O outro lado da implementação do LMD em França: um novo quadro para pensar as
políticas de educação e de formação
A França surge como o bom aluno do LMD (License-Master-Doctorat). Este sistema
foi lançado em 1998, na Sorbonne, pelo ministro Claude Allégre. Por
conseguinte, as universidades submetem-se, de quatro em quatro anos, a uma
contratualização com o Estado. As suas propostas, em matéria de financiamento,
de vagas e de diplomas só são aprovadas se se enquadrarem nas orientações
ministeriais, pelo que todas as universidades implementaram, pelo menos
formalmente, um sistema LMD em 2006 ou 2007. Uma aparência tão linear convida a
um olhar mais profundo. Embora a forma de integração da lógica 3-5-8 num tecido
histórico diversamente organizado possa suscitar inúmeras questões, o objecto
deste artigo não se limita ao estudo da implementação do LMD em França. Trata-
se igualmente de colocar em evidência as mudanças que, sem estarem directamente
ligadas ao LMD, se inscrevem no mesmo domínio e que, a longo prazo, talvez
venham a ter consequências mais importantes: por exemplo, a montante, o fim de
uma "excepção francesa" do Estado forte que reformulava as
resoluções internacionais ou, a jusante, uma mudança do modelo de formação das
elites.
A grande aposta: pôr fim à excepção francesa e lançar o sistema educativo
francês na "grande agitação" da concorrência internacional
A primeira das evoluções corresponde a um projecto, o de Claude Allègre,
Ministro da Educação do governo de Lionel Jospin, entre 1997 e 2000. A
influência das resoluções internacionais, até essa altura, era repensada pelas
tradições da administração francesa. O historial da implementação da escola
única é eloquente acerca desse ponto. A "lei de modernização do sistema
educativo" de 1975 corresponde, obviamente, a uma orientação apresentada
pela OCDE que preconiza a junção de todos os alunos no seio de uma
"escola compreensiva" até aos 15 ou 16 anos. Todavia, a sua
execução enquadra-se no prolongamento de um debate francês que remonta ao
projecto da escola única, elaborado por Ferdinand Buisson, no âmbito do
programa do Partido Radical em 1909 (Prost, 1981). A história deste projecto é
marcada por referências tão míticas quanto o programa dos Compagnons da
Universidade Nova, após a Primeira Guerra Mundial, ou o plano Langevin Wallon,
na Libertação. A escola única demarca-se nitidamente do modelo da escola
compreensiva preconizado pelas organizações internacionais, nomeadamente no que
diz respeito à definição dos conteúdos. O seu objectivo é manter e estender a
tradição da alta cultura de nível secundário e não constituir uma
"cultura média" em que se funde a cidadania comum. Os debates foram
muito acesos no período da execução da reforma e até ao relatório d e Louis
Legrand, Pour un collège démocratique(1982), mas o resultado não deixa margem
para dúvidas: o projecto curricular da escola única francesa corresponde muito
mais ao programa de acesso das classes populares à cultura de nível secundário
do que à concepção anglo-saxónica (Derouet, 2002). Podemos lamentá-lo, pensar
que este objectivo é irrealista e que esta escolha constitui uma das causas da
crise actual (Dubet & Duru-Bellat, 2000), mas, no entanto, manifesta uma
independência que desapareceu no fim do século XX.
Esta evolução é ainda mais importante porque a mensagem veiculada pelas
organizações internacionais também mudou. Os trinta gloriosos anos do após
Segunda Guerra promoveram um projecto de democratização baseado em dispositivos
de educação compreensiva que eram, por sua vez, apoiados através da
implementação de pedagogias compensatórias para os alunos com dificuldades. A
crise de 1973 pôs em causa este optimismo. O relatório A Nation at Risk, nos
Estados Unidos (1983), alargou o quadro de referência. A questão já não é a
igualdade ou a coesão no interior de uma sociedade, mas sim a capacidade de um
país fazer face à concorrência internacional. Donde decorre a alteração do
quadro de implicações. As políticas compensatórias mobilizam meios importantes
em função de resultados difíceis de avaliar. Não será mais pertinente canalizar
esses meios para a formação de elites capazes de manter o nível do país na
esfera da competição internacional?
Uma boa formação de base continua a ser necessária para as massas: a qualidade
da mão-de-obra constitui evidentemente um trunfo num universo concorrencial.
Por isso, há que regressar ao essencial (back to basics) tendo em conta outra
exigência: a despesa da educação não deve aumentar a pressão fiscal, uma vez
que, numa economia mundializada, esta força à deslocalização das actividades e
dos empregos. Por conseguinte, é preciso conter a despesa e, pelo menos, uma
parte dela deve ser transferida para as regiões e para as famílias, o que
implica conferir-lhes certos poderes (Hutmacher, 2005).
As organizações internacionais propõem, assim, ao sector da educação e da
formação que saia da crise aberta em 1968, seguindo o mesmo modelo que permitiu
ao capitalismo sair da crise em 1973. Luc Boltanski e Ève Chiapello
caracterizam este "novo espírito do capitalismo" a partir do estudo
dos manuais de gestão (2000).
Auto-controlo, autojustificação (e não autogestão) em equipas
pluridisciplinares, lógica de participação numa empresa em rede, flexível e
inovadora, são agora as palavras-chave do neomanagement; a bitola pela qual se
mede a dimensão dos seres e das coisas é a capacidade de gerar actividade.
Integrar-se nas redes, impulsionar projectos, ser moldável, flexível,
polivalente, autónomo mas igualmente dotado de intuição, de competências
relacionais, saber arriscar ou inspirar confiança são as qualidades exigidas
àquele ou àquela que já não é um 'quadro', mas sim 'director
de projectos', 'gestor' ou 'coach'(Frétigné,
2001).
Reencontramos esta orientação nas directrizes das organizações internacionais:
uma autonomia dos estabelecimentos de ensino que liberta a capacidade de
projectar dos indivíduos e das organizações; uma governação local que coloca no
mesmo plano parceiros públicos e privados; uma organização dos estabelecimentos
de ensino em redes internacionais e não em sistemas nacionais; uma continuidade
entre o período de estudos e a formação profissional para constituir redes de
formação ao longo da vida; um objectivo geral de flexibilidade e de mobilidade
da mão-de-obra, etc.
É neste contexto que temos de interpretar a decisão de Claude Allègre. Ele quis
romper com a tradição e submeter o sistema universitário francês à prova da
concorrência internacional. O que, por sua vez, correspondia à sua experiência
de investigador (a comparação internacional é fonte de qualidade) e à sua
vontade de "atacar o elefante branco", isto é, de atingir os pontos
rígidos do sistema e, em particular, o que ele considerava o corporativismo dos
professores (Derouet, 2006). O facto de ele ter iniciado a implementação da
nova doutrina para a universidade corresponde, talvez, a uma oportunidade que
se inscreve também no seguimento do relatório A Nation at Risk e na sua
preocupação em concentrar os esforços na formação das elites. No entanto, o
alcance da decisão de Claude Allègre é bem mais vasto. A sua decisão inaugura
um período em que as resoluções internacionais deixaram de ser repensadas pelas
instâncias nacionais que as reformulam e adaptam essencialmente à luz da
tradição do Estado forte. As fronteiras são abertas e as resoluções aplicam-se
directamente. Este objectivo foi formalizado na Cimeira de Lisboa. Nos termos
dos Tratados de Roma, Maastricht e de Amesterdão, a educação ficava sob a
tutela dos estados, sendo que a União só poderia intervir no domínio da
formação profissional. A declaração da Sorbonne e o processo de Bolonha
inscrevem-se precisamente nesse quadro: embora a perspectiva seja a de criar
uma Europa de educação e de cultura, a decisão apresenta-se como uma
convergência de Estados soberanos que manifestam a sua vontade de agir no mesmo
sentido e não como uma medida comunitária. O processo alterou-se com a Cimeira
de Lisboa que estabeleceu um objectivo: a Europa deve ocupar o primeiro lugar
numa economia do conhecimento em 2010. As políticas de educação e de formação
devem organizar-se em função deste objectivo e cada Estado deve informar os
outros dos resultados que obtém. A partir daqui implementa-se um sistema de
comparação (benchmarking) que pode resultar numa troca de boas práticas (Lawn
& Nóvoa, 2005). Sabemos à partida que o objectivo não será atingido, mas o
mecanismo subsiste e até se consolida. Para que a comparação seja possível, é
necessário passar de uma avaliação baseada em programas nacionais para uma
baseada em padrões de competências internacionais. Esta concepção está na base
dos grandes inquéritos (PISA, TIMSS, IEA, etc.) que depois a divulgam e
generalizam (Normand, 2005). Embora contestem o modo como os indicadores são
construídos e denunciem a lógica de palmarés que alimentam, os actores sociais
têm em conta os seus resultados e põem-se em marcha para obter uma boa
classificação na altura do próximo desafio.
A descrição do objectivo de uma plataforma comum, que constitui um dos pontos
centrais da nova lei de orientação em educação votada em 2004, ilustra a
mudança de perspectiva. O princípio está todo armado por reflexões das
organizações internacionais. Face à crise do ideal de igualdade de
oportunidades, estas adoptaram uma reflexão ética que tende a substituir a
noção de igualdade pela de equidade. Medida que acabou por reforçar as
pedagogias compensatórias a partir da ideia de desigualdades justas. Mas esta
política sai cara e os seus efeitos são difíceis de avaliar. É preciso
reformular a concepção de equidade em função do quadro estabelecido pelo
relatório A Nation at Risk, isto é, regressar ao essencial para as massas. Esta
orientação transformou-se numa proposta concreta: passar do ideal de igualdade
de oportunidades para o objectivo de igualdade de resultados. Podemos
esquematizar o raciocínio da seguinte forma: o ideal de uma redistribuição das
posições sociais entre as gerações é utópico; este recuo será, em todo caso,
menos grave e mais bem aceite pela população se a todos se garantir um mínimo;
este projecto cruza-se com o que diz respeito à entrada em concorrência dos
sistemas educativos; a base comum deve ser definida a partir de padrões de
competências internacionais e constituir uma plataforma para a flexibilidade e
para a mobilidade de mão-de-obra. Esta orientação dá forma ao programa No Child
Left Behind, executado pelo Presidente Bush durante o seu primeiro mandato. Foi
retomada pela comunidade europeia que definiu a base de competências mínimas
para uma formação ao longo da vida. A lei de orientação francesa utiliza os
resultados desta reflexão e tenta conjugá-los com a tradição francesa da escola
única e, em certa medida, com o modelo do Estado Providência, colocando em
primeiro plano um dos seus aspectos: o Estado garantiu a todos os jovens
residentes em França um determinado número de saberes e de competências mínimas
no fim da escolaridade obrigatória. Há, por sua vez, continuidade e ruptura com
o ideal de cultura comum, elaborado pelo Plano Langevin Wallon (Mialaret, 1997)
e trabalhado pelos pedagogos após a Segunda Guerra Mundial (Legrand, 1982;
Romian, 2000). A sua definição compreendia várias dimensões (artísticas,
físicas, mas também cívicas) que correspondem a um ideal de desenvolvimento da
pessoa que desaparecia numa concepção regida pela competição económica. Os
especialistas são perseguidos essencialmente por duas exigências
contraditórias. A regulação do sistema assenta em objectivos mensuráveis e em
comparações internacionais que permitem definir os níveis de performance de
cada sistema. Por outro lado, a inquietação face às dificuldades encontradas
pelas crianças imigradas leva a exigir à escola o desenvolvimento de uma
dimensão patrimonial. Mais do que os saberes e as competências, a escola deverá
inculcar, nos futuros cidadãos, os valores que os unem e promover a
constituição de um espaço público onde as diferenças sejam, por sua vez,
respeitadas e debatidas (Gautherin, 2005). Nós apercebemo-nos da complexidade
das questões com que se confrontam os especialistas, mas o essencial para o
nosso propósito não é isso. Nos anos 1970, a palavra de ordem internacional da
escola compreensiva foi reconstituída a partir da tradição francesa da escola
única. Mas, actualmente, a referência à tradição nacional não será apenas uma
roupagem destinada a fazer com que a França aceite a sua entrada num sistema
governado pela concorrência internacional?
A passagem, extremamente provocante, de Claude Allègre pelo Ministério da
Educação foi de curta duração, mas a nova organização implementou-se com poucas
crises e com poucos verdadeiros debates. Uma razão é, sem dúvida, a crise geral
da crítica em relação ao modo de organização proposto pelo novo espírito do
capitalismo (Van Haecht, 2001; Derouet Besson, 2001). Este incorporou uma
grande parte das críticas formuladas pelas ciências sociais dos anos 1960 e
1970. A denúncia do Estado Leviatã (Crozier, 1987), o questionamento da cisão
entre a escola e a vida, quer se trate da organização ou dos saberes que ela
ministra (Derouet-Besson, 2005); a crítica ao taylorismo e o destaque das
capacidades de iniciativa dos actores e do carácter estruturante do projecto,
etc. Esta incorporação permite-lhe ocupar a totalidade do espaço e virar o
poder da crítica contra si própria. É difícil defender a tradição do Estado
forte contra a ascensão do mercado sem se passar por um jacobino obsoleto;
exprimir reservas face ao liberalismo inerente às instituições europeias é
arriscar-se a ser rotulado de nacionalista; a defesa do direito do trabalho,
conquistada pelo movimento operário após 1848, expõe-se igualmente à acusação
de defender interesses corporativistas, etc. E quem poderá ser contra a
circulação de estudantes na Europa e o desenvolvimento de um cosmopolitismo que
submete os valores de uma sociedade à prova de outros olhares?
Há, portanto, poucas críticas fundamentadas a esse projecto. A polémica do
colectivo ABELARD Universitas calamitatum (2003) é disso exemplo e, ao mesmo
tempo, manifesta os seus limites. Esse coloca em evidência os riscos de
empobrecimento da cultura e do pensamento único mas, em contrapartida, o
pseudónimo que escolheu e o título latino colocam-no do lado de uma tradição
facilmente denunciável: uma França que acredita que os seus valores são
universais; na verdade, uma corporação que pensa governar o mundo a partir do
cimo da montanha Sainte-Geneviève. Após a querela desencadeada pelo livro de
Milner, em 1984, gerou-se uma tensão permanente entre uma "filosofia
perennis", que se reclama da República (Muglioni, 1984), e os diferentes
aspectos da modernidade. Os adversários podem ser os pedagogos, a Europa ou a
mundialização, mas a denúncia permanece a mesma e suscita uma questão que
remonta, pelo menos, aos Pais da Igreja: o que é a fidelidade à tradição? É a
permanência das mesmas formas num mundo em mudança? Não haverá também meios de
dar uma nova vida aos princípios, inventando novas expressões? No presente
caso, não se trata, evidentemente, de nos moldarmos ao quadro proposto para o
novo espírito do capitalismo, mas sim de nos interrogarmos sobre um combate
eficaz: a conservação da tradição cultural poderá ignorar totalmente os
resultados das ciências sociais e as evoluções económicas?
A partir desta constatação, é possível deslocar a interrogação. Teremos de
concentrar a nossa atenção no conteúdo aparente da reforma? Este tem certamente
implicações que já foram desenvolvidas (Charlier & Croché, 2003), mas estas
poucas páginas gostariam de chamar a atenção para outros aspectos. Antes de
mais, importa questionarmo-nos sobre o impacto dessas medidas na vida real. A
verdadeira oposição não se mostra e argumenta pouco em público: arrasta os pés,
faz valer as dificuldades, o que pode ser muito eficaz e resultar na aparente
implementação da reforma. Por outro lado, a universidade assiste a verdadeiras
mudanças que se inscrevem na mesma lógica do LMD, mas que não lhe estão
directamente associadas.
Esta análise, por conseguinte, será apresentada em duas partes. A primeira
estuda a implementação do LMD em França e os seus limites. A República
apresenta uma tradição de ensino superior diferenciado. A universidade reúne as
grandes multidões mas está integrada em redes que, embora minoritárias, não são
menos importantes: as grandes escolas e o ensino superior não universitário.
Estes sectores não entram no sistema 3.5.8. Tratar-se-á de uma
"dependência do desvio" que fará parte, pouco a pouco, da classe ou
de um embrião de resistência que poderá esvaziar a reforma de uma parte do seu
sentido? A segunda estuda algumas mudanças essenciais que surgiram no ensino
superior sem estarem directamente associadas ao LMD. A primeira é o cepticismo
que se gera em torno dos benefícios do prolongamento dos estudos. A passagem de
uma massificação do ensino superior e secundário para uma formação ao longo da
vida mudará as próprias bases do sistema. Uma outra diz respeito ao conjunto de
medidas administrativas que, em nome do imperativo da accountability, instauram
uma governação baseada em normas de qualidade europeias. Por último, a
substituição de um quadro nacional por um quadro de referência internacional
desencadeia uma alteração no modelo de formação das elites. Institui-se, assim,
um novo sistema de dominação, ao qual é praticamente impossível resistir de
cara descoberta e que implica, por isso, uma interrogação sobre novas formas de
resistência baseadas em subterfúgios.
A inscrição do LMD num ensino superior diferenciado: "dependência do
desvio" ou resistência?
Os politólogos interrogam os "chavões" que encontramos um pouco por
todo o planeta: autonomia dos estabelecimentos de ensino, formação ao longo da
vida, LMD. Esta omnipresença significará uma verdadeira mundialização das
políticas de educação? Talvez, mas também é possível que esses termos se
inscrevam em contextos diferentes que reconfiguram o seu sentido. É o que eles
designam por "dependência do desvio". Qual o seu sentido no caso do
LMD em França?
A universidade tornou-se uma universidade de massas (1,5 milhões de
estudantes), mas representa apenas uma parte do ensino superior. A elite
continua a ser formada nas grandes écoles. Os concursos, muito difíceis, exigem
a frequência de aulas de preparação geralmente ministradas em liceus dos
bairros burgueses. Este conjunto constitui um sistema essencial apesar de ser
numericamente pouco significativo (75 a 80 000 estudantes). Há já algum tempo
que as universidades desejam integrar esta rede paralela que as priva dos seus
melhores estudantes. O LMD reforça a sua posição e as exigências da Conferência
dos Presidentes das Universidades. Mas as universidades têm poucas hipóteses de
o conseguir numa altura em que o interesse pela formação das elites volta a
estar em primeiro plano. Este sistema dual constitui uma garantia: as crises
das universidades não afectam a reprodução das elites, uma vez que essa é
assegurada em outro lado. Permite igualmente manter o mito da democratização:
todos os alunos com o ensino secundário têm acesso à universidade e as propinas
não são muito elevadas. Esta massificação não tem nada a ver com uma real
democratização mas "acalma as hostes". Além disso, os dirigentes
são formados nas grandes écoles e a solidariedade permanece muito forte. A este
acrescentam-se outros sectores de elite que só se encarregam de estudantes a
partir do 3.º ciclo e asseguram a transição entre a universidade e a
investigação: a École des Hautes Études, o Collége de France, o Museu, o
Observatório, etc. Estes estabelecimentos podem igualmente apoiar-se na sua
tradição de excelência para se manterem à margem do novo sistema.
Num registo completamente diferente, existe também um ensino superior não
universitário que prepara para a vida profissional: ensino secundário+2. Esta
abre-se às profissões do sector terciário e de serviços (secretariado,
contabilidade, vendas, etc.) que corresponde às necessidades das empresas. E,
por outro lado, vai de encontro à procura de democratização de muitas famílias
populares, na medida em que as que hesitam em matricular os seus filhos em
estudos longos encontram nele uma saída mais sólida do que em cursos
semelhantes de BTS (brevets detechnicien supérieur), leccionados nos liceus. Os
IUT (Institutos Universitários de Tecnologia) têm um carácter universitário
mais consolidado. Alguns tentam, aliás, abrir filões de excelência associados a
redes internacionais. No entanto, o seu carácter profissional faz com que sejam
lugares de acolhimento de jovens de origens modestas.
Mesmo na universidade, o sistema 3-5-8 implementa-se sem destruir a anterior
licenciatura. O LMD suprime o nível ensino secundário+4 que correspondia à
antiga licenciatura. Mas muitos concursos administrativos (inclusive os da
função pública) recrutam sempre a esse nível. As universidades são, portanto,
obrigadas a distinguir o "Master 1" (ensino secundário+4) e o
"Master 2" (ensino secundário+5) e a emitir um certificado no fim
do Master 1. Podemos, evidentemente, considerar esta situação transitória,
porém, ainda não se perspectiva uma mudança da definição dos concursos.
Por agora, é impossível vislumbrar o sentido destes desfasamentos. Alguns
talvez correspondam a um período de adaptação, ao passo que outros constituem
ilhéus de resistência que esvaziam a reforma do seu sentido, criando múltiplas
excepções de forma a manter o antigo sistema sob a roupagem do novo.
Algumas mudanças de fundo no ensino superior: a dúvida das classes populares
sobre os benefícios do prolongamento dos estudos; a instituição de uma
governação segundo normas europeias de qualidade; a mudança do modelo de
formação das elites.
As primeiras avaliações da implementação do LMD mostram resultados modestos
(National Report 2004-2005). A mobilidade dos alunos continua reduzida. Não há
dúvida de que o obstáculo das línguas é importante: os estudantes franceses
dominam mal as línguas estrangeiras e as viagens não fazem parte dos seus
hábitos. Os obstáculos financeiros não são de desprezar, apesar de certas
regiões disponibilizarem bolsas para a mobilidade internacional que não são
usadas na sua totalidade. Mas esse não é o factor essencial. O LMD constitui
apenas um aspecto, e não forçosamente o mais importante, do alinhamento
progressivo do sistema francês com as resoluções internacionais: a passagem de
um período de estudos separado da produção para uma formação ao longo da vida;
uma racionalização da gestão que conduz a uma concentração e a um alinhamento
com as normas de qualidade europeias; e a integração da formação das elites em
redes internacionais.
A dúvida sobre os benefícios do prolongamento de estudos e a canalização da
esperança para a formação ao longo da vida
Em 1984, o ministro Jean-Pierre Chevènement dera a palavra de ordem "80%
de uma geração com o ensino secundário", que correspondia à tendência
identificada por Antoine Prost (1983): depois do colégio único, o movimento de
massificação atingia os liceus. O desafio foi recebido com entusiasmo pela
sociedade. Entre 1985 e 1995, a percentagem de jovens que terminava o ensino
secundário não parava de aumentar, atingindo 67% em 1995. Nestas condições,
podíamos pensar que se o objectivo estabelecido em 1984 não fosse atingido em
2000 sê-lo-ia um pouco mais tarde e o movimento afectou naturalmente a
universidade a partir de 1995. Foi nessa altura que a curva começou a flutuar
para, em seguida, voltar a cair. Mas em 2004 ascendeu aos 62%. Este fenómeno
não foi destacado pelos especialistas nem pela imprensa por ser pouco estudado.
São possíveis, pelo menos, duas interpretações. Uma remeteria para o
individualismo metodológico, isto é, uma antecipação racional das hipóteses de
sucesso, que são fracas para as crianças de origem popular, pois, nem eles nem
a sua família têm interesse em fazer sacrifícios que os estudos longos
implicam. A outra interroga sobretudo a modalidade de escolarização. O ensino
secundário foi concebido para as crianças da burguesia. Fez-se um compromisso
com as classes médias nos anos 1930 que produziu efeitos muito positivos a
partir dos anos 1950 até meados dos anos 1970. Este modelo atingiu o seu
limite, uma vez que, apesar dos esforços significativos (pedagogias
compensatórias, zonas de educação prioritárias, etc.) que foram feitos, não
conseguiu mobilizar as classes populares. O que está em causa é, sem dúvida, o
projecto curricular, a relação com o saber (Charlot, Bautier & Rochex,
1992), com um modo de organização que separa a escola da "vida
real". Robert Ballion (1994) interroga os novos alunos do liceu que, para
financiarem os seus estudos, aceitam "pequenos trabalhos". Eles
estão bem conscientes do factor de desigualdade que essa condicionante
constitui, mas, ao mesmo tempo, declaram que esse contacto com a "vida
real" os ajuda a dar um sentido às "provas de papel" da
escola. Obviamente que é simplista concluir que a lei deve regressar ao colégio
único e abrir uma possibilidade de orientação para o ensino profissional aos 14
anos. No entanto, a situação actual, que vê os alunos a trabalhar "sem
outra motivação a não ser a nota" e estudantes que estão na universidade
não por "manifesta motivação intelectual, mas porque não encontram
trabalho, não é saudável nem para escola, nem para os alunos: "somos
levados a perguntar-nos se o prolongamento dos estudos, pelo menos em certos
grupos (…), não é mais destrutivo do que formativo" (Duru-Bellat, 2006).
Dadas as condições será preciso canalizar a esperança para a formação ao longo
da vida? É a proposta das organizações internacionais. Esta corresponde às
exigências de flexibilidade e de mobilidade do "novo espírito do
capitalismo". Mas também é possível relacioná-la com a tradição da
igualdade de oportunidades. Não é justo que as qualificações adquiridas entre
os 18 e os 25 anos condicionem uma carreira inteira. Aquelas e aqueles que não
agarraram a sua primeira hipótese no período de estudos devem poder voltar a
tentar a sua sorte. É a aposta das escolas de segunda oportunidade e,
sobretudo, da validação de conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Por
agora, é difícil avaliar a validade desta promessa e surge uma verdadeira
questão: estamos perante a crise do modelo de democratização, fundado no grande
fechamento da escola, e no prolongamento do período de estudos mas, de momento,
as únicas respostas que existem são as dos thinktanks que inspiram o novo
espírito do capitalismo. A desconstrução dos diplomas nacionais em prol da
noção de portefólio de competências (Jobert, Marry & Tanguy, 1995) não pode
ser considerada um progresso. Não será possível perspectivar uma segunda
modernidade cujo projecto de educação e de formação se funde nos interesses das
classes populares?
A racionalização da gestão das universidades: a instituição de uma governação
segundo as normas de qualidade internacionais
O processo actualmente em curso é resultado da célebre classificação de Xangai.
Nenhuma universidade francesa aparece entre as cinquenta melhores. Tal ausência
é atribuída à fragmentação da gestão universitária que dispersa os esforços.
Chegou-se à conclusão de que é necessário constituir unidades maiores e mais
fortes que correspondam aos critérios internacionais de qualidade.
Esta tendência conjuga-se com uma outra que vai no sentido de delegar poder nas
regiões. O Estado nacional já não tem meios para fazer face às despesas que a
massificação do ensino superior implica, porém, a tradição francesa limita as
possibilidades de transferir a despesa da educação para as famílias. Qualquer
aumento de propinas na universidade arrisca-se a desencadear uma revolta. O
Estado vira-se, então, para as regiões, algumas das quais preparadas para
concederem apoios financeiros a investimentos importantes. Os Pôles deRecherche
et d'Enseignement Supérieur (PRES) propõem um compromisso entre estas
duas orientações: fundam unidades regionais que permitem às colectividades
territoriais organizar as suas relações com as formações universitárias e com a
investigação. Por outro lado, congregando as forças que coabitam num mesmo
espaço (universidades, institutos, grandes écoles, etc.), dão início a um
processo de concentração que, por sua vez, é acompanhado por uma racionalização
e, em particular, pela introdução de regras de gestão pública. Durante muito
tempo a educação foi classificada como um imperativo categórico. É necessário
elevar o nível de instrução da população, prolongar o período de estudos, etc.
A questão do custo ou do lucro dos investimentos não se coloca. A situação
mudou. Uma cultura da avaliação, ou, melhor, de obrigação de "prestar
contas" está a ser implementada (Normand, 2001). Esta medida é denominada
no serviço público por LOLF (Loiorganique relative aux lois de finances). Os
créditos são atribuídos por funções. Por conseguinte, as instituições devem
apresentar os seus pedidos por objectivos e prever, simultaneamente, os meios
para avaliar as suas performances.
Esta evolução francesa decorre das directivas europeias e, em particular, no
que concerne à universidade, das decisões tomadas na Cimeira de Lisboa. Assim,
implementam-se padrões de qualidade que abrangem todos os domínios, bem como a
qualidade de oferta e os resultados e que acabarão por instituir, no domínio da
educação e da formação, o que Laurent Thévenot (1997) designa, no mundo da
produção industrial, como uma governação segundo normas. Este trabalho começou
com inquéritos (PISA, TIMSS, IEA, etc.) e deverá continuar com o objectivo de
uma plataforma comum.
Uma mudança do modelo de formação das elites
O primeiro ponto a destacar é que esta questão volta a estar em voga
(Revueinternationale d'éducation 2005), depois de ter estado a hibernar
desde os anos 1960. Havia, obviamente, alguns estudos internacionais (Broady,
Chmatko & de Saint Martin, 1997), mas o interesse dos investigadores, assim
como dos políticos, centrava-se na democratização, o que era, sem dúvida, uma
consequência do relatório A Nation at Risk (1983). A inversão de tendência era
sensível aos Estados Unidos desde a publicação da obra de Sarah Lawrence
Lightfoot (1983). O seu exemplo foi seguido por um grande número de estudos
sobre escolas exemplares (Normand, 2001). Além disso, esta inversão ocorreu
numa altura em que se reduziram as bases de recrutamento das grandes écoles. Os
anos de prosperidade conduziram a uma abertura relativa: a reprodução não era
suficiente para a renovação dos quadros. Com a crise, o peso da herança
consolidava-se, mas, em contrapartida, o sistema evoluía. As elites eram
formadas nas grandes écoles de tal forma ligadas ao Estado-nação que se pôde
falar de uma "nobreza de Estado" (Bourdieu, 1989). O sistema tem
hoje um concorrente que assenta na integração precoce nas redes internacionais.
Daí o desenvolvimento das aulas bilingues, das aulas europeias, dos
intercâmbios linguísticos. Faz-se um compromisso entre o antigo e o novo. O
modo de selecção dos "grandes liceus" para a admissão a aulas
preparatórias evoluiu: actualmente preferem um aluno bilingue franco-britânico
a um aluno formado na linha latino-germânica. A estadia no estrangeiro sempre
fez parte do cursus honorum mas no fim do percurso: uma bolsa de doutoramento
ou de pós-doutoramento. Existem, portanto, redes entre as grandes écoles
francesas e as universidades estrangeiras. Trata-se, simplesmente, de remontar
à origem do campo de aplicação, ou seja, a nobreza do Estado será formada
através de uma circulação nas redes de excelência internacionais. Esta
organização tende a abranger os liceus, os colégios e as escolas, de modo que,
para os jovens acederem às universidades e às grandes écoles integradas nas
grandes redes internacionais, é melhor inscrevê-los em escolas bilingues logo
desde a primária.
Desta forma institui-se uma organização que estabelece uma cisão entre os
estabelecimentos de ensino de redes locais e os estabelecimentos de ensino de
redes globais. Os estabelecimentos muito integrados numa governação local
(ligado às colectividades territoriais, às associações culturais, aos
movimentos de bairro) socializam a maior parte das crianças segundo valores que
promovem a vida em comunidade. Os estabelecimentos integrados em redes
internacionais preparam a elite para uma circulação no interior de um mundo em
que a língua veicular é o inglês. Esta oposição inscreve-se, obviamente, no
prolongamento das clássicas desigualdades. Salvo algumas excepções, produto de
uma política-espectáculo, as escolas internacionais situam-se, geralmente, nos
bairros burgueses. Por outro lado, este dualismo renova a argumentação que
justifica as distinções.
Conclusão: novas figuras de dominação, novas figuras de resistência
A passagem para o LMD tem consequências directas na vida das universidades: no
volume de trabalho dos professores e dos estudantes, nos modelos de avaliação.
Porém, alguns ajustamentos terão de ser feitos nos próximos anos. Além disso,
esta reforma surge, sobretudo, como o símbolo e o ponto de apoio de um
movimento mais geral, que é o fim do escandaloso isolamento do sistema francês
e a sua entrada num espaço de concorrência internacional. As linhas anteriores
tentaram esclarecer alguns pontos estratégicos: a dúvida que se gera em torno
dos benefícios do prolongamento dos estudos e a ascensão de uma nova esperança
na formação ao longo da vida; a implementação de uma governação segundo normas
que se enquadram nos padrões europeus de qualidade; uma mudança na formação das
elites. A conclusão levanta-nos uma outra questão: como resistir num sistema
onde as possibilidades de protesto estão cerceadas? Esta reflexão pode apoiar-
se na trilogia, proposta por Hirschman (1972), para caracterizar as relações
entre os indivíduos e as instituições: Exit, voice, loyalty. A análise
efectuada anteriormente demonstra que não há adesão (Loyalty) ao sistema LMD.
Por outro lado, a oposição (Voice) não tem abertura e o recuo total seria uma
'emenda pior que o soneto'. Daí a invenção de uma nova forma de
resistência.
O exemplo do LMD mostra que não é possível resistir à força crescente do novo
espírito do capitalismo. As relações de força são claras: um país ou uma
universidade que não entrem nesse sistema serão marginalizados. A situação não
é muito diferente no debate intelectual. O novo modelo incorporou os
conhecimentos da crítica dos anos 1960 e 1970. Esta abordagem permite-lhe
ocupar completamente o espaço e virar o poder do pensamento crítico contra ele
próprio. Nestas condições, não se consegue vislumbrar como é que uma oposição
se poderá constituir. A única oposição radical é a que nos é dada por uma
leitura integralista dos princípios do Islão. O seu poder de mobilização é
incontestável, mas a sua doutrina não se insere no quadro que a concepção
europeia da democracia herdou do Iluminismo. Os esforços, por conseguinte,
mudam de direcção. Se há pouca ou nenhuma contestação explícita, em
contrapartida, há muitas hesitações surdas e arrastamento de pés que exploram
as falhas do novo sistema: as normas são confusas ou contraditórias; não têm em
conta as tradições nacionais; não são acompanhadas pelos meios necessários.
Posto isto, é possível identificar a questão sobre as novas formas de
resistência: o recuo e o protesto assentam em subterfúgios. É este o ponto
obscuro que se deve investigar e, se se puder, teorizar.
Antes de mais, há que circunscrever o fenómeno: que configurações apresenta?
Quais os seus pontos de apoio? Depois a teoria. Michel de Certeau (1991, 1994)
tentou formalizar estas "caças furtivas" em que os pequenos caçam
clandestinamente nas terras dos grandes. Não só não lhe resistem como também
entram na sua racionalidade, adoptam os seus códigos culturais. Eles
reformulam-nos simplesmente à sua maneira e, às vezes, manipulam o sentido e o
poder em função dos seus interesses. O mérito de um tal trabalho é chamar a
nossa atenção para o papel da astúcia na história e mostrar os pontos comuns
entre heranças tão diferentes como o Roman de Renard e o abrandamento da
produção provocado pelo movimento operário durante os primeiros tempos do
capitalismo. A sua visão parece, no entanto, demasiado optimista, pois mesmo
que haja resistência, esta só põe em causa a dominação em casos excepcionais.
Os subterfúgios e as resistências que travam ou deformam a implementação do LMD
não impedem que a nova forma de organização se instale (Laval &Weber, 2003): o
regresso do interesse pela formação das elites e a mudança do modelo de
formação das mesmas são um facto; os padrões de qualidade internacionais
impõem-se e os actores, aos poucos, põem-se em marcha na direcção dessa
referência; as novas desigualdades entre os estabelecimentos de ensino de redes
locais e os estabelecimentos de ensino de redes globais começam a estruturar o
rumo das formações. As hesitações, as reformulações, os desfasamentos levam
simplesmente a levantar uma questão: qual o impacto destas resoluções na vida
real? Organizam verdadeiramente a vida das aulas e dos estabelecimentos? Ou
trata-se de falsas aparências que escondem práticas extremamente diferentes?
Talvez escondam mesmo, sob uma roupagem racional e legal, as práticas
decorrentes de um imperativo de justificação (Derouet, 2000).
A sociologia pode utilizar os resultados destas análises para construir uma
nova posição, fundada nesta ciência dos actores que se desenvolve com
sofrimento e astúcia. O negativo é tão importante quanto o positivo para o
avanço de um pensamento dialéctico. O período compreensivo constituiu um forte
momento positivo: uma esperança de democratização da sociedade, um
prolongamento do período de estudos. Este projecto é hoje posto em causa e as
críticas não vêm só da direita reaccionária. Sem dúvida que estamos a assistir
ao esgotamento de um modelo. Embora ainda seja cedo para fazer uma apreciação
sobre certas medidas como a validação dos conhecimentos adquiridos, o novo
modelo não reclama essencialmente um objectivo de democratização. Como
reconstruir um projecto progressista? As sociedades atlânticas entraram,
durante longos anos, num período de negatividade onde os actores resistem em
segredo sem que os seus esforços encontrem uma saída política. A sociologia
deve interessar-se por esses aspectos negativos, ajudar a formalizá-los e
apoiar-se em novas definições de bem comum, nas quais se vai trabalhando no
sentido de reconstruir uma exterioridade. Por isso, ela deve regressar à base:
fazer um inventário dos sofrimentos e dos subterfúgios desencadeados pela nova
ordem do mundo. As denúncias gerais da mundialização que prosperam podem ter
algo de jubiloso. Para apreenderem o real, têm de estar apoiadas em estudos
exactos. O que é que esta organização muda na vida das pessoas? No fim deste
artigo, parecerá, talvez, que o sofrimento e o rancor constituem firmes poderes
de evolução que podem desembocar num novo momento positivo: um projecto de
democratização da escola e da sociedade correspondente aos interesses dos novos
dominados na sua pluralidade. O movimento já foi desencadeado há vários anos.
Após a descolonização, os historiadores redescobriram a visão dos vencidos
(Wåchtel, 1971), o lugar da escravidão no sistema económico e o desenvolvimento
das heresias populares (Ginzburg, 1980). Actualmente, existe uma história da
loucura, uma história das mulheres; começa a escrever-se a dos homossexuais.
Considerando o fenómeno de uma forma geral, é a história dos dominados, do seu
sofrimento, dos seus rancores mas também dos subterfúgios que lhes permite
moldar a sua condição que falta escrever.
No domínio da sociologia da educação, a questão foi trabalhada do lado dos
alunos. É possível dar um panorama geral de duas reflexões. Patrick Rayou
(2000) insiste na estranheza de dois mundos que coabitam nos estabelecimentos
de ensino. A par do universo gerido por adultos, que põe em primeiro plano a
acção justificada, os alunos constroem um "outro liceu", que se
baseia muito mais na proximidade entre as pessoas (Rayou, 2000). Christophe
Hélou (1994) põe em evidência, nos alunos, as técnicas de resistência
aparentadas com a tradição operária do abrandamento de produção: colocam
questões, pertinentes ou não, que abrandam o ritmo da aula;
"esquecem" os seus compromissos; negoceiam o volume de trabalho, a
avaliação; exploram a falta de clareza das normas ou as suas contradições. E
estas condutas alimentam-se com as ferramentas críticas dadas pelo ensino.
Importa cruzar as contribuições das duas atitudes. Se há realmente dois mundos
que se tocam sem nunca se verem, o subterfúgio dos dominados alimenta-se
frequentemente dos modelos fornecidos pelos dominadores. Marie-Claude Derouet-
Besson (2005) estudou o papel do cristianismo nesta questão, que dá um stock de
referências inesgotáveis à crítica do mundo que existe em nome do mundo que
deve ser. A mesma atitude se observa a escalas mais modestas. Um professor que,
na sua aula, faça uma crítica ao capitalismo e à organização taylorista do
trabalho arrisca-se a ser posto em causa se mantiver, na sua turma, uma
hierarquia e uma avaliação que se baseie nos mesmos princípios.
A implementação da nova ordem mundial estende este processo aos professores e
aos quadros da educação. Desenvolve-se uma teoria espontânea da resistência
civil. O nível de estudos dos professores permite-lhes construir uma definição
de interesse geral, que não é nem mais, nem menos contestável que a do
ministro, e justificar acções que não se inserem no quadro prescrito. Por outro
lado, de forma a defender esta independência, os professores criam subterfúgios
do mesmo género dos dos seus alunos: como, por exemplo, obter bons resultados
numa altura em que as avaliações se baseiam em padrões internacionais que eles
contestam totalmente, seguindo uma prática pedagógica que releva de outros
princípios? Os quadros de referência são mais restritos mas alguns situam-se na
orientação.
A reconstrução do ponto de vista crítico levará o seu tempo. Nesta fase, a
sociologia deve interrogar a ordem instituída fazendo convergir duas
abordagens: uma análise etnográfica que identifica e configura as novas formas
de resistência; e uma reflexão política que se reconcilia com a tradição,
pensando conjuntamente a infelicidade dos pobres e a felicidade dos ricos
(Boltanski, 1999). O período antes da guerra assistiu a uma separação entre
dois tipos de ensino: o secundário acolhia as crianças da burguesia e conduzia-
as, bem ou mal, a uma formação de nível secundário e à universidade; o primário
ensinava os rudimentos às crianças do povo e conduzia-os a uma carreira que
culminava com o diploma aos 16 anos. O modelo compreensivo tentou realizar uma
unificação que encerrava algumas ingenuidades. Supunha, em particular, que o
mesmo currículo podia constituir uma plataforma comum para todos e um trampolim
para os melhores. Esta utopia foi posta em causa. O relatório A Nation at Risk
propõe uma diversificação baseada em outros princípios. A questão essencial, no
entanto, permanece: a circulação de saberes, de riquezas, de poderes, inscreve-
se num quadro global de "partilha de benefícios" (Darras, 1969) que
tem de ser repensado.