Rússia
Rússia
Maria Raquel Freire
Professora auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e
investigadora do CES. Doutora em Relações Internacionais pela Universidade de
Kent (2002). Autora de Conflict and Security in the Former Soviet Union: the
Role of the OSCE (Ashgate, 2003) e co-autora, com Roger Kanet, de Key Players
and Regional Dynamics in Eurasia: The Return of the Great Game'(Palgrave,
2010).
Richard Sakwa, Communism in Russia
Basingstoke, Palgrave Macmillan, 2010, 167 pp.
Richard Sakwa apresenta neste livro, que denomina de ensaio interpretativo, um
estudo aprofundado da experiência comunista na Rússia entre 1917 e o final da
Guerra Fria. Autor consagrado nos estudos sobre a Rússia em múltiplas
vertentes, mas em particular na sua dimensão interna, este é um contributo que
desmistifica leituras e abre novos horizontes de interpretação do período
comunista em análise. Como o autor refere, o objectivo deste trabalho é
examinar as origens da ideia comunista no pensamento e práticas políticas
russas, explicitar as várias formas de socialismo revolucionário no período
pré-revolucionário, e a resistência a estas ideias (p. 1). De algum modo, o
comunismo na Rússia assumiu um carácter específico, não necessariamente numa
lógica de fusão com as tradições existentes no sentido de criação de uma ordem
social, mas antes enquanto interagindo com as realidades russas, mas mantendo
uma identidade organizacional e ideológica própria (p. 3). Por isso o
nacionalismo russo simbolizado por Boris Ieltsin se sobrepôs aos princípios
comunistas, acabando por se tornar dominante. De sublinhar a análise das
resistências à ideia do comunismo revolucionário, que atravessa um espectro
alargado de pensadores e intelectuais, de Dostoievsky a Kautsky e Rosa
Luxemburgo. Em registos diferenciados, as críticas tecidas revelam a
acutilância de percepções que as mudanças implícitas ao processo ideológico
acarretavam na sociedade russa. Ao longo dos seus anos de existência, o
comunismo na Rússia assumiu-se como monopólio de poder num partido
centralizado, com uma economia dirigida e um compromisso ideológico de alcance
de uma ordem social não capitalista (p. 5). Ao longo do trabalho, Sakwa conduz-
nos pelos meandros do processo comunista no desenrolar das décadas de
existência da União Soviética, discutindo o idealismo utópico dos bolcheviques
e os seus críticos à época, a interpretação estalinista do conceito e a sua
tentativa limitada de reforma, e a diluição gradual do comunismo russo enquanto
conceito específico para um entendimento de inconformidade e incapacidade de
resposta a um conjunto de pressupostos iminentemente utópicos. O fim do
comunismo russo parece demonstrar que o objectivo primeiro do mesmo foi
seriamente deturpado, com pressupostos como o de libertação total da humanidade
a traduzirem-se na escravatura da população (p. 133). Mas a questão é mais
profunda. «Não é apenas uma questão de consequências não intencionadas, mas de
conhecer as consequências (e mesmo abraçá-las) enquanto permanecendo fiel à
crença no potencial emancipatório do ideal» (pp. 134-135). Um estudo
recomendado para todos os que pretendem um conhecimento aprofundado das
dinâmicas políticas na Rússia e de como o ideal comunista teceu uma realidade,
acabando por ser tolhido por essa mesma realidade.
John Wood, Russia, the Asymmetric Threat to the United States: A Potent Mixture
of Energy and Missiles
Oxford, Praeger Security International, 2009, 210 pp.
John Wood é investigador sénior no American Center for Democracy, e desenvolve
neste trabalho uma análise crítica do que descreve como o prosseguimento de um
entendimento desfasado entre aquilo que os Estados Unidos vêem na Rússia e o
que a Rússia se tornou efectivamente durante a Presidência de Vladimir Putin. O
autor descreve a Federação Russa como um Estado forte cujo crescimento com base
nos recursos provenientes da exploração de petróleo e gás natural permitiu o
desenvolvimento de outras capacidades, nomeadamente a nível militar. De acordo
com o autor, a política norte-americana cometeu três erros principais na
avaliação que fez da Rússia e que resultaram em entendimentos que não têm
contribuído para uma tomada de posição e definição de uma estratégia coerente
para as relações com a Rússia, e desse modo não reconhecendo um conjunto de
ameaças muito reais que acabaram por ser escamoteadas nesta avaliação. Estes
três erros são essencialmente o não reconhecimento da Federação Russa como um
Estado reemergente, e portanto a contínua leitura da Rússia como um Estado
fragmentado e, por isso mesmo, fragilizado internamente, o que tem repercussões
a nível externo; o tratamento da Rússia como um Estado não cumpridor de
princípios democráticos liberais ocidentais, assumindo que este deverá ser o
modelo de desenvolvimento a pautar as políticas e práticas russas; e não
relevando as questões militares na Rússia e em particular a capacidade ao nível
de sistemas de mísseis, cuja importância é central no reposicionamento russo
(ou seja, assumir a superioridade das capacidades militares norte-americanas
sem questionar potenciais desafios às mesmas). Segundo Wood, esta postura
norte-americana não tem em atenção o crescimento russo da última década,
referindo-se ao período da Presidência Putin, e não reflecte o conceito de
«democracia soberana», como traduzindo um modelo de desenvolvimento
diferenciado do modelo ocidental, e um conjunto de assunções e percepções que
turvam a combinação de força que capacidade militar e recursos energéticos
podem constituir na Rússia. O autor refere mesmo que a Rússia reúne um conjunto
de condições que lhe poderão permitir tornar-se uma superpotência económica e
militar em 2015. O argumento que este livro desenvolve é interessante ao
oferecer uma visão distinta da grande maioria dos contributos bibliográficos
nesta matéria, onde apesar de alguns trabalhos assumirem a reemergência da
Rússia no sistema internacional, identificam ainda um conjunto grande de
limites em termos do que efectivamente esta afirmação possa de facto
consubstanciar.
David J. Rogerson (org.), China and Russia: Competition and Partnership
Nova York, Nova Science Publishers, 2010, 163 pp.
Este livro insere-se num conjunto crescente de bibliografia que vem sendo
publicada sobre o posicionamento de política externa dos Estados Unidos face às
denominadas «potências ascendentes», como referido pelo General Moseley,
nomeadamente em relação à Federação Russa e China. O livro está dividido em
duas grandes partes, uma primeira desenvolvida por Richard Weitz e um segundo
contributo de Elizabeth Wishnick, que focando aspectos diferenciados nas
dinâmicas multi-nível que estão presentes nas relações bilaterais sino-russas,
no quadro regional mais alargado e na triangulação destas com os Estados
Unidos, concluem no mesmo sentido. Para os autores, apesar dos desafios e de
uma postura de contrapeso presente nas políticas externas e nos alinhamentos
destes estados, os Estados Unidos reúnem condições para se manterem activos e
desenvolverem um papel influente na área, através de alguns ajustes nas suas
políticas como formulado nas recomendações. Richard Weitz aborda um conjunto de
temas chave nas relações China-Rússia, alargando a sua análise à grande
Eurásia, embora com enfoque na Ásia Central. Partindo do que entende ser a
visão dos Estados Unidos face às dinâmicas de mudança nesta região alargada, o
autor entende que a nova qualidade das relações sino-russas, com base na
exploração de riquezas, na necessidade de recursos e na procura de estatuto (a
que ambos os estados aspiram), assume uma postura desafiante e de contrapeso ao
envolvimento dos Estados Unidos. O discurso da multipolaridade que tem estado
subjacente quer na Rússia quer na China a esta postura confere-lhe um quadro
institucional claro. Weitz sublinha a questão do reforço da cooperação
económica e de segurança sino-russa, ainda que com limites e informada por
rivalidade bilateral que não permitirá, de acordo com o autor, a criação de uma
aliança forte, e refere ainda as críticas que os Estados Unidos mantêm face à
falta de cumprimento de princípios democráticos nestes países. Contudo, o seu
contributo é mais alargado, e o autor desenvolve questões concretas, em
particular no que concerne aos problemas fronteiriços, não tanto ao nível da
definição de fronteiras, mas mais em termos das questões de imigração ilegal
chinesa para regiões do leste russo e poluição fronteiriça; questões
energéticas, venda de armamento e outro tipo de cooperação militar. A Ásia
Central é apresentada como um exemplo onde interesses em competição e
complementares se reflectem, não só ao nível da relação sino-russa, mas também
ao nível da Organização de Cooperação de Xangai, e nas relações com actores
externos como o Japão, Coreia, da Ásia do Sul, e do Médio Oriente. Elizabeth
Wishnick desenvolve uma análise mais centrada na Eurásia, questionando
estratégias e políticas e relacionando as dinâmicas inerentes às relações
Estados Unidos-China-Rússia, um estudo que é aprofundado na referência relativa
ao seu manuscrito sobre «Russia, China, and the United States in Central Asia»,
que se segue.
Elizabeth Wishnick, Russia, China, and the United States in Central Asia
Carlisle, PA, Strategic Studies Institute, US Army War College, 2009, 72 pp.
Este trabalho analisa o que é entendido como um crescendo de tendências que
procuram minimizar a influência dos Estados Unidos na Ásia Central, pondo em
perspectiva o papel de actores diferenciados na região, e triangulando as
relações Rússia, China e Estados Unidos. O manuscrito argumenta que apesar da
identificação desta tendência desfavorável à presença e interesses norte-
americanos na área, as divergências intra-regionais e as dificuldades de
articulação no seio da Organização de Cooperação de Xangai não constituem
matéria suficientemente crítica que possa efectivamente questionar a actividade
dos Estados Unidos. Elizabeth Wishnick nota de forma particular como a guerra
na Geórgia no Verão de 2008 deixou claras as tensões na relação China-Rússia,
visíveis na não adopção de uma posição comum sino-russa no quadro da
Organização de Cooperação de Xangai, recorrendo ainda a outros exemplos, como
as questões energéticas, de fornecimento e trânsito. Numa perspectiva realista
de análise, a autora coloca em confronto as políticas dos estados da Ásia
Central com a de actores externos na procura de influência e, se possível, uma
presença alargada, em termos militares ou energéticos na área. Apesar de o
enfoque estar na política externa norte-americana e nos objectivos definidos
para a área ' cooperação energética, segurança regional e apoio à democracia e
Estado de direito (p. 4) ', bem como no modo como a gestão de relações na área
afecta a capacidade de projecção das políticas e interesses de Washington, o
trabalho desconstrói de forma muito interessante a complexidade de factores que
subjazem ao mosaico de relações e interacções na Ásia Central. De destacar a
referência que a autora faz ao paralelismo existente entre o conceito de
«democracia soberana», popularizado em relação à Federação Russa, como
pretendendo a adaptação de princípios democráticos aos valores russos, e o
«Consenso de Pequim», que se baseia em reformas socio-económicas graduais dando
prioridade a valores chineses, nomeadamente os de equidade e estabilidade
social, por contraponto ao «Consenso de Washington», cujo enfoque assenta nos
princípios democráticos e na privatização (p. 29). Trabalhando a alteração da
postura norte-americana para a área, que evoluiu do que o antigo Conselheiro de
Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski denominara de «arco de crise», para o
que a secretária de Estado Condooleza Rice veio a chamar de «arco de
oportunidade» (p. 17), a autora assume uma postura optimista em relação ao
envolvimento dos Estados Unidos na Ásia Central, apesar de todos os
constrangimentos existentes. O livro termina com um conjunto de recomendações
políticas para uma abordagem norte-americana mais consistente que deverá passar
pela definição de uma estratégia mais alargada que inclua a Ásia Central e do
Sul, e tendo em vista neste quadro referencial a questão da estabilização do
Afeganistão; uma distribuição mais equitativa de recursos no âmbito de
políticas de apoio ao desenvolvimento; maior coordenação de acções com actores
como a União Europeia e o Japão para evitar duplicação de esforços; e
aprofundamento do diálogo com a China e a Rússia, bem como no quadro da
Organização de Cooperação de Xangai. Um livro curto, de leitura fácil, que
procura descodificar as complexidades inerentes às relações internacionais na
Ásia Central, numa perspectiva norte-americana.
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