Prevalência da Dislexia entre Crianças do 1.º Ciclo do Ensino Básico falantes
do Português Europeu
O diagnóstico da dislexia segue, na maior parte dos países, a definição
proposta pelo DSM-IV-TR (2002), que situa essa condição no quadro das
perturbações de aprendizagem. De acordo com o DSM-IV-TR (2002), a dislexia
define-se como um desempenho na leitura substancialmente abaixo daquilo que
seria de esperar - ao nível da exactidão, velocidade ou compreensão, conforme
os resultados de medidas estandardizadas de avaliação individual - em função da
idade cronológica, do Q.I. e do nível de escolaridade. Paralelamente, os dados
mais recentes da investigação têm vindo a revelar que as dificuldades de
compreensão são uma consequência dos problemas para ler palavras com precisão e
fluência e não uma característica primária da dislexia (Hulme & Snowling,
2009). Por isso, a maior parte da investigação sobre dislexia baseia-se numa
definição adoptada em 2002 pela Associação Internacional de Dislexia sob
direcção de G. Reyd Lyon (Lyon, Shaywitz & Shaywitz, 2003). Nesta definição
focalizam-se os problemas principais da dislexia nas dificuldades de leitura e
escrita de palavras, que resultam de défices na componente fonológica da
linguagem, mantendo-se a ênfase na perspectiva de que é uma dificuldade
específica de aprendizagem, e por isso, conservando-se a ideia de discrepância
entre nível de leitura e Q.I.
Os dados sobre a prevalência da dislexia variam conforme o método de
investigação adoptado e a população alvo, existindo cálculos que apontam para
uma prevalência entre 3% e 15% (Fluss et al., 2008; Miles, Wheeler &
Haslum, 2003; Moll & Landerl, 2009). Recentemente foi apresentada uma
prevalência entre os 4% e os 8% na população escolar dos países de língua
inglesa, reconhecendo-se no entanto que a taxa pode variar com a idade
(Snowling, 2008).
A acrescentar à prevalência da dislexia, é importante assinalar também a forte
persistência dos défices de leitura ao longo do tempo, metaforizada por
Stanovich (1986) como o efeito de Mathew: o rico tende a tornar-se mais rico e
o pobre tende a tornar-se mais pobre, isto é, quem lê bem passa a ler melhor,
quem lê mal tende a permanecer um mau leitor. De facto, a investigação sobre a
aquisição da leitura tem revelado que aquelas crianças cuja competência de
leitura no final do 1.º ano é pobre, continuarão, em regra, com um nível de
leitura abaixo da média nos anos subsequentes (Francis, Shaywitz, Stuebing,
Shaywitz, & Fletcher, 1996; Shaywitz et al., 1999; Stanovich, 1986).
Se em línguas como o inglês ou o francês existem diversos estudos sobre a
dislexia, são muito escassos os dados no caso do português, sendo de referir o
estudo recente de Sucena e Castro (2009) que caracteriza o perfil do défice
fonológico entre as crianças disléxicas portuguesas. Na primeira fase de
despistagem foram usados dois testes de rastreio com características
diferentes, o TIL-Teste de Idade de Leitura (Sucena & Castro, 2010) e a PRP
- Prova de Reconhecimento de Palavras (Viana & Ribeiro, 2010). Após
esta fase foi usado um teste não verbal de competência cognitiva geral, as
Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (Raven, Court & Raven, 1990) -
MPC-Raven - e, mais tarde, um teste de consciência fonológica, integrado na
bateria ALEPE (Sucena & Castro, no prelo).
Como medida de validação, decidimos usar tarefas de consciência fonológica
(Fluss et al., 2008; Hulme & Snowling, 2009). Por se tratar do primeiro
estudo realizado em Portugal com este objectivo, os critérios que a seguir se
apresentam para incluir uma criança no grupo das crianças em risco de
apresentar dislexia decorreram da opção de usar limites muito conservadores de
aceitação da condição de risco, tentando assim evitar a sobrestimação de falsos
positivos.
Método
Os critérios de selecção das crianças foram usados de forma cumulativa: obter
um resultado no TIL correspondente ou inferior ao percentil 5; obter um
resultado abaixo do critério de mestria na PRP; obter um percentil 50, ou
acima, nas MCP-Raven; corroboração, através de desempenhos em provas de
consciência fonológica
significativamente inferiores aos apresentados por grupos de controlo da mesma
idade cronológica e do mesmo nível de escolaridade.
Começando por um princípio de selecção restrita, foi decidido que apenas as
crianças que tivessem obtido um resultado igual ou inferior ao percentil 5 no
TIL seriam consideradas como elegíveis para constituir o grupo base a partir do
qual se refinariam os critérios para classificar aquelas potencialmente
pertencentes ao grupo das crianças com dislexia. O percentil 5 no TIL
corresponde a um resultado que se situa, pelo menos, um desvio-padrão e meio
abaixo da média obtida em cada idade no estudo de estandardização. A partir
deste grupo base, foram aplicados os outros critérios em passos sucessivos.
Figura 1 - Passos Realizados na Selecção das Crianças com Dislexia
Participantes
Participaram neste estudo 23 escolas do 1.º Ciclo do Ensino Básico pertencentes
a Agrupamentos de Escolas de Vila Real e de Braga, totalizando 81 turmas dos
2.º, 3.º e 4.º anos. Foram testadas 1460 crianças, todas reunindo os seguintes
critérios: frequentavam os 2.º, 3.º ou 4.º anos de escolaridade; não
apresentavam défices cognitivos, motores ou sensoriais que as impedissem de
responder autonomamente aos testes de rastreio; não apresentavam défices
acentuados de linguagem; eram falantes nativas do português; tinham autorização
escrita por parte dos encarregados de educação para participar no estudo. O
Quadro 1 apresenta a distribuição do número de alunos por ano lectivo e por
sexo, assim como a média de idades por cada um desses grupos. A frequência de
rapazes e raparigas na amostra não é significativamente diferente da esperada
(X2 = 0.989, p = .320).
Quadro 1 - Número de Participantes por Sexo e Idade em cada Ano de Escolaridade
Testes e Procedimento
Foram adoptados o TIL-Teste de Idade de Leitura (Sucena & Castro, 2010), a
PRP-Prova de Reconhecimento de Palavras (Viana & Ribeiro, 2010), as
MPCRaven (Raven, Court & Raven, 1990) e as provas de consciência fonológica
da bateria ALEPE (Sucena & Castro, no prelo).
A aplicação dos testes decorreu durante os meses de Maio, Junho e Julho de 2008
em três sessões. Nas duas primeiras sessões foram aplicados os testes de
rastreio TIL e PRP e na terceira foram aplicadas as MPC-Raven e as provas
fonológicas.
TIL - Teste de Idade de Leitura - O TIL é uma prova utilizada para
determinar a idade de leitura. A realização do TIL envolve, entre outros, dois
processos cognitivos: a descodificação e a compreensão, através da leitura de
36 frases incompletas que a criança tem que completar seleccionando a palavra
correcta de entre cinco hipóteses fornecidas (ex: Aconteceu uma coisa engraçada
a um pescador: pescou uma… carpa, pescada, sapatilha, truta, sardinha). De
acordo com as instruções, a prova foi aplicada colectivamente no grupo-turma,
tendo tido uma duração de 5 minutos. Antes de iniciar a testagem, o
procedimento foi explicado e foram realizados quatro ensaios de treino em
grupo. As crianças responderam individualmente.
PRP - Prova de Reconhecimento de Palavras - A PRP é uma prova de
reconhecimento de palavras regulares, destinada a avaliar a velocidade e a
precisão de leitura. É constituída por 40 itens (mais três de treino). Cada
item é constituído por uma imagem, seguida de quatro palavras, de entre as
quais o aluno deve seleccionar a que corresponde à imagem. As alternativas de
resposta podem incluir entre uma e três palavras vizinhas (modificando apenas
uma das suas letras) ou com proximidade ortográfica. De acordo com as
instruções, a aplicação foi realizada colectivamente nos grupo-turma, tendo
tido uma duração de quatro minutos no 2.º ano e de dois minutos nos 3.º e 4.º
anos. Depois de terem sido explicados e completados, colectivamente, os itens
de treino, cada criança preencheu individualmente o seu caderno de teste.
MPC-Raven - As Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (Raven,
Court& Raven, 1990) são um teste não verbal que mede as capacidades de
inteligência geral, incluindo capacidades de raciocínio por analogia, sendo
consideradas a melhor medida singular do factor g (Simões, 2008). O teste foi
aplicado individualmente em versão caderno numa sala sossegada da escola de
cada criança, seguindo as instruções do manual (Raven, Court & Raven, 1990)
e as normas portuguesas (Simões, 2000).
Provas de Consciência Fonológica Implícita - As tarefas que utilizámos
integram a bateria ALEPE (Sucena & Castro, no prelo). Trata-se de tarefas
de detecção da partilha de uma unidade fonológica comum a um par de palavras
bissilábicas, com três condições, cada uma relativa ao tipo de unidade com
partilha da fonologia: sílaba inicial; ataque da sílaba inicial; rima da sílaba
inicial. Em cada condição existem 20 palavras, maioritariamente nomes comuns
com acentuação grave. Doze dos pares partilham a estrutura fonológica da
unidade alvo e oito não têm qualquer fonema comum.
Cada criança foi testada individualmente numa sala sossegada da sua escola.
Pedia-se-lhes que ouvissem com atenção duas palavras e que dissessem se, nesse
par, no princípio ou no meio, conforme a condição, havia ou não um bocadinho de
som igual nas duas". Antes dos ensaios experimentais havia cinco ensaios
de treino em cada condição. O tempo de testagem situou-se entre os 10 e os 15
minutos.
Do conjunto das crianças que obtiveram cumulativamente um percentil igual ou
acima de 50 no TIL, uma pontuação igual ou acima do critério de mestria na PRP
e um percentil de 50 ou acima nas MCP-Raven, foram seleccionadas 90 crianças
(30 por cada ano lectivo). Cada uma delas foi emparelhada com uma das crianças
do grupo de dislexia de modo a que o par fosse da mesma escola (ou de uma
escola com características idênticas), da mesma idade e do mesmo ano lectivo.
Cada criança foi seleccionada ao acaso de entre os potenciais pares de uma dada
criança do grupo de dislexia. Permaneceram no estudo 83 dessas crianças. Este
grupo constituiu o grupo de controlo. O número de participantes, por ano, e as
respectivas médias de idades são as seguintes: 29 do 2.º ano (7;6 anos), 25 do
3.º ano (8;6 anos) e 29 do 4.º ano (9;7 anos).
Resultados
A distribuição das frequências observadas nos diferentes percentis do TIL é
apresentada na Figura 2.
Figura 2 - Percentagem de casos observados em cada percentil do TIL
Cento e oitenta e uma crianças (102 rapazes e 79 raparigas) obtiveram, no TIL,
resultados ao nível do percentil 5, o que corresponde a 12,4% da amostra total.
Neste grupo, tal como na amostra total, a frequência de rapazes e raparigas é
equivalente (X2 = 2,92, p = .087). De entre estas 181 crianças, 125 obtiveram
um percentil de 50 ou acima nas MPC-Raven. Se estes fossem os dois únicos
critérios estabelecidos para seleccionar as crianças com probabilidade de ter
dislexia, teríamos 8,6% de ocorrência de casos elegíveis.
No entanto, como já referido, optámos por utilizar uma prova adicional de
rastreio de dificuldades de leitura: a PRP. Sendo uma prova referenciada a
critério, apresenta pontos de corte para cada ano de escolaridade. Os
resultados abaixo destes pontos de corte indicam que o aluno terá um desempenho
inferior em termos de leitura, necessitando de uma intervenção ajustada às suas
dificuldades. A PRP foi realizada por 1360 crianças. De entre as 181 crianças
classificadas no percentil 5 do Til, 174 realizaram também a PRP. De acordo com
o critério estabelecido, 103 alunos foram classificados abaixo do nível de
mestria.
Foram aplicadas as Matrizes de Raven a 100 destas 103 crianças, entre as quais
74 obtiveram uma classificação igual ou superior ao percentil 50. Em suma, de
entre as 1360 crianças que completaram ambas as provas de rastreio - o TIL e a
PRP - 74 cumpriram todos os critérios estabelecidos para integrar o grupo das
crianças com dislexia, isto é, 5,44%. Se analisarmos as taxas em cada ano
escolar, no 2.º ano temos 38 crianças num total de 493 (7,7%); no 3.º ano temos
15 crianças num total de 445 (3,4%); no 4.º ano temos 21 crianças num total de
422 (5%).
Como se pode verificar no Quadro 2, há um número maior de rapazes nestes
grupos. No entanto, a frequência de rapazes e raparigas não é diferente da
esperada (X2 = 3,46, p = .087). Em cada uma das três condições da prova de
consciência fonológica (sílaba inicial; ataque da sílaba inicial; rima da
sílaba inicial) as crianças tinham duas hipóteses de resposta quando comparavam
os pares de palavras: "Sim" (as duas palavras têm um som igual) ou
"Não" (as duas não têm um som igual). Para medir a sensibilidade de
cada criança à partilha, ou não, de som entre duas palavras usou-se o índice de
sensibilidade d'. Para além deste resultado, foram também registados os tempos
de resposta. Em cada condição, logo após o final da apresentação do primeiro
par de palavras accionava-se o cronómetro e contava-se o tempo até à última
resposta da criança, que correspondia à resposta ao último par de palavras.
Entre o primeiro par de palavras e o último, a apresentação de cada estímulo
seguia-se imediatamente após uma resposta da criança, numa sequência sem
quebras. Registava-se o tempo total de cada condição.
Quadro 2 - Número de crianças com dislexia, por sexo e por ano de escolaridade
Foi realizada uma análise de variância para cada variável dependente (índice de
sensibilidade d' e tempo de resposta) tendo como factor o Grupo (dois níveis:
disléxicos e controlos). Como podemos observar no Quadro 3, existem diferenças
significativas entre crianças consideradas com dislexia e crianças do grupo de
controlo em todos os resultados relativos ao tempo de resposta, enquanto nos
resultados do índice de sensibilidade (d') as diferenças são significativas
para o fonema e rima mas não para a sílaba.
Quadro 3 - Estatísticas Relativas aos Índices de Sensibilidade (d') e aos
Tempos de Resposta na Detecção de Unidades Fonológicas dos Grupos Dislexia e
Controlo
Discussão
Os objectivos deste estudo eram determinar a taxa de prevalência de
dificuldades de aprendizagem da leitura e, em particular, da dislexia, entre as
crianças a frequentar os três últimos anos do 1.º Ciclo do Ensino Básico.
Tanto quanto é do conhecimento das autoras, não existia, até agora, em
Portugal, informação desta natureza. Sabe-se que as dificuldades em leitura
constituem o principal motivo de sinalização de insucesso no 1.º Ciclo do
Ensino Básico (Lopes, 2004). Também são conhecidos os dados do relatório PISA
2006 (Pinto-Ferreira, Serrão & Padinha, 2007) que mostram que cerca de 25%
dos jovens portugueses de 15 anos, maioritariamente dos 7.º e 8.º anos de
escolaridade, foram classificados como maus leitores (desempenho igual ou
abaixo do nível 1 numa escala com valores entre -1 e +5), sendo que 5,8%
obtiveram uma nota abaixo do nível 1. Esta percentagem de jovens que apresenta
níveis de domínio da leitura muito abaixo dos níveis basilares não é específica
do caso português. Nos Estados Unidos, um relatório de 2005 sobre os progressos
educativos nacionais mostrou que 27% dos jovens do ensino secundário tinha
problemas sérios de leitura (Shaywitz, Morris & Shaywitz, 2008). Em França,
verificou-se que 5% a 6% dos jovens do 6º ano manifestava problemas severos de
leitura (Fluss et al., 2008). Relativamente aos resultados do TIL (Sucena&
Castro, 2010), o teste de idade de leitura que usámos no nosso estudo, podemos
considerar como maus leitores os indivíduos que obtiveram um resultado igual ou
inferior ao percentil 30, pois esses são os resultados que se situam 1 desvio
padrão, ou mais, abaixo da média obtida no estudo de estandardização. Das 1460
crianças que realizaram o TIL, 28,5% (416 crianças) oram classificadas num
percentil igual ou inferior a 30. Fundamentando-nos nas investigações que
mostram que os níveis de competência em leitura nos primeiros anos de
escolaridade têm tendência a reproduzir-se nos anos subsequentes, e que mostram
que a prevalência das dificuldades em leitura se altera pouco no decurso da
escolaridade (Boscardin, Muthén, Francis & Baker, 2008; Fluss, Ziegler,
Ecalle, et al., 2008; Shaywitz, Fletcher, Holahan et al., 1999; Shaywitz,
Morris & Shaywitz, 2008; Stanovicth, 1986), é lícito afirmar que a
percentagem de "maus leitores" observada na nossa pesquisa é coerente
com o valor apontado, para Portugal, no PISA 2006.
No entanto, os critérios que usámos para seleccionar o grupo de crianças que
teria dislexia restringiram a designação "mau leitor" a um nível que
captasse apenas os alunos com os desempenhos mais deficitários. Optar por uma
estratégia cautelosa, aquela que é usualmente utilizada na investigação,
maximiza as possibilidades de apurar os casos que são cognitivamente mais
específicos de um quadro de dislexia. Assim, ao colocarmos os marcadores de
selecção no nível mais baixo de desempenho no TIL, o percentil 5, e ao
excluirmos os casos com probabilidades de ter problemas de aprendizagem mais
gerais, aqueles que, avaliados individualmente, não tivessem obtido pelo menos
um percentil
de 50 nas MCP-Raven, encontrámos 8,6% de casos.
De acordo com a definição de dislexia apresentada no DSM-IV-TR (2002) e de
acordo com os procedimentos seguidos para testar as crianças neste estudo, 8,6%
poderia ser aceite como uma taxa de prevalência da dislexia em Portugal.
Tal como foi explicado anteriormente, os critérios de selecção que aplicámos
foram ainda mais restritos. Para além do TIL, que exige competências de
descodificação e de compreensão, introduzimos um outro critério relativo ao
reconhecimento de palavras, o de obter um resultado abaixo do nível de mestria
na PRP (Viana & Ribeiro, 2010). Considerando cumulativamente os três
critérios (TIL = percentil 5; PRP < critério de mestria; Raven ≥ percentil 50)
obtivemos 5,44% de ocorrências. Posteriormente comparámos os resultados das
crianças que integraram este grupo, que designámos como crianças com dislexia,
com os de um grupo de controlo constituído por crianças das mesmas idades e
anos de escolaridade em tarefas de consciência fonológica. Os resultados dessa
comparação evidenciaram desempenhos significativamente mais baixos entre as
crianças do grupo dislexia em todas as medidas recolhidas, excepto no índice de
sensibilidade para detectar semelhanças na sílaba inicial. Com efeito, em
outros estudos (Elbro, Borstrom & Peterson, 1998) também se verificou que
as tarefas que exigem a comparação ou a manipulação de sílabas parecem não
contribuir de forma independente para explicar as diferenças de precisão em
leitura entre crianças com dislexia e crianças com progressão típica. No
entanto, quando examinamos os resultados relativos aos tempos de resposta,
verificamos que as diferenças entre os dois grupos são bastante sólidas em
todas as condições da tarefa, incluindo a sílaba inicial. Aparentemente, esta
medida é mais sensível às diferenças entre os grupos do que a medida do índice
de sensibilidade. De facto, o tempo de resposta na realização de tarefas de
consciência fonológica pode ser melhor diferenciador de competências de leitura
do que a precisão das respostas nessas tarefas (Patel, Snowling & de Jong,
2004). Para além disso, esta tendência tem vindo a ser notada pelas
investigadoras no contexto clínico, o que, em conjunto com os actuais
resultados, aponta para a importância de, em estudos futuros, ser explorada de
modo mais sistematizado a eficácia da medida tempo de resposta neste tipo de
tarefas. Portanto, os resultados obtidos com as provas de consciência
fonológica sustentam fortemente a presença da condição dislexia.
A taxa de prevalência da dislexia que obtivemos (5,44%) enquadra-se
inteiramente no intervalo de valores percentuais mais recentemente divulgados
(Moll & Landerl, 2009; Snowling, 2008). O estudo longitudinal de
Connecticut (Shaywitz, Shaywitz, Fletcher, & Escobar, 1990) revelou uma
prevalência de 7,8% no segundo ano, 7% no terceiro ano e 5,4% no quinto ano de
escolaridade, percentagens idênticas às que identificámos (7,7% no segundo ano,
3,37% no terceiro e 4,97% no quarto ano). Um estudo realizado com crianças
francesas de 7,06 anos, que frequentavam um nível de escolaridade equivalente
ao 2.º ano do 1.º Ciclo do Ensino Básico português, obteve uma taxa de 9% de
ocorrência de problemas severos de leitura (Fluss et al., 2008). O estudo de
Moll e Landerl (2009), desenvolvido com uma amostra de 2029 crianças austríacas
dos 2.º, 3.º e 4.º anos de escolaridade, avaliadas com testes de rastreio de
leitura (precisão e tempo) e de escrita, registou percentagens entre 6,4% a 8%
de crianças com níveis mínimos de desempenho, consoante o critério de selecção
se restringia apenas à leitura, apenas à escrita ou a ambas. Este conjunto de
taxas de prevalência é, pois, muito similar às que observámos no nosso estudo.
Assim, dependendo de os critérios serem mais ou menos restritos, podemos dizer
que entre 5,44% a 8,6% das crianças portuguesas a frequentar os 2.º, 3.º e 4.º
anos de escolaridade têm dislexia. Para além disso, os resultados indicam que
28% das 1460 crianças avaliadas manifestam dificuldades de leitura.
Tal como na maioria dos estudos realizados sobre dificuldades de aprendizagem
da leitura, neste estudo o número de rapazes com défices em leitura ultrapassa
o número de raparigas. No entanto, essas diferenças de ocorrência não atingiram
significância estatística. Este resultado é coincidente com a maioria dos
estudos em que os grupos de maus leitores foram seleccionados através de
critérios de investigação, e que revelam que a prevalência tende a ser
equivalente entre rapazes e raparigas (Hawke, Olson, Willcut, Wadsworth &
DeFries, 2009; Share & Silva, 2003).