A relação Estados Unidos-Brasil: perspectivas para uma parceria
Este artigo estuda as dinâmicas do relacionamento entre os Estados Unidos e o
Brasil, centrando-se nas relações durante as administrações Obama e Lula da
Silva. Analisará a interacção entre estes dois gigantes do hemisfério ocidental
(um deles, uma superpotência há muito consolidada, o outro, uma potência
emergente; e ambas democracias) nos planos bilateral, regional e global. A
observação das relações Estados Unidos-Brasil através destes enquadramentos
revela-nos a natureza multifacetada do seu relacionamento, ao mesmo tempo que
evidencia as áreas em que se verifica uma convergência de interesses de ambos
os países, assim como aquelas em que as suas diferenças são mais notórias. A
crescente complexidade das relações entre ambos os países reflecte a capacidade
de o Brasil identificar tendências a nível global e regional de modo a
consolidar a sua rápida ascensão como potência emergente. Os sucessivos
governos norte-americanos têm reconhecido essa ascensão e a Administração
Obama, ciente de que o gigante sul-americano irá muito provavelmente continuar
a consolidar a sua posição e a sua influência durante as próximas décadas,
procurou lançar os alicerces de uma parceria estratégica com o Brasil. Após o
seu primeiro encontro com o Presidente Luiz Inácio (Lula) da Silva em Março de
2009, o Presidente Obama apresentou-nos a sua perspectiva: «Tenho sido um
grande admirador do Brasil e da liderança progressista e virada para o futuro
que o Presidente Lula tem demonstrado em toda a América Latina e por todo o
mundo. Existe uma amizade muito forte entre os dois países, mas ainda podemos
torná-la mais forte.»1
Este artigo tem três secções. A primeira apresenta uma breve panorâmica
histórica do modo como as relações entre os dois países evoluíram. Segue-se uma
análise da política externa durante a Administração Lula (2002-2010). A
terceira secção explora as dinâmicas do relacionamento Estados Unidos-Brasil
(no âmbito da luta contra o narcotráfico, da energia e das relações comerciais)
e avalia o potencial para uma maior colaboração bilateral. Por fim, a conclusão
especula em torno das perspectivas de transformação da actual relação numa
verdadeira parceria.
O BRASIL, OS ESTADOS UNIDOS E O HEMISFÉRIO OCIDENTAL
O Brasil é uma excepção na América Latina. Trata-se de um dos poucos países do
hemisfério ocidental que desenvolveu e soube manter um projecto nacional, cujas
instituições são fortes e mostram uma liderança capaz. Estas três
características têm sido fundamentais para o salto em frente dado pelo Brasil
durante o último quarto de século. O seu impacto tem sido visível no âmbito da
política externa, no qual a sua eficácia é largamente reconhecida. Tal como
Moniz Bandeira afirmou: «[a política externa brasileira permanece] como
política de Estado, mantendo uma linha de continuidade, apesar das alterações
que possam ocorrer dentro do seu próprio sistema governamental.»2
A política externa brasileira e o Itamaraty (assim se chama o edifício,
projectado por Oscar Niemeyer, que alberga o Ministério das Relações
Exteriores) detêm uma merecida reputação pela sua coerência estratégica e pela
qualidade do pessoal diplomático que gere os negócios estrangeiros. José Maria
da Silva Paranhos (conhecido como barão do Rio Branco), que desempenhou funções
de ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1902 e 1912, lançou as bases da
moderna diplomacia brasileira. Foi o responsável pela demarcação clara das
fronteiras e por resolver uma série de disputas territoriais, enaltecendo dessa
forma o prestígio do Brasil no seio da América Latina. Rio Branco encarava a
política externa como um instrumento para assegurar a estabilidade (interna e
externa), mas também para incrementar o desenvolvimento económico. Com esse
objectivo, expandiu as missões diplomáticas brasileiras no estrangeiro e fez-se
rodear de diplomatas de renome que ajudaram a criar e a consolidar a presença
institucional do Itamaraty. Sem dúvida, Rio Branco deu o seu maior contributo à
política externa do moderno Estado brasileiro ao identificar claramente os
parâmetros do interesse nacional, ao proporcionar estabilidade à política
externa, e ao elevar a sua preparação e a sua implementação acima das políticas
partidárias3. Um profundo sentido de realismo pautou os seus esforços para
ampliar a influência do Brasil na América do Sul, enquanto simultaneamente
mantinha relações cordiais com os Estados Unidos4. Na sua perspectiva, tratava-
se de componentes que se reforçavam mutuamente e cujo resultado prático seria
minimizar o risco de intromissão dos Estados Unidos nos esforços brasileiros
para consolidar as suas fronteiras e assegurar o desenvolvimento interno5.
Apesar de os Estados Unidos terem sido o primeiro país a reconhecer a
independência do Brasil, em 1822, só na época de Rio Branco viriam os dois
países a juntar-se naquilo que E. Bradford Burns designou como «aliança não
escrita». Durante esse período, e ao longo da década de 1930, numa atitude que
reflectia uma percepção realista da ascensão da influência dos Estados Unidos
no hemisfério ocidental, bem como a esperança de que as empresas norte-
americanas encontrassem no Brasil um mercado atractivo e uma oportunidade de
investimento, o Brasil concentrou-se mais em aprofundar relações com os Estados
Unidos do que com os seus vizinhos sul-americanos. De igual forma, certas alas
do Governo norte-americano e do sector privado defendiam o mesmo ponto de vista
sobre as oportunidades que o Brasil podia oferecer. O ponto alto das relações
Estados Unidos-Brasil surgiu no final da década de 1930 e inícios dos anos
1940, durante o primeiro mandato do Presidente Getúlio Vargas, quando o Governo
norte-americano estimulou o investimento do sector privado dos Estados Unidos e
deu apoio aos empréstimos para a construção daquilo que Robert Wesson descrevia
como «o carneiro de guia da industrialização do Brasil» ' um complexo
industrial de produção de aço dotado das mais recentes tecnologias em Volta
Redonda6.
O facto de as relações entre os dois países serem cordiais e de cooperação não
deve, contudo, fazer-nos ignorar algumas das tensões e divergências subjacentes
entre eles. O Estado Novo, de que Vargas foi o arquitecto, não era um projecto
liberal. De facto, à semelhança de muitos outros líderes latino-americanos
daquele período, Vargas inspirou-se nas políticas de Estado corporativistas da
Itália fascista. Em diversas ocasiões, Getúlio Vargas envolveu a Alemanha e a
Itália de modo a fortalecer a posição de negociação brasileira em relação aos
Estados Unidos. Por seu turno, os Estados Unidos criaram créditos para as
exportações financeiras e procuraram obter o acesso ao mercado brasileiro, mas
não abriram as portas à entrada dos seus produtos agrícolas, recusando-se a
autorizar a importação de algodão e reiterando a existência de quotas para o
café e para o cacau. A Administração Roosevelt não estava muito segura acerca
das verdadeiras intenções do Governo de Vargas (o mesmo se verificava no outro
lado), e levantava fortes objecções a que o Brasil continuasse a comprar
armamento à Alemanha. O Brasil acabaria por passar da neutralidade à não
beligerância, e por fim viria a declarar guerra à Alemanha em Agosto de 1942,
depois de uma intensa campanha submarina alemã que afundou vários navios
brasileiros em alto-mar (incluindo um de transporte de peregrinos). O
contributo do Brasil para a II Guerra Mundial foi significante, especialmente
no Atlântico Sul, onde o seu apoio à vigilância anti-submarina ajudou a
assegurar a supremacia dos Aliados. Para além disso, mais de 25 mil soldados
brasileiros foram enviados para Itália, onde estiveram envolvidos em acções na
frente de combate.
Após a II Guerra Mundial, as relações Estados Unidos-Brasil entraram num
período de reajuste e declínio como consequência da decisão norte-americana de
concentrar as suas energias e os seus recursos na reconstrução da Europa. Nem o
Brasil nem nenhum outro país da América Latina foi convidado a aderir ao Plano
Marshall. O redireccionamento das ajudas e do investimento a favor da Europa
representou um duro golpe para o Brasil e reduziu as perspectivas de um
relacionamento mais próximo entre os dois países. A distância entre ambos seria
ainda maior com o regresso de Getúlio Vargas (eleito em 1950), que agora era a
figura de proa de um estilo de populismo mais assertivo. O nacionalismo
económico, a industrialização dirigida pelo Estado e a adopção de uma
estratégia de substituição das importações (não muito distante dos planos de
Juan Domingo Perón na vizinha Argentina) levou o Brasil a redefinir as suas
prioridades de política externa, reorientando-as dos Estados Unidos para os
vizinhos do seu próprio hemisfério7.
A década seguinte não traria muitas melhorias no domínio das relações Brasil-
Estados Unidos. Tendo regressado ao poder com um programa mais vincadamente
nacionalista do que o defendido durante a década de 1930, Vargas deu azo ao
aparecimento de uma oposição significativa a nível interno e externo. O seu
suicídio em Agosto de 1954 encerrou um capítulo na história brasileira, mas
abriu portas a uma década de crescente instabilidade e de expectativas
frustradas. O relacionamento com os Estados Unidos foi relativamente cordial
durante o Governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Kubitschek foi o único
Presidente brasileiro daquela época a completar o seu mandato, mas não
conseguiu levar a Administração Eisenhower a encarar o Brasil como um parceiro
privilegiado nem a estimular o investimento ou as ajudas para apoiar a sua
industrialização e o seu crescimento económico. As presidências de Jânio
Quadros (de Janeiro a Agosto de 1961) e de João Goulart (1961-1964) foram
marcadas por uma crescente bipolarização a nível interno e por um
relacionamento cada vez mais tenso com os Estados Unidos. No plano bilateral, o
pomo da discórdia foi a Revolução Cubana e as suas consequências para a região.
Tanto Quadros como Goulart definiram um rumo independente no domínio da
política externa e recusaram-se a aderir às tentativas norte-americanas para
isolar Havana. Por fim, após vários anos de tensão crescente, mobilização
popular e distúrbios cada vez mais frequentes, Goulart foi derrubado por um
golpe militar dirigido pelo marechal Humberto Castelo Branco. Os Estados
Unidos, que sempre se mantiveram bem informados acerca da conspiração,
reconheceriam rapidamente o novo Governo.
As relações entre os dois países floresceram durante os primeiros anos do
Governo militar, mas a partir de meados e, sobretudo, nos finais da década de
1970, as tensões entre os Estados Unidos e o Brasil vieram à tona. O secretário
de Estado norte-americano Henry Kissinger tinha considerado o Brasil como um
elemento «influente na região», capaz de ajudar a levar a bom porto os
interesses dos Estados Unidos na América Latina. Contudo, quando Jimmy Carter
entrou na Casa Branca com uma agenda que passava pela defesa dos direitos
humanos e por críticas mordazes aos regimes autoritários conservadores, as
dinâmicas das relações bilaterais voltaram a alterar-se. Em reacção às críticas
acerca do seu registo de violação dos direitos humanos, o Governo militar
brasileiro tornou-se cada vez mais defensivo e nacionalista, continuando, de
forma agressiva, a comprar sistemas de armamento e a adquirir tecnologia
nuclear, enquanto normalizava as suas relações com a União Soviética e se
empenhava no Movimento dos Países Não-Alinhados.
Três fenómenos viriam a influenciar decisivamente a política externa brasileira
durante a década de 1980. O primeiro estava relacionado com o aprofundar da
globalização e com o fim da era de substituição de importações, que deu lugar a
novas oportunidades de crescimento através da liberalização do comércio e da
diversificação dos parceiros comerciais, e aprofundou o processo de integração
na economia mundial. O segundo foi o regresso a um governo civil em meados dos
anos 1980. A transição pacífica e ordeira do regime militar para o civil pôs
fim a um longo período em que as autoridades brasileiras assumiam uma postura
defensiva acerca da sua ordem política interna, mas também lançou as bases para
uma estabilidade de longa duração. O terceiro fenómeno estava relacionado com o
fim da Guerra Fria: a reordenação geopolítica que se lhe seguiu coincidia com a
globalização e oferecia novas oportunidades à política externa brasileira. Com
efeito, no início da década de 1990, ainda na sombra do momento «unipolar» da
supremacia norte-americana, começara a emergir uma era multipolar. A ascensão
da China e da Índia, a par com a emergência do Brasil, da Indonésia e da África
do Sul como potências intermédias, constituíram sólidas provas de que o sistema
internacional estava em transformação. Em paralelo surgiu o reconhecimento cada
vez mais unânime de que a resolução de muitos dos novos desafios (entre os
quais se contavam as questões ambientais ou as redes criminosas transnacionais)
se encontrava para lá da capacidade de um só Estado, por mais poderoso que ele
fosse.
A consolidação da democracia e a estabilização da economia com a introdução do
Plano Real e a implementação de políticas fiscais acertadas foram, a nível
interno, os feitos mais significativos do Governo de Fernando Henrique Cardoso
(1994-2002), e permitiram criar sólidos alicerces a partir dos quais o Brasil
poderia pôr em prática uma ambiciosa agenda internacional. Enquanto esteve em
funções, o Governo de Fernando Henrique Cardoso tornou-se um forte defensor das
exigências do Sul global e também exerceu pressão para que o Brasil tivesse uma
voz mais activa nas organizações internacionais e multilaterais, incluindo a
tentativa de assegurar um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
No geral, a Administração de Fernando Henrique Cardoso manteve relações
cordiais com os Estados Unidos durante a Presidência de Clinton e no início da
de Bush. Contudo, tal como acontecera anteriormente com tantos governantes
brasileiros, o Presidente Cardoso esbarrou sucessivamente nas tarifas e quotas
que restringiam o acesso dos produtos brasileiros aos mercados norte-
americanos.
Durante este período, no contexto do hemisfério ocidental também era visível
uma presença brasileira mais assertiva. O Brasil juntou-se à Argentina, ao
Paraguai e ao Uruguai para a assinatura do Tratado de Assunção (1991), que
lançava as bases legais para a constituição do Mercado Comum do Sul (Mercosul).
Esta iniciativa representou um importante marco. Não só permitiu encetar um
novo caminho nas relações com a rival Argentina, mas também fez do Brasil o
campeão da integração regional. Contudo, nos anos seguintes os políticos,
diplomatas e homens de negócios brasileiros tomariam plena consciência das
limitações com que se debatia o projecto de integração regional do Mercosul.
Mas, apesar disso, não restavam dúvidas de que este assinalava uma nova fase do
envolvimento do Brasil com os seus vizinhos e com a comunidade hemisférica mais
alargada.
O aumento de influência do Brasil no contexto do hemisfério ocidental
correspondeu a um declínio da influência norte-americana na América Latina.
Decididamente, o fim da Guerra Fria tinha reorientado o mapa global
geopolítico, catapultando os Estados Unidos para o estatuto de potência
hegemónica, enquanto, paradoxalmente, os encorajava a virarem-se mais para
dentro, concentrando-se nos seus assuntos internos. O «momento unipolar»
depressa passou, mas não antes de os ataques perpetrados pela Al-Qaida em
Setembro de 2001 terem feito a Administração Bush embarcar numa «guerra global»
contra o terrorismo e nos intermináveis conflitos no Afeganistão e no Iraque.
Duas guerras, défices fiscais e o crescimento do estado da «segurança interna»8
teve um efeito profundamente negativo na economia norte-americana,
enfraquecendo-a no preciso momento em que a pressão da concorrência
internacional se intensificou. As relações dos Estados Unidos com a América
Latina também tinham sofrido transformações desde o final da década de 1980 e o
início dos anos 1990. Pelo lado positivo, o fim da Guerra Fria pôs fim às
intervenções norte-americanas na região. Mesmo que os populistas radicais (como
Hugo Chávez) continuem a vergastar os Estados Unidos pelo seu intervencionismo,
os seus esforços parecem resultar de maquinações, mais parecendo tentativas de
acusar um agente externo pelas incompetências demonstradas no plano interno.
Ao longo dos últimos vinte anos, a imigração e as drogas também passaram para o
topo da agenda. No entanto, embora essas questões mostrem até que ponto os
Estados Unidos e a América Latina se foram unindo, o objectivo parece centrar-
se mais no controlo dos fluxos de imigração e do tráfico de estupefacientes do
que em encontrar formas de melhorar e reforçar os laços hemisféricos. Quer a
Administração Clinton quer a de Bush fizeram pressão para uma maior integração
e para o estabelecimento de maiores liberdades de comércio no âmbito daquele
hemisfério. O ponto alto seria a assinatura do histórico Tratado de Livre
Comércio da América do Norte (NAFTA9), em 1994, pelo Presidente Clinton. Outras
iniciativas lutaram para se manterem, como o da Área de Livre Comércio das
Américas (ALCA) ou os acordos bilaterais de comércio (com países como a
Colômbia ou, até, o Panamá). Com os ataques terroristas de Setembro de 2001, os
Estados Unidos concentraram a sua atenção em problemas prementes noutros sítios
do mundo, ao que correspondeu um declínio da sua presença e da sua influência
no hemisfério. Entretanto, a globalização e a crescente procura de bens abriu
novas oportunidades para os países do hemisfério diversificarem o seu comércio
e o investimento, bem como as suas relações políticas externas. As duas décadas
que se seguiram à Guerra Fria foram um tempo de oportunidades «perdidas» para
os Estados Unidos no que diz respeito à América Latina. E isso trouxe novas
oportunidades e perspectivas ao Brasil e a outros países.
A POLÍTICA EXTERNA DO GOVERNO DE LULA
Tem havido um aceso debate para se decidir se a política externa durante os
governos de Cardoso e de Lula foi marcada pela continuidade ou pela mudança.
Houve certamente diferenças entre as políticas dos «institucionalistas
pragmáticos», dominantes durante a Presidência de Fernando Henrique Cardoso, e
os «autonomistas», que levaram a melhor durante a época em que Lula esteve em
funções. Contudo, parece tratar-se de diferenças de ênfase, não sendo
substanciais. A respeito deste tema, estamos de acordo com Amaury de Souza, que
defendeu que tem havido «um nível significativo de convergência» entre as duas
políticas externas, bem como linhas específicas de continuidade no que se
refere aos objectivos e à estratégia10. A diplomacia presidencial, segundo ele,
tem tido «recurso a algumas posições extremas em relação à política externa
como compensação pela execução de medidas mais ortodoxas na frente interna»11.
A política externa era uma grande prioridade para a Administração Lula. Com
efeito, Lula despendeu o equivalente a um ano inteiro da sua presidência a
viajar fora do país, e dessa forma conseguiu fortalecer o seu perfil
internacional e o do seu país. Durante o seu mandato, a política externa
brasileira procurou equilibrar a consistência de princípios (e as gafes
ocasionais) com a procura pragmática de mercados e de oportunidades de
investimento. Entre os pilares da política brasileira encontravam-se a reforma
das estruturas internacionais de governação, o reforço da colaboração Sul-Sul,
a expansão da integração regional na América Latina, e uma maior afirmação da
liderança brasileira no hemisfério.
A reforma das estruturas internacionais de governação foi uma das principais
linhas da política externa brasileira durante a Presidência de Lula. O
Presidente e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Celso Amorim, eram
defensores incansáveis do Sul prejudicado, desprezando os «tecnocratas
arrogantes» cujas receitas económicas tinham feito tantos estragos no Terceiro
Mundo, e exigiam maiores percentagens nos direitos de voto para os países menos
desenvolvidos junto das direcções do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do
Banco Mundial. O Brasil combinava pressão pública e diplomacia privada ao
exercer pressão na direcção das reformas ' Lula era um dos oradores preferidos
do Fórum em São Paulo e a diplomacia brasileira conduzia habilmente negociações
no G20 e noutros âmbitos. Lula e os representantes do seu Governo criticaram
com frequência a estrutura actual e a composição do Conselho de Segurança
(«cuja estreita base de poder acarreta o perigo de uma erosão progressiva da
sua autoridade») e insistiam na adopção de uma generalização da «democratização
dos processos de tomada de decisão no seio do sistema da ONU». Antes de falecer
em Abril de 1945, o Presidente Franklin D. Roosevelt tinha-se mostrado a favor
da inclusão do Brasil no Conselho de Segurança, mas, ironicamente, a delegação
dos Estados Unidos enviada à Conferência de São Francisco, que fundou a ONU
(que era encabeçada pela sua mulher), não apoiava esta iniciativa. Na primeira
década do século XXI, eram parcas as perspectivas de uma expansão ou
reestruturação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Não só uma alteração
desse tipo devia ser aprovada por todos os membros do actual Conselho, como
havia também outros concorrentes aos potenciais lugares. No seio da região
latino-americana, a Argentina, o Chile e o México tinham declarado o seu apoio
à criação de um lugar regional rotativo.
A proliferação nuclear foi outra questão importante de governação internacional
em que a Administração Lula assumiu uma postura de relevo, exigindo «a
eliminação total e irreversível de todos os arsenais nucleares»12. Ao mesmo
tempo, o Governo de Lula criticou fortemente o Tratado de Não Proliferação (a
que chamava «uma expressão dos desequilíbrios do sistema internacional, em que
as armas nucleares são uma forma de proeminência política») e recusou-se a
assinar o protocolo do acordo que daria acesso aos investigadores para entrarem
nos laboratórios e nas fábricas do Brasil. Esta postura causou algum espanto. É
certo que o Brasil era um signatário do Tratado de Tlatelolco (1967), que
proibia «a manufactura, a produção ou a aquisição de armas nucleares por
quaisquer meios, e a recepção, armazenamento apresentação ou qualquer forma de
possessão de quaisquer armas nucleares». E também a Constituição brasileira
proíbe o desenvolvimento de armas nucleares. Mas a questão ficava apenas por
aí. Houve quem apontasse o dedo ao caloroso abraço político de Lula a Mahmoud
Ahmadinejad e à sua defesa do direito do Irão à procura pacífica da energia
nuclear. Houve explicações incongruentes e por vezes até contraditórias acerca
da posição brasileira a respeito do Irão. Para alguns analistas, Lula ainda
ouvia ecos dos argumentos apresentados na investigação que conduziu à Guerra do
Iraque de 2003 e desejava evitar um resultado semelhante no que se refere ao
Irão. Outros viram um paralelismo com o final dos anos 1970, quando os Estados
Unidos se opuseram energicamente ao esforço do Brasil para adquirir tecnologia
nuclear, apenas para que os militares pudessem desenvolver um programa nuclear
secreto. Os brasileiros acreditavam que a pressão internacional não faria mais
do que encurralar o Irão, sem quaisquer resultados positivos. Mas outros viram
na figura de Lula uma mistura de ingénuo num contexto muito para além das suas
capacidades, como um esquerdista de contornos mal definidos, com dois pesos e
duas medidas, cujos preconceitos antiamericanos levaram a cometer um grande
deslize. Por fim, houve quem acreditasse que os sectores nacionalistas no seio
do Itamaraty, o Ministério da Defesa e/ou o seu Partido dos Trabalhadores (PT)
apoiaram a jogada iraniana de Lula porque anteviram uma possível oportunidade
de o Brasil adquirir tecnologia nuclear mais evoluída, incluindo (talvez)
armamento nuclear.
Não restavam muitas dúvidas acerca do interesse do Brasil em adquirir
tecnologia nuclear. Isso era já bem evidente em Dezembro de 2008, quando o
Governo brasileiro tornou público o seu documento «Estratégia Nacional de
Defesa», que apelava à modernização da estrutura de defesa nacional e
salientava a necessidade de desenvolver capacidades nas áreas da cibernética,
do espaço e da energia nuclear. Relativamente a esta última, o documento
realçava a «necessidade estratégica de desenvolver e controlar tecnologia
nuclear»13. Vários meses depois, o Jornal do Brasil publicou um relatório
acerca de uma dissertação de tese de doutoramento apresentada no Instituto
Militar de Engenharia que indicava que o Brasil tinha capacidade para
desenvolver armas nucleares14.
A colaboração Sul-Sul foi outro elemento distintivo da Administração Lula, em
especial durante o seu segundo mandato. O Brasil procurou activamente
estabelecer alianças com os outros países BRIC (Rússia, Índia e China) e
juntou-se à Índia e à África do Sul para criar o Fórum IBAS (Índia, Brasil e
África do Sul). Ao agir em uníssono com estes países o Brasil impulsionou o seu
prestígio e fez ouvir a sua voz em várias questões internacionais. A política é
apenas um dos motores por detrás da colaboração Sul-Sul. A colaboração Sul-Sul
é também vantajosa para os negócios, contribuindo para expandir os mercados e
para criar oportunidades de investimento. Nomeadamente, a África tem sido um
alvo especial dos esforços desenvolvidos pelos brasileiros. Verificou-se uma
notável expansão da presença diplomática brasileira na África ao longo da
última década, com a abertura de 54 embaixadas e consulados espalhados por todo
o continente. O Brasil também tomou parte em muitos dos grandes empreendimentos
conjuntos daquela região do globo, através do desenvolvimento de regiões
carboníferas em Moçambique e acompanhando grandes projectos de infra-estruturas
e de reconstrução em Angola15, país ao qual o Brasil facilitou créditos de
aproximadamente 2600 milhões de dólares, na esperança de que graças a isso a
Petrobras (a multinacional semipública brasileira, que é a maior companhia da
América Latina em termos de capitalização e lucro e também um líder na produção
de petróleo extraído em águas profundas) tivesse preferência no acesso às
jazidas de petróleo das águas angolanas. Em termos gerais, as transacções com a
África mais do que triplicaram desde 2003, ascendendo de 2600 milhões de
dólares em 2003 a cerca de 8700 milhões de dólares em 2009, colocando desta
forma o continente africano em quarto lugar na lista dos principais
exportadores brasileiros16. Lula também desbravou novos terrenos no âmbito
diplomático com o seu envolvimento nas questões do Médio Oriente. Nenhum chefe
de Estado brasileiro tinha visitado aquela região desde que o imperador D.
Pedro II se deslocou ao Líbano, à Palestina e à Síria. Sem dúvida, as
deslocações de Lula a Israel, ao Líbano e à Síria, em Março de 2010, mereceram
ser notícia, mas quaisquer que fossem os benefícios a retirar destas visitas
para a política externa brasileira, terão sido ensombrados pela controvérsia
acerca da estratégia nuclear iraniana e pelos comentários de Lula, segundo o
qual «não havia provas de fraude» nas eleições presidenciais iranianas de Junho
de 2009.
Possivelmente, a mais complicada relação Sul-Sul que Lula teve de gerir foi
entre o Brasil e a China. Ambos os países se viam como porta-vozes dos países
menos desenvolvidos, e eram também parceiros comerciais activos. Apesar de a
China ser actualmente o principal mercado de exportação do Brasil, os dois
países são igualmente rivais e concorrentes. A rivalidade é tanto política como
económica. Os produtos de ambos os países estão em competição e os dois olham
para as mesmas regiões em busca de novos mercados e de oportunidades de
investimento. A China tem sido extraordinariamente activa na África e na
América Latina, procurando assegurar para si contratos de longo prazo no
domínio agrícola e da exploração de minério. Num discurso em 2010, na Tanzânia,
Lula desferiu um golpe contra a China: «Eu não tenho nada contra os meus amigos
chineses, mas a verdade é que às vezes conseguem um contrato de exploração
mineira e trazem todos aqueles chineses para trabalhar na mina e isso não gera
oportunidades de trabalho nesse país.»17 Um contrato de exploração ganho pela
China é uma derrota para os brasileiros. Do mesmo modo, na América Latina, o
investimento chinês em recursos naturais e infra-estruturas é muito superior ao
brasileiro. A China comprou a Peru Copper Inc. em 2007 por 792 milhões de
dólares, investiu mais de 550 milhões de dólares no gigante chileno do cobre
Codelco, e 16 mil milhões de dólares para incrementar a produção de petróleo da
Venezuela18. O Brasil expandiu os seus esforços de investimento na América
Latina através da Iniciativa para a Integração da Infra-estrutura Regional Sul-
Americana (IIRSA) e do Banco Nacional do Desenvolvimento Económico e Social
(BNDES), mas é pouco provável que a escala de envolvimento consiga equiparar-se
aos esforços de investimento da China. Entretanto, um outro membro da
fraternidade BRIC, a Rússia, também esteve presente na América Latina,
competindo com o Brasil, em especial no domínio das vendas de armamento. A
Índia e a África do Sul ofereciam maiores oportunidades de parceria económica e
tecnológica, mas, se excluirmos um acordo para lançar satélites climáticos e
meteorológicos concluído no início de 2010, os projectos em concreto terão de
esperar pelos sucessores de Lula.
A integração regional foi outro dos pilares da política externa brasileira
durante a Presidência de Lula. Apesar de quase vinte anos após a assinatura do
Tratado de Assunção, em Março de 1991, o Brasil continua a ser um grande
apoiante do projecto de integração do Mercosul, mas os seus limites (a
dependência do envolvimento presidencial, que não se tornava compensatório para
instituições frágeis, e as muitas lacunas na sua união aduaneira) tornaram-se
cada vez mais patentes. No início, o Mercosul forneceu ao Brasil uma plataforma
a partir da qual poderia negociar com os Estados Unidos acerca da sua proposta
da ALCA. Já na primeira década do século XXI o entusiasmo da elite brasileira
pelo projecto sofreu um decréscimo. Uma sondagem mostrou um declínio
significativo na proporção dos que achavam que o Mercosul era vantajoso para o
Brasil: em 2001 eram 91 por cento, em 2009 eram 78 por cento19. Contudo, o
Brasil não quis pôr o Mercosul de parte. A solução era manter o projecto e
reduzir as expectativas, ao mesmo tempo que se faria pressão para criar
iniciativas de cariz mais continental. Por exemplo, a Administração Lula
convidou a Venezuela a aderir ao Mercosul em 2005, embora os seus motivos não
fossem muito claros. Haveria a esperança de dar uma nova dinâmica ao Mercosul?
Seria uma forma de controlar a Venezuela e o seu líder Hugo Chávez? Ou será que
o Brasil via num Mercosul transformado um mecanismo para preparar o terreno
para uma integração regional de maior amplitude (mas a longo prazo)? Neste
último caso, não haveria dúvidas de que as empresas brasileiras ficariam com a
parte de leão dos projectos de infra-estruturas. Fosse qual fosse o caso, o
ministro dos Negócios Estrangeiros, Celso Amorim, declarou que «[era] mais
provável o Brasil influenciar a Venezuela do que o contrário»20. O Brasil
lançou ainda uma outra iniciativa de integração (mais ambiciosa) pouco depois
da eleição de Lula, ao juntar vários outros países numa proposta de criação da
União de Nações Sul-Americanas/Unión de Naciones Sudamericanas (Unasul/Unasur)
e de um Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) paralelo. A Unasul foi um
esforço para fundir o Mercosul e a Comunidade Andina em algo que viesse a
assemelhar-se à União Europeia, com um parlamento localizado na Bolívia e um
banco central em Caracas. O antigo Presidente da Argentina, Nestor Kirchner
(que faleceu em finais de Outubro de 2010), foi eleito secretário-geral. O CDS
pretendia lançar as bases para uma organização de segurança regional e
promoveria a cooperação militar. Estas propostas causaram grande agitação
quando foram anunciadas. Contudo, muitos analistas suspeitam de que ainda
passará muita água debaixo da ponte até que se tornem realidades concretas.
A América Latina foi a arena geográfica preferida das iniciativas da
Administração Lula. O esforço para melhorar os relacionamentos com os seus
vizinhos foi uma constante na política externa brasileira desde a década de
1960, mas o processo ainda se tornou mais significativo com a instauração da
democracia. A Administração de Fernando Henrique Cardoso fez da América Latina
a sua prioridade especial, e o Governo de Lula manteve o mesmo rumo. Houve
muita continuidade entre ambas as administrações, mas Lula e a sua equipa de
Negócios Estrangeiros (que incluía Marco Aurélio Garcia, com fortes ligações a
Cuba, que vinham desde os anos 1960) eram mais nacionalistas, com simpatias
pela esquerda autoritária, e mais antiamericanos do que os seus antecessores.
Cuba e as Honduras foram exemplos disso. O Governo de Lula prestou fortes
apoios ao Governo de Raul Castro e o Presidente brasileiro visitou Cuba em
quatro ocasiões no cumprimento das suas funções. O Brasil convidou Cuba a
juntar-se ao Grupo do Rio, em 2008, e fez investimentos significativos em
infra-estruturas e na indústria açucareira. O BNDES, por exemplo, providenciou
a Cuba 300 milhões de dólares em créditos para reconstruir o porto de Mariel, e
os homens de negócios brasileiros manifestaram forte interesse em investir em
hotéis e em redes de auto-estradas por toda a ilha21. Por seu turno, Cuba
ofereceu à Petrobras a oportunidade de prosseguir a exploração petrolífera nas
suas águas territoriais. De certo modo, estas iniciativas não eram muito
diferentes das que foram tomadas por outros governos latino-americanos e
europeus que pretendiam estabelecer um ponto de apoio na ilha enquanto
esperavam por maiores reformas económicas e (talvez) políticas.
Mas ainda mais reveladores foram os comentários desdenhosos que Lula fez (e que
atraíram as atenções pelos piores motivos) quando o prisioneiro político
Orlando Zapata faleceu na sequência de uma greve de fome em Fevereiro de 2010.
Quando lhe pediram o seu comentário, Lula afirmou opor-se às greves de fome e
comparou Zapata a um criminoso comum. «Imaginem que todos os criminosos de São
Paulo faziam greve de fome para exigir a sua liberdade», disse Lula, após o que
declarou respeitar «as decisões do sistema legal cubano» e o direito de o
Governo «prender pessoas com base nas leis cubanas»22.
O derrube de Manuel Zelaya nas Honduras ofereceu a Lula uma outra oportunidade
de beliscar os Estados Unidos. Neste caso, o Presidente brasileiro movimentava-
se em terrenos mais sólidos uma vez que o Presidente das Honduras tinha sido
ilegalmente deposto, facto cujos ecos se fizeram ouvir por toda a América
Latina. Em Washington estavam mais interessados em resolver o problema do que
em reconduzir Zelaya à Presidência. Mas essa não foi seguramente a atitude do
Governo brasileiro, que interpretou mal os factos no terreno, tendo permitido
que Zelaya tomasse residência na sua embaixada em Tegucigalpa (Zelaya tinha
sido expulso das Honduras mas regressou vários dias depois) e chegando a opor-
se às tentativas do líder da Costa Rica, Oscar Arias, para resolver a situação.
Quaisquer que fossem os motivos para as suas acções, tornava-se perfeitamente
claro que Lula e o Brasil tinham começado a exercitar os seus músculos
políticos na região e que não se coibiam de desafiar a política norte-americana
e os seus interesses.
A AGENDA BILATERAL ESTADOS UNIDOS-BRASIL
O Brasil e os Estados Unidos têm uma longa história de cooperação bilateral. De
um modo geral, as relações entre os dois países têm sido boas, caracterizando-
se raramente pelo confronto, mas seria sem dúvida um exagero afirmar que existe
uma parceria entre estes dois países. Têm sido apresentadas diferentes
perspectivas para explicar o relacionamento actual. Segundo alguns sectores, o
antiamericanismo está bem entranhado no Itamaraty e existe uma afinidade
ideológica entre os seus pontos de vista e os que os representantes do PT
defendem. Outros, no entanto, vêem o problema como uma questão de má
interpretação. O antigo embaixador Rubens Barbosa, por exemplo, afirma que a má
vontade manifestada pelos Estados Unidos em reconhecerem o Brasil como um
agente global dificulta a cooperação entres os dois países23. Talvez, por outro
lado, os políticos norte-americanos tenham hesitado em aceitar o Brasil como
uma potência global porque isso forneceria àquele país maior influência na mesa
das negociações. As várias administrações norte-americanas têm, sem dúvida,
enfatizado a importância de aprofundar os laços com o Brasil, e a maioria dos
académicos que escrevem sobre estes temas exprimem o seu forte apoio no sentido
de estabelecer uma parceria entre os dois países. Mas sentem-se muitas cautelas
e hesitações. Uma análise da política externa e dos documentos de segurança da
Administração Obama sugere que os políticos norte-americanos não estão seguros
das intenções dos brasileiros. A palavra «desconfiança» vem ocasionalmente à
superfície em conversas informais com membros do Governo. Um dos mais notórios
e activos defensores do envolvimento multifacetado dos Estados Unidos é Thomas
Shannon, o actual embaixador no Brasil (e antigo secretário de Estado adjunto
para os Assuntos do Hemisfério Ocidental durante os últimos anos da
Administração Bush), que defende que a arena bilateral é fundamental para o
desenvolvimento das relações Estados Unidos-Brasil24.
Vamos agora avaliar a cooperação Estados Unidos-Brasil em diversos domínios em
que ambos os países têm (ou parecem ter) uma convergência de interesses: a luta
contra o narcotráfico, a energia e o incremento das trocas comerciais.
LUTA CONTRA O NARCOTRÁFICO
O Brasil reconhece que o narcotráfico representa uma séria ameaça à sua
estabilidade externa e doméstica. Um influente diplomata brasileiro fez notar
que esta é uma questão que «se está a tornar uma questão de Estado [e] requer
uma política de Estado»25. Do mesmo modo, os Estados Unidos estão cientes da
ameaça transnacional que os estupefacientes representam para os interesses
norte-americanos, a nível interno e regional. O Governo dos Estados Unidos tem
seguramente dedicado enormes somas e tem utilizado um amplo capital político
nos seus esforços no combate ao tráfico de droga. Na origem da percepção
partilhada pelo Brasil e pelos Estados Unidos acerca das ameaças à segurança
que os narcóticos representam está a ideia de que a cooperação entre os dois
países é essencial para estabilizar a região e para reduzir as ameaças que a
produção de estupefacientes e o seu tráfico implicam dentro e fora das suas
fronteiras nacionais. Os Estados Unidos e o Brasil são os maiores consumidores
de cocaína no hemisfério ocidental, e durante a última década o Brasil tornou-
se um ponto central para a produção e para a distribuição de drogas26. A
colaboração entre os dois países tem incluído o
«fornecimento à polícia brasileira de formação básica e avançada na
luta contra o narcotráfico; o apoio a programas alargados de detecção
de narcóticos e de interdição nos portos de ar e de mar brasileiros;
o aumento dos contingentes e das capacidades das Unidades Especiais
de Investigação [da Polícia Federal do Brasil] e a garantia para as
polícias de países cooperantes da região um papel mais preponderante
nas suas operações; o auxílio ao Estado e aos governantes locais no
combate aos grupos criminosos que controlam o tráfico de narcóticos e
de armamento nas suas jurisdições; a ajuda às autoridades brasileiras
no combate à lavagem de dinheiro e a outros crimes financeiros e o
aumento do apoio [dos Estados Unidos] às organizações não
governamentais [brasileiras] na prevenção do uso de drogas e em
programas de desintoxicação»27.
Se as actividades dos Estados Unidos noutras zonas da região se concentram na
interdição e na erradicação, o programa bilateral procura implementar as
capacidades policiais. Esta cooperação tem sido bem-sucedida porque os Estados
Unidos auxiliam as forças brasileiras em vez de interferirem directamente na
política brasileira de luta contra a droga. Os esforços de colaboração no
combate à droga já apresentaram resultados importantes. O Brasil tem confiscado
grandes quantidades de drogas ilegais anualmente e deteve operadores de dois
importantes cartéis no espaço de apenas três anos. Em 2008, «a polícia federal
brasileira apreendeu 18 toneladas métricas de cocaína, 514 quilos de base de
cocaína, 430 quilos de crack, 128 toneladas métricas de marijuana, 12 quilos de
heroína, 125.706 doses unitárias de ecstasy e 95.653 doses unitárias de LSD»28.
Para além disso, a Polícia brasileira, em trabalho conjunto com as autoridades
norte-americanas, apreendeu mais de 700 milhões de dólares em bens do cartel
colombiano Norte del Valle29. Estes resultados comprovam a colaboração activa
entre as autoridades dos dois países na luta contra o tráfico de droga. No
mesmo sentido podemos referir o acordo de cooperação militar Estados Unidos-
Brasil, de 2010 (o primeiro desde o Governo militar da década de 1970), cujo
objectivo é incrementar a capacidade brasileira para dominar o seu território e
auxiliar no controlo das fronteiras.
ENERGIA
A energia é outro domínio em que os dois países têm cooperado efectivamente e
no qual as relações poderiam ser mais aprofundadas. Os Estados Unidos e o
Brasil são os dois maiores produtores de etanol do mundo, assegurando mais de
75 por cento da produção mundial bruta30. Os presidentes Lula e Bush
reconheceram a convergência de interesses neste âmbito quando assinaram um
acordo que estimula uma maior cooperação entre o Brasil e os Estados Unidos no
sector do biocombustível31. Os Estados Unidos mostraram um grande interesse
(sobretudo depois do derrame de petróleo no golfo do México) em desenvolver
fontes de energia alternativa no século XXI, e uma das vertentes desta
estratégia é o incremento da produção de etanol. Trata-se de uma área em que o
Brasil é um produtor muito mais eficaz, estando dotado de uma melhor infra-
estrutura e de uma melhor rede de distribuição do que os Estados Unidos32.
Segundo o estipulado no acordo, os dois países concordaram em trabalhar
«bilateral e multilateralmente para criar um padrão internacional para os
biocombustíveis», para aumentar «os benefícios económicos e relacionados com a
segurança energética decorrentes da produção de biocombustível para aquele
hemisfério» e para coordenar a «cooperação técnica e promover Investigação e
Desenvolvimento» nestas áreas33. O documento vê na cooperação no domínio dos
biocombustíveis um factor-chave para forjar uma relação mais forte entre os
dois países. Em vez de se centrar em factores de divergência, como as taxas
norte-americanas sobre o etanol brasileiro (que são um péssimo exemplo de
proteccionismo e deveriam ser revogadas), este memorando de acordo realça as
perspectivas de cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil no domínio do
etanol como um pilar do seu relacionamento bilateral. Para uma Administração
Obama ansiosa por implementar uma parceria energética com a região da América
Latina, este memorando representa uma importante plataforma.
Contudo, os biocombustíveis não são a única área relacionada com a energia em
que os dois países podem alcançar um acordo bilateral. O Brasil é agora
completamente auto-suficiente no capítulo da energia e tornou-se recentemente
um exportador de petróleo bruto. A exploração agressiva de petróleo nas
proximidades de costa levou os especialistas a preverem que as reservas de
petróleo brasileiras podem atingir os 80 mil milhões de barris34. Actualmente,
os Estados Unidos são o maior comprador de petróleo brasileiro, com uma
estimativa de 32 por cento da totalidade das remessas35. Se as descobertas de
petróleo apontadas forem tão grandes como o que se prevê, o estabelecimento de
um bom relacionamento assente nas questões energéticas com o Brasil permitiria
que os Estados Unidos diversificassem a sua dependência geográfica de petróleo.
O Brasil, por outro lado, poderia colher importantes benefícios pelo facto de
ter um grande cliente tão perto de si. Com o Brasil a tornar-se um exportador
de petróleo mais relevante (já para não mencionar a auto-suficiência que
atingiu) e assumindo que a dependência americana em relação ao petróleo
estrangeiro ainda vai durar mais algum tempo, pode-se afirmar que uma forte
relação bilateral assente na energia beneficiaria sem dúvida os dois países.
COMÉRCIO
Mesmo que o Brasil e os Estados Unidos sejam importantes parceiros comerciais e
mesmo tendo participado activamente em diversas rondas de negociações globais,
os dois países não conseguiram até agora alcançar um acordo bilateral para o
comércio. Numa recente reunião com Thomas Shannon, o ministro brasileiro dos
Negócios Estrangeiros, Celso Amorim, expressou o desejo de estabelecer um
acordo que melhorasse as relações comerciais e de investimento com os Estados
Unidos36. Alguns analistas defendem que o alinhamento Sul-Sul do Brasil desviou
o país do comércio com os Estados Unidos, mas na verdade os Estados Unidos são
um dos mais importantes parceiros comerciais do Brasil (embora tenham sido
ultrapassados pela China em 2010). As autoridades brasileiras estavam
particularmente preocupadas com o declínio de 42 por cento nas exportações para
os Estados Unidos em 2009 e têm-se esforçado por encontrar formas de recuperar
o terreno perdido. Esta atitude tem certamente colhido o apoio da comunidade
empresarial brasileira, e Walter Barral, secretário do Comércio no Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, está inteiramente de acordo37.
Após o insucesso da proposta da ALCA, os Estados Unidos redireccionaram a sua
estratégia geral para a negociação de acordos bilaterais e subregionais. Embora
haja bons motivos para os Estados Unidos e o Brasil procurarem alcançar
melhores relações comerciais, existe um conjunto de questões que geram tensões
no relacionamento bilateral. Uma delas é a inexistência de um acordo bilateral
de impostos para facilitar o comércio e o investimento. Outra é que os Estados
Unidos proporcionam subsídios substanciais ao seu sector agrícola além de terem
um rígido sistema de taxas no que diz respeito às importações de etanol
brasileiro. Estas barreiras contra os produtos brasileiros, elaborados de forma
mais eficiente e com menos custos, prejudicam os consumidores norte-americanos
e também impedem o desenvolvimento de uma relação mais positiva entre os
Estados Unidos e o Brasil. Os subsídios agrícolas norte-americanos foram uma
séria fonte de desacordo durante a ronda de negociações de Doha, a ponto de, em
2004, o Brasil ter apresentado (e ter ganho) à Organização Mundial de Comércio
(OMC) um pedido de resolução de litígio devido aos subsídios norte-americanos à
produção de algodão. Os Estados Unidos não tiveram êxito ao interpor o recurso,
e o Brasil invocou o seu direito de aplicar sanções às importações norte-
americanas porque Washington não respeitou a resolução da OMC38. Mas os Estados
Unidos também têm a sua quota-parte de queixas acerca do Brasil sobre questões
de comércio. A maioria prende-se com a protecção de direitos de propriedade
intelectual, a respeito dos quais o Brasil foi incluído numa lista de
observação. Os progressos nesta área têm sido lentos, mas os dois lados criaram
um mecanismo consultivo bilateral e um Diálogo Comercial Estados Unidos-Brasil
numa tentativa de reduzir as tensões neste domínio39.
O RELACIONAMENTO ESTADOS UNIDOS-BRASIL E O HEMISFÉRIO
Os Estados Unidos e o Brasil partilham valores comuns e têm objectivos
semelhantes, assentes no desejo de estabilidade regional e na promoção de uma
melhor governação do seu hemisfério. Em termos objectivos, isto deveria
melhorar as perspectivas de convergência de interesses. Na V Cimeira das
Américas (2009), o Presidente Obama reiterou o seu empenho em juntar-se à
América Latina para promover o crescimento e a estabilidade através de uma
parceira e de uma cooperação igualitárias com os restantes países40. O Brasil
pode desempenhar um importante papel no desenvolvimento dos parâmetros desta
estratégia de cooperação, forjando desse modo uma relação mais aprofundada com
os Estados Unidos.
Existe um conjunto de domínios em que é possível estabelecer novas cooperações
Estados Unidos-Brasil. A primeira envolve projectos de infra-estruturas. O
Brasil fundou diversos projectos desse tipo através da IIRSA e do BNDES,
incluindo a construção de pontes e estradas que o ligam aos seus vizinhos, bem
como outras iniciativas sociais no interior do país41. Esta nova «diplomacia do
poder social» ajudou o Brasil a estabelecer uma presença mais activa na
região42. A IIRSA concentra-se em projectos de integração que ligam o Brasil
aos seus vizinhos e melhoram a rede de transportes regional através da
construção de novas pontes e estradas, aumentando a capacidade e a eficiência
energética e, em certa medida, a comunicação. O Brasil gastou mais de 700
milhões de dólares em 500 projectos através da IIRSA. Pela sua parte, o BNDES
providenciou créditos para o Caminho-de-Ferro Transandino, que passa pelo Chile
e pela Argentina, assim como o projecto de via fluvial Hidrovia, que converterá
os rios Paraná e Paraguai num canal de navegação industrial43. A IIRSA
contribuiu para a imagem positiva do Brasil como um país líder que pretende
fundar iniciativas regionais vantajosas para todas as partes. Os Estados Unidos
deveriam cooperar nestas iniciativas porque melhorariam as infra-estruturas
latino-americanas e beneficiariam o comércio regional, o que reduziria as
necessidades de apoios norte-americanos ao desenvolvimento na região.
Uma outra forma de expandir a cooperação reside no aprofundamento de laços
entre a sociedade civil e económica nos dois países. O Brasil passou por
importantes transformações nos últimos vinte anos, sendo de destacar o
desenvolvimento de uma sociedade civil e de um sector privado de activos,
informados e influentes. Estes grupos participam cada vez mais nas tomadas de
decisão relacionadas com a política externa e desempenham um importante papel
como motores do processo de integração regional. E podem comprometer-se com os
seus pares norte-americanos e desenvolver uma maior cooperação entre os Estados
Unidos e o Brasil44. Alcides Costa Vaz defendeu um ponto de vista semelhante,
argumentando que «a sociedade civil, em todas as suas manifestações, é, assim,
chamada cada vez mais a transformar-se num agente activo da formação e da
execução da política externa brasileira»45. As iniciativas conjuntas entre os
agentes económicos e os da sociedade civil não só contribuiriam para o
desenvolvimento social e económico na região, como também aprofundariam os
laços entre os dois países e as suas respectivas sociedades. Ambos os países
poderiam, sem dúvida, promover trocas culturais e académicas mais intensas.
Estas poderiam incluir intercâmbios de estudos no estrangeiro entre estudantes
americanos e brasileiros, tal como o estabelecimento de parcerias académicas
entre universidades. Os programas da embaixada norte-americana em Brasília,
como o Youth Ambassadors e a Comissão Fullbright também poderiam ser
fortalecidos. Para além disso, ambos os países poderiam levar os seus grupos da
sociedade civil a tomarem mais contacto e a empreenderem projectos de
colaboração centrados na integração racial e na educação.
Uma área particularmente importante da cooperação Estados Unidos-Brasil diz
respeito à manutenção da paz a nível internacional, em especial no caso do
Haiti46. O Brasil foi um dos principais fornecedores de ajuda humanitária no
rescaldo do sismo do Haiti em 2010, e a sua liderança na Missão das Nações
Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah)47 foi vital para a capacidade
de resposta de emergência após o terramoto48. O Brasil também desempenhou um
papel preponderante na tomada de decisões na Conferência de Montreal sobre as
ajudas à reconstrução do Haiti, reforçando a sua liderança regional e o seu
empenho. Os Estados Unidos manifestaram o seu total apoio às forças da Missão
das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) na região e
salientaram a importância de se trabalhar lado a lado com os brasileiros. Tal
como a secretária de Estado, Hillary Clinton, afirmou: «Estamos a trabalhar
para apoiar [a Minustah], e não para a suplantar. De facto eles têm lá estado
há anos, têm um comando e controlo já estabelecido, têm um profundo
conhecimento da comunidade no sentido mais amplo. Por isso estamos a ser muito
ponderados acerca da forma como podemos apoiá-los.»49
A cooperação entre o Brasil e os Estados Unidos no Haiti tem tido um efeito
positivo no relacionamento entre os dois países. O reconhecimento norte-
americano do papel das forças da Minustah e o respeito pelo seu envolvimento no
Haiti demonstra o desejo de cooperar e de partilhar o fardo sem afastar os
outros cooperantes.
CONCLUSÃO
As relações entre os Estados Unidos e o Brasil exigirão adaptação,
flexibilidade e boa vontade se quiserem avançar para lá da simples convergência
em questões bilaterais específicas ou da cooperação em fóruns multilaterais. Os
dois gigantes do hemisfério ocidental não têm um relacionamento próximo e as
suas elites da política externa e da defesa têm desconfianças mútuas. Os
últimos vintes anos assistiram a uma cooperação limitada e a um crescimento das
divergências. É provável que estas continuem e talvez até se venham a
intensificar nas próximas décadas. À medida que os Estados Unidos se foram
envolvendo cada vez menos na América Latina, com a consequente perda de
influência, o Brasil foi implementando uma ambiciosa estratégia para alargar a
sua influência por toda a região. Após a sua chegada ao poder em 2003, a
coligação brasileira nacionalista de esquerda prosseguiu uma estratégia de
equidistância em relação aos principais actores globais, estratégia essa que
alargou ainda mais o seu espaço relativamente aos Estados Unidos.
No entanto, não devemos esquecer que o Brasil e os Estados Unidos partilham, de
facto, profundos interesses na América Latina, que é a sua zona natural de
influência e envolvimento. A manutenção da estabilidade política na região e o
estímulo do crescimento económico são os valores comuns mais importantes, e
serão mais facilmente alcançados se o Brasil e os Estados Unidos cooperarem e
desenvolverem uma relação de trabalho mais próxima. Na actualidade, o Brasil é
um actor global e regional com uma democracia consolidada, instituições sólidas
e um firme consenso acerca das suas políticas económicas, fiscais e sociais. As
administrações de Fernando Henrique Cardoso e de Lula lançaram os alicerces
para esta ascensão brasileira e tudo indica que sob a liderança de Dilma
Rousseff esta trajectória ascendente continuará, assim como a necessidade de
cuidar do relacionamento entre os dois países.
Um maior envolvimento económico e cultural entre o Brasil e os Estados Unidos
constitui o corolário fundamental para o aprofundamento das relações políticas.
Sem o desenvolvimento de um conjunto de laços coeso será impossível alcançar
uma parceria mais robusta. E no entanto, por mais coerentes que sejam as
estratégias ou por mais bem orientadas que sejam as iniciativas, estas não hão-
de prosperar se os líderes dos dois países não encontrarem formas de se
adaptarem às sensibilidades um do outro. Os governos do Brasil e dos Estados
Unidos têm ambos uma noção bem definida dos seus interesses nacionais e das
suas prioridades. Para o Brasil um objectivo primordial é o desenvolvimento de
meios para defender os seus interesses e o seu território sem pôr em risco as
relações com os seus vizinhos. E aqui a bacia do Amazonas surge no horizonte em
toda a sua extensão e importância. Cobrindo um território com mais de 3,8
milhões de quilómetros quadrados, com vastos recursos naturais, é uma área
sobre a qual o Estado brasileiro tem tido dificuldade em manter um controlo
firme. O Amazonas está envolto em significado ambiental global, o que leva
alguns brasileiros a perguntar-se se os esforços de outros países para
«internacionalizar» os problemas da região não representam uma tentativa
indirecta de enfraquecer a soberania brasileira e de assegurar uma fatia dos
recursos naturais da Amazónia. A coroar este sentimento de vulnerabilidade está
o facto de o Brasil partilhar mais de 16 mil quilómetros de fronteiras com dez
países. O Brasil tem disputas com alguns dos seus vizinhos acerca dos limites
fronteiriços mas com outros o problema é o controlo do fluxo transfronteiriço
de drogas e de contrabando. O Brasil tem preocupações semelhantes acerca da
protecção das suas enormes jazidas de petróleo nas suas águas territoriais.
Estes aspectos explicam por que motivos o Brasil procura desde há muito
desenvolver uma indústria de armamento independente, assinando acordos
preferenciais com os países que estão dispostos a ajudá-lo a tornar-se
militarmente auto-suficiente. É também por esse motivo que o Brasil se irrita
perante o controlo de transferência de tecnologia que os Estados Unidos exercem
sobre as suas transacções de armamento. Assim, os brasileiros preferem gastar
12 mil milhões de dólares no avião francês Rafale em vez de optarem pelo
(talvez tecnicamente superior) F/A 18A Super Hornet.
O comércio é outra área sensível a respeito da qual os brasileiros salientam
frequentemente o valor das taxas, que consideram injustas, e outras restrições
que os Estados Unidos impõem aos seus produtos agrícolas.
Mas também há sensibilidades no lado norte-americano ' e devem ser tidas em
conta se se pretender que o relacionamento entre ambos seja reforçado.
«Desconfiança», como já fizemos notar neste artigo, é uma palavra que surge com
frequência nas conversas informais com os políticos norte-americanos quando se
discutem as relações com o Brasil. Os norte-americanos não estão muito seguros
das intenções brasileiras e receiam que um dos pilares centrais da sua «grande
estratégia» seja a afirmação da liderança regional reduzindo a influência dos
Estados Unidos na região e criando instituições regionais das quais os Estados
Unidos sejam excluídos. Restam poucas dúvidas de que alguns membros da
coligação nacionalista de esquerda do Governo brasileiro acarinham esse
objectivo, mas os custos desse plano não devem ser subestimados. Talvez os
países da América Latina partilhem o desejo de afirmarem a sua independência
relativamente aos Estados Unidos, mas estão longe de estarem preparados para
aceitar a ascensão de outra potência hegemónica ou para deixarem de lado velhas
divergências para pôr em prática um projecto comum regional.
As limitações do Mercosul e de outros exemplos de integração subregional fazem
ver os terríveis obstáculos nacionais e institucionais que impedem a realização
de um projecto continental. Para além disso, o exercício da liderança é
dispendioso e pode facilmente provocar reacções nacionalistas contra o Brasil.
Será apenas uma questão de tempo para que as simples objecções latentes à
liderança brasileira se tornem mais explícitas no seio do hemisfério.
Mais do que adoptarem uma estratégia de enfraquecimento do outro país,
aumentando assim a tensão no hemisfério, o Brasil e os Estados Unidos deveriam
(re)definir o seu lugar na América Latina do século XXI alargando a sua
cooperação. Esta estratégia, benéfica para ambas as partes, resultaria em
vantagens mútuas e, em última análise, contribuiria para o desenvolvimento e a
prosperidade daquela região do Globo.
Tradução: Jorge Filuzeau Garcia