Fatores intraescolares associados ao abandono escolar no Chile: um estudo de
caso
1. Introdução
De acordo com algumas projeções da Comissão Económica para a América Latina e
as Caraíbas (CEPAL, 2005), em países como Argentina, Chile, Colombia, Equador,
México, Panamá, Perú e Uruguai, pelo menos 95% das crianças que atualmente têm
menos de cinco anos de idade concluirão a educação básica ou primária no ano
2015. São precisamente estes países que mais próximos estão da meta traçada
pelo refererido organismo.
No Chile, os números oficiais sobre o abandono escolar na educação básica
indicam que este praticamente não existe, sendo de 99,5% a cobertura nacional
ao nível da escola primária. Não obstante, quando estes números se analisam
detalhadamente pode observar-se que na quinta parte das crianças mais pobres, a
cobertura diminui até aos 98,5% e que, no período 1992-2002, somente 83,5%
conseguiu entrar neste ciclo de ensino, nos 10 anos alvo de estudo, segundo a
Associação Chilena Pró-Nações Unidas [ACHNU], 2006. Por isso, 16,5% do total
dos alunos não terminou sequer a educação básica. Esta percentagem não é
distribuída aleatoriamente, dado que são os grupos mais pobres e excluídos que
mais sofrem este problema (Espíndola e León, 2002).
O vínculo existente entre pobreza, exclusão e abandono escolar obriga a
recolocar este tema na agenda das políticas educativas, considerando que a
educação continua a não ser apenas um dos mecanismos fundamentais de inclusão
social das pessoas, e portanto, um direito humano básico, como é também um meio
que habilita os sujeitos para um exercicío mais amplo dos seus direitos. De
facto, quem atualmente não possui a educação básica completa está praticamente
excluído de todas as instituições sociais, culturais, políticas e económicas.
No Chile, as percentagens de abandono são marginais, no caso dos sectores mais
vulneráveis, os números mostram que em cada ano que passa aumenta o número de
crianças e jovens que desenvolvem fora da escola outro tipo de vida cívica que
foi definida pelas sociedades democráticas.
Sem dúvida que esta situação requer um conjunto de intervenções integradas que
forneçam respostas diversificadas e sequenciais que favoreçam o reencontro com
a educação, nomeadamente a sua eventual reincorporação no sistema educativo
formal, através de ofertas educativas especializadas, com vista a atingir o
objetivo de 12 anos de escolaridade, já que é este o compromisso do Estado
Chileno. A possibilidade de sucesso das referidas intervenções radica na
correcta identificação dos fatores que levam crianças e jovens a abandonar a
escola. Por este motivo, é necessário o aprofundamento das investigações
relativas ao fenómeno do abandono e retenção escolares, que adquirem uma
importância fundamental.
Nesta perspetiva, e considerada a importância do problema em questão, este
trabalho tem como objectivo principal identificar - a partir das próprias
experiências e perceções dos alunos que desistem da escola e das respetivas
famílias - os fatores de caráter intraescolar que, comparativamente, têm
uma maior incidência no abandono escolar no ciclo primário das crianças de
Cerro Navia, um sector da cidade de Santiago do Chile, caracterizado por
elevados níveis de pobreza.
Este artigo está dividido em quatro partes. Na primeira parte, fazemos uma
revisão da literatura considerada relevante acerca do abandono escolar,
elegendo os factores intraescolares como questão principal. O abandono escolar
constitui um problema que não pode ser compreendido na sua totalidade, se não
se atender a uma multiplicidade de factores que o influenciam. Neste estudo,
optámos por abordar somente o grupo de variáveis endógenas à escola devido à
considerável atenção que recebeu por parte da literatura especializada. Este
tipo de estratégia permite, através de um conceito deitinerário educativo,
identificar e descrever com maior acuidade os fatores que têm maior peso na
explicação sobre o abandono num setor urbano vulnerável como é o Cerro Navia.
Na segunda parte, expomos sucintamente a metodologia utilizada no estudo,
caracterizando simultaneamente esta região da cidade de Santiago. Na terceira
parte, apresentamos os principais resultados da investigação, focando-se as
variáveis intraescolares. No final, apresentamos as conclusões.
2.Fatores intraescolares que influenciam o abandono escolar
O abandono é um proceso de alheamento paulatino de um espaço quotidiano -
como é a escola - que implica o abandono de certos rituais pessoais e
familiares que incidem no desenvolvimento da identidade e na projeção pessoal
de uma criança (Comissão Intersectorial de Reinserção Educativa, 2006).
Os fatores que estão na origem do abandono escolar costumam agrupar-se em dois
grandes grupos interpretativos, cuja ênfase está em variáveis de índole
"intraescolar" e "extraescolar", respetivamente. No
primeiro, que constitui o enfoque deste artigo, são assinalados os problemas de
conduta, o baixo rendimento escolar, o autoritarismo docente e o
"adultocentrismo", entre outros fatores, que seriam as principais
causas que desencadeiam o abandono escolar precoce (Espinoza, et. al., 2010;
Marshall, 2003; Rumberger e Lim, 2008). Vários estudos defendem que a escola
"fabrica" o fracasso escolar de muitas das suas crianças e jovens.
Com esta premissa, pretende-se indicar que a perda de valores, atribuída à
assistência e permanência num estabelecimento educativo, também está
relacionada com o que acontece dentro da própria escola. Não são somente as
crianças e jovens que, pelo seu desenvolvimento pessoal, perdem o interesse por
assistir à escola, mas esta, de alguma forma, também os "expulsa "
(Rumberger, 2001; Raczinsky, 2002; Schkolnik e Del Río, 2002). Assim, a
repetênica, as expulsões e a idade acima da média dos alunos que frequentam
determinado ano, são como as ante-câmaras do abandono definitivo sendo
notoriamente as mais frequentes nas instituições educativas frequentadas por
crianças e jovens provenientes de sectores sócio-económicos mais baixos
(Dazarola, 2001; Fiabane, 2002).
Rumberger (1987) indicou que as variáveis intraescolares receberam uma atenção
considerável, já que muitos destes fatores se prestam mais facilmente à
manipulação visando mitigar o problema do abandono escolar. Certo é que existe
uma ampla gama de estudos que fornecem provas empíricas cuja maior
probabilidade de abandono escolar está associada a fatores intraescolares ,
tais como: o baixo rendimento escolar (Balfanz, Herzog y Mac Iver, 2007), a
elevada mobilidade estudantil (Ream, 2005; Ream e Rumberger, 2008), a
repetência (Roderick, 1995; Jimerson, Anderson e Whipple, 2002) e idade acima
da média dos alunos que frequentam determinado ano (Roderick, 1994), assim como
a combinação de estas e outras variáveis (Rumberger, 1995; Goldschmidt e Wang,
1999; Croninger e Lee, 2000; Cabrera e La Nasa, 2001).
Juntamente com estes fatores de ordem intraescolar existem outros mais
vinculados aos comportamentos dos estudantes no interior da escola. Como
fatores determinantes de taxas de abandono mais elevadas, são mencionados
comportamentos como o absentismo e a baixa participação nas actividades
extracurriculares (McNeal, 1995; Yin e Moore, 2004) - ambos indicadores de um
escasso compromisso com a vida escolar, - e o comportamento desviante e as más
relações com professores e colegas de escola (Cairns, Cairns e Neckerman, 1989;
Ou, Mersky, Reynolds e Kohler, 2007).
Dentro do mesmo âmbito das variáveis intraescolares existem estudos que
demonstram a importância dos estabelecimentos escolares como um elemento que se
transforma em fator de expulsão (Rumberger, 2001; Rumberger e Lim, 2008). Como
bem assinala Rumberger (1987), os fatores escolares que prevêem o abandono não
se relacionam somente com o comportamento ou rendimento dos estudantes na
escola, mas também se podem referir à incidência das escolas sobre a decisão de
abandono ou permanência no sistema escolar. Esta perspetiva ocupa-se das
características e condições existentes nas escolas que reduzem ou dão lugar ao
abandono, algumas das quais estão "dadas" pelos estabelecimentos
escolares e não são por isso de todo controláveis - como a composição
social (nível sócio-económico médio dos estudantes, proporção de estudantes
vulneráveis, etc.), a sua estrutura (localização, tamanho, carácter público ou
privado, etc.) e os seus recursos (Rumberger e Thomas, 2000; Lee y Burkam,
2003; Rumberger e Palardy, 2005; Finn, Gerber e Boyd-Zaharias, 2005), -
enquanto que outras se prestam à intervenção das escolas, tal como as práticas
escolares.
Em relação a este último aspeto, Rumberger (2001) e Rumberger e Lim (2008)
destacam que as práticas escolares afectam o abandono de maneira indireta, na
medida em que podem contribuir para a decisão "voluntária" de
abandonar a escola por parte dos estudantes, afetando as condições que os
mantêm comprometidos com ela. Outra forma de influência é aquela que a escola
exerce de maneira direta, onde o abandono escolar é "involuntário"
e iniciado pela própria instituição através de ações punitivas - tais
como a suspensão, expulsão ou transferência - que castigam o mau
rendimento escolar, o baixo nível de assitência às aulas e os problemas
disciplinares dos estudantes (Bowditch,1993). Um aspeto relativo às práticas e
processos escolares que provou ser eficaz na redução das taxas de abandono
escolar tem a ver com a generalização de um ambiente escolar positivo,
caracterizado, entre outras coisas, pelas boas relações entre os próprios
estudantes entre si e entre estes e os seus professores (Bryk e Thum, 1989;
Croninger e Lee, 2001; Worrell e Hale, 2001; Elmore, 2004; Rumberger y Palardy,
2005; Hoy, Tarter e Hoy, 2006).
3.Metodologia
Este trabalho conta com a participação de vinte escolas primárias de Cerro
Navia, situada na Região Metropolitana de Santiago, Chile. Está localizada no
setor poente da cidade de Santiago, e segundo o último censo de abril de 2002,
a sua população era de 148.312 habitantes. Em comparação com outras zonas do
país, Cerro Navia tem um alto nível de pobreza: de acordo com os dados da
Encuesta de Caracterización Socioeconómica (CASEN) de 2006, 17,5% da sua
população encontrava-se nesta situação, percentagem superior à registada tanto
a nível nacional como metropolitano.
Para cumprir o seu objetivo central, neste estudo trabalhou-se com um registo
correspondente à parte dos alunos que abandonaram a educação básica de Cerro
Navia entre 2006 e 2008. A amostra dos alunos que abandonaram a escola obteve-
se mediante a elaboração de "cadastro" construído a partir da
consulta dos livros de ponto, nos quais se regista periodicamente a assistência
dos alunos às aulas.
A investigação iniciou-se com a construção de duas amostras, uma de crianças
que abandonaram a escola no período de 2006-2008 e outra de crianças que
permaneceram nela no ano de 2008. Foram aplicadas entrevistas semi-
estruturadas a ambos os grupos de menores, embora, devido às limitações
próprias da idade, muitos deles tiveram de ser entrevistados em conjuntos com
os seus tutores ou encarregados de educação. No total foram entrevistados 25
alunos que abandonaram a escola e igual número de alunos que nela permaneceram,
com idêntica condição sócio-económica e das mesmas escolas. A informação
qualitativa foi analisada segundo os princípios de análise do discurso (Dijk,
1980; Fairclough, 2003), identificando-se nos relatos as vivências escolares
que cruzam os relatos de ambos os grupos.
4.Resultados
Nesta parte do trabalho, apresenta-se de forma descritiva a informação
sistematizada da perceção dos própios menores, assim como das suas famílias em
relação aos fatores de abando escolar e permanência dos alunos nas escolas
municipais de Cerro Navia. Destacam-se os fatores de carácter intraescolar , ou
seja, aqueles que cabem dentro dos itinerários educativos das diferentes
crianças e jovens entrevistados, sublinhando-se as semelhanças e diferenças
existentes nestas trajectórias entre os alunos que abandonaram e não
abandonaram a escola e as razões declaradas por parte dos próprios e respetivas
famílias.
4.1. Itinerários educativos dos alunos que abandonam a escola e dos que nela
permanecem
4.1.1. Baixo rendimento, desmotivação, problemas de comportamento e mudanças
contínuas de escola
De uma forma geral, quem abandona a escola revela um grande atraso escolar e
não recebeu o apoio necessário, seja no ambiente familiar seja na escola. Entre
os entrevistados encontraram-se casos de alunos que abandonaram a escola antes
de concluir o ensino básico e que já tinham reprovado por três vezes, enquanto
outros por duas. Assim, dois terços dos que abandonaram a escola estavam
atrasados em termos escolares pelo menos um ano. Estes fenómenos de atraso
escolar agravam-se pela existência de problemas de comportamento ou
desmotivação. As famílias e as próprias escolas parecem não ter disponíveis as
ferramentas necessárias para travar esta escalada.
Na maior parte dos casos o abandono escolar costuma originar-se lentamente,
principalmente, no momento em que os menores estão a entrar na adolescência, e
se encontram a frequentar o mesmo ano juntamente com crianças de menor idade. A
perda do seu grupo natural de pares torna mais complexa a convivência
quotidiana no estabelecimento educativo, podendo debilitar a convicção de
permanecer na escola. Para muitos dos pais este tipo de situações explica o
aparecimento de fenómenos de desmotivação e de maior conflituosidade, o que
conduz, no final, ao abandono escolar, tal como se ilustra neste testemunho:
"Dava-se bem com as colegas, mas cada vez que repetia de ano,
procurava os colegas do primeiro ano do ensino básico, mas no ano em
que estava a repetir nunca partilhou brincadeiras com os seus colegas
e começaram a pô-la de parte.."
(Mãe de Aurora Torres, aluna que abandonou a escola )
Deste modo, as entrevistas revelam um resultado muito claro, assinalando que o
rendimento escolar dos menores que abandonam a escola costuma ser deficiente.
Na maioria dos casos, estas dificuldades escolares arrastam-se ao longo dos
anos, nalgumas ocasiões desde o começo da educação básica. Este tipo de
dificuldades são mencionadas pelos pais de modo genérico, enfantizando que às
crianças em questão sempre lhes custou a adaptação no âmbito escolar. Nas
entrevistas não se indicam as ações sistemáticas por parte das escolas ou das
próprias famílias que tendem a mitigar o descontentamento que os seus filhos
vão acumulando. As referências a este respeito costumam ser pouco
significativas e isoladas, muitas vezes vinculadas à ação concreta de algum
professor.
De uma forma geral, observa-se que a maior parte dos pais ou adultos que têm a
cargo estas crianças parecem ter poucas ferramentas para fazer frente à
emergência destas dificuldades escolares severas na vida dos menores. Assim
sendo, o baixo rendimento escolar é uma condição que está presente no
itinerário da maioria dos jovens que a abandonam. Nalguns casos, os menores
tiveram uma trajetória escolar normal, até que num momento específico começaram
a surgir problemas. Acontecimentos que podem desencadear este tipo de processos
são a mudança de escola, problemas com algum professor, mudanças de turma ou
crises familiares, somente para nomear agumas das razões mencionadas nas
entrevistas como fatores que propiciam processos de abandono do sistema
escolar.
De uma forma geral, os adultos não se apercebem, atempadamente, das
dificuldades escolares ou desânimo face ao mundo escolar das crianças e jovens.
Devido à informação veiculada pelas entrevistas, sabe-se que a maior parte das
famílias tem escassas competências para poder detetar este tipo de problemas,
seja pelo facto de se arrastarem há bastante tempo ou terem surgido em momentos
de crise. Neste sentido, por exemplo, são escassas as propostas de solução para
estas situações de atraso escolar. Esta condição costuma ser ignorada por
bastante tempo, ou não é dimensionada de forma apropriada pelas escolas e pelos
familiares. Esta situação vê-se agravada pelo fato de a maioria dos pais e
familiares desses menores não possuir capital cultural suficiente para apoiar
de forma adequada os seus filhos. Dada a sua condição sócio-económica, os pais
dizem não ter recorrido a especialistas externos para os ajudarem a resolver as
dificuldades. Nestes casos, os adultos só mencionam a ajuda de psiciólogos da
escola e a atenção mais personalizada por parte de alguns professores. De fato,
muitos dos alunos que abandonaram a escola receberam este tipo de ajuda
especializada, o que não parece ter sido suficiente para os mesmos.
Tal como se referiu antes, nem todos os alunos que abandonaram a escola
correspondem ao perfil de aluno com um historial de reprovação e consequente
repetição do ano e dificuldades escolares. Nem todos os que repetem o ano
acabam por abandonar a escola. Para além disso, cabe destacar que uma parte dos
que não abandonam tem trajetórias escolares semelhantes aos que abandonam.
Inclusivamente, em algumas ocasiões observam-se problemas de comportamento,
repetência de ano e desinteresse no estudo. No entanto, esta situação não
constitui um caso típico dos que se encontram entre os estudantes
entrevistados. Em termos gerais, estes demonstram melhor rendimento, e ainda
que alguns tenham repetido um ano escolar, não o fazem com a mesma frequência
que se verifica entre os que a abandonam.
Uma característica a destacar dentro do grupo de estudantes vulneráveis (que
não abandonaram a escola), é o fato de as suas famílias demonstrarem um maior
interesse e apoio quando os menores atravessam dificuldades escolares. Várias
das famílias estudadas mostram um maior compromisso com as crianças e jovens a
seu cargo que permanecem na escola, assim como com os seus deveres escolares. A
ajuda por parte da família somente em algumas ocasiões é realizada por um
familiar direto, na maior parte dos casos é pela mãe. Deve ter-se em linha de
conta a que estrutura familiar a que nos referimos é heterogénea em termos de
composição; por isso em muitos casos é um dos integrantes da família alargada
quem pode ajudar o menor durante o dia. Este fato pode ser determinante para a
permanência do jovem no sistema escolar.
Outro dos aspetos que se destacam no grupo dos alunos que abandonaram a escola
é a frequente mudança de estabelecimento de ensino. Este fato deve-se
basicamente às consecutivas repetições de ano e expulsões que sofrem os jovens,
se bem que, em menor medida, se geram conflitos dos pais com algum professor ou
ainda devido a mudanças de residência. Poucos pais referem como causa da
mudança de estabelecimento escolar o descontentamento com a qualidade da
educação dada na escola em concreto.
Nos casos dos dos alunos que abandonaram a escola, a expulsão pode despoletar
uma "peregrinação" dos alunos por várias escolas. Cada nova expulsão
gera novas dificuldades para encontrar um novo estabelecimento escolar. O
desejo dos pais de encontrar uma "boa escola", acaba por não surtir
efeito devido à não receptividade das escolas para com alunos com um historial
de repetência de anos e/ou expulsões. O relatório escolar e comportamental
emitido pela última escola frequentada pelo menor, faz com que seja cada vez
mais difícil encontrar um lugar dentro do sistema escolar. Os pais têm, em
geral, uma opinião negativa dos estabelecimentos da zona, e a procura de novas
escolas para os seus filhos costuma reduzir-se a uma zona de residência ou
próxima da mesma. De acordo com a informação extraída das entrevistas, muitas
das escolas não recebem alunos repetentes ou com um historial de conduta
desviante. Outras, na medida em que lhes é possível, vão-se
"desfazendo" dos alunos mais conflituosos.
O contínuo "trânsito" por diferentes escolas é uma característica dos
alunos que abandonam a escola. De uma forma geral, passar de um estabelecimento
para outro significa o início das dificuldades escolares ou de comportamento.
Tal como se referiu, esta mudança pode dever-se à expulsão ou ao cancelamento
da matrícula, mas também pode provir de situações que atormentam os alunos,
como o abuso por parte dos colegas e/ou algum professor.
Em termos gerais, a trajetória escolar do grupo de alunos que abandonam a
escola costuma ser mais complexa do que a desenvolvida pelo grupo de crianças e
jovens que permanecem no sistema escolar. No caso destes últimos, observase que
alguns repetem de ano, outros mudam de escola, mas sem a mesma frequência que
se observa no primeiro grupo. Alguns dos estudantes, no entanto, parecem
partilhar trajetórias semelhantes com alunos que abandonaram, pelosmenos alguns
aspetos; mas em boa parte destes casos observa-se como a ação de certos adultos
- muitas vezes avós ou outros familiares próximos - parecem ter
exercido uma ação protetora. Entre os alunos que abandonam a escola, por sua
vez, constata-se que existe uma semelhança significativa nas suas trajetórias
escolares. As características mais relevantes parecem ser a geração de atraso
escolar, a experiência de situações de expulsão e a dificuldade em enraizar-se
num estabelecimento de ensino concreto. Poucos alunos que abandonaram a escola
parecem ter uma trajetória escolar normal, que correspondem, pelo menos na
amostra seleccionada, a processos de abando escolar desencadeados por motivos
de saúde ou gravidez. Isto é, subjetivamente a decisão parece imposta, aqui,
por um agente externo e não constitui uma acumulação de eventos escolares.
4.1.2. As relações com os Professores
De uma forma geral, pode afirmar-se que os menores de ambos os grupos em estudo
estabelecem relações semelhantes com os seus docentes. Em ambos os grupos são
mencionadas situações de conflito, afeto, distância e/ou proteção. Na
realidade, o mesmo jovem pode estabelecer diferentes relações com diferentes
adultos na escola, por isso são frequentes as considerações tanto positivas
como negativas.
A maior parte dos menores de ambos os grupos são capazes de identificar
experiências positivas na sua passagem pelo sistema escolar. Mas é preciso
destacar que, quando se trata do grupo dos que abandonam a escola, estes não
costumam referir-se à sua última experiência escolar, mas tende a ser uma
situação prévia, estando, discursivamente, nos antípodas de uma má experiência.
Deste modo, as referências positivas a docentes específicos e, em algumas
ocasiões do conjunto de professores de uma determinada escola, dão-se com
relativa frequência nas famílias e menores de ambos os grupos. São abundantes
quando o menor está nos primeiros anos da educação básica ou quando recordam os
professores que tiveram nesses níveis de ensino. Os juízos de valor positivos
também se apresentam quando a família sente que o docente se preocupa com as
crianças; isto é, quando percebem que os professores e outros adultos da escola
manifestam afeto, interesse pela aprendizagem do menor e a preocupação por
explicar bem as matérias. As reações dos familiares costumam ser positivas.
Há que destacar que nalguns casos os entrevistados apontam para uma quebra nas
relações com o estabelecimento escolar, que muitas vezes está vinculada a uma
mudança da estrutura diretiva e à rotatividade dos professores. Este tipo de
situações são mencionadas com mais frequência pelos alunos que abandonam a
escolas e seus educadores.
Para além das entrevistas em que se registam opiniões positivas sobre os
professores, o certo é que tanto estudantes como os que abandonam a escola
afirmam ter sofrido algum tipo de maltrato físico ou psicológico por parte de
algum docente no âmbito da sua vida escolar. Nas entrevistas são mencionadas
diferentes situações de violência para com os menores, sistemática ou
ocasional. Em certos casos o conflito atinge uma tal intensidade que gera uma
resposta agressiva por parte do menor para com os docentes, alcançando,
inclusivamente, a violência física.
"…uma professora (…) arranhou-me com as unhas compridas,
apertou-me e tirou-me os cadernos, pôs-me fora da sala de aula,
insultando-me e gritando (...) zanguei-me e atirei-lhe uma pedra ao
para-brisas do carro(...) Depois não me deixou entrar na sala de
aula"
(Claudio Salinas, abandonou a escola)
Em suma, não se verificam diferenças significativas entre ambos os grupos no
que diz respeito às suas relações com os professores. Aqui as experiências
ambivalentes parecem ser a nota dominante, isto é, apresentam-se aspectos tanto
positivos como negativos no vínculo entre menores e docentes, sendo mais
recorrente nas crianças que não abandonaram ao referir-se à existência de
adultos no mundo escolar que são importantes no seu dia-a-dia.
4.1.3. As relações com os colegas
Tanto os estudantes como os que abandonaram a escola valorizam de forma
ambivalente a relação com os colegas. Por um lado, alguns estudantes e suas
famílias entendem a experiência escolar como agradável e positiva, devido à
possibilidade de inter-relação com as amizades e os colegas. Assim, no caso de
alguns alunos que abandonaram a escola a sua recordação positiva costuma estar
associada ao grupo de colegas, ainda que esta não tivesse sido um fator
protetor suficientemente forte.
Esta dimensão de sociabilidade da escola costuma ser mais valorizada pelos
estudantes do que pelos familiares dos mesmos, que responsabilizam as amizades
dos seus filhos de problemas pontuais que estes possam vir a ter. Noutros
casos, os estudantes e alunos que abandonaram a escola declaram manter más
relações com os seus colegas de turma, existindo situações de violência e
assédio ou bullying que podem desencadear o abandono escolar, como por exemplo
neste testemunho:
"Duas (alunas) eram mais altas e a outra era da minha altura
(...) eram como que invejosas, quando eu passava elas empurravam-me e
insultavam-me, diziam que me iam matar."
(Catalina Villela, estudante)
A maior parte dos pais e adultos não refere as amizades feitas nos
estabelecimentos escolares. Pelo contrário, muitas vezes as suas opiniões são
negativas, parecendo-se às considerações que emitem sobre os amigos dos seus
filhos do bairro onde vivem. O temor das más companhias é um item recorrente no
discurso dos pais. Desta forma, está presente a perceção de que o mau ambiente
da escola pode contagiar os menores, razão pela qual mudam os filhos de escola.
Por outro lado, também existe o discurso positivo, e a construção de relações
de amizade por parte do menor constitui uma forma de motivá-lo a assistir à
escola.
Resumindo, a experiência escolar dos alunos em relação aos colegas costuma ser,
na maioria dos casos, positiva, não se registando diferenças significativas
entre ambos os grupos de menores entrevistados. Apesar do exposto, alguns
processos de abandono escolar são desencadeados por situações de abuso e maus
tratos por parte dos colegas.
4.2. Fatores intraescolares que explicam o abandono escolar
4.2.1. O mau ambiente na escola
Alguns dos menores que abandonaram a escola tiveram uma experiência
particularmente violenta e ameaçadora, o que se transforma na causa fundamental
do seu abandono. É um fenómeno que se verifica tanto em rapazes como raparigas,
ainda que com rasgos distintos num e outro grupo. No caso dos homens, por
exemplo, observam-se maiores quotas de violência física, enquanto que nas
mulheres, ainda que a violência não esteja ausente, há uma maior prevalência
daquilo a que a literatura denomina bullying. Neste sentido, o ambiente da
escola pode ser um fator que propicia a expulsão se é entendido - o
ambiente escolar - como um espaço que ampara a agressividade e a
violência e onde os estudantes se sentem indefesos e desprotegidos perante
possíveis ameaças dos colegas ou dos próprios professores.
Para os alunos que abandonaram a escola e suas famílias, as situações de
violência têm muitas vezes uma origem externa à escola. Para eles, o setor onde
está situado o estabelecimento ou os grupos formados no espaço social externo,
e muitas vezes contíguo à escola, constituem uma ameaça direta à integridade
dos seus filhos. De uma forma geral, esta situação é agravada pelo consumo e
tráfico de drogas. A opção que alguns pais tomam perante estas situações que
consideram extremas é a de não deixar os filhos frequentar a escola. Nalguns
casos esta decisão temporal pode adquirir caráter permanente, como se constata
no seguinte testemunho:
"Ele teve um problema pontual por defender uma criança mais
pequena e ameaçaram-no, porque eles andam com facas e até com
pistolas. (…) Depois já não quis que ele fosse à escola porque são
bastante periogosos."
(Mãe de Ramón Meneses, abandonou a escola)
O mau ambiente da escola como causa do processo de abandono escolar também pode
ter uma origem interna nos estabelecimentos de ensino. Trata-se de conflitos ou
grupos que não existem a priori na escola, mas que se vão constituindo e
formando no interior da mesma. Uma das expressões extremas deste tipo de
conflitos é o fenómeno do bullying. Em muitos menores verificam-se casos de
abandono de ambos os sexos devido a violência entre colegas ou docentes, mas
somente uma parte chega a abandonar o sistema escolar devido a este tipo de
caso.
Os adultos entrevistados afirmam que a escola, os seus professores e pessoal da
direção costumam tomar muito poucas medidas para evitar este tipo de situações
de violencia física e psicológica que estão na base da abandono escolar de
alguns menores. Este tipo de acontecimentos pode reforçar o déficit escolar e
de socialização destas crianças, aumentando o isolamento e propiciar o
abandono. Na maior parte destes casos, a decisão de deixar a escola é tomada
pelo adulto responsável pelo menor.
4.2.2. Mau comportamento na escola
Uma das causas frequentemente apontadas para o abandono do sistema escolar é o
mau comportamento sistemático dos menores. Este fato está associado à expulsão
por parte de diferentes escolas e com a crescente dificuldade dos pais para
encontrar uma nova escola. Trata-se de um processo de expulsão cuja
responsabilidade é do sistema escolar, onde se fecham as portas do mesmo aos
menores cujo historial é negativo. A possibilidade de selecionar alunos é uma
prática aceite nos centros educativos chilenos.
O mau comportamento dos alunos tende a agravar-se com o passar do tempo,
somando-se a má disposição dos alunos em relação a certas rotinas escolares e
problemas com colegas ou professores, tal como se observa no seguinte
testemunho:
"No meio do ano deixou a escola. É desordenado, expulsam-no de
todas as escolas. (...) Troça de toda a gente e de todos os
miúdos."
(Mãe de Héctor Salazar, abandonou a escola)
4.2.3. Problemas graves com os professores
Outro dos aspetos que explica o fenómeno do abandono escolar deve-se à
existência de conflitos - de diferente magnitude - com os docentes
ou diretores das escolas. Este tipo de processos de abandono pode estar
associado a outros fatores, como a crescente distância que se estabelece entre
o jovem e a cultura escolar. Tudo isto é agravado pela dificuldade de
estabelecer relações de confiança e proximidade significativas com os adultos
da escola.
"Na Escola 241 não o ajudaram em nada. O diretor não queria
saber de nada. A professora de Religião deu uma bofetada ao Felipe,
chamou-lhe ladrão em frente da turma, ele ficou nervoso e com o cabo
de uma vassoura bateu na professora. (…) Tirámo-lo da escola porque
se punha doente e tinha problemas com o diretor. Optei por retirá-lo
da escola porque não queria que se passassem coisas piores."
(Mãe de Jorge Reyes, abandonou a escola)
4.2.4. Rotina escolar e processos de aprendizagem
Um dos fatores que mais frequentemente se aponta para explicar as origens da
abandono escolar é o desinteresse e aborrecimento com as rotinas próprias da
instituição escolar e com as atividades pedagógicas básicas da escola. Este
tipo de causas tende a estar associado a trajetórias educativas difíceis, onde
se verificaram fenómenos de repetição de ano ou mudanças frequentes de escola,
tal como se pode ver através deste testemunho.
"Eu deixei de ir à escola porque adormecia na sala de aula, não
fazia os deveres, aborrecia-me e era bastante desordenado."
(Carlos Durán, abandonou a escola)
Este fator propriamente escolar tem uma elevada incidência no caso dos menores
com problemas de comportamento ou idade não correspondente ao ano que
frequentam. A decisão de abandonar a escola costuma ser feita pelos próprios
menores. Noutros casos, esta resistência é mais ativa e assume um discurso
sumamente crítico com o tipo de ensino e didática da escola.
5.Conclusões
A maioria dos que abandonam a escola evidencia uma trajetória educativa
complexa, que costuma distanciar-se, à medida que o tempo passa, do que se pode
considerar um itinerário normalizado. Nem todos os que abandonam a escola têm
um percurso semelhante, mas há rasgos comuns, que importa destacar. No caso dos
estudantes, como seria de esperar, o percurso educativo tem menos sobressaltos,
ainda quando se identificam, na sua trajetória, alguns fatores semelhantes aos
dos abandonam a escola.
A maioria dos que abandonam a escola tem um percurso caracterizado por
repetições de ano, mau rendimento escolar, mau comportamento, ausências
frequentes às aulas e mudanças sucessivas de escola. Nestas situações
constatou-se uma fraca capacidade das famílias e das escolas para enfrentar as
dificuldades. Tal como se observou, no caso de muitos alunos que abandonam a
escola, a resposta da instituição escolar costuma ser a expulsão e/ou a
proibição de inscrição daqueles alunos considerados difíceis.
No grupo de estudantes também se observou que muitos tinham dificuldades
escolares ou familiares relevantes, nalguns casos de magnitude semelhante ao
grupo dos alunos que abandonaram a escola. No entanto, nestes casos não se
verificou - até ao momento da entrevista - o abandono da escola, o
que se pode atribuir a uma maior capacidade protetora da família e
eventualmente a uma nova geração que cultiva melhores relações com os docentes
e colegas. Tratase de estudantes que revelam dificuldades escolares semelhantes
e, em muitas ocasiões, desânimo e distanciamento face ao mundo escolar, mas
que, apesar de tudo, se mantêm no mesmo estabelecimento de ensino.
Outro segmento dos que não abandonaram a escola apresenta uma distância
importante em relação aos que abandonaram a escola. Nestes casos não se observa
a presença de rasgos comuns entre ambos os grupos. Por exemplo, nos estudantes
existe uma frequência menor na mudança de escola, não há repetências múltiplas,
verifica-se menos conflituosidade, e existe um maior interesse do adulto para
com a vida escolar do aluno.
No âmbito das relações com os docentes constata-se uma ambivalência evidente,
não havendo diferenças significativas entre ambos os grupos em análise. Por um
lado, muitos dos menores e suas famílias valorizam positivamente a relação com
os docentes da escola; costumam referir o trabalho dos educadores, o cuidado e
a proteção de algum docente específico. Esta referência surge em grande parte
das entrevistas, sem distinção de grupos. Por outro lado, em muitas ocasiões,
as famílias e os menores também narram situações negativas na sua relação com
os docentes, referindo situações de mau trato físico e psicológico por parte
dos professores. Neste item podem ser identificadas algumas diferenças entre os
grupos analisados, dado que entre aqueles que abandonam, valorizam
negativamente a última experiência escolar que tiveram: para alguns alunos que
abandonaram a escola é a má relação com o professor a principal causa, enquanto
outros valorizam de forma negativa a última escola que frequentaram.
No que concerne a relação dos menores com os seus pares, a análise da
experiência dos que abandonaram a escola e os estudantes revela-se
relativamente semelhante. Muitos dos menores referem o espaço escolar como um
lugar onde têm amigos, e que gostam de frequentar a escola precisamente por
esta razão. A socialização é agradável, tanto para uns como para outros. No
entanto, para outra parte de menores, a escola é vista como menos amigável: são
descritas lutas físicas frequentes, a existência de gangs organizados,
vandalismo, abusos sistemáticos, etc. A diferença entre os que abandonam e não
abandonam a escola está na experiência em relação a este aspeto por parte do
primeiro grupo poder ser mais negativa, motivando o abandono escolar por temor
a situações de violência e abuso por parte de outros menores.
Note-se que os resultados obtidos correspondem a um número reduzido de casos, a
informação recolhida poderia ser útil para futura aplicação de políticas
institucionais e estratégias para o não abandono escolar dos estudantes de
risco, como para a reinserção dos que abandonam a escola precocemente.
Considerando que as características e o contexto da população estudada são
possíveis de encontrar noutras zonas no Chile, assim como também noutras
regiões latino-americanas, os resultados permitem estabelecer paralelismos
entre os fatores desencadeadores do abandono escolar em cenários semelhantes.
Por último, o fato de muitos processos de abandono escolar terem como causa
questões de índole intraescolar permite abrir um vasto campo de ação no
interior das próprias escolas para a implementação de medidas que ajudem a
reduzir as taxas de abandono. Não obstante, se bem que a solução do problema
não se encontre totalmente nos estabelecimentos de ensino, não devemos esquecer
que, como indicado pela proficua literatura analisada, o abandono escolar
também está associado a variáveis extraescolares - nível sócio-económico,
capital cultural, etc. - que remetem para problemas estruturais da nossa
sociedade. Neste sentido, qualquer medida tomada no seio das escolas deve
necessariamente considerar as características do contexto mais amplo em que se
encontram os menores - as famílias, os bairros, e a relação entre pares,
etc. Talvez a incapacidade mostrada até ao momento pelas escolas para impedir o
abandono dos estudantes se explique pela falta de uma visão integral, que é
absolutamente necessária para que os menores completem a sua escolaridade,
especialmente os setores mais vulneráveis.