselho de Segurança, e
uma aproximação às posições de aliados importantes que ambicionam uma
participação como membros de pleno direito no Conselho de Segurança. No
entanto, os receios de um enfraquecimento da posição do país num órgão alargado
através da expansão do direito de veto, e da deterioração da capacidade
decisória, não podem deixar de ser considerados por esta ou qualquer outra
administração americana na avaliação da tomada de posição sobre qualquer modelo
de alargamento proposto. a estes fatores se junta a correlação de forças
doméstica, em que o poder é repartido com um Congresso efetivamente hostil a
qualquer alteração do status quoque possa diluir a afirmação do poder
americano, e que tem um historial de frequente confrontação com as Nações
unidas.
Nestas circunstâncias, a atual reticência dos estados unidos e a sua aparente
falta de clareza parecem ser não só a resposta natural e previsível nas
presentes circunstâncias, como a melhor hipótese de gerir as necessidades
contraditórias de continuar a melhorar o perfil internacional dos estados
unidos valorizando a onu, continuar a insistir na introdução de boas práticas
na organização, manter e melhorar alianças bilaterais quer com países
candidatos, quer com os seus rivais regionais, e conter a oposição do
Congresso. Manter-se aberto a um alargamento moderado, sem se comprometer com
especificidades para além das já divulgadas, parece ser, para o Governo obama,
a estratégia mais sensata para a oitava ronda de negociações, que coincide com
o final do seu primeiro mandato. um segundo mandato poderia alimentar nova
confiança na capacidade de liderar um processo que mantivesse o benefício para
o interesse nacional do engajamento construtivo com a onu, sendo embora
improvável que passos significativos sejam dados sem o apoio de uma maioria no
Congresso.
NOTAS
1
National Security Strategy, Maio de 2010, p. 46. Disponível em: http://
www.whitehouse.gov/sites/default/files/rss_viewer/
national_security_strategy.pdf
2
CONGRESSIONAL TRANSCRIPTS, CONGRESSIONAL HEARINGS ' «Senate foreign Relations
Committee holds hearing on the nomination of Susan Rice to be the
u.s.Representative to the united nations». In Congressional Quarterly, 15 de
Janeiro de 2009.
3
BOUTROS-GHALI, Boutros ' An Agenda for Peace. Nova York: Nações Unidas, 1995.
4
O grupo ' inicialmente designado como o «grupo do café», passará a ser
conhecido pelo título do relatório que produz em 2005, United for Consensus'
incluía também os seguintes países: Argentina,Canadá, Colômbia, Costa Rica,
Coreia do Sul, Espanha, Indonésia, Itália, Malta, São Marino e Turquia.
5
O grupo de trabalho, designado oficialmente como «open-ended Working Group on
the question of Equitable Representation on and Increase in the Membership of
the Security Council and other Matters Related to the Security Council»,
providenciava um fórum formal de consulta tanto sobre a extensão do Conselho
como sobre a sua metodologia de trabalho. Aberto a todos os estados-membros era
presidido pelo presidente da Assembleia Geral. no final de cada sessão era
incumbência do presidente apresentar aos membros um projeto de relatório e uma
resolução. Se o documento e a resolução fossem aprovados o item seria colocado
na agenda da sessão seguinte e o Grupo de Trabalho continuaria o seu trabalho.
6
High Level Panel on Threats, Challengesand Change.
7
A More Secure World: Our SharedResponsibility(A /59/565).
8
Processualmente este voto requereria uma maioria de dois terços na Assembleia
Geral, com 128 países a votarem favoravelmente. Durante este voto, as
abstenções não serão contadas e não é necessário que todos os membros votem
efetivamente. De seguida, iniciar-se-á um processo de ratificação pelas
legislaturas nacionais de dois terços dos países-membros.
9
Disponível em: http://www.centerfo-runreform.org/system/files/Compilation.
10
Costa Rica, Jordânia, Liechtenstein, Singapura e Suíça
11
«Statement by his Excellency Guillermo E. Rishchynski, Ambassador and Permanent
Representative of Canada to the united nations, to the Plenary session
of the united nations General Assembly on the question of equitable
representation on and increase in the membership of the Security Council and
related matters», Nova York, 9 de novembro de 2011. Disponível em: http://
www.canadainternational.gc.ca/prmny-mponu/canada_un-canada_onu/statements-
declarations/general_assembly-assemblee-generale/
20111109_Rishchynski_UNReform_ReformeONU.aspx?view=d
12
Reforma entretanto parcialmente implementada.
13
Reforma entretanto parcialmente implementada.
14
«U.S. Priorities for a Stronger, more Effective United Nations». State
Department Publication, 2005. Disponível em: http://www.archive.usun.state.gov/
fact_sheet/reform1.pdf
15
«The united States is open to un Security Council reform and expansion, as one
element of an over all agenda for un reform. We advocate a criteria-based
approach under which potential members must be supremely well qualified, based
on factors such as: economic size, population, militar y capacity, commitment
to democracy and human rights, financial contributions to the un, contributions
to un peacekeeping, and record on counter-terrorism and non-proliferation. We
have to look, of course, at the overall geographic balance of the Council, but
effectiveness remains the benchmark for any reform». In Bureau of Public
Affairs, 20 de junho de 2005.
16
BURNS, R. nicholas ' «un Security Council enlargement and u.s. interests».
Council on foreign Relations Transcript (12/8), 10-11 de dezembro de 2010.
17
Cf. RiCE ,Susan E.'« Statement by Ambassador Susan E. Rice, u.s. Permanent
Representative to the united nations, at an informal meeting of the General
Assembly on Securit y Council Reform». u. s . Mission to the united nations,
nova York. 19 de fevereiro de 2009. Disponível em: http://
usun.state.gov/briefing/statements/2009/february/127091.htm.
18
OBAMA, Barack ' «Remarks by the President to the Joint Session of the Indian
Parliament in new Delhi, India», 8 de novembro de 2010. Disponível em: http://
www.whitehouse.gov/the-press-office/2010/11/08/remarks-president-joint-session-
indian-parliament-new-delhi-india
19
o embaixador Joseph Torsella veio a ser nomeado em novembro de 2010, vinte e
dois meses depois da tomada de posse da Administração obama.
20
WarliCk, James B. ' «u.s. Reengagement with the u.n.». foreign Press
Center, u.s. Department of State. 20 de março de 2009. Disponível em: http://
fpc.state.gov/120852.htm
21
Cf. Fact Sheet: Advancing u.s. Interestsat the United Nation.Disponível em:
http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2011/09/20/fact-sheet-advancing-us-
interests-united-nations
22
Cf. H.R.2829 ' United Nations Transparency, Accountability, and Reform Act of
2011. Disponível em: http://www.opencongress.org/bill/112-h2829/show.
23
ApudBurns, R. nicholas ' «un Security Council enlargement and u.s. interests»,
p. 46.
24
Kara, McDonald C., e PaTriCk, Stewart M. ' «un Security Council enlargement and
u.s. interests». Council on foreign Relations, Special Report no. 59,
dezembro de 2010.
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