Qualidade de vida relacionada com sáude oral avaliada em adultos: revisão
integrativa
A saúde oral afeta a saúde em geral ao interferir e limitar nas atividades
diárias, destacando-se os impactos das suas alterações nos domínios funcionais,
psicológicos e sociais (Sischo & Broder, 2011; Slade, 2002; Slade &
Spencer, 1994; Steele, Ayatollahi, Walls, & Murray, 1997). Dado que
partilham fatores de risco comuns, sobretudo em termos de estilos de vida, as
doenças orais podem ter um impacto sobre muitos aspetos da saúde geral
verificando-se uma reciprocidade causal como em doenças cardiovasculares e
cerebrovasculares, aterosclerose, diabetes e prematuridade (Gibson, Yumoto,
Takahashi, Chou, & Genco, 2006; Griffin, Jones, Brunson, Griffin, &
Bailey, 2012; Ordem dos Médicos Dentistas [OMD], 2013). Para além disso,
constituem, muitas vezes, a evidência primária de doenças sistémicas,
nomeadamente em casos de diabetes ou HIV/SIDA (Griffin et al.,2012; Petersen,
Bourgeois, Bratthall, Ogawa, Estupinan-Day, & Ndiaye, 2005). Para além de
que, melhores cuidados de higiene oral parecem prevenir infeções respiratórias
e morte por pneumonia em idosos nos hospitais e lares (Sjögren, Nilsson,
Forsell, Johansson, & Hoogstraate, 2008) e ainda a escovagem frequente de
dentes pode estar associada a níveis baixos de doença cardiovascular (Oliveira,
Watt, & Hamer, 2010).
A cárie e as doenças de gengivas afetam cerca de 90% da população mundial e a
dor, a dificuldade em comer, mastigar, sorrir e comunicar devido a dentes
descoloridos, danificados ou mesmo ausentes, alterações no sono e no descanso,
na interação social e na capacidade intelectual são os problemas mais
frequentemente referidos e algumas das principais causas referidas de
absentismo laboral (Allen, 2003; OMD, 2013; Petersen et al., 2005; Sheinam,
2005; Steele et al., 1997). O número e distribuição de dentes, a utilização de
prótese dentária e a presença de doença estão associados a problemas
alimentares, para além de que a existência de espaços anteriores não
preenchidos, presença de cáries generalizadas e doença encontram-se associadas
à insatisfação estética (Steele et al., 1997).
É cada vez mais preconizada a associação de medidas clínicas de saúde oral com
os relatos de perceção de bem-estar geral e oral e de funcionamento físico,
social e psicológico (Gift & Atchinson, 1995). Esta abordagem permite
centrar, não na doença, mas no indivíduo e nas suas avaliações subjetivas dos
impactos da doença.
As políticas de orçamento do Ministério da Saúde para a Saúde Oral em Portugal
conduzem a uma das taxas de tratamento dentário mais baixas da Europa, daí a
importância de estudos que permitam recolher informações de modo a melhorar o
bem-estar dos pacientes como resultado do tratamento dentário (OMD, 2010).
É imperativo demonstrar a importância que as doenças orais têm na saúde física
e psicológica dos indivíduos e isso só é possível através da avaliação da
Qualidade de Vida Relacionada com a Saúde Oral - QdVRSO (Allen, 2003; Locker,
1997; Sischo & Broder, 2011; Slade & Spencer 1994). As questões de QdV
tornam-se cruciais em qualquer política de saúde pública na medida em que apoia
os profissionais clínicos na seleção de tratamentos e na monitorização dos
resultados dos pacientes, os investigadores na identificação de fatores
determinantes de saúde e de risco para a saúde, na determinação dos serviços
necessários a providenciar às populações, para além de que auxilia os políticos
na elaboração de programas e prioridades institucionais, bem como nas decisões
políticas e de financiamento (Bennadi & Reddy, 2013; Gift & Atchinson,
1995; Slade, 2012). As evidências destacam a necessidade de aumentar a
investigação nesta área bem como a importância da convergência das Ciências da
Saúde com as Ciências Sociais e Humanas, pois só assim será possível
desenvolver estudos e instrumentos válidos que sustentem novas políticas de
saúde e de programas de prevenção e de intervenção (Silva, Meneses,&
Silveira, 2009).
A presente revisão integrativa visa a recolha de evidência científica que
permita sintetizar o conhecimento atual sobre os instrumentos de avaliação
devidamente validados para indivíduos adultos e que permitam avaliar a
qualidade de vida relacionada com a saúde oral enquanto perceção dos impactos
psicossociais das condições orais. Uma revisão integrativa apresenta a mesma
linha de orientação da revisão sistemática, contudo permite a inclusão
simultânea de estudos experimentais, quasi-experimentais e não experimentais,
proporcionando uma compreensão mais completa do tema de interesse (Mendes,
Silveira, & Galvão, 2008). Entendemos que é uma questão direcionada para o
método, pelo que foi mais desenvolvido nesse domínio.
MÉTODO
Na linha da Prática Baseada na Evidência há necessidade de produzir métodos de
revisão de literatura que permitam a pesquisa, a avaliação crítica e a síntese
de evidências disponíveis relativamente a um tema de investigação, destacando-
se dois métodos: revisão sistemática e revisão integrativa (Mendes et al.,
2008). Este artigo científico consiste numa revisão integrativa da literatura
que visa reunir e analisar resultados de pesquisas relativos aos instrumentos
de avaliação de QdVRSO, de forma sistemática e ordenada, possibilitando a
formulação de conclusões gerais e, assim, contribuir para o aprofundamento do
conhecimento do tema (Mendes et al., 2008). Nesse sentido, foram adotadas as
recomendações propostas no guia Preferred Reporting Items for Systematic
Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) e seguidas as etapas: estabelecimento da
questão ou objetivos da revisão; estabelecimento de critérios de inclusão e
exclusão de artigos (seleção da amostra); categorização dos estudos; análise
dos resultados; discussão e apresentação dos resultados; e a última etapa
constitui-se na apresentação da revisão (Mendes et al., 2008). O período da
recolha de dados desenvolveu-se entre Março e Maio de 2014.
Questão e Objetivos de investigação
No sentido de descrever todos os componentes relacionados com o problema
identificado foi estruturada a seguinte questão de investigação: Quais os
instrumentos existentes na literatura que permitem avaliar a qualidade de vida
relacionada com a saúde oral em adultos com alteração do estado de saúde oral?
Com esta revisão pretende-se compreender como este fenómeno tem sido avaliado
em indivíduos com mais de 18 anos independentemente do tipo de abordagem
metodológica dos estudos. Como objetivos específicos esta revisão visa
caraterizar e analisar, de forma crítica e reflexiva, cada instrumento
relativamente aos domínios/dimensões avaliadas, ao modelo conceptual de base,
ao número de itens, às qualidades psicométricas (fidelidade, validade e
sensibilidade) e qualidades clinimétricas.
Critérios de inclusão e de exclusão
A definição de critérios de elegibilidade (inclusão e exclusão) tem como
finalidade orientar a pesquisa e a seleção dos estudos primários, de modo a
aumentar a precisão dos resultados face à questão de investigação e aos
objetivos do estudo. Com a leitura do texto completo, os artigos foram
selecionados segundo os critérios de inclusão: publicações de texto integral e
referentes a estudos primários; publicações nos idiomas Português, Espanhol ou
Inglês; estudos que utilizassem variáveis clínicas em conjunto com a avaliação
da QdVRSO, em indivíduos com idade igual ou superior a 18 anos e que avaliassem
a autoperceção. Ao associar como critério de inclusão estudos que utilizassem
medidas clínicas associadas à avaliação da QdVRSO pretende-se aumentar a
probabilidade de obter estudos com instrumentos de abordagem genérica de saúde
oral e/ou específica para alterações da saúde oral. Tendo em consideração as
caraterísticas do construto de QdVRSO de subjetividade e multidimensionalidade
preconizam-se as auto-avaliações (Ribeiro, 2002).Foram excluídos estudos que
não cumprissem os critérios anteriores e ainda revisões de literatura,
comentários, sumários de conferências e dissertações. A acrescentar como
critérios de exclusão: estudos que incluíssem participantes submetidos a
tratamentos que pudessem alterar a cavidade oral (como quimioterapia e/ou
radioterapia) e/ou apresentassem patologias que alteram as condições da
cavidade oral bem como indivíduos portadores de doenças que manifestassem, em
simultâneo, sintomas orais e sistémicos (como HIV/SIDA, doença de Behçet,
cancro), visto que fatores não relacionados com a saúde oral podem afetar a
QdVRSO. Não foram definidos limites temporais.
Dada a heterogeneidade dos dados (desenhos de estudo, instrumentos de
avaliação, variáveis associadas) não foi conduzida meta-análise.
Estratégia de pesquisa
A procura da evidência tem início com a definição de termos ou palavras-chave,
das bases de dados e de outras fontes de informação a serem pesquisadas. Uma
pesquisa adequada nas bases de dados eletrónicas é uma habilidade importante na
realização de uma revisão sistemática, pois permite maximizar a possibilidade
de encontrar artigos relevantes num tempo reduzido (Sampaio & Mancini,
2007). Neste sentido, foram identificadas as bases de dados relevantes a serem
consultadas mediante a temática em estudo e definidas palavras-chave ou
descritores que representassem os termos da questão de investigação.
Na pesquisa de artigos publicados foram consultadas as bases eletrónicas PubMed
(National Library of Medicine), a B-ON (Biblioteca do Conhecimento Online) e
SciELO(Scientific Eletronic Library Online). Os descritores para pesquisa
circunscreveram-se às variáveis que decorrem da pergunta de investigação, não
sendo utilizados descritores referentes a variáveis clínicas de forma a obter
uma maior diversidade de artigos, pelo que procedeu-se à leitura completa de
cada publicação para confirmar a presença de variáveis clínicas associadas.
Na base eletrónica PubMed,o termo "Oral Health-Related Quality of
Life" não é um Medical Subject Heading (MeSH). De modo a evitar a perda
de artigos, foram utilizados os termos "oral health-related quality of
life", "questionnaires", "adults" e o operador
"AND" que permitiu que, na pesquisa avançada, apenas fossem
incluídos os estudos com todos os termos de busca. Para além disso foram
selecionados os filtros "full text available" e "free full
text available" resultando em: ((("mouth"[MeSH Terms] OR
"mouth"[All Fields] OR "oral"[All Fields]) AND health-
related[All Fields] AND ("quality of life"[MeSH Terms] OR
("quality"[All Fields] AND "life"[All Fields]) OR
"quality of life"[All Fields])) AND ("questionnaires"[MeSH
Terms] OR "questionnaires"[All Fields])) AND ("adult"[MeSH
Terms] OR "adult" [All Fields] OR "adults"[All Fields]) AND
("loattrfull text"[sb] AND "loattrfree full text"[sb]),
obtendo-se um total de 90 artigos.
Na base eletrónica B-ON foi utilizada a frase booleana "oral health-
related quality of life and questionnaires and adults" resultando em 2
940 artigos, pelo que a pesquisa foi refinada através de: tópicos:
Questionnaires, Oral Health-related Quality Of Life, Adults; idioma: Inglês;
(novamente) tópicos: Oral Health, Health-related Quality Of Life; tipo de
recurso: eliminando publicações referentes a comentários. Desta pesquisa
resultaram 24 publicações das seguintes bases: Wiley Online Library (3
artigos),SpringerLink (3 artigos), SciVerse Science Direct - Elsevier
(10 artigos), SciELO Brazil - Scientific Electronic Library Online (1 artigo),
PMC - PubMed Central (5 artigos), OneFile - GALE (12 artigos), MEDLINE -
National Library of Medicine - NLM (16 artigos), JSTOR (1 artigo), Health
Reference Center Academic (Gale)(11 artigos), Directory of Open Access Journals
- DOAJ (5 artigos) e BioMed Central (4 artigos).
Na base eletrónica SciELO (Scientific Electronic Library Online) foi utilizada
a frase booleana "oral health-related quality of life and questionnaires
and adults", opção All indexes e Public Health, obtendo-se 2 publicações.
Procedimento de seleção dos estudos
O procedimento de seleção dos estudos permite diminuir enviesamentos e
possíveis erros humanos, fazendo com que todos os artigos sejam selecionados da
mesma forma e assegurando a validade e a veracidade dos resultados (Liberati et
al., 2009). Na primeira fase de seleção, foram selecionadas publicações com
título, resumo ou corpo do texto relacionado com o tema do presente estudo
sendo eliminadas 5 publicações: 3 duplicadas, uma apresentar idioma diferente
do definido nos critérios de inclusão e uma por não permitir aceder ao texto
completo. De seguida, foi realizada a leitura de cada publicação, sendo
eliminadas 91 publicações segundo critérios de elegibilidade PRISMA descritos.
Desta análise foram selecionadas 19 publicações. Na figura_1 é apresentado o
fluxograma que descreve as fases do processo de seleção segundo o método PRISMA
(Liberati et al., 2009).
Os principais motivos de exclusão foram não avaliar a QdVRSO, não associarem a
avaliação de variáveis clínicas, não utilizar instrumento de avaliação
devidamente validado para o contexto cultural do estudo, estudos com indivíduos
que apresentam doenças sistémicas que alterem a condição oral, com
participantes com idade inferior a 18 anos ou sem referência à sua idade e
revisões de literatura.
Foram considerados como instrumentos bem validados aqueles que avaliam a
autoperceção de QdV pelo indivíduo, com qualidades psicométricas de validade,
fidelidade e sensibilidade consideradas pelo menos satisfatórias e que incluam
a avaliação da função física, estado mental e interação social.
Na análise de cada estudo foram recolhidas informações relativas a cada um dos
instrumentos seguindo os seguintes critérios: objetivo e população; construto
avaliado e base conceptual; tipo de validação: empírica, teórica ou mista;
descrição do instrumento: número e tipo de itens (um item é construído pela
positiva, no sentido em que afirma a presença de determinadas características
ao invés da ausência de outras, sendo nesse caso, construído pela negativa);
pontuação total (como é obtida e como é interpretada) e caraterísticas do
instrumento relativamente às qualidades psicométricas e clinimétricas (Ribeiro,
2007). Na análise das qualidades psicométricas foram considerados os valores de
referência propostos por sugeridos por Pestana e Gageiro (2008) e as qualidades
clinimétricas tal como definidas por Ribeiro (1999).
RESULTADOS
Os 19 artigos incluídos nesta revisão foram publicados entre os anos de 2005 e
2014. Identifica-se uma publicação em 2005 e uma em 2006, entre 2008 e 2011
foram encontradas 9 publicações (duas em 2008, três em 2009, uma em 2010, três
em 2011), quatro em 2012, três em 2013 e apenas uma em 2014. Os estudos são,
maioritariamente, de desenho observacional transversal, identificando-se dois
estudos de desenho observacional longitudinal (Silvola et al., 2012; Wright et
al., 2009). Houve uma grande variação quanto ao tamanho das amostras dos
estudos, sendo a menor relativa ao estudo brasileiro de Pereira et al. (2009)
com 33 participantes e a maior referente ao estudo de Thomson et al. (2006), na
Nova Zelândia, com 923 participantes.
É apresentado no quadro_1 o resumo do método dos estudos selecionados.
O instrumento Oral Health Quality of Life (OQOL) surge apenas num estudo
americano (Wright et al., 2009), tal como o Psychosocial Impact of Dental
Aesthetics Questionnaire (PIDAQ) num estudo brasileiro (Sardenberg et al.,
2011). O instrumento Oral Impact on Daily Performances (OIDP) é identificado
num único estudo, desenvolvido em Espanha, na sua versão validada linguística e
culturalmente (Montero et al., 2008).O instrumento Geriatric (ou General) Oral
Health Assessment Index (GOHAI) surge em 3 estudos: versão chinesa para Ilha
Formosa (Hsu et al., 2014); versão alemã (Pistorius et al., 2013) e, versão
original, utilizado em simultâneo com o Oral Health Impact Profile (OHIP) no
estudo de Locker e Gibson (2005).
O OHIP é o instrumento mais frequentemente identificado nesta revisão
integrativa e com maior número de versões adaptadas a línguas e culturas. Surge
como instrumento único de avaliação em 13 estudos: na Jordânia (Al Habashneh et
al., 2012); no Brasil (Pereira et al., 2009); Japão (Inukai et al.,2010); na
China (Zheng et al., 2011); no Irão (Motallebnejad et al., 2011); Finlândia
(Miettinen et al., 2012; Rusanen et al., 2012; Silvola et al., 2012); Espanha
(Gil-Montoya et al., 2013; Montero et al., 2009; Perea et al., 2013); Nova
Zelândia (Thomson et al., 2006) e com indivíduos croatas e eslovenos (Rener
- Sitar et al., 2008). É utilizado em simultâneo com outro instrumento
numestudo desenvolvido noCanadá por Locker e Gibson (2005).
Os estudos analisados são muito heterogéneos no que diz respeito às condições
clínicas/alterações de saúde oral abordadas bem como aos objetivos pretendidos,
traduzindo-se na utilização de diferentes medidas de avaliação. Destaca-se a
utilização da variável referente à presença ou número de dentes naturais
presente em 10 estudos (Gil-Montoya et al., 2013; Hsu et al., 2014; Inukai et
al., 2010; Locker & Gibson, 2005; Montero et al., 2008; Motallebnejad et
al., 2011; Perea et al., 2013; Pistorius et al., 2013; Wright, 2009; Thomson et
al., 2006;); a presença de dentes deteriorados (cariados), perdidos ou
obturados e doenças periodontais em 4 estudos (Montero et al., 2008; Montero et
al., 2009; Motallebnejad et al., 2011; Thomson et al., 2006); a má oclusão
avaliada em 4 estudos (Hsu et al., 2014; Rusanen et al., 2012; Sardenberg et
al., 2011; Silvola et al.,2012); a utilização de próteses dentárias em 3
estudos (Montero et al., 2008; Perea et al., 2013; Pistorius et al., 2013;
Wright et al., 2009); a xerostomia em 2 estudos (Perea et al., 2013; Thomson et
al., 2006); a dor facial em 2 estudos (Rusanen et al., 2012; Zheng et al.,
2011); as disfunções temporomandibulares em 3 estudos (Miettinen et al., 2012;
Pereira et al., 2009; Rusanen et al., 2012) e a dor de dentes em apenas 1
estudo (Rener-Sitar et al., 2008).
No quadro seguinte é apresentado um resumo dos resultados obtidos nos artigos
selecionados (quadro_2).
1. Geriatric (General) Oral Health Impact (GOHAI)
Objetivo do instrumento e população a que se destina
Avaliar o impacto psicossocial das condições orais, em termos de preocupação ou
insatisfação com a aparência e relações pessoais,e avaliar a eficácia do
tratamento dentário, na população idosa (Hsu et al., 2014; Locker & Gibson,
2005; Pistorius et al., 2013).
Construto avaliado/ base conceptual
Na versão original, americana, consideram saúde oral enquanto ausência de dor e
infeção e que consiste numa dentição confortável e funcional, natural ou com
utilização de prótese, que permite ao indivíduo exercer o seu papel na
sociedade (Locker & Gibson, 2005). Os itens focam problemas que afetam as
funções físicas, funcionaise estéticas, reduzem a capacidade do indivíduo em
participar em atividades diárias ficando em desvantagem e comprometendo a QdV
(Hsu et al., 2014; Locker & Gibson, 2005; Pistorius et al., 2013). Consiste
num instrumento de abordagem genérica de saúde oral.
Tipo de validação: Empírica
Descrição do instrumento
A versão original, americana, de Atchinson e Dolan (1990), é utilizada estudo
de Locker e Gibson (2005); a versão para Ilha Formosa GOHAI-T de Ku (2007) no
estudo de Hsu (2010); e a versão alemã de Hassel et al. (2008) no estudo de
Pistorius (2013).
Avalia três dimensões: 1) função física (alimentação, fala e deglutição); 2)
função psicossocial (preocupação ou cuidado com a própria saúde oral
insatisfação com a aparência, autoconsciência em relação à saúde oral e evitar
contatos sociais devido a problemas odontológicos); 3) dor e desconforto (uso
de medicamentos para aliviar as sensações de dor e/ou desconforto devido a
problemas orais).
- Avalia frequência
- 12 itens construídos pela positiva e negativa.
- Pontuação total: escala de Likert de 6 opções que varia entre 1
("always"), 2 ("very often"), 3 ("often"),
4 ("sometimes"), 5 ("rarely") e 6
("never"). Pontuação total é obtida através do método aditivio e
varia entre 12 e 72; quanto maior a pontuação total, melhor a QdVRSO.
Caraterísticas do instrumento
A versão do instrumento em chinês (dialeto) de Ilha Formosaalfa de Cronbach de
0,78 e teste-reteste com coeficiente de correlação de Spearman de 0,80
(p<0,0001). O coeficiente de relação entre pontuações obtidas no GOHAI-T e a
auto-avaliação de saúde oral é de 0,35 (p<0,0001). Não se encontraram
associações com fatores como número de dentes perdidos/obturados (Hsu et al.,
2014).No estudo de Pistorius et al. (2013), não há informação quanto à
fidelidade nem validade, verificando que indivíduos mais velhos, com rendimento
mensal elevado, viúvos e casados, com mais de 10 dentes, revelam boa satisfação
da prótese dentária, com consultas regulares no dentista e não fumadores,
apresentam valores totais superiores no GOHAI. Não são referidos valores de
corte. Não relatam dificuldades ou desistências por não compreensão dos itens
ou pela extensão.
2) Oral Health Impact Profile
Objetivo do instrumento e população a que se destina
Avalia a QdVRSO considerando os impactos psicossociais das consequências da
doença oral hierarquicamente relacionados com níveis biológicos (deficiência),
comportamentais (limitação funcional, desconforto e incapacidade) e sociais
(desvantagem).
Construto avaliado/ base conceptual
Baseado no International Classification of Impairments, Disabilities and
Handicaps (ICIDH) desenvolvido pela WHO (1980) e adaptado para a saúde oral por
Locker, permite a ligação das diversas dimensões entre saúde e saúde oral,
nomeadamente o desconforto, limitação funcional ou insatisfação com aparência
que é percecionada com afetando o desempenho físico, psicológico e social.
Consiste numa abordagem genérica de saúde oral.
Tipo de validação: Empírica
Descrição do instrumento
- Avalia frequência e gravidade
- Avalia 7 domínios: limitações funcionais, dor física, desconforto
psicológico, incapacidade física, incapacidade psicológica, incapacidade social
e desvantagem.
- 14 itens, construídos pela negativa
- Versões original, árabe, finlandesa, japonesa, chinesa, brasileira e
espanhola: pontuação de cada item varia entre 0 e 4
- Versão iraniana/ persa: pontuação de cada item varia entre 1
("never") e 5 ("very often")
- A pontuação final pode ser obtida por três métodos: 1) aditivo, designado por
OHIP-ADD, em que se procede à soma da pontuação obtida em cada item e níveis
elevados indicam QdVRSO pobre, permite avaliar a gravidade; 2) de contagem
simples (OHIP-SC) cujos valores variam entre 0 e 14, sendo contados os impactos
negativos (respostas de "very often", "fairly often"),
permite avaliar a frequência; 3) por subescalas, permitindo avaliar a
gravidade, ainda que não tenham sido utilizados os pesos de cada subescala como
sugerido pelo autor original.
- A versão espanhola apresentaponto de corte ao considerar a presença de
impacto quando as opções "occasionally" ou maior encontram-se em
número ≥2.
- A finlandesa apresenta dois pontos de corte "fairly often" e
"very often" ou "often", "fairly often" e
"very often".
Caraterísticas do instrumento
Locker e Gibson (2005)e Thomson et al. (2008) utilizaram a versão original, de
Slade e Spencer (1994), não referindoinformações quanto à fidelidade ou
validade.No estudo de Thomson et al. (2008) verificam-sediferenças
estatisticamente significativas entre a QdVRSO nas mulheres e nos homens quanto
à gravidade da doença periodontal e que indivíduos com piores perceções quanto
à saúde oral reportam impactos negativos com maior frequência.
A versão árabe de Al Habashneh et al. (2012) apresenta alfa de Cronbach de
0,89, com correlação entre subescalas entre 0,64 e 0,77; fidelidade teste-
reteste com coeficiente de correlação a variar entre 0,81 e 0,97 para itens
individuais e entre 0,85 e 0,97 para pontuações de subescalas. Verifica-se uma
associação estatisticamente significativa entre a gravidade da doença
periodontal e os valores obtidos no OHIP (p<0,05) com maior impacto negativo
nas dimensões Dor física e Incapacidade física.Não são referidas qualidades
clinimétricas.
A versão iraniana/ persa de (Motallebnejad et al., 2011) apresenta alfa de
Cronbach de 0,95. A validade de critério foiavaliada através da avaliação da
necessidade de tratamento, verificando que indivíduos com necessidade de
tratamento e com sentimentos negativos quanto à sua saúde oral apresentam
pontuações totais mais elevadas no OHIP (p<0,05) e indivíduos com maior nível
de escolaridade apresentam melhores níveis de QdVRSO. Referem que não foram
colocadas questões quanto aos itens.
A versão japonesa (OHIP-J14) de Yamazaki et al. (2007) apresenta alfa de
Cronbach de 0,94 eteste-reteste com coeficiente de correlação intraclasses de
0,73 (Inukai et al., 2010). Verificaram que a perceção da habilidade em
mastigar encontra-se relacionada com a QdVRSO pelo que quanto maior a
habilidade em mastigar, menor os valores obtidos no OHIP-J14.Não são referidas
qualidades clinimétricas.
A versão espanhola (OHIP-14sp) de Montero et al. (2009) apresenta alfa de
Cronbach de 0,89, sendo detetadas pontuações de OHIP mais baixas em indivíduos
sem alterações da cavidade oral e mais elevadas em indivíduos com cáries, em
tratamento endodôntico ou com dentes que necessitam de ser extraídos.Não são
referidas qualidades clinimétricas.
A versão chinesa traduzida e validada por Wong e McMillan (2002) e foi
utilizada no estudo de Zheng et al. (2011) não são apresentados valores
relativos à fidelidade ou validade. Verificaram uma associação estatisticamente
significativa entre variáveis como dor elevada no último mês, atendimento
dentário mais frequente e dor mais severae pontuações elevadas de OHIP-14.Não
são referidas qualidades clinimétricas.
A versão brasileira, traduzida e validada por Oliveira e Nadanovsky (2005), foi
utilizada no estudo de Pereira et al. (2009),não sendo apresentados valores
relativos à fidelidade. Verificaram uma associação estatisticamente
significativa entre alterações temporomandibulares e a QdV nas dimensões
Limitação funcional e física, Dor psicológica e física, Desconforto e
Incapacidade física.Não são referidas qualidades clinimétricas.
A versão finlandesa, traduzida e validada por Lahti et al. (2008),foi utilizada
nos estudos de Rusanen et al. (2012) e Silvola et al. (2012). As mulheres
referem QdVRSO mais pobre, níveis de dor mais elevados e disfunções
temporomandibulares severas do que os homens. Não são referidas qualidades
clinimétricas.
3) Psychosocial Impact of Dental Aesthetics Questionnaire (PIDAQ)
Objetivo do instrumento e população a que se destina
Avalia o impacto psicossocial da estética dentária, e consequentemente, a
QdVRSO em adultos (Sardenberg et al., 2011).
Construto avaliado/ base conceptual
Desenvolvido originalmente por Klages et al. (2006), na Alemanha e Holanda,
sustenta-se no modelo de saúde oral de Locker também utilizado por Slade e
Spencer na construção do OHIP, que se baseia noICIDH desenvolvido pela WHO em
1980 e permite a ligação das diversas dimensões entre saúde e saúde oral,
nomeadamente o desconforto, limitação funcional ou insatisfação com aparência
que é percecionada com afetando o desempenho físico, psicológico e social
(Sardenberg et al., 2011). Consiste num instrumento de abordagem específica de
condição oral (ortodontia).
Tipo de validação: Empírica
Descrição do instrumento
O estudo é referente à versão brasileira desenvolvida por Sardenberg et al.
(2011). Apresenta três domínios negativos e um positivo: preocupação com a
estética (3 itens, "Aesthetic Concern"- AC); impacto psicológico (6
itens,"Psycological Impact" - PI); impacto social (8 itens,
"Social Impact" - SI); autoconfiança dentária (6itens pela
positiva, "Dental Self-Confidence" - DSC) (Sardenberg et al.,
2011).
- 23 itens de construção mista (itens positivos e negativos)
- As opções de resposta variam entre 0 ("not at all"), 1 ("a
little"), 2 ("somewhat"), 3 ("strongly") e 4
("very strongly").
- Avalia a gravidade do impacto.
- O valor total é obtido pelo método aditivo e varia entre 0 e 92, quanto maior
a pontuação pior a QdVRSO. Para garantir o mesmo sentido de pontuação em todos
os itens, alguns domínios tiveram pontuação invertida (Sardenberg et al.,
2011).
Caraterísticas do instrumento
A versão brasileira apresenta alfa de Cronbach de subescalas entre 0,75 (AC) e
0,91 (DSC) e teste-reteste com coeficiente de correlação entre itens entre 0,89
(DSC) e 0,99 (SI). Indivíduos sem má oclusão apresentam pontuações de PIDAQ
mais baixas do que aqueles que apresentam má oclusão (Sardenberg et al., 2011).
4) Oral Impacts on Daily Performance (OIDP)
Objetivo do instrumento e população a que se destina
Avaliaaincapacidade em termos de aspetos físicos, psicológicos e sociais dos
desempenhos diários devido a alterações da saúde oral em adultos.
Construto avaliado/ base conceptual
Foi originalmente desenvolvido por Adulyanon e Sheiham (1997) que o designam
por indicador sociodental, e baseia-se no modelo desenvolvido pela WHO e
adaptado por Locker à saúde oral. Porém, considera uma divisão das
consequências das condições orais distinta, em:deficiências (distúrbio
estrutural ou funcional do sistema);impactos intermédios (como dor,
desconforto, limitação funcional e insatisfação com a aparência) eimpactos
finais (ultimate) relacionam-se com as dimensões Incapacidade e Desvantagem do
modelo da WHO) (Montero et al., 2008). O primeiro nível relaciona-se com os
resultados biofisiológicos imediatos da doença, enquanto os impactos
intermédios e finais só podem ser avaliados pelos próprios indivíduos. É um
instrumento de abordagem genérica de saúde oral.
Tipo de validação: Empírica
Descrição do instrumento
- Avalia a frequência do impacto das condições orais nas habilidades de
desempenho em 8 atividades, variando entre 1 e 5 pontos: menos de uma vez/mês
(1); 1 a 2vezes/mês (2); 1 a 2vezes/ semana (3); 3-4 vezes/semana (4); todos os
dias ou quase todos(5).
- Avalia a gravidade do impacto das condições orais nas habilidades de
desempenho em 8 atividades, variando entre 0 e 5 pontos: sem efeito (0); um
efeito mínimo (1); algum efeito (2); efeito moderado (3); efeito severo (4) e
efeito muito severo (5) (Montero et al., 2008). As questões abrangem o
desempenho físico, psicológico e social nomeadamente: comer e saborear a
comida, falar e pronunciar com clareza, limpeza dos dentes, dor e relaxar,
sorrir, rir e mostrar os dentes sem embaraço, manter o estado emocional sem
estar irritado, desempenhar um papel/cargo social importante, gostar de
contactar com as pessoas) (Montero et al., 2008). É considerado impacto quando
se obtêm respostas "moderado" ou nível superior em ≥3 na escala
Likert de 6 pontos (ponto de corte).
- 8 itens, sendo tipo de construção omisso.
- Os impactos no OIDP são quantificados através da multiplicação da frequência
e gravidade para obter a pontuação de desempenho para cada uma das 8 dimensões.
A pontuação total é dividida pela pontuação máxima possível (200) e
multiplicada por 100, para obter pontuação em percentagem.
Caraterísticas do instrumento
A versão espanhola apresenta alfa de Cronbach 0,79 e teste-reteste com
coeficiente de correlação intraclasse 0,90 (p<0,001). Os valores de OIDP foram
mais baixos no grupo de indivíduos satisfeitos com a saúde oral percebida do
que no grupo de indivíduos não satisfeitos. Referem ainda que nenhum
participante revelou má compreensão de itens. Apenas 3 indivíduos (5,5%)
referiram a falta de uma dimensão na função oral (todos referiram a função
sexual).Verificaram uma associação estatisticamente significativa (p<0,05)
entre os valores obtidos no OIDP e as variáveis sociodemográficas,
comportamentais e clínicas: as mulheres apresentam níveis de impacto mais
elevados; verifica-se que indivíduos que tiveram consulta no dentista há mais
tempo apresentam impactos maiores; verifica-se uma associação estatisticamente
significativa ente número de cáries dentárias e níveis de impacto mais elevados
(Montero et al., 2008).
5) Oral Quality Of Life (OQOL)
Objetivo do instrumento e população a que se destina
Avaliar o impacto do tratamento de condições dentárias.
Construto avaliado/ base conceptual
Baseia-se no modelo de Patrick e Erickson (1993) aplicado à saúde oral por Gift
e Atchinson, (1995) que consideram a autoperceção da saúde oral enquanto função
de múltiplos fatores (idade, escolaridade e rendimento) segundo cinco conceitos
de QdVRS:
1) Oportunidade (impacto na habilidade em funcionar em papéis sociais e de
trabalho),
2) Perceções (satisfação com a auto-avaliação de saúde e necessidade percebida
de tratamento),
3) Três estados funcionais: físico dos dentes (como habilidade em comer,
mastigar, falar ou dormir sem desconforto), social (papéis como falar, sorrir,
comer em público e ser capaz de cumprir obrigações e responsabilidades
familiares e laborais) e psicológico (satisfação com estética dos dentes,
conforto com as relações interpessoais, preocupação, embaraço ou elevada de
confiança por problemas de dentes ou gengivas);
4) Deficiências(sintomas auto-relatados ou outra indicação de desconforto ou
dor);
5) Sobrevivência(medido pela perda de dentes ou mortalidade por cancro oral).
É um instrumento de abordagem genérica de saúde oral.
Tipo de validação: Empírica
Descrição do instrumento
O instrumento foi desenvolvido originalmente por Kressin, Jones, Orner e Spiro
(2008) através da integração de 3 instrumentos: Oral Health Quality of Life
Instrument (OQOL de Kressin, Spiro, Bosse, Garcia, & Kazis, 1996); General
Oral Health Assessment Index (GOHAI de Atchinson & Dolan, 1990) e OHIP
(Slade & Spencer, 1994).
- Duas versões: 6 e 12 itens; construção pela negativa.
- O instrumento de 6 itens sem subescalas, avaliando distress, preocupação,
funcionamento social, funcionamento físico, prótese e dor.
- O instrumento de 12 itens apresenta subescalas de três itens para três
escalas: distress, preocupação e função social (papel) e itens isolados (sem
escala) para avaliar a função física, prótese e dor.
- As pontuações totais são convertidas, quanto maior a pontuação final pior a
QdVRSO; a pontuação total obtém-se somando as médias das subescalas.
Caraterísticas do instrumento
As versões - 6 e 12 itens - apresentam alfa de Cronbach de 0,90 no instrumento
com 12 itens e 0,80 no instrumento com 6 itens, com coeficientes de correlação
interclasses variando entre 0,78 e 0,92. Foi identificada uma associação
estatisticamente significativa entre os dois instrumentos e variáveis clínicas
como número de dentes, estado periodontal e cáries dentárias.
DISCUSSÃO
Com esta revisão foram reunidos, de forma consistente, instrumentos com
caraterísticas que permitem associar informações de caráter subjetivo (de
autoperceção) a medidas objetivas (normativas), tornando possível uma visão
mais ampla das caraterísticas dos indivíduos e das suas necessidades, no que
respeita a sua QdVRSO.
O modelo de saúde oral de Locker sustenta, teoricamente, os instrumentos OHIP,
OIDP e PIDAQ e surge enquanto forma adaptada da classificação internacional
ICIDH da OMS (WHO, 1980), que considera que as doenças provocam incapacidades,
como falta de dentes, índice CPOD, má-oclusões e doenças periodontais, e
limitações funcionais ao nível do órgão, como limitação da mobilidade da
mandíbula nas disfunções temporo mandibulares,tornando o indivíduo
incapacitado, isto é, com qualquer limitação ou falta de capacidade para
desempenhar atividades de vida diária, ou pode ficar com uma desvantagem na
sociedade, devido aos comprometimentos e incapacidades não respondem às
expectativas da sociedade, conduzindo a isolamento ou embaraço.Compreende-se
que o foco não é na cavidade oral mas no indivíduo e no modo como as alterações
ou doenças orais ameaçam as dimensões da vida do indivíduo, reforçando a não
divisão da saúde segundo a estrutura anatómica acometida. Em 2001, esta
classificação foi substituída pela "International Classification of
Functioning, Disability and Health" (ICF), substituindo os termos
Deficiência, Incapacidade e Desvantagem por Atividades e Participação (Slade
& Anders, 2003). Contudo, os instrumentos mantêm a perspetiva de
incapacidade e deficiência. A OMS (2007) define saúde oral enquanto ausência de
dor crónica facial e na boca, de perda de dentes e outras doenças e
perturbações orais que afetam a cavidade oral e a boca, portanto, mantém uma
perspetiva negativa, de ausência de doença e/ou dor.
Os estudos de Zheng et al. (2011) e Rusanen et al. (2012) não definem QdV nem
saúde oral, contudo, uma vez que utilizam o instrumento OHIP-14 deduz-se que o
estudo se sustenta no modelo concetual de saúde oral de Locker, sujacente à
construção deste instrumento, considerando as consequências biológicas,
comportamentais e psicossociais das doenças orais.
O instrumento desenvolvido por Wright et al. (2009) baseia-se no modelo de
Patrick e Erickson aplicado à saúde oral por Gift e Atchinson (1995) que
considera cinco conceitos de QdVRS descritos anteriormente eintegrauma dimensão
relevante (a sobrevivência) tendo em consideração a incidência de patologias
como cancro da cavidade oral. A saúde oral é, portanto, considerado como um
conceito multidimensional que pode envolver a combinação de deficiência, perda
de oportunidade, privação material e social e insatisfação (Gift &
Atchinson, 1995). Portanto, tal como no modelo anterior, estes autores
consideram que a saúde oral tem apenas impacto negativo na QdV, pelo que
incluem apenas dimensões relacionadas com a perda.
No nosso ponto de vista, os modelos de saúde oral de Locker e de Gift e
Atchinson consideram os conceitos de saúde e QdVRS como sinónimos, ainda que
consideremos ter sentido a sua distinção. A definição de QdV varia consoante
aquele que utiliza o conceito, da compreensão e posição que assume acerca
deste. A rápida expansão do campo da QdV parece ter conduzido a uma
vulgarização do termo resultando no desenvolvimento de uma variedade de
perspetivas teóricas e definições, pelo que cada definição espelha o contexto e
época em que o conceito é estudado (Silva, 2003).Para uma perspetiva histórica,
consultar (Ribeiro, 2005). A WHO define QdV como sendo a perceção do indivíduo
da sua posição na vida, no contexto da sua cultura e sistema de valores nos
quais vive e em relação com os seus objetivos, expectativas, padrões e
preocupações (WHO, 1995). Em 1998, o Grupo WHOQOL, acrescenta a presença de
dimensões positivas e negativas, isto é, que é necessária a presença de
elementos, como a mobilidade, e a ausência de outros, por exemplo, de dor. Em
conformidade com as considerações de Ribeiro (2002), a QdVRS centra-se mais na
doença, nas suas representações, que incluem crenças sobre causas e
consequências da doença, dos preconceitos, da auto-apreciação do indivíduo
doente, dos juízos que os outros fazem sobre a doença, das emoções
desencadeadas e dos tratamentos.
Os conceitos de QdV, QdV Relacionada com a Saúde (QdVRS) e saúde estão
interligados, contudo o primeiro tem um sentido mais amplo, abrangendo a QdVRS
e no seu centro a saúde, e aplica-se a todas as pessoas saudáveis ou não,
enquanto o segundo refere-se aos aspetos diretamente relacionados com os
sintomas e impacto da doença e com o seu tratamento (Ribeiro, 2002). Ainda que
os conceitos de saúde e QdVRS sejam específicos e partes integrantes do
construto genérico que é a QdV, nos artigos analisados são utilizados como
sinónimos, confirmando a ambiguidade e confusão dos conceitos que necessitam de
ser clarificados pelos autores dos estudos, pois só assim são orientados
estudos válidos (Meneses, 2005; Ribeiro, 2005).
Constata-se que os instrumentos identificados nesta revisão integrativa
consideram apenas os impactos negativos da saúde oral na QdV, centrados nas
incapacidades, ainda que seja identificado um domínio positivo no PIDAQ e um
item no GOHAI. As principais limitações dos modelos que sustentam os
instrumentos identificados na presente revisão integrativa prendem-se com o
fato de não considerarem que o impacto da saúde oral na QdV possa ser,
simultaneamente, positivo e negativo, polaridade implícita na definição de QdV,
centrando-se apenas no seu impacto negativo. No estudo de McGrath e Bedi (2004)
verificaram que 53% dos inquiridos identificaram a importância da perceção de
saúde oral na QdV no sentido positivo, isto é, enquanto forma de melhorar a QdV
(como alinhamento ou cor dos dentes), e 47% identificam a importância no
sentido negativo (como presença de doenças orais, estética oral desfavorável),
ou seja, como um fardo nas suas vidas. Identificaram como relevantes, ainda que
em menos de 1%, questões financeiras, relações românticas e personalidade, que
não são considerados em nenhum dos artigos analisados nesta revisão.
Na sua maioria, os instrumentos identificados são de abordagem genérica de
saúde oral e apenas um (PIDAQ) é de abordagem específica para condições de
saúde oral (ortodontia). A maior vantagem de instrumentos de abordagem genérica
é permitir recolher maior número e qualidade de informação, comparar dentro de
uma variedade de condições médicas e entre populações, no sentido de examinar o
impacto dos programas de cuidados de saúde na QdV, fornecendo uma visão ampla
(Silva, 2003). Os instrumentos de abordagem específica tornam-se úteis sobre
por permitira aplicação em determinadas intervenções, doenças ou grupos de
indivíduos, e fornecer informações mais detalhadas sobre determinada condição,
para além de diminuírem a sobrecarga e aumentarem a aceitabilidade (Silva,
2003).
Todos os instrumentos contêm itens direcionados para as limitações funcionais,
dor e desconforto oral e impactos psicológicos e comportamentais das condições
orais, o que confirma a multidimensional do construto. Apenas o instrumento
OIDP sustenta uma estrutura unidimensional, visto centrar-se no terceiro nível
do modelo de Locker que centra-se nos impactos finais (Adulyanon & Sheiham,
1997).Deste modo, circunscreve todas as consequências dos impactos donível dois
no desempenho de atividades diárias, permiteevitar ou reduzir a repetição dos
impactos de cada um dos três níveis e apenas os impactos significativos são
reconhecidos, ao eliminar condições menores que não afetam no desempenho
diários. Do mesmo modo, os autores consideram que é mais fácil medir os
impactos do comportamento, em termos de desempenho das atividades diárias (por
exemplo, comer, falar), do que sentimentos/estados (por exemplo, desconforto,
preocupação) (Adulyanon & Sheiham, 1997).
Para além de abrangerem impactos psicológicos e comportamentais, o GOHAI e o
OHIP-14 contêm itens sobre limitações funcionais, dor e desconforto. Porém, o
GOHAI salienta as limitações funcionais ou dor e desconforto, enquanto o OHIP-
14 enfatiza os aspetos psicológicos e comportamentais. Constata-te, ainda, que
na dimensão Limitações funcionais, o GOHAI possui itens referentes a problemas
ao trincar, mastigar, engolir e falar, enquanto o OHIP-14 refere problemas com
pronunciar palavras e saborear alimentos. Infere-se, assim, que o GOHAI permite
identificar impactos relativos à disfunção e dor enquanto o OHIP-14 deteta, com
maior facilidade, impactos psicológicos (Locker et al., 2001).
As opções de resposta consistem todas em escalas de Likert, sobretudo de
frequência (GOHAI, OHIP, OIDP). O instrumento PIDAQ é o único com escala de
intensidade e o OQOL o único com escala de qualidade, contudo o uso de
adjetivos nas opções de resposta tornam o instrumento mais difícil de
interpretar pela sua subjetividade (Moreira, 2004). Nenhum instrumento
apresenta uma alternativa no sentido de ultrapassar a limitação das opções de
resposta fechadas. Nos estudos relativos à validação linguística e cultural,
destaca-se o estudo de Montero et al. (2008) de validação do OIDP para a versão
linguística e cultural espanhola, em que os participantes identificam a
necessidade de integrar uma dimensão na função oral direcionada para a função
sexual.
O instrumento GOHAI-T adaptado para a Ilha Formosa apresenta boas qualidades
psicométricas, nomeadamente boa fidelidade e validade convergente, e uma
estabilidade temporal aceitável. É muito utilizada em estudos longitudinais
para avaliar mudanças de saúde oral percebida em idosos. Não são relatadas
informações quanto à sensibilidade. As principais vantagens prendem-se com o
fato de ser um instrumento breve, de rápida administração e cotação. Uma vez
que foi testado, segundo Atchinson (1997), com indivíduos com diferentes
idades, o termo Geriatric foi alterado para General. Como desvantagem salienta-
se o fato de integrar apenas um item positivo, identificando-se a necessidade
de aumentar o número itens referentes à QdV, resiliência e oportunidade e ainda
de verificar de que modo a perceção de saúde muda com o envelhecimento
(Atchinson, 1997). De todos os instrumentos identificados, este é o único que
se encontra validado para a língua e contexto cultural português, de Portugal,
por Carvalho, Manso, Escoval, Salvado e Nunes (2013).
O OHIP-14 é o instrumento mais identificado nesta revisão integrativa, com 7
versões linguísticas e culturais, apresentando como principais vantagens:
diversos domínios, instrumento breve, de rápida administração e cotação,
apresenta valores de corte, permitindo avaliar a gravidade, extensão e
prevalência dos impactos negativos numa única administração. Acrescenta-se
ainda que os itens resultam do contributo de pacientes, e não somente de
investigadores, aumentando a probabilidade de conseguir explorar as
consequências consideradas como importantes pelos pacientes (Allen, 2003;
Slade, 1997). Este é um dos aspetos que McGrath e Bedi (2004) salientam como
principal limitação da maioria dos instrumentos de avaliação da QdVRSO, na
medida em que os profissionais de saúde não devem assumir que conhecem as
perspetivas e/ou importância do estado de saúde para a QdV, para além de que as
experiências de pessoas com alterações da saúde oral são bem distintas das
perspetivas e experiências das pessoas saudáveis, diferindo ainda de acordo com
o tipo de alterações. Como desvantagem salienta-se o fato de não integrar
domínios/itens positivos. Em relação às versões culturais identificadas, a
versão original apresenta boa sensibilidade a variáveis clínicas e permite
avaliar em termos de frequência e de gravidade; a versão árabe apresenta boa
consistência interna e elevada estabilidade temporal, indicando que são
reproduzíveis em diferentes situações; a versão iraniana apresenta fidelidade
elevada e boa validade de construto; a versão japonesa (OHIP-J14) apresenta
fidelidade elevada, estabilidade aceitável e boa sensibilidade a variáveis
clínicas; a versão espanhola (OHIP-14sp) fidelidade elevada, boa sensibilidade
a variáveis clínicas e boa validade de construto e refere ponto de corte; a
versão chinesa apresenta bem sensibilidade a variáveis clínicas e boa validade,
não sendo apresentados valores relativos à fidelidade; a versão brasileira
apresenta boa sensibilidade a variáveis clínicas não sendo apresentados valores
relativos à fidelidade; a versão finlandesa apresenta boa sensibilidade, refere
valor de corte, não sendo referidas informações quanto à validade e fidelidade
do instrumento. Globalmente identifica-se como mais frequentemente utilizado o
método aditivo na obtenção da pontuação final no OHIP-14, por permitir aferir a
gravidade do impacto (Slade, 1997).
A versão brasileira do instrumento PIDAQ apresenta boa fidelidade, estabilidade
temporal e sensibilidade. Salienta-se o fato de ser um instrumento breve, de
rápida administração e cotação, de ser específico para a condição clínica má
oclusão e integrar domínios negativos e positivos. Contudo, sendo um
instrumento específico para a ortodontia pode ser necessário associar outros
instrumentos para aceder a uma maior diversidade de informação.
A versão espanhola do OIDP apresenta boa fidelidade, boa estabilidade temporal
e boa validade de construto e de critérios. As principais vantagens prendem-se
com o fato de permitir, com uma única administração, obter em simultâneo
informação relativa à frequência e gravidade dos impactos que afetam o
desempenho diário dos indivíduos e de ser um instrumento breve, de rápida
administração, cotação e interpretação dos valores de modo mais intuitivo, pela
conversão da pontuação obtida em percentagem e por apresentar ponto de corte,
diminuindo a subjetividade. Como desvantagem salienta-se o fato de não integrar
domínios/itens positivos e de considerar apenas um domínio.
Os instrumentos de 6 e de 12 itens do OQOL apresentam boa fidelidade, boa
estabilidade temporal e boa sensibilidade em relação a variáveis clínicas. De
acordo com as diferenças obtidas nos valores de consistência interna na
construção do instrumento por Kressin, Jones, Orner e Spiro (2008), o
instrumento de 6 itens revelou ser adequado para comparar grupos dada a sua
brevidade e rapidez de administração permitindo uma rápida comparação entre
grupos. Contrariamente ao instrumento de 12 itens que revelou ser ideal para
avaliar individualmente. Este instrumento surge como inovador e útil ao
integrar o domínio da sobrevivência se considerarmos os dados de mortalidade
por cancro oral. A nível europeu, o cancro da cavidade oral e do lábio é o 12º
cancro mais comum nos homens, sendo diagnosticados cerca de 132 000 casos que
resultaram em 62 800 mortes, em 2008 (Patel, 2012). Integra, ainda, o domínio
Oportunidade que constitui um dos cinco domínios principais da QdVRS
designadamente a oportunidade/resiliência, perceção de saúde, estados
funcionais, deficiências/doenças e duração de vida (Gift & Atchinson,
1995). Por ser um instrumento de abordagem específica (de condição oral),
salienta aspetos como preocupação com estética e autoconfiança, fundamentais em
indivíduos que se encontram sob tratamento ortodôntico.
No que diz respeito às qualidades clinimétricas, todos os instrumentos
identificados são constituídos por diversos itens, permitindo captar uma maior
variabilidade estatística e maior riqueza de informação. Os instrumentos variam
entre 6 itens (OQOL) e o máximo de 23 itens (PIDAQ), sendo que o recomendável é
20 itens por instrumento, construídos, na sua maioria, pela negativa, são
breves e de rápida resposta, não havendo referência a desistências dos estudos
por sobrecarga (burden) ou dificuldade na compreensão dos itens (Ribeiro,
1999). Os instrumentos GOHAI e PIDAQ por incluírem itens construídos pela
negativa e pela positiva permitem reduzir a tendência para respostas aleatórias
e aproximam-se mais da polaridade de domínios que carateriza a QdV. Em termos
de interpretação da pontuação final, o OIDP é o único que permite uma leitura
rápida da pontuação total na medida em que há conversão do valor em
percentagem, facilitando a sua interpretação, e diminui a subjetividade, por
apresentar ponto de corte.
Na maioria dos estudos analisados nesta revisão não foram identificadas as
versões originais mas sim versões adaptadas linguística e culturalmente a
diferentes países, pelo que seria relevante, em estudos futuros, analisar o
processo utilizado na respetiva validação. Apenas 2 estudos analisados utilizam
o instrumento na sua versão original, nomeadamente o estudo de Locker e Gibson
(2005) que utiliza o instrumento GOHAI e o estudo de Wright et al. (2009) que
utiliza o instrumento OQOL.
Destaca-se que, para além da ausência de definições claras e de modelos
teóricos subjacentes aos instrumentos, os estudos nem sempre apresentam as
qualidades psicométricas da versão cultural dos instrumentos. Contudo,
verifica-se que todos apresentam boa sensibilidade em relação a variáveis
clínicas, o que pode sugerir uma boa validade de construto. Uma limitação desta
revisão integrativa foi a heterogeneidade e o elevado número de estudos
primários sobre esta temática, pelo que seria pertinente alargar a pesquisa a
outras bases eletrónicas.
A avaliação da QdVRSO em simultâneo com medidas clínicas facilita a obtenção de
conhecimento necessário para o desenvolvimento, planeamento e implementação de
programas de intervenção adequados às necessidades e aos contextos
socioeconómicos e culturais. A sua definição condiciona a técnica de avaliação
a utilizar pelo que os instrumentos devem consistir numa série de dimensões
alargadas da QdV e em elementos específicos no domínio da saúde oral, porém na
maioria dos estudos essa posição teórica não é clara.
Foram identificados cinco instrumentos de avaliação de QdVRSO que revelam boa
fidelidade e sensibilidade, com uma diversidade de domínios e de itens, que se
centram, de forma geral, no funcionamento físico, emocional e social, em
conformidade com a sua complexidade multidimensional e subjetividade. Consistem
em instrumentos breves, de fácil compreensão e de rápida administração,
construídos, na sua maioria, pela negativa. Na sua maioria, os instrumentos
apresentam vários domínios, porém, não integram itens referentes ao impacto
positivo da saúde oral na QdV ou questões consideradas como importantes como
financeiras, relações românticas ou personalidade. O OHIP-14 surge como o
instrumento mais identificado nesta revisão e com mais versões culturais e
linguísticas, para além de que apresenta boas qualidades psicométricas e
clinimétricas, com itens que derivam de declarações de pacientes e relativos a
sete domínios, permite numa única administração recolher informações relativas
à frequência e gravidade dos impactos na QdVRSO, sugerindo que este instrumento
pode ser o mais adequado para contextos de intervenção clínica e de
investigação.
Na realização da presente revisão integrativa foram encontradas apenas duas
revisões de literatura, uma sobre QdV enquanto indicador de saúde oral em
idosos e outra relativa à importância da QdVRSO nas populações, pelo que se
torna oportuna a reunião consistente de conhecimentos relativos a esta
temática. Não foi encontrada evidência científica que recomende o uso isolado
destes instrumentos, pelo contrário, a sua utilização deve ser complementar à
informação fornecida pelos dados clínicos. É unânime na literatura que o uso de
indicadores de QdV é um componente essencial nas pesquisas e estudos
odontológicos, especialmente aqueles que avaliam em termos de prevenção e de
opções terapêuticas que visam melhorar o estado de saúde do indivíduo.