As Aventuras de Pinóquio à luz do Imaginário Educacional
Introdução
Pinóquio é um personagem fictício, anunciador de um dado modelo de infância,
que vai cumprindo o seu destino iniciático nos corredores do mundo e da vida.
Todavia, não devemos esquecer que a ideia educativa de formação que a iniciação
pressupõe, ao implicar uma imagem de humanidade, é inseparável de uma axiologia
não desligada do contexto histórico-cultural da época em que As Aventuras de
Pinóquio foram escritas por Carlo Collodi em 18831.
Neste contexto, é nossa intenção, na primeira parte do nosso estudo,
desenvolver o significado da iniciação de Pinóquio no quadro do "romance
de formação" (Bildungsroman) e enfatizar, na segunda parte, que o núcleo
central de uma filosofia da educação reconfortada pelas figuras do imaginário
educacional, veja-se o caso da iniciação, recebe o nome de formação (bildung) -
transformação (umbildung) (Sola, 2003; Gennari, 2006: 4413-4418). Na terceira,
e última parte da nossa reflexão, discutiremos o papel da Escola enquanto
fabricante de marionetes.
1. A metamorfose iniciática de Pinóquio como figura do Imaginário Educacional
A iniciação, enquanto modelo protótipo, é inerente à condição humana que, por
sua vez, é pontuada por uma sequência ininterrupta de "provas", de
"mortes" e de "ressurreições". Um dos seus aspetos
nucleares é o do tema da "morte iniciática" que permite ao neófito
aceder a uma vida espiritual superior e, por isso, re-nascer como um
"homem novo". Importa igualmente acrescentar que a iniciação de
Pinóquio, ao longo da sua metamorfose potencializada pelos episódios da sua
transformação em "burrinho de verdade" e pela sua devoração pelo
tubarão, deve ser lida no quadro dos ritos de passagem (primeira parte do nosso
estudo): um boneco de madeira transformado, pela ação da Fada azul-turquesa,
"num rapazinho como deve ser", diríamos mesmo, que se foi
transformando mediante as prova (s)-ções que sofreu malgré a sua vontade e
desejo.
1.1. A iniciação como rito de passagem
A iniciação de Pinóquio cabe na categoria dos ritos de passagem. Esta
modalidade de rito, também conhecida por rito de iniciação, é modelada e
ativada pela simbólica da iniciação que compreende sempre uma "provação
mutilante ou sacrificial que simboliza em segundo grau uma paixão divina"
(Durand, 1992: 351) e deve ser encarada como um símbolo do regime noturno
tipificado pelas estruturas sintéticas do imaginário (1992: 507). É portanto um
tipo de iniciação que se opera lentamente por etapas: do sacrifício (Pinóquio
deve renunciar aos prazeres lúdicos e às más companhias) à morte iniciática
(metamorfose de Pinóquio em asno, mergulho e devoração pelo Tubarão), desta ao
túmulo (Pinóquio no ventre do Tubarão) e, finalmente, à ressurreição (Pinóquio
transforma-se num belo rapazinho): "Mas a iniciação comporta todo um
ritual de sucessivas revelações" (Durand, 1992: 351) que faz com que a
etapa seguinte seja sempre mais rica de ensinamentos e pregnante simbolicamente
do que a anterior, daí não admira que se assista a um enriquecimento
progressivo ao nível educacional do postulante e a uma maturação de tipo
ontológico.
No caso da metamorfose iniciática de Pinóquio constata-se que houve uma
derivação do sentido originário do tema da iniciação (Durand, 1996: 81-107;
Eliade, 1976), porquanto já não se trata de iniciar um adolescente que deixa
para trás o mundo da infância para entrar no mundo da idade adulta, mas sim de
um boneco de madeira que aspira a ser homem. Este, por sua vez, para se
transformar em criança tem obrigatoriamente que se submeter a um conjunto de
aventuras e de provas iniciáticas sob a direção pedagógica de uma Fada que
desempenha um papel de Mestre de iniciação na formação, como condição de
transformação, de Pinóquio: a Fada submete-o a provações terríveis mas que se
revelam necessárias, pois sem elas o adolescente/leia-se aqui boneco de madeira
não conseguiria vencer o desafio que a passagem comporta ou implica.
Por outras palavras, o que pretendemos dizer é que graças ao rito de passagem,
Pinóquio abandonou a sua condição profana para assumir um estatuto
ontologicamente outro - o de iniciado à natureza humana. Graças a este
ritual, em que realçamos a noção de passagem, Pinóquio abandona a sua condição
de marionete, a sua identidade de boneco de madeira para se tornar outro
- um ser humano: ele morre ritualmente (metamorfose em asno, mergulho no
mar e consequente devoração pelo tubarão) para melhor poder re-nascer. Este re-
nascimento opera-se pela ausência obrigatória, mais ou menos longa, numa cabana
na floresta longe da comunidade do noviço objeto de iniciação, de uma descida
perigosa a um labirinto, de uma devoração ritual por um monstro marinho, de uma
viagem ou mesmo de outro motivo iniciático, tipo mergulho no oceano (lembramos
aqui o episódio de Teseu a caminho de Creta). Na simbólica da iniciação, como é
conhecido, um tema é recorrente, o da morte e o da ressurreição. Residindo aqui
a razão pela qual o lugar onde ocorrem os ritos e todo o género de provações é
considerado como uma espécie de outro-mundo, um além, senão mesmo uma espécie
de Inferno.
Os ritos de puberdade - que comportam o esquema iniciático de sofrimento,
morte e ressurreição - iniciam-se por um ato de rutura em que a criança
ou o adolescente são, por vezes, separados da mãe de modo violento (2001:
3338). Esta separação faz-se precisamente para que o neófito entre no domínio
do sagrado e ao nele penetrar morra para a infância. Mas este tipo de morte
iniciática, que inúmeras vezes reatualiza o motivo da morte nas trevas (morte
iniciática - 2001: 66), ultrapassa de longe o caso particular dos
noviços, pois ele implica a totalidade de todos os membros da tribo. Neste
contexto, poderemos avançar para um dos motivos iniciáticos clássicos que é o
da devoração pelo monstro que equivale àquilo que Mircea Eliade designa de
"regressus ad uterum" que reveste duas formas mais ou menos
dramáticas, a saber: o noviço que corre o perigo de ser despedaçado na goela do
monstro (ou dilacerado na vagina dentatada Mãe Terra) e ser digerido no seu
ventre, e uma outra forma que passa por entrar no interior da Grande Mãe
ctoniana (Mãe Terra - Gaia) ou mesmo no interior de um monstro marinho e
conseguir escapar são e salvo, vejam-se os exemplos de Jonas e de Teseu. Em
ambos os casos é o tema do parto iniciático, ou seja, de um novo nascimento que
comporta, em maior ou menor grau, o perigo de morte.
No nosso caso específico, aquilo que nos interessa realçar é que numa das fases
da iniciação de Pinóquio, aquela relativa à sua devoração pelo monstro -
o Tubarão Átila, cai na categoria da iniciação de tipo "dramático"
(retorno perigoso ad uterum), ainda que com as atenuações e reservas devidas,
pois Pinóquio foi engolido contra a sua vontade e não empreendeu
conscientemente o ato heroico de penetração no ventre do tubarão sucedâneo do
ventre mater-no que o símbolo do labirinto representou para Teseu. Finalmente,
neste tipo de iniciação, visto ser aquela que Pinóquio experiencia, torna-se
importante acentuar que o "iniciado nasce uma segunda vez do seio da
Terra Mater" (2001: 133). Assim, Pinóquio trans-forma-se simbolicamente
na consequência direta de ter sido engolido pelo monstro marinho (o Tubarão
Átila)2, como sucedâneo da Grande Mãe ctoniana (Deusa da Morte e Senhora dos
Mortos: simboliza os aspetos ameaçadores e agressivos da natureza humana e do
Cosmos em geral), e em vez de se conformar à sua sorte de forma passiva, à
semelhança do seu amigo Atum e do seu pai Gepeto, reagiu heroicamente (Collodi,
2004: 187-194). Na sequência da sua reação-ação heroica, Pinóquio não somente
escapou do perigo, como igualmente se aproximou da condição humana e da própria
imortalidade, à semelhança dos heróis míticos quando se sujeitam a uma prova
iniciática de tipo heroico.
A penetração no ventre de um monstro ou, se se preferir, ser engolido pelo
monstro equivale a morrer e aqui a morte simboliza tanto a regressão na Noite
cósmica, tanto as trevas da 'loucura', onde toda a personalidade se
dissolve. Equivale a uma descida aos Infernos, ao reino das trevas e dos
mortos, daí que essa penetração, ou descida, assuma também um significado de
"busca" da imortalidade. Por outras palavras, trata-se de
confrontar-se com a morte sem morrer o que equivale, portanto, a regressar são
e salvo do reino da Noite e dos Mortos: "Os símbolos da morte iniciática
e do renascimento são complementares" (2001: 90). Sim, é verdade que eles
se complementam, o que faz pensar que a iniciação é mais do que um batismo,
pois da purificação chega-se à "transmutação de um destino"
(Durand, 1992: 351). Ela é, de acordo com Gilbert Durand, "um
comprometimento, um feitiço" (1992: 351). Pelos cenários iniciáticos que
experienciou (asno-mergulho-Tubarão), Pinóquio transmuta o seu destino,
conquistando, em última instância, um outro estatuto ontológico - o do humano.
1.2. A transformação de Pinóquio em asno: uma ilustração da iniciação
Um dos objetivos principais da iniciação é que o neófito, depois de ser
submetido a um conjunto de prova(s)-ções mais ou menos dolorosas, aceda,
mediante a "morte iniciática" a um estatuto ontológico diferente do
anterior (Eliade, 2001: 275-276). Por outras palavras, pela "morte
iniciática" Pinóquio torna-se "um outro", não de acordo com o
"testamento" revelado pelos deuses ou pelos Antepassados míticos
como acontecia com o "homem tradicional", mas por desejo expresso
da Fada que o metamorfoseou em humano (Collodi, 2004: 195-208)3. Pinóquio
transforma-se em criança não pela acção dos velhos mestres da tribo de acordo
com "modelos revelados pelos Seres divinos e conservados nos mitos"
(Eliade, 2001: 277), mas pela acção da Fada azul que lhe concedeu a graça do
nosso boneco de madeira se transformar numa criança.
Nunca é de mais sublinhar que Pinóquio foi transformado em criança mediante a
graça da Fada, cuja acção assume uma condição necessária mas não suficiente na
sua transformação, pois esta mesma transformação passava necessariamente pela
metamorfose em asno, pelo mergulho nas águas do mar, que simbolizam elas
próprias o inconsciente colectivo (Jung), e pela devoração pelo Tubarão. Não
será por mero acaso que a metamorfose de Pinóquio em asno se dá depois de cinco
meses passados na "Terra da Brincadeira" (Collodi, 2004: 151),
pois, na ótica de Carlo Collodi, essa transformação era mais o resultado de um
castigo do seu comportamento imaturo e irresponsável do que de uma prova
iniciática em ordem à sua futura humanização. A referida metamorfose é
assinalada pelo "magnífico par de orelhas de burro" (Collodi, 2004:
159) que o nosso boneco de madeira vê reflectidas na bacia do lavatório:
Quando uma manhã ao acordar Pinóquio teve, como se costuma dizer, uma
má surpresa que o deixou mesmo de mau humor. […] Deu-se conta, com o
maior dos espantos, de que as orelhas lhe tinham crescido mais de um
palmo. […] Portanto, imaginem como ele ficou quando sentiu que as
orelhas durante a noite lhe tinham crescido tanto que até pareciam
dois abanos. […] e mirando-se nela [na bacia do lavatório] viu aquilo
que desejaria nunca ter visto: ou seja, viu a sua imagem enfeitada
com um magnífico par de orelhas de burro (Collodi, 2004: 159)4.
Se é sobejamente conhecido o significado pejorativo das "orelhas de
burro" na tradição dos castigos escolares da escola ocidental tanto
confessional como laica, bem como as suas consequências sociais e psicológicas
que as mesmas comportavam, já menos é a sua simbólica que está, como não podia
deixar de ser, estreitamente ligada à simbólica do asno (devedor do simbolismo
animal que pertence ao regime diurno, tipificado pelas estruturas heróicas:
trata-se de um símbolo teriomorfo (Durand, 1992:71-96) que simboliza a
ignorância, a obscuridade (tendências satânicas) e o elemento instintivo do
homem (uma vida centrada nos planos terrestre e sensual), a sedução sensível
oposta à harmonia do espírito (Chevalier & Gheerbrant, 1969: 35-37). Tendo
em conta este simbolismo, podemos melhor compreender a expressão "orelhas
de burro" (preferência pelas seduções sensíveis e prazeres sensuais em
oposição à harmonia da alma) que teve a sua origem na lenda do rei Midas.
Podemos pois dizer que as "orelhas de burro" simbolizam a opção
pela sedução dos prazeres e da sensualidade, da vaidade, da impetuosidade
instintiva por oposição à vida espiritual.
As "orelhas de burro" de Pinóquio eram o primeiro sinal da sua
transformação em asno pelo facto dele ter desobedecido à Fada (símbolo dos
poderes paranormais do espírito, encarna os princípios benéficos da imaginação
e da acção e do próprio Apolo) e ter cedido ao convite de Palito (simbolizando
a inconsciência, o devaneio, a Sombra diria Jung, os instintos arrebatados e do
próprio deus Pã) para o acompanhar na sua viagem para a "Terra da
Brincadeira" que era a "melhor terra deste mundo: uma verdadeira
maravilha! (Collodi, 2004: 147). E assim, estava dado o sinal de partida para
que Pinóquio, ao ter recusado a oportunidade que a Fada lhe dava de
transformar-se num "rapaz bem-comportado" e "como deve
ser", se viesse a metamorfosear, à semelhança de Lucius de Apuleio, num
asno:
Daqui a duas ou três horas passarás a ser um burrinho de verdade,
como aqueles que puxam as carroças e levam as couves e as alfaces
para o mercado. […]. E enquanto corriam os braços transformaram-se em
patas, os rostos alongaram-se e transformaram-se em focinhos, e as
costas cobriram-se de uma pelagem acinzentada com manchas pretas. Mas
o momento mais penoso para os dois desgraçados, sabem qual foi? O
momento mais penoso e mais humilhante foi quando sentiram que lhes
estava a nascer a cauda. Vencidos pela vergonha e pelo desgosto,
começaram a chorar e a lamentar-se do seu destino (Collodi, 2004: 160
e 166).
Mas como o "Homenzinho" ("mostrengo horrível") da
"Terra da Brincadeira" era afinal um negociante ávido de lucro não
tardou em vendê-lo no mercado a um director de uma companhia de palhaços e
este, por sua vez, vendeu-o a um comprador que queria fazer da sua "pele
bem dura" um tambor para a banda musical da sua terra (Collodi, 2004:
167-179) e que, finalmente, "em vez de um burrinho morto" acaba por
ver "aparecer à tona de água um boneco vivo que se contorcia como uma
enguia" (2004: 181). Neste contexto, Pinóquio explica ao seu comprador a
sua história:
Pois então fique sabendo que eu era um boneco de madeira como sou
agora, mas estava mais coisa menos coisa para me transformar num
rapaz como há tantos por aí; só que, por causa da minha pouca vontade
de estudar e por dar ouvidos às más companhias, fugi de casa… e um
belo dia, ao acordar, tinha-me tornado um burro com umas grandes
orelhas… e uma grande cauda (2004: 182).
Pinóquio narrador da sua própria metamorfose, enquanto símbolo da sua
transformação em ordem à realização da sua humanização, de asno em boneco de
madeira para em seguida, antes de se transformar em criança, ser engolido pelo
Tubarão o que prefigura o cenário iniciático último da sua transformação em
humano. E aqui surge o sentido profundo da metamorfose que abarca, na sua
complexidade, a figura de Pinóquio enquanto "madeira da
metamorfose", o que significa, portanto, que era "o último nascido
da antiga estirpe de madeira dos homens" (Todini, 1981: 56), e, mais uma
vez, reencontramo-nos com a tradição arcaica de que os homens surgiram das
árvores. Este conjunto de transformações realça a importância da metamorfose
como via de acesso e de realização do Eu e do seu destino: "Só conta a
unidade fundamental do ser. Sem dúvida que é bom passar por diferentes estádios
formais para actualizar todos os seus poderes, desenvolver todas as suas
possibilidades, resumindo: assumir a totalidade do seu eu. Na via do
enriquecimento individual, ou, mais simplesmente, da individualização, a
metamorfose possui um valor educativo" (Bory, 1990: 14).
Como transição para a nossa terceira parte que tratará d'As Aventuras e
Pinóquiona tradição do "romance de formação", não podemos deixar de
realçar o valor formativo da metamorfose na transformação daquele que a
experimenta, bem com na preparação do seu destino. Neste sentido, perguntamo-
nos como poderíamos nós deixar de evocar o conto de Apuleio intitulado O Asno
de Ouro ou as metamorfoses, que esteve sempre presente aquando da nossa leitura
de Pinóquio, especialmente a passagem que relata a metamorfose em asno, para
melhor exprimir o sentido simbólico da iniciação cujos motivos de base são
manifestamente arquetipais. Deste modo, sobre o fundo de Apuleio, vimos que
Pinóquio ao longo da sua condição de asno experienciou como nunca tal tinha
acontecido sentimentos de vergonha e de desgosto que tiveram uma forte
repercussão no processo da sua maturação e consciencialização e que este
manifesta no desespero sentido quando viu as suas orelhas peludas ao espelho:
"oh, que desgraça a minha, que desgraça a minha! - gritou Pinóquio,
agarrando as duas orelhas e puxando-as com raiva tentando arrancá-las, como se
não lhe pertencessem" (Collodi, 2004. 160).
Por outras palavras, Pinóquio, enquanto asno (a Sombra na terminologia
junguiana), à semelhança de Lucius, ia caminhando progressivamente no seu
processo de hominização (domínio do antropológico - Edgar Morin e Gilbert
Durand) e de individuação (domínio do psicológico -Jung). As aventuras de
Pinóquio traduzem bem, especialmente pelos cenários iniciáticos que as pontuam,
uma tradução do seu esforço para se tornar num "belo rapazinho"
(Collodi, 2004: 207). Se nos ativermos ao cenário iniciático que nos tem
ocupado - o do Pinóquio-asno que simboliza o aspeto
"sombrio", ctónico, sexual, mágico da vida, enfim, tudo aquilo que
é da esfera emocional e instintiva (sob o signo da terra com o simbolismo
terrestre que lhe está associado) - vemos que ele preparava já o passo
seguinte da sua iniciação que se desenrolaria sob o signo da água com o
simbolismo aquático que lhe está associado: a devoração de Pinóquio pelo
Tubarão com a respetiva simbologia que lhe está associada. Pinóquio engolido
era como se morresse (morte iniciática) para ressurgir já como um outro (parto
iniciático).
2. As Aventuras de Pinóquio à luz do romance de formação (Bildungsroman)
Pensamos que As Aventuras de Pinóquioganham uma nova aura, ou seja, uma
profundidade pedagógica e simbólica, se forem lidas à maneira de um
"romance de formação" com todas as consequências que uma tal
leitura implica. Se pensarmos no percurso iniciático potencializado e
catalisado pelos cenários de iniciação vividos por Pinóquio, não nos admira de
todo que o seu destino, nesses mesmos cenários prefigurado, fosse de um dia o
boneco de madeira se tornar humano. Pinóquio para se tornar humano teve que
morrer e, consequentemente, abandonar a sua anterior identidade, a de boneco de
madeira, para dessa mesma madeira se metamorfosear em criança de acordo com um
modelo originário de humanidade que ele em germe já de alguma forma
transportava, apenas estimulado pela Fada. E, deste modo, reencontramos o
espírito da Bildung: "morre e devém" de Goethe.
Do "romance de formação"
Florence Bancaud-Maënen salienta que o "romance de formação" é
concebido "como uma biografia estruturada pelas diferentes etapas do
desenvolvimento de um herói, da juventude até à maturidade: o conto abre com a
entrada do protagonista no mundo, depois evoca os acontecimentos marcantes da
sua aprendizagem da vida, pontuados de erros, desilusões e revelações, e acaba
no momento em que, tornado adulto e chegado ao conhecimento de si mesmo e do
seu lugar no mundo, ele pode viver como adulto numa sociedade de adultos"
(1998: 35; Cohn-Plouchart, 1990: 157-169). As características agora esboçadas
aplicam-se globalmente àsAventuras de Pinóquio porquanto estas contêm todos os
elementos necessários para se constituírem enquanto "romance de
formação": o herói, o itinerário iniciático e a realização do destino do
herói. Enfatizando a característica do itinerário, da viagem pontuada de prova
(s)-ções constata-se que é por seu intermédio que o noviço/o postulante ou o
herói realiza o seu destino e se harmoniza com a vida cósmica e social. Espera-
se, portanto, que o futuro iniciado (veja-se o caso de Pinóquio), à medida que
vai percorrendo as várias etapas da sua formação, adquira um sentido profundo
da existência, assim como da sua tarefa no mundo. O mundo-da-vida surge assim
como o verdadeiro Mestre de todo aquele que procura cumprir o seu destino de
acordo, aliás, com o célebre verso de Goethe: "Morre e devém"
publicado na sua Saudade bendita (Selige Sehnsucht de 1814). Toda uma educação
aqui se prepara mediante um longo caminhar feito de erros e de errâncias, mas é
esta realmente a condição das "lições da Vida", que culminarão na
provação última - a morte como re-nascimento, se sobreporem aos meros
conhecimentos escolares e se afirmarem, de facto, como o melhor dos nossos
"anos de aprendizagem" no sentido que estes assumem na obra de
Goethe - Wilhelm Meister Lehrjahre(1795/1796). Os ensinamentos educativos
do "romance de formação" não devem ser confundidos, embora haja um
parentesco assinalável, com os ensinamentos saídos do "romance
pedagógico". Assim, o "romance de formação", ao contrário do
"romance pedagógico" extrema as situações e os limites, privilegia
o símbolo em detrimento da alegoria, coloca em movimento uma onda de metáforas
vivas anunciadoras elas mesmas de novos cânticos simbólicos e míticos. O
"romance de formação" dá conta da vida como ela é, nas suas
sombras, trevas, clareiras e vales de luz, enquanto o "romance
pedagógico" dá conta da vida como uma paisagem ideal, como uma espécie de
manual de instruções de "bons" conselhos pedagógicos. No primeiro
tipo de romance o herói na sua confrontação com a vida vê-se por ela modelado,
já no "romance pedagógico" o herói é mais um figurante que deve
imitar o modelo a seguir.
Assim, no "romance de formação" o sujeito dá sentido e significação
à via-gem que iniciou, de maneira a operar a construção do seu fundamento
humano, ou melhor, da esculpização da "estátua" singular e das
"estátuas" universais que traz dentro de si. Por conseguinte, o
itinerário formativo do indivíduo ocorre no âmbito da sua liberdade, de avanços
e de recuos e visando a construção de uma identidade tantas vezes quebrada.
É, pois, no íntimo do humano que podemos encontrar o seu verdadeiro fundamento,
a singularidade que resultou do esforço de humanização do próprio sujeito. A
formação do homem consiste, deste modo, na formação do fundamento, núcleo vital
onde se funda o homem e a sua humanidade, para se projectar no mundo-da-vida:
este é sempre um mundo que trans-forma (Bildung/Umbildung' Sola, 2003) todo
aquele que a ele se expõe e, por conseguinte, distancia-se de uma concepção que
encara a educação como mera instrução (Erziehung), mesmo que proclamada como
algo de vital para o desenvolvimento das potencialidades do sujeito.
Aquilo que realmente importa destacar, é que as figuras centrais do
"herói", da viagem, da cultura, do Outro, da viagem como destino de
si-mesmo constituem um poderoso leitmotivda natureza do "romance de
formação" e do seu consequente fascínio. Neste sentido, o
"herói" deste tipo de romance não empreende uma viagem pelo mero
gosto de viajar, mas fá-lo por um imperativo ético-ontológico de formação e de
busca da realização e verdade pessoais numa errância de tipo iniciático.
2.1. Pinóquio face ao seu destino
O destino de Pinóquio moldado pela trans-formação assume a dimensão de uma
metamorfose iniciática de carácter psico-ontológico. Este tipo de metamorfose
simboliza a maturação (a regeneração) de Pinóquio na sua via de humanização, ou
seja, tornar-se um rapaz "como deve ser". Porém, para que este
destino fosse cumprido, Pinóquio teve que "morrer" para se tornar
um "menino de verdade" e aqui nos encontramos com o simbolismo da
morte iniciática de que falamos anteriormente.
Esta metamorfose, ou trans-formação, parece-nos ser a condição de Pinóquio
afirmar-se como "soi-même comme un autre" (Ricoeur, 1990; Tavares,
2005: 155-175), ainda que para tal necessite de um Grilo-Falante, de uma Fada,
de uma Raposa, de um Gato enquanto símbolos necessários ao seu processo de
humanização e de maturação que, na terminologia de Carl Gustav Jung,
corresponderia ao Processo de Individuação5. Nesta linha, percebe-se que
Pinóquio, mesmo sem disso ter completa consciência, aspirava à aventura
interior de trans-formar-seem rapazinho mesmo confundindo esse desejo interior
com as suas muito movimentadas aventuras lúdicas. Assim, resolve partir para a
"Terra da Brincadeira" porque Pinóquio, sempre movido por uma
curiosidade inesgotável, sente-se inexoravelmente atraído pelo abismo, pelo
desconhecido, pelo "frisson" da aventura e da felicidade que a
brincadeira sem limites e sem tempo promete. Psicologicamente esta atitude
significa que Pinóquio vive no mundo das emoções e dos instintos, de que a sua
transformação em asno é uma prova. Ao recusar ouvir a voz da
"razão", personificada por Gepeto, pelo Grilo-Falante e,
especialmente, pela Fada Azul-turquesa, o boneco de madeira apenas queria viver
um presente eterno de brincadeira e do êxtase que esta lhe provocava. Pela
diversão na "Terra da brincadeira" (reino da utopia, ou seja, do
não-lugar feliz) Pinóquio esquecia a sua condição de marionete, bem como o seu
desejo de transformação em humano.
Deste modo, aquilo que ele julgava ser uma libertação interior na
despreocupação, um sucesso cor-de-rosa sofreu, como atrás tivemos já
oportunidade de ver, na sua conversão de asno um rude golpe. Apesar do plano de
Gepeto - o de esculpir um boneco de madeira, ainda que belo para uso
lúdico de prover à sua subsistência - o facto é que Pinóquio, desde o seu
"nascimento", ainda que sem disso ter consciência, estava
"talhado"6, não para ser uma simples e vulgar marionete nas mãos do
seu construtor-fazedor (Collodi, 2004: 13-21), mas antes para ser um
"herói" que almejava viver entre os homens como um rapaz e que o
conseguiu graças às suas boas ações e à proteção da Fada azul-turquesa:
Ganha juízo para o futuro e serás feliz. Neste ponto o sonho
terminou, e Pinóquio acordou de olhos arregalados. Agora imaginem
qual não foi o seu espanto quando, ao acordar, percebeu que já não
era um boneco de madeira e que se transformara num rapaz como todos
os outros. […] Depois foi-se ver ao espelho, e pareceu-lhe que era
outro. Já não viu reflectida a imagem habitual do boneco de madeira,
mas sim a imagem viva e inteligente de um belo rapazinho de cabelos
castanhos e olhos azuis, com um ar de Páscoa alegre e festiva (2004:
206-207).
Que cómico que eu era, quando era boneco! E que contente estou agora
por me ter transformado num rapazinho como deve ser! (2004: 208).
E como tal foi possível? Na impossibilidade de eternizar-se na "Terra da
brincadeira" e a sua consequente metamorfose em asno, Pinóquio sofreu uma
espécie de choque que o levou a ultrapassar a sua tendência para a auto-
comiseração e resignação, especialmente no episódio em que ele se salva a si e
a seu pai de morrerem na barriga do Tubarão Átila que constituía uma autêntica
prisão. Uma maior consciencialização que do ponto de vista de Collodi
significava que ele se encontrava cada vez mais "pronto" para se
integrar na sociedade, abdicando de desejos egoístas e sacrificando o seu
potencial individualista, e a sua liberdade entendida como caprichos em nome da
responsabilização e da socialização. Assistimos, deste modo, a uma
reconciliação entre o indivíduo e a sociedade, ou seja, à
"normalidade" fabricada pela Escola.
3. Uma escola fabricante de marionetes
Gepeto, criador de Pinóquio, queixa-se que " ainda a boca não estava
acabada de fazer, quando começou de repente a rir e a fazer troça dele"
(2004:16). Aquele que anseia por assumir a condição humana e viver como um
igual entre os homens, resiste a assumir um comportamento adequado e a
obedecer. Este objeto concebido e fabricado pelo homem parece condenado a ser
manipulado, Pinóquio porta-se como uma marionete. Deixa-se conduzir pelas suas
inclinações, de modo irrefletido, sem consciencializar as consequências das
suas ações. Pinóquio é escravo das emoções e dos instintos, acabando por se
meter em apuros devido às más companhias.
Como a criança que se comporta de modo espontâneo e ignora as regras da
sociedade, também Pinóquio revela a ingenuidade e a inocência da infância,
seguindo por maus caminhos e adotando maus comportamentos. À semelhança da
criança, o boneco é brincalhão, tem bom coração e é afeiçoado ao pai e à
família, mas, por outro lado, não tem juízo, é mentiroso e desobediente.
Necessita, pois, de ser orientado e introduzido na sociedade, tem de aprender
as regras do bom comportamento e os verdadeiros valores. O boneco não pode ser
deixado entregue a si mesmo, ele precisa de ser educado para poder tornar-se um
menino bom. Pinóquio tem problemas para viver e encontrar o bom caminho:
Quantas desgraças me aconteceram! Porque eu sou um boneco teimoso e
casmurro... e quero fazer sempre tudo à minha maneira, sem dar
ouvidos àqueles que me querem bem e têm mil vezes mais juízo do que
eu... Mas a partir de agora faço o propósito de mudar de vida e de me
tornar um rapaz obediente e como deve ser (Collodi, 2004: 89).
Pinóquio está farto de ceder às tentações do imediato e acabar por cair em
sérias dificuldades:
Fiz de mim um mandrião, um vadio; dei ouvidos às más companhias e por
isso a má sorte me persegue sempre. Se tivesse sido um miúdo bem-
comportado como tantos outros, se tivesse querido estudar e trabalhar
[...]. Decide pro-meter à Fada que vais ser bom e estudar, de maneira
a tornar-se um rapaz como deve: Oh, estou farto de ser sempre boneco!
- gritou Pinóquio, dando um murro na cabeça. Acho que já é
tempo de também eu ser um homem. (2004: 94, 116).
Pinóquio cresceu, agora vai de encontro às expectativas dos adultos e reconhece
o valor de ser obediente, trabalhador e, principalmente, a importância da
escola para ser um menino de verdade. Este é o caminho que deverá seguir aquele
que quer ser homem: "eu vou estudar, vou trabalhar, vou fazer tudo o que
me disseres, porque afinal já estou farto da vida de boneco e quero
transformar-me num rapaz custe o que custar" (2004:118), assumir o
trabalho e o estudo, obedecendo à razão legisladora e cumprindo o plano traçado
pela sociedade para "fabricar" homens de verdade: Pinóquio está nas
mãos do seu construtor. Os bonecos podem talvez ser caprichosos, mas os homens
devem guiar-se pelos imperativos da razão. É bom que o boneco aprenda
rapidamente se quer viver entre os homens como um igual.
Neste contexto, partilhamos a interpretação de Ghiraldelli: "Pinóquio só
deixaria de ser um objeto da natureza, um pedaço de madeira, se entrasse para o
lugar que faz a história da infância ocorrer" (2010: 45). Para Collodi a
infância não é encarada como uma fase do desenvolvimento natural do indivíduo,
mas antes algo que está dependente do enquadramento das instituições histórico-
sociais da Modernidade. Assim, a escola assume o papel de transformar um boneco
(indivíduo) num verdadeiro rapaz (cidadão), sem ela somos escravos dos prazeres
e vivemos manipulados pelos outros. A escola funciona como a Fada que atribui o
estatuto da infância à criança e lhe possibilita a formação como pessoa. Deste
modo, Collodi assume o ideal pedagógico da época moderna e confia na capacidade
infinita da escola e da pedagogia para promover o conhecimento e o
aperfeiçoamento moral, possibilitando a articulação entre o indivíduo e a
sociedade.
Conclusão
Em As Aventuras de Pinóquio, Collodi manifesta uma ideia de formação que
ilustra a conceção Moderna acerca do homem e da educação. Trata-se de afirmar a
crença no progresso e na perfectibilidade do ser humano, bem como no poder da
escola para moldar o indivíduo de modo a integrar uma sociedade harmónica.
Aquele que aspira ao estatuto de pessoa (cidadão) tem de enfrentar as provações
da iniciação enquanto rito de passagem para uma nova condição. A metamorfose
iniciática transforma Pinóquio em asno (símbolo da ignorância e da obscuridade)
de modo a confrontá-lo com o mundo-da-vida e a possibilitar que o nosso herói
retire sentido e significação de uma aprendizagem pelo sofrimento, resultando
numa descoberta do mundo e de si próprio.
Contudo, esta visão da formação estabeleceu uma divisão entre os homens,
aqueles que fazem e aqueles que "são feitos", os escultores e os
esculpidos, os professores e os alunos: "A mesma divisão constituiu os
pensadores, os cultos, os instruídos como professores e mentores morais [...]
Por fim, constituiu o mundo como o teatro do seu encontro: reino da
socialização, educação, ensino e aprendizagem" (1998: 162). Deste modo, a
escola, deve moldar o indivíduo mediante um planeamento racional, eliminando o
livre-arbítrio e refreando os instintos, no sentido de formar os cidadãos de
uma sociedade planificada e racionalizada. De imediato, levanta-se a questão:
será que numa sociedade escolarizada há espaço para que o sujeito viva o seu
"romance de formação"? E, consequentemente, possa cumprir a
sentença de Píndaro: "Homem, torna-te o que és".
No teatro do mundo, concebido pela Modernidade, o aluno torna-se uma espécie de
marionete cuja finalidade é obedecer de acordo com planos previamente
delineados pelos diversos "aparelhos ideológicos do Estado" (Louis
Althusser) sob o signo da linearidade, da conformidade e da estandardização e
sob o olhar atento do par progresso-perfectibilidade. Mas, este ideal moderno
entrou em declínio com o advento da pós-modernidade que alterou profundamente o
modo de olhar a educação e a Escola (Ribeiro, 2012).
Na perspetiva de Rubem Alves, a educação tipo linha de montagem tem de ser
substituída já que conduz a uma história de Pinóquio às avessas:
"contando sobre o destino invertido daqueles que eram de carne e osso ao
entrar para a escola e só receberam diplomas depois de se transformarem em
bonecos de pau" (2000: 200) e, em tom irónico, o autor acrescenta:
"É preciso ir para a escola, todos os meninos vão. Para se transformarem
em gente. Deixar as coisas de criança. Em cada criança brincante dorme um
adulto produtivo. É preciso que o adulto produtivo devore a criança
inútil" (2000: 207). O autor aponta para o perigo que correm as nossas
crianças ao ingressarem em escolas que não consideram o seu potencial e as suas
capacidades individuais e criativas, mas antes tentam enquadrá-las num sistema
educacional rígido, formatado e sempre desconfiado do poder da imaginação. O
conto é, portanto, apresentado "às avessas" para provocar uma
reflexão que suscite mudanças significativas em favor de uma educação que
preserve na criança - no ser humano - a capacidade de sonhar, de
ser criativa, de transformar e de se realizar.
Face ao exposto, e para contrariar a escola como linha de montagem, apela-se
para que o "novo espírito pedagógico" (Bruno Duborgel) conjugue
pensamento e imaginação e ajude a caminhar no sentido de promover uma formação
integral do homem assente no humanismo planetário e arquetipal, bem como numa
"ética do pluralismo coerente" (Durand, 1980).