Este século não foi fascista: Salazar, Franco e a efémera nova ordem
internacional nazi-fascista
Este século não foi fascista. Salazar, Franco e a efémera nova ordem
internacional nazi-fascista
Bruno Cardoso Reis
Licenciado e mestre em História (Faculdade de Letras de Lisboa). Tem o mestrado
em Historical Studies pela Universidade de Cambridge (2003). É doutor em
Segurança Internacional (War Studies, King's College) desde 2008, e a sua tese
sob o título Big Armies and Small Warsdeverá ser publicada durante o próximo
ano. Em 2007, publicou Salazar e o Vaticano, que recebeu os prémios Vítor de Sá
e Aristides de Sousa Mendes. É actualmente investigador no ICS'UL e
investigador associado do King's College; sendo membro do CEHR'UCP, do IISS e
da APCP.
Manuel Loff
«O Nosso Século É Fascista!» O Mundo Visto por Salazar e Franco (1936-1945).
Porto, Campo das Letras, 2008, 956 páginas.
Este é um grande livro em termos de tamanho, estende-se por quase mil páginas '
o que revela uma coragem, de assinalar, da editora Campo das Letras ' e também
em ambição. O autor previne o leitor, no entanto, de que, infelizmente, esta é
ainda assim uma versão amputada do texto original, da qual retirou,
nomeadamente, discussões aprofundadas de metodologia e bibliografia (p. 9).
Seria efectivamente interessante perceber melhor qual a metodologia comparativa
adoptada, e nomeadamente o porquê da selecção destes dois casos; e, também,
qual o critério de selecção das fontes usadas. Até porque o autor
frequentemente aponta variados casos de colaboração com a nova ordem nazi como
muito relevantes para os seus argumentos, desde a Finlândia, à França de Vichy,
da Suíça à Croácia dos ustachas. Porquê então ficar-se, no essencial, por
Portugal e Espanha? Por outro lado, o papel central, como fontes da obra, de
textos de diplomatas enviados à Alemanha nazi ou de ideólogos dos regimes
ibéricos levanta a questão de saber até que ponto não seria natural esperar
destes que fossem, tendencialmente, mais favoráveis à aproximação do regime
português e espanhol com o Estado nazi alemão.
Tendo em conta o vasto texto que nos é dado em forma de livro, nada melhor do
que recorrer ao próprio autor para sintetizar com um mínimo de rigor os
principais temas da obra referindo os títulos de sucessivos capítulos: «As
ditaduras ibéricas na nova ordem eurofascista»; «Os pressupostos ideológicos»;
«História e Império»; «Saneamento político da Europa»; «A nova ordem como
corolário da evolução recente europeia»; «Do projecto à prática: a construção
da nova ordem»; «Perante a colaboração e a resistência», terminando com «Várias
conclusões».
Desta ambiciosa listagem temática fica claro que Manuel Loff foi bem além
daquilo que o título da obra parecia apontar como seu objectivo: apresentar a
visão do mundo de Salazar e Franco no quadro da discussão sobre o impacto do
fascismo na Europa. Ora, se o autor se cinge ao período referido no título '
desde o início da Guerra Civil de Espanha até ao final da II Guerra Mundial
(1936-1945) ', quer nas temáticas abordadas, quer nas fontes utilizadas, vai
muito para além do que seria necessário e desejável, caso pretendesse comparar
a forma como Salazar e Franco viam o mundo exterior.
O que faz então Loff com tão ampla base documental? O autor tem uma escrita
barroca, o que, a par da dimensão da obra, nem sempre permite discernir uma
linha condutora clara. Mas o que vai ficando como ideia de força ao longo da
obra é que Loff pretende avançar com uma abordagem revisionista da história da
relação entre as duas ditaduras ibéricas, de Salazar e de Franco, e a nova
ordem internacional do regime nazi. Loff prenuncia-se também sobre a natureza
desta e as múltiplas especulações que gerou por toda a Europa.
Este revisionismo da obra é consequência de uma avaliação negativa da maioria
das obras existentes na historiografia ibérica relativamente à natureza dos
regimes de Salazar e Franco, bem como à sua relação com o regime nazi. Essa
deficiência da literatura histórica resulta, do ponto de vista do autor, da
ignorância dos arquivos alemães, da falta de perspectiva comparativa e também
de parti prisideológicos (pp. 50-69)
1
.
Salazar e Franco convergindo com Hitler
Qual é então, em síntese, a novidade desta vasta obra? Loff vai assinalando, no
meio de um apreciável manancial de informação ' com algumas significativas
hesitações e qualificações ' uma tese alternativa à dominante que consiste no
essencial em amalgamar os dois regimes ibéricos numa adesão optimista à nova
ordem nazi, mesmo que se vá assinalando que tal é mais claro no caso do regime
de Franco do que de Salazar. Loff parece ver este relacionamento como sendo
essencialmente mimético, de imitação do nazi-fascismo pelos dois regimes
ibéricos. Loff considera ainda que esta ideia define, no essencial, o regime de
Franco e Salazar não só neste período dos anos 1930 e 1940, visto por muita
historiografia como algo fascizante (mais em Espanha do que em Portugal), mas
também nas décadas subsequentes. Ou seja, para Loff a aparente vitória nazi
entre 1940-1941 terá sido o momento revelador definitivo da verdadeira natureza
dos regimes salazarista e franquista, e não uma oportunidade para sectores mais
pró-nazis e pró-fascistas de regimes autoritários compósitos procurarem ganhar
terreno. Considera ainda Loff que esta matriz ideológica comum é fundamental
para perceber uma política externa de colaboração activa com o regime nazi (pp.
17-50).
Um exemplo das qualificações que tornam a argumentação por vezes algo paradoxal
é a afirmação da necessidade de não confundir ideologia com prática (p. 902).
Mas, se é assim, então qual é a relevância da ideologia em que o estudo foca a
sua atenção? Simples retórica vazia? Qual é afinal a sua relação com a prática
política? Ora o autor logo na página seguinte (p. 903) oferece uma lista de
pontos de convergência ideológica e prática entre os regimes ibéricos e os
regimes que o autor considera pertencerem à esfera nazi-fascista. Mas se a
questão anterior é deixada em aberto, então o leitor poderá perguntar o que
importa o maior ou menor alinhamento ideológico de Salazar ou Franco com o
nazi-fascismo?
É o lado mais inovador e revisionista da obra de Loff convincente? Não creio
que o seja inteiramente. Loff adopta uma postura de advogado de acusação. Um
advogado suficientemente honesto para dar alguma voz à outra parte. Mas a sua
argumentação fica assim enfraquecida quando procura encarrilar a «prova» no
sentido de uma acusação que no essencial consiste em dizer que os regimes de
Franco e de Salazar se revelaram favoráveis à vitória nazi na guerra na Europa
quando esta pareceu inevitável. O que se passou nesta época não foi, portanto,
uma adaptação a uma determinada conjuntura na política externa, com reflexo nos
equilíbrios de poder dos diversos sectores das ditaduras ibéricas e na sua
organização, como se verificou pós-1945, antes foi o momento da verdade que
deixou uma mancha indelével que marcou a real natureza dos regimes ibéricos
como nazi-fascistas (pp. 32-34, 57-59 passim).
Ora, à luz de elementos e fontes do próprio Loff não é convincente a amálgama
dos dois regimes ibéricos. Não é convincente a ideia de uma participação de
ambos na nova ordem nazi. A fraqueza da tese de Loff é sobretudo evidente no
caso de Portugal, que seria onde o livro teria mais de inovador face às teses
dominantes. Pois a ideia de um sério desejo de alinhamento de Franco com Hitler
é bem conhecida e geralmente aceite, e o mito pós-II Guerra Mundial, de um
caudilloengenhosamente a inventar dificuldades e exigências para não entrar na
guerra ao lado da Alemanha nazi não é convincente para a maioria dos
historiadores
2
.
É difícil levar a sério a ideia de um Estado Novo português aderente entusiasta
de uma nova ordem nazi, quando o segundo conde de Tovar, um testemunho
considerado fundamental por Loff, e o máximo representante diplomático de
Portugal na Alemanha nazi, começa o seu extenso relatório sobre «A Ordem Nova»
de 15 de Novembro de 1941 afirmando que não lhe teria sido possível manifestar
adesão de espécie nenhuma pois «ainda não encontrei em Berlim um único alemão
que se prestasse a discutir francamente comigo a Ordem Nova»
3
!
Loff não tem, por outro lado, em devida conta na pesagem dos argumentos dos
relatórios deste diplomata português em Berlim ' a que dá tanta importância ' o
facto de Tovar ter simpatias ideológicas pela Alemanha nazi e ter sido enviado
para Berlim precisamente por poder cultivar boas relações com esta grande
potência em ascensão, e portanto ter de se considerar até que ponto nos seus
testemunhos não tenderá a exagerar os pontos de entendimento, presentes e
futuros, entre os regimes de Hitler e Salazar.
Que o optimismo de Tovar não era o único ponto de vista, fica evidente não só
nos ofícios dos politicamente bem mais importantes representantes de Portugal
em Londres, Armindo Monteiro, e em Madrid, Teotónio Pereira, mas também num
longo estudo produzido no seio do coração da diplomacia portuguesa, no próprio
Ministério dos Negócios Estrangeiros, também sobre o tema de uma nova ordem das
potências totalitárias em que sublinha que esta «não se nos afigura de molde a
garantir uma paz duradoura [ ] salvo se essas Potências se decidirem a exercer
de facto uma absoluta soberania sobre todo o continente», o que, evidentemente,
significaria que os «pequenos países» como Portugal estariam «destinados a
desaparecer», pelo que «as minhas conclusões não me levam a concluir que a
organização vá por diante» (pp. 599-600). Como é que Loff pode falar deste
estudo como manifestando «ambiguidade» face a uma Ordem Nova nazi é algo que
não percebemos.
Tanto mais que o próprio Salazar dá uma resposta muito significativa ao
palavroso relatório de Tovar sobre a nova ordem nazi ' em carta a Tovar ',
considerando que não valia muito a pena especular sobre qual será a nova ordem
na Europa, pois «seja qual for a potência vencedora» ela irá procurar esse
reordenamento. Salazar está longe portanto da confiança cega na vitória do Eixo
que Loff parece creditar. E, por outro lado, para melhor se perceber as
concepções de Hitler remete para o Mein Kampfcomo explicitando os termos da lei
do mais forte na vitória a que Hitler aderiria. Salazar rejeita, portanto, a
assimilação de Tovar da Ordem Nova nazi à velha cristandade, até porque «a
unidade moral da Europa se perdeu» e antes a ela presidia o Papa
Para Salazar o problema fundamental é que uma ordem uniforme do tipo da que
aparece esboçada por Tovar a partir das acções nazis terá de ser imposta, e
embora os estados não sejam realmente todos iguais, e todos igualmente livres,
ainda assim a soberania e a liberdade «existem» nos limites do possível.
Portanto, para Salazar a questão vital reside em saber «como vão salvar-se
nessa obra [i.e. Ordem Nova] a personalidade, a independência, a liberdade dos
Estados europeus? A pergunta é angustiante, a resposta pode ser catastrófica».
É que, continua Salazar, «a obsessão do sistema, da ordem externa, da
uniformidade, do domínio tanto do carácter alemão, pode ser ruinoso para a
independência e originalidade das nações europeias». Recorda Salazar a «teoria
da raça, o emprego da violência, as repressões indiscriminadas que se afiguram
desumanos, o desconhecimento, quando necessário, dos direitos alheios» como
pontos que justificavam as suas preocupações e que levavam a que se refira a
Hitler em termos de que «por esse lado nenhuma garantia de segurança ou
tranquilidade» se poderá encontrar. E concluía mostrando evidente preferência
por uma nova ordem inglesa, pois caso a Grã-Bretanha prevalecesse na II Guerra
Mundial com a ajuda dos Estados Unidos, a tradicional moderação e pragmatismo
inglês «oferecem só por si alguma garantia»
4
.
Hitler, fundador de uma nova ordem europeia?
A obra de Loff debate-se em vão com este problema adicional: a nova ordem
internacional desejada por Hitler apenas tinha um ponto absolutamente claro ' o
total predomínio da Alemanha nazi e da raça superior, e a ausência de quaisquer
compromissos sólidos a priori em relação a quem quer que fosse e sobre o que
quer que fosse antes de vencida a guerra.
Claro que Mussolini, e os líderes da Hungria e da Bulgária, e mesmo,
eventualmente, da Roménia, conseguiram concessões territoriais; a Croácia e a
Eslováquia viram ser-lhes concedido formalmente um Estado independente. Mas
como o decurso da II Guerra mostrou, em última análise, Hitler não estava
disposto a aceitar realmente alianças com outros estados independentes, apenas
relações de fidelidade hierárquica. Quando pressionado por Mussolini e diversos
outros líderes de regimes pró-alemães a responder à Carta do Atlântico (1941),
onde Churchill e Roosevelt se afirmavam como defensores da independência dos
estados europeus, Hitler recusou terminantemente
5
.
Este ponto é particularmente relevante no que diz respeito a Franco e ao seu
regime, que bem procuraram que Hitler se definisse e fizesse firmes concessões
a Espanha de um novo império em África, a expensas sobretudo da França. Mas
Hitler sempre se recusou a tal, excepto relativamente a Gibraltar. Loff parece
considerar este facto secundário, valorizando sobretudo o entusiasmo dos
fascistas espanhóis com uma nova ordem internacional em que finalmente o seu
país teria de novo o estatuto de grande potência e os territórios que nessa
qualidade lhe eram «devidos». Loff alude mas nunca lida verdadeiramente com um
problema que está na base da enorme dificuldade, ou mesmo impossibilidade, de
construir uma ordem internacional ' ou seja, comportando vários estados ' nazi-
fascista a partir de 1939, que resultava do facto de as várias correntes
políticas de extrema-direita que mimetizaram com maior ou menor empenho ou
sucesso o modelo fascista e nazi em diferentes países também elas abraçarem uma
ideologia política ultranacionalista de expansionismo imperialista. Esse é o
caso da Espanha de Franco, mas não só. Ora, além de Hitler não desejar
comprometer antecipadamente futuros despojos de guerra alemães, ser-lhe-ia
impossível, mesmo que o quisesse, reconciliar todos estes imperialismos de
aliados ideologicamente zelosos, mas desejosos de construir grandes estados
imperiais que não aceitavam outra lei que não a da força. O cerne do problema
era que o mundo não era suficientemente vasto para satisfazer tantas ambições
de expansão imperial em competição. Por exemplo, Hitler não podia manter um
império colonial francês muito útil como subordinado à Alemanha nazi, e ao
mesmo tempo oferecer boa parte desses territórios, como desejava Franco, a uma
Espanha fraca, que seria incapaz de os conquistar ou defender face aos
britânicos e norte-americanos.
Os limites da ideologia e do revisionismo
E esta temática leva-nos ao ponto fundamental na análise da obra de Loff, e que
diz respeito à forma como o autor situa Salazar e Franco neste contexto.
Em 1940, Franco estava, como Loff e muitas obras mostram, desejoso de entrar na
II Guerra Mundial ao lado do vitorioso Hitler. Fica também claro mais uma vez
neste livro que muitos dos que o rodeavam esperavam fazê-lo por razões
ideológicas ' nomeadamente o mais fascista dos seus ministros, Serrano Suñer,
que tinha uma agenda expansionista externa, mas também considerava o
alinhamento na guerra com o regime nazi como essencial para poder levar a cabo
uma agenda interna de plena fascização do regime espanhol. Mas o que fica assim
demonstrado é precisamente que o regime de Franco era menos ideologicamente
uniforme ou absolutamente determinado do que Loff parece afirmar.
Afinal, se, em última análise, Franco fosse o fascista puro e duro que Loff
parece querer oferecer-nos, então deveria ter alinhado totalmente com Hitler. A
simpatia ideológica e a ambição imperialista inegavelmente turvaram durante
alguns anos a visão externa de Franco, levando-o, até muito tarde, a dar por
adquirida uma vitória de Hitler e de Mussolini. Mas, em última análise, na
ausência de uma ajuda militar significativa e de um compromisso territorial
claro quanto a um novo grande império espanhol por parte de Hitler ' que este
recusou na Cimeira de Hendaia com Franco em Outubro de 1940, e nas démarches
que se lhe seguiram ', Franco optou por ficar de fora da guerra, enviando
apenas uma ajuda simbólica para combater a URSS, e mesmo esta foi retirada
quando a derrota da Alemanha pareceu inevitável. Portanto, apesar das
convergências ideológicas entre o franquismo de guerra e o fascismo e nazismo,
havia limites realistas no campo das decisões de política externa a essa adesão
ideológica de Franco, e o regime espanhol foi por isso bem mais pragmático,
adaptável e durável do que o de Hitler ou Mussolini.
Salazar era conhecido pela sua admiração pública por Mussolini, e não negava
que estava ideologicamente mais próximo dos regimes fascistas europeus do que
das democracias liberais. No entanto, ainda mais claramente do que no caso de
Franco, Salazar explicitou repetidamente, quer na sua correspondência privada e
diplomática, quer em discursos e textos públicos (inclusive publicados em
francês evidentemente para informação das elites internacionais), as diferenças
pragmáticas e ideológicas com a Itália e a Alemanha. Salazar via-se como parte
de uma vaga de novas ordens no campo político, mas estas eram e deviam ser
plurais e nacionais. Não deixa de espantar, no entanto, que numa obra tão vasta
e tão atenta a fontes públicas e publicadas, à propaganda e não apenas à
diplomacia ' uma importante mais-valia da obra ' não tenhamos encontrado
qualquer referência, sequer na bibliografia, por exemplo, à tradução francesa,
em 1937, pela Flammarion, dos discursos de Salazar, com um prefácio do conde
belga Maeterlink ' um intelectual público que se via e era visto como hostil à
Alemanha nazi ' a ponto de ter fugido para Portugal aquando da invasão nazi ',
e com uma introdução escrita pelo próprio fundador do Estado Novo em que este
clarifica as diferenças com as ideologias nazi e fascista com as quais aceita
que existem «certas semelhantes» mas rejeita como abusiva uma assimilação, uma
«confusão» de uns e outros
6
.
É estranho também que Loff não dê relevância ao discurso perante a Assembleia
Nacional em que Salazar situou oficialmente Portugal perante «A Europa em
guerra», em 1939, e que evidentemente constituiu um compromisso público muito
sério, e como tal foi tratado pelas diplomacias das potências beligerantes e
não só. Nele, Salazar deixou não só absolutamente claro o seu compromisso
formal com a aliança da Grã-Bretanha ' a que, pode-se argumentar, estaria
diplomaticamente obrigado ', como até reservou uma palavra de reveladora
simpatia pelo heroísmo da fraca Polónia invadida pelo forte Hitler! Nesse
discurso afirmou também em termos cristalinos a recusa de determinar a sua
política externa em função da sua ideologia política interna:
«algumas pessoas as preocupa, sobretudo, saber as consequências que
da guerra advirão para as democracias ou para os regimes de
autoridade, e por aí determinam os seus íntimos desejos. Atrevo-me a
dizer que a questão é indigna de nós: primeiro, porque só os povos
que não sabem governar-se é que estão à espera de saber como os
outros se governam [ ]; segundo, porque ou nesta guerra se não
discute nada ou estão em jogo problemas de tal transcendência que a
seu lado parece trágica ou ridícula a preocupação de situações
políticas. [ ] foi bem dura a experiência de se complicarem os
problemas da vida internacional com a formação de blocos ideológicos
e com prevenções acerca dos regimes internos dos Estados, e seria
desesperar da salvação reincidirem no erro»
7
.
Na realidade, Salazar e outros membros da elite do Estado Novo preocuparam-se
com o impacto no regime de uma vitória total dos Aliados, sobretudoquando neles
se passou a incluir a URSS a partir de 1941. Mas isto está longe de significar
que desejassem uma vitória da Alemanha nazi, pelo temor do que isso
significaria para a independência dos pequenos estados europeus como Portugal,
mesmo que Salazar não afastasse a necessidade de ter de se chegar a alguns
compromissos com uma Alemanha vitoriosa.
Porém, foi constante na diplomacia portuguesa durante a II Guerra Mundial não
só a afirmação da vontade de ficar de fora do conflito europeu, como a de que a
entrar nela seria necessariamente ao lado da Grã-Bretanha.
Independentemente da velha aliança, era aliás da Royal Navy, e da cada vez mais
poderosa Marinha norte-americana, que poderia vir uma ameaça imediata à maioria
dos territórios portugueses ' europeus, insulares e africanos. Um ponto
interessante que Loff documenta é precisamente o facto de que mesmo os adeptos
da beligerância espanhola ao lado de Hitler, como foi o caso da então estrela
emergente, e futuro almirante, Carrero Blanco, estarem cientes desses riscos
marítimos, que no caso da Espanha significariam a inevitável perda das Canárias
e da Guiné Espanhola para os britânicos (p. 631).
No caso de Portugal, quando a ameaça terrestre alemã passou de remota a mais
próxima, com a surpreendente derrota da França em 1940, a opção seguida por
Salazar foi ' como a historiografia documentou com base em abundantes fontes '
a de, conjuntamente com a Grã-Bretanha, fazer todos os esforços para manter a
Espanha fora da guerra, como tampão de Portugal.
Relativamente ao caso da Espanha, a aversão do homem de confiança de Salazar em
Madrid, Pedro Teotónio Pereira, pelo mais germanófilo ministro espanhol '
Serrano Suñer ' está bem documentada. E se Teotónio Pereira até oferece bases
para a tese de Loff, e de boa parte da historiografia recente, relativamente à
aproximação da Espanha ao Eixo, fá-lo na sua correspondência com Salazar em
termos tais que mostram a impossibilidade de aplicar a mesma tese a Portugal.
Ao escrever, em Setembro de 1939, Teotónio Pereira manifesta «cada vez [ ] mais
apreensão sobre as ideias do Generalíssimo». Ora, o que é que lhe causa tanta
preocupação? Refere que em várias conversas com membros de confiança da elite
franquista «todos concordaram que a Alemanha passara as marcas da tolerância e
que a Itália se encontra em posição desgraçada», mas em relação a Franco,
Teotónio Pereira concluía: «acho-o um homem estranho e muito deslumbrado pelas
ideias do eixo»
8
.
É possível defender que Salazar foi, em certa medida, um adepto do appeasement
entre a Grã-Bretanha e Hitler, como afirma Loff (p. 602). Mas, precisamente por
isso, o ditador português nunca foi um adepto ou seguidor de uma nova ordem
europeia nazi ' pois precisamente o apaziguamentotinha como pressuposto que
haveria certas cedências que permitiriam alcançar um limite negociado e
razoável à expansão alemã que apaziguaria Hitler. E importa ainda notar que
mesmo na medida em que Salazar o era, não deixava de o ser com receio de que
algum acordo de divisão da esfera de influências entre a Grã-Bretanha e a
Alemanha pudesse ser feita à custa do império colonial português.
Também nos parece evidente e normal que os homens do regime se preocupassem com
o seu futuro numa Europa dominada não tanto pela Grã-Bretanha, mas mais pelos
Estados Unidos e a pela URSS. Que houve algum receio destas duas últimas
potências é inegável; o que é notável e notório, no entanto, é que o maior
temor de Salazar e dos seus mais próximos colaboradores no campo da política
externa fosse relativamente à Alemanha nazi, e não apenas por razões
geopolíticas mas também ideológicas, por a estes homens conservadores assustar
o revisionismo extremamente violento e insaciável de Hitler.
Nem século fascista, nem relações internacionais
Desmentindo o título do livro, o último século não foi fascista. Não o foi
porque o nazismo e o fascismo perderam. Não o foi porque nunca chegou
verdadeiramente a existir uma ideia clara de uma nova ordem europeia fascista
na mente de quem a poderia ter implementado ' Hitler.
Um dos factos fundamentais do século XX foi precisamente o facto de a vaga
fascista que a partir de 1922 varreu parte da Europa, com um aspecto
irresistível a dado momento, ter sido tão brutal nos resultados quanto limitada
cronologicamente, tão ambiciosa quanto confusa e desorganizada, tão
violentamente implementada quanto resistida, tão desastrosa quanto contrária às
tradições das relações internacionais na Europa.
Muito embora o fascismo e o nazismo tenham influenciado ou condicionado outros
regimes autoritários de direita, os reais movimentos-partidos de tipo nazi-
fascista raramente, se é que de todo, se afirmaram no poder pelos seus próprios
meios, sem a intervenção militar de Mussolini e Hitler. Ora, em Portugal,
Salazar dominou, apoiando-se na corrente militar republicana conservadora a
partir de 1928. Em Espanha, Franco tomou o poder à frente de um exército
vitorioso na guerra civil de 1936-1939, com o apoio militar de Hitler e
Mussolini, mas ainda limitado pelo contexto geopolítico, e o suporte da
Falange, mas também de outras correntes políticas.
Hitler prometeu um grande império alemão de pelo menos mil anos, mas o seu
período de expansão, embora impressionante na sua dimensão, durou apenas entre
1938 e 1942! Este carácter efémero da preponderância nazi-fascista ' na
verdade, essencialmente nazi ' é secundarizado na análise de Loff, que se
concentra em tentar tornar claro, nítido e duradoiro aquilo que nunca o foi.
Nunca houve uma nova ordem nazi-fascista na Europa, apenas uma expansão militar
nazi assente num imperialismo racista liderado por Hitler, que aceitou por
razões de conveniência aliados vários.
Quanto à contribuição de Loff para o estudo das relações internacionais neste
período, ela não existe, visto que é o próprio autor que explicitamente rejeita
este tipo de abordagem. Loff considera até as relações internacionais e a sua
influência nas obras históricas que se debruçaram sobre estes temas como algo
nefasto. Porquê? Loff identifica ainda as relações internacionais com uma
versão do realismo clássico determinista e dominado pela Realpolitik e a
geopolítica (pp. 53-54). O que impede que o seu trabalho seja enriquecido com
as abordagens diversificadas de uma quantidade de outras correntes de
pensamento que têm animado o campo das relações internacionais nas últimas
décadas, nomeadamente sobre a sempre complexa relação entre ideologia e
política externa.
Em alguns pontos importantes estamos de acordo com Loff. Desde logo na sua
insistência na importância de uma abordagem comparativa e numa maior utilização
de fontes de diversos estados ' a começar pela Espanha, sendo o autor um dos
nossos estranhamente raros hispanistas. Neste caso, um bom conhecimento das
fontes alemãs poderá ser particularmente importante para futuros
aprofundamentos destas temáticas (p. 61)
9
. Duvidamos muito, no entanto, que tais investigações futuras resultem numa
visão fundamentalmente diferente quanto ao alinhamento de Salazar em qualquer
nova ordem nazi
10
.
Outro ponto de concordância com Loff tem a ver com o seu justificado sublinhar
de que as ideias, e nomeadamente a sua cristalização ideológica, têm
importância na política externa, e não podem ser reduzidas apenas às correntes
políticas mais extremistas e portanto mais claramente visíveis; a própria ideia
de que a política externa deve ser determinada pelo interesse nacional, bem
assim como a forma como este último é concebido, não deixa de transportar uma
componente ideológica.
Há, em conclusão, que notar que na medida em que Loff avança com uma tese nova,
é para acentuar um estreito alinhamento ideológico e uma amálgama da Espanha e
de Portugal com uma Ordem Nova nazi-fascista, o que nos parece pouco ou nada
convincente.
Há também, no entanto, que elogiar o autor pela coragem do seu trabalhoso
empenho na história comparada, ainda pouco praticada pela historiografia
ibérica. Há que admirar o enorme trabalho de recolha de fontes.
Porém, se é certo que Salazar foi um ditador, como o foram Hitler e Franco,
também é claro que nem todos os ditadores são iguais, não partilham
necessariamente a mesma ideologia, ou a mesma política externa. O Portugal
autoritário do Estado Novo adoptou uma política externa essencialmente
pragmática que ditava um alinhamento prioritário ' cuidadosamente gerido ' com
a Grã-Bretanha, de acordo com uma visão de Salazar das relações internacionais
que assentava na Realpolitik e na geopolítica, e num conservadorismo partilhado
com as elites britânicas mais à direita. Loff, ao não valorizar devidamente
estes pontos na sua abordagem, como se eles não fossem suficientemente
ideológicos, acaba por nem contribuir para uma melhor compreensão da acção
externa do Estado Novo, nem ser capaz de fazer avançar a sua tese de uma
ideologia nazi-fascista comum prevalecendo ' apesar das qualificações ' acima
de tudo na política externa da Espanha e de Portugal.
Notas
1
No entanto, é alvo de crítica também a obra de LEITZ, Christian ' Nazi Germany
and Neutral Europe during the Second World War,Manchester: Manchester U.P.,
2000, que não sofre nem de um, nem de outro destes defeitos.
2
PAYNE, Stanley ' Franco & Salazar: Spain, Germany, and World War II,New
Haven: Yale UP, 2008, pp. 90 e segs.
3
Relatório Min. Berlim (Tovar) para MNE (Salazar) [15.11.1941], Dez Anos de
Política Externa (1936-1947): A Nação Portuguesa e a Segunda Guerra
Mundial,Lisboa: MNE, 1974, Vol. X, Doc. 2561, pp. 59-69
4
Carta do PC e MNE (Salazar) para Min. Berlim (Tovar) [30.11.1941], Dez Anos de
Política Externa (1936-1947): A Nação Portuguesa e a Segunda Guerra
Mundial,Lisboa: MNE, 1974, Vol. X, Doc. 2546, pp. 144-169.
5
MAZOWER, Mark ' Hitler's Empire: Nazi Rule of Occupied Europe,Londres:
Penguin, 2009, pp. 356-362.
6
SALAZAR, Oliveira ' «Préface...», Une révolution dans la paix,Paris:
Flammarion, 1937, pp. XXXVI-XLII.
7
Cf. Discurso PC (Salazar) na AN, «A Europa e a Guerra» (09.10.1939), Dez Anos
de Política Externa (1936-1947): A Nação Portuguesa e a Segunda Guerra
Mundial,Lisboa: MNE/IC-CM, 1970, Vol. IX 1970, p. 118.
8
Carta P T Pereira (Min. em Madrid) a Salazar (PC e MNE) de 28.09. 1939. In
Correspondência de Pedro Teotónio Pereira a Salazar, Mem Martins: CLNRF, 1987,
doc. 89, pp.190-195.
9
No entanto, essa é também uma limitação da obra de Loff, que não consultou os
arquivos alemães, tendo de socorrer-se das fontes traduzidas e publicadas.
Aliás, uma opção que torna a leitura árdua é de não se traduzir citações em
língua estrangeira. Tal poderia justifica-se no que respeita a fontes na língua
original ' mas não faz muito sentido ler fontes alemãs citadas em inglês.
10
Revelação recente, mas confirmando precisamente o temor de Salazar
relativamente à Alemanha nazi é a sua correspondência com Gonzague de Reynold
referida na discussão deste tema em MENESES, Filipe Ribeiro de ' Salazar:
biografia política,Lisboa: D. Quixote, 2010, pp. 259-274.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt