Estilos de liderança e escola democrática
1. Ponto de partida: agenda política e sociológica
A escola pública tem sido submetida nos últimos anos a uma multiplicidade de
medidas e programas reformadores com implicações visíveis aos níveis da sua
organização e administração, das relações laborais e das identidades
profissionais dos professores, do clima de trabalho e das metodologias
pedagógicas, da reconfiguração das relações de poder e dos perfis de liderança,
entre outras dimensões pertinentes. De entre os diversos patamares da
administração e da organização escolar, o campo da gestão e da liderança
destacou-se como um dos mais dilemáticos e controversos no actual contexto das
políticas educativas, justamente por representar o espaço onde se disputam e
entrecruzam, por um lado, os valores da cidadania e da participação democrática
e, por outro lado, os valores do gerencialismo e da eficácia técnica.
A agenda política e governativa portuguesa inscreveu, na actualidade, a
liderança (unipessoal) enquanto variável determinante para o funcionamento
eficaz dos estabelecimentos escolares. Por sua vez, no plano teórico-conceptual
as investigações recentes têm vindo a reavivar velhas tipologias de liderança
inscritas no património estruturante da Teoria Organizacional, para explicar (e
mesmo suportar) as actuais mudanças nas escolas. Proliferam estudos sobre os
processos de liderança escolar, diversificam-se as perspectivas teóricas de
análise, accionam-se diferentes metodologias de investigação. Não obstante, na
intersecção destas diversidades é possível identificar como elemento agregador
a assunção de uma ideologia de tipo gestionário, herdeira do movimento das
escolas eficazes, que coloca a tónica na relação linear entre liderança,
resultados e eficácia organizacional.
O presente texto procura debater criticamente os sentidos da relação entre os
processos de liderança, os modos de organização e gestão e os resultados
escolares, partindo de um enfoque cultural e simbólico. Os espaços-tempos de
desenvolvimento da gestão e da liderança são perspectivados enquanto loci de
produção e reprodução de cultura e, nesta óptica, relevam-se como instâncias de
regulação cultural e simbólica. Tentaremos explorar esta problemática a partir
da análise dos Relatórios de Avaliação Externa das Escolas, relativos aos anos
de 2006, 2007 e 2008, fazendo convergir a nossa reflexão para a discussão das
seguintes questões orientadoras:
i)Haverá alguma relação entre a liderança, a gestão e os resultados escolares?
ii)Qual a matriz dominante de "boa liderança" e de "boa
organização e gestão escolar" na óptica dos avaliadores?
iii)Que tipo de tensões poderá comportar a avaliação externa no plano das
configurações e das práticas organizacionais das diferentes escolas-objecto?
iv)Que repercussões poderão resultar do processo de avaliação externa das
escolas ao nível do seu desenvolvimento democrático?
Numa altura em que se assiste à generalização do processo de avaliação externa
das escolas e, simultaneamente, está em curso a implementação do modelo de
gestão que substitui os Conselhos Executivos pela figura do Director, propomo-
nos fazer emergir, nas linhas subsequentes, as imagens dominantes de escola
veiculadas pelo Grupo de Avaliação, assim como debater as suas implicações ao
nível do funcionamento democrático da instituição pública de educação. E é num
quadro de inspiração sociológica que nos ocorre perguntar se a actual
intensificação de uma cultura de avaliação das escolas não se estará a impôr
como uma nova forma de regulação, cujos efeitos se poderão traduzir no
nivelamento e no enfraquecimento da autonomia das organizações escolares?
2. Sentidos dominantes de governo das escolas: a cultura e a liderança como
técnicas de gestão escolar
A instituição escolar surge nos primeiros anos do século XXI vergada ao peso de
uma dupla responsabilidade social, que paulatinamente vem gerando certezas sob
o impulso da ideologia política dominante: a escola terá falhado na sua missão
de suprimento de mão-de-obra suficientemente qualificada, adaptável e flexível
face às necessidades reais do mercado de trabalho; por conseguinte, e porque
sobre ela recaem os desafios de preservação das estruturas e das relações
sociais do mercado capitalista, será necessário assumir-se a reorganização das
instituições educativas à luz das necessidades de uma sociedade cada vez mais
global e competitiva. E deste modo, "[...] a educação converte-se num
produto, tal como o pão ou os carros, e a única cultura que vale a pena abordar
é a 'cultura empresarial' e as destrezas flexíveis, conhecimentos,
disposições e valores, necessários para a competição económica" (Apple,
1999: 47; aspas no original).
Para alguns autores, assiste-se ao surgimento de um "novo paradigma de
governo educacional", a um "novo consenso" baseado "
[...] numa concepção única de políticas para a competitividade económica, ou
seja, o crescente abandono ou marginalização (não no que se refere à retórica)
dos propósitos sociais da educação" (Ball, 2001: 100). Se bem que a
hegemonia deste novo paradigma - que no relatório da OCDE (1995: 8),
Governance in Transition: Public Management Reformsin OECD Countries, se
apresentava sob a designação de "novo paradigma da gestão pública"
- não afecte de forma determinista e homogénea todos as realidades
sociais e educacionais, não deixa de constituir uma moldura político-ideológica
omnipresente com fortes implicações ao nível das políticas e práticas
educacionais. Desde logo, ao analisar as implicações deste "novo
paradigma" no campo educativo, S. Ball enuncia os três elementos-chave
responsáveis pelas recentes mutações nesse campo: a forma do mercado, a gestão
e a perfomatividade. A tranversalidade destes três imperativos às várias
reformas educativas em curso em vários países, apesar das suas manifestações
mais ou menos híbridas, multifacetadas e aditivas, denuncia processos
multicomplexos de viragem e de transformação do domínio educativo.
Vários estudos desenvolvidos sobre as políticas educativas no advento e apogeu
das ideologias neoliberais e no quadro dos processos de globalização (cf.,
entre outros, Apple, 1999; Ball, 2001; Teodoro, 2001, 2003, 2005; Lima 1994;
Afonso, 1998; Estêvão, 1998, 2002; Lima & Afonso, 2002) sublinharam que uma
das tendências mais generalizadas ao nível dos sistemas educativos se prende,
em larga medida, com a sua progressiva mercadorização, associada às políticas
de livre escolha, à privatização dos seus serviços, ao apelo da excelência
escolar como valor supremo; mas em sentido contrário, regista-se igualmente uma
tendência para a recentralização da educação (Lima, 1995, 2005), cujos
indicadores mais expressivos a reter são: a expansão dos currículos nacionais,
a imposição de exames nacionais e a implementação de esquemas de avaliação
interna e externa das escolas. Estas tendências ao constituirem "partes
de uma mesma equação (contraditória) que procura resolver a exigência
simultânea de mais e menos Estado" (Afonso, 1998: 120), oriundas da
convivência não pacífica entre ideologias neoconservadoras e ideologias de
feição neoliberal, encontram como principal força motriz o pressuposto de que
"organize-se a escola e tudo o resto se ordenará por arrastamento"
(Apple, 1999: 36).
O libelo político-ideológico que impende e se avoluma quotidianamente sobre a
esfera educativa, no que aos mais variados problemas económicos e sociais diz
respeito, transformou particularmente a instituição escolar num terreno
favorável à eclosão de reformas várias, em última instância, geradoras das
mudanças desejadas. Das escolas espera-se não só o cumprimento das novas
orientações centrais como também a sua responsabilização pela procura das
soluções mais eficazes para o seu desempenho. Ao deslocar-se (subtilmente) o
cerne das políticas educativas para preocupações mais centradas nos resultados,
não custa admitir que os valores emergentes (como eficácia, a competitividade,
a perfomatividade, entre outros) introduzam alguma conflitualidade e erosão nos
valores democráticos e participativos consagrados na organização escolar.
Esta crescente e redobrada pressão exercida sobre a escola, compelindo-a a
adoptar modelos de administração e gestão tipicamente empresariais, arrastou
consigo todo um movimento investigativo que passa a colocar no centro das suas
prioridades o estudo das dimensões culturais da escola, fundamentalmente numa
perspectiva gestionária e instrumental. Se bem que as dimensões culturais da
escola tenham constituido um objecto de estudo privilegiado na década de
oitenta do século XX, o certo é que o quadro político-axiológico emergente
encetou o deslocamento dos interesses investigativos para as dimensões mais
instrumentais, tecnicistas e pragmáticas da administração da educação.
Ao imputar-se ao sistema educativo a responsabilidade exclusiva pela fabricação
de competências úteis, adaptáveis e mobilizáveis no mercado de trabalho, e ao
sujeitá-lo a mecanismos de avaliação da sua eficácia, nomeadamente através dos
exames nacionais e de esquemas centralizados de avaliação das escolas (com ou
sem publicação de resultados), criaram-se as condições para infiltrar no mundo
escolar as mesmas lógicas e valores que enformam o mundo económico. A
produtividade de sucessos escolares pré-formatados a partir de perfis
centralmente adoptados e globalmente definidos, traduzidos essencialmente por
competências para competir (Lima, 2007), passa a constituir o mais importante
indicador do grau de eficácia e de excelência escolar que se deseja alcançar.
Ao assemelhar-se a uma espécie de barómetro, esta medida personificará a
qualidade do estabelecimento de ensino, a sua capacidade competitiva e
funcional face aos ditames de uma economia de mercado globalizada.
Neste seguimento, a cultura da escola vista numa óptica de integração, de
partilha, de comunhão dos objectivos e valores da organização assume uma
relevância significativa, na medida em que passa a ser vista como um mecanismo
de estabilização social, fundamental para o alcance das metas desejadas. À
semelhança do que se vai passando nos contextos empresariais, multiplicam-se
nos contextos escolares estudos sobre a cultura organizacional que visam
ensaiar fórmulas de gestão da cultura.
No que concerne à realidade portuguesa, assiste-se, entretanto, a um movimento
algo peculiar: enquanto no domínio científico as abordagens sobre a cultura
organizacional escolar tendem a adoptar um enfoque predominantemente crítico e
reflexivo, no campo da política educativa proclama-se a sua importância como
uma técnica de gestão da eficácia escolar. Quer no plano operacional das
medidas legislativas, quer ao nível dos discursos legitimadores das opções
políticas, depreende-se uma concepção essencialista de cultura organizacional
escolar, assente numa crença de tipo monocultural, que apenas considera como
cultura aquilo que é efectivamente partilhado pelos actores. A cultura, neste
sentido meramente integrador, representa tão-somente os padrões simbólicos
efectivamente partilhados pelos actores escolares. Culturas escolares fortes e
integradoras, expressas por um elevado sentido de pertença e de identidade
organizacional, são percepcionadas como promotoras do sucesso escolar e da
eficácia organizacional. Neste sentido, uma liderança unipessoal, centrada na
figura do Director, representará a "cola" ou o
"cimento" que irá solidificar a cultura da escola.
Esta imagem dominante de cultura e liderança escolar, mesmo que contrariada por
inúmeros trabalhos de investigação que evidenciam a presença de múltiplas
manifestações culturais, remete-nos para uma visão mecanicista de escola,
herdeira dos modelos racionalistas da organização. Para além de nato, o líder
deverá, em termos de ideal-tipo, ser treinado (e.g. pós-graduado em
administração educacional) e ajustável aos múltiplos contextos em que está
inserido. Mas enquanto rosto da autoridade e "actor-cimeiro" da
vida da escola (Deal, 1992: 4), o líder assumirá também funções de gestão e
manipulação da cultura, no sentido de garantir a mobilização colectiva
convergente com a missão e visão instituída centralmente para a escola.
Em contraciclo com esta ideologia, o processo de construção da cultura nas
organizações escolares e as suas múltiplas manifestações têm merecido
particular atenção em diferentes estudos. Longe de reflectirem apenas a imagem
do líder, as culturas desenvolvem-se e sedimentam-se no tempo, através das
distintas apropriações e modelações do quotidiano organizacional levadas a cabo
pelos actores. Destas reacções (colectivas ou sectoriais) aos constrangimentos
estruturais (internos e/ou externos) nascem e instalam-se progressivamente os
costumes, os hábitos, as rotinas, os rituais, simbolicamente enraizados e
difundidos no todo organizacional. Apesar de aparentemente invisíveis ao olhar
do gestor escolar, este tipo de camadas sedimentares transforma-se, na long
durée, em regularidades culturais, naquilo a que se convencionou designar de
ethos organizacional - uma espécie de matriz simbólica que dá espessura
identitária ao quotidiano dos actores (Torres, 1997, 2004). Por outro lado, é
possível encontrar no seio das organizações escolares pelo menos três tipos de
cultura, consoante o grau e a especificidade das suas manifestações: a cultura
integradora, quando o grau de partilha e de identificação colectiva com os
objectivos e valores da organização escolar é elevado; a culturadiferenciadora,
quando o grau de partilha cultural apenas se restringe ao grupo de referência,
sendo provável a coexistência de distintas subculturas no mesmo contexto
organizacional; por fim, a cultura fragmentadora, quando se constata o grau
mínimo de partilha cultural, frequentemente adstrita à mera esfera individual
(cf. Meyerson & Martin, 1987; Martin & Meyerson, 1988; Frost, Moore,
Louis, Lundberg & Martin, eds., 1991; Martin, 1992, 2002).
A questão nuclear não será a de saber se a escola tem ou não uma cultura, no
sentido integrador, mas, sobretudo, conseguir identificar diferentes
manifestações culturais num determinado contexto, compreender os múltiplos
processos que presidem à sua construção e conhecer o seu real impacto ao nível
dos processos de gestão e liderança. Nesta óptica, a coexistência numa
determinada escola de diferentes formas culturais rompe claramente com a imagem
monocultural dominante, a partir da qual se edificaria um perfil ideal de
liderança. Ao contrário, admitir-se que as organizações escolares se
caracterizam pela diferenciação e fragmentação cultural, pressupõe que não se
ignore a historicidade dos múltiplos processos de gestão e liderança, estes
mesmos ancorados significativamente em mecanismos colegiais e participativos,
de construção de consensos e de superação de conflitos, a fortiori
estruturantes do processo de democratização da educação. Mas, submetida à
pressão de várias tutelas - europeia, nacional e local -,
sobredeterminadas pelas agendas de elites europeias e de interesses económicos
supranacionais, a instituição educativa tende a transformar-se mais num
"laboratório" de amestramento dos actores do que num espaço de
construção e desenvolvimento da cidadania democrática.
3. Desenho da investigação
Produzidos entre os anos de 2006 e 2008, os Relatórios da Avaliação Externa das
Escolas representam os pilares sustentadores de um programa político centrado
no controlo, na medição e na aferição dos resultados dos estabelecimentos de
ensino básico e secundário. Na sequência de uma série de acções e medidas
legislativas promovidas pelo XVII Governo Constitucional, o programa de
avaliação externa inicia experimentalmente a sua fase piloto em 2006 com a
avaliação de 24 "unidades de gestão" (leia-se escolas e
agrupamentos de escolas), a cargo de um Grupo de Trabalho constituído por
Despacho conjunto do Ministro de Estado e das Finanças e da Ministra da
Educação (Despacho conjunto n.º 370/2006, de 5 de Abril), prosseguindo nos anos
seguintes com as 2ª e 3ª fases, agora já sob a responsabilidade da Inspecção-
Geral da Educação.
De um total de 400 "unidades de gestão" avaliadas e de que
resultaram igual número de relatórios, seleccionamos para este estudo o
universo das 165 escolas não agrupadas, distribuídas pelas diferentes regiões
do país (cf. colunas sombreadas da tabela1), deixando para uma segunda fase da
nossa pesquisa a análise dos relatórios concernentes aos agrupamentos de
escolas e dos respectivos contraditórios, no caso de estes terem sido
produzidos. As razões desta selecção prendem-se, grosso modo, com as
especificidades organizacionais inerentes a estes dois tipos de unidades de
análise (escolas e agrupamentos de escolas) e suas implicações ao nível da
avaliação dos domínios-chave. Do referido universo dos 165 Relatórios de
Avaliação Externa eliminámos quatro, por configurarem realidades
organizacionais muito específicas e distintas das configurações típicas das
escolas secundárias com ou sem 3.º ciclo do ensino básico, ou escolas do 3.º
ciclo com ensino secundário. Apesar de termos efectuado uma leitura global de
todos os relatórios, seleccionamos para análise mais aprofundada os domínios
dos "resultados", da "organização e gestão escolar" e
da "liderança".
Tabela 1
Constituição da amostra: escolas não agrupadas (ES, ES3, EBS) por Direcção
Regional
Após a introdução informática (em SPSS) de um conjunto de variáveis construídas
a partir das informações disponibilizadas pelos relatórios (tais como
direcçãoregional, antiguidade, origem, dimensão) e das respectivas
classificações atribuídas a cada domínio específico, a nossa incursão analítica
privilegiou a caracterização global das escolas ao nível dos resultados da
avaliação e das suas correlações com algumas dimensões sociais, regionais e
organizacionais. Num momento posterior impôs-se uma abordagem de índole
interpretativa aos relatórios de avaliação, tendo-se recorrido, mais
especificamente, à análise de conteúdo das dimensões estruturantes dos três
domínios referidos.
Saliente-se, por fim, que a leitura dos diversos relatórios apelou a um
exercício de vigilância crítica e metodológica. Apesar de as equipas de
avaliação adoptarem os mesmos referenciais de base, nem sempre é possível
encontrar nos vários textos produzidos os elementos essenciais a uma boa
caracterização das escolas. Além disso, são notórios distintos registos de
análise da realidade escolar em avaliação, o que se traduziu, para nós, em
limitações à reflexão sociológica encetada a partir deste prisma de observação.
4. Perfil social e organizacional das escolas avaliadas
Integraram o corpus empírico deste trabalho 161 relatórios de avaliação de
escolas distribuídas por diferentes regiões do país, com prevalência para as
regiões do Norte e de Lisboa e Vale do Tejo (cf. gráfico1), congregando as
respectivas Direcções Regionais (DREN e DREL) mais de dois terços das escolas
selecionadas. Em termos de ano de referência, o gráfico 2 mostra-nos que mais
de 60% das escolas foram avaliadas em 2007-08 (3ª fase).
A grande maioria das escolas apresenta a configuração de escola secundária com
3.º ciclo ou de escola básica do 3.º ciclo com secundário, sendo que apenas 30%
das mesmas restringe a sua oferta escolar ao ensino secundário. Quanto à
identidade fundacional da instituição, constatamos umarealidade escolar
diversificada, com a presença de escolas recentes, construídas no pós-25 de
Abril e vocacionadas para o ensino básico e secundário (43,5%), mas também
escolas mais antigas, herdeiras do ensino liceal (15,5%) e do ensino técnico,
industrial e comercial (21,1%) (cf. tabela 2). Em cerca de 20% dos relatórios
não foi possível identificar a origem da escola. No que se refere à dimensão
das escolas, a amostra recobre uma variedade de situações, muito embora
prevaleçam as escolas de média e grande dimensão, em número de alunos,
professores e funcionários.
Apesar de alguns relatórios serem omissos no fornecimento de indicadores
relativos aos principais actores escolares, foi possível, mesmo assim, calcular
os rácios alunos/professores e alunos/funcionários. Como se pode observar nos
gráficos 3 e 4, 90 escolas (aproximadamente 60 %) apresentam um rácio aluno/
professor maior ou igual a 8 alunos, enquanto que em 79 escolas (cerca de 52%)
existem 23 alunos ou mais por cada funcionário. A aludida variedade na dimensão
das escolas reflecte-se, por exemplo, no facto de o valor mínimo e o valor
máximo do rácio alunos/professores se situar, respectivamente, nos 4 e nos 13
alunos; no caso da razão alunos/funcionários o intervalo alarga-se,
encontrando-se entre os 11 e os 50 alunos.
Tabela 2
Caracterização das escolas seleccionadas (n= 161)
Relativamente à caracterização sócio-cultural dos agregados familiares dos
alunos, as escolas avaliadas reflectem a heterogeneidade e complexidade da
sociedade portuguesa, desde casos em que a escola se encontra implantada em
meios sociais e económicos desfavorecidos, com taxas elevadas de desemprego e
de analfabetismo, até à sua implantação em zonas económica e culturalmente
favorecidas, com níveis elevados de escolarização e de inserção profissional
das famílias.
5. Tendências globais da avaliação externa das escolas: sentidos em confronto
Os dados observados no gráfico 5 expressam uma classificação bastante positiva
das escolas em todos os domínios avaliados. À semelhança do que se fez no
Relatório Nacional de 2006-2007, da autoria da Inspecção-Geral da Educação, se
conjugarmos as classificações de Muito Bom e de Bom para os cinco domínios,
também aqui a "liderança" (90,7%) e a "organização e gestão
escolar" (91,9%) aparecem destacados. Não obstante as semelhanças na
disposição global das classificações, estas assumem no nosso estudo valores
ainda mais positivos, o que se explica, não só pelo maior número de escolas
avaliadas na 3ª fase (2007-2008) como também pela elevada frequência das
classificações de Bom e Muito Bom na generalidade dos domínios.
Sendo cada vez mais insistentes as críticas ao modo de funcionamento das
escolas básicas e secundárias e numa altura em que está em curso a
implementação de um novo modelo de gestão escolar, interrogamo-nos, por
conseguinte, sobre os fundamentos deste movimento político-social-económico, já
que, afinal de contas, o cenário traçado pelos avaliadores não parece ser
problemático para estruturas de liderança e gestão escolares. Pelo contrário,
se após o crivo dos avaliadores transparece um diagnóstico globalmente positivo
sobre o funcionamento das escolas, então a nossa perplexidade sociológica só
poderá encontrar respostas, numa démarche futura, ou no debate sobre as
estratégias metodológicas e os instrumentos de pesquisa empírica por aqueles
adoptados, ou na compreensão dos sentidos inerentes às transformações desejadas
para a instituição escolar.
Gráfico 5
Por razões que se prendem com a necessidade de circunscrever o debate, optamos
por tentar compreender apenas o significado de Muito Bom atribuído aos vários
domínios, não só porque corresponde ao patamar cimeiro da classificação
utilizada mas igualmente porque veicula uma concepção ideal-típica de escola,
supostamente com níveis de desempenho consistentes e referenciáveis, com
"um carácter sustentado e sustentável no tempo" (Azevedo &
Ventura, coord., 2007: 13). De entre um vasto conjunto de cruzamentos
estatísticos efectuados, na procura de tendências e relações inerentes a este
nível de classificação, destacamos a seguinte síntese no que respeita aos
domínios "resultados" e "organização e gestão escolar"
(cf. gráfico 06): as escolas avaliadas com Muito Bom estão localizadas na sua
grande maioria na região Norte e área metropolitana de Lisboa e Vale do Tejo,
são organizações mais antigas, de grande dimensão, com rácios mais elevados
(alunos/professores e alunos/funcionários) e aonde predomina a oferta de ensino
básico e de secundário.
Gráfico 6
Do ponto de vista da "liderança" voltamos a encontrar os mesmos
factores condicionadores da classificação Muito Bom, com a excepção da
antiguidade da escola, que agora aparece numa ordem inversa: as escolas mais
recentes tendem, na óptica dos avaliadores, a desenvolver uma melhor liderança
(cf. gráfico 7). O sentido desta constatação não deixa de ser pertinente,
sobretudo se tivermos em consideração as tendências observadas em diversos
estudos internacionais e que apontam numa direcção oposta: as escolas mais
antigas e de pequena dimensão são aquelas que melhores condições sócio-
organizacionais apresentam para desenvolver uma gestão e liderança escolar mais
sustentável (Hargreaves & Fink, 2007) e de tipo comunitário (Sergiovanni,
2004), associada à produção de bons resultados escolares.
Gráfico 7
As relações que se estabelecem entre as avaliações de Muito Bom nos domínios da
"organização e gestão escolar", da "liderança" e dos
"resultados" são-nos dadas a observar no (triplo) gráfico 8. Se
numa primeira leitura transparece o domínio da "liderança" como
aquele cuja avaliação de Muito Bom mais parece explicar as classificações
equivalentes aos demais domínios, porém, um olhar mais incisivo sobre os dados
revela-nos também que aquele domínio foi o que mais classificações de Muito Bom
obteve, o que não se traduziu, consequentemente, em mais avaliações deste nível
nos outros dois domínios em análise. Por exemplo, se bem que a quase totalidade
das escolas com Muito Bom no domínio dos "resultados" (13 escolas)
ocorre em estabelecimentos de ensino com a mesma nota no domínio da
"liderança", por outro, os dados mostram-nos igualmente que escolas
com "lideranças" Muito Boas apenas conseguiram classificações de
Suficiente (6) e de Bom (50) no domínio dos "resultados". Por sua
vez, os testes de correlação efectuados às classificações atribuidas aos vários
domínios mostram-nos correlações significativas (Spearman's rho, p<0,01,
2-tailed), embora baixas e moderadas: os coeficientes entre
"resultados" e "organização e gestão escolar" (0,395) e
"liderança" (0,475) são inferiores ao registado entre
"resultados" e "prestação do serviço educativo"
(0,565); o domínio da "organização e gestão escolar" tem um
coeficiente de correlação fraco com os "resultados" (0,395), mas
com alguma relevância com o domínio da "liderança" (0,566);
finalmente, este último domínio apresenta uma correlação de 0,475 para os
"resultados" e de 0,586 no que concerne à "prestação do
serviço educativo". Em suma, os dados sugerem-nos a existência de
relações entre os domínios da avaliação, não obstante a necessidade se buscar
outros sentidos para a compreensão da realidade escolar. O facto de os
"resultados" não encontrarem correlações privilegiadas quer com
"a organização e gestão escolar" quer com a "liderança"
relança o enfoque sociológico para outras dimensões de análise, porventura,
externas ao contexto educativo da escola.
Gráfico 8
Se as relações entre os vários domínios não se revelaram suficientemente
esclarecedoras, já o nível sócio-cultural dos pais e encarregados de educação
parece evidenciar um potencial explicativo no que concerne ao domínio
"resultados". A tabela 3 procura ilustrar a expressividade de
alguns indicadores sociais presentes em todas as escolas avaliadas com a
classificação de Muito Bom. De uma forma geral, estas 15 escolas apresentam uma
população discente proveniente de estratos sociais, económicos e culturais
elevados, cujos indicadores mais relevantes são: acção social e escolar
diminuta, nível de escolaridade dos progenitores elevado, estatuto sócio-
profissinal dos pais médio-alto, condições favoráveis de apoio ao estudo, como
é o caso da elevada percentagem de alunos possuidores de computador pessoal e
de ligação à internet.
Tabela 3
Escolas com avaliação Muito Bom nos Resultados
6. Matriz dominante de "boa liderança" e de "boa organização
e gestão escolar" na óptica dos avaliadores
A partir da análise de conteúdo efectuada aos três domínios seleccionados que
obtiveram a classificação de Muito Bom, procuramos apreender, para além dos
referenciais de avaliação enunciados nos Relatórios, os significados dominantes
de bons resultados, de escola bem organizada e bem gerida e de boa liderança. A
tabela 4 sintetiza as principais dimensões apontadas pelos avaliadores para
fundamentar a classificação de Muito Bom ao domínio "resultados".
Para conseguir obter a classificação máxima a este domínio, as escolas tiveram
de apresentar resultados académicos acima da média nacional e elevadas taxas de
ingresso dos alunos no ensino superior. Em articulação com esta dimensão,
valorizou-se o desenvolvimento de uma cultura de sucesso, rigor e exigência,
assente em práticas de reflexão sobre os resultados e em estratégias de
comparação com outras realidades escolares. Simultaneamente, foi valorizada a
diversificação da oferta educativa e a sua estreita conexão com as estratégias
de desenvolvimento local e regional, numa clara tentativa de aproximação da
escola à comunidade. Os valores da disciplina, da ordem e do respeito pela
autoridade constituiram uma importante matriz de referência, associada
igualmente a um clima escolar pautado pelo bom relacionamento entre
professores, alunos e funcionários. A existência de uma cultura escolar
distintiva, expressa por um forte sentido de pertença e orgulho em relação à
escola foi repetidamente referida como uma dimensão importante. Por fim, a
abertura da escola à comunidade, aferida mais pelo grau (e não tanto pela
natureza) da participação das famílias e dos alunos constituiu também um
critério valorizado.
Tabela 4
Dimensões mais significativas de resultados Muito Bom (N=15)
Da análise efectuada, ressalta claramente uma sobredeterminação das dimensões
centradas no produto (resultados académicos e na diversificação da oferta
educativa) sobre as dimensões relacionadas com o processo (aspectos simbólico-
culturais da organização escolar). A título ilustrativo, uma escola que se
destaque pelas vertentes culturais mas que ao nível da avaliação e da oferta
não apresente resultados acima da média nacional, dificilmente obterá a
classificação máxima no domínio "resultados". Por sua vez, o
contrário teria implicações imediatas na classificação Muito Bom.
Tabela 5
Dimensões mais significativas de organização e gestão escolarMuito Bom (N=43)
A imagem dominante de escola bem organizada e bem gerida presente na tabela 05
remete-nos novamente para as dimensões mensuráveis da educação, inspiradas nos
valores típicos da "cultura do novo capitalismo", sugestivamente
enunciados por Sennett (2006): a eficácia, a eficiência, a racionalização, a
flexibilidade, a rotatividade. Todavia, a hegemonia destes valores, expressos
nos relatórios numa linguagem economicista ("indicadores de
medida", "optimização de resultados", "gestão rigorosa
dos recursos humanos"), confronta-se com a apologia de outros princípios
de natureza distinta: equidade, justiça e participação. Mas se analisarmos os
significados atribuídos a estes princípios em função do contexto em que são
mobilizados, depressa confirmamos a sua aproximação à ideologia de tipo
gestionário. A participação dos actores na vida escolar é valorizada enquanto
instrumento indutor de consensos, de comunhão e convergência de objectivos e
interesses, enfim, de garantia de um clima e de uma cultura propícios à
concretização eficaz dos objectivos educacionais. Se, por vezes, em alguns
relatórios, parece desenhar-se uma conciliação entre os valores mais
instrumentais da gestão empresarial e os princípios mais substantivos de
natureza político-educativa, na maioria dos documentos analisados sobressai uma
imagem de escola de feição tecno-burocrática, que subordina os valores da
participação democrática aos imperativos do controlo e da medição de
resultados.
Tabela 6
Dimensões mais significativas de liderança Muito Bom (N=69)
O paradigma dominante de organização e gestão escolar anuncia e antecipa um
certo perfil de liderança que se articula com as lógicas da prestação de contas
e de racionalização dos recursos. Com efeito, a centralidade que a liderança
tem assumido nos discursos e nas medidas recentes de política educativa
adquire, doravante, um significado mais expressivo: centrada na regulação dos
resultados, a escola precisa de um "líder forte", de um
"rosto" que se responsabilize pela implementação eficiente de um
projecto educativo que se pretende partilhado. Mas o significado de partilha é
perspectivado mais como uma técnica de gestão de afectos do que de um processo
resultante da participação democrática dos actores nas suas esferas
significativas de acção. O que efectivamente é valorizado pelo Grupo de
Avaliação é o perfil de desempenho da escola ao nível dos resultados,
dependendo estes da eficiência com que os actores operacionalizem, nas
periferias escolares, uma tecno-estrutura imposta por instâncias supra-
organizacionais. Neste contexto, as organizações escolares, situadas abaixo e
fora dos centros de decisão, são conceptualizadas como "escolas-
reflexo" (Lima, 2008: 85) das orientações emanadas do aparelho central,
cuja missão primordial é maximizar a produção de resultados.
A focalização na figura do Presidente do Conselho Executivo como referência
para avaliar a liderança da escola subentende claramente uma imagem de
liderança individual, contrariando a tradição das práticas de colegialidade
culturalmente instituidas nas organizações escolares. Valoriza-se
primordialmente o domínio de ferramentas de gestão que permitam a concretização
das metas nas esferas do mercado (angariação de verbas, projectos e parcerias;
inovação tecnológica; oferta educativa; indicadores de procura), do estado
(eficiência dos processos e eficácia dos resultados, com monotorização e
avaliação; qualidade e excelência) e da escola (cultura organizacional da
escola). Transparece um perfil de liderança de tipo gestionário, reverencial e
receptivo, orientado mais por uma lógica de prestação de contas (ao estado e ao
mercado) do que por princípios de desenvolvimento da cidadania democrática.
Nesta lógica as dimensões culturais da escola assumem-se como técnicas de
gestão facilitadoras da concretização dos resultados, reforçando-se a crença
culturalista de que o empenhamento, o comprometimento, as tradições culturais
promovem a eficácia e a excelência escolar. Alguns registos retirados dos
Relatórios ilustram bem a importância conferida às culturas integradoras e sua
relação com a excelência:
Evidencia-se uma cultura muito própria, alicerçada num corpo docente de grande
estabilidade e num empenho sistemático de manutenção das tradições culturais
que definem o perfil e a identidade da escola (Relatório nº 24, p. 10).
A autoridade assenta na experiência e no culto da memória da escola, bem como
na pressão de uma imagem externa e interna muito positiva, que coloca a Escola
no topo das instituições escolares do concelho (Relatório nº 29, p. 11).
Os diversos agentes da comunidade escolar revelam-se bastante motivados e
empenhados, devido a um clima de bem-estar e identificação com a escola,
enraízado na cultura da instituição (Relatório nº 109, p. 11).
O processo de individualização da liderança, marcado por um perfil
simultaneamente "forte" e "democrático", parece, numa
primeira leitura, sugerir uma conciliação entre os valores da competitividade e
eficácia, que exigem uma gestão de tipo "cerebral e sinóptica" e os
valores da cidadania democrática mais voltados para uma gestão "cultural
e retroactiva" (Levacic, Glover, Bennett e Crawford, 1999). Todavia, os
significados atribuídos pelos avaliadores à participação dos actores e à
articulação desejável entre os vários órgãos da escola denuncia uma visão de
participação convergente e formal, enquadrada mais numa lógica de
desconcentração de poderes do que assente na negociação política dos processos
educativos. Presente em vários relatórios, a seguinte citação ilustra o sentido
das nossas asserções:
liderança forte, mas democrática, do Conselho Executivo, que impulsiona a
articulação entre os vários órgãos, numa cultura de complementaridade, de
acordo com a área de acção de cada um deles (Relatório nº 155, p. 10).
Intérprete-chave das exigências do estado e do mercado, o líder da escola tende
a assumir funções instrumentais e mecanicistas, cada vez mais distantes de uma
liderança como objecto da acção pedagógica, ou nas palavras de Sergiovanni
(2004), liderança como pedagogia.
7. A liderança escolar como processo de regulação cultural e simbólica
Situada numa espécie de centro de confluência cultural, a organização escolar
é, sem dúvida, um contexto propício ao desenvolvimento de complexas
metamorfoses culturais construídas e sedimentadas no tempo e inscritas na
memória colectiva da instituição. A imagem de escola como entreposto cultural,
um espaço de cruzamento de culturas de proveniências diversas, permite
desenvolver um olhar holístico sobre os processos de liderança, perspectivados
simultaneamente como extensões e reflexos da cultura organizacional da escola e
como relevantes factores de regulação cultural e simbólica.
Numa altura em que as políticas neoliberais tendem a instalar-se nas mais
diversas esferas da vida social, o papel dos gestores escolares passa a assumir
novos contornos ao serviço de diferentes objectivos e valores educacionais.
Pressionados politicamente para o alcance de resultados, submetidos a múltiplos
mecanismos de controlo, inspecção e avaliação, os actuais gestores e líderes
escolares encontram-se no centro de uma verdadeira encruzilhada: por um lado,
cabe-lhes preservar os princípios democratizadores inerentes à sua condição de
gestores democraticamente eleitos; por outro lado, são coagidos externamente a
incorporar um perfil de gestão progressivamente mais tecnocrático ao serviço
dos valores da competitividade, da performance, dos resultados. A conciliação
entre estas duas lógicas de sentido oposto, que confronta os valores da
democracia e da participação com os valores da eficácia e da produtividade, tem
vindo a fragilizar os processos de liderança escolar, ou nas palavras de
Sergiovanni (2004: 13), a "colonizar o mundo-da-vida na vida moral das
várias escolas locais", tornando-as reféns das orientações externas.
Entre a adopção de um perfil de liderança mais democrático e emancipatório e o
recurso a um perfil de natureza mais tecnocrática e gestionária, interpõe-se o
património cultural e identitário da escola, funcionando como uma matriz
simbólica reguladora dos processos de gestão e liderança.
Embora culturalmente constrangidos e politicamente cerceados, os órgãos de
governação da escola auferem de um estatuto central no aprofundamento dos
valores democráticos, cabendo-lhes a difícil missão de reinventarem fórmulas de
mobilização local dos actores e de reposição quodidiana do sentido cívico e
democrático inerente à escola pública. A construção de uma "escola como
oficina de cidadania democrática" (Sanches, 2007: 151) exigirá, entre
outros aspectos, a interiorização da ideia de que qualquer processo de
organização e administração educacional comporta inevitavelmente uma pedagogia
implícita (Lima, 2000), que exprime determinados valores e princípios ético-
políticos e, nesta óptica, mais do que se desenvolver como uma
"especialidade técnica", a governação das escolas "deve
emergir como uma prática social, incorporando uma dimensão ética e crítica, e
instituir-se como uma 'especialidade educacional'" (Estêvão,
2001: 87).