Competências de auto-desenvolvimento e metodologias PBL num curso de
contabilidade: perspectivas de alunos, docentes, diplomados e empregadores
Introdução
As condições actuais da sociedade exigem um extraordinário empenho educativo a
favor da formação das novas gerações. O próprio sistema de ensino superior não
passa incólume pelas transformações sociais, políticas e económicas que
vivenciamos. Tendo por referência este contexto é possível compreender uma
realidade geradora de desafios sobre um conjunto de competências profissionais
mas também pessoais e sociais. A expectativa de que os diplomados sejam capazes
de evidenciar um vasto conjunto de atributos necessários para uma aprendizagem
ao longo da vida, é partilhada não somente por empregadores e graduados mas, e
com grande centralidade, pelas Instituições de Ensino Superior (IES). Como
citado em Radloff, de la Harpe, Dalton, Thomas e Lawson (2008), os diplomados
que demonstrem possuir atributos relevantes são tidos em grande consideração
pelas entidades empregadoras e vistos como cidadãos geradores de mais-valias
sociais (Araújo & Sastre, 2009). Neste sentido, é importante atender à
dinâmica de influências mútuas entre os diversos agentes envolvidos e as
estruturas em que se constituem (alunos, docentes, graduados e empregadores).
Procurando assegurar que todo o aluno que sai para o mercado de trabalho seja
portador de um conjunto de atributos reconhecidos como essenciais, as IES têm
vindo a ser confrontadas com a necessidade de activar novas formas de produção
e disseminação do conhecimento. As tradicionais segmentações curriculares em
áreas que delimitam os departamentos de ensino superior, na opinião de um
número não reduzido de investigadores (e.g. Breton, 1999; Maclellan, 2008) não
conseguem dar resposta às necessidades de desenvolvimento de competências
transversais e de uma visão holística do mundo profissional.
Todo este movimento, no entanto, exige uma maior responsabilidade das IES que
não podem restringir a sua missão à formação estritamente profissional e
científica dos seus estudantes. Embora possamos, conceptualmente, referir um
conhecimento mais teórico e abstracto (ensino universitário) e um conhecimento
mais adaptado a vias profissionais de ensino (ensino politécnico), nomeadamente
no contexto português (Ministério da Educação, 1979; Ministério da Educação
Nacional, 1973), não podemos deixar de conjugar ambos com a aprendizagem
pessoal e social dos estudantes nas suas múltiplas dimensões e facetas. No
seguimento destas ideias alguns problemas podem ser levantados, nomeadamente
sobre que modelos de IES é possível esperar para o início deste terceiro
milénio. Organizando o seu pensamento em redor de um conjunto de questões sobre
o processo de produção do conhecimento, Scott (1997) propõe uma reflexão sobre
novas formas curriculares que valorizem aptidões, atitudes e competências
previamente identificadas com perfis idealizados. Também Barnett & Scott
(1999), baseando a sua análise nos desafios pessoais, sociais e profissionais
com que os cidadãos do século XXI se deparam, preconizam um modelo generalizado
de universidade super complexaque interage com a incerteza, a adaptabilidade, a
mudança e a imprevisibilidade. Na perspectiva dos autores, a didactologia da
super complexidadecoloca a tónica em espaços pedagógicos promotores de modos de
estar e de abertura de pensamento, responsabilizando o estudante, de uma forma
comprometida, com a sociedade em que se insere. As respostas pragmáticas de
reconfiguração das IES propostas pelos autores Barnett & Scott(1999),
assentam na construção de um currículo desenhado sistematicamente, que
corporize o comprometimento conceptual e formal do modelo proposto. Embora este
conjunto de ideias não englobe a totalidade de propostas apresentadas por
outros autores, é possível desde já percepcionar que para os graduados
responderem aos desafios sugeridos para o terceiro milénio, nem as expectativas
das IES sobre os seus estudantes nem as expectativas destes sobre as primeiras
podem jamais ser as mesmas dos seus antecedentes.
No Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o
século XXI (International Commission on Education for the Twenty-first Century,
1996) é desde logo feita referência a uma missão complementar para a educação:
a de fazer frutificar os talentos e potencialidades criativas de todos os
indivíduos. No mesmo relatório acentua-se a necessidade de uma aprendizagem ao
longo da vida, como uma das chaves de acesso à educação para o século XXI. A
ideia transmitida pelo conjunto de relatores, é de que, para poder dar resposta
ao conjunto das suas missões, a educação deve constituir-se em torno da
simbiose de quatro aprendizagens basilares: aprender a conhecer (adquirindo não
só um conjunto de saberes codificados como, e sobretudo, o domínio destes
próprios instrumentos), aprender a fazer (adaptando a formação à actividade
profissional futura, de forma a pôr em prática os conhecimentos obtidos),
aprender a viver juntos (cooperando com os outros na resolução de projectos
comuns) e aprender a ser (permitindo o desenvolvimento total da pessoa,
tornando-a apta para elaborar pensamentos autónomos e críticos capazes de
ajuizarem diferentes circunstâncias da vida). No entanto, se o ensino
tradicional se orienta, essencialmente, pelo aprender a conhecer e, sobretudo
no campo da formação vocacional superior, pelo saber fazer, será necessário, na
opinião dos autores do dito relatório, prover a educação de caminhos
metodológicos estruturados capazes de envolverem as outras duas aprendizagens:
aprender a viver juntos e aprender a ser. Assim, é preciso insistir na ideia de
centrar o foco nas aprendizagens, percebendo que esta não se faz sem pessoas e
uma referência às suas subjectividades e contextos pessoais e sociais (Nóvoa,
2009).
Paralelamente, também a adequação do Ensino Superior ao modelo de ensino-
aprendizagem preconizado pelo Processo de Bolonha, põe em causa uma profunda
mudança de paradigma: para fazer face ao perfil europeu de estudante, o ensino
superior deve colocar a tónica em competências horizontais que responsabilizem
os alunos pelos seus processos de aprendizagem, cumprindo aos docentes
facilitar e orientar estas mesmas aprendizagens. A implementação destas
orientações gera, inevitavelmente, a necessidade de reequacionar as actividades
pedagógicas ao nível da definição de objectivos e da avaliação e,
particularmente, ao nível da execução e acompanhamento dos processos
metodológicos. Ou, como refere Lima (1997), as IES têm de se abrir a novos e
distintos saberes, questionando-se face à emergência de novos problemas sociais
e de civilização.
Uma forma de preencher as lacunas existentes é desenvolvendo métodos
pedagógicos diferentes dos tradicionalmente utilizados (saindo de uma abordagem
em que o professor assume uma posição activa e o estudante, por contraste, uma
atitude passiva) em direcção a uma metodologia de ensino'aprendizagem centrada
no estudante, conferindo-lhe um papel principal no processo. Entre as
diferentes possibilidades distinguimos a metodologia PBL (quer numa vertente de
project-based learning quer de problem-based learning). Desenvolvida por Howard
Barrows e Robyn Tamblyn a partir de finais dos anos sessenta e inicialmente
associada a escolas de medicina, a metodologia PBL tem vindo a ser utilizada
nas mais variadas áreas e programas profissionais, recolhendo já mais de 40
anos de experiência (Nel, et al., 2008). A metodologia PBL baseia-se no
princípio da utilização de problemas contextualizados de índole profissional
como ponto de partida para a aquisição e integração do conhecimento (Barrows
& Tamblyn, 1980). Enraizada em tradições liberais de educação superior (de
que são exemplos a aprendizagem através da investigação, a valorização da
autonomia do aprendente, ou o desenvolvimento de pensamento crítico), a ideia
proposta por Barrows e Tamblyn assenta na crença de que a aprendizagem a partir
de contextos profissionais é mais efectiva na construção de novo conhecimento
do que a simples aplicação de informação previamente obtida a novos casos.
Assim, e ontologicamente, a utilização de problemas profissionais funciona,
simultaneamente, como estímulo e como foco da aprendizagem. Na metodologia PBL
os alunos trabalham em pequenos grupos, analisando o problema que lhes é
proposto, identificando a informação necessária para a sua resolução,
direccionando as suas actividades de aprendizagem de acordo com o conhecimento
que se revele necessário para o tratamento do problema colocado, e, por fim,
formulando hipóteses de solução. Ao longo de todo este processo e através de
mecanismos de auto-aprendizagem, assume-se que os alunos desenvolvem
competências que permitem não só atingir os resultados profissionais
pretendidos como também trabalhar diferentes características pessoais e sociais
(Papinczack, 2009). Deste modo, é suposto que o perfil de um diplomado que
utilizou uma metodologia PBL inclua, não só conhecimentos de base que lhe
permitam investigar, entender e explanar criticamente a literatura existente
sobre determinado assunto, mas também a aptidão para comunicar com os outros ou
a capacidade de resolução de problemas que a sua vivência profissional,
enquanto pessoa e técnico, lhe determina.
Por outro lado, e aceitando a perspectiva de diversos autores (e.g. Tate &
Grein, 2009) de que a aprendizagem tem lugar quando há uma participação activa
e empenhada do aprendente, revela-se fundamental que este reconstrua o
conhecimento moldando-o às suas necessidades e imagem. Ora, a metodologia PBL,
conceptualmente, pressupõe uma construção activa de significados para quem
aprende, promovendo, como resultado, uma interiorização mais duradoura das
aprendizagens. Nesta perspectiva, este conceito feito à medida estimula, por um
lado, competências pessoais e sociais de crescimento intelectual e, por outro,
torna tais competências mais eficazes. De acordo com a metodologia PBL serão os
alunos que, ao procurarem respostas para as questões que os próprios colocam,
seleccionam o que pode, efectivamente, responder às suas dúvidas e justificar
as soluções encontradas. Como resultado, é possível referir a aquisição de
competências a três níveis: técnicas (relativas à qualidade do trabalho
prestado), sociais (associadas à natureza das relações interpessoais) e de
auto-desenvolvimento (respeitantes a questões de organização, argumentação e
comunicação) (e.g. Albanese & Mitchell, 1993; Musal, Taskiran, &
Kelson, 2003).
Ao longo deste trabalho reflectimos sobre a necessidade das IES darem respostas
a novas formas de produção e disseminação do conhecimento que valorizem não só
o saber fazer e o fazer, como também, o saber estar com os outrose o saber ser.
Tendo esta problemática como pano de fundo, o objectivo geral do presente
trabalho é o de procurar contribuir para a discussão teórica sobre a forma como
os movimentos de mudança associados à metodologia PBL produzem implicações ao
nível das competências dos alunos do ensino superior. Limitamos, no entanto, o
nosso campo de estudo ao contexto das competências pessoais, pretendendo tornar
mais viável o controle da complexidade e diversidade existentes no paradigma da
metodologia PBL. Mais concretamente, centraremos a nossa análise sobre o
conjunto de percepções e tomadas de posição assumidas pelos principais grupos
envolvidos e com interesses nos processos de aprendizagem: alunos, docentes,
diplomados e empregadores. Tendo por base as delimitações apontadas, e em
termos mais específicos, pretendemos: (1) indagar sobre qual o papel que a
metodologia PBL tem no desenvolvimento de competências pessoais dos alunos; (2)
saber se a metodologia melhora as competências pessoais dos diplomados PBL
quando comparados com outros graduados; e (3) perspectivar o papel da
metodologia PBL ao nível das competências pessoais na construção do perfil de
um graduado para o terceiro milénio.
Método
Este trabalho parte de um estudo de caso único de uma IES profissionalizante,
motivado pela unidade curricular de Simulação Empresarial ministrada no
Instituto Superior de Contabilidade e Administração da Universidade de Aveiro
(ISCA-UA). Na opinião de Pardal (1995) ao valorizar o conhecimento
pormenorizado de uma situação, o estudo de caso rigoroso, apoiado em hipóteses
metodicamente construídas e em processos sistemáticos de recolha e tratamento
dos dados, permite compreender o particular na sua complexidade, constituindo-
se como ponto de partida para estudos mais profundos. Enquanto forma de
investigação, o método do estudo de caso possibilita, na opinião de Bell (1998)
alargar as balizas do conhecimento existente e capacitar futuros investigadores
a confrontar as suas tomadas de decisão com as relatadas no estudo. Também Yin
(1994) refere que o aspecto mais importante de um estudo de caso reside não
numa generalização estatística do fenómeno, mas numa generalização analítica do
mesmo. Ou, de outra forma, pretende-se expandir teorias em vez de enumerar
frequências. A mesma opinião é partilhada por Rose, Allan e Skinner (1993)
quando afirmam que a visão não é a tipicidade da amostra escolhida ou da
extrapolação dos resultados obtidos, mas sim é a da representatividade tratada
em termos de lógica qualitativa. Na presente investigação foi recolhida
informação valiosa para continuar a trabalhar a temática das competências
pessoais ao nível das metodologias PBL, podendo o âmbito do estudo ser aplicado
a outros contextos, de uma forma reflexiva.
O estudo de caso: Simulação Empresarial
Como já foi referido, o estudo de caso que enforma o presente estudo centra-se
na unidade curricular de Simulação Empresarial, inserida no último semestre do
último ano do plano curricular do primeiro ciclo de estudos do curso de
Contabilidade ministrado no ISCA-UA e a funcionar desde 1997. A unidade tem
como objectivo primeiro proporcionar aos estudantes uma abordagem integradora
das várias questões específicas da profissão contabilística, num ambiente
próximo do ambiente profissional em que os mesmos futuramente se integrarão.
Com este enquadramento, pretende-se que os alunos possam aplicar os
conhecimentos previamente adquiridos noutras unidades curriculares, estimulando
a transferência de aprendizagens e enfatizando a discussão de vários pontos de
vista quer entre alunos e docentes, quer entre os primeiros e seus pares.
A Simulação Empresarial consiste num mercado simulado de empresas virtuais, que
grupos de dois estudantes devem gerir e administrar, sendo que toda a estrutura
organizacional funciona em torno de diversos normativos inerentes à área
contabilística. A aproximação à actividade profissional é ainda assegurada
através da colaboração de três centrais que simulam produtos e serviços
necessários ao funcionamento da rede empresarial: pública, financeira e
comercial. Enquanto a central pública emula o papel de diferentes organismos
públicos, a central financeira objectiva-se em assegurar um conjunto
diversificado de produtos e serviços financeiros. Por último, a central
comercial tem por função promover a necessária dinâmica ao funcionamento dos
diversos sectores de actividade empresarial presentes no mercado simulado.
Transversal a todo o modelo é a arquitectura tecnológica de informação e
comunicação que suporta a unidade curricular. Na abordagem PBL da Simulação
Empresarial o professor assume-se como um orientador na produção de
conhecimento, competindo-lhe criar possibilidades ao estudante para a
construção deste mesmo conhecimento. A avaliação da unidade curricular tem
associada um controlo permanente das tarefas propostas aos estudantes que
envolvem auditorias, relatórios e apresentações individuais e de grupo, numa
contínua aproximação à actividade profissional.
Antes de prosseguirmos com a construção do método deste estudo convém referir
que a abordagem PBL assumida na Simulação Empresarial surge isolada dos
restantes recursos metodológicos do curso. De facto, todas as restantes
unidades curriculares do curso de Contabilidade se encontram organizadas
segundo moldes tradicionais de ensino. Dentro deste enquadramento parece-nos
pois ser possível compreender que a metodologia PBL da Simulação Empresarial se
configure como um desafio imenso, sobretudo para os principais agentes
envolvidos no processo: alunos e docentes. Em termos do presente estudo, o
facto de alunos, graduados e docentes tenderem a comparar as suas experiências
metodológicas tradicionais com a experiência PBL da Simulação Empresarial,
constitui-se como uma oportunidade ímpar que acresce à investigação a
possibilidade de entendermos todas as opiniões reportadas na parte empírica,
como ponderadas à luz da dualidade metodologias PBL versus metodologias
tradicionais de ensino.
As técnicas de recolha e tratamento de informação
Tendo em atenção o propósito do estudo e a multiplicidade de elementos a
recolher, elegemos uma dupla postura qualitativa e quantitativa, de forma a
possibilitar o aumento das possibilidades de apreensão das questões e fenómenos
em análise. No estudo empírico que desenvolvemos recorreu-se à técnica da
entrevista junto dos docentes e entidades empregadoras, e à técnica do
questionário junto dos restantes participantes. Na observação dos dados obtidos
utilizámos, igualmente, estratégias diversificadas: enquanto a abordagem
qualitativa elege técnicas de análise de conteúdo para o tratamento da
informação recolhida, a abordagem quantitativa opta por um tratamento
estatístico dos inquéritos realizados.
Os guiões das entrevistas semi-estruturadas realizadas aos docentes e
empregadores foram delineados, fundamentalmente, com base na revisão da
literatura e a partir do objecto e objectivos específicos formulados para a
investigação. Reforce-se que na recolha de informação qualitativa, todas as
entrevistas transferiram para o entrevistado um papel mais de informante do que
de respondente, no sentido de que o mesmo foi livre de expressar factos e
convicções na sua própria linguagem (Lessard-Hébert, Goyette, & Boutin,
1997). Todas as entrevistas foram gravadas com o assentimento dos seus autores
e as suas respostas examinadas com recurso ao software QSR NUD*IST (Non-
numerical Unstructured Data Indexing Searching and Theorizing).
Os questionários propostos aos alunos e diplomados foram desenhados, de forma
semelhante à das entrevistas, a partir do enquadramento teórico revisto e do
objecto e objectivos específicos formulados. Em cada questão indagou-se se a
metodologia PBL da Simulação Empresarial originou ou não originou alterações
nas competências pessoais dos alunos. Encontrando-se as respostas pré-
orientadas numa escala de Likert de 5 pontos, incluindo uma possibilidade
neutra, cada respondente teria de marcar aquela que mais se aproximava da sua
forma de percepcionar as coisas. Todos os questionários foram preparados para
leitura óptica e as respostas examinadas com recurso à estatística descritiva.
O softwareutilizado foi o SPSS (Statistical Package for Social Sciences).
A construção das amostras
Todas as amostras foram determinadas de uma forma intencional, utilizando-se
como critério primeiro, o de poderem dar cumprimento ao objecto de estudo.
Na selecção dos docentes optámos por incluir todos aqueles com pelo menos
quatro anos de experiência na disciplina, admitindo que colaborações pontuais
dispersas ao longo dos vários anos de funcionamento reverteriam perspectivas
menos balizadas sobre o funcionamento metodológico da unidade curricular. Foram
14 as entrevistas realizadas. Procurando assegurar princípios de diversificação
e de forma a garantir um panorama o mais completo possível dos problemas e das
situações que ocorrem no interior do grupo das entidades empregadoras, optámos
por reter apenas entidades com diplomados do ISCA-UA a exercerem funções
relacionadas com a área da contabilidade, mas espalhados por diversos
departamentos. Esta escolha retornou cinco entidades, correspondendo a trinta e
dois diplomados (vinte e três com frequência da Simulação Empresarial e nove
sem frequência desta disciplina).
No estudo envolvemos, ainda, todos os alunos inscritos na disciplina no momento
em que foi realizada a parte empírica do trabalho, num total de 138 alunos. A
taxa de retorno obtida foi de 96%. Tendo sido considerado importante a
administração dos questionários a todos os diplomados pelo ISCA-UA com
frequência da unidade de Simulação Empresarial, foram considerados os 881
graduados presentes no processo desde o seu início. Neste grupo, a taxa de
retorno foi de 48%.
Resultados e discussão
Neste ponto da nossa análise, tentamos dar conta de um conjunto de percepções
manifestadas pelos vários elementos das amostras em estudo, que conceptualizam
as posições dos alunos, docentes, diplomados e entidades empregadoras face às
características das competências dos alunos e graduados ao nível pessoal.
Incluímos itens relativos à comunicação escrita e oral, à análise crítica, à
gestão de tempo, à planificação de tarefas, à capacidade de síntese, à
criatividade, à definição de objectivos, à fundamentação de decisões, à
capacidade de iniciativa, à organização pessoal, ao dinamismo e à metodologia
de trabalho. Com a dimensão respeitante às competências de auto-
desenvolvimento, procuramos circunscrever um conjunto de asserções sob a forma
como os intervenientes auscultados, interpretam os modos como os processos de
ensino-aprendizagem que utilizam metodologias PBL podem, eventualmente,
interferir na estruturação das competências pessoais dos alunos e diplomados.
A perspectiva dos alunos
Os dados apresentados na Tabela 1 caracterizam o conjunto de respostas apuradas
pelo inquérito aos alunos, permitindo traçar um retrato aproximado relativo à
reflexão que os mesmos fazem acerca de possíveis alterações nas suas
competências pessoais, originadas pela metodologia PBL implementada na
Simulação Empresarial.
Tabela 1. Caracterização dos resultados percentuais dos alunos
_______________________________________________________________________________________________________
|Grau de alteração ou não alteração das competências pessoais |Tendência a| Não se |Tendência a|
|nível_____________________________________________________________|__diminuir__|alteraram|__aumentar__|
|de_comunicação_escrita___________________________________________|____5.3_____|__31.1___|____63.6____|
|de_comunicação_oral______________________________________________|____3.8_____|__35.6___|____60.6____|
|da_análise_crítica_______________________________________________|____6.8_____|__15.9___|____77.3____|
|da_gestão_do_tempo________________________________________________|____12.1____|___7.6___|____80.3____|
|da_planificação_de_tarefas_______________________________________|____7.6_____|__12.1___|____80.3____|
|da_capacidade_de_síntese__________________________________________|____3.1_____|__26.5___|____70.4____|
|da_criatividade____________________________________________________|____4.6_____|__25.8___|____69.6____|
|da_definição_de_objectivos_______________________________________|____6.1_____|__26.7___|____67.2____|
|da_fundamentação_de_decisões____________________________________|____4.6_____|__20.6___|____74.8____|
|da_capacidade_de_iniciativa________________________________________|____4.5_____|__21.4___|____74.1____|
|da_organização_pessoal___________________________________________|____9.1_____|__31.1___|____59.8____|
|do_dinamismo_______________________________________________________|____2.3_____|__23.1___|____74.6____|
|da_metodologia_de_trabalho_________________________________________|____3.0_____|__22.0___|____75.0____|
Concentrando-se as respostas dos alunos em posições positivas face à temática
da influência das aprendizagens no desenvolvimento das suas competências
pessoais, alguns itens parecem revelar uma maior convergência de posições.
Assim, num primeiro nível de análise, é possível detectar a influência
acentuadamente positiva das metodologias implementadas, em dois estados: no
âmbito do planeamento e organização (gestão do tempo e planificação de
tarefas); e no âmbito da construção do conhecimento (análise crítica,
capacidade de síntese, criatividade, fundamentação de decisões, capacidade de
iniciativa, dinamismo e metodologia de trabalho). Num segundo nível de análise,
o estudo empírico aponta para o desenvolvimento, embora menos acentuado, de
competências relacionadas com a comunicação (oral e escrita), com a organização
pessoal e a definição de objectivos. Se bem que os resultados tenham de ser
analisados com prudência, uma hipotética interpretação para os menores valores
obtidos (sobretudo nos três primeiros itens) poderá remeter-se para o facto de
competências relacionadas com a comunicação e a organização pessoal
transitarem, mais directamente do que as restantes, das metodologias
tradicionais de aprendizagem até então utilizadas pelos alunos. Na verdade,
todo o percurso tradicional percorrido pelo aluno durante a sua escolaridade,
sempre se apoiou, de uma forma geral, na comunicação escrita e (eventualmente
menos, mas também) na comunicação oral. Por outro lado, a organização pessoal,
pela sua natureza, também foi sempre um elemento presente na escolaridade
tradicional do aluno.
A perspectiva dos docentes
Interessou-nos, igualmente, analisar se, do ponto de vista dos docentes, a
metodologia PBL da Simulação Empresarial produz algum impacto nas competências
pessoais dos alunos. Nesta categoria, incluímos os seguintes itens: comunicação
oral e escrita, análise crítica, capacidade de síntese, criatividade,
fundamentação de decisões, capacidade de iniciativa, organização pessoal,
dinamismo, metodologia de trabalho, reflexão e auto-estima e auto-confiança.
Através da exposição detalhada dos resultados recolhidos, procurámos
compreender como é que os docentes percepcionam a possibilidade efectiva de
mudanças ao nível das competências pessoais dos alunos.
Relativamente à temática da análise crítica, a quase totalidade dos
entrevistados afirma que a metodologia utilizada permite aos alunos o
desenvolvimento do pensamento crítico, numa perspectiva construtiva.
A atitude crítica deve ser fomentada. E como é que ela é fomentada?
Quando o aluno aborda o docente orientador com alguma questão. Uma
das formas de abordar essa questão é colocando algumas opções, e
deixando para o aluno, porque há questões que têm várias opções,
deixando para o aluno a decisão. Portanto, tem subjacente uma
análise, uma análise crítica, pensada, e depois a decisão parte dele.
E o sentido crítico verifica-se porquanto, nas empresas onde vão
trabalhar, já dizem Isto não devia ser assim. Já têm a capacidade
para dizer que não devia ser assim mas devia ser assado. Portanto
eles já vão com essa experiência adquirida. (Tutor F)
Uma outra perspectiva referida por dois docentes é a ideia de que as diferentes
opiniões manifestadas por estes não são um ponto fraco, mas sim uma mais-valia
capaz de acrescentar capacidade analítica às actividades dos alunos:
O orientador A orienta num determinado sentido, não quer dizer que dê
uma solução, mas orienta num determinado sentido. O orientador B
orienta noutro sentido. Ora o aluno confrontado com estas duas
soluções, pensa: O professor A diz que é mais ou menos assim. O
professor B deduz que é assado. Em que é que ficamos? E uma das
críticas que os alunos fazem é exactamente essa, não haver
uniformidade de soluções. Mas isso é exactamente como na realidade. É
mesmo assim. Não deve ser encarado como um aspecto negativo, mas sim
como a realidade. (Tutor F)
Relativamente à fundamentação de decisões observam-se, nos docentes, posições
unânimes: a metodologia PBL permite desenvolver no aluno a capacidade de
alicerçar as resoluções que vai tomando.
Eu costumo-lhes até dizer vocês tenham a capacidade, e aqui é um bom
momento para fazer esse exercício, tenham a capacidade de filtrar a
informação. Porque nós no mercado de trabalho ouvimos, para uma mesma
situação, diversas versões. E nós temos de ter a capacidade de saber
ouvir, de saber depois reflectir, ponderar e sermos nós depois a
tomarmos uma decisão. E isso, esse conflito de ideias ocorre muitas
vezes aqui na Simulação Empresarial, sem dúvida. (Tutor E)
E, como não sabem perguntar, perguntam uma coisa a um e perguntam
outra coisa a outro. E um responde uma coisa e outra responde outra.
Diferentes. Ou mesmo em situações em que perguntam exactamente a
mesma coisa mas os orientadores podem ter opiniões diferentes. Eles
(os alunos), depois, é que têm que suportar a sua decisão com base
nas opiniões que tiveram. (Tutor N)
Também em aspectos de organização pessoal, os entrevistados indicam que a
metodologia seguida na disciplina faculta mecanismos que se estendem para além
da vida da escola:
Por exemplo, estou-me a lembrar da dificuldade que por vezes temos de
na vida activa cumprir horários de entrada, horários de saída,
permanecendo várias horas no nosso local de trabalho, e nisso a
Simulação Empresarial dá esse contributo até porque existem horários
pré-definidos, existem horários a cumprir quer em termos de trabalho
quer em termos de cumprimento de obrigações. (Tutor F).
Sabem que têm as suas operações calendarizadas e que têm de trabalhar
naquele sentido. Portanto eles vão fazendo o planeamento. E eu tenho
a impressão que eles só conseguem trabalhar se planearem o trabalho.
Não podem nas horas que têm o computador estar a pensar e nas horas
que não têm o computador estarem com vontade de fazer os lançamentos,
porque isso não é compatível. (Tutor W).
Prolongando o aspecto da organização pessoal, os docentes referem-se à
premência de uma metodologia de trabalho motivada pelo processo PBL:
Eles aqui, no ensino superior, desleixam-se um bocado e começam a
trabalhar apenas quando se aproximam os exames. A Simulação
Empresarial obriga-os a terem um trabalho constante e permanente. Têm
de trabalhar todos os dias. Um trabalho sempre permanente. E nesse
aspecto suponho que alguma coisa lhes fica. (Tutor B)
Dado o reduzido número de docentes que abordaram os itens referentes à
comunicação oral e escrita, à capacidade de síntese, à criatividade, à
capacidade de iniciativa, ao dinamismo, à reflexão e à auto-estima e à auto-
confiança, optou-se por uma análise conjunta dos mesmos. Com base nas intenções
de resposta manifestadas, parece-nos não restarem dúvidas quanto à presença, ao
longo do funcionamento da disciplina, de vários momentos promotores de
comunicação oral e escrita. Este impacto é testemunhado pelos docentes como:
Em termos pessoais, porque obriga as pessoas a falarem com pessoas e
quando nós nos dirigimos é como na entrevista, temos que explicar
aquilo que pretendemos, onde é que nós queremos chegar e a forma de
resolvermos esse problema. Portanto, em termos pessoais obriga a
falar sobre um problema ou vários problemas com outras pessoas e,
portanto a partilhar a informação com outras pessoas. (Tutor L)
Tal como descrito na literatura (e.g. Kirschner, Vilsteren, Hummel, &
Wigman, 1997) os docentes entrevistados afirmam que a metodologia cria, de
facto, mecanismos de síntese no aluno, de modo a permitir-lhe o manipular da
enorme quantidade de informação com que é diariamente confrontado.
Eles têm que sintetizar tudo aquilo que foram fazendo até ao final da
Simulação Empresarial. Portanto eles no final devem saber fazer
sempre uma síntese daquilo que se passou ao longo do semestre. (Tutor
N)
Dentro do auto-desenvolvimento, os docentes entrevistados afirmam ser possível
aos estudantes colher, na metodologia, competências relativas à criatividade, à
capacidade de iniciativa e ao dinamismo. Estes aspectos são claramente
identificados nas palavras seguintes:
Aliás, um dos itens da avaliação, das componentes de avaliação, é
precisamente a capacidade de iniciativa. Portanto a coordenação lança
as operações e também tem que as elaborar, e depois existem aquelas
operações que são da iniciativa do aluno e que são valorizadas. E
isso é incutido ao aluno. E eles têm, não é só nas operações, têm de
mostrar constantemente a capacidade de iniciativa. De fazer coisas,
não é? Porque ninguém faz por eles. Se eles não trabalharem o
projecto deles não funciona. Portanto eles têm que ter iniciativa.
Muita ou pouca, têm que ter iniciativa. (Tutor E)
Esta participação activa dos alunos na construção das suas aprendizagens é,
igualmente, acompanhada de um potencial reflexivo. De facto, os docentes são
unânimes em sublinhar que a metodologia constituiu um instrumento importante
neste processo. O curto período de tempo de funcionamento da disciplina pode,
no entanto, não permitir uma captação mais profunda desta competência:
A Simulação Empresarial está construída para desenvolver essa
capacidade de reflexão. O que eu creio muitas vezes, é que a
envolvência é tal que muitas vezes o tempo de reflexão que se impunha
para algumas questões em particular, não é insuficiente, mas implica
uma maior urgência da parte deles, deixando esse aspecto menos
vincado. Mas sobretudo em termos de experiência futura e aquilo que
deve ficar é a reflexão do que a metodologia lhes deixou. (Tutor L)
Na perspectiva de um dos docentes, acresce ainda o facto da Simulação
Empresarial prover o estudante com competências de auto-estima e auto-
confiança, capaz de o tornar mais apto a prosseguir uma carreira profissional:
Eu penso que disciplina o que permite aos nossos alunos é, aumentar-
lhes o nível de auto-estima e de auto-confiança. Acho que este é um
aspecto talvez fundamental. (Tutor H)
Particularmente interessante nos parece a sugestão, do mesmo docente, no
sentido de se avaliar o número de diplomados que optam por iniciar uma carreira
profissional por conta própria. Sendo claro que tal opção passa,
necessariamente, por um conjunto de pressupostos exteriores, ele afirma que:
Mas, a ideia que eu tinha, a hipótese de trabalho que eu colocaria
era Com a Simulação Empresarial tivemos muito mais alunos que
iniciaram uma carreira por conta própria. Eles iniciaram, do meu
ponto de vista, uma actividade por conta própria, porque a Simulação
Empresarial lhes deu precisamente aquele nível de confiança e de
contacto com a realidade que os habilita a encarar o mundo do
trabalho com outro espírito. Com um espírito mais positivo, mais
ganhador (Tutor H)
Esta opção manifestada pelos docentes parece entender a metodologia como um
processo dinâmico capaz de incentivar oportunidades de negócio entre os
diplomados.
A perspectiva dos diplomados
As análises estatísticas, realizadas sobre o conjunto dos dados recolhidos
junto dos diplomados, procuraram analisar a perspectiva destes quanto ao grau
de alteração das suas competências pessoais, por força da metodologia seguida
na disciplina. Os dados apresentados na Tabela 2, caracterizam o conjunto de
respostas obtidas.
Tabela 2. Caracterização dos resultados percentuais dos diplomados
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|Grau de alteração ou não alteração das competências pessoais |Tendência a|Não se |Tendência a|
|nível_____________________________________________________________|diminuir____|alteraram|aumentar____|
|de_comunicação_escrita___________________________________________|2.4_________|46.0_____|51.6________|
|de_comunicação_oral______________________________________________|1.2_________|36.7_____|62.1________|
|da_análise_crítica_______________________________________________|1.4_________|18.8_____|79.8________|
|da_gestão_do_tempo________________________________________________|3.1_________|14.7_____|82.2________|
|da_planificação_de_tarefas_______________________________________|2.6_________|14.0_____|83.4________|
|da_capacidade_de_síntese__________________________________________|2.4_________|32.5_____|65.1________|
|da_criatividade____________________________________________________|2.1_________|34.5_____|63.4________|
|da_definição_de_objectivos_______________________________________|1.7_________|22.4_____|75.9________|
|da_fundamentação_de_decisões____________________________________|1.9_________|19.1_____|79.0________|
|da_capacidade_de_iniciativa________________________________________|2.1_________|25.4_____|72.5________|
|da_organização_pessoal___________________________________________|1.4_________|33.4_____|65.2________|
|do_dinamismo_______________________________________________________|1.7_________|30.6_____|67.7________|
|da_metodologia_de_trabalho_________________________________________|1.6_________|20.6_____|77.8________|
A análise do conjunto de itens que integram o bloco das competências pessoais
permite-nos, em termos gerais, sublinhar a tendência positiva manifestada pelos
diplomados sobre a possibilidade de registo de alterações, originadas pela
metodologia PBL seguida na Simulação Empresarial. O tratamento estatístico
descritivo, para além de permitir identificar alguns temas mais relevantes em
função dos resultados obtidos, induz hipotéticas interpretações em função da
configuração das respostas dos sujeitos.
Apesar de um certo optimismo, torna-se clara a existência de diferentes
valorizações dos itens em análise, podendo-se, de alguma forma, hierarquizar
dois perfis de resposta distintos. A análise da tabela permite verificar um
perfil marcadamente positivo, que engloba a análise crítica, a gestão do tempo,
a planificação de tarefas, a definição de objectivos, a fundamentação de
decisões, a capacidade de iniciativa e a metodologia de trabalho. No entanto,
existe outra matiz nas opiniões dos diplomados. Neste segundo perfil, é
possível detectar posições mais moderadas que, é certo, continuam a expressar a
percepção de que existe uma tendência positiva que promove a comunicação oral e
escrita, a capacidade de síntese, a criatividade, a organização pessoal e o
dinamismo. Em particular, realce-se o juízo dos graduados, no item relativo à
comunicação escrita, onde dividem as opiniões entre uma avaliação neutra e uma
avaliação positiva fraca.
A perspectiva das entidades empregadoras
Com as entrevistas aos empregadores pretendemos perspectivar um conjunto de
questões relativas às competências pessoais dos diplomados. Para melhor
podermos circunscrever as mudanças a este nível, passamos a descrever os
resultados extraídos das unidades de sentido associadas aos itens abordados
pelas entidades, sendo que apenas foram referenciados por estas os itens
fundamentação de decisões, organização pessoal e auto-estima e auto-confiança.
Na opinião de todos os empregadores entrevistados, a Simulação Empresarial
possibilita, aos graduados, o desenvolvimento da capacidade de fundamentação de
decisões, balizada não só por conceitos teóricos, mas também por aspectos
práticos já vivenciados. Eis um exemplo destes testemunhos:
Quando normalmente eles chegam aqui, e tomando em consideração o ter
ou não ter a Simulação Empresarial, nota-se nos primeiros tempos,
quando formulam alguma questão, quando tentam desenvolver alguma
opinião, que a fundamentação que trazem e não tendo a Simulação
Empresarial, é uma fundamentação mais teórica e talvez menos
elaborada. Com a Simulação Empresarial penso que conseguem
desenvolver questões que, embora em termos teóricos estejam ao nível
do que estariam se não tivessem a disciplina, mas conseguem trazer
uma versão prática nem que seja dizer Eu fiz isto já! Eu já tive
esta experiência prática. Eu contabilizei, eu fiz este determinado
movimento, eu fiz esta determinada situação e já fiz em termos
práticos. Coisa que não acontecia, como é óbvio porque não tinha
essa componente prática. (Entidade C)
Com esta base, os diplomados que frequentaram a unidade curricular de Simulação
Empresarial apresentam-se, assim, mais valorizados e reconhecidos
profissionalmente, ao conseguirem atingir certos patamares da profissão em
comparação com outros colegas que não frequentaram a disciplina.
Ou seja, muitas da vezes eles quando entram, pelo menos conseguem
logo nos primeiros tempos, chegar a um determinado ponto onde
normalmente só chegariam passados três ou quatro meses depois.
(Entidade C)
Observando o sentido das respostas, de um modo geral, os empregadores não
reconhecem a organização pessoal como uma competência enaltecida pela
frequência da disciplina de Simulação Empresarial.
Agora dizer se o diplomado traz essa melhor coordenação de meios, de
gestão de tempos, não lhe consigo dar uma resposta concreta.
(Entidade C)
No que respeita à auto-estima e auto-confiança, apenas um dos empregadores
abordou o tema, garantindo que a experiência adquirida na Simulação
Empresarial, ao proporcionar mais preparação, torna os diplomados mais
confiantes e seguros das suas acções.
E nesse sentido, acho que quando as pessoas chegam se sentem mais
preparadas, mais dinâmicas, com maiores conhecimentos teóricos que
tinham sido já consolidados na prática. E também que as pessoas se
sentem mais confiantes nelas próprias e no trabalho por elas
desenvolvido. E dá-lhes mais segurança para eles próprios decidirem.
(Entidade D)
A mesma entidade empregadora vai ao encontro das opiniões manifestadas por
alguns dos docentes, de que a frequência da disciplina é uma mais-valia em
termos de capacidade de assumir uma atitude positiva.
Eu acho que, acima de tudo, preparam essas mesmas pessoas para
chegarem e para vencerem. (Entidade D)
Um aspecto que nos parece particularmente digno de ser referido prende-se com o
facto de todos os empregadores entrevistados terem conhecimento da existência
da disciplina de Simulação Empresarial do ISCA-UA, facto este que parece
revelar a atenção que é dada às escolas formadoras de graduados no âmbito das
necessidades das empresas.
Conclusões
O presente trabalho investiga os modos de expressão da utilização de
metodologias PBL ao nível das competências pessoais dos alunos e graduados do
ensino superior. Não é nosso intento universalizar resultados. De facto, os
dados que analisámos não o permitem. Contudo, alicerçados nos indicadores que
examinámos é possível, desde já, concluir que as metodologias de ensino-
aprendizagem baseadas em modelos PBL, validam algumas proposições conceptuais
da produção teórica já existente sobre esta temática. No entanto, outras há que
não parecem ser corroboradas pelos resultados práticos alcançados. Com base
nalgumas reflexões que fomos estabelecendo, é possível ponderar novas
perspectivas capazes de contribuírem para a activação de um debate em torno da
dinâmica de competências de auto-desenvolvimento, associadas à utilização de
metodologias PBL. Assim, apesar de, teoricamente, a investigação revelar que as
metodologias em estudo tendem a afectar o perfil pessoal dos estudantes, não se
revela totalmente clara a forma como tais alterações são percepcionadas pelos
vários agentes envolvidos no processo educativo (alunos, docentes, diplomados e
empregadores). Tal como foi observado, identificámos duas tendências nas
percepções manifestadas pelos entrevistados e inquiridos.
Por um lado, os resultados conseguidos com o grupo constituído pelos alunos, os
diplomados e os docentes conduzem-nos a sustentar que as metodologias em
análise contribuem para o desenvolvimento de competências pessoais,
essencialmente ao nível da utilização de recursos (gestão, planificação e
metodologia de trabalho) e da construção do conhecimento (análise crítica,
fundamentação de decisões e capacidade de iniciativa). Tais especificidades
identificam-se, eventualmente, com as características do perfil do graduado que
utilizou uma metodologia PBL na sua formação, conforme referem Albanese (1993),
Barrows (1999) e Kolmos (1996). Outra das conclusões do estudo é a de que as
capacidades de comunicação (oral e escrita) surgem bastante menos valorizadas,
quando comparadas com os restantes itens de auto-desenvolvimento. Porventura,
uma justificação poderá encontrar-se no facto das metodologias tradicionais
explorarem já, estas vertentes. Numa outra perspectiva, a circunstância de os
docentes poderem não indicar soluções uniformes contribui, do mesmo modo, para
incentivar o debate de opiniões entre os alunos. Neste sentido, parece que a
discussão de ideias que muitas vezes ocorre tem subjacente uma metodologia que
aumenta, significativamente, o poder argumentativo dos alunos, apesar de estes
parecerem desenvolver atitudes mais confortáveis em ambientes de cariz mais
tradicional. Sublinhe-se, igualmente, o facto de os docentes terem
problematizado a opção sobre a possibilidade de estabelecimento de uma carreira
profissional por conta própria (empreendedorismo). Em certa medida, este
aspecto reconhece às metodologias a capacidade de incrementar a auto-estima e
auto-confiança nos alunos, podendo, em conjunto com diversos outros factores,
contribuir para a assunção da ideia de criação de empresas na área. Dado o
facto de a literatura não abordar tal situação, parece-nos possível sustentar a
possibilidade de inserir nas teorias existentes, a lógica do empreendedorismo,
motivada pelas novas metodologias aqui em estudo.
Por outro lado, a percepção manifestada pelo grupo das entidades empregadoras,
no entanto, parece não reconhecer, pelo menos tão acentuadamente, o impacto
destas metodologias ao nível do desenvolvimento pessoal dos formandos. Por uma
via, encontramos um tom de discurso que valoriza a metodologia como
potenciadora de fundamentações mais consistentes, realçadas pelas experiências
práticas vividas pelos alunos. O mesmo tom positivo é manifestado nos itens
referentes a atitudes de posturas mais confiantes e de maior segurança. No
entanto, é possível detectar uma persistente tendência dos empregadores em não
reconhecerem a metodologia PBL como responsável, pelo menos de forma directa,
por uma melhoria de competências pessoais dos diplomados.
Estes factos levam-nos a concluir que tais modelos metodológicos que sustentam
alterações ao nível pessoal dos alunos são demasiado simplistas, pelo que, em
nossa opinião, não é razoável generalizar esta problemática, pelo menos no que
respeita aos empregadores.
Os resultados conseguidos com a análise dos dados suscitam, igualmente, algumas
reflexões mais laterais. Uma possível consideração passa por entender que uma
estratégia que potencialmente favorece o desenvolvimento de competências
pessoais, não tem o mesmo efeito sobre todos os alunos ou contextos. Uma outra
ponderação se nos afigura pertinente. Se, como referido pelo European Centre
for the Development of Vocational Training (2010), as previsões de
empregabilidade para a Europa em 2020 apontam para oitenta milhões de postos de
trabalho, a questão de fundo que se levanta é a de perceber que tipo de
competências serão necessárias para que estes lugares sejam preenchidos de
acordo com as necessidades dos empregadores. Neste registo, um dos nossos
desassossegos prende-se com o saber como poderemos assegurar a identificação
precoce das competências que assegurem as necessidades de um mercado de
trabalho multifacetado. Simultaneamente, reflectimos sobre a necessidade de
abrir os mundos da educação e da formação, nomeadamente a nível superior,
tornando-os mais reactivos às necessidades de aprendentes e empregadores,
através do desenvolvimento de competências relevantes centradas em estudos e
resultados concretos. Porém, e atendendo ao papel das IES enquanto difusoras de
cultura, importa analisar com cuidado o aspecto do equilíbrio entre a
conceitualização teórica e a aplicação prática da mesma. Estamos, assim,
perante a pressão de algum exercício de flexibilidade ao nível da gestão de
competências não só a nível profissional mas, mais intensamente, a nível não
cognitivo e, em particular, pessoal. Porque, modernizar para ir de encontro a
estes novos desafios colocará uma pressão considerável sobre os actuais
sistemas de educação e de formação, especialmente nos países em
desenvolvimento.