O pensamento de Paulo Freire: suas implicações na Educação Superior
O pensamento de Paulo Freire: suas implicações na Educação Superior
Eduardo Santos e Manuel Tavares conversam com o Professor Rui Beisiegel
Celso de Rui Beisiegel possui graduação em Ciências Sociais (1958), mestrado em
Sociologia (1964) e doutorado em Sociologia (1972) pela Universidade de São
Paulo - USP. Exerceu a chefia do Departamento de Filosofia da Educação e
Ciências da Educação e a Diretoria da Faculdade de Educação da Universidade de
São Paulo, e foi Pró-Reitor de Graduação da USP entre 1990 e 1993. Sua
experiência académica situa-se na área de Educação, com ênfase em Sociologia da
Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: educação popular,
política educacional, sociologia da educação e educação de jovens e
adultos. Autor de vasta obra, disseminada por livros e artigos científicos,
destacam-se aquelas em que discorre sobre o pensamento de Paulo Freire e a
educação popular:
(2010) Paulo Freire. Recife: Editora Massangana.
(1982) Política e Educação Popular. A teoria e a prática de Paulo Freire no
Brasil. São Paulo: Ática.
(1974) Estado e Educação Popular: Um estudo sobre a educação de adultos. São
Paulo: Livraria Pioneira Editora.
A entrevista do Prof. Celso de Rui Beisiegel, um dos maiores especialistas
brasileiros no pensamento de Paulo Freire, com quem conviveu e debateu os temas
da educação, foi realizada no seu gabinete na USP em junho de 2013, tendo por
temática central "Paulo Freire e a Educação Superior".
Esta entrevista, que a seguir se reproduz, foi uma amabilidade especial do
Professor Celso para com a Revista Lusófona de Educaçãoe, por isso, aqui ficam
os nossos sinceros agradecimentos.
Eduardo Santos: Podemos chamar ou nominar Paulo Freire de filósofo, sociólogo,
antropólogo, educador, epistemólogo... Quais as distintas facetas do professor
Paulo Freire que o senhor entende que correspondem mais à verdade histórica da
atuação política e profissional do nosso patrono da educação brasileira?
Celso Beisiegel: Paulo Freire se formou em direito em 1947, começando na
educação depois de uma pequena experiência na advocacia. Concluiu que o Direito
não era a sua vocação. Depois de uma experiência, como professor de Português,
no Colégio Pessoa, um colégio tradicional muito respeitado em Recife, foi
convidado por um companheiro de estudos para entrar numa organização
assistencial da indústria, o SESI de Pernambuco, iniciando a sua atividade como
responsável pela seção de educação. Depois de formado em direito, já
trabalhando no SESI, o Paulo deu aula de filosofia e história da educação na
Escola de Serviço Social e na Faculdade de Belas Artes, ambas do Recife. Então,
ele era advogado, professor de português, de história e de filosofia da
educação; segundo algumas entrevistas de contemporâneos (por ex., o Paulo
Rosas), o Paulo tinha também uma vivência universitária, na qual já exercia uma
certa liderança. O Paulo Rosas começou a ter uma atividade com Paulo Freire,
que ainda era jovem e já pertencia à Juventude Católica (JUC) e fazia trabalhos
com os operários do SESI. O trabalho como professor na Escola de Serviço Social
permitiu-lhe conhecer um conjunto de pessoas, sobretudo mulheres, ligadas à
Educação (Anita Paes Barreto, Dolores, Lourdes Coelho) e que eram militantes
católicas com atividade na educação e no serviço social. A atuação de Paulo
Freire foi muito ampla, mas a sua militância acabou se consolidando na área da
Educação, dentro de um mundo onde ele convivia com filósofos, sociólogos,
historiadores da educação, militantes da assistência social, a Escola de
Serviço Social. Ele foi, sobretudo, um homem identificado com a área da
educação, e desde o começo atuou numa perspectiva ampla de educador. Então,
Paulo Freire é tudo isso: educador, sociólogo, filósofo, epistemólogo,
antropólogo.
Eu conheci o Paulo como alguém que havia acabado de propor um método de
alfabetização de adultos e começou a ser conhecido no país a partir dessa
proposta. No entanto, apesar disso, Paulo Freire dizia que não era um
alfabetizador de adultos, mas que o seu trabalho em educação de adultos surge a
partir das suas atividades no Recife com os trabalhadores e operários do SESI,
e foram estas circunstâncias que o encaminharam para a educação de adultos;
tanto que ele me disse e em outras entrevistas: "se eu tivesse ido para a
arquitetura, provavelmente teria me encaminhado para a ambientação popular no
campo, no Recife, ou se tivesse ido para área da saúde ter-me-ia encaminhado
para a saúde popular", mas ele enfatizava muito esta sua sensibilidade às
necessidades populares. Ele vai se formar tendo como foco esta atividade na
educação, mas vai desenvolver o seu pensamento tendo o homem e a sociedade como
referências e uma preocupação social como elemento predominante. Era mesmo uma
questão de sensibilidade e que, por isso, assumiu na área da educação popular
essa dimensão de alfabetização.
Ele começa a produzir, a elaborar esta proposta de alfabetização porque, como
um educador e como um intelectual não só do SESI, onde ele ficou até ao começo
da década de 50, mas também nas escolas de serviço social e de belas artes, ele
formava com um grupo de intelectuais progressistas, atuantes, e nesta condição
foi um dos fundadores do Movimento de Cultura Popular do Miguel Arraes1. Por
meio de um movimento desse tipo Arraes pensava em levar educação para as
periferias carentes do Recife, onde não havia escolas (nessa época, em 50, em
São Paulo, já havia escolas primárias públicas em praticamente toda a
metrópole, mesmo nas cidades do interior). Então, o Arraes e a Anita2, que foi
secretária da educação do primeiro governo de Arraes, usa as oficinas, Anita
forma as professoras primárias para trabalharem nas oficinas da prefeitura,
produzem carteiras e nós vamos encontrar nos centros populares, nos clubes, nas
igrejas, os espaços necessários para, reunindo professores, mobiliários e
locais, dar pelo menos escola primária para toda essa juventude que não tem
escola. Essa foi uma proposta levada aos intelectuais que estavam reunidos na
frente ampla do Recife, que elegeu o Arraes, e isso cai na cabeça de
intelectuais gerando grande discussão e acaba por se transformar numa coisa bem
diferente: uma proposta de um movimento de cultura popular que envolvia
inclusive uma ideia de uma universidade popular, de teatro popular, de educação
popular, de uma cartilha.
Eduardo Santos: Nas origens mais remotas da década de 50, é possível
identificar já uma relação da própria educação popular com uma proposta ou uma
proto-proposta de uma universidade popular, ou é uma coisa ainda difusa?
Celso Beisiegel: É difuso, mas o popular começa a vir à tona. É consequência
direta das mudanças que ocorrem com o final da segunda guerra mundial, em que
muda o mundo. Uma coisa que era considerada abominável, o comunismo, agora
passa a ser de certa forma uma expressão político-cultural popular de um dos
vencedores do totalitarismo; durou pouco, mas, pelo menos neste período, foi
importante. O PCbão3 se tornou uma coisa relativamente importante, é até
difícil contar isso hoje, mas naquela época o Partido conseguiu ajudar a eleger
o Ademar no estado de São Paulo.
Manuel Tavares: No Ocidente, há acadêmicos, sobretudo no Norte da Europa, que
defendem que o pensamento de Paulo Freire é válido para os países do terceiro
mundo, que é um pensamento terceiro-mundista. Concorda com essa perspectiva ou
poderá afirmar-se que o pensamento de Paulo Freire tem uma dimensão
universalista e, por isso, é aplicável em todos os países onde existem
exploração e opressão?
Celso Beisiegel: Isso é muito difícil de responder, não existe o Paulo Freire
que é isto e, portanto, cabe naquilo, mas não cabe nisto! O Paulo é um vulcão
em movimento desde que ele começa a atuar. Ele gastou muito esforço e muita
entrevista para justificar porque era contra cartilhas. Uma das coisas que me
disse é que ele partiu para propor um método de alfabetização porque era contra
a cartilha, porque a cartilha é o pensamento de quem sabe depositado, levado
para aquele que não sabe; quem sabe, age verticalmente sobre aquele que não
sabe. Depois, ele vai falar em educação bancária e educação libertadora.
Naquela época, o MCP - Movimento de Cultura Popular do Recife, do qual Paulo
era um dos diretores, produziu uma cartilha muito interessante a pedido do
Serviço de Educação Rural do próprio Movimento, e o Paulo justificava:
"Não, eu criei uma alternativa, sou contra a cartilha!", ou seja,
ele era contra essa coisa de quem sabe botar alguma coisa na cabeça de quem não
sabe.
Algum tempo e muitas peripécias depois, o Paulo teria um envolvimento real com
a libertação colonial - a descolonização - e a construção de nações naquela
terra arrasada pelos colonizadores. Numa dessas vinculações, com a Tanzânia e,
sobretudo, com a Guiné Bissau, ele escreveu um livro, que é uma longa
introdução, e depois Cartas a Guiné Bissau. Nas Cartasele se refere ao papel do
PAIGC (Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde) na educação
popular e diz, em muitas passagens, que aquele Partido é um grande mestre do
seu povo, que Amilcar Cabral é o grande mestre de seu povo. Ele propõe, então,
a prática da educação daquelas populações extremamente pobres, com uma
consciência ingênua, daquelas pessoas que não saem do seu círculo; não se trata
de uma lavagem cerebral, mas de alguma coisa que é feita a partir de quem sabe
como vai ser o processo e, por isso, há uma certa contradição com o pensamento
e método do próprio Paulo Freire.
Eduardo Santos: Uma educação de fora para dentro...
Celso Beisiegel: ...a libertação vem de cima para baixo, vem do mestre para
aqueles que têm que seguir as ordens do mestre e o Paulo, que foi um homem
radicalmente honesto em tudo o que fez, estava honestamente fazendo isto. Ele
estava em absoluta contradição com aquilo que defendia naquela fase que não
aceitava a cartilha, mas a cartilha do PAIGC fica, como se fosse um rebento do
PCzão funcionando como cartilha. Ao mesmo tempo, numa das cartas, ele propõe
que uma tabanca4 seja trabalhada como se fosse um círculo de cultura, seja
tomada como o núcleo a partir do qual se faz a educação, pois já não se trata
de mais um grupo de analfabetos: agora é uma população que tem que ser
mobilizada e educada para criar uma pátria. Paulo Freire foi um educador: a
coisa concreta que ele está propondo lá na Guiné Bissau continua sendo daquele
Freire que busca, com a educação, chegar a uma conscientização. Muito disso
mudou o próprio universo teórico do Paulo Freire; já no Chile, ele cita Mao-
Tse-Tung, depois viria a conhecer Gramsci, o que lhe permite ir mudando o seu
universo teórico. Mas as questões que ele coloca como educador não se alteram,
ele continua fiel àquilo que está buscando, o que muda é a perspectiva social.
Há vários trabalhos em que Paulo fala da Igreja, um deles é sobre o papel
educativo das igrejas na América Latina. É um texto muito violento porque a
Igreja estava como a gente a conhece ainda hoje, não uma Igreja diferente que
se está recriando, mas que se perdeu e que está sufocada. Para Paulo Freire só
se entende a Igreja como alguma coisa histórica, mas a Igreja, ao contrário,
era igual à época da Inquisição.
Eduardo Santos: Há, pelo menos, três críticas fortes, vindas da própria
Academia, a Paulo Freire e a seu pensamento pedagógico: a primeira, que as
ideias freirianas só teriam aplicabilidade à realidade terceiro-mundista;
outra, é que a obra dele não constitui propriamente um trabalho cientifico, é
muito mais uma obra com certos laivos didáticos e razoavelmente superficiais,
talvez até pelo estilo missivista de várias delas (Cartas a Guiné Bissau,
Cartas a Cristina etc.); uma terceira questão é que o método ou técnica que ele
criou, e que chama de círculo de cultura, também é aplicável exclusivamente a
adultos em processo de alfabetização. Em torno dessas três grandes críticas que
vêm da própria Academia, impeditivas para que Paulo Freire tenha um pouco mais
de dignidade acadêmica no ensino superior, qual a sua perspectiva?
Celso Beisiegel: Eu desconfio que lá em Wall Street, por exemplo, não tem muita
aplicação, mas o terceiro mundo tem uma presença muito forte no primeiro mundo.
Não conheço intensamente a realidade de Portugal, que se defendeu de alguns
movimentos, embora tenha também uma boa percentagem de população africana. Na
Espanha, essa população é muito grande e perturbadora; na Alemanha, os
portugueses, espanhóis, turcos, também perturbam... A questão talvez fosse mais
passível de exame se a gente mudasse um pouco: não é uma questão dos oprimidos
mesmo, a opressão é uma realidade que cada um de nós vive, é um trabalho do
psicanalista tentar trabalhar junto a cada um de nós as nossas respectivas
opressões e da sociedade.
O mundo oprime e todos têm a sua carga de opressão, mas a opressão econômica e
social é aquela que se materializa de uma dimensão politicamente transformadora
- aí você tem realmente um problema de educação, opressão e de possibilidades
transformadoras nessa educação do oprimido.
Eu terminei o livro que escrevi sobre Paulo Freire exatamente colocando essa
questão, quer dizer, talvez Freire acabe sendo um educador proibido de educar
porque esta sua educação é, numa ou outra perspectiva, uma educação
revolucionária. O Paulo, desde o começo, passou a ser um educador importante em
função da percepção desse fato. Ele foi um dos principais
"homenageados" pela ditadura exatamente pela percepção disto: ele
era visto como uma ameaça. Então, quando se fala em educador de terceiro mundo,
tem a sua razoabilidade, porque o impacto de propostas como as dele seguramente
é muito maior onde essas massas populares são mais oprimidas, onde se tem uma
possibilidade transformadora maior. Não acredito que seria possível desenvolver
sua proposta nos Estados Unidos, por exemplo. Fala-se muito de Paulo Freire nos
Estados Unidos; num artigo que escrevi sobre Paulo e que publiquei em espanhol,
numa revista virtual que um colega aqui da faculdade editava, acabou sendo um
dos artigos de Filosofia da Educação mais lidos no Google. A questão da
conscientização, por exemplo, seria com certeza rejeitada num país opressivo,
cultural e politicamente, como os Estados Unidos.
Eduardo Santos: Nos Estados Unidos, nomeadamente em Los Angeles, um dos membros
do Instituto Paulo Freire, Peter Lawnds, trabalha na periferia com populações
que tendem a ser ou são oprimidas.
Celso Beisiegel: Imagine se seria possível, na Coréia do Norte ou na União
Soviética, uma educação que contesta exatamente aquilo que gera o explorado,
numa sociedade exploradora. O explorador sempre - pelo menos na hora em
que isso começa a ter uma consistência - vai ser sufocado. Uma educação
dos oprimidos sugere terceiro mundo. No que diz respeito à alfabetização de
adultos, a educação que Paulo Freire propõe não é apenas a alfabetização. Pega
a palavra geradora "arroz", por exemplo, e deriva para as questões
econômicas. Como educador, Freire foi muito marcado nesta direção, foi por aí
que ele começou e por aí continuou.
Eduardo Santos:No Fórum Social Mundial (FSM), há uns três ou quatro anos, em
Porto Alegre, fizemos círculos de cultura, numa tentativa de testar o método,
na prática, com pessoal universitário, professores, estudantes etc., para
buscar dar-lhe, digamos assim, um certo estatuto ou dignidade cientifica,
inclusive como processo de pesquisa, talvez mais propriamente de pesquisa-ação.
Uma das críticas da Academia - e não apenas em relação a Paulo Freire
- é que não há ou não havia cientificidade e profundidade naquilo que ele
fazia.
Celso Beisiegel: Essa é uma questão difícil de responder. A grande questão que
me parece ter sido até resposta para alguns problemas deste tipo é a famosa
relação entre educando e educador, que ninguém educa ninguém, que se educam em
comunhão. O Paulo chega a dizer que quem sabe informa aquele que não sabe
daquilo que ele sabe, mas depois ele vai redesvelando aquele objeto junto com o
processo de desvelamento realizado pelo seu educando. Tudo isso é vago: como
você vai transformar isso em alguma coisa que tenha um estatuto científico? É
complicado! Eu e o Paulo tínhamos um grupo constituído por nós, a Dotti, a irmã
da Fátima, o Paulo, o Barretão, a Vera Barreto5, para tentar desenvolver uma
proposta que o Paulo Freire tinha recebido para trabalhar com os professores
leigos. Lembro-me que, quando prosperou, Paulo disse: "Imaginem se a
gente pegasse o Celso e lhe perguntasse: como é que você educa na
Universidade?" Eu fiquei quieto com os meus botões - nunca procurei
desenvolver diálogo nas minhas aulas! Eu estudei Weber. Então, explico para os
meus alunos como é que se coloca a questão dos tipos ideais, como isso é
utilizado na pesquisa, exemplos de sociólogos que realizam as propostas de
Weber nas suas investigações. Dá para pensar, por exemplo, como é que a gente
chega ao processo de mais valia com meus alunos universitários. É claro que
eles não são explorados da mesma forma, pelo menos nem todos; não é fácil! A
minha relação nunca foi uma relação dialogal como aquela que o Paulo propunha.
Não sei se aquelas etapas do método, se aquelas práticas do método são o mais
importante; elas foram o modo mediante o qual Paulo Freire exprimiu uma
perspectiva que ia se formando dele sobre o homem, a educação e a sociedade,
mas eventualmente você pode medir valores - aqueles ou outros - de
uma forma diversa, sem trabalhar a famosa conscientização com os portadores de
uma consciência ingênua, naqueles termos que o Paulo os colocava naquela época.
Freire influenciou seriamente amplos setores do pensamento, enriqueceu bastante
a prática dos educadores, inclusive no ensino superior. O pensamento de Paulo
Freire é muito mais amplo do que trabalhar com jovens e adultos analfabetos.
Este foi o foco da atuação do Paulo, mas ele foi um educador.
Um amigo muito querido e meu orientador de doutorado, Florestan. Florestan, foi
cassado. Ficou o Luis Pereira6 na minha defesa de livre-docência; o Luis me
criticou, dizendo: "Você está monumentalizando o Paulo Freire".
Não, meu trabalho é critico em relação ao Paulo, mas o Paulo é uma coisa muito
célebre, muito importante no panorama educacional.
No que diz respeito à profundidade, não há nenhum exemplo melhor do que a
proposta de Paulo Freire para entender a teoria formulada por Marx para a
educação, muito mais do que o modo como os famosos educadores soviéticos a
explicam. Cada um deles é notável, mas a proposta de Paulo Freire é muito mais
ampla. Nela, a ciência do físico, do astrônomo, tem que ser entendida....a
ciência exprimiu-se na ditadura. Essa famosa ciência sem fronteiras é um
negócio respeitável, estimulante. Ajudou a construir esse mundo em que a gente
vive, que é um mundo desgraçado.
Há outras formas de atuar tão fronteiriças quanto a daquele indivíduo que está
tentando chegar à lua, quer dizer, o conceito de pensamento de fronteira é um
conceito que também precisa ser trabalhado. Seguramente, o pensamento de Paulo
Freire é um pensamento de fronteira na educação. Isso não quer dizer que ele
seja original em tudo: há aspetos que não têm qualquer originalidade. Numa aula
que frequentei, penso que há uns sessenta anos, o professor afirmou que os
gregos já tinham dito tudo aquilo que estávamos dizendo. E é verdade. Na base
do pensamento de Paulo Freire há uma série de pensadores que foram seus
interlocutores: Mannheim, Goldmann...O Paulo não tem uma consciência ingênua,
mas uma consciência crítica. As modalidades de consciência, crítica,
transitiva..nada disso é original. Mas o pensamento do Paulo é original!
Nesse meu estudo defendo que o Paulo foi o maior educando das suas próprias
ideias e do seu método. Criou uma proposta que o lançou numa bola de neve que
foi crescendo e se reconstruindo. Não aceito, por isso, esse tipo de crítica,
que o Paulo era superficial. Em algumas coisas ele pode até ser, mas ao
desbravar um campo como este e dada a forma pela qual ele vai percorrendo seus
caminhos, estamos perante um homem muito inteligente, com uma sensibilidade
social à flor da pele, que criou uma proposta que é realmente original.
Eduardo Santos: Do seu discurso infere-se o papel de educador de Paulo Freire.
De certo modo, essa seria a síntese das suas múltiplas formações. No entanto,
caracterizando-se como educador, não atribui o nome de círculo pedagógico à sua
técnica, mas de círculo de cultura. O senhor não pensa que aí reside uma
inovação que busca atribuir precisão à linguagem, já que Paulo Freire era
mestre da palavra, utilizava-a com muita precisão?
Celso Beisiegel: Quando o MCP foi fundado, Paulo propôs o funcionamento de
círculos de cultura: reunia operários e homens do povo de Recife para debater
temas tais como ligas camponesas, socialismo etc. (Aliás, coloquei no meu livro
que achei muito estranho que homens do povo de Recife tenham chegado a propor
aqueles temas. Tudo bem, o Recife é um centro político, mas não é para
analfabetos do povo; vê-se claramente o tipo de "popular culto",
com alguma participação, que, reunindo-se, chegam a ter curiosidades que levam
a propor temas como estes, mas tudo bem...). Nessas reuniões, Paulo propunha a
discussão desses temas. Ele dizia que não conhecia tudo, que ninguém é obrigado
a conhecer tudo; ele procurava os colegas lá na universidade, como o Souza
Lima, para que ajudassem a propor conteúdos que pudessem ser trabalhados de
forma a enriquecer e tornar produtivas aquelas discussões dos círculos de
cultura. No Centro de Cultura eram outras coisas.
No primeiro artigo de Paulo Freire sobre o método, ele diz como aqueles
trabalhos com os adultos no Recife tinham se mostrado muito ricos, e então
pensou: "Será que eu não poderia começar um trabalho de alfabetização
exatamente como se fosse um círculo de cultura"? E foi o que ele fez.
Então, veja, quando nas Cartas a Guiné Bissauele propõe que a tabanca seja o
foco da educação popular, está, de certa forma, recuperando aquele círculo de
cultura original, mas dando a ele um sentido muito mais amplo, porque a
organização social na Guiné Bissau possibilitava isso, eram pequenos
aglomerados. Se eu fosse trabalhar com algum aglomerado caiçara naquela época
talvez tivesse partido para isso mesmo.
Eduardo Santos: Se o senhor tivesse que escolher, de todos os princípios
freirianos, um que pudesse aplicar-se à educação superior, qual deles
escolheria?
Celso Beisiegel: A ideia dos compromissos da universidade com as condições de
vida da população mais pobre muitas vezes acaba levando a uma ideia que me
parece equivocada de engajamento da universidade, porque, de certa forma, seria
valorizar uma dimensão da universidade no sentido da melhoria das condições de
vida da população. Do meu ponto de vista, não é essa a função da universidade.
A universidade tem o seu nível de atuação. A universidade como um todo tem o
seu valor específico e terá muito mais peso político se preservar esse seu
papel do que procurando organizar os professores universitários num partido ou
outro para agir politicamente na sociedade. Penso que poderemos contribuir
muito mais para as transformações sociais se valorizarmos a especificidade da
universidade, e não se a transformarmos numa sucursal de um sindicato ou de um
partido político, o que a enfraqueceria. Daí que me parece que o engajamento do
professor universitário deve ser de engajamento intelectual, o que não nos
impede de agir politicamente enquanto cidadãos. Nunca fui aberto ao engajamento
político ou sindical de instituições. Se os professores ou o movimento
estudantil quiserem ter algum engajamento político-sindical, tudo bem.
Nos meus trabalhos em relação à educação popular em geral e, especificamente,
em relação à de Paulo Freire, procurei manter esse tipo de posição. Nunca fui
de fazer um proselitismo de Freire...o Luís Pereira não tinha razão quando
disse que eu estava monumentalizando o Paulo.
Manuel Tavares: Farei duas questões em uma, versando sobre a educação superior
e sobre o papel histórico da universidade. A universidade foi constituída para
e por elites e não propriamente para as camadas populares; isto quer dizer que
o modelo educativo das universidades gera um modelo epistemológico que
possibilita uma determinada leitura do mundo que é, muitas vezes, uma leitura
alienante. Neste sentido, o modelo educativo que Paulo Freire propõe, pelos
seus diversos princípios epistemológicos, antropológicos, éticos, ontológicos
poderão, no ensino superior, conduzir a uma outra leitura do mundo que seja
desalienante e tenha uma perspectiva democrática, emancipatória e popular?
Celso Beisiegel : Eu acho que não é por aí, a universidade tem as suas
múltiplas formas de estabelecer conexão com a sociedade de classes, e uma
dessas formas é a crítica da sociedade. Por exemplo, o marxismo como pensamento
de esquerda. O pensamento crítico é coisa que nasce exclusivamente fora da
universidade, mas que constitui dimensões presentes no corpo da atuação da
universidade em todos os seus setores, tanto que se fossemos fazer uma votação
aqui na universidade sobre quem ganharia as eleições, penso que
majoritariamente a posição seria de esquerda. Nas últimas eleições, a posição
da universidade foi majoritariamente a favor de Fernando Haddad7. A posição dos
estudantes e de grande parte dos professores é uma posição crítica mais
avançada do que a média do pensamento exterior à universidade.
Se recuarmos no tempo, apercebemo-nos do nível de repressão sobre a
universidade em 1964 como uma evidência empírica da presença de um pensamento
transformador, considerado perigoso, dentro da universidade. Por isso, não é
bem por aí! É verdade que a universidade tem problemas de demora cultural, mais
pesada em certos setores do que em outros. Na educação eu tenho a impressão de
que esta demora é bem mais palpável: é demorado assimilar um pensamento
diferente dentro da universidade. Os professores foram aprendendo certas coisas
ao longo da sua formação, continuam trabalhando, tomam conhecimento das novas
propostas, mas o processo de incorporação mais profundo do que vem incutido
nessas novas propostas é um processo lento. A educação, de um modo geral, do
primário ao secundário e mesmo no superior, é algo que evolui lentamente. A
universidade tem um papel importante na incorporação da produção do novo,
sobretudo nas áreas tecnológicas isso é evidente. No plano da vida social tenho
a impressão de que é na própria educação que as mudanças são mais lentas.
Manuel Tavares: Então, quer dizer que a academia brasileira é, genericamente,
uma academia progressista?
Celso Beisiegel: Esse progressismo varia muito de acordo com a dinâmica da
sociedade. Em 74, um pouco antes, em 72, publiquei um trabalhinho numa revista
organizada por um colega nosso da área da física. Eu tinha acabado de fazer um
estudo sobre o destino profissional dos alunos de vários cursos, inclusive do
curso de física, e nesse estudo aparecia, claramente, que só uma minoria
extravagante ia trabalhar na indústria, a grande maioria estava no ensino
superior ou no secundário. Na indústria, na produção de novos conhecimentos o
número de físicos era muito pequeno, e aqueles que estavam na indústria vendiam
produtos da indústria, quer dizer, o físico poderia ser um excelente vendedor
de certos equipamentos porque tinha mais condições de convencer os clientes a
comprar aqueles equipamentos.
Como a nossa indústria não tinha inovação tecnológica, dado que nessa época o
Brasil trabalhava na base do know howimportado, comprando pensamento ao
exterior, então o físico não tinha lugar no mercado de trabalho. A Física não
era ainda tão avançada assim porque a sociedade não comportava o avanço, não o
solicitava nem o financiava. Claro que no domínio da construção, nesse trabalho
quase artesanal, somos tão criadores quanto os estrangeiros. O problema surge
no domínio da investigação e da inovação.
Se eu fosse pensar de acordo com Paulo Freire e em função da sua proposta,
neste aspecto eu diria que era preciso ver como a odontologia podia chegar à
boca da população das mais diversas classes sociais e acabar com os nossos
banguelas. É preciso mais inovação, novas formas de tratar os dentes,
implantes, principalmente novos equipamentos.
Eduardo Santos: Paulo Freire tem uma obra monumental, com impacto decisivo e
importante na educação, seja pensando no método, seja difundindo e sintetizando
outros valores com os quais o educador trabalha. Ele tem uma tremenda
importância, quer do ponto de vista da formulação original do pensamento
pedagógico quer no âmbito das técnicas de letramento ou de descobrir o mundo,
e, em rigor, ele não é tão utilizado na academia, mas tem um impacto na
formação dos novos professores que vão alfabetizar, que vão para o Ensino Médio
e assim por diante. Estou pensando na formação nas licenciaturas, no curso de
pedagogia etc. A Física não resolve os problemas que estão postos na sociedade;
ela pode desenvolver-se mais ou menos dependendo dos problemas que estão postos
pela sociedade. No entanto, temos um problema gravíssimo que é o do sistema
educacional, do seu desempenho. A incorporação das ideias de Paulo Freire na
educação superior, especialmente na formação inicial dos professores, não seria
uma das respostas importantes para nós resolvermos um problema também
importante na nossa sociedade?
Celso Beisiegel: Deixa eu fazer um contraponto. De vez em quando eu levo um
recorte de jornal aos meus alunos sobre a Guiné Bissau. Atualmente, Paulo
Freire tem a importância dele. Não acredito que no aspecto operacional o
professor tal, na escolinha tal, no bairro dos Fonsecas, vai fazer melhoras
pelo fato de ser um professor até querido, Paulo Freire é um contexto muito
mais... O Paulo tem importância inclusive na sensibilização para a importância
real da educação, para uma população que não está conseguindo obter da escola o
sucesso a que tem direito, uma escola que ela já conquistou. A população
conquistou a escola, a luta pela universalização da escola foi muito bem
sucedida, não só no Brasil, mas também em grande parte do mundo.
Agora que conseguiu o acesso à educação, o que nós podemos considerar
tranquilamente é que a valorização da educação de qualidade foi afetada por
gente como Paulo Freire e por outros engajados nesse movimento. Atualmente, há
uma universalização do acesso à educação não só no antigo ensino primário, mas
também no secundário, e assistimos também à expansão do ensino superior. No
entanto, essa expansão não foi acompanhada de recursos que possibilitassem a
qualidade do ensino. Os problemas sociais na sociedade brasileira ainda são
enormes e, por isso, grande parte da população que tem acesso à educação é uma
população pobre. E a possibilidade de acompanhamento e de colaboração das
famílias pobres na formação das crianças é muito pequena; o professor que se
dispõe a enfrentar a violência, o trânsito e a pobreza de uma escola da
periferia, esse professor é aquele que não conseguiu qualquer outra coisa
melhor, inclusive pelo salário, que é um dos mais precários. Eu tenho um
molecão que trabalha no jardim lá de casa que ganha mais que um professor
primário, o que significa que, atualmente, não é uma proposta pedagógica que
vai resolver problemas desse tipo. Pode ser que sim quando você tem uma
liderança comprometida, e até numa escolinha com essas condições ele pode
avançar, mas ainda não se conseguiu tanto engajamento assim.
Eduardo Santos: No nível da educação popular, tanto sua teorização quanto sua
prática são consideradas como das maiores contribuições da América Latina para
o pensamento pedagógico mundial. E Paulo Freire pode ser considerado o seu
representante máximo. O senhor pensa que os princípios fundamentais da educação
popular podem penetrar na educação superior?
Celso Beisiegel: Não sei se dá para colocar por aí, pelo menos eu nunca pensei
nisso. O que eu tenho discutido com alguns colegas, e até em alguns cursos, é
que aquilo que era a educação popular quando se começou a desenvolver este tipo
de prática e de estudo invadiu a universidade, até uma universidade de elite
como a Universidade de São Paulo.
Eduardo Santos: ...o senhor diz invadiu...invadiu como objeto de estudos? Os
temas da educação popular foram trabalhados com os alunos?
Celso Beisiegel: Eu enfrentei as questões como pró-reitor em 1990. Nós tínhamos
que fazer um segundo vestibular para preencher 13% das vagas que não tinham
sido preenchidas na universidade pelo vestibular, e porque, principalmente na
USP, o curso de Pedagogia é o curso dos pobres. Atrai alunos com uma formação
escolar mais precária e, por isso, com dificuldades no vestibular. As vagas
aqui no curso de Pedagogia e das licenciaturas não foram preenchidas, então,
fizemos um segundo vestibular. Deu para sentir a reação de alguns colegas,
alguns até de esquerda, muito mais do que eu, mas o argumento e o sentimento é
que a USP é uma universidade para alunos que têm condições de acompanhar aquilo
que ela quer lecionar no nível em que os seus professores colocam os temas.
Isso é absolutamente contrário àquilo que Paulo Freire defendia. Quando ele
afirmava que era necessário partir dos conhecimentos dos alunos... mas que
conhecimentos? Quais são os conhecimentos que os alunos têm de Física? Não se
pode partir do conhecimento que eles têm no Ensino Médio! Então, é necessário
ser sensível ao ponto de partida disponível nestes alunos que entram na
universidade. Na USP existem três turmas nos cursos noturnos de Pedagogia, o
que significa que aumentou consideravelmente o número de alunos que vêm da
periferia, da escola pública, no ensino superior em geral aumentou muito em
função do PROUNI8. Há, hoje, jovens da periferia que colocam a possibilidade de
entrar na universidade, o que não acontecia há algum tempo atrás. Esta é uma
temática que em muitos aspectos é a temática da educação popular. Vou partindo
daquilo que eu acho, que tenho que ensinar para um aluno no primeiro ano, num
curso da sociologia da educação, não consigo coisa nenhuma. Não é só Paulo
Freire que defende, é muita gente, que é preciso tomar como ponto de referência
aquilo que o seu aluno é, e depois ir tentando chegar com ele a um nível
aceitável na universidade.
Isso não implica abandonar os mais capazes, eu sempre trabalhei de forma
heterogênea, tenho alunos muito bons, e por isso não se pode nivelar por baixo;
com bibliografia adequada e com envolvimento vamos conseguindo alguns
resultados.
Manuel Tavares: Uma questão que envolve duas temáticas trabalhadas por Paulo
Freire: qual a relação, dentro da universidade, entre conhecimento e poder? E,
do seu ponto de vista, qual a função dos intelectuais?
Celso Beisiegel: O atual Ministro da Fazenda, o Mantega, da Unicamp, o Delfim
Neto, que foi uma espécie de grande papa da economia durante uma grande parte
da ditadura, é da USP, um homem muito respeitado aqui na universidade, o Maluf
saiu da Universidade... agora, não é por aí que a gente vai pensar a questão da
universidade e poder, esse poder já existia, já existe na sociedade, este poder
político stricto sensu, mesmo o poder.
Manuel Tavares: Uma outra questão relacionada com o poder, um pouco na
perspectiva de P. Bourdieu: na universidade, há "mercados de bens
simbólicos" que conflituam entre si. São esses mercados hegemônicos que
determinam o conhecimento e as representações que se têm do mundo. Não lhe
parece que são estes mercados de bens simbólicos que determinam também as
relações de poder existentes na universidade e que se exteriorizam na
sociedade?
Celso Beisiegel: Isso poderia ser colocado para a Igreja católica, para a
imprensa...Há certos momentos em que o poder exerce um controle sobre cada uma
dessas instituições no sentido de recolocá-las numa relação aceitável, quer
dizer, são instituições da sociedade que não podem extrapolar a sua
participação numa situação de poder. João Paulo II, por exemplo, e depois Bento
XVI, são claramente uma recolocação da instituição religiosa naqueles papéis
que o poder amplo que a sociedade exige da Igreja, e a Igreja faz parte da
definição desse poder. É a mesma coisa com a imprensa: a grande imprensa, não a
imprensa alternativa, mas a grande imprensa, também em certos momentos foi
recolocada, até com certo vigor, dentro dos seus papeis nesta ordem de poder,
pensando mais ou menos como os donos do poder. O mesmo se passa com a
universidade. O meu orientador de doutorado, Florestan Fernandes, foi botado
para fora, o Fernando Henrique Cardoso foi botado para fora, os líderes da
minha escola, os mais velhos e os jovens mais expressivos foram expurgados,
todos os professores que estavam ligados ao movimento estudantil foram
completamente oprimidos. Na prática da educação Paulo Freire foi completamente
surpreendido. Ele não foi exilado, ele se auto exilou para fugir de algo pior
que estava por acontecer. É uma cadeia complexa, e essa Igreja não era aquela
que se envolveu com a educação popular e que chegou aos extremos da teologia da
libertação; era uma violência dentro da própria Igreja, assim como a
universidade não era Florestan ou o Fernando Henrique.
São campos de luta que atuam e têm uma dinâmica dentro de cada um desses campos
institucionais; no entanto, dificilmente essas ações de transformação radical
prosperam. Depois da Segunda Guerra Mundial houve um boom de transformação, mas
a devastação que ela provocou explica, em grande parte, as revoluções que se
seguiram no mundo inteiro. A Revolução Cubana é caso único que provocou grandes
transformações sociais. De resto, tendo em consideração que no plano simbólico
uma determinada ordem social se impõe e se defende, parece-me que, de certa
forma, a ordem social capitalista se consolidou.
Tenho alguns amigos envolvidos com o MST, ou com a economia solidária, e nós,
de alguma forma, com a educação popular. É minha gente, nós estamos aí, fazendo
algo importante. Tenho uma orientanda trabalhando com o consumo responsável; eu
a orientei a ler, na primeira semana que ela veio conversar comigo, Admirável
mundo novo. Tem lá uma passagem que explica que as pessoas usam terno e jogam
fora, porque se eles não comprarem outro terno a organização daquele mundo vai
por água abaixo. Então, há uma ordem a manter, a preservar, e é difícil lutar
contra essa ordem.
Eduardo Santos: O MST, a economia solidária, o consumo responsável são áreas em
que, de certa forma, se trabalha contra o sistema, contra essa ordem, e em que
se consegue preservar um pensamento crítico, a busca e a valorização da
reflexão sobre as injustiças que essa ordem envolve. Aí reside a preservação da
esperança que Paulo Freire postulava, e que tem a ver com a possibilidade de
construir o inédito viável.
Celso Beisiegel: O Paulo não tem esses estalos originais. Ele articulou coisas
muito importantes no conjunto de suas propostas, e o inédito viável é um
daqueles sonhos por que vale a pena lutar.
Manuel Tavares: Vou fazer uma última pergunta, que é meio provocatória.
Considera que a educação superior no Brasil é brasileira? Quais as
especificidades da educação superior brasileira em oposição às políticas
determinadas pelas organizações internacionais e pelas respectivas agendas?
Celso Beisiegel: Há alguns temas que a gente precisaria de muito tempo para
poder examinar, a gestação interna ou externa da organização e da dinâmica
social num mundo como o Brasil. Nós somos um mundo atrasado, chegamos tarde na
festa, fomos produtos de uma invasão cultural durante a colonização e depois,
em grande parte da nossa existência, o mundo teve uma dinâmica de expansão
cultural que foi afetando de maneiras desiguais o conjunto do planeta. Um dos
focos de gestação dessa dinâmica, nos últimos tempos, é o mundo Ocidental,
particularmente os Estados Unidos. Mas a dinâmica é mesmo capitalista e passa
pela produção de mercadorias e pela organização do mundo a partir das
mercadorias que são produzidas. A ciência e a tecnologia caminham também de
forma particular. Então, a universidade, a ciência, a tecnologia, a cultura, as
artes, num país como o Brasil, são pesadamente determinadas pelos centros e
pelas dinâmicas dessas organizações. Há muitos aspectos em que a criatividade
num país como o nosso tem campo para se manifestar, apesar de toda essa ação
externa. Costuma-se dizer que fomos copiar tudo ao estrangeiro, desde a
Constituição até à organização do ensino. Na verdade, nós procuramos algumas
formulações que os outros fizeram no exterior para problemas específicos que
estamos vivendo e, muitas vezes, de uma forma original. No entanto, mesmo nessa
importação de instituições, nesse conjunto de normas que são testadas no
exterior, há um campo para uma recriação, uma reintepretação, uma criatividade.
Apesar disso, há muita originalidade no Brasil - e eu acentuei isso em
alguns trabalhos -, em que as condições internas se exprimem mais
vigorosamente, como é o caso daqueles campos mais artesanais como a música, a
pintura, e aí aparece um Portinari9, na educação, e temos um Paulo Freire, mas
de um modo geral o peso dessa demonstração e das exigências de um modo de
produção na vida interna... Precisaríamos ver e examinar coisa por coisa.
Notas
1Miguel Arraes Alencar (1916-2005) foi advogado, economista e político
brasileiro, cassado pelo regime ditatorial implantado em 1964 quando era
prefeito do Recife e apoiava politicamente as ações pedagógicas de Freire. De
volta ao Brasil, em 1979, foi eleito deputado estadual, deputado federal e
governador do estado de Pernambuco.
2Trata-se da segunda esposa de Paulo Freire, Nita Freire, como carinhosamente a
chamava o educador.
3O professor se refere à legenda do PCB - Partido Comunista Brasileiro,
fundado em 1922, cuja alcunha - Pczão ou PCbão - a distinguia de
outra agremiação política brasileira de esquerda, esta denominada Partido
Comunista do Brasil.
4Como género musical, a tabanca caracteriza-se por ter um andamento allegro, um
compasso binário, e tradicionalmente ser apenas melódico, isto é, ser cantado
sem acompanhamento polifónico. A palavra "tabanca" existe em textos
portugueses desde o séc. XVI e provavelmente tem origem em alguma língua
africana, sendo usada para designar fortificações construídas por navegadores
portugueses na costa da Guiné. No crioulo da Guiné-Bissau a palavra
"tabanca" significa "aldeia".
5São nomes de companheiros ativistas da educação, todos do Brasil, que atuaram
pedagógica e politicamente ao lado de Paulo Freire.
6Luiz Pereira foi cientista social, pedagogo e professor que atuou e publicou
no campo da Educação, a exemplo das obras Rendimento e Deficiências do Ensino
Primário Brasileiro(1959) e A escola numa Área Metropolitana(1967). Em 1955,
foi indicado para compor o quadro de pesquisadores do Centro Regional de
Pesquisas Educacionais de São Paulo - CRPE -, seção estadual do
Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais - CBPE. É considerado um dos
criadores da Sociologia da Educação no Brasil.
7Ministro da Educação no governo Lula da Silva e Dilma Roussef, elegeu-se
prefeito da cidade de São Paulo em 2012.
8Programa Universidade para Todos: criado pelo governo federal brasileiro em
2004, oferece bolsas a estudantes que tenham estudado em escola pública no
ensino superior privado.
9Candido Torquato Portinari (1903-1962), artista plástico brasileiro, é autor
de cerca de cinco mil obras, entre as quais se destaca o grandioso painel
Guerra e Paz, produzido em 1956 para ser fixado na sede da ONU em Nova Iorque.
Revista Lusófona de Educação
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