Perfil psicossocial de pacientes com síndrome coronariana aguda
ABSTRACT
This study aimed to investigate the psychological and social characteristics of
patients with acute coronary syndrome. We conducted a desk study, exploratory
and cross-sectional quantitative, with 93 protocols psychological evaluation in
a multidisciplinary program of a private hospital of Porto Alegre - RS, from
which we evaluated the clinical data (diagnosis of angina or acute myocardial
infarction, unspecified), demographic (gender, age, marital status,
occupation), psychological (mental state examination, defense mechanisms,
general psychological state) and social support (family support and structure).
The results indicated a significant number of elderly patients (64%), mostly
male (58.1%) and married (66.7%). Regarding the general psychological state,
stood quiet states (52.7%) and anxiety (33.3%). The majority of patients had
mood modulated / euthymic (54.3%) and used the rationalization (31.6%) and
denial (29.9%) as defense mechanisms. Since the investigation of the mental
status exam showed no significant changes. Finally, the support and family
structure were effective. When analyzed the relationships between variables,
only found a relationship between marital status and type of diagnosis,
indicating that married patients have a higher likelihood of acute coronary
syndrome (p = 0.03). Together, the data indicate that it is important to pay
attention not only to physical suffering of patients with coronary artery
disease, but also for the social and psychological issues, as these can
significantly influence the development of the disease and the treatment
thereof.
Key- words - Acute coronary syndrome, coronary artery disease,
psychocardiology, social profile, psychological profile.
As doenças cardiovasculares são bastante incidentes na população mundial sendo
causa de morte e incapacidades físicas. Estima-se que 30% dos óbitos em 2008,
tenham sido causados por doenças cardíacas e acidente vascular cerebral,
segundo dados da Organização Mundial de Saúde (www.who.int). No Brasil, segundo
dados disponibilizados no DATASUS (www.datasus.gov.br), ocorrem,
aproximadamente, 140 mil óbitos por Doença Arterial Coronariana (DAC) por ano,
o que corresponde a cerca de 250 mil infartos por ano. Em comparação com os
dados de outros países, no Brasil o número de pacientes com angina é de, no
mínimo, 1,5 milhão, com incidência aproximada de 50 mil novos casos por ano
(Ferreira & Timerman, 2007).
A DAC é uma patologia cujo processo compromete progressivamente o coração,
possuindo evolução lenta e imprevisível. Portanto, ela é impactante não somente
para o paciente, mas também para a família. Além disso, apresenta-se como
problema público de saúde em grande parte dos países industrializados, trazendo
impedimentos ao desenvolvimento econômico (Sanches & Moffa, 2010), porque a
doença cardíaca, juntamente com outras patologias (acidente vascular cerebral e
diabetes), representa pesados encargos para economia dos países, já que atinge
uma população em idade produtiva, e acarreta mortes prematuras.
A DAC é decorrente da oclusão ou estreitamento das artérias coronárias por
arteriosclerose, provocando diferentes sintomas clínicos. De acordo com Sanches
e Moffa (2010), ela é atualmente dividida em: síndrome coronariana aguda (SCA),
DAC crônica e morte súbita cardíaca. A SCA, foco deste estudo, divide-se em:
angina instável (AI) e infarto agudo do miocárdio (IAM). A angina instável
refere-se a extrema dor no peito devido à diminuição do fluxo sanguíneo para o
coração, ocorrendo, de modo geral, em momentos de esforço exacerbado. O popular
ataque do coração, infarto agudo do miocárdio, ocorre pela falta de suprimento
para o músculo cardíaco, resultando na morte do tecido (Rodrigues & Seidl,
2008). A etiologia da SCA é multifatorial e, conforme Rodrigues e Seidl (2008),
pode ser dividida em fatores de risco não modificáveis (história familiar para
doença arterial coronariana, idade e sexo) e fatores de risco modificáveis
(tabagismo, sedentarismo, obesidade, dislipidemia, diabetes e hipertensão),
porém apenas os primeiros serão considerados neste estudo, pois os segundos se
referem a problemas ou doenças associadas a SCA.
Entre os fatores de risco não modificáveis, é sabido que as SCA apresentam
expressiva morbimortalidade na população idosa e masculina. Segundo o estudo de
Galon et al. (2010), 20,1% dos pacientes coronariopatas têm acima de 75 anos e
são homens. Contudo, a SCA também acomete mulheres, principalmente após
menopausa, quando as alterações anatômicas e funcionais do envelhecimento
juntam-se aos mecanismos fisiopatológicos das doenças cardiovasculares. O IAM,
especificamente, é considerado a maior causa de óbitos em mulheres com mais de
40 anos, além da doença apresentar pior prognóstico, pois o risco de morte nas
primeiras semanas e no primeiro ano após a ocorrência do evento chega a ser
duas vezes maior do que para os homens (Duarte, 2007; Favarato, Favarato, Hueb,
& Aldrighi, 2006). A predisposição genética também vem sendo apontada como
importante fator de risco, sendo que familiares de primeiro grau,
principalmente homens abaixo dos 55 anos e mulheres com menos de 65 anos,
apresentam maior propensão a desenvolver a doença prematuramente (Rabelo,
2001).
Para além dos fatores de risco não modificáveis e modificáveis, Rios-Martínez,
Huitrón-Cervantes e Rangel-Rodríguez (2009) destacaram que condições psíquicas
e sociais também são importantes para a compreensão da doença com vistas a um
melhor tratamento. O estudo INTERHEART já sinalizava que na América Latina os
fatores psicossociais foram relacionados ao aumento de risco de infarto agudo
do miocárdio (40,2%), quando comparados aos demais fatores de risco avaliados
(26,6%) (Avezumet al., 2005 as cited in Jurkiewicz & Romano, 2009). De
acordo com Romano (1998), as doenças cardíacas são sentidas como um rompimento
da vida em sua rotina habitual, acarretando problemas emocionais que, por
vezes, podem dificultar o tratamento, como, por exemplo, resistir a mudanças no
modo de vida e temer o estigma de ser um paciente coronariopata.
O diagnóstico de doença cardíaca aponta para uma enfermidade grave, trazendo à
tona sentimentos de fragilidade, vulnerabilidade e consciência de finitude, já
que passa pela eventualidade de uma morte súbita, sustentada por uma apreensão
realista e não somente imaginária. A doença é uma quebra do equilíbrio
biopsicossocial do indivíduo, e obrigatoriamente remete o paciente à revisão de
valores, ações e desencadeia mecanismos de resgate da condição humana e de suas
relações (Romano, 1998, p.70).
Ruschel (2006) refere que o desequilíbrio emocional é inevitável quando uma
pessoa sente sua integridade ameaçada. Esta perda do sentimento de onipotência
é considerada característica marcante da personalidade do coronariano, segundo
Romano (1998), e faz com que o indivíduo utilize mecanismos de defesa com
intuito de manter seu ego fora de perigo. Em geral, pacientes coronariopatas
tendem a utilizar a negação, a racionalização e a regressão como recursos de
enfrentamento psíquico , bem como expressam alterações emocionais como
ansiedade, agitação e depressão, principalmente na fase aguda do IAM (Ruschel,
2006).
Favarato et al. (2006) se preocuparam em examinar os aspectos psicológicos da
doença cardíaca entre homens e mulheres e apontaram que o impacto é maior em
homens jovens, desencadeando sentimentos de impotência e vulnerabilidade a
partir do surgimento inesperado do adoecimento. Contudo, as mulheres apresentam
pior prognóstico devido à maior prevalência de comorbidades, dentre elas a
ansiedade e a depressão.
Estudos têm assinalado a incidência de ansiedade e de depressão em pacientes
coronariopatas, indicando tais aspectos não somente como déficits funcionais,
mas como fatores de risco complementares (Lemos, Gottschal, Pellanda, &
Muller, 2008; Sardinha, Araújo, Silva, & Nardi, 2011; Sardinha, Nardi,
& Zin, 2009). A ansiedade tem sido um dos estados psicológicos mais
relacionados à SCA. O estudo de Vasconcelos (2007) demonstrou que 77,9% dos
pacientes coronariopatas apresentaram ansiedade média e 22,1% ansiedade alta
após episódio de IAM. Além disso, juntamente com outros fatores, a ansiedade
vem sendo considerada importante para o desenvolvimento da doença arterial
coronariana (Laham, 2008). A depressão, por sua vez, está relacionada à baixa
adesão aos programas de reabilitação cardíaca, bem como a tratamentos
farmacológicos (Laham, 2008).
Além dos aspectos biológicos e psicológicos influentes no desenvolvimento e
enfrentamento da doença cardíaca, o apoio social também tem sido considerado um
fator facilitador para o tratamento e reabilitação cardíaca (Rodrigues &
Seidl, 2008). Cicirelli (1990 as cited in Pinho, 2008), refere o suporte social
de duas formas: apoio social, apoio emocional (suporte emocional, promoção de
autoestima e sentimento de pertencer a um grupo) e suporte instrumental (apoio
financeiro, material e prestação de serviços e cuidados), sendo ambos
importantes e com impactos significativos tanto no enfrentamento como na
superação de problemas de saúde, também relacionado à adesão ao tratamento e à
recuperação de infartados.
Frente ao exposto, torna-se importante averiguar as características
psicológicas, além das sociais, presentes em indivíduos diagnosticados com
síndrome coronariana aguda, a fim de traçar um perfil dos mesmos para melhor
entender quem é o paciente coronariano, qual seu estado emocional geral, quais
recursos de enfrentamento utiliza diante do adoecimento e como é sua rede de
apoio, na busca de desenvolver melhores tratamentos e programas de prevenção. O
objetivo deste estudo foi investigar as características sociais e psicológicas
dos pacientes com síndrome coronariana aguda, atendidos por um programa
multidisciplinar de um hospital da rede privada de saúde de Porto Alegre - RS.
MÉTODO
Trata-se de um estudo documental, de caráter exploratório e transversal, e de
abordagem quantitativa. O uso do protocolo de avaliação psicológica, utilizado
pela equipe de psicologia no programa Top Cardio do Hospital Mãe de Deus,
possibilitou o conhecimento de inúmeros casos e variáveis antecedentes,
concomitantes e consequentes à enfermidade. Assim, ele pode ser considerado um
importante instrumento para pesquisa e fonte dos mais diversos dados
estatísticos de incidência da SCA.
Participantes
O presente estudo foi realizado através da consulta a dados obtidos e
registrados em 93 protocolos de avaliação psicológica dos pacientes que
estiveram internados no Hospital Mãe de Deus, situado em Porto Alegre, no
período de março de 2011 a julho de 2012, considerados lúcidos e orientados no
exame do estado mental e que possuíam um dos seguintes diagnósticos: Angina
Instável (AI) ou Infarto Agudo do Miocárdio não especificado (IAM). Todos eles
pertenciam à lista de pacientes com Síndrome Coronariana Aguda (SCA), do
Programa Top Cardio.
O Top Cardio (Táticas Orientadas ao Paciente Cardiológico) é um programa de
qualidade assistencial, com vistas a excelência no atendimento dos pacientes
portadores de doença cardiovascular, que trabalha com a divulgação de
informações que facilitam o entendimento sobre a doença e o tratamento,
buscando auxiliar na reabilitação cardíaca e na adequação das mudanças no
estilo de vida. Os pacientes são identificados através de uma lista específica,
divulgada por e-mail interno para as áreas de saúde que compõem o programa.
Após identificação, eles são atendidos por uma equipe multidisciplinar composta
por enfermeiros, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos. O
enfermeiro é o profissional responsável pelo atendimento inicial e pela entrega
do folder explicativo do Top Cardio. Após, os demais profissionais prosseguem
com os atendimentos. O protocolo utilizado para coleta de dados deste estudo
foi preenchido e avaliado durante a internação dos pacientes pela equipe do
serviço de psicologia do Hospital Mãe de Deus, composta por dois psicólogos e
dois estagiários que cursavam o penúltimo ou o último semestre do curso de
psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS. Todos eles
receberam adequado treinamento para aplicação do instrumento.
Material
O protocolo de avaliação psicológica foi desenvolvido pela equipe do serviço de
psicologia do Hospital Mãe de Deus para ser aplicado aos pacientes do programa
Top Cardio. Ele é utilizado pelos psicólogos e estagiários de psicologia no
primeiro atendimento desta equipe com o paciente que possui SCA, a fim de obter
dados clínicos e sociodemográficos, e avaliar o estado psicológico e os
mecanismos de defesa utilizados pelo paciente no momento de internação, bem
como sua rede de apoio familiar e social.
O protocolo consiste em um questionário formado, em sua maioria, por perguntas
fechadas, com número reduzido de escolhas para resposta, sendo estruturado e de
codificação simples (Cozby, 2009). No presente estudo foram avaliados os
seguintes dados do protocolo: clínicos (diagnóstico de AI ou IAM),
sociodemográficos (sexo, idade, estado civil e ocupação), psicológicos (exame
do estado mental, mecanismos de defesa, estado psicológico geral) e apoio
social (estrutura e suporte familiar). O exame do estado mental consiste em uma
pesquisa sistemática de sinais e sintomas que podem ou não levar a alterações
do funcionamento mental. As informações são obtidas através da observação
direta da aparência do sujeito e da anamnese. Dentre as variáveis psicológicas
que compõem o exame do estado mental, encontravam-se: consciência (lúcido,
sonolento, confuso, estupor/torporoso), atenção (normoproséxico, hipovigil,
hipervigil, hipotenaz, hipertenaz), sensopercepção (sem alterações, alucinações
auditivas, alucinações visuais, outras, pseudo-alucinações, ilusões,
despersonalização, despessoalização), orientação (orientado, desorientado
autopsiquicamente, desorientado alopsiquicamente), memória (preservada, déficit
' imediata, recente ou remota), humor (eutímico/modulado, eufórico, depressivo,
depressivo maior, reativa, lábil, ansioso, irritável, expansivo), afeto
(adequado, restrito, embotado, rigidez, ambivalência), pensamento (curso '
preservado, inibido, fuga de ideias, acelerado, bloqueio, desagregado; produção
' lógico, mágico, ilógico; conteúdo ' preservado, delírio, pobre, ideias
supervalorizadas, obsessões, fobias, ideação suicida, ideação homicida),
conduta (adequada, auto-agresiva, dissociativa, hetero-agressiva, bizarra,
agressiva, sedutora, dramática, risos imotivos, pueril, choro imotivado,
promiscuidade, uso de drogas, inadequada, ambivalente), linguagem (normolálica,
afasia, bradilálica, taquilálica, mutismo) e juízo crítico (sem alterações,
prejudicado, insight intelectual, insight verdadeiro). Já os mecanismos de
defesa eram classificados em: humor, negação, racionalização, sublimação,
projeção, controle, deslocamento, formação reativa, repressão, regressão e
outros, que deveriam ser especificados caso fossem assinalados. Para o estado
psicológico geral, eram consideradas as categorias: deprimido, ansioso,
agitado, tranquilo e confuso. A estrutura familiar, por sua vez, era avaliada
como organizada, apoiadora, compreensiva, desorganizada, presente nas vistas e
boletins médicos ou conflituosa, e o apoio social, qualificado de acordo com o
suporte familiar recebido, que podia ser classificado em eficiente e
ineficiente.
Procedimento
O presente estudo seguiu as recomendações éticas para realização de pesquisas
com seres humanos de acordo com as orientações da Resolução 196/1996 do
Conselho Nacional de Saúde, bem como da Resolução 16/2000 do Conselho Federal
de Psicologia. Cabe destacar que não foi necessária a utilização do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) junto aos participantes, por tratar-se
de um estudo que utilizou apenas base de dados como fonte de informação. De
qualquer modo, a privacidade dos pacientes foi preservada, mantendo-se o
anonimato. Destaca-se que este estudo foi avaliado e devidamente aprovado pelos
Comitês de Ética do Hospital Mãe de Deus (Protocolo Nº 560/12) e da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Protocolo Nº 12/078).
Os dados foram coletados tendo como fonte os protocolos de avaliação
psicológica, preenchidos a partir do primeiro atendimento ao paciente pela
equipe do serviço de psicologia do hospital. Reuniu-se 93 protocolos de
pacientes que foram atendidos pelo programa Top Cardio no período de março de
2011 a julho de 2012. A partir desses, foi realizada uma análise estatística
descritiva e inferencial dos dados sociais e psicológicos. Os dados foram
processados e analisados no programa StatisticalPackage for Social Science
(SPSS), versão 19.
RESULTADOS
Inicialmente, são expostos os dados descritivos, considerando cada grupo,
classificado pelo diagnóstico (Angina Instável - AI e Infarto de Agudo do
Miocárdio - IAM) e também a amostra como um todo (SCA). Por fim, também são
apresentados os dados resultantes da análise do teste qui-quadrado. No quadro_1
são apresentadas a características sociodemográficas de cada grupo.
Com relação ao diagnóstico, foram identificados mais pacientes com IAM do que
com AI, sendo maioria de homens com IAM e de mulheres com AI. A SCA mostrou-se
bastante incidente em pacientes com idade de 50 a 79 anos, sendo que o
diagnóstico de AI foi prevalente entre as pessoas na faixa etária de 60 a 79
anos e de IAM entre as pessoas na faixa etária de 50 a 69 anos. Em relação ao
estado civil, encontrou-se maior incidência de casados ou que viviam em união
consensual em ambos os diagnósticos. Quanto à ocupação, destacaram aqueles que
eram profissionalmente ativos (49,5%) e aposentados (40,9%), sendo a maioria de
profissionais ativos com diagnóstico de IAM e de aposentados com AI.
As características psicológicas referentes ao exame do estado mental, aos
mecanismos de defesa e ao estado psicológico geral são apresentadas no quadro
21. Cabe destacar que, com relação ao exame do estado mental e aos mecanismos
de defesa, era possível eleger mais de uma opção no protocolo de avaliação,
portanto, há diferenças no valor do N total desses itens.
Como visto, em relação ao exame do estado mental observou-se que todos os
pacientes investigados possuíam consciência lúcida, estavam orientados, com
atenção normal (normoproséxico), senso-percepção sem alterações e memória
preservada. Quanto humor, a maioria dos pacientes apresentou humor eutímico/
modulado em ambos os diagnósticos (AI = 52%; IAM = 56,6%). O afeto estava
adequado em 92,5%, restrito em 6,4% e embotado em somente 1,1% dos pacientes. O
pensamento apresentou produção lógica em todos os casos, curso preservado em
98,9%, curso inibido em 1,1%, conteúdo preservado em 98,9% e ideias
supervalorizadas em 1,1% dos casos. A conduta, por sua vez, foi avaliada como
adequada (100%). A linguagem mostrou-se normal em 97,8% dos sujeitos e
bradilálica em 2,2%. Por fim, quanto ao juízo crítico, apresentaram-se sem
alterações 96,8% dos pacientes, com insight intelectual 2,1% e com insight
verdadeiro 1,1%. Tais resultados demonstraram que não foram encontradas
alterações significativas em relação ao exame do estado mental.
Referente aos mecanismos de defesa observou-se que os mais utilizados pelos
pacientes foram à racionalização (31,6%), a negação (30%), o controle (14,1%) e
o deslocamento (9%), considerando que, em geral, foram assinaladas mais de uma
opção no protocolo, totalizando 234 marcações. Dentre outros mecanismos de
defesa, apareceram: humor (6,4%), projeção (4,3%), sublimação (0,8%) e outros
(3,8%). Em ambos os diagnósticos, a racionalização e a negação destacaram-se
como principais. Com relação ao estado psicológico geral, os indivíduos
mostraram-se tranquilos (52,7%), no entanto, também de forma importante notou-
se pacientes com estado psicológico geral ansioso (33,3%). Dentre outros,
destacou-se o estado deprimido (7,5%) e agitado (6,5%), estes dois últimos
grupos com prevalência no diagnóstico de IAM.
O quadro_3 apresenta os dados relacionados ao apoio social, a saber: suporte
familiar e estrutura familiar, sendo que nesta última também era possível mais
de uma marcação.
Relacionado ao apoio social foi possível observar o suporte familiar eficiente
para a maioria dos casos (93,2%). Contudo, em cinco protocolos tal aspecto não
pôde ser avaliado no momento do seu preenchimento. As famílias apresentaram-se
organizadas em 31,7% dos casos, apoiadoras em 33%, presentes em 17,2% e com
compreensão do quadro clínico em 14,5%.
Por fim, considerando o conjunto dos dados, foi realizado o teste qui-quadrado
para verificar a relação entre as variáveis. Constatou-se relação significativa
apenas entre o estado civil e o diagnóstico, indicando que pessoas casadas tem
maior probabilidade de serem diagnosticadas com AI ou IAM [X2(3, N= 93) = 9,04,
p= 0,03], seguidos dos viúvos, solteiros e divorciados.
DISCUSSÃO
O perfil psicossocial de pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) ainda
tem sido pouco investigado. Sabe-se da grande incidência dessa doença, no
entanto pouco se conhece sobre os aspectos emocionais dos acometidos e como a
enfrentam, considerando que é bastante temerosa na sociedade ocidental atual.
As doenças cardíacas são uma das principais causas de morte em homens acima dos
65 anos, mas também em mulheres acima dos 75 anos. Da mesma forma, o IAM ocorre
com maior frequência em idosos, ocasionando maior mortalidade do que em
indivíduos mais jovens (Pinho, 2008). No presente estudo verificou-se que a
maioria dos pacientes com SCA eram também homens e idosos, assim como em outros
estudos encontrados na literatura (Carvalho, 2006; Dessotte, Dantas, Schmidt,
& Rossi, 2011; Galon et al., 2010; Lemos, Davis, Moraes, & Azzolin,
2010). Além disso, Romano (1998) refere que esta enfermidade, de modo geral,
ocorre em pessoas profissionalmente ativas, corroborando os dados do presente
estudo que indicaram pacientes em plena atividade profissional, principalmente
aqueles com diagnóstico de IAM. Demonstrou-se, ainda, uma grande incidência em
pacientes casados, o que está de acordo com outras pesquisas (Dessotte et al.,
2011; Lemos et al., 2010; Vasconcelos, 2007).
No que se refere aos aspectos psicológicos, verificou-se que grande parte dos
pacientes possuía estado psicológico geral tranquilo, fato igualmente
constatado por Romano (1998) no estudo em que observou o estado de
tranquilidade em pacientes coronariopatas internados em unidades de terapia
intensiva. A autora relacionou tal fato ao mecanismo de defesa negação, também
evidenciado neste estudo, e explicou-o como uma atitude defensiva relacionada à
angústia de morte, provocada pela situação de adoecimento e hospitalização. Ela
ainda apontou a negação como um recurso positivo, para alguns casos, na medida
em que atenua o impacto da doença durante a fase inicial, minimizando o
sofrimento e possibilitando uma aceitação gradativa do quadro clínico.
Nesse sentido, pode-se pensar da mesma forma em relação ao estado de humor
modulado/eutímico, o qual foi bastante evidente neste estudo. Considerando que
o humor é o estado emocional basal e difuso em que se encontra a pessoa em
determinado momento (Dalgalarrondo, 2008, p. 155), a negação e a
racionalização manifestadas puderam ter influencia sobre o humor dos pacientes
investigados, amenizando a ameaça ao ego que a doença representa e, por
consequência, não alterando o estado de humor.
Oliveira, Sharovsky e Ismael (1995) também referiram que pacientes
coronariopatas tendem a utilizar negação e racionalização como recursos de
enfrentamento. De acordo com Romano (1998), esses mecanismos podem estar
presentes, não somente durante a internação hospitalar por doença cardíaca, mas
também anteriormente ao evento, pela dificuldade em aceitar o adoecimento,
deixando de buscar a ajuda necessária quando na ocasião dos sintomas. Tal
dificuldade de aceitação traz consequências ao tratamento e à reabilitação,
podendo agravar o quadro clínico e levar à morte (Ruschel, 2006).
O paciente com AI ou IAM, em razão dos avanços da medicina e eficientes
tratamentos, consegue ter seus sintomas reparados, permitindo enganar-se sobre
sua real situação, o que muitas vezes o leva a não mudar os hábitos necessários
para reabilitação. Ele pode seguir sem controlar os fatores de risco
modificáveis e continuar a ter uma vida estressante, má alimentação, entre
outros fatores de risco (Ruschel, 2006), além de não cuidar de seu estado
emocional. Entende-se que o controle desses fatores estaria relacionado à
aceitação da doença e sua consequente fragilidade, portanto segue-se negando-a,
a fim de poupar-se do sofrimento pela situação ocorrida. Além disso, é
importante verificar se os mecanismos de enfrentamento utilizados permitem ao
paciente compreender a sua realidade, o que beneficiará a adesão ao tratamento,
conservando a ansiedade a níveis suportáveis (Carioni Filho, 2006).
No que diz respeito ao estado psicológico geral e também ao estado de humor,
destaca-se que a ansiedade foi notória. Alguns autores relacionaram a ansiedade
à doença cardíaca (Laham, 2008; Ruschel, 2006; Vasconcelos, 2007),
identificando-a como uma reação de defesa na tentativa de manter o equilíbrio
do sujeito. De acordo com Laplanche e Pontalis (2001, p. 107), defesas são um
conjunto de operações cuja finalidade é reduzir, suprimir qualquer modificação
suscetível de pôr em perigo a integridade e a constância do indivíduo
biopsicológico. Portanto, quando a doença coronariana surge inesperadamente e
interrompe a rotina normal da vida, a ansiedade é acentuada e a negação é
utilizada na busca de reduzir a apreensão sobre o ocorrido (Oliveira et al.,
1995). Por outro lado, quando o humor ansioso é observado, pode-se também
pensar que os mecanismos de defesa utilizados estão permitindo que o paciente
entre, de algum modo, em contato com a realidade da doença. Assim, ele se
permite vivenciar os sentimentos despertados devido à magnitude de mudanças que
a enfermidade implica na rotina habitual e familiar, bem como enfrentar o seu
prognóstico.
Os aspectos considerados no exame do estado mental em pacientes com SCA, como
atenção, afeto, sensopercepção, linguagem, conduta, juízo crítico, memória,
humor, pensamento, não foram encontrados em pesquisas documentadas na
literatura da área. No presente estudo, notou-se que grande parte dos
indivíduos não apresentava alterações importantes nesses aspectos,
demonstrando, em sua maioria funções psíquicas adequadas e íntegras e aspectos
cognitivos preservados no momento da internação. Em todos os casos a memória
mostrou-se preservada. A capacidade de registrar, fixar e trazer à tona
experiências já ocorridas está proximamente relacionada com a afetividade o
nível de consciência e de atenção. Da mesma forma, a orientação que é a
capacidade de situar-se quanto a si e ao ambiente requer a integração das
funções de atenção, percepção e memória. Considerando que somente foram
avaliados pacientes orientados e com consciência lúcida, torna-se justificável
que a memória e a atenção estivessem preservadas e a sensopercepção sem
alteração, sendo esta faculdade a de perceber e interpretar os estímulos que se
mostram aos órgãos dos sentidos (Cordioli, Zimmermann, & Kessler, 2004).
Quanto ao afeto, definido como o sentimento subjetivo e imediato das emoções do
paciente, que abrange desde sentimentos relacionados a pessoas e ambientes até
recordações de fatos e experiências, assim como expectativas para o futuro
(Cordioli et al., 2004), constatou-se que houve algumas alterações. Alguns
pacientes apresentaram-se como tendo afeto restrito e embotado, mas na maioria
dos casos ele foi adequado.
A linguagem, por sua vez, é fundamental na execução e na elaboração do
pensamento, além da função comunicativa e da expressão de sentimentos na forma
verbal ou não verbal (Dalgalarrondo, 2008). A linguagem bradilálica apareceu em
uma pequena percentagem dos pacientes, especificamente naqueles com diagnóstico
de AI. Esse tipo de linguagem se mostra de forma lenta e de difícil compreensão
e está associada a quadros depressivos graves. Assim, ela pode estar
relacionada a pacientes que apresentavam estado psicológico deprimido ou humor
depressivo (Dalgalarrondo, 2008).
Com relação ao juízo crítico, é a partir dele que os indivíduos asseguram seu
contato com o ambiente e distinguem a verdade do equívoco, afirmando a
existência de um objeto, bem como discernem uma qualidade da outra
(Dalgalarrondo, 2008). Refere-se, ainda, à possibilidade de se auto-avaliar de
forma adequada e possuir uma visão realista de si, suas dificuldades e
qualidades. Notou-se, no presente estudo, que pacientes com IAM tiveram
alterações relacionadas ao juízo crítico quando comparados aos sujeitos com AI,
apresentando mais insight verdadeiro e intelectual. O insight é uma forma mais
complexa de juízo, que exige maior grau de autoconhecimento no que se refere ao
aspecto emocional, a doença e suas consequências na vida em geral (Cordioli et
al., 2004).
No tocante à conduta, ela apresentou-se adequada em todos os pacientes de ambos
diagnósticos. A conduta diz respeito aos comportamentos observáveis das
pessoas, atitudes, gestos, impulsos, verbalizações, entre outras. Já o
pensamento, engloba diversos dos aspectos do exame mental, como memória,
sensopercepção e a própria consciência. Ele é o conjunto integrado de funções
capazes de associar estímulos internos e externos, julgar, sintetizar, criar,
analisar e abstrair. De acordo com Cordioli et al. (2004), o pensamento é
dividido em produção, curso e conteúdo. No presente estudo todos os pacientes
apresentaram pensamento de produção lógico, ou seja, coerente e de fácil
compreensão. Em relação ao curso mostrou-se inibido em apenas um indivíduo com
diagnóstico de AI, sendo o mesmo referente à quantidade de ideias que vem ao
pensamento, neste caso escassas. Os demais pacientes apresentaram curso de
pensamento preservado. Da mesma forma, o conteúdo do pensamento, que é relativo
às ideias propriamente ditas e sua conexão ou não com a realidade, esteve
preservado na maioria dos pacientes. Apenas um indivíduo com IAM apresentou
ideias supervalorizadas. De modo geral, o exame do estado mental demonstrou não
haver alterações significativas nas funções psíquicas dos pacientes, o que
indica que os indivíduos avaliados não apresentavam transtornos psiquiátricos e
neurológicos aparentes.
Por fim, foi possível constatar que o suporte familiar efetivo foi prevalente,
corroborando o estudo de Silvério, Dantas e Carvalho (2009), que verificaram um
elevado nível de apoio, percebido pelos pacientes por parte de familiares e
amigos, preservando os doentes de fortes emoções e evitando aborrecimentos, com
o intuito de protegê-los. Conforme Rodrigues e Seidl (2008), a família exerce
papel fundamental no que se refere ao ajustamento psicológico do paciente, bem
como no manejo dos sintomas da enfermidade.
Também é plausível supor que o fato de os participantes do presente estudo
serem pacientes de um hospital da rede privada, referência em saúde na cidade
de Porto Alegre, pode haver maior esclarecimento por parte da família sobre a
importância de uma rede de apoio no momento da hospitalização e de todos os
cuidados envolvidos. Embora não se tenham componentes que refiram à
escolaridade dos membros da família, pode-se levar em conta o contexto social
no qual estão inseridos.
Cabe destacar, ainda, que o presente estudo verificou a relação entre o
diagnóstico e o estado civil, indicando que os pacientes casados eram os que
mais apresentavam o diagnóstico de SCA (p= 0,03). Ruschel (2006) refere que um
dos eventos que pode influenciar o desenvolvimento da SCA são as crises
conjugais. O estresse familiar, entre os quais se encontram os relativos à
conjugalidade, também foi apontado por Pietrobon (2012) como podendo acentuar o
prognóstico e desenvolvimento das doenças coronarianas. Além do trabalho e do
suporte financeiro, o sujeito casado deve prestar apoio e atenção à família,
podendo ter uma vida mais estressante e agitada, ficando, assim, mais
vulnerável à má alimentação, sedentarismo, entre outros fatores de risco.
Assim, pode-se pensar que as pessoas casadas estão, de alguma forma, mais
suscetíveis a fatores que comprometem a sua saúde, pelo menos no que diz
respeito às doenças coronarianas.
Com relação às demais variáveis não houve relações significativas, considerando
que um resultado não significativo estatisticamente indica que é provável que
as diferenças encontradas sejam casuais. Portanto, pode-se pensar que a doença
coronariana está relacionada a um conjunto de fatores de risco, que, quando
analisados isoladamente, podem não resultar em uma explicação estatisticamente
significativa, a qual indique que a diferença seja confiável, sendo pequena
(menor que 5%) a probabilidade de o resultado ser espúrio.
Como limitações do presente estudo, destaca-se a utilização do protocolo de
avaliação psicológica, que é um instrumento validado apenas no serviço de
psicologia do referido hospital, preenchido de acordo com a percepção do
próprio psicólogo ou estagiário de psicologia, o que pode ter interferido na
avaliação devido a cada profissional possuir uma percepção individual, embora
semelhante quanto ao embasamento teórico-clínico. Além disso, é importante
ressaltar que os aspectos psicológicos, funções psíquicas, mecanismos de defesa
e apoio social, verificados neste estudo, podem ter sofrido alterações ao longo
da internação, fato que não foi posteriormente investigado. É sabido que a
doença e a hospitalização são parte de um processo que pode ter variações nos
aspectos emocionais, biológicos e sociais.
Visto que a doença arterial coronariana, em especial a SCA, é considerada causa
de morte e incapacidades, destaca-se a importância de continuar investigando,
para além das questões biofisiológicas, o perfil psicológico e social destes
pacientes. Por isso, os portadores deste diagnóstico devem ser vistos de forma
integral pelos profissionais da saúde, que, muitas vezes, acabam considerando
os aspectos emocionais e sociais menos relevantes durante o processo de
internação hospitalar ou tratamento ambulatorial. Assim, é importante o
acolhimento a esses pacientes e suas famílias com vistas a desenvolver
intervenções e programas de saúde específicos que levem em conta os aspectos
singulares destes sujeitos em sofrimento físico e psicológico, compreendendo
que aspectos psicológicos, mecanismos de defesa e apoio social podem
influenciar significativamente no desenvolvimento da doença arterial
coronariana e no tratamento da mesma.