Modelação computacional, ambientes interactivos e o ensino da Ciência,
Tecnologia, Engenharia e Matemática
1. Introdução
A Ciência, a Tecnologia, a Engenharia e a Matemática (CTEM) são estruturas de
conhecimento evolutivas que se encontram profundamente interligadas. Por um
lado, a Ciência organiza-se em torno do progressivo desenvolvimento de
hipóteses, questões e modelos, geradores de teorias, que têm um forte carácter
matemático na medida em que os conceitos, leis e raciocínios científicos são
representados por entidades, relações e raciocínios matemáticos. Por outro
lado, as explicações e previsões da Ciência têm forçosamente de ser
consistentes com os resultados de experiências fiáveis e sistemáticas, que
dependem tanto do progresso tecnológico e industrial como este depende do
desenvolvimento científico e matemático (Chalmers, 1999; Crump, 2002).
O desenvolvimento destas estruturas de conhecimento envolve interacções entre
processos de investigação individuais e colectivos, com características
específicas a cada área, onde as acções de modelação ocorrem num contexto
global de equilíbrio epistemológico entre aspectos teóricos, experimentais e
computacionais. Por outro lado, estas acções de modelação envolvem caminhos
cíclicos que passam por diferentes fases cognitivas, a saber, descrição
conceptual qualitativa em contexto, construção, exploração, interpretação e
validação de modelos matemáticos, apresentação e discussão de resultados, e o
desenvolvimento de aplicações generalizadoras. Neste contexto é necessário
elaborar especificações declarativas e operacionais rigorosas de conceitos
abstractos e das suas múltiplas interconexões (Reif, 2008), um processo que
requer familiarização e reificação (Teodoro, Schwartz & Neves, 2012),
elevada consistência teórico-metodológica e uma precisa relação com os
referentes relevantes, quer no universo real da fenomenologia natural e tecno-
industrial quer em universos matemáticos abstractos.
Naturalmente, este processo de desenvolvimento evolui a partir de estruturas de
conhecimento e cognição criadas para fazer face às experiências da vida
quotidiana. É no entanto claro que esta evolução não é linear e que dela não
resulta uma simples alteração superficial. Com efeito, apesar de
indissociavelmente relacionadas com os fenómenos do mundo real, a base
primordial dos modelos mentais humanos, as estruturas de conhecimento e
cognição da CTEM envolvem quadros conceptuais e metodológicos abstractos que
desafiam o senso comum do conhecimento de todos os dias e tornam difíceis os
correspondentes processos de ensino e aprendizagem.
Para que seja possível reflectir todas as diferentes dimensões do conhecimento
científico, tecnológico-industrial e matemático, os ambientes, currículos e
recursos de aprendizagem devem por isso estruturar-se em torno de metodologias
pedagógicas baseadas nos processos de modelação da investigação (Hestenes,
2006; National Research Council, 1989). A aprendizagem significativa (Valadares
& Moreira, 2009) deve então ocorrer quando os estudantes realizam, sempre
com o acompanhamento e apoio dos professores, actividades interactivas que
efectuem explorações epistemologicamente equilibradas dos ciclos de modelação.
No entanto, é um facto que, mesmo em países tecnologicamente avançados e apesar
dos muitos estudos já realizados, a maior parte dos cursos não manifesta esta
gama de características epistemológicas, um problema que é transversal aos
níveis de Ensino Básico, Secundário e Superior. De um modo geral, estes cursos
não são capazes de mostrar aos estudantes como actualmente se desenvolvem as
diferentes actividades científicas, tecno-industriais e matemáticas, originando
com frequência opiniões negativas que contribuem para o aumento do insucesso
escolar. Um exemplo ilustrativo neste contexto são os tradicionais cursos de
Física Geral que habitualmente se incluem nos dois primeiros anos dos programas
curriculares do Ensino Superior. Estes cursos organizam-se em torno de aulas
teóricas expositivas, aulas laboratoriais e de resolução de problemas baseadas
em receitas, e envolvem programas curriculares que cobrem superficialmente
muitos tópicos introdutórios de Física. Nestes cursos as taxas de sucesso nos
exames são baixas e muitos estudantes acabam por conseguir passar apesar de
possuírem apenas um conhecimento insuficiente e fragmentado da matéria dada
(Halloun & Hestenes, 1985a, 1985b; McDermott, 1991). Para além de serem
considerados difíceis, estes cursos são também bastante desmotivantes para os
alunos, conduzindo a uma crescente deterioração das expectativas que têm em
relação à Física (Redish, Saul & Steinberg, 1998).
Que este problema pode ser tratado implementando metodologias pedagógicas
baseadas nos processos de investigação profissionais é uma expectativa que tem
vindo a acumular sucessivas provas científicas em diversas áreas (Handelsman et
al., 2005; McDermott & Redish, 1999; Meltzer & Thornton, 2012). Com
efeito, nos vários contextos destes esforços de investigação foi possível
mostrar que os processos de aprendizagem efectivamente melhoram quando os
estudantes se inserem em ambientes com actividades que de uma forma aproximada
recriam o envolvimento epistemológico-cognitivo das acções de investigação
profissionais. Ao contrário do que tem sucedido com o ensino tradicional, que
acaba por induzir aprendizagens passivas com acumulação automatizada de
conhecimento fragmentado de factos ou regras, estas metodologias revelaram-se
mais capazes de motivar os estudantes para processos de aprendizagem
significativa de carácter interactivo e investigativo, que se mostraram mais
adequados para promover o conhecimento performativo e para resolver conflitos
cognitivos gerados por crenças de senso comum ou ideias científico-matemáticas
incorrectas.
Um aspecto fundamental no âmbito destas metodologias pedagógicas é que desde
cedo se procure equilibrar a integração de actividades de modelação
computacional (Ogborn, 1994). Com efeito, nos actuais processos de investigação
associados às diferentes áreas da CTEM, a modelação computacional, entendida
como modelação com conhecimentos e tecnologias computacionais, é tão importante
nestes processos como a modelação teórica ou experimental, pois permite acções
de investigação com cada vez mais aperfeiçoadas e poderosas capacidades de
cálculo, exploração, visualização, simulação e validação.
A introdução de actividades de modelação computacional focou-se inicialmente na
exploração das potencialidades das linguagens de programação, como por exemplo
o Fortran (Bork, 1967), o Pascal (Redish & Wilson, 1993), o Logo (Papert,
1980) e o Boxer (di Sessa, 2000). Embora esta abordagem tenha evoluído, por
exemplo, para o Java (Gould, Tobochnik & Christian, 2007) e para o Python
(Chabay & Sherwood, 2008), permanece um facto que exige dos estudantes
conhecimentos operacionais de programação, uma tarefa que dificulta
principalmente o processo de aprendizagem de matérias científicas e
matemáticas. O mesmo acontece com a utilização de sistemas profissionais de
computação como o Mathematica ou o Matlab. Para reduzir a carga cognitiva
associada à programação, particularmente pesada nos níveis introdutórios, e
assim criar condições mais favoráveis para processos de modelação exploratórios
e expressivos (Bliss & Ogborn, 1989; Schwartz, 2007) foram desenvolvidos
vários sistemas de modelação computacional, por exemplo, o Dynamic Modelling
System (Ogborn & Wong, 1984), o Stella (Richmond, 2004), o Coach (Heck,
Kadzierska & Ellermeijer, 2009), as Easy Java Simulations (EJS) (Christian
& Esquembre, 2007), o Modellus (Neves, Neves & Teodoro, 2013; Teodoro
& Neves, 2011) e as simulações Physlet (Christian & Belloni, 2004) e
PhET (Wieman, Perkins & Adams, 2008).
Apesar dos importantes progressos realizados, o conhecimento e as tecnologias
computacionais, bem como os ambientes de aprendizagem baseados na natureza
epistemológica e cognitiva da investigação, não estão ainda devidamente
integrados nas práticas correntes dos vários níveis de ensino das diferentes
áreas da CTEM. Este é um problema que envolve desafios de desenvolvimento
teórico-curricular, tecnológico e organizativo cuja resolução depende
criticamente da capacidade de inovação e da sustentabilidade desses mesmos
processos de inovação política, social e económica das diferentes estruturas
que definem os sistemas educativos. A estratégia pedagógica e de investigação-
acção que propomos, e temos procurado implementar, para melhorar esta
integração baseia-se no cíclico desenvolvimento e teste de currículos com
actividades de aprendizagem interactivas que equilibrem a inclusão de
experiências de modelação computacional exploratória e expressiva (ver, e.g.,
Neves et al., 2013; Neves, Silva & Teodoro, 2010, 2011; Neves &
Teodoro, 2010, 2012; Teodoro & Neves, 2011). Neste artigo apresentamos uma
discussão desta estratégia e dos resultados da sua implementação, começando na
Secção 2 com os principais aspectos teóricos que procuramos ter em conta e
relacionam conhecimento, cognição, computadores e as aprendizagens na CTEM. Na
Secção 3 discutimos os elementos metodológicos e organizativos que consideramos
modelares para todas as áreas disciplinares da CTEM. Na Secção 4 ilustramos com
uma sequência de exemplos no âmbito da Física criados no ambiente Modellus. Na
Secção 5 apresentamos as nossas conclusões, contextualizadas nos resultados das
acções implementadas em vários cursos do Ensino Superior.
2. Conhecimento, cognição, computadores e os processos de aprendizagem na CTEM
Como vimos, o desenvolvimento das estruturas de conhecimento da CTEM é um
processo cognitivo, com aspectos particulares a cada área, que envolve
interacções entre processos de investigação individuais e colectivos, onde as
acções de modelação ocorrem num contexto global de equilíbrio epistemológico
entre aspectos teóricos, experimentais e computacionais. Neste processo, é
necessário elaborar definições operativas rigorosas de conceitos abstractos e
das conexões que existem entre estes conceitos, para conseguir construir
modelos ou teorias com explicações e previsões que, sem ambiguidades, sejam
consistentes com experiências fiáveis e sistemáticas. Neste contexto, são
fundamentais os processos de definição, interpretação e validação, que envolvem
familiarização e reificação conceptual e operacional, elevada consistência
teórico-metodológica e uma precisa relação com os referentes relevantes, quer
no universo real da fenomenologia natural e tecno-industrial quer em universos
matemáticos abstractos.
Estas estruturas de conhecimento e cognição estão assim relacionadas mas são
simultaneamente muito diferentes das estruturas de senso-comum utilizadas nas
acções do dia-a-dia, mesmo quando estas últimas incluem fragmentos de carácter
científico, tecnológico-industrial ou matemático, como é o caso das estruturas
em formação dos estudantes. Uma importante barreira cognitiva que então surge
nos processos de aprendizagem resulta da necessidade de distinguir com clareza
conceitos e raciocínios diferentes que só aparentemente são semelhantes. Um
exemplo envolve o conceito de força, simultaneamente útil para o senso-comum e
para a Física. No contexto quotidiano, força é um conceito que se refere a algo
que pode causar ou impedir uma certa acção ou mudança.
Directamente relacionado com causalidade é frequentemente identificado com os
conceitos de energia ou potência, e categorizado como matéria e não como
processo (Gupta, Hammer & Redish, 2010). Está também relacionado com
raciocínios proporcionais intuitivos do tipo mais força implica maior dano ou
mais força implica menos mudança, que são exemplos de estruturas de
conhecimento irredutíveis ou primitivas fenomenológicas (diSessa, 1993). No
âmbito da Física também se podem encontrar as mesmas primitivas mas o conceito
de força está ontologicamente associado a um processo de interacção com um
significado físico-matemático preciso no contexto das leis de Newton da
mecânica clássica.
Esta aparente semelhança entre muitos conceitos e raciocínios do senso comum e
do conhecimento científico, tecnológico-industrial e matemático é geradora de
conflitos cognitivos que são, por um lado, oportunidades de aprendizagem
significativa e, por outro, quando não resolvidos, focos de persistentes
dificuldades que se acumulam e fragmentam o conhecimento. O exemplo seguinte
também no âmbito da Física é ilustrativo.
Num carrossel circular com 6 m de diâmetro uma criança com 10 kg senta-se a 2 m
do centro. Noutro carrossel idêntico senta-se uma criança com 40 kg a 1 m do
centro. Os carrosséis são postos em movimento circular uniforme com a mesma
velocidade angular . Seja E1a energia cinética de rotação do carrossel com a
criança de 10 kg e E2a energia cinética do carrossel com a criança de 40 kg. Se
não houver dissipação de energia E1 e E2são as energias que é necessário
despender para colocar os sistemas em rotação com velocidade angular w. Nestas
condições, qual das seguintes cinco opções é verdadeira? (1) E1=E2/4, (2)
E1=4E2, (3)=E1=E2/2, (4) E1=2E2, (5)E1=E2. Uma linha de raciocínio de senso
comum esperaria que o carrossel com a criança de 40 kg fosse mais difícil de
pôr a rodar por ser mais pesado e assim ser necessária mais energia para o pôr
em movimento.
No entanto, de acordo com as leis da Física esta não é a resposta correcta. Se
é certo que seria de facto mais difícil empurrar o sistema mais pesado ao longo
de uma linha recta, neste caso o que acontece é que é igualmente difícil pôr a
rodar o carrossel nas duas situações, ou seja, E1=E2. Para uma pessoa que
aplica a linha de raciocínio de senso comum esta situação parece paradoxal e
cria um conflito cognitivo. Para resolver este conflito é necessário
compreender a aplicação das leis de Newton à dinâmica das rotações,
concretamente neste exemplo, saber distinguir entre massa e momento de inércia,
uma grandeza que depende da massa e da distribuição da massa no interior do
sistema. De notar que quando esta questão foi colocada num teste diagnóstico a
163 alunos de Física de um curso de Engenharia Informática da FCT/UNL apenas
10% respondeu correctamente, tendo a maior parte escolhido uma das respostas
coerentes com a linha de raciocínio de senso comum.
É importante notar também que os conflitos cognitivos não resultam apenas de
conflitos com raciocínios de senso comum. Na investigação científica, por
exemplo, podem também surgir na sequência de raciocínios baseados em modelos ou
teorias que não são válidas, constituindo-se então simultaneamente como
barreiras e oportunidades de evolução. Por exemplo, no século XIX Maxwell
desenvolveu as equações que descrevem a dinâmica clássica de campos
electromagnéticos. Uma das previsões fundamentais destas equações é que a luz é
uma onda electromagnética que se propaga com uma rapidez constante , na altura
medida igual a cerca de 300000 km/s. Quando Hertz conseguiu produzir ondas de
rádio o resultado foi interpretado como evidência experimental a favor das
equações de Maxwell e da existência de um meio designado por éter onde se
propagavam as ondas. Apesar dos resultados das experiências de Michelson-Morley
e da descoberta das transformações de Lorentz, só depois de 1905 com o
estabelecimento da teoria da relatividade de Einstein é que a crença no éter
foi abandonada (Gibert, 1982). Mais tarde, porém, antes de tomar conhecimento
dos resultados das observações astronómicas de Hubble em 1929, Einstein não
conseguiu libertar-se da crença num universo estático e em 1917 introduziu um
novo termo associado a uma constante cosmológica para impedir a expansão do
espaço-tempo universal prevista pelas equações que tinha desenvolvido. Em 1931
Einstein abandonou a constante cosmológica aceitando definitivamente a expansão
do universo revelada pelas observações de Hubble e pelos modelos cosmológicos
propostos por Friedmann em 1922 e Lemaître em 1927. No entanto, em 1998 as
equipas de Perlmutter e Riess observaram supernovas em galáxias longínquas e
mostraram que o universo se encontra em expansão acelerada, renovando o
interesse em modelos que envolvem a constante cosmológica (Weinberg, 2008) e no
seu enquadramento no contexto das teorias de campo multidimensionais com
membranas que procuram unificar a teoria da relatividade geral de Einstein com
a física quântica de campos e partículas do Modelo Standard (Dine, 2007;
Kubyshin, Neves & Potting, 2002; Mansfield & Neves, 1996; Neves, 1997,
2007; Neves & Vaz, 2003).
Estes exemplos mostram bem que o estabelecimento de novos conceitos, modelos ou
teorias e a consequente adaptação das estruturas de conhecimento é um difícil
processo cognitivo, quer no âmbito da investigação profissional quer no âmbito
dos processos de aprendizagem. Este processo envolve uma progressiva
familiarização, que clarifica o que é diferente e o que é comum e,
simultaneamente, reificação das novas estruturas abstractas que então se
encaram e manipulam como realidades cognitivas objectivas e concretas (Teodoro
et al., 2012). Por outro lado, envolve também o desenvolvimento de novas
metáforas ontológicas (Gupta et al., 2010), fortemente dependentes do contexto,
que não só permitem sequências de raciocínio mais eficazes como também uma
compreensão mais profunda de conceitos e processos.
No âmbito das acções de modelação profissionais este processo de evolução
esteve sempre associado ao desenvolvimento de instrumentos científicos (Crump,
2002), como por exemplo, o microscópio, o telescópio e o computador. Os
processos de aprendizagem devem por isso procurar definir estratégias de
utilização destes instrumentos científicos que sejam cognitiva e
epistemologicamente equilibradas, tendo em vista o acompanhamento do rápido
desenvolvimento do conhecimento científico, tecnológico-industrial e
matemático. Neste contexto, o computador (entendendo computador como uma
designação genérica que inclui também tabletspara além de todo o tipo de
computadores fixos e portáteis) é um exemplo paradigmático pois é um
instrumento cognitivo que tem evoluído no sentido de se tornar cada vez mais
acessível à utilização individual independente e ter maior capacidade para
melhorar os processos de familiarização e reificação.
Com efeito, com o crescente aperfeiçoamento de hardware e software o computador
tem ganho cada vez mais capacidades para ajudar a criar ambientes de
aprendizagem onde as entidades conceptuais abstractas podem ser manipuladas,
operacionalizadas, concretizadas e relacionadas com os respectivos referentes,
no contexto de processos que ocorrem em tempo real no ecrã (Papert, 1980). Com
a introdução de métodos numéricos, o computador tem a potencialidade para
evitar a excessiva e automatizada aplicação de fórmulas analíticas, e focar a
aprendizagem no aprofundamento da compreensão da interconexão entre o
significado qualitativo e a operacionalidade quantitativa. Com o computador e
os métodos numéricos, a análise de modelos mais realistas pode ser iniciada
mais cedo, quando os estudantes ainda não atingiram o nível de desenvolvimento
de conhecimento e cognição adequado aos métodos analíticos relevantes. Esta
análise pode assim ser apropriadamente adiada para níveis de ensino mais
avançados. Por outro lado, os processos de aprendizagem podem utilizar o
computador para explorar com maior eficácia diferentes representações dos
modelos matemáticos, como gráficos, tabelas e simulações, permitindo processos
de modelação exploratórios e expressivos (Bliss & Ogborn, 1989; Schwartz,
2007), o que juntamente com a análise de modelos mais realistas potencia uma
melhor conexão qualitativa e quantitativa com os respectivos referentes, um
elemento cognitivo essencial na tomada de consciência das potencialidades e
relevância destes mesmos modelos. Deste modo, à semelhança do que acontece nas
actividades de modelação profissionais, o computador pode actuar como um
poderoso espelho intelectual para a actividade cognitiva (Schwartz, 1989), uma
função que aliada à sua crescente portabilidade tem claramente o potencial para
favorecer o desenvolvimento dos processos de familiarização e reificação, e
consequentemente, todo o processo de aprendizagem significativa.
3. Modelação computacional interactiva: Metodologia e organização
Como já discutimos os processos de ensino no âmbito da CTEM devem procurar
ajudar os estudantes a construir novo conhecimento através de caminhos
equilibrados que passem por todas as fases relativas às epistemologias e
quadros cognitivos dos vários tipos de processos de modelação profissionais.
Tendo em conta este ponto de partida, a estratégia de modelação interactiva que
propomos envolve a definição de currículos, recursos e ambientes de
aprendizagem, específicos para cada área, que equilibrem com eficácia
actividades de modelação teórica, computacional e experimental, de carácter
individual e colaborativo, ao mesmo tempo que têm em atenção o conhecimento
prévio e as expectativas dos estudantes. Com esta estratégia o objectivo é
desenvolver entre os estudantes melhores processos de familiarização e
reificação, com percepção aprofundada de consistência teórico-metodológica,
conexão significativa com os referentes relevantes, capacidade de criação e
utilização apropriada de metáforas ontológicas, e referências actualizadas ao
contexto histórico relevante para cada área específica.
Nesta secção discutimos os principais elementos do modelo metodológico e
organizativo que utilizamos e consideramos relevantes para todas as áreas
disciplinares e níveis de ensino, incluindo níveis de formação de professores,
no âmbito da CTEM. Este modelo baseia-se num conjunto de abordagens
interactivas já testadas nos EUA (ver principalmente, e. g., Beichner et al.,
2007; Crouch, Watkins, Fagen & Mazur, 2007; Mazur, 1997; McDermott, Shaffer
& Rosenquist, 1996; Novak, Gavrin, Christian & Patterson, 1999).
Adaptações apropriadas deverão ser consideradas em cada contexto específico.
Assim, na nossa estratégia os cursos incluem sempre componentes de âmbito
teórico, computacional e experimental com programas temáticos
epistemologicamente coerentes e interligados. Em todas as componentes o
ambiente de aprendizagem envolve uma atmosfera de colaboração com os estudantes
organizados em grupos, preferencialmente de dois ou três elementos e no máximo
com oito elementos. Em cada aula os grupos trabalham numa sequência de
actividades de modelação constituídas por uma selecção de problemas baseadas em
documentos digitais interactivos.
Estes documentos, em formato PDF e com elementos a 2D e 3D, incluem a
explicação dos conceitos e métodos fundamentais, bem como dos processos de
resolução de exemplos de aplicação, recorrendo a texto, imagens, áudio e vídeo
interactivos, com descrições pormenorizadas de raciocínios sequenciais.
Incluem ainda séries de problemas ou desafios para resolver com diversos graus
de dificuldade. Para aumentar o nível de interactividade e promover
competências de comunicação digitais, os documentos contêm também espaço livre
para que os estudantes possam inserir respostas ou comentários enriquecidos com
recursos multimédia. Os documentos são organizados em estrutura modular para
que os módulos relevantes possam ser utilizados em vários cursos. Naturalmente,
a cada curso específico corresponderá um conjunto específico de documentos,
organizado pelos respectivos professores.
Em cada aula as equipas de estudantes são incentivadas a analisar, discutir e
resolver os problemas propostos nas actividades por si próprios. Importa aqui
frisar que os grupos não devem ser abandonados durante a exploração das
actividades mas sim continuamente acompanhados e apoiados pelos professores de
forma a garantir um ritmo de trabalho adequado com níveis de compreensão
apropriados. Sempre que necessário incluem-se discussões globais para
introduzir novos temas, manter o ritmo, esclarecer dúvidas que sejam comuns a
vários grupos e para apresentações de trabalhos. De notar também que cada aula
é precedida de uma fase de preparação durante a qual os estudantes fazem um
trabalho de casa que é depois discutido durante a aula.
Um aspecto crucial da estratégia que propomos consiste em estabelecer uma
integração epistemologicamente equilibrada do computador, tendo em conta as
potencialidades que tem para melhorar o desenvolvimento dos processos de
familiarização e reificação. Para que isso aconteça a utilização do computador
nas actividades de modelação não se pode limitar à apresentação de textos,
imagens e simulações, ou a um papel de suporte à aquisição e análise de dados.
Com efeito na estratégia que defendemos, o computador deve ser utilizado como
um verdadeiro instrumento cognitivo, que amplifica a capacidade cognitiva dos
estudantes em actividades de modelação computacional interactivas que
introduzam métodos numéricos de computação científica, evitando factores de
sobrecarga cognitiva como demasiadas noções específicas de programação ou
software. Estas actividades são concebidas para (1) explorar os diferentes
tipos de modelação, desde a modelação exploratória à modelação expressiva, (2)
re-velar e resolver conflitos cognitivos relativos a conceitos e processos da
CTEM, (3) promover a manipulação das diferentes representações que se podem
associar aos modelos matemáticos, (3) analisar a interconexão entre as
abordagens analíticas e numéricas e (4) envolver problemas mais realistas que
potenciem um contacto mais profundo entre os modelos e os respectivos
referentes reais. Uma escolha criteriosa de um conjunto de ferramentas
computacionais que seja adaptada à especificidade de cada curso é fundamental
neste contexto. Por exemplo, no âmbito da Física e da Matemática, mas também
das suas aplicações a outras áreas da CTEM como a Biomedicina e as Geociências,
as acções de modelação profissionais exigem conhecimento sobre modelos físico-
matemáticos avançados que são ricos em elementos computacionais. A nível
introdutório, desde o ensino secundário aos dois primeiros anos do ensino
superior, quando as bases de Física, Matemática e Computação ainda se estão a
formar, a aprendizagem deve por isso procurar equilibrar epistemologicamente a
inclusão de sequências de actividades de modelação computacional criadas com
sistemas que dêem aos estudantes a oportunidade de fortalecer o conhecimento
computacional e ao mesmo tempo focar a aprendizagem nos conceitos e processos
científico-matemáticos relevantes.
O Modellus (ver, e.g., Neves et al., 2013; Teodoro & Neves, 2011; e também
a página http://modellus.fct.unl.pt) é um sistema particularmente bem desenhado
para este efeito pois apresenta o seguinte conjunto de vantagens: (1) Uma fácil
e intuitiva criação de modelos matemáticos através da notação matemática usual,
(2) A possibilidade de criar animações com objectos interactivos cujas
propriedades matemáticas estão expressas no modelo, (3) O cálculo e
visualização de quantidades matemáticas obtidas através da análise de imagens e
gráficos, e (4) A possibilidade de explorar simultaneamente várias
representações associadas a modelos matemáticos, como imagens, tabelas,
gráficos e animações.
O Modellus permite assim desenvolver actividades de modelação computacional
exploratórias e expressivas, que podem ser colaborativas e concebidas para
despoletar e resolver conflitos cognitivos relativos à compreensão de conceitos
científicos e matemáticos, para promover a manipulação das diferentes
representações associadas aos modelos e para analisar a interconexão entre as
abordagens analíticas e numéricas. As actividades de modelação com o Modellus
podem também envolver problemas realistas de modo a potenciar um contacto mais
profundo entre os modelos e os respectivos referentes reais, um elemento
cognitivo essencial na tomada de consciência das potencialidades e relevância
dos modelos, necessariamente uma representação idealizada e parcial dos seus
referentes. Como sistema de modelação matemática, o Modellus está
particularmente vocacionado para os níveis de ensino intermédios,
correspondendo aos escalões etários entre os 14 e os 18 anos. No entanto,
dependendo da área da CTEM bem como do tema específico que se pretenda abordar,
actividades adequadas desenvolvidas no Modellus podem ser recursos de
aprendizagem significativamente relevantes quer para alunos mais jovens, entre
os 6 e os 14 anos, quer para alunos mais avançados, até ao final do 1º ciclo de
estudos do ensino superior.
Num processo de aprendizagem que envolva modelação computacional é importante
adquirir conhecimentos algorítmicos distinguindo o significado do algoritmo da
sintaxe associada a diferentes ferramentas de modelação. Neste sentido torna-se
relevante optimizar a utilização de vários sistemas de modelação computacional
de uma forma que efectivamente controle a carga cognitiva associada a noções
operacionais de programação e software. Um exemplo concreto envolveria a
optimização da utilização do Modellus em alternância com as EJS (Christian
& Esquembre, 2007), um sistema complementar relativamente ao Modellus com
um nível de carga cognitiva ligeiramente maior, o Excel, particularmente útil
para a análise de algoritmos e dados, e o Mathematica ou o Matlab, sistemas
mais avançados já ao nível das linguagens de programação mas com vantagens em
termos de computação simbólica. Nas fases conceptuais qualitativas ou semi-
quantitativas as simulações Modellus e EJS podem ser complementadas com
simulações Physlet (Christian & Belloni, 2004) ou PhET (Wieman et al.,
2008). Nos documentos PDF incluem-se instruções detalhadas para construir
exemplos de modelos computacionais nas diferentes ferramentas, e nas séries de
problemas, instruções incompletas, com vários níveis de desafio.
As actividades dos cursos no âmbito da nossa abordagem devem ser baseadas em
plataformas colaborativas como o Moodle, que permitem distribuir de forma fácil
e rápida recursos de aprendizagem e avaliação e facilitar o apoio online ou por
email fora do horário das aulas presenciais. Por seu turno, os processos de
avaliação envolvem avaliação contínua individual e por equipas de trabalho que
são baseadas nas actividades regulares em sala de aula, nos trabalhos de casa e
nos testes ou exames em sala de aula. Os materiais de avaliação recolhidos são
(1) os resultados obtidos pelos estudantes em testes criados na plataforma
Moodle, (2) os trabalhos realizados pelos estudantes nos documentos PDF
interactivos, quer estes sejam realizados nas aulas, durante uma actividade ou
teste, ou em casa, e (3) outros trabalhos e exames regulares manuscritos. No
final dos cursos os estudantes respondem a um questionário com escala de Likert
para avaliar as suas opiniões sobre as aulas e actividades de modelação
computacional que não conta para a nota final. Este questionário é administrado
na sala de aula a todos os estudantes inscritos. Outros testes (como por
exemplo os testes Force Concept Inventory (FCI) (Hestenes, Wells &
Swackhamer, 1992)), questionários ou entrevistas necessários para trabalho de
investigação educacional também não devem contar para a nota final e devem ser
administrados criteriosamente de forma a não perturbar o normal funcionamento
das aulas ou prejudicar os estudantes.
4. Modelação computacional interactiva: Exemplos de Física
Comecemos com um exemplo sobre movimento circular, um tema que num curso de
Física Geral para estudantes de Ciências, Engenharias ou Matemática do 1º ciclo
do Ensino Superior pode ser introduzido depois da abordagem de temas sobre
vectores, cinemática translacional, incluindo movimento relativo, e sobre as
leis de Newton, incluindo exemplos de dinâmica sem rotações que envolvam
soluções analíticas e numéricas simples (Neves et al., 2011; Neves &
Teodoro, 2010, 2012).
Uma partícula em movimento circular descreve uma circunferência de raio R, uma
curva definida por x2+y2=R2 num referencial cartesiano Oxy com a origem
localizada no centro da circunferência. Neste referencial x e y são as
coordenadas cartesianas do vector posição . Este vector tem magnitude Re define
onde a partícula se encontra na curva. Quando a partícula se move ao longo da
circunferência a magnitude R permanece constante mas a direcção de varia com o
tempo t. Esta direcção é definida pelo ângulo que faz com o eixo x. Por
definição R e são as coordenadas polares de . As coordenadas x e ytambém
dependem do tempo e relacionam-se com R e através de funções trigonométricas,
x=Rcos , y=Rsin.
A exploração dos aspectos físico-matemáticos do movimento circular deve
iniciar-se com o movimento circular uniforme. Neste caso a partícula descreve
uma circunferência de raio R em cada intervalo de tempo T, o período do
movimento. O ângulo é então uma função paramétrica que depende linearmente de
t, onde é frequência angular do movimento e é a direcção inicial de . A
velocidade é tangente à circunferência, sempre perpendicular a , e tem
magnitude constante, . A aceleração tem magnitude e é centrípeta.
Com base neste modelo trigonométrico simples os estudantes podem explorar
várias actividades de modelação computacional com o Modellus (Neves et al.,
2011). Para tal basta que construam um modelo matemático que associe as
coordenadas x e y de às correspondentes coordenadas polares R e , tendo em
conta que . Este modelo matemático pode também incluir as coordenadas de e , e
simultaneamente pode ser complementado com gráficos e tabelas que mostrem como
dependem de as diferentes coordenadas de , e , e com animações que permitem a
manipulação dos parâmetros independentes R, T, e e a visualização em tempo
real da trajectória da partícula e dos vectores , e (Neves et al., 2011).
Se o movimento circular for acelerado então já não é constante. Neste caso a
magnitude da aceleração angular define a taxa instantânea de variação de com
o tempo t, . Como temos . Quando é constante obtém-se então . Com estas
expressões de e os estudantes podem agora construir um modelo matemático com
funções trigonométricas para descrever um movimento circular uniformemente
acelerado.
Podem também complementá-lo com gráficos e tabelas das várias coordenadas de ,
e com animações que permitem a manipulação dos parâmetros independentes R, ,
0, , e a visualização em tempo real da trajectória da partícula e dos vectores
, e . Combinando os modelos matemáticos do movimento circular uniforme e do
movimento circular uniformemente acelerado, e explorando as diferentes
representações simultaneamente acessíveis com o Modellus, os estudantes podem
analisar uma corrida entre dois corredores.
Um desafio concreto seria, por exemplo, resolver o seguinte problema (figura
1): Um corredor parte da posição (R, 0) para percorrer uma circunferência de
raio R=80 m em cada 60 s. Passados 20 s, um segundo corredor parte do mesmo
ponto com velocidade angular inicial nula e uma certa aceleração angular
constante. Qual o valor da magnitude desta aceleração quando o primeiro
corredor é alcançado 50 s depois do segundo corredor partir? Neste instante
determine, para ambos os corredores, a velocidade, a aceleração e a resultante
das forças aplicadas, supondo que ambos têm massa igual a 70 kg. Com esta
actividade de modelação computacional interactiva os estudantes podem reforçar
os conhecimentos físico-matemáticos já adquiridos sobre o movimento circular.
Por exemplo, podem mostrar que no movimento circular uniformemente acelerado a
velocidade continua a ser um vector tangente à trajectória agora com magnitude
v=R, onde , e que a aceleração passa a ter uma componente tangencial com
magnitude , para além da componente centrípeta com magnitude (Fig._1). Na
animação do Modellus estes vectores podem ser associados a cada um dos
corredores (representados por partículas) em movimento e visualizados em
simultâneo com a trajectória circular (Fig._1). Por outro lado, os gráficos de
v, eem função do tempo tpodem também ser desenhados em tempo real. Os
estudantes têm assim a oportunidade de explorar diferentes valores dos
parâmetros do modelo matemático ou de corrigir eventuais erros visualizando de
imediato o efeito das alterações efectuadas na animação e nos gráficos ou
tabelas.
Quando não é constante a solução analítica da equação pode não ser fácil de
obter. Torna-se então vantajoso aplicar métodos numéricos simples como o método
de Euler ou método de Euler-Cromer (ver, e.g., Neves et al., 2013; Neves et
al., 2010; Neves & Teodoro, 2010, 2012). O desafio seguinte é ilustrativo
neste contexto e envolve uma actividade sobre a dinâmica rotacional de um corpo
rígido, numa situação em que cada partícula executa um movimento circular em
torno de um eixo de rotação fixo (Neves et al., 2010). Uma barra com 1 m de
comprimento roda em torno de um eixo que lhe é perpendicular e passa por uma
das suas extremidades. Quando efectua 7 revoluções por segundo a energia
cinética de rotação K é 2 kJ. Como w=14p rad/s o momento de inércia I é igual a
2.1 kg∙m2. Suponha que a aceleração angular da barra é dada por (t)=-t2+3t e
que no instante inicial a velocidade angular é rad/s. Construa um modelo que
aplicando o método de Euler-Cromer permita calcular (t), K(t) e (t). Depois,
utilizando os respectivos gráficos e valores tabelados, determine (1) O
instante em que e K se anulam, e o valor de nesse instante, (2) O instante em
que volta a ser zero, e os valores de , e K nesse instante. A Fig._2 mostra
uma solução para este desafio que permite a exploração de valores diferentes
para os parâmetros do modelo matemático bem como várias funções (t) .
5. Conclusões
Neste artigo, apresentámos uma estratégia de modelação computacional
interactiva para melhorar o equilíbrio epistemológico-cognitivo dos processos
de aprendizagem da CTEM, uma estratégia pedagógica e de investigação-acção que
se baseia no cíclico desenvolvimento e teste de currículos com actividades de
aprendizagem interactivas que equilibrem a inclusão de experiências de
modelação computacional exploratória e expressiva. Como exemplos ilustrativos
considerámos uma sequência de actividades de Física sobre movimento circular e
dinâmica rotacional desenhada para estudantes de Ciências, Engenharias ou
Matemática do 1.º ciclo do Ensino Superior.
Desde 2008, estas e outras sequências de actividades de modelação computacional
interactiva criadas em ambiente Modellus foram testadas durante a implementação
da nossa estratégia nos cursos de Biofísica e Física IB do Mestrado Integrado
em Engenharia Biomédica e no curso de Física da Licenciatura em Engenharia
Informática da FCT/UNL, bem como no curso de Meteorologia e Climatologia que
envolveu estudantes de várias licenciaturas da Faculdade de Ciências e
Tecnologia da Universidade do Algarve (FCT/UAlg), concretamente, Arquitectura
Paisagista, Engenharia do Ambiente, Ciências do Mar e Biologia (Neves et al.,
2013; Neves et al., 2010, 2011; Neves & Teodoro, 2010, 2012; Teodoro &
Neves, 2011).
Como mostraram os resultados médios retirados dos questionários com escala de
Likert, e consistentemente desde 2008, a maioria dos estudantes reagiu
positivamente às actividades de modelação computacional interactiva (Fig._3 e
4; Neves et al., 2013; Neves et al., 2011). No questionário os estudantes
assinalavam a sua opinião em relação a um conjunto de afirmações, utilizando
uma escala de Likert de - 3 a + 3, onde - 3 significava estar em
completo desacordo e + 3 estar completamente de acordo, representando os
restantes valores negativos (-2 e -1) desacordo parcial e os valores positivos
(1 e 2) acordo parcial. O valor 0 significava não ter opinião preferencial.
Podemos então definir a opinião média de um estudante como a média sobre todas
as respostas dadas pelo estudante no questionário. Os resultados obtidos para
este constructo (Fig._3) na edição 2011/2012 do curso de Biofísica mostram que
78% dos estudantes manifestaram uma opinião positiva, com médias 1, 2 ou 3, e
apenas 4% manifestaram uma opinião negativa com média -1. Os restantes 18% com
média 0 não manifestaram uma opinião preferencial. Na edição 2011/2012 do curso
de Física os resultados mostram que 62% dos estudantes manifestaram uma opinião
positiva, com médias 1, 2 ou 3, 18% manifestaram uma opinião negativa com
médias -1 ou -2, e os restantes 20% com média 0 não manifestaram uma opinião
preferencial. Na edição 2011 do curso de Meteorologia e Climatologia os
resultados mostraram que 95% dos estudantes manifestaram uma opinião positiva,
com médias 1, 2 ou 3, 5% não tiveram opinião preferencial e nenhum aluno
manifestou opinião média negativa.Por outro lado, podemos também definir a
média da opinião de todos os estudantes em relação a cada uma das afirmações do
questionário (Fig._4). Os estudantes de Biofísica, e também os de Física e
Física IB (Neves et al., 2011), manifestaram uma clara preferência para
trabalhar em equipa num ambiente de aprendizagem interactivo e exploratório,
desde que com apoio adequado dos professores. Os estudantes de Meteorologia e
Climatologia já não reagiram tão favoravelmente ao trabalho de grupo (Neves et
al., 2013). Embora mais estudantes continuassem a preferir o trabalho em
equipa, em comparação com os cursos da FCT/UNL houve mais estudantes com
preferência pelo trabalho individual.
Tendo em conta os diferentes contextos dos cursos, os estudantes consideraram o
Modellus útil para o processo de aprendizagem de modelos físico-matemáticos,
para a sua formação profissional e suficientemente fácil de aprender e
utilizar. A apresentação das actividades de modelação computacional com o
Modellus em documentos PDF interactivos com suporte vídeo integrado e espaço
livre para respostas ou comentários multimédia foi igualmente considerada
interessante e bem concebida. Nestes cursos o Modellus foi testado com sucesso
como uma ferramenta pedagógica de modelação matemática que permite aos
estudantes a exploração e construção de modelos físico-matemáticos com
simulações interactivas e várias outras representações. Estes modelos podem
envolver equações diferenciais resolvidas com métodos numéricos simples e os
estudantes foram capazes de compreender a interconexão entre soluções
analíticas e soluções numéricas. No entanto, é importante notar que os
resultados dos questionários também indicam a existência de alguma cautela
entre os estudantes em relação a esta nova forma de aprender Física com métodos
e tecnologias computacionais.
Em todas estas acções de investigação, a análise de conteúdo dos trabalhos e
testes realizados pelos estudantes mostrou que as actividades de modelação
computacional foram bem-sucedidas na identificação e resolução de várias
dificuldades que os estudantes tiveram em conceitos e métodos físico-
matemáticos chave. Este sucesso reflectiu-se nos bons resultados obtidos pelos
estudantes no final dos diferentes cursos. Por exemplo, na edição 2011/2012 do
curso de Biofísica a classificação final média foi 77% na escala 0-100 e todos
os 63 estudantes conseguiram completar a componente de modelação computacional.
Por seu turno no curso de Física a classificação final média foi 78% e apenas 4
não tiveram aproveitamento. Na edição 2011 do curso de Meteorologia e
Climatologia a classificação final média foi 70% e dos 53 estudantes inscritos
apenas 3 não passaram na componente de modelação computacional.
Três factores fundamentais contribuíram para estes resultados positivos, a
saber, a oportunidade de (1) efectuar modelação exploratória e expressiva, (2)
ter uma correspondência visível em tempo real entre simulações com objectos com
os quais se pode interagir e as propriedades matemáticas desses objectos
definidas no modelo, e (3) manipular simultaneamente várias representações
diferentes do modelo (o modelo matemático, a simulação, os gráficos e as
tabelas).
Estes resultados constituem um inequívoco progresso em relação ao Ensino
Superior tradicional. No entanto, é evidente que é necessária mais investigação
(e consequentemente mais investimento que proporcione melhores condições de
implementação e de aprendizagem para os estudantes) para, por exemplo, (1)
melhorar o grau de equilíbrio epistemológico e cognitivo entre os aspectos
teóricos, experimentais e computacionais; (2) alargar o âmbito temático das
acções, quer em termos de desenvolvimento de recursos quer em termos de
implementação no terreno com estudantes e professores, a outras matérias da
Física (e.g., para além de outros temas de mecânica, o electromagnetismo, a
termodinâmica e tópicos de física moderna como a relatividade e a mecânica
quântica), da Matemática (e.g., análise matemática, métodos numéricos, álgebra,
estatística e probabilidades), e das aplicações da Física e da Matemática,
e.g., à Biomedicina e às Geociências; (3) aprofundar a análise da interconexão
epistemológica entre a Física e a Matemática, e correspondentes implicações
didácticas; (4) analisar as interacções e potencial de complementaridade de
diferentes sistemas de modelação computacional, e.g., o Modellus, as EJS, o
Excel, o Mathematica ou o Matlab; e (5) aprofundar a análise, quer a nível
quantitativo quer a nível qualitativo, dos processos de ensino e aprendizagem,
procurando mais provas científicas que mostrem que no contexto da nossa
abordagem ocorre um efectivo e equilibrado desenvolvimento de conhecimento e
cognição. Abordaremos estes problemas em futuras publicações.