Nem tudo o que conta em educação é mensurável ou comparável: Crítica à
accountability baseada em testes estandardizados e rankings escolares
O conceito de accountability é, em geral, polissémico e denso, como facilmente
se pode constatar numa rápida revisão da literatura especializada (cf., por
exemplo, Schedler, 1999; Mulgan, 2000). Porém, neste artigo, não pretendo fazer
senão uma breve contextualização teórico-conceptual que permita, num primeiro
momento, dar sentido à perspectiva que aqui adopto: ou seja, associar o
conceito a três dimensões essenciais autónomas, mas fortemente articuladas (ou
articuláveis): a avaliação, a prestação de contas e a responsabilização. Num
segundo momento, partindo da experiência dos Estados Unidos da América e da
importância que voltou a ser atribuída aos testes estandardizados na última
reforma conservadora de G. W. Bush, analiso sucintamente a centralidade que têm
estes instrumentos de avaliação na estruturação da principal forma de
accountability no âmbito do sistema educativo neste país. Finalmente, tendo em
mente quatro formas de accountability em construção no contexto português
(decorrentes da avaliação do desempenho docente; da avaliação institucional das
escolas; dos exames nacionais e da publicitação dos rankings), a argumentação
desenvolvida situa-se apenas nestas duas últimas. Procurarei, mais
precisamente, chamar a atenção para a crescente centralidade dos exames e
testes estandardizados (nacionais e internacionais) na configuração das
políticas educativas contemporâneas, apelando também a uma reflexão mais
aprofundada e crítica em torno da descomplexificação, despolitização e
tecnicização das formas tendencialmente dominantes de accountability, porque
nem tudo o que conta em educação pode ser medido ou comparado
1
.
Avaliação, prestação de contas e responsabilização
A avaliação pode ser utilizada, entre muitos outros objectivos e funções, como
condição sine qua non para o desenvolvimento de processos de prestação de
contas e de responsabilização (accountability). Ou seja, a prestação de contas,
como acto de justificação e explicação do que é feito, como é feito e porquê é
feito, implica, em muitos casos, que se desenvolva alguma forma ou processo de
avaliação ou auto-avaliação (mesmo que implícita). Neste sentido, quando a
prestação de contas exigir a avaliação, esta deverá desenvolver-se de forma
fundamentada e o mais possível objectiva, de modo a procurar garantir a
transparência e o direito à informação em relação à prossecução de políticas,
orientações, processos e práticas. E se, por alguma razão, não for esperada nem
ajustada a assunção voluntária de eventuais responsabilidades pessoais,
políticas ou institucionais
2
, ou se, em decorrência da prestação de contas, houver lugar a prémios ou
sanções, ou outras formas de responsabilização de instituições, organizações ou
pessoas, isso deve ser também consequência (pelo menos em determinadas
situações) de uma avaliação rigorosa e prudente sob o ponto de vista técnico-
metodológico (tendo por referência, entre outros, critérios, objectivos e
padrões previamente definidos), e tendo em conta igualmente o enquadramento
cultural, ético e jurídico que preveja procedimentos democráticos e salvaguarde
direitos fundamentais.
A avaliação precede (ou pode preceder) a prestação de contas (cf. Kogan, 1986;
Dimmock & Hattie, 1990), sendo que, na sequência da prestação de contas,
também pode haver lugar a uma avaliação que considere as informações
disponibilizadas sobre as políticas, acções e desempenhos em causa. Por isso, é
necessário atender não apenas à questão da avaliabilidade, mas também à
congruência mais ampla entre os modelos de avaliação e os modelos de
accountability. Sem haver garantia de avaliabilidade (ou seja, sem a presença
de condições que possibilitem desenvolver processos baseados em metodologias
credíveis, válidas e fidedignas, e que permitam emitir e fundamentar juízos
valorativos sobre práticas, instituições, contextos e políticas), ficam
prejudicadas as formas de prestação de contas e de responsabilização, ou seja,
uma parte fundamental dos processos de accountability (cf. Afonso, 2001). Do
mesmo modo, sem congruência de pressupostos, valores e metodologias entre
avaliação, prestação de contas e responsabilização torna-se mais difícil haver
uma procura de objectividade e transparência relativamente a decisões e
práticas políticas, sociais e educacionais, podendo estar em causa a
concretização do direito democrático à informação e, em decorrência disso, a
possibilidade de afastamento e alheamento dos cidadãos face ao que acontece nas
instituições e organizações públicas ou de interesse público. É, no entanto,
necessário ter em conta, como lembra Stewart Ranson, que um modelo de
accountability pode ser sentido como um "anátema para a comunidade de
profissionais". Isto ocorrerá quando esse mesmo modelo é associado
redutoramente a uma "imagem potencialmente punitiva" (Ranson, 2003,
p. 460) que advém, por vezes, do facto de a responsabilização e a eventual
imposição de sanções (enforcement) serem componentes subjacentes.
Como um sistema de accountabilty implica frequentemente uma teia complexa de
relações, interdependências e reciprocidades, bem como possibilidades
diferenciadas de justificação e fundamentação, no caso dos professores, por
exemplo, a dimensão da responsabilização é particularmente delicada uma vez que
estes profissionais têm que prestar contas a várias instâncias hierárquicas (do
ministério aos directores de escola), incluindo também outros elementos da
comunidade educativa (entre os quais, os pais e os próprios estudantes). Neste
sentido, se esperarmos que os professores prestem contas aos pais sobre o
progresso escolar dos seus filhos, esses mesmos professores também terão
expectativas legítimas para esperar que os pais reforcem os cuidados com os
processos de aprendizagem. Ou seja, expectativas e responsabilidades são
recíprocas, não deixando, apesar disso, de poder estar em confronto
perspectivas diferentes (e eventualmente conflituais) sobre o que é ou não é
importante para as aprendizagens. Neste sentido, a construção de consensos, a
comunicação e o diálogo são dimensões fundamentais de "uma prática
discursiva de accountability", mas "o potencial positivo desta
forma inteligível e reflexiva de accountability tem sido negligenciado em
muitas das teorizações contemporâneas" (Ranson, 2003, pp. 460-461).
Avaliação, prestação de contas e responsabilização nem sempre constituem
elementos que se potenciem mutuamente, e nem sempre se integram em orientações
e relações guiadas por uma intencionalidade democrática e de empowerment dos
cidadãos. Com efeito, todas as eventuais combinações destas variáveis são
teoricamente possíveis e, neste sentido, todas podem ser (ou poderão ter sido)
praticadas de algum modo e, por vezes, com consequências ambivalentes (e até
perversas), sobretudo se considerarmos conjunturas políticas e realidades
sociais e educacionais não democráticas, ou contextos com predominância de uma
democracia ritualística ou de baixa intensidade. De todas as combinações
possíveis, a situação mais problemática é, sem dúvida, a que diz respeito à
responsabilização sem avaliação e sem prestação de contas.
É, todavia, frequente (e justificável) o exercício autónomo da avaliação sem
que ele esteja enquadrado num sistema de accountability institucionalizado ou
formal, mas já parece ser mais difícil defender o contrário, isto é, um sistema
de accountability que prescinda da avaliação em qualquer situação. Considerando
o facto de que há diferentes modelos de accountability e que nem todos os
modelos conhecidos se inscrevem em lógicas progressistas, parece-me que, numa
concepção mais complexa e potencialmente democrática, não terá muito fundamento
que a prestação de contas não seja, com alguma frequência, antecedida (e
sucedida) por processos claros e rigorosos de auto-avaliação e/ou avaliação
(interna e/ou externa), incluindo ainda, em fase posterior, processos
congruentes de responsabilização (não necessariamente com consequências
negativas). Neste sentido, um sistema de accountabilitydemocraticamente
avançado inclui a avaliação, a prestação de contas e a responsabilização, mas
dentro de articulações congruentes que se referenciem ou sustentem em valores
essenciais como a justiça, a transparência, o direito à informação, a
participação, a cidadania - lembrando, a este propósito, o facto de
muitos destes valores estarem a ser repensados no âmbito de novas reflexões
(críticas e criativas) sobre outras concepções possíveis e desejáveis de
democracia no tempo actual. Defende-se aqui, portanto, uma linha de reflexão e
pesquisa que assente numa concepção de accountability mais ampla, fundamentada
e complexa do ponto de vista teórico-metodológico, político, axiológico e
epistemológico. Neste sentido, um sistema de accountability assim alicerçado
não pode ser reduzido a uma prestação de contas ritualística ou simbólica, nem
ser associado a perspectivas instrumentais, hierárquico-burocráticas,
gestionárias ou de mero controlo, para as quais parecem remeter, muitas vezes,
os discursos e práticas vulgares.
Aliás, a referência sistemática à prestação de contas está na moda, valendo a
pena perceber, por exemplo, as razões pelas quais os mecanismos de
accountability têm sido referenciados tanto por orientações neoliberais e
neoconservadoras, quanto por orientações de matizes ideológicas distintas (da
social-democracia, do trabalhismo, da terceira via, entre outras). A este
propósito, Gert Biesta refere que "a ideia de accountability pode ser
relativamente imune à ideologia política", como mostram, por exemplo, no
caso da Inglaterra, tanto os governos do New Labour como os governos do Partido
Conservador, os quais lhe deram grande ênfase (Biesta, 2004, p. 234). Não
admira, aliás, que isto ocorra dado que, como escrevi anteriormente, esta
"relativa indiferença às diferenças político-ideológicas" tem
estado igualmente presente no que diz respeito às políticas de avaliação (cf.,
por exemplo, Afonso, 2001, 2007, 2008). Neste sentido, face às tendências
hegemónicas decorrentes de uma agenda global mais ampla, onde é central o papel
das organizações internacionais e supranacionais (OCDE, UE; BM, OMC…), o facto
é que, nas últimas décadas, pelo menos nos países capitalistas ocidentais, as
políticas de avaliação, de prestação de contas e de responsabilização
(accountability) foram ganhando uma certa imunidade às concepções político-
ideológicas dos governos, disseminando e homogeneizando muitos dos seus
efeitos, como se essas mesmas políticas ganhassem o seu verdadeiro sentido
situando-se acima das realidades culturais, políticas, económicas e
educacionais nacionais. Esta tendência, entre outras consequências, tem
aumentado a eficácia legitimadora destas políticas, tornando mais difícil
desocultar os interesses, demandas e funções que lhe subjazem.
Há certamente alguns factos sociais que podem explicar esta aparente
consensualidade e transversalidade dos discursos de accountability. Entre
outros, podem referir-se sucintamente os seguintes: i) Quando a crise da escola
começou, em alguns países, a ser atribuída a certos métodos pedagógicos e ao
suposto mau uso da autonomia profissional dos professores, e foi agravada pelas
repercussões sociais dos estudos internacionais comparativos relativos aos
resultados escolares (rankings internacionais), a pressão para reforçar medidas
de avaliação e de accountability não tardou a fazer-se sentir
3
; ii) quando a emergência neoliberal e neoconservadora se traduziu na criação
de mercados e quase-mercados em educação e na valorização da liberdade de
escolha educacional das famílias, cresceram as demandas pela publicitação de
resultados educacionais mensuráveis e, portanto, também por processos de
avaliação e de accountability; iii) quando o Estado se tornou mais forte, não
apenas para (paradoxalmente) impor a sua própria redução no campo económico,
mas também para assumir mais explicitamente o exercício do controlo social,
nomeadamente através da definição mais apertada de objectivos educacionais, os
mecanismos de avaliação e accountability foram accionados como instrumento de
controlo centralizado dos sistemas educativos; iv) quando a retracção (real ou
ideologicamente construída) dos Estados-providência levou à racionalização de
custos e investimentos públicos e permitiu a indução de lógicas de co-
responsabilização da sociedade civil, a avaliação e a accountability foram
exigidas como consequência de processos de autonomia e de descentralização; v)
quando o direito dos cidadãos à informação sobre o que ocorre na res publica
(aliás, muito arreigado em certas tradições e em certos países como os EUA)
anda associado à ideia de democracia e de responsabilidade, é esperada a
valorização de processos de avaliação e accountability; vi) e quando as formas
de accountability se sustentam fundamentalmente na aplicação de instrumentos
validados científica e tecnicamente, como é o caso dos testes estandardizados,
percebe-se melhor a eficácia da "técnica e ciência como ideologia"
e, portanto, a dominância destes instrumentos de avaliação em muitos sistemas
educativos, a nível nacional e internacional
4
.
Accountability baseada em instrumentos de avaliação estandardizados
No quotidiano das instituições e organizações, como as escolas, há sempre modos
informais de accountability, mas são os sistemas formais que têm vindo a ganhar
importância. Um sistema formal de accountability consiste em mensurar e
codificar padrões de resultados e prever determinadas consequência quando se
atingem ou não esses resultados. Por isso, a informação é crescentemente
quantitativa e os métodos de mensuração são estandardizados (cf. Hoffer, 2000).
Aliás, esta maior formalização tem relações evidentes com a emergência do
chamado Estado-avaliador e com a disseminação de uma nova gestão pública
(newpublic management) onde a definição prévia de objectivos e a sua mensuração
e quantificação são aspectos centrais. Não é, portanto, por acaso que algumas
formas de accountability em educação têm sido estruturadas tendo como
fundamento, exclusivo ou predominante, os resultados dos testes estandardizados
no âmbito de avaliações externas.
Apesar disto, nenhum sistema de avaliação, prestação de contas e
responsabilização (accountability) bem fundamentado em termos políticos,
culturais, éticos, técnico-científicos e educacionais, pode esgotar-se na mera
recolha e publicitação de informações baseadas em testes, mesmo que
estandardizados. Esta situação é ainda mais questionável quando os resultados
académicos dos alunos acabam por ser também um critério fundamental para a
avaliação das escolas e para a avaliação dos próprios professores. Mas é
precisamente esta a tendência que tem vindo a verificar-se há anos, e em
diferentes sistemas educativos - e que tem sido muito discutida, por
distintas razões, quer por defensores, quer por críticos contundentes dos
testes estandardizados. A organização FairTest, por exemplo, tem analisado a
experiência de utilização de testes estandardizados em contexto americano,
nomeadamente a que foi desenvolvida no âmbito da reforma educativa de George W.
Bush, conhecida como No Child Left Behind Act. Neste âmbito, a accountability
baseia-se nos resultados dos testes estandardizados e inclui sanções,
recompensas ou intervenções, dirigidas tanto a distritos escolares como a
estabelecimentos de ensino, professores e estudantes
5
. Para aquela organização, o modelo de accountability em causa "não
apenas mostrou grandes insuficiências como criou efeitos secundários
indesejáveis (cf. FairTest, 2007). Um outro aspecto também relacionado com a
reforma No Child Left Behind, diz respeito à avaliação conhecida como high-
stakes testing, ou seja, a realização detestes que têm importantes implicações
para os avaliados, nomeadamente pela possibilidade de acesso a certificados e
graus académicos e pela atribuição de recompensas ou sanções em função da
prossecução ou não de objectivos precisos em matéria de sucesso escolar,
podendo ir, neste último caso, até ao encerramento das escolas que não atinjam
determinados níveis. O uso de high-stakes testing significa, em última
instância, que os resultados dos testes estandardizados constituem o único
factor para a tomada de decisões cruciais sobre as escolas, os professores e
estudantes. Por estas razões, e também pelo facto de a sua aplicação poder dar
origem a efeitos não desejáveis, os testes com estas características têm sido
fortemente criticados por diversos sectores sociais e da educação, e por
prestigiadas associações científicas
6
.
Se é verdade que os testes estandardizados não são uma novidade no sistema
educativo norte-americano (Koretz, 2002), também é verdade que houve algo de
novo na última reforma conservadora de George W. Bush, nomeadamente um maior
"intervencionismo federal num sistema largamente descentralizado e a
extensão do regime de sanções contra as escolas públicas" (Normand, 2008,
p. 53). Porém, os conceitos de accountability e de high-stakes testing
começaram a ser referenciados e implementados de forma crescente na fase
posterior à publicação do relatório A Nation at Risk. Com efeito, antes da
década de 1980, o termo accountability não era muito ouvido nos debates sobre
educação, nem considerado como meio decisivo para melhorar o desempenho das
escolas e dos sistemas educativos (cf., por exemplo, Dubnick, 2006)
7
. Por esta razão, os referentes mais próximos das políticas a que acabamos de
aludir devem ser localizados nos anos oitenta do século XX, nos governos da
nova direita, quer nos EUA, quer na Inglaterra (para este último caso, ver, por
exemplo, Epstein, 1993).
Estes governos, pela sua natureza híbrida, articulando conjunturalmente as
ideologias neoconservadora e neoliberal, constituem exemplos paradigmáticos de
viragem nos modos de governação dos sistemas educativos, nomeadamente pela
utilização das avaliações externas, baseadas em testes estandardizados, como
estratégia de indução de medidas de privatização e/ou lógicas de quase-mercado
em educação, mas também de aumento do controlo central do Estado - e, em
decorrência disso, de indução de formas ou modelos de accountabilityem educação
compatíveis com esses instrumentos de avaliação. Como concluí noutros trabalhos
a este propósito, a avaliação estandardizada criterial com publicitação de
resultados, isto é, a avaliação que visa o controlo de objectivos previamente
definidos (enquanto produtos ou resultados educacionais), é que foi sendo
gradualmente apontada como um dos traços distintivos das mudanças nas políticas
avaliativas. Isto aconteceu porque a introdução da avaliação estandardizada
criterial é congruente com o exercício do controlo por parte do Estado e,
simultaneamente, porque a publicação dos resultados dessa mesma avaliação induz
a expansão do mercado (e do quase-mercado) em educação. Assim, a avaliação
estandardizada criterial com publicitação de resultados tornou-se inicialmente
um instrumento importante para a implementação da agenda educacional da nova
direita, e continuou a sê-lo para governos de outras orientações político-
ideológicas. Não surpreende, portanto, que a avaliação tivesse, de forma
congruente, sido accionada como suporte de processos de prestação de contas e
de responsabilização relacionados com os resultados educacionais e académicos.
Se é verdade, como acima referi, que emergiu o Estado-avaliador, também é
verdade que as mudanças nas políticas avaliativas foram igualmente marcadas
pela introdução de mecanismos de mercado. É isto que explica que o controlo
sobre os resultados escolares não tenha sido subordinado, nem se tenha
restringido, a uma mera lógica burocrática - o que tornou a actuação do
Estado neste campo claramente distinta das estratégias adoptadas em outras
épocas e em outros contextos históricos (cf. Afonso, 1998, 1999, 2005, 2007).
Em termos de accountability, estaríamos, neste último caso, perante um modelo
distinto do modelo hierárquico-burocrático tout court em que a prestação de
contas é essencialmente interna ao sistema educativo. Em vez disso, o modelo
subjacente às políticas atrás sinalizadas tem um carácter híbrido ou misto
porque a accountability envolve, por um lado, a sociedade civil e o mercado e,
por outro, o próprio Estado. Não deixa de haver, todavia, nuances importantes,
consoante os contextos nacionais uma vez que os modelos de accountability são
constructos sociais (cf. McCormick & James, 1983), apresentando variações
importantes consoante as relações de poder dominantes, e as tradições
culturais, ideológicas e institucionais. Apesar disso, um ponto de convergência
encontrado em tradições nacionais muito diferentes (como é o caso da França e
da Inglaterra) pôde ser traduzido pela preocupação de ambas em
"assegurarem o exercício do controlo através da linguagem da
accountability" (Broadfoot, 2000, p. 45).
Exames nacionais estandardizados e rankings das escolas em Portugal
Voltemo-nos agora um pouco para a realidade portuguesa. Durante o regime
político autoritário, que durou sensivelmente entre 1926 e os primeiros meses
de 1974, havia exames nacionais obrigatórios e a progressão e certificação dos
estudantes estavam muito dependentes desta avaliação externa. Com a revolução
democrática de Abril de 1974, estes exames (tradicionais) foram abolidos, tendo
prevalecido, nas duas décadas seguintes, uma avaliação das aprendizagens
"essencialmente interna e baseada na escola" (Fernandes, 2007, p.
589). Em 1996, os exames nacionais foram novamente introduzidos no final do
ensino secundário e, em 2005, no final da escolaridade obrigatória. Trata-se
agora de provas sumativas externas estandardizadas, mas que estão longe de ter
as mesmas consequências ou visar objectivos idênticos aos que têm os high-
stakes testing nos EUA. Com efeito, em Portugal, apesar da reintrodução dos
exames nacionais estandardizados e da realização de provasaferidas, a avaliação
interna realizada pelos professores nas suas respectivas escolas e turmas
continua a ter, ainda hoje, um peso muito maior e mais decisivo em termos de
progressão e certificação dos estudantes. São, todavia, os resultados destes
exames externos estandardizados que constituem a base para a organização de
rankings das escolas, os quais, desde 2001, passaram a ser divulgados para a
opinião pública, dando azo a muitos debates divergentes na sociedade portuguesa
relativamente aos seus verdadeiros objectivos, à pertinência ou não pertinência
das metodologias utilizadas na sua elaboração e aos efeitos sociais e
educacionais da sua utilização. Estes rankings, por exemplo, depois de
divulgados na comunicação social, têm sido interpretados por professores no
âmbito das escolas e, em muitos casos, são considerados uma boa razão para a
adopção de medidas pedagógicas e formas organizativas congruentes com
estratégias de manutenção ou de melhoria em relação aos lugares atribuídos
nessas listas ordenadas. Entre muitos outros efeitos, a preocupação das escolas
pelo seu lugar nos rankings pressiona e reconfigura as funções quotidianas dos
professores, não sendo por acaso que a avaliação de desempenho destes últimos
também tende a ser associada aos resultados e performances dos estudantes. Um
estudo sociológico recente confirma que os docentes do ensino secundário
inquiridos passaram a levar em consideração os resultados dos
rankingspublicados nos mass media, encetando, a partir daí, processos de
reflexão tendo como preocupações centrais "a imagem que é projectada
sobre a instituição de ensino e, também, a sua própria imagem enquanto
docentes" (Melo, 2007a, p. 87)
8
. Porém, acrescenta esta mesma autora em outro trabalho, "mais do que os
rankings escolares é a existência dos exames nacionais que parece justificar o
modo como os professores desenvolvem a sua acção quotidiana". Esta
diferença de opiniões e atitudes relativamente aos rankings e aos exames, foi
relacionada, no referido estudo, com o processo de recepção das mensagens
mediáticas, sobretudo com a "falta de credibilidade e confiança que os
docentes atribuem aos critérios que presidem à elaboração das listas ordenadas
das escolas" e também devido "ao facto de ideologicamente
defenderem a realização de uma avaliação multidimensional […]" (Melo,
2008, p. 11). Apesar das fortes pressões a que estão actualmente submetidos, os
professores não constituem um monolítico em termos de opiniões e práticas.
Também por isso, este e outros estudos sobre a problemática dos rankings em
contexto português têm sido fundamentais para perceber alguns vectores,
fragmentações e tensões subjacentes às orientações de política educativa nos
últimos anos.
Sabemos também que os rankings induzem efeitos de mercado (quando está em causa
a comparação e a eventual procura diferenciada entre escolas públicas e
privadas), e efeitos de quase-mercado (quando a comparação e a procura
diferenciada se efectuam entre escolas públicas). No entanto, segundo alguns
autores, o debate sobre os rankings em Portugal, ao contrário do que ocorreu
noutros países, terá sido induzido mais por "uma reivindicação em nome da
necessidade de prestação de contas e da transparência" do que por uma
"opção inequívoca por uma orientação das políticas educativas para o
mercado" (Neto-Mendes; Costa & Ventura, 2003, p. 1). Com efeito, há
alguma evidência empírica que sustenta a afirmação dos autores, sobretudo se
atendermos à existência de um "neoliberalismo educacional mitigado"
(Afonso, 1997) em que, muitas vezes, as lógicas de mercado têm sido mais
retóricas do que constitutivas de decisões concretas em termos de demanda e de
investimento na educação escolar não estatal. E tudo isso num contexto em que a
escola pública continua a ser, apesar da crise que atravessa, uma instituição
prestigiada no sistema educativo português, a par da existência de uma escassa
tradição e oferta do ensino privado, a que se soma, no momento actual, a
retracção do mercado e o abrandamento de iniciativas da sociedade civil
(sobretudo da classe média) devido à crise económica e financeira que, por sua
vez, tem levado o Estado a reassumir de forma mais efectiva o seu papel de
provedor e regulador dos bens colectivos, como a educação. Mas se é verdade o
que acabei de afirmar, também, por outro lado, não deixa de ser facilmente
demonstrável, em diferentes esferas da vida social, a presença da ideologia de
mercado (e a sua materialização) num conjunto heterogéneo de medidas e decisões
que se inscrevem numa orientação neoliberal voltada para a privatização de
alguns organismos do Estado ou de alguns serviços imprescindíveis ao
funcionamento de instituições e organizações públicas (serviços de segurança,
limpeza, alimentação, manutenção…), verificando-se igualmente, através de
lógicas de quase-mercado, a privatização da gestão de alguns hospitais e de
outras organizações públicas, a concorrência e competição entre instituições
públicas, como as escolas, e, dentro destas, por exemplo, a adopção de certos
procedimentos de feitura de turmas e de distribuição do serviço docente, ou a
valorização de modelos e instrumentos de gestão que, directa ou indirectamente,
induzem o individualismo competitivo e a sobrevivência neodarwinista dos
supostamente mais aptos (estudantes, professores ou funcionários).
Em síntese, para além de outras formas parcelares de accountability,
actualmente em desenvolvimento em Portugal, nomeadamente a que poderá decorrer
da avaliação de desempenho dos professores e a que poderá advir da avaliação
institucional das escolas públicas, estamos a assistir, simultaneamente, à
emergência de outras duas que têm como único fundamento os resultados
académicos dos estudantes. Mais concretamente, temos, neste último caso, uma
forma de accountability sustentada em exames nacionais estandardizados e provas
aferidas, que se constitui, de forma idêntica a outros países, essencialmente
como exercício de controlo centralizado por parte do Estado; e temos ainda uma
outra, centrada nos rankings das escolas, que se pode considerar como sendo uma
forma de accountability por iniciativa da sociedade civil e do mercado,
impulsionada, de forma decisiva no caso português, por alguns importantes media
(privados) de comunicação social. Embora fazendo parte do mesmo sistema
educativo, todas estas formas (mais ou menos elementares, lineares e
relacionáveis) de accountability estão muito desarticuladas entre si, não
constituindo, também por isso, um modelo ou sistema integrado e congruente.
Assim, podemos dizer que não existe ainda um sistema de accountability na
educação em Portugal, havendo, no entanto, orientações políticas, normativos
legais, expectativas sociais e práticas em curso que poderão vir a evoluir, a
curto ou médio prazos, para algo mais próximo disso. Apesar das dúvidas
decorrentes das ambiguidades e instabilidades que se observam em algumas
medidas e processos, seria desejável que daí resultasse uma estrutura mais
duradoura de avaliação, prestação de contas e responsabilização - que
fosse leve, criativa, dinâmica e aberta, mas também avançada em termos
culturais, democráticos e epistemológicos. Essa estrutura, eventualmente com
conexões e interfaces mais complexas, mas bem sustentadas e legitimadas, ter-
se-ia de confrontar com especificidades de diferentes âmbitos (micro-
profissional; meso-organizacional ou institucional; macro-estatal; e mega-
internacional ou supranacional), uma vez que, relativamente à avaliação,
prestação de contas e responsabilização, há tradições, representações,
desconfianças, expectativas, disponibilidades e etapas diferenciadas de
desenvolvimento (social, cultural, político, moral) que não podem deixar de ser
tidas em conta.
No contexto português, a explicação da relativa ausência ou de um certo atraso
no debate em torno das questões agora levantadas, não pode deixar de ter em
conta que a pressão social que se tem exercido nos últimos anos sobre as
escolas e os professores tem essencialmente motivações de ordem ideológica,
ainda que a retórica comum remeta para questões de transparência, direito à
informação e responsabilização, deixando, no entanto, na penumbra, ou
perturbando, uma discussão aberta e amplamente participada que, com tempo de
maturação e aperfeiçoamento, pudesse dar legitimidade social a uma configuração
adequada de accountabilityna educação
9
. Naturalmente que, se queremos uma sociedade democrática que concretize e
pratique certos princípios e valores fundamentais, não podemos deixar de
defender a necessidade de essa mesma sociedade estar bem informada e conhecer
com o máximo de objectividade possível o que ocorre nas suas instituições,
nomeadamente nas escolas. Mas não é com a utilização de exames nacionais ou
outras formas similares de avaliação externa estandardizada, transformadas em
instrumentos de controlo social, redutores e fortemente centralizados no
Estado, que se promove a avaliação, prestação de contas e responsabilização
adequadas à pluralidade de objectivos, missões, estruturas e actores que
constituem o sistema educativo. Certamente que os exames nacionais poderão
cumprir alguns objectivos importantes, mas não estes. Também não se promove
accountability pública em educação com a indução de lógicas de mercado, muitas
vezes conseguidas através de formas de comparação e competição espúrias
(alheias, por exemplo, às consequências mais nefastas dos rankings), ou pela
introdução de mecanismos de privatização e de mercantilização da educação que
desvalorizam a escola pública enquanto escola publicamente comprometida com os
princípios da igualdade real de oportunidades para todos, da pluralidade
deexcelências, da justiça educacional e da cidadania democrática. Certamente
que, como refere K. Ryan (2004), há aspectos positivos nestas comparações
sobretudo quando elas, desagregando determinados dados relativos a classe,
género, raça, entre outros, servem para revelar e denunciar importantes
desigualdades educacionais entre escolas. Todavia, na minha perspectiva, os
usos que normalmente são feitos das comparações baseadas em resultados de
exames e testes estandardizados (nacionais e internacionais) não parecem ter
como central a preocupação com políticas que promovam o combate às
desigualdades subjacentes a essas mesmas estatísticas, tendendo assim, perante
a diversidade e a heterogeneidade dos estudantes e dos seus percursos,
biografias, origens sociais, aprendizagens reais e condições escolares, a
"silenciar a polissemia e a invisibilizar os sujeitos" (Esteban,
2008). Sabemos entretanto que algumas dessas preocupações têm sido por vezes
sinalizadas, mas nem sempre são consideradas nas suas consequências, quer nos
estudos que são efectuados, quer no patamar da tomada de decisão política. Por
esta razão, o desafio maior é "como desenvolver uma accountability em
educação com um carácter mais democrático" (Ryan, 2004, p. 456). Um
sistema de accountability democrático deve ser construído democraticamente e
visar objectivos democráticos, o que significa que não se pode criar nenhum
sistema tecnicamente asséptico ou politicamente neutro.
A questão que se coloca no âmbito nacional sobre a predominância de formas de
accountability baseadas em exames nacionais ou em testes estandardizados,
também se coloca, com as devidas especificidades, no contexto internacional.
Com efeito, estamos a viver uma época de "comparativismo
globalizador" (cf. Cussó & D'Amico, 2005)
10
caracterizada pela centralidade do papel dos peritos e pela produção de
indicadores voltados para mensurar resultados dos sistemas educativos de
diferentes países (com particular incidência nos resultados académicos dos
estudantes), indicadores esses que se constituem em si mesmos como um pretexto
para justificar decisões políticas e influenciar as agendas para a educação.
Neste sentido, alguns autores têm vindo a chamar a atenção para as
consequências da construção de projectos estatísticos e respectivos indicadores
como uma estratégia de viabilização e ampliação de uma "agenda
globalmente estruturada para a educação"
11
, sendo disso exemplo o trabalho desenvolvido de forma sistemática, sobretudo
desde finais dos anos 1980, início dos anos 1990, por agências internacionais
como a OCDE, com os conhecidos relatórios Education ata Glance (cf. Teodoro,
2003, 2005, 2008)
12
, bem como com programas como o PISA (Programme for International Student
Assessment), mais especificamente voltados para a avaliação e comparação de
conhecimentos e competência dos estudantes de vários países. Neste último caso,
apesar de essencialmente centrados nos estudantes, estes estudos pretendem,
todavia, dar informações credíveis sobre os níveis de desempenho dos próprios
sistemas educativos, sendo por isso utilizados também pelos governos nacionais
para tomar (e legitimar) decisões relativamente à política educacional
13
. Mais ainda: são assumidos muitas vezes de forma acrítica, como se fossem
técnica, cultural e politicamente neutros e, em qualquer circunstância,
comparáveis com outras realidades organizativas, culturais e educacionais
independentemente das condições e especificidades de cada país
14
.
Reflexões finais
Na esteira de alguma literatura especializada, reconhecemos a polissemia e
multidimensionalidade do conceito de accountability, e optámos por não traduzir
o termo para podermos reforçar a ideia de que ele deve significar algo mais do
que a simples prestação de contas. Com efeito, defendemos o ponto de vista de
que a accountability pode ser conceptualizada como um sistema denso do ponto de
vista político, axiológico e epistemológico, bem como um sistema complexo em
termos de procedimentos, dimensões e práticas, em que a avaliação, a prestação
de contas e a responsabilização devem, sempre que possível, estar integradas ou
ser integráveis. Talvez se possa mesmo argumentar, como fez Darling-Hammond
(2004), que os testes são uma fonte de informação para um sistema de
accountability, mas não são em si mesmos esse sistema. Foram, no entanto,
certas formas de accountability, com escassa complexidade e densidade, que
surgiram associadas à implementação de exames nacionais e testes
estandardizados, apesar de estes serem instrumentos cada vez mais centrais na
recolha de dados, nacionais e internacionais, para apoiar a decisão política em
educação. Do meu ponto de vista, estas formas parcelares de accountability
sustentam-se ainda numa visão despolitizada e tecnicizada da educação. Não se
trata, no entanto, de defender uma leitura intransigente ou adversa
relativamente a qualquer forma de avaliação comparada, a nível nacional ou
internacional. Uma posição ponderada, sem deixar de ser crítica, é aquela que
quer levar a sério as agendas que estão a tomar-se hegemónicas através do
"governo por números"
15
. Com efeito, tal como lembra Gert Biesta, o problema que resulta da abundância
de informação sobre os resultados educacionais dá a impressão de que as
decisões e orientações sobre as política e práticas educativas podem basear-se
somente em informação factual. Por essa razão, perante a tendência actual de
focalizar as questões educacionais quase exclusivamente na mensuração e
comparação dos resultados educacionais, há necessidade de retomar a discussão
sobre os fins e propósitos da Educação. Neste sentido, segundo este autor, um
dos problemas é a ausência de um pensamento comprometido com valores com o qual
seja decisivo discutir o que é educativamente desejável (cf. Biesta, 2009).
Em síntese, tão ou mais importante do que as questões teóricas e metodológicas
referidas, torna-se necessário assumir, desde logo, que a construção de modelos
democráticos e transparentes de avaliação, prestação de contas e de
responsabilização (accountability) implica igualmente a valorização social,
cultural e política dos processos de participação, negociação e justificação, e
a adopção de modelos explícitos de justiça e equidade (social, educacional e
avaliativa). Accountability não é, portanto, uma mera questão simbólica ou
retórica - que alguns discursos tendem a naturalizar porque, implícita ou
explicitamente, a associam a uma concepção restrita e ritualística de
democracia formal, enquanto regime baseado apenas na consagração legal ou
jurídica de direitos e deveres -, mas, antes, uma questão ampla de
cultura política e de acção moral e ética que tem a ver com a qualidade e
profundidade das práticas democráticas, ou seja, com uma democracia
substantiva, participativa e crítica. Ao contrário do que afirma Melvin Dubnick
(2006), não nos parece que soframos de uma obsessão com o conceito de
accountability. Pelo contrário, pelo menos nas nossas sociedades ibero-
americanas temos muito caminho para andar no sentido de implementar modelos
verdadeiramente democráticos de accountability em educação. Convergindo com
Daniel Koretz (2002), o que é necessário é um activo programa de pesquisa que
se direccione para o desenvolvimento de modelos de accountability alternativos
àqueles que são actualmente dominantes.
Notas
1
Trata-se, em certos aspectos, de uma análise que se inscreve na crítica ao que
Licínio Lima tem designado educação contábil. Para este autor, a
"educação que conta" é "aquela que é orientada segundo
objectivos precisos e que dessa forma se torna contável através da ação de
instâncias de contadoria e dos respectivos agentes e processos
contadores". Esta "educação contábil tende a centrar-se no cálculo
e na mensuração de resultados (desvalorizando os processos e resultados mais
difíceis de contabilizar)[…].Enquanto orientação política, a educação contábil
evidencia uma alta capacidade de discriminação da educação que conta e da
educação que não conta, ou conta menos" (Lima, 1997, p. 55).
2
Para uma interessante discussão sobre a possibilidade actual do exercício da
responsabilidade no contexto da pós-modernidade, ver Zygmund Bauman (1997). Ver
também a reflexão de Gert Biesta (2004) a propósito da accountability,
convocando precisamente o pensamento de Bauman sobre a questão da
responsabilidade.
3
Como se explica neste texto, há uma coincidência entre a reforma A Nation at
Risk do início dos anos 1980 nos EUA e a nova vaga deaccountability baseada em
testes estandardizados. Mas também na Inglaterra, o famoso caso da escola
William Tyndale, que Roger Dale analisa num dos seus trabalhos, ficou para a
história como um caso paradigmático de ataque à autonomia dos professores e aos
métodos pedagógicos mais inovadores. Foi esse, aliás, um dos temas do não menos
famoso discurso do ministro Trabalhista James Callaghan pronunciado no Ruskin
College em 1976 no "grande debate" da educação (Dale, 1986). Como
refere a este mesmo propósito S. Ranson, "[…]it inaugurated an era of
accountability and restructuring of the government of education. The curriculum
would no longer be the 'secret garden' of an autonomous
professional accountability" (Ranson, 2003, p. 459).
4
Do meu ponto de vista, o predomínio dos testes estandardizados também pode,
por exemplo, ser pensado no quadro de uma perspectiva Habermasiana. Para uma
reflexão sobre os fundamentos teóricos necessários a um eventual exercício de
transposição, ver, por exemplo, Habermas (1987).
5
Como referia Daniel Koretz em 2002, "Currently, 20 states have
implemented or plan to implement systems in which schools or educators receive
rewards, sanctions, or both on the basis of students' test scores"
(Koretz, 2002, p. 752). A administração do novo presidente norte-americano,
Barack Obama, introduzirá certamente algumas alterações e rupturas importantes
nas orientações de política educativa. Mantendo a ênfase na accountability, uma
dessas mudanças parece ir no sentido de retirar importância às sanções
negativas que pesam sobre as escolas que apresentem piores resultados e, ao
contrário, aumentar o apoio para que elas possam melhorar. No site da Casa
Branca podem ler-se, a este propósito, algumas das intenções do Presidente
Obama e do Vice-Presidente Biden: "Their vision for a 21st century
education begins with demanding more reform and accountability, coupled with
the resources needed to carry out that reform; asking parents to take
responsibility for their children's success; and recruiting, retaining,
and rewarding an army of new teachers to fill new successful schools that
prepare our children for success in college and the workforce. […] Obama and
Biden will reform NCLB, which starts by funding the law. Obama and Biden
believe teachers should not be forced to spend the academic year preparing
students to fill in bubbles on standardized tests. They will improve the
assessments used to track student progress to measure readiness for college and
the workplace and improve student learning in a timely, individualized manner.
Obama and Biden will also improve NCLB's accountability system so that we
are supporting schools that need improvement, rather than punishing
them". (cf. http://www.whitehouse.gov/agenda/education/, consultado em 20
de Fevereiro de 2009).
6
A este propósito, a Associação Americana de Avaliação escreve: "Although
used for more than two decades, state mandated high stakes testing has not
improved the quality of schools; nor diminished disparities in academic
achievement along gender, race or class lines; nor moved the country forward in
moral, social, or economic terms. The American Evaluation Association (AEA) is
a staunch supporter of accountability, but not test driven accountability. AEA
joins many other professional associations in opposing the inappropriate use of
tests to make high stakes decisions" (cf. http://www.eval.org/hst3.htm,
consultado em 20 de Fevereiro de 2009).
7
Agradeço ao professor Melvin J. Dubnick a autorização que me deu para citar o
seu texto. Sobre o meu assunto, é também bastante pertinente a síntese de
Koretz. "Monitoring the performance of educational systems and holding
educators accountable were among the motivations for early use of standardized
tests. Nonetheless, for the first several decades after World War II, tests
were used primarily to assess individual students and, to a lesser degree, to
evaluate curricula, and their use for monitoring and accountability was
limited. […] The use of achievement tests have changed dramatically over the
past three decades, however. Tests have become increasingly important as a tool
- arguably, now the central tool - for holding educators and system
accountable" (Koretz. 2002, p. 753).
8
Mas, como chama a atenção Maria Benedita Melo, os "efeitos reflexivos
dos rankings são mais compósitos e pontuais do que lineares e gerais".
Com efeito, "O tema da avaliação do ensino público, sob a forma de
rankings das escolas, suscita a produção e difusão de representações sociais e
profissionais diametralmente opostas. A profusão de objectivos e funções com os
quais a escola e os professores são actualmente confrontados revela-se nos
discursos. À retórica da igualdade de oportunidades, da democratização da
escola e da educação para a cidadania contrapõe-se a que valoriza a qualidade
da escola e do ensino, a meritocracia, o individualismo e o direito à escolha
da escola pelos encarregados de educação" (Melo, 2007b, p. 2 e p. 165).
Para uma outra análise sobre os rankings em Portugal, ver, por exemplo, Sá
& Antunes (2007).
9
Quando essa legitimidade não existe ou entra em erosão é mais difícil chegar a
uma forma adequada de accountability, como acontecimentos recentes demonstram.
Alguma precipitação na decisão política, o diálogo e concertação insuficientes
e a falta de ampla participação dos sujeitos interessados foram, entre outras,
algumas das razões apontadas, por exemplo, para a existência de défices na
definição do modelo de avaliação do desempenho docente aprovado pelo governo
sustentado pelo Partido Socialista português - o que deu origem a grandes
manifestações públicas de professores, durante o ano de 2008, com a
participação das principais federações sindicais (FENPROF e FNE).
10
"By globalization comparativism we mean that organizations define and
use statistical comparison not only to implement tighter monitoring of
education reform but also to support the modification of the way international
political decisions are taken, i.e. more power is currently given to experts
and technicians when defining the mission of international statistical
programmes than to an intergovernmental assembly. This is partly explained by
the fact that production of international figures is deemed a technical
activity essentially concerned with definition of quality standards"
(Cussó & D'Amico, 2005, p. 201).
11
Para uma interpretação mais desenvolvida do que se entende por "agenda
globalmente estruturada para a educação", ver Roger Dale (2004).
12
Como refere António Teodoro, "Hoje, os programas já não são tanto de
assistência bilateral, mas são programas que se pautam fundamentalmente mais
por construir uma agenda. O que tenho defendido como hipótese é que essa agenda
é feita fundamentalmente pelos grandes inquéritos conduzidos pelas organizações
internacionais, particularmente pelo Center for Educational Research and
Innovation (CERI) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
(OCDE), onde está o centro pensante (think thank) actual das políticas
educativas, pelo menos para os países mais desenvolvidos e para aqueles que
andam na sua órbita mais direta. E é o CERI-OCDE, com grandes inquéritos de sua
iniciativa, ou pela sistematização dos estudos que outros realizam, por exemplo
da EURYDICE para a Europa, ou da própria UNESCO, que pauta a agenda mundial da
educação, isto pelo menos desde 1991-1992. Se formos precisar mais, é o
relatório Education at a Glance - que significa olhares sobre a educação
- que, anualmente, tem vindo a marcar os temas que são considerados
legítimos no debate educacional" (Teodoro, 2005, p. 224).
13
Como refere Teresa Esteban, "apesar das diferenças e desigualdades
existentes, os resultados dos vários exames internacionais são aceitos como
informações fidedignas sobre a qualidade da educação em cada um dos países que
deles participam e como legítimos para orientar as estratégias educacionais a
se colocar em prática" (Esteban, 2008, p.9).
14
Como a este propósito afirma Licínio Lima, "subordinada a escrutínios
constantes e a operações contabilísticas sistemáticas (incluindo as mais
grosseiras e simplistas, de que resultaram por exemplo os rankings de escolas),
a educação contábil instalou uma verdadeira obsessão avaliativa […]. Mas não
será muita pretensão querer avaliar a 'educação dos portugueses',
drasticamente reduzida às matérias constantes dos exames escolares e a uma
concepção 'bancária' (como diria Paulo Freire), através de testes
estandardizados de âmbito internacional? E, mais ainda, admitir que os caminhos
percorridos até hoje já justificariam a démarche e legitimariam melhores
expectativas?" (Lima, 2002, p.33).
15
A expressão é de Sotiria Grek e Jenny Ozga (2008) num interessante texto
intitulado "Governing by numbers? Shaping education through data".
CES Briefing, Centre for Educational Sociology, University of Edinburgh
[Disponível em http://www.ces.ed.ac.uk/PDF%20Files/Brief044.pdf].