Editorial
Editorial
1. Realizou-se a 16 e 17 de Outubro de 2009 o I Fórum de Investigação em Ci
ências da Educação, organizado conjuntamente pelas unidades de investigação de
Ciências da Educação acreditadas no âmbito da FCT, tendo a UI&D
Observatório de Políticas de Educação e Contextos Educativos (atual Centro de
Estudos e Intervenção em Educação e Formação, CeiEF), que edita a Revista
Lusófona de Educação, participado ativamente na sua organização e nos trabalhos
aí apresentados.
Foi uma boa iniciativa, nascida de uma legítima reação a um processo de
avaliação externa conduzido pela FCT que penalizou fortemente a investigação
que se faz neste campo científico. Como defendemos na ocasião, impõe-se
prosseguir, com regularidade, este tipo de Fórum, centrado na apresentação da
investigação que se faz em cada uma das unidades e dar um impulso a formas de
coordenação, institucionalizando, por exemplo, um Conselho das Unidades de
Investigação em Ciências (e Políticas) da Educação que se assuma como
interlocutor da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e de outras
agências de financiamento e de regulação da investigação científica.
Um dos temas que marcou os debates do Fórum foi a questão da
internacionalização da investigação. Existe um largo consenso na comunidade
científica de que a internacionalização constitui um dos principais elementos
de avaliação da investigação que se faz, em qualquer domínio científico. Onde o
consenso se quebra é, seguramente, no entendimento do que significa -
internacionalização. Na prática dominante na FCT, a internacionalização está
associada a dois aspectos: (i) publicar em revistas em língua inglesa e (ii)
direcionar as redes para os países do Norte, sobretudo do espaço anglo-
americano.
Importa questionar esse entendimento de internacionalização,lembrando que
Portugal tem uma vantagem competitiva que, pelo menos no campo das Ciências
Sociais e Humanas, onde se incluem as Ciências da Educação, não pode
desperdiçar: é um país do Sul do Norte, com um largo passado de mestiçagem
cultural, com uma língua falada em vários continentes por mais de 200 milhões
de pessoas, que lhe permite uma proximidade e uma facilidade de diálogo tanto
com o Norte como com o Sul emergente1.
Esta é uma dimensão do processo de internacionalização totalmente ausente do
processo de avaliação das UI&D recentemente terminado. Veja-se, em primeiro
lugar, a composição das equipas de avaliação, onde os investigadores do Sul
estiveram quase totalmente ausentes; em segundo lugar, os critérios (na
generalidade, não explícitos) utilizados; e, por último, alguns comentários de
avaliadores que ignoram praticamente tudo o que está para além do publicado em
língua inglesa.
A prática da Revista Lusófona de Educação (e do CeiEF que a edita) passa por
uma estratégia de internacionalização para a investigação em Ciências da
Educação que valoriza os diferentes espaços linguístico-culturais, e não apenas
o anglo-americano. Pode-se afirmar que as Ciências da Educação em Portugal
devem, em grande medida, o seu nascimento ao Espaço da Língua Francesa. A
construção do Espaço Iberoamericano e do Espaço Lusófono, ou Luso-Afro-
Brasileiro, devem constituir prioridades nas políticas de investigação da Área
das Ciências e Políticas de Educação (é assim que a FCT designa a área), que
devem ter expressão em todos os planos de atividade, incluindo o da avaliação
externa das UI&D.
2.O sumário da Revista, que agora se apresenta, é disso exemplo: nos dez
artigos publicados, um é proveniente do Canadá, outro de França, três são de
investigadores do Brasil, dois vêm de Espanha e três de Portugal.
No primeiro artigo, a aplicação da etnografia crítica nas relações de poder,
Diane Gérin-Lajoie demonstra, de forma crítica e problematizante, o modo como a
abordagem etnográfica, sobretudo a etnografia crítica, permite um exame mais
aprofundado das práticas sociais existentes. O método etnográfico, herdado da
antropologia cultural, traz consigo as marcas que o destacaram como meio de
abordar, a partir do interior, os fenómenos culturais, alheios ao mundo
ocidental. O interacionismo simbólico (Escola de Chicago) considerou que este
tipo de abordagem permitiria uma compreensão profunda dos fenómenos sociais,
tais como a imigração, a delinquência juvenil ou a prostituição. A partir de
dois estudos etnográficos sobre as minorias linguísticas no Canadá, dos
francófonos que vivem fora do Quebeque e dos anglófonos no Quebeque, a autora
demonstra que a abordagem etnográfica permite, a partir de critérios
metodológicos não-positivistas, uma compreensão mais aprofundada de culturas e
práticas sociais minoritárias tal como das diferentes relações de poder que as
configuram.
O segundo artigo, as situações de deficiência no processo de escolarização:
quaisos grandes desafios na Europa?,de autoria de Charles Gardou, incide sobre
as situações que continuam a penalizar, pela discriminação, as crianças
portadoras de deficiência. O autor manifesta-se contra todos os discursos e
práticas moralizantes que acabam por negar a essas crianças o mais elementar
direito, isto é, o direito de aprender entre os seus pares, e o de pôr em
comum, como toda a criança, a sua experiência humana, irredutível a nenhuma
outra. Cada momento de reflexão do autor é guiado pela ideia de continuumà qual
está associada uma proposta concreta que não penalize os mais frágeis, mas,
pelo contrário, contribua para a diminuição das múltiplas formas de violência
social a que têm estado submetidos os mais desfavorecidos.
Educação, qualificação, trabalho e políticas públicas: campos em disputa,de
Emília Prestes & Roberto Véras é o terceiro artigo. Tendo em consideração
os debates internacionais e as exigências do mercado globalizado, torna-se,
cada vez mais pertinente, a reflexão e discussão alargada sobre as políticas
públicas incrementadas na área da educação. A partir de uma revisão da
literatura que contempla uma diversidade de referências, os autores comentam as
políticas de educação e qualificação implementadas no Brasil, desde os anos
1950, detendo-se, especificamente, no momento atual. As transformações
ocorridas no mundo do trabalho ea substituição da regulação pública das
relações de trabalho por uma regulação privada exigem a redefinição e revisão
das políticas de educação e de qualificação do trabalhador de acordo com as
recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que propõe que os
países membros criem um marco nacionalde qualificação, que contemple a
aprendizagem permanente, de modo a orientar as pessoas nas suas opções de
formação e de trajetória profissional, ao mesmo tempo que possibilite às
empresas e às agências de emprego a conciliação entre a procura e a oferta de
competências. Nesta perspectiva, afirmam os autores, a qualificação deve
afirmar-se como um direito e como política pública.
No quarto artigo, metaforicamente denominado Os sete pecados da
governaçãoglobal. Paulo Freire e a reinvenção das possibilidades de uma
pedagogia democrática eemancipatória da educação, Madalena Mendes faz uma
análise da emergência dos modos de governação e de regulação do campo
educativo, em contraponto às lógicas hegemónicas de governação global, partindo
de perspectivas críticas e do sistema mundial moderno. A autora mobiliza
diversas contribuições epistemológicas, tal como os princípios fundamentais do
ideário ético-pedagógico de Paulo Freire e reflete sobre os principais
contributos da pedagogia freiriana para a recontextualização dos paradigmas
educativos tradicionais. Numa época de reconstruções paradigmáticas, o artigo
de Madalena Mendes permite-nos invocar uma bela e significativa expressão de
Mia Couto (2009) no sentido de destruir o preconceito de que "para sermos
modernos é preciso imitar os outros" (p.45).
O quinto artigo, de Leonor Lima Torres e José A. Palhares, Estilos de
liderançae escola democrática, parte de uma análise crítica dos Relatórios de
Avaliação Externa das Escolas e elege como objetivo central a discussão dos
significados atribuídos a uma "boa liderança", a uma "boa
organização e administração escolar" e à sua eventual relação com os
resultados escolares. A partir do estudo empírico realizado em diferentes
escolas, pretendem compreender as tensões que o referido processo avaliativo
comporta no plano das configurações e das práticas organizacionais. Os autores
colocam uma interrogação: não constituirá este processo uma espécie de
"missionarismo gestionário", que subverte as lógicas de decisão
autónoma e democrática das escolas?
Maria Aparecida Craveiro Costa, Ana Paula Távora da Silva e Carina Pessoa
Santos, no sexto artigo, Midia e intervenção psicossocial nas comunidades: em
busca denovas possibilidades, refletem sobre as possibilidades de utilização
dos media como instrumentos de intervenção psicossocial, tendo em consideração
o desenvolvimento do espírito crítico e da autonomia nas e das comunidades. A
partir de uma perspectiva sócio-histórica e de algumas experiências realizadas
em comunidades do Sul do Brasil, as autoras defendem a tese de que uma
intervenção comunitária interdisciplinar permite a criação de uma comunicação
alternativa, através da criação de jornais comunitários que, por sua vez,
possibilitam uma diferença de atitudes e de comportamentos em relação aos meios
de comunicação social. Indiscutivelmente, os meios de comunicação mediáticos
exercem um poder e fascínio na vida das pessoas, prendendo a sua atenção e
norteando os seus comportamentos e opiniões. Este poder, muitas vezes
alienante, acentua as desigualdades e a exclusão social contribuindo para a sua
legitimação. As experiências realizadas mostram que é possível transformar os
meios de comunicação em instrumentos de intervenção social pelo incentivo à
participação comunitária no planeamento de ações, na definição e aplicação de
recursos comunitários e que, a partir destas estratégias, pode desenvolver-se,
nas comunidades, a consciência da sua identidade sócio-cultural, o espírito
crítico e a autonomia.
Thais Nívia de Lima e Fonseca, no sétimo artigo, apresenta um balanço e
perspectivas da Historiografia da educação na América Portuguesa. Discute as
características da produção científica sobre esse período, as abordagens
predominantes e as respectivas matrizes explicativas. A autora conclui que a
educação no período colonial ocupa um lugar secundário na historiografia, a não
ser a existência de alguns estudos sobre a história dos livros e da leitura,
mas que não consideram a educação como objeto central. A partir de alguns
pressupostos teórico-metodológicos utilizados noutros domínios da pesquisa
histórica sobre o período colonial, a autora discute algumas possibilidades de
investigação a partir do encontro entre uma educação escolar do modelo europeu
e as referências culturais de outras origens em diversas partes da América
portuguesa, o que implica a diversificação das fontes de pesquisa e, sobretudo,
a possibilidade de acesso aos principais arquivos depositários de fontes do
período colonial.
No oitavo artigo, Análise descritiva da afetividade nos professores em formação
naFaculdade de Ciências da Educação da Universidade de Granada, José Alvarez
Rodriguez e Manuel Fernández Cruz, discutem a importância dos valores da
afetividade na formação de professores. A partir da discussão teórica do
conceito de afetividade, abordado pela Psicologia, Psiquiatria e Filosofia, e
de um estudo longitudinal realizado com 945 inquiridos, ao longo de três anos
consecutivos, o trabalho realizado pelos autores centra-se no estudo da
categoria de valores afectivos, mais especificamente, nos vocábulos
"afectividade", "amar", "felicidade",
"sentimento" e "emoção", identificando o número de
sujeitos que responderam a cada um dos valores que compõem este grupo, mínimo e
máximo das pontuações obtidas, a média de cada valor, assim como o seu desvio
típico. A atenção aos valores afectivos, dentro da formação inicial dos
professores, é necessária por estes serem determinantes do comportamento do ser
humano; os sentimentos e as emoções acabam por fazer parte dos elementos
curriculares e, como tal, devem receber um tratamento específico dentro do
processo de ensino-aprendizagem. As conclusões do estudo revelam que os valores
afectivos são um elemento catalizador e intensificador dos interesses dos
alunos por qualquer processo educativo de conhecimento. Os autores concluem o
seu artigo salientando a necessidade de se conseguir o reconhecimento da
importância da formação afectiva, não só no âmbito familiar, mas também no
curricular, com vista a conseguir que se supere a proliferação do intelectual e
se consolide a formação da afectividade com um sentido verdadeiramente
humanístico. O estudo efetuado revela, ainda, que os futuros profissionais da
Educação, em termos gerais, consideram que a felicidade, o amor, a afetividade,
a emoção e os sentimentos devem impregnar todos os processos relacionados com a
aprendizagem e a formação daqueles que vão educar no futuro.
As tecnologias da informação e comunicação como recursos no ensino secundário:
umestudo de caso,de Maria Carmen Ricoy e Maria João V. S. Couto constitui o
nono artigo. Nele se discutem as condições de acesso dos alunos às novas
tecnologias como instrumentos mediadores da aprendizagem, sobretudo no domínio
da matemática. O estudo apresentado resulta da aplicação de um inquérito a
alunos do 10º e 11º anos de uma Escola Secundária do Norte de Portugal. As
autoras concluem que os alunos, de um modo geral, não estão desmotivados para
os assuntos escolares e que atribuem grande importância à matemática na sua
formação. As novas tecnologias de informação e comunicação representam
elementos motivadores no processo de ensino aprendizagem. Todavia, referem as
autoras, apesar do contexto digital proporcionar autonomia aos seus usuários, é
necessário que a mediação parta do professor no sentido de gerir as interações.
O décimo e último artigo, O acolhimento familiar numa perspectiva ecológico-
social,de Paulo Delgado, desvela as potencialidades do modelo ecológico-social
de Bronfenbrenner para uma melhor compreensão do desenvolvimento humano,
sobretudo no que diz respeito ao acolhimento familiar. As transições que
ocorrem na vida da criança acolhida, despojada da família originária pela
separação dos pais e desenraizamento do seu contexto, implicam uma orientação e
intervenção de modo a prevenir os riscos e a promover a integração e o
desenvolvimento das crianças. O modelo ecológico-social de Bronfenbrenner pode
ser utilizado na análise de situações de maus tratos que vitimam uma criança e,
a partir dele, construir um plano de intervenção que abarque a complexidade,
refutando as respostas simples e imediatas.
A secção Recensão é constituída por uma recensão crítica, de Anabela Mota
França, pretende apresentar aos leitores a obra de Steve Stoer e A. Magalhães
(2005), A diferença somos nós - a gestão da mudança social e as políticas
educativase sociais.
Como habitualmente, apresentam-se, na secção Sítios Digitais, os percursos
informáticos que podem contribuir para viagens proveitosas no âmbito da
investigação e atualização científicas. Na secção Notícias dá-se conta de parte
da actividade científica da UID-OPECE, agora Centro de Estudos e Intervenção em
Educação e Formação (CeiEF). Obedecendo a uma das linhas da política editorial
da Revista Lusófona de Educação publicam-se os resumos e abstracts da última
tese de doutoramento e de algumas das dissertações de mestrado defendidas nas
áreas da educação e educação especial, domínio cognitivo e motor. Finalmente,
os leitores terão acesso aos abstracts dos artigos publicados nesta edição,
secção fundamental para a visibilidade da Revista a nível internacional.
António Teodoro & Manuel Tavares
Lisboa, Novembro de 2009
Nota
1 Utiliza-se esta metáfora para distinguir as regiões onde se produz poder (e
conhecimento). Por Norte entende-se o espaço dos países centrais, hegemónicos
no sistema-mundo capitalista. Por Sul, os países e regiões subalternos, onde o
sofrimento e a dependência prevalecem.
Referência
Couto, M. (2009) E se Obama fosse africano? Interinvenções. Lisboa: Editorial
Caminho.
Revista Lusófona de Educação
Centro de Estudos e Intervenção em Educação e Formação (CeiEF)
Avenida do Campo Grande, nº 376
1749-024 Lisboa
revista.lusofona@gmail.com