Revisão de investigação e evidência cientifica
ABSTRACT
Currently the scientific production increased very significantly in all fields
of science. The identification of scientific evidence, for practice, or for
research, is faced with the proliferation of knowledge that must be overcome.
One way to cope with such a profusion of knowledge is research review. This
paper presents and discusses the main methods used in the review of research,
discussing their advantages and disadvantages, especially in the area of
??psychology. Systematic review, meta-analysis, narrative, integrative,
synthesis, scoping, are some of the methods used to review and display evidence
based science. Systematic review with or without meta-analysis, methods of more
qualitative or more extensive review, all are useful if they respond to the
research question that initiate them. The choice of language of publication and
the type of literature reviewed is another aspect to consider. Today there are
a huge production of gray literature published by scientific organizations,
government agencies, or others that present important data and information for
research and practice, that can't be ignored.
Key- words - scientific evidence; research review; research review methods.
Qualquer investigador, seja na sua fase mais elementar em início de estudos,
seja numa fase avançada de investigação, recorre à investigação que foi feita
anteriormente para identificar o estado da arte sobre um determinado tema e
para fundamentar a sua ação. Com o advento das bases de dados electrónicas e a
crescente facilidade de acesso às publicações, esse processo de consulta do que
foi publicado, não só se complexificou como exige uma sofisticação metodológica
que garanta que o que está a ser relatado como resultado dessa consulta, o é da
forma mais adequada. Ou seja, não pode haver várias consultas com o mesmo
objetivo, com a mesma questão inicial, a chegar a conclusões, a resultados,
muito diferentes.
A "prática baseada na evidência" (PBE) constitui um importante movimento
multidisciplinar originado no inicio da década de 90 do século passado no
movimento da medicina baseada na evidência (MBE) explica Hjørland, (2011). Este
autor sugere que deveríamos falar, de forma mais aberta, em prática baseada na
investigação" (PBI) em vez de PBE. Outros autores utilizam o termo
"investigação baseada na evidência" (IBE) (Chiappelli, & Cajulis, 2008).
Embora com origem na medicina, este movimento abrange hoje todos os campos da
ciência e a maioria das disciplinas, embora com adaptações às características
de cada uma (cf. Tranfield, Denyer, & Smart, 2003).
Chiappelli, Prolo, Rosenblum, Edgerton, e Cajulis, (2006) salientam a distinção
entre IBE em medicina, tal como foi concebida por Archibald Cochrane, e a
medicina baseada na evidência cientifica. Onde se lê medicina pode ler-se
psicologia que, na intervenção, recorre a procedimentos idênticos aos
procedimentos médicos. A IBE é um movimento de investigação das ciências da
saúde (que inclui a psicologia) baseado na aplicação do método científico, que
recorre deliberadamente a uma identificação explícita, rigorosa, e à avaliação
e uso da melhor evidência disponível no momento.
A MBE, sendo um procedimento reconhecido pela comunidade científica como
importante, tem inúmeras limitações, principalmente quando o objetivo é a
aplicação clínica. Cohen, Stavri, e Hersh, (2004) apresentam e discutem as
seguintes: centrar-se no empirismo, basear-se numa definição limitada de
evidência, falta de eficácia da evidência, utilidade limitada para doentes
individuais, e ameaça à autonomia da relação médico/doente. Também são
salientadas as vantagens: por exemplo Sackett (2002), um dos pais fundadores da
MBE refere que a prevenção em medicina é uma das áreas onde a evidência é
especialmente útil dado a medicina preventiva ser frequentemente arrogante de
três modos: "assertividade agressiva", tal como perseguir e fazer intervenção
em pessoas saudáveis e assintomáticas; "presunção", que define como a crença
que as intervenções preventivas farão geralmente, mais bem do que mal;
finalmente, "arrogância", porque de modo desagradável e ostensivo, ataca os que
colocam em questão a importância das recomendações preventivas.
A revisão de investigação como evidência
A PBE ou qualquer das suas variantes implica a revisão da investigação, e esta
é muito variada. Arksey, e O'Malley (2005) referem que para as revisões se
utiliza terminologia variada, nomeadamente: Revisão sistemática; meta análise;
revisão rápida; revisão de literatura (traditional); revisão narrativa; síntese
de investigação; e revisão estruturada, a que acrescentam o scoping review.
Whittemore e Kna? (2005) falam de revisão integrativa, revisão sistemática,
meta análises, e revisão qualitativa. Numa investigação sobre a terminologia
utilizada na literatura sobre revisões, Grant, e Booth, (2009) reportam 14
denominações de revisão: revisão crítica, revisão da literatura, mapeamento de
revisão (Mapping review), meta análise, revisão de métodos mistos, visão geral,
revisão sistemática qualitativa, revisão rápida, scoping review, revisão do
estado da arte, revisão sistemática, procura e revisão sistemática, revisão
sistematizada, revisão de cobertura (umbrella review). Há, portanto, uma grande
variedade de termos utilizados na revisão de investigação, onde surge
dominantemente a revisão sistemática, a meta análise, a revisão narrativa e a
revisão integrativa, onde os dois primeiros tendem a ser considerados
quantitativos, e os dois últimos qualitativos.
Cooper e Hedges (2009) referem que nas ciências sociais os termos "síntese de
investigação", "revisão de investigação", e "revisão sistemática" tendem a ser
utilizados indistintamente. Estes autores apresentam uma definição de revisão
da literatura da Associação Americana de Psicologia como sendo a investigação
sobre material já disponível, baseada em publicações que contêm informação
primária, analisando-a, classificando-a, simplificando-a, e sintetizando-a. Diz
que uma revisão de qualidade deverá sumariar os estado do conhecimento num
tópico, e que deve ser escrita de forma clara, consistente, sucinta, abrangente
(http://www.apa.org/pubs/journals/men/literature-review-guidelines.aspx)
Os estudos publicados sobre investigação têm aumentado imenso nos últimos anos.
Pautasso (2013) refere que entre 1991e 2008, o crescimento de publicações sobre
alguns temas aumentaram entre 3 e 40 vezes consoante as áreas. Esta
multiplicação da investigação justifica os estudos de revisão. É frequente
encontrar estudos de revisão de investigação, embora muitos acabem por ser
pouco úteis ou irrelevantes. De seguida apresentam-se algumas definições de
revisão de investigação que poderão ser úteis para a psicologia.
Tipos de Revisão
Revisão sistemática
Liberati et al.(2009) definem revisão sistemática como uma formulação clara de
questões, que recorrem a procedimentos sistemáticos e explícitos para
identificar, selecionar, e avaliar criticamente investigação importante, e para
coligir e analisar os dados dessa investigação. A revisão sistemática depende
do modo como os dados são escolhidos, como são reunidos, e do modo como os
resultados são apresentados diz Mandrekar e Mandrekar (2011).
Definida assim, a revisão sistemática não se diferencia de outros métodos de
revisão. Dá-se o caso que, historicamente, a revisão sistemática se desenvolveu
e popularizou na medicina para evidenciar os métodos de ação mais apropriados.
É considerada a forma mais adequada para salientar as boas práticas que se
realizam em medicina. A sua origem vem, em parte, de um alerta explícito num
livro clássico de Archibald Cochrane, (1972) com o título "Effectiveness and
Ef?ciency", onde este autor critica a prática médica, acusando-a de falta de
evidência para os tratamentos, intervenções, testes, e procedimentos, que são
utilizados no dia a dia. Dizia ele que não havia evidência que essas práticas
fizessem mais bem do que mal. Cochrane (1972) defendia o que, dado que os
recursos seriam sempre limitados, estes deveriam ser usados de forma a garantir
o uso equitativo das práticas que mostrassem ser eficientes e eficazes, e que
tal deveria ser feito recorrendo a estudos Randomised Controlled Trials (RCTs),
por que fornecem informação mais correta, mais rigorosa, para aquele fim. Em
1989 Cochrane, salientava que a RCT's era um elemento fulcral na revisão de
investigação, sugerindo que outras áreas deveriam copiar estes métodos. O
Centre for Reviews and Dissemination (2009) apresenta o critério PICOS
(acrónimo de Population, Interventions, Comparators, Outcomes and Study design)
a ser adotado na revisão sistemática, que no seu ponto último,"study design",
explica que os estudos revistos devem ser RCTs.
Este é um dos critérios de rigor do método proposto por Cochrane que promoveu
os RCTs como a forma apropriada de evidenciar a eficácia e a eficiência da
terapia e prática nos cuidados de saúde, explicam Cohen, et al. (2004). É este
procedimento decisivo na investigação sobre intervenções médicas, que torna a
revisão sistemática frequentemente menos adequada em outras áreas.
Quando se diz que é um método rigoroso pode ser lido como sinónimo de rígido,
um sinónimo de rigoroso que expressa, também, este método. Os estudos RCTs, são
formalizados, também de uma forma rigorosa/rigída pela CONSORT (Consolidated
Standards of ReportingTrials) que, na sua página, fornecem diagramas, incluindo
em português, que mapeiam os procedimentos a seguir. Este é considerado o
procedimento padrão para este tipo de estudos. É um procedimento incontornável
para os estudos na área da intervenção médica, principalmente no estudo da
eficiência e eficácia de medicamentos (Chan, et al.2013; Schulz, Altman, Moher,
& the CONSORT Group, 2011). No entanto estes critérios devem ser utilizados
também quando se pretende afirmar a eficiência e eficácia em intervenções não
farmacológicas (Boutron, et al.,2008). Assim, também os estudos sobre a
intervenção psicológica deverão seguir estas linhas orientadoras, seja quando
se estudam procedimentos de intervenção em contexto de tratamento, seja na
prevenção primária ou de promoção da saúde (Curry, Grossman, Whitlock, &
Cantu, 2014).
Porque a revisão sistemática recorre a um conjunto de procedimentos e técnicas
que procuram minimizar o viés e o erro, ela é vista como fornecendo evidência
de elevada qualidade dizem Tranfield et al. (2003). Estes autores apresentam
uma hierarquia de evidência nas ciências médicas ou da saúde, nomeadamente, de
maior para menor evidência: revisão sistemática e meta-análises de dois ou mais
ensaios aleatórios duplamente cegos; um ou mais ensaios amplos, aleatórios,
duplamente cegos; um ou mais estudos de coorte bem conduzidos; um ou mais
estudos de controlo de caso com protocolos de qualidade bem conduzidos;
experiência de intervenção sem grupo de controlo; reunião de uma comissão de
especialistas, reunindo opinião de pares; experiência pessoal. Akobeng (2005) e
Marshall (2014) apresentam uma hierarquia de níveis de evidência de menor para
maior, que começa com a opinião de especialistas, seguido por relato de caso,
de estudos com controle de caso, estudos de coorte, estudos experimentais
(RCTs), e revisões sistemáticas.
Akobeng (2005) explica que as RCTs constituem o método científico mais rigoroso
para testar hipóteses e, por isso, é considerado o método de estudo padrão para
avaliar a eficiência das intervenções. Neste, uma amostra da população em
estudo é aleatoriamente alocada a dois ou mais grupos, com intervenções
diferentes. Os grupos são seguidos por um período específico de tempo, e são
observados e tratados de modo idêntico (no caso de medicamentos ou intervenções
idênticas, estas são mascaradas, nos estudos designados por duplamente cegos,
ou seja, nem quem aplica o tratamento sabe qual é o tratamento em estudo ou o
placebo). Só deste modo se pode afirmar que os resultados dependem da
intervenção.
São estudos dispendiosos sobre todos os pontos de vista. p.e., é o método que
deve ser utilizado na aprovação de medicamentos. Estes estudos decorrem em
várias fases, devem respeitar critérios éticos muito rigorosos, e depois do
medicamento estar disponível, a investigação com o uso do medicamento em
pessoas, nas várias fases, leva cerca de 10 anos. Outros métodos de intervenção
não medicamentosos serão semelhantes aos utilizados na psicologia.
O termo "revisão sistemática" tende a ser utilizado com frequência, quando na
maior parte dos casos não o é. Arksey e O'Malley (2005) explicam que, porque a
investigação que usa o termo sistemática' frequentemente não adota elevados
padrões que protegem de diversos viés, e porque também não recorre a critérios
de qualidade na seleção da investigação primária, deveria utilizar o termo
"revisão da literatura" em vez de "revisão sistemática". Estes autores sugerem
que grande parte dos estudos na área da psicologia que não estudem a eficiência
e a eficácia de intervenções relativamente focadas, realizadas com recurso a
RCTs, não têm vantagem em utilizar a revisão sistemática. As críticas a este
tipo de métodos, seja na MBE ou outra, que abrange a revisão sistemática, são
inúmeros e fortes, e já citados acima (Cohen, et al. 2004). Há organizações de
referência que fornecem orientação para a MBE como a The Cochrane Collaboration
(http://www.cochrane.org/) ou a Campbell Collaboration (http://
www.campbellcollaboration.org/).
Meta análise
A Declaração PRISMA, (acrónimo de Preferred Reporting Items for Systematic
Reviews and Meta-Analyses) foca como reportar revisões sistemáticas e meta-
análises. Não aborda como fazer revisão sistemática dado haver inúmeros guias
sobre o modo de o fazer, mas acrescenta a meta análise à revisão sistemática.
A Declaração PRISMA consiste numa revisão da declaração QUOROM (acrónimo de
QUality Of Reporting Of Meta-analyses), desenvolvida em 1996, e é uma evolução
metodológica desta (Moher, Liberati, Tetzlaff, Altman, & The PRISMA Group,
2009). Incorpora a revisão sistemática à qual acrescenta a meta-análise. À
definição referida na secção anteriormente, repetindo, formulação clara de
questões que recorrem a procedimentos sistemáticos e explícitos para
identificar, selecionar, e avaliar criticamente investigação importante, e para
coligir e analisar os dados dessas investigações, acrescenta-se, os métodos
estatísticos (meta análise) que são utilizados para analisar e sumariar os
resultados desses estudos. Meta análise refere-se ao uso de técnicas
estatísticas numa revisão sistemática para combinar os resultados dos estudos e
identificar o tamanho do efeito dos estudos combinados.
Revisão integrativa
A Revisão Integrativa é um método específico de revisão que sumaria a produção
cientifica e teórica produzida de modo a fornecer um conhecimento amplo sobre
determinado fenómeno ou problema (Whittemore & Kna?, 2005). Se bem feita,
ela constitui um bom meio para o desenvolvimento de teorias, com aplicação
direta para a prática e para a definição de politicas de saúde, explicam estes
autores.
A revisão integrativa inclui a análise de pesquisas que apoiam a tomada de
decisão e a melhoria da prática clínica, possibilitando a síntese do estado do
conhecimento de um determinado assunto, além de apontar lacunas do conhecimento
que precisam ser preenchidas com a realização de novos estudos. Ela permite a
síntese de múltiplos estudos publicados e possibilita gerar conclusões
genéricas a respeito de uma particular área de estudo. Para garantir a validade
da revisão, os estudos selecionados devem ser analisados detalhadamente. A
análise deve ser realizada de forma crítica, e devem ser procuradas explicações
para os resultados diferentes ou conflituantes encontrados (Mendes, Silveira,
& Galvão, 2008).
A revisão integrativa, é uma ampla abordagem metodológica que permite a
inclusão de estudos experimentais e não experimentais, combina dados da
literatura teórica e empírica, incorpora um vasto leque de propósitos:
definição de conceitos, revisão de teorias e evidências, análise de problemas
metodológicos de um tópico particular. Assim permite gerar um panorama
consistente e compreensível de conceitos complexos, de teorias ou problemas (de
Souza, da Silva, & de Carvalho, 2010)
Síntese de Investigação
Cooper, e Hedges, (2009) definem Síntese de Investigação como o conjunto de
revisão de características de um grupo particular de literatura. O seu
principal objetivo é a integração da investigação empírica com o propósito de
fazer generalizações: focam especialmente as teorias mais importantes, analisam
criticamente a investigação que cobrem, e tentam ultrapassar conflitos que
resultem dessa análise, identificando os aspetos cruciais, que facilitem
investigação posterior.
Cooper e Hedges (2009) afirmam que nas ciências sociais os termos síntese de
investigação, revisão da investigação e revisão sistemática são, com
frequência, utilizadas como sinónimos: ou seja o termo "revisão sistemática", é
utilizado, não no sentido que a investigação científica na área da saúde o usa,
mas sim no senso comum. A psicologia que intervêm na área das ciências da saúde
é, em primeiro lugar psicologia, ou seja é uma ciência que cai no campo das
ciências sociais, mas também é uma área da saúde. Assim, dado que a psicologia,
principalmente a clínica e a da saúde, na sua prática em contexto formal de
saúde se assemelha à medicina, a revisão sistemática deverá possuir, neste
contexto, as mesmas características que na medicina, pelo que o termo
"sistemática" não deveria ser utilizado tal como o usa o senso comum. Por outro
lado, dizem estes autores o termo revisão da investigação é utilizado também
quando se avalia a qualidade da investigação. Deste modo sugere-se o uso do
termo "Síntese de Investigação" em vez de "Revisão Sistemática"
Revisão narrativa
É uma revisão qualitativa que fornece sínteses narrativas, compreensivas, de
informação publicada anteriormente. Usualmente os resultados são apresentados
em formato condensado que sumaria os conteúdos de cada artigo dizem Green,
Johnson, e Adams (2006). Comentam estes autores que, enquanto alguns autores
defendem que a revisão deverá incluir uma crítica a cada estudo, outros
defendem que tal não é necessário. Constituem instrumentos educativos úteis
dado juntarem muita informação num formato legível, e apresentarem uma
perspetiva alargada do tópico em revisão. São estudos apropriadas para
descrever e discutir o desenvolvimento ou o "estado da arte" de um determinado
assunto, tanto do ponto de vista teórico como do ponto de vista contextual. As
revisões narrativas não informam as fontes de informação utilizadas, o método
de busca das referências, nem os critérios utilizados na avaliação e seleção
dos trabalhos.São, basicamente, análises da literatura publicada em livros,
artigos de revista impressas ou digitais, baseadas na interpretação e análise
crítica do autor, explica Rother (2007).
Em 1997, Cook, Mulrow, e Haynes explicavam assim as diferenças entre a revisão
sistemática e a narrativa: enquanto a revisão sistemática procura respostas
específicas aprofundadas para questões com frequência muito restritas,
formuladas tomando em consideração a população e contexto, a condição ou doença
de interesse, o tipo de tratamento tal como, p.ex. farmacológico, e os
resultados considerados, a revisão narrativa, pelo contrário, foca um conjunto
alargado de questões relacionadas com um tópico específico (em vez de abordar
uma questão específica em profundidade).
Revisão scoping
O sentido do termo "scoping" pode ser aprofundado, amplo, extenso, abrangente.
Na dificuldade em apresentar uma tradução direta decidiu-se manter o termo
original. Armstrong, Hall, Doyle e Waters (2011), explicam que a revisão
scoping é um processo de mapear a literatura ou evidência existente. Referem
que as diferenças entre a revisão sistemática e a scoping são; a questão
inicial é ampla, aberta, em vez de focada como na revisão sistemática;
critérios de inclusão/exclusão podem ser definidos à posteriori na revisão
scoping, em vez de antes de começar a revisão; a escolha do material a rever
não foca a qualidade da investigação como prioridade inicial; pode ou não
envolver extração de dados; a síntese é fundamentalmente qualitativa e
raramente quantitativa; é utilizada para identificar as variáveis e as lacunas
do corpo da literatura existente.
Arksey e O'Malley, (2005) dizem que as revisões scoping fornecem informação
ampla e aprofundada em vez de focada, sobre toda a literatura existente,
independentemente dos desenhos de estudo, sejam qualitativos ou quantitativos.
Esta é uma das diferenças mais importantes com a revisão sistemática. Estes
autores sugerem que a revisão scoping podia estar integrada num processo de
revisão que forneceria informação inicial para realizar uma revisão sistemática
a posteriori. No entanto pode ser um método útil por si próprio que conduza à
publicação e disseminação do que diz a investigação num campo determinado,
identificando falhas na IBE e PBE existentes. O critério para incluir ou
excluir material de revisão não se baseia na qualidade dos estudos mas antes na
sua relevância. A revisão scoping é exploratória e, enquanto tal, todos os
resultados encontrados acerca do tópico devem ser incluídos. Este método, por
ser mais inclusivo, permite que os investigadores identifiquem lacunas na
investigação existente. O método de revisão scoping inclui a discussão com
especialistas e os interessados no tema, de modo a contextualizar o que se
encontra. Este tipo de revisão pode ajudar a mapear conceitos chave subjacentes
à área de investigação, assim como as principais fontes e tipos de informação
disponível. A revisão scoping é metódica e ordenada podendo ser comparada à
análise qualitativa: em vez de somar e sumariar o que existe, permite uma
compreensão profunda sobre os dados encontrados, do modo como se relacionam uns
com os outros. É esta pretensa sistematização rigorosa que a diferencia da
revisão de literatura usual.
CONCLUSÃO
Todos os procedimentos de revisão de investigação subjacentes à PBE, à PBI, à
IBE, à MBE são rigorosos, úteis, metódicos. Estendem-se dos procedimentos mais
rígidos, com um guião orientador muito detalhado, como no caso das revisões
sistemáticas, matematizadas (meta análise) ou não, aos mais abertos e
qualitativos onde o elemento mais importante é a análise, a avaliação, e a
síntese dos resultados encontrados, ou seja, ao aprofundamento do conhecimento
de uma área com base na opinião e orientação dos autores da revisão, que leve a
uma proposta teórica ou de acção. Todos são apropriados se responderem à
questão inicial para a qual são implementados, e se forem reportados de modo a
que possam ser entendidos e reproduzidos pelos investigadores que acederem a
esses relatórios.
Algumas revistas científicas de psicologia fornecem linhas orientadoras para os
artigos de revisão que lhes são submetidos (Bem, 1995; Fernández-Ríos &
Buela-Casal, 2009; Sternberg,1995). Porque os procedimentos de revisão não são
específicos da psicologia e estão definidos e organizados na literatura
científica, não parece útil prescrever os critérios ou linhas orientadoras
especificas para uma qualquer área ou revista. Hoje, os métodos de revisão
estão suficientemente divulgados e acessíveis de tal modo que é dispensável
inventar outros métodos.
Os diferentes métodos de revisão da literatura são hoje utilizados pelas
diferentes áreas da ciência (Tranfield, et al., 2003) e, por isso, recomenda-se
que a publicação de revisões que são propostas às revistas, sejam
fundamentadas, e ajustadas aos objetivos da revisão e não aos da revista. Uma
vez estes decididos eles devem seguir os padrões que estão definidos e
divulgados na literatura.
Anderson, et al. (2001), no âmbito das ciências sociais, cruzam dois eixos:
rigor da investigação; e relevância da investigação, identificando quatro áreas
resultantes deste cruzamento: A ciência populista, que caracterizam como de
baixo rigor e elevada relevância; A ciência pedante de elevado rigor e baixa
relevância; A ciência pueril que não seria relevante nem rigorosa; Finalmente a
ciência pragmática, que garantiria o equilíbrio entre rigor e relevância. Este
último deverá ser o critério que deve orientar a revisão assim como toda a
investigação científica. Este critério de análise pode aplicar-se a qualquer
área da psicologia e não apenas às revisões.
Todos os métodos de revisão devem ser rigorosos, mas adaptados aos objetivos da
investigação. Se se tratar de identificar a eficiência e a eficácia de uma
intervenção não é possível fugir à revisão sistemática que está descrita e
acessível em várias organizações como a The Cochrane Collaboration, de acesso
fácil em qualquer motor de busca.
A revisão sistemática é apresentada como o método de referência para a
identificação de evidência. No entanto tal não é evidente e é criticado
fortemente, nomeadamente porque se alicerça mais em estatística (RCTs) e menos
na filosofia ou na fisiologia. É provavelmente o procedimento mais eficaz
quando se trata de estudos muito focados tal como a eficiência e eficácia de
medicamentos. Em estudos mais clínicos sem procedimento RCTs, a evidência não é
tão evidente, e o modo de incorporar e evidência na multifacetada decisão e
prática na área da saúde e doenças pode não ser útil (cf. Cohen, et al., 2004).
Para a maior parte dos estudos em psicologia os aspetos estudados e para os
quais se procura evidência, são mais amplos e, por isso, outros métodos de
evidenciar, que não a revisão sistemática poderão ser mais adequados e capazes
de fornecer mais informação, ou, pelo menos, informação mais apropriada, mais
útil.
Um aspeto importante na revisão da literatura é que ela deve contemplar bases
de dados variadas e de diversas línguas. Os manuais e textos de literatura mais
respeitada nos métodos de revisão são explícitos e claros a esse respeito. Por
exemplo, Waddington et al. (2012) afirmam que, "In addition to publication
bias, ideally language bias should be avoided (for example, by using LILACS,
which emphasizes health publications in Spanish and Portuguese) (p.363).
O mesmo é afirmado num manual de referência: em Systematic Reviews (2009) pode-
se ler:
As already discussed, limiting searches to English language papers can
introduce language bias. Large bibliographic databases, such as MEDLINE and
EMBASE, do include a small number of non-English language journals. Using
additional databases such as LILACS (Latin American and Caribbean Health
Sciences Literature) that contain collections of non-English language research
can minimize potential language bias. (p.16)
Infelizmente, é frequente os autores portugueses ignorarem a publicação na sua
língua ou em línguas próximas como o espanhol, ou o francês. Ignorar a
publicação noutras línguas que não a inglesa contribui para um enviesamento
importante da revisão e, provavelmente, produzirá, citando o modelo de Anderson
et al. (2001) publicação pueril.
Para além das línguas utilizadas também se deve ampliar a pesquisa de modo a
incluir outros tipos de publicações não periódicas, como livros, atas de
conferências, relatórios de organizações, monografias, documentação produzida
nos ministérios, agências governamentais, organizações privadas, ONG's, e
outras publicações usualmente designadas por literatura cinzenta (grey
literature, definida como o que é produzido em todos os níveis do governo,
institutos, academias, empresas e indústria, em formato impresso e eletrónico,
mas que não é controlado por editores científicos ou comerciais) (cf. http://
www.greylit.org/), ou outros estudos feitos de modo científico e que incluem
informação relevante. Este tipo de publicações é crescente e acessível através
dos sítios das instituições, tornando-as de fácil consulta, e frequentemente
não se diferenciando, em termos de qualidade, das publicações em revistas
científicas.