O acolhimento familiar numa perspectiva ecológico-social
A obra de Bronfenbrenner descreve a relação entre o ambiente e o
desenvolvimento humano, sublinhando o modo como o espaço ecológico-social em
que o indivíduo está inserido influencia o seu percurso, condicionando-o ou
potenciando-o, por intermédio das interacções que se estabelecem e restabelecem
entre pessoas (como por exemplo alimentar e acarinhar um bebé, brincar com uma
criança, as actividades ou brincadeiras entre crianças), entre estas e os
símbolos e objectos que caracterizam o seu ambiente externo (como por exemplo
ler, brincar sozinha, resolver problemas, praticar desporto, ou adquirir novos
conhecimentos) e entre sistemas (nomeadamente entre a escola e a família, ou
entre o ensino superior e o mercado empresarial). Ao longo da vida, os
indivíduos adaptam-se ao meio envolvente mas também podem, de modo recíproco,
adaptá-lo ou modificá-lo, influenciando-se mutuamente (Thomas & Pierson,
1995; Caballo, Candia, Caride & Meira, 1996). Na perspectiva ecológica,
ecosocial ou ecosistémica "os sujeitos, longe de serem um produto passivo
do ambiente, são agentes dinâmicos do mesmo, edificando realidades"
(Caride & Meira, 1995, p.146), através da interacção com os elementos
demográficos, físico-naturais, sociais e culturais de uma comunidade (Meira,
1999).
O espaço ecológico "é concebido como uma série de estruturas encaixadas,
uma dentro da outra, como um conjunto de bonecas russas" (Bronfenbrenner,
1996, p.5), mas que não estão hermeticamente fechadas, umas em relação às
outras, das mais pequenas à maior. Ancorada na teoria sistémica, a perspectiva
ecológica reconhece a interdependência e a interrelação entre os diferentes
níveis ambientais e os componentes que os compõem, produzindo, no seu conjunto,
um meio que é globalmente distinto (pode ser mais ou pode ser menos) da mera
soma de cada uma das suas parcelas (Relvas, 1996; Alarcão, 2000). Um sistema
ecológico caracteriza-se ainda pela reciprocidade entre as suas partes, pelo
facto da mudança numa delas afectar o todo, por ser uma estrutura flexível e
adaptativa que tende para o equilíbrio e se prolonga no tempo, gerindo a
abertura (ou fecho) das suas fronteiras face aos restantes sistemas ou sub-
sistemas (Thomas & Pierson, 1995; Ander-Egg, 1997). Em síntese, as suas
propriedades são, segundo a enumeração de Payne (2005), o estado formado
(steady state), a homéostase ou equilíbrio, a diferenciação, não ser sumativo e
a reciprocidade. Estabelece papéis e funções, segundo determinadas regras, e a
"clara delimitação destes limites interaccionais permite a cada um, em
cada momento e em cada espaço, saber o que pode esperar de si próprio, o que
podem os outros esperar dele e o que pode ele esperar dos restantes"
(Alarcão, 2000, p.43). Todavia, apesar de partirem do mesmo tronco comum, são
distintas as acepções conceptuais e metodológicas da perspectiva sistémica e
ecológica, "sendo este último o que recolhe as aportações do
primeiro" (García & Melían, 1993, p.80).
Anderson, Carter e Lowe, citados por Payne (2005, p.142), atribuem à
perspectiva sistémica um "continuum atomístico-holístico", uma vez
que se centram na situação pessoal e social de uma pessoa ao mesmo tempo que
estudam a interacção da sua actuação com o todo. Parte da organização político-
social não para a rejeitar, mas para, aceitando-a e analisando-a, propor o seu
aperfeiçoamento e ajustamento a cada contexto específico. Numa apreciação
crítica à perspectiva sistémica e ecológica, Payne (idem, p.157) reconhece-lhe
as seguintes vantagens: enfatiza as mudanças ambientais em detrimento das
abordagens psicológicas; concentra-se nos efeitos de uma pessoa sobre a outra
mais do que nos pensamentos ou sentimentos internos; alerta para a
possibilidade de alcançar a mesma finalidade seguindo caminhos alternativos; é
unitária, integrada e holística; e evita explicações lineares ou
determinísticas (tipo causa-efeito) do comportamento ou dos fenómenos sociais.
São quatro os círculos que, segundo Bonfrenbrenner (1996), rodeiam ou integram
a pessoa no seu núcleo. O microsistema é o primeiro, o mais íntimo e imediato,
ou mais conhecido, que envolve o indivíduo desde os primeiros anos de vida, e
as interacções que desenvolve em territórios como a casa / família, com os pais
e os irmãos, a sala de aula ou o parque infantil. Bronfenbrenner denominou
mesosistema às relações ou interconexões que cada um destes micro espaços
estabelece entre si (relação escola/família, ou família/ amigos da vizinhança),
sublinhando a importância que têm no desenvolvimento, a par dos acontecimentos
que ocorrem num desses espaços, uma vez que a capacidade de aprendizagem de uma
criança "pode depender tanto do como ela é ensinada quanto da existência
e natureza de laços entre a escola e a família" (idem, p.5). Em suma, o
mesosistema é um sistema composto por microsistemas e será tanto mais poderoso
e rico para o desenvolvimento da criança quanto mais diversos e fortes são os
vínculos entre os meios, com particular destaque para o que liga a família à
escola (Garbarino & Eckenrode, 1999).
O exosistema constitui o terceiro nível ecológico e refere-se à comunidade
envolvente em que as famílias se inserem e ao mundo do trabalho (Alberto,
2004). São ambientes mais afastados, nos quais o indivíduo pode nem estar
presente, mas cujos acontecimentos influenciam o seu desenvolvimento, como por
exemplo o desemprego ou as condições de trabalho dos pais, a sua rede de
amigos, a sala de aula de um irmão mais velho, os Serviços Sociais locais ou
serviços autárquicos de planificação urbanística. Pormenorizando, são as
conexões ou processos entre dois ou mais sistemas, "um dos quais, pelo
menos, não integra normalmente a pessoa em desenvolvimento, mas no qual ocorrem
eventos que influenciam os processos dentro do sistema que contém aquela
pessoa" (idem, p.80). Isto é, são eventos que, segundo Garbarino e
Eckenrode (1999) acarretam um duplo risco quando afectam os pais e adultos, o
que por sua vez, empobrece o microsistema (por exemplo um horário de trabalho
muito longo ou a necessidade de viajar muitas horas para chegar ao local de
trabalho) ou se são decisões que afectam de forma adversa a criança (por
exemplo, a escola decide suspender as actividades de enriquecimento
curricular).
O último nível socioambiental remete para a cultura social, para os valores, as
crenças e os modos de agir de uma determinada sociedade, para a forma como ela
se organiza, desde o espaço mais privado (microsistema) à esfera nacional. Que
existam ou que poderão existir, abrangendo "possíveis planificações para
o futuro de acordo com a visão dos líderes políticos, dos planificadores
sociais, dos filósofos e cientistas sociais de uma sociedade empenhados na
análise critica e alteração experimental dos sistemas sociais
prevalecentes" (Brofenbrenner, 1996, p.22). Por outras palavras, são os
padrões organizacionais e ideológicos das instituições sociais numa cultura (ou
subcultura) particular. As casas, as escolas, os bairros, os ambientes de
trabalho, os cafés e as relações entre eles, para referir alguns exemplos
citados por Bronfenbrenner (idem), são diferentes entre dois países, e também
não são as mesmas para as famílias abastadas e para as famílias pobres que
vivam num desses países, ou que pertençam a grupos étnicos ou religiosos
distintos. A violência intrafamiliar enraíza-se na cultura e nos costumes que
toleram os castigos corporais (Azevedo & Maia, 2006), e o autoritarismo no
poder do adulto sobre a criança incompetente (Alberto, 2004).
Apesar de ser composto por padrões consistentes de organização e de
comportamento, o macrosistema, a maior e última "das bonecas", pode
sofrer modificações, o que significa que "a estrutura dos ambientes numa
sociedade pode ser nitidamente alterada e produzir mudanças correspondentes no
comportamento e desenvolvimento" (Brofenbrenner, 1996, p.6), como sucede
em situações de crise económica ou política. O espaço nacional está igualmente
inserido noutros sistemas, comunitários ou internacionais, e o conjunto dos
acontecimentos económicos, culturais, políticos e sociais influenciam o seu
desenvolvimento. Como se afirma a propósito do seu estudo, em Economia
"não há ilhas", mas um feixe multiplicador de variáveis e de
interdependências, com diferentes níveis e dimensões, que geram o crescimento
ou a recessão. No campo do trabalho social, seguindo o mesmo raciocínio, García
e Melián (1993) declaram que não há indivíduos isolados, porque fazem parte de
sistemas, ou "tudo depende", na expressão de Garbarino e Eckenrode
(1999), dos níveis mais próximos e afastados, dos "mundos maiores e
menores" (p.37).
Assim sucede também com o desenvolvimento humano, como Bronfenbrenner
evidenciou, com as suas causas e relativamente às suas consequências, que para
as crianças podem ser particularmente lesivas. Trata-se, no fundo, de perceber
que os comportamentos de um indivíduo se devem compreender não apenas pelo que
ele é ou pelo seu desenvolvimento ontogénico, na expressão de Belsky (1980),
que representa a história e a herança pessoal, mas ponderando as inúmeras
relações que ele estabelece, numa troca contínua, com os diferentes ambientes
ou níveis ecológicos em que está inserido, que condicionam (reduzindo ou
aumentando) o grau de concretização do seu potencial genético (Bronfenbrenner,
n.d.; Howe, et al., 1999). Ou, de uma forma sintética, da complementaridade
entre o sistema biopsicológico que caracteriza o ser humano e o sistema
socioeconómico-político (Brofenbrenner, 2005).
O desenvolvimento humano resulta da correlação que se estabeleça entre a
hereditariedade e o ambiente ecológico e define-se como "o fenómeno de
continuidade e mudança nas características biopsicológicas dos seres humanos
como indivíduos e como grupos" (idem, p.3). Correlação porque entre o
individuo e o ambiente desenvolve-se uma interacção recíproca, isto é, por um
lado o meio ambiente exerce a sua influência, por outro o indivíduo penetra no
meio em que reside e restrutura-o, originando um processo de acomodação mútua
(Brofenbrenner, 1996), que não pode ser compreendido à margem das
circunstâncias quotidianas e dos contextos em que tem lugar (Caride &
Meira, 1995), porque a criança não cresce no "vácuo" (Daniel,
Wassell & Gilligan, 1999). A integração ou a inadaptação não existem fora
dos contextos sociais e remetem, necessariamente, para ambientes concretos
(Garbarino & Barry, 1999), que a perspectiva ecológica ajuda a compreender.
O modelo ecológico-social de Bronfrenbrenner pode ser utilizado na análise da
situação de maus tratos que vitima uma criança (Belsky, 1980; Garbarino, 1982;
Paúl & Arruabarrena, 1996; Rodrigo & Palacios, 1998), com causas
multifactoriais, ao descrever o ambiente ecológico concreto em que a sua
família se integra, as suas disfunções, e o modo como a família se relaciona
com os meios exteriores, ao nível do meso e do exosistema. Problemas graves têm
múltiplas fontes e causas, que requerem, para plano de intervenção, um modelo
capaz de abarcar a complexidade e que refute as respostas simples e imediatas
(Daniel et al., 1999).
Mas também pode ser utilizado, uma vez decidida a retirada, para caracterizar e
compreender a situação de Acolhimento Familiar em que a criança passa a viver,
as interacções e conexões entre os diferentes níveis ecológicos que o novo
contexto de vida determina, o que as pessoas nele envolvidos "sentem, o
que sabem, como conhecem, quais são as suas crenças, percepções, modos de ver e
entender" (Caride & Meira, 1995, p.140). As reflexões que se seguem
representam uma tentativa de aplicação do modelo ecológico-social ao
Acolhimento Familiar, distinto do descrito por Panchón (1998), porque distante
da temporalidade e da voluntariedade nele assumidas, mas partilhando os
critérios de economia e de proximidade que propõem. O Acolhimento Familiar é,
para este efeito, a unidade familiar dependente de outras pessoas e
organizações sociais, que proporciona estadias de curta ou longa duração (o que
exclui as situações de emergência em que o bebé ou a criança não passam mais do
que uns dias na companhia dos acolhedores). Parte-se igualmente do pressuposto
anteriormente referido que a criança "não é um receptáculo passivo da
experiência do acolhimento" (Gilligan, 1998, p.83) mas que influencia o
ambiente que a rodeia, particularmente as respostas que os seus acolhedores lhe
dão.
Ser acolhido representa desde logo, ao nível do microsistema, e do ponto de
vista da criança, a entrada numa nova casa e a integração num novo espaço
familiar, que deve ser, simultaneamente, um ambiente terapêutico para a
criança, que promove a mudança para padrões seguros de attachment (Cairns,
2002). O nível ecológico de maior proximidade e permanência passa a ser
composto pela família dos acolhedores, pela interacção que a criança acolhida
estabelece e desenvolve com cada um dos membros da família de acolhimento. Nas
situações em que a criança é obrigada a mudar de localidade para ser acolhida,
pode ser necessária a transferência da creche, do jardim infantil ou da escola.
O acolhimento implica a exploração de novos espaços, como a rua, o bairro, as
instalações desportivas ou o parque, outros símbolos e novos objectos, implica
estabelecer novos amigos, no espaço escolar, na vizinhança e na rede de
contactos de que os acolhedores dispõem, diminuindo significativamente ou
cessando os contactos com amigos e vizinhos que possuía no contexto de vida
anterior.
Neste nível primário poderão permanecer, ou não, os pais, os irmãos e outros
familiares, de acordo com o contacto que for possível estabelecer no decurso do
acolhimento (David, 2000; Hill, 1998). Surgem (ou mantêm-se) os técnicos ou
assistentes sociais da Equipa de Acolhimento que acompanha o desenrolar da
estadia e que contactam, de forma mais ou menos frequente, com a criança
acolhida.
No mesosistema, destaque para a relação que a família de acolhimento passa a
desenvolver com a Equipa de Acolhimento e com a família biológica (ou com os
anteriores detentores da guarda da criança), bem como destas entre si, compondo
este triângulo relacional (mais ou menos cooperativo) a essência interaccional
da colocação, com a criança no centro. A perspectiva ecológica propõe um
relacionamento inclusivo, em que os protagonistas trabalham em rede para
maximizar o apoio social disponível para a criança protegida (Wade, 1999).
Neste nível cabem ainda as relações que acolhedores estabeleçam com a escola,
de enorme importância face às dificuldades de integração e de aprendizagem que
frequentemente caracterizam as crianças acolhidas, bem com as relações família
/ vizinhança ou família/ grupos de actividades desportivas, culturais ou de
outro tipo no domínio do lazer e da ocupação do tempo livre, que podem
desempenhar um papel de relevo na construção da resiliência (Gilligan, 2000)
O desenvolvimento da criança acolhida depende do padrão de vida e das
transformações que vão alterando a configuração da família de acolhimento.
Acontecimentos no âmbito laboral, na família alargada ou no grupo de amigos dos
acolhedores podem influenciar o percurso da criança acolhida, tal como os
acontecimentos que ocorrem no contexto escolar dos filhos dos acolhedores. No
exosistema da criança acolhida integram-se ainda todos os acontecimentos
relevantes que afectam a família biológica e a sua condição social, económica e
cultural, pois apesar da criança não participar directa ou activamente nestas
esferas, a possibilidade de regresso a casa pode ser condicionada ou facilitada
pelo decurso desses acontecimentos, deles dependendo eventualmente também,
ainda que de um modo indirecto, as suas possibilidades de desenvolvimento. A
própria intervenção da Equipa de Acolhimento, a qualidade do acompanhamento e
da tomada de decisão está relacionada com as opções que, a nível local, forem
tomadas pela entidade de enquadramento. O mesmo se pode afirmar relativamente à
família biológica e à existência de programas específicos de apoio e
reintegração familiar.
Por fim, ao nível do macrosistema, sublinhem-se os padrões culturais e
ideológicos predominantes que representam os valores e as crenças sobre a
família e sobre o Acolhimento Familiar. A representação social da
responsabilidade pelas crianças referida por González e Triana (1998) é disso
exemplo, podendo essa responsabilidade ser atribuída predominantemente à
família biológica, que se pensa insubstituível, ou ser partilhada pelos membros
da comunidade. Garbarino e Eckenrode (1999) sublinham o risco dos fenómenos
sociais que reduzam "a capacidade e disposição dos adultos para cuidar
dos filhos, e dos filhos para aprender com os adultos" (p.42). O esquema
de organização do Acolhimento familiar, ou a sua "planta", estão
fortemente condicionados por esse modo de pensar, que se traduz num quadro
institucional e legal que determina, por sua vez, um modo de agir. A atribuição
de prioridade ao Acolhimento familiar no âmbito das políticas sociais de
protecção das crianças em perigo, face às outras medidas de colocação, é um
sintoma dos princípios jurídicos e filosóficos vigentes.
Obviamente esta representação não é estática. A qualquer momento podem ocorrer
mudanças no ambiente ecológico, em resultado da dinâmica familiar (e aqui
inclui-se a família de acolhimento e a família biológica), ou da própria
natureza da medida, que pode ser sujeita a modificações (nomeadamente no
esquema de contacto com a família biológica, ou na passagem de um acolhimento
de curta duração para um acolhimento prolongado) ou até cessar (pelo regresso
da criança a casa ou pela passagem para outra medida, como o Acolhimento
Residencial). Por outro lado, e à medida que o tempo passa, permanecendo a
criança acolhida, experimentará um conjunto de transições no meio ambiente,
como a entrada na escola, o desempenho de uma nova actividade desportiva ou
cultural ou a mudança dos técnicos da Equipa de Acolhimento que se ocupam do
seu processo.
O próprio macrosistema está sujeito a uma contínua restruturação, podendo
suceder, por exemplo, que a política de intervenção socioeducativa passe a
privilegiar a colocação familiar das crianças e jovens, em detrimento da sua
institucionalização, como sucedeu nas últimas décadas em diversos países
europeus. As atitudes e comportamentos que envolvem o indivíduo, a família e a
comunidade vão evoluindo e adaptam-se a novas ideias e processos, como o modo
de educar os filhos, as novas formas de família, o estatuto da criança enquanto
sujeito de direitos e deveres, a percepção social da violência, o acesso aos
meios de assistência e de protecção, entre outros factores.
O modelo ecológico possibilita não apenas a compreensão do ecosistema que
rodeia a criança acolhida, das interacções e das interdependências que o
caracterizam, mas também orienta a intervenção no sentido de proporcionar à
criança as condições adequadas ao seu desenvolvimento, e a questioná-las
cuidadosamente. Como observa Garbarino (2000), "a primeira lei da
ecologia é que "nunca se pode fazer apenas uma coisa""
(p.35), e deve-se ter particular atenção com as soluções óbvias, porque a
interacção entre sistemas pode produzir consequências inesperadas. Por exemplo,
se for detectada no mesosistema uma dificuldade na relação entre a família de
acolhimento e a escola, as acções a implementar para ultrapassar este
obstáculo, que pode ser particularmente gravoso para o percurso educativo da
criança, têm de se ajustar ao contexto em que decorrem, aos padrões sociais e
culturais dos acolhedores, às suas expectativas, crenças e valores, e aos
recursos disponíveis na escola (podendo ser recomendável uma visita
domiciliária fora do horário laboral em detrimento da mera convocatória para
uma reunião de pais na escola).
O desenvolvimento da criança na dimensão intelectual, emocional, social e moral
requer "a participação em actividades progressivamente mais complexas,
numa base regular durante um extenso período de tempo da vida de uma criança,
com uma ou mais pessoas com quem a criança desenvolve uma forte e mútua
vinculação, e que estão empenhadas no desenvolvimento e no bem-estar da
criança, de preferência para a vida" (Brofenbrenner, 2005, p.9), e de
preferência com a presença e a participação de pelo menos uma terceira pessoa,
como um cônjuge, um parente, um amigo ou um vizinho, compondo uma estrutura
interpessoal mais ampla. Este sistema de interacção depende, por sua vez, dos
restantes níveis ecológicos, e da forma como estes proporcionam os lugares, os
tempos e os reforços positivos, no âmbito das estruturas e políticas sociais,
aos seus participantes. Vai mudando ao longo da vida, à medida que vão
ocorrendo as transições ecológicas, que são mudanças de papel ou ambiente, como
a entrada na escola, a mudança de emprego ou de casa, a doença, o casamento e o
divórcio, ter um filho ou um irmão. A cada um destes novos papéis associa-se a
expectativa do desempenho de um conjunto de comportamentos, que alteram
"a maneira pela qual a pessoa é tratada, como ela age, o que ela faz, e
inclusive o que ela pensa e sente" (Brofenbrenner, 1996, p.7). As
transições produzem uma boa adaptação quando o novo ambiente assegura a
satisfação das necessidades e o bem-estar do individuo, sucedendo o contrário
quando geram "tensões e antagonismos, criando um relacionamento entre a
pessoa e o ambiente caracterizado pelo conflito, perda e stress" (Thomas
& Pierson, 1995, p.125).
São momentos chave, porque revelam o desenvolvimento obtido nos ambientes
anteriores. Na verdade, "enquanto a pessoa permanece no mesmo ambiente
primário, não podemos saber com certeza se aquele ambiente está tendo uma
influência benéfica ou nociva sobre o crescimento psicológico da pessoa; o
comportamento observado pode ser meramente adaptativo e não reflectir nenhuma
mudança desenvolvimental genuína" (Brofenbrenner, 1996, p.218). A
colocação em Acolhimento Familiar constitui um momento de transição, de uma
enorme extensão e significado, pelas alterações que acarreta e pelos novos
papéis que atribui aos seus protagonistas. Constitui também um momento
traumático, pelos maus tratos sofridos e que conduziram à colocação e pela
retirada, pelo "desenraizamento" que provoca e que revela, amiúde,
atrasos no desenvolvimento cognitivo, intelectual, emocional e social. Num
território desconhecido, a criança vê-se confrontada com novos espaços de
identificação, com outros lugares de encontro e de acção (Caballo et al.,
1996).
As transições ecológicas podem ocorrer em qualquer um dos quatro níveis do meio
ambiente: "o aparecimento de um irmão mais jovem é um fenómeno de
microsistema, a entrada na escola transforma o exo num mesosistema, e emigrar
para um outro país (ou talvez só visitar a casa de um amigo de um background
socioeconómico ou cultural diferente) envolve atravessar fronteiras de
macrosistema" (Brofenbrenner, 1996, p.22). No caso específico da
transição inicial para um mesosistema, o seu potencial de desenvolvimento
aumenta se a entrada no novo ambiente se der "na companhia de uma ou mais
pessoas com as quais participou de ambientes anteriores (por exemplo, a mãe
acompanha a criança à escola) " (idem, p.163) e se as ligações entre os
ambientes assentam na confiança mútua, no consenso de objectivos e na
facilidade e extensão da comunicação. Pelo contrário, se no primeiro dia a
criança vai sozinha à escola, "isto significa que entre a casa e a escola
há um só nexo: a participação da criança em ambos" (Garbarino &
Eckenrode, 1999, p.39).
O tipo de comunicação entre os meios também interfere no potencial de
desenvolvimento que proporcionam, destacando-se a comunicação face a face e a
carta ou nota pessoal. O mesmo se afirma em relação às informações, conselhos e
experiências de que o indivíduo dispõe antes de entrar no novo ambiente. Uma
vez no novo meio, "o desenvolvimento da pessoa é aumentado na extensão em
que informações, conselhos e experiências válidas relevantes num ambiente são
tornadas disponíveis, numa base continuada, para o outro" (Brofenbrenner,
1996, p.168).
Palavras que se aplicam na perfeição ao Acolhimento Familiar e que alertam para
a importância da preparação da colocação e da fase inicial da estadia, da
presença de um assistente social que funcione como uma pessoa de referência e
de continuidade ao longo da transição, e que informe de modo adequado sobre o
processo e o novo destino, da capacidade comunicativa e do relacionamento
cooperante entre a acolhedores e família biológica, de que resultam inúmeras
vantagens para o bem-estar da criança, bem como do respeito pela identidade e
pelo património cultural e social da criança, que lhe possibilite falar aberta
e livremente dos "seus dois mundos".
O desenvolvimento é igualmente intensificado se a criança ou jovem participa,
ao longo dos anos, numa diversidade de ambientes estruturalmente diferentes,
como sucede regra geral no Acolhimento Familiar, que requerem a adaptação a
pessoas, tarefas e situações que estimula, por sua vez, o aperfeiçoamento das
competências cognitivas e das habilidades sociais. Este pressuposto leva
Bronfenbrenner a concluir que "os efeitos desenvolvimentais positivos da
participação em múltiplos ambientes são aumentados quando os ambientes ocorrem
em contextos culturais ou subculturais que são diferentes entre si, em termos
de etnicidade, classe social, religião, faixa etária ou outros factores de
background"(idem, p.164).
No que diz respeito ao mesosistema, mas também ao exosistema, o potencial de
desenvolvimento dos seus participantes também varia de acordo com a existência
de vínculos directos ou indirectos com os ambientes de poder, tanto na
comunidade local como mais além, e na correspondente capacidade para
influenciar a distribuição de recursos e a tomada de decisões.
Payne (2005, p.158) elenca diversas críticas que têm sido dirigidas à abordagem
ecológica, nomeadamente, ser mais descritiva do que explicativa, não ser
prescritiva, dificultar a mudança radical do sistema quando ela é necessária,
em detrimento da sua manutenção, e usar uma linguagem técnica e complexa. Uma
parte destas observações já terá encontrado resposta, ao longo da reflexão aqui
exposta.
Parece essencial realçar que a abordagem ecosistémica se foca no interpessoal,
que caracteriza a essência do Acolhimento Familiar. Com efeito, para a área
onde nos situamos, proporciona um modelo descritivo e compreensivo que permite
a identificação das múltiplas variáveis e factores no contexto do Acolhimento
familiar, que evidencia os parâmetros que o definem, os processos que o
caracterizam e os potenciais efeitos que pode produzir na integração social e
no desenvolvimento das crianças. Nas palavras da Caride e Meira (1995), a
perspectiva ecológica permite conhecer e intervir de múltiplas formas e com
diversas finalidades, "seja como mera interpretação; como conteúdo para
uma mudança de discursos; como suporte metodológico para aprender de acordo com
renovados critérios de cientificidade; ou como oportunidade para situar-se nos
postulados éticos que se reclamam para preservar o meio ambiente em condições
de qualidade" (p.163). O enfoque ambiental ou comunitário abarca, pelo
exposto, tanto "os modelos para analisar e interpretar os problemas
sociais que afectam o menor como as estratégias de intervenção social
(educativa, legal, urbanística, sanitária, psicoterapêutica…) que se articulam
para prevenir a sua aparição ou para atenuar os seus efeitos" (Meira,
1999, p.71). À definição prática do fenómeno, segue-se a procura de explicações
e a predição do resultado da intervenção, cientificamente fundamentadas (Howe,
1999; Triseliotis, Sellick & Short, 1995). Uma vez diagnosticada e
analisada a má adaptação da criança ao meio, há que intervir nos diversos
factores que geram a situação problema, procurando assegurar o seu
desenvolvimento pessoal e a sua integração social. O Acolhimento Familiar é um
dos processos que podem servir para esse fim.