O 11 de Setembro e os clichés transatlânticos
O 11 de Setembro e os clichés transatlânticos
Dez anos depois dos ataques em Nova York e Washington, há frases emblemáticas
que fizeram escola e foram usadas demasiadas vezes sem grande critério ou
rigor. E houve para todos os gostos: do "somos todos americanos" ao
"o mundo mudou a 11 de Setembro", passando pela menos absoluta mas
um tanto ou quanto aritmética "o pós-11 de Setembro", ou terminando
na exaustiva expressão "o 11 de Setembro de...", cada vez que algum
país sofria um ataque terrorista islâmico. Há, por certo, diversos ângulos para
dissecar cada uma destas expressões mas este artigo vai privilegiar um só: a
dimensão transatlântica. Vejamos como cada uma das quatro frases enunciadas se
aplicou ao relacionamento entre norte-americanos e europeus na última década.
SOMOS TODOS AMERICANOS
Nem todos. À comoção do Le Monde respondeu o cinismo do Eliseu. À solidariedade
europeia seguiu-se a desunião completa. As culpas de mais uma crise
transatlântica foram evidentemente repartidas e já muito se escreveu sobre o
tema, mas convém recordar o aproveitamento que algumas capitais fizeram da
reacção militar de Washington, primeiro no Afeganistão e depois no Iraque.
Paris e Berlim formaram a dupla principal do minoritário pelotão de estados-
membros que foram progressivamente descolando da narrativa do restante espaço
transatlântico, até perceberem que a unipolaridade não terminava por decreto
nem as vitórias eleitorais se garantiam com desprezo pela relação bilateral
mais importante dos últimos cinquenta anos1. O consenso gerado pela intervenção
no Afeganistão cedo deu lugar a um antiamericanismo de corredor que se
alimentou e foi alimentando da contestação das ruas europeias. Hoje, muitos
dirão que a intervenção no Iraque deu razão aos protestos e, por via disso, a
Paris e Berlim. Em parte isto é verdade. A errática e até displicente narrativa
norte-americana (com nuances nos discursos europeus) sobre a ligação de Saddam
Hussein ao terrorismo jihadista e a posse de armas de destruição maciça
sustenta essa visão. Só que esta linha de argumentação omite as posições da
França e da Alemanha nas sucessivas conclusões dos conselhos europeus de 2002 e
2003 e até no articulado da célebre Resolução 1441 do Conselho de Segurança2.
Em ambos os fora era pedido ao Iraque que "desarmasse" e
"cumprisse com as exigências da comunidade internacional". Por
outras palavras, tanto a França como a Alemanha jogaram num tabuleiro
dissimulado: institucionalmente assinavam declarações com os aliados numa
aparente sintonia; no plano político, demarcaram-se dessas mesmas declarações.
Podemos avaliar negativamente o comportamento de muitos líderes que integraram
a coligação diplomático-militar contra o regime iraquiano. Podemos reconhecer
sem subterfúgios (como muitos deles reconheceram ao longo desta década) que
muita coisa correu profundamente mal e o risco corrido terá sido superior ao
estimado. No entanto, não podemos anular as responsabilidades de Paris ou de
Berlim na quebra da solidariedade transatlântica por motivos mais próximos do
oportunismo político do que da responsabilidade que os vários momentos críticos
da última década exigiram. Não era preciso serem "todos
americanos", mas talvez não fosse preciso chegar-se ao ponto de
"americanos nem vê-los".
O MUNDO MUDOU A 11 DE SETEMBRO
Esta expressão contém, à partida, dois elementos importantes que importa
distinguir. Primeiro, a revelação de um terrorismo novo de inspiração
fundamentalista islâmica e com grande capacidade de destruição humana. Segundo,
um mundo assente na liderança de uma única superpotência que, com maior ou
menor dificuldade, ia expandindo o seu modelo pelo resto do mundo. Ora, nem
aquele tipo de terrorismo era propriamente uma novidade, nem deixou de existir
uma única superpotência com dimensão e influência global nos diversos domínios
do poder.
A base ideológica e metodológica do radicalismo islâmico tem fundamentos no
auge da Guerra Fria e uma geometria variável de acordo com os conflitos que
procurou influenciar. É profundamente contraditória e manipuladora. Nasce de
uma vitimização ao jugo imperialista (ocidental, soviético) ou à acção de
certos líderes árabes aliados do Ocidente, mas propõe-se impor pela força o
islão, derrotar os "infiéis" e restaurar o califado. Além disso,
junta uma feroz visão pan-islâmica com um profundo ódio aos valores liberais,
estejam eles presentes no Ocidente ou não3. É ideologicamente totalitária e só
aceita um jogo de soma nula: vitória ou morte. A 11 de Setembro de 2001 mostrou
apenas até onde pode ir na busca destes objectivos. Mostrou-se de outra forma,
mas não surgiu do nada.
Terá o mundo mudado a 11 de Setembro? Do ponto de vista enunciado antes, a
ordem internacional não deixou de ser unipolar. Os Estados Unidos continuam a
dominar no poder militar, mantêm uma influência política e económica a uma
escala global ímpar, são culturalmente a nação mais atractiva e as instituições
multilaterais por si criadas no pós-guerra continuam de pedra e cal no centro
da arquitectura institucional. Dir-se-á que a China já contesta na prática esta
hegemonia e que no domínio económico-financeiro existe um G2 equilibrado e
interdependente. Reconhecer isto não implica considerar a ordem internacional
solidamente multipolar, apenas admitir um outro equilíbrio que, em rigor, a
década anterior ao 11 de Setembro não havia mostrado.
No plano transatlântico, a importância da Europa para a política externa
americana manteve-se numa curva descendente que já havia iniciado marcha antes
dos ataques, ou seja, viu perder a centralidade estratégica para Washington '
equilibrando com o Pacífico ', demonstração de redução de primazia essa que
começara a colocar-se (no debate académico e nas opções políticas) ao longo da
década de 1990. Se, por um lado, essa era uma inevitabilidade face ao patamar
de desenvolvimento e segurança que os europeus alcançaram, ela mostra, por
outro, que o ritmo das decisões norte-americanas e alguns sinais vindos da
Europa (desinvestimento na defesa, por exemplo) encerraram um profundo
desajustamento transatlântico. Por outras palavras, a curva da perda de
importância relativa dos europeus para a política externa norte-americana não
começou a 11 de Setembro mas terá sido (com o intervalo inicial afegão)
acelerada a partir daí.
Significa isto que o mundo mudou nessa trágica manhã de Nova York? Talvez seja
exagerado dizê-lo. Em bom rigor, o mundo viu uma escalada do terrorismo
islâmico como não tinha até então presenciado, um overstretch da superpotência
que contribuiu para acelerar os equilíbrios internacionais nalgumas dimensões
do poder e mostrar algumas das limitações da acção de Washington4. Mostrou a
vulnerabilidade da segurança interna norte-americana como nunca, sublinhou um
debate entre liberdades e securitarismo a que não estávamos habituados, trouxe
ao de cima um approach europeu à segurança distinto da percepção vivida nos
Estados Unidos, mostrou os limites do uso da força, das alianças e os dilemas
financeiro e político inerentes a intervenções militares duradouras. O mundo
não terá mudado a 11 de Setembro, mas com o 11 de Setembro muitas premissas do
sistema liberal ocidental passaram a ser questionadas.
O PÓS-11 DE SETEMBRO
Haverá um antes e um depois do 11 de Setembro? É uma data de tal maneira
imperativa como o fim da II Guerra Mundial ou a queda do Muro de Berlim? O que
existia e deixou de existir após o 11 de Setembro que dê a esta data uma
relevância digna da mudança de um paradigma internacional como aconteceu em
1945 ou 1989?
Entre o fim da Guerra Fria e os ataques às Torres Gémeas e ao Pentágono
podíamos caracterizar o sistema internacional num quadro de adaptação à
unipolaridade, onde a hegemonia norte-americana dispunha de argumentos
suficientemente convincentes e atractivos para expandir um modelo político-
económico. Os poderes económico e militar foram usados para legitimar as
organizações internacionais criadas no pós-guerra, mantendo-as activas e
adaptadas após o colapso da União Soviética. O uso da força passou a estar
presente em acções humanitárias com uma forte componente ideológica e um quadro
narrativo por concluir e sem consenso baseada numa dicotomia entre o bem e o
mal. As restantes potências de dimensão média mantinham um estatuto híbrido,
algumas mesmo em decadência, outras em busca de um modelo político-económico
que servisse a sua ascensão. Contudo, nenhum país de grande dimensão era
directamente hostil aos Estados Unidos ou criava uma ameaça aos interesses
norte-americanos. Os aliados asiáticos do pós-guerra foram não só mantidos como
muitos outros foram trazidos para a órbita de Washington. O mesmo aconteceu na
Europa de Leste, na América Latina e no Médio Oriente. A política externa
norte-americana privilegiou os alargamentos nas organizações internacionais
triunfantes da Guerra Fria, fomentou o comércio internacional, expandiu a sua
rede de alianças e acomodou os gigantes regionais de forma a que o seu
previsível crescimento económico não fomentasse um hostil comportamento
político-militar contra a superpotência.
A 11 de Setembro esta narrativa algo determinista e eufórica sofria um forte
abalo. A superpotência era afinal supervulnerável no plano interno e facilmente
convencida da necessidade de punir pela força todos os movimentos ou estados
que patrocinassem o terrorismo. Essa vulnerabilidade acossou a resposta de
Washington e, dez anos depois, é já possível perceber que uma grande fatia do
défice federal se deve aos custos da duração das simultâneas guerras no
Afeganistão e Iraque. Curiosamente, nenhum dos BRICS5 se empenhou ao lado das
administrações norte-americanas nestas duas frentes (com excepção de algum
apoio russo no Afeganistão), como que a prever uma causa-efeito entre as duas
intervenções e a perda de capacidade financeira norte-americana. Sabendo que
seria nesse plano que iriam concorrer directamente com o grande espaço
transatlântico nas décadas seguintes, foram olhando à distância sem deixar de,
aqui e ali, mostrar alguma solidariedade (por exemplo, nas renovações das
resoluções do Conselho de Segurança que iam legitimando a presença
internacional no Afeganistão e Iraque). O Conselho de Segurança tem sido mesmo
um palco apetecível de equilíbrio entre grandes potências, como mostram as
votações da China (no caso de sanções ao Paquistão), do Brasil e da Rússia
(sobre o Irão ou a Líbia).
No plano transatlântico não há, em bom rigor, um mundo pós-11 de Setembro: a
perda de centralidade europeia já se tinha iniciado antes e a crise
transatlântica do Iraque, embora grave, não foi a primeira e não será a última.
De um ângulo que vai para lá desta relação, pode dizer-se que após o 11 de
Setembro ' fruto de premissas geopolíticas (crescimento económico da China,
Índia ou Brasil) ou de opções demasiado dispendiosas por parte de Washington e
que tornaram os Estados Unidos mais interdependentes de outras potências ' o
mundo não transatlântico passou a ocupar um espaço central no sistema
internacional como até então não acontecera. Se houve alguma coisa que mudou
foi esta.
O 11 DE SETEMBRO DE...
Exagerou-se nesta expressão. Madrid, Londres, Istambul, Moscovo ou Bombaim
foram algumas das vítimas do fanatismo jihadista na última década. Tal como
Bagdade, Cabul, Casablanca ou Bali. Não é só pelo número de vítimas que a
comparação com o 11 de Setembro faz pouco sentido. É pelo que o 11 de Setembro
significa como acto maior de um terrorismo islâmico apocalíptico. O ataque às
Torres Gémeas foi dramaticamente singular. Pela fórmula encontrada para
destruir um símbolo do sucesso económico ocidental. Pela necessidade de o fazer
num horário mediaticamente atractivo. Pelo pânico gerado num país considerado
impenetrável à ameaça externa, fosse qual fosse. Pela alteração brusca que iria
provocar numa sociedade livre de movimentos. Pela ingerência a um nível nunca
visto nos assuntos domésticos e externos da maior superpotência da história.
Todos os outros ataques que simbolicamente enunciámos foram réplicas do 11 de
Setembro. Cada um, à sua maneira, mostraram a geografia do terrorismo islâmico,
a indiscriminada vontade em destruir sociedades mais ou menos livres e
reformistas, tenham estas maiorias cristã ou muçulmana. Todos eles puseram à
prova a força das democracias, a resposta dos seus líderes, a coragem dos seus
cidadãos. Dez anos depois do 11 de Setembro a luta continua. Uns pela defesa
das liberdades, outros pela propagação do ódio, do absolutismo religioso e de
uma legitimidade pré-moderna. Ainda só passou uma década.
NOTAS
1 Ver, por exemplo, GORDON, Philip H., e SHAPIRO, Jeremy ' Allies at War:
America, Europe and the Crisis over Iraq. Nova York: McGraw-Hill, 2004; SZABO, Stephen F. ' Parting Ways: The Crisis in German-
American Relations. Washington DC: Brookings Institution Press, 2004.
2 Cf. Conclusões da 2447.ª Sessão do Conselho de Assuntos Gerais e Relações
Externas, Bruxelas, 22 de Julho de 2002, 10945/02 (Presse 210); Conclusões da
2464.ª Sessão do Conselho de Assuntos Gerais e Relações Externas, Bruxelas, 19
de Novembro de 2002, 14184/02 (Presse 351); Conclusões da Presidência, Conselho
Europeu de Copenhaga, Bruxelas, 12 e 13 de Dezembro de 2002; Conclusões da
2482.ª Sessão do Conselho de Assuntos Gerais e Relações Externas, Bruxelas, 27
de Janeiro de 2003, 5396/03 (Presse 8); Conclusões do Conselho Europeu
Extraordinário, Bruxelas, 17 de Fevereiro de 2003 (6466/03); Resolution 1441,
United Nations Security Council, 8 de Novembro de 2002.
3 Ver, por exemplo, RIGHT, Lawrence ' The Looming Tower: Al-Qaeda and the Road
to 9/11. Nova York: Penguin Books, 2006; BURUMA, Ian, e
MARGALIT, Avishai ' Occidentalism: The West in the Eyes of its Enemies. Nova
York: The Penguin Press, 2004.
4 Cf. LINDSAY, James M. ' "George W. Bush, Barack Obama and the future of
US global leadership". In International Affairs. Vol. 87, N.º 4, 2011,
pp. 765-779.
5 Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
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Portugal
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