Qualidade de vida e suporte social dos utentes da rede cuidados domiciliários
ABSTRACT
The perceived quality of life (QdV), social support (SS), and the relations
with functional independence level on the daily activities (AVD) and on social-
demographic features were evaluated in 60 users of the home-served RNCCI, in
Algarve, through the Independence index of the AVD, WHOQOL-Bref, Arizona Social
Support Interview Schedule and demographic questionnaire. Elder partially
dependent domiciled women perceived greater need and satisfaction in emotional
support, with family members, as a source of material support. High
environmental perception low QdV averages were observed. WHOQOL-Bref presented
good reliability. Emotional support and satisfaction, the physical and
psychological QdV and the overall network were determined to be positively
correlated, on the same support and social relationships. Partially dependent
women perceived a better physical QdV. Have a spouse correlated better with the
environmental QdV and with greater need of material support perceived.
Independence levels correlated positively with the dimensions of the SS
perceived with the environment, and negatively with the physical and the
psychological of the QdV. Aging and population dependency are global, national
and local, hence the importance of the dissemination of this study as a moment
of ponderation towards a more holistic sense of such concepts associated to
quality and social support.
Key- words- dependency; domicile; aging; quality of life; social support.
O envelhecimento demográfico é uma das tendências mais significativas do século
XXI. Projeta-se mundialmente em 2050, cerca de 2 bilhões de pessoas com 60 anos
ou mais (Pires, Dias, Couto & Castro, 2013). Fenómeno particularmente
visível na Europa, como a região mais envelhecida do mundo, com 16% de idosos,
em que Portugal figura em 5º lugar com 19% (Population Reference Bureau, 2012).
A II Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento, conceptualizou o envelhecimento
ativo, como processo de otimização de oportunidades de vida saudável,
participação social e segurança em atividades socialmente produtivas, no
sentido de aumentar a qualidade de vida (QdV) na população envelhecida
(Organização Mundial da Saúde, 2005). Estes pilares do envelhecimento, implicam
autonomia e independência nas atividades de vida diária (AVD), tornando-se
fundamentais, para a perspetiva do idoso em termos de QdV e satisfação, com o
seu ambiente social e físico (Paúl, Fonseca, Martin & Amado, 2005).
A diminuição progressiva de autonomia física e cognitiva consequente ao
envelhecimento, são uma realidade em Portugal. Com efeito, a Equipa de Cuidados
Continuados Integrados (ECCI) (2007) estimou que cerca de 600 000 idosos se
tornem dependentes funcionalmente nas AVD ao longo das suas vidas. Situação que
trouxe consigo, a necessidade aumentada na procura de cuidados sociais e de
saúde, tornando-se premente, o desenvolvimento e adaptação estruturais nos
serviços de saúde e de apoio social de modo a dar várias respostas, novas
alternativas, que respondam às necessidades do idoso/pessoa dependente/família.
Algumas destas respostas, vieram com o Programa Nacional para a Saúde das
Pessoas Idosas (Direção Geral da Saúde, 2004), ao enfatizar a manutenção de
independência, QdV e recuperação global do idoso, inserido no domicílio e
ambiente habitual de vida. Aprovada a estrutura da Rede de Cuidados Continuados
pelo Decreto-Lei n.º 281/2003, é objetivada a prestação de cuidados de saúde e
sociais pelo acompanhamento, manutenção e/ou recuperação da autonomia do idoso
dependente.
Neste sentido, o Decreto-Lei nº 101/2006 regulamenta a (re) organização da
RNCCI, em unidades de dia, de internamento, e em equipas domiciliárias. Esta
reforma, implicou alterações neste tipo de rede, criando-se as ECCIs,
prestadoras de serviços domiciliários promotores de melhor QdV no idoso/pessoa
dependente, cuja situação não exige institucionalização, mas que impossibilite
a deslocação do lar (Unidade de Missão de Cuidados de Continuados Integrados,
2013).
A preocupação com a avaliação da QdV na perspetiva do idoso/pessoa dependente,
tem emergido exponencialmente. Embora ainda, inexista um consenso sobre o seu
significado, há unanimidade científica em a referir, como a perceção que a
pessoa tem da sua posição na vida, sistemas cultural e de valores em que se
insere, relacionados com os seus objetivos, expetativas e preocupações (The
WHOQOL Group, 1997), sendo um fator importante na manutenção da integridade
física e mental no seu ciclo vital (Inouye, Barham, Pedrazzani & Pavarini,
2010).
Para uniformizar estes aspetos e conferir estatuto científico ao conceito de
QdV, o WHOQOL Group (1998a, 1998b) definiu o conceito com precisão, criando
instrumentos que o avaliam subjetivamente. Em Portugal, sofreram revisões no
seu desenvolvimento, estudos psicométricos e aplicação (Canavarro et al., 2006;
Vaz Serra et al., 2006a, 2006b).
A QdV no envelhecimento e na dependência, apresenta associação direta com as
condições ambientais facilitadoras de adoção de comportamentos adaptativos com
a QdV percebida e com o sentido de autoeficácia (Irigaray & Trentini,
2009). Esta auto-perceção de capacidade funcional é um dos conteúdos primários
da QdV, com forte associação a fatores demográficos, psicossociais, de saúde, e
de suporte social (SS) (Fonseca & Rizzotto, 2008).
Este é, um construto pluridimensional que avalia duas dimensões, consideradas
em três tipos de apoio. Este estudo, analisou o SS percebido (suporte que a
pessoa indica ter disponível quando dele precisa), pois o seu impacto na saúde
é maior, do que o recebido (Macedo, Nunes, Costa, Nunes & Lemos, 2013;
Nunes, Lemos, Costa, Nunes & Almeida, 2011; Nunes, Lemos, Nunes &
Costa, 2013). É consensual, a existência de relação significativamente positiva
entre o SS percebido e a QdV (Lachman & Agrigoroaei, 2010).
O suporte de apoio em rede, ajuda o idoso/pessoa dependente e família, nos
cuidados de saúde, trabalhos domésticos, assuntos administrativos e
financeiros, se necessário A saúde física, o bem-estar mental e as funções
sociais destas pessoas, tem efeitos positivos decorrentes das respostas dadas
pela rede de SS, sendo assim determinante para um envelhecimento bem-sucedido
(Alarcão & Sousa, 2007). Estudo que relaciona o apoio social e a saúde do
idoso conclui, que uma boa saúde está associada a um bom nível de QdV, e que o
SS percebido, é facilitador de recuperação, afetando positivamente a perceção
dessa mesma qualidade (Low, Molzahn & Schopflocher, 2013). Nesta linha de
ideias, são fundamentais, mais estudos portugueses que relacionem o SS e a QdV
na ótica do idoso/pessoa dependente em ambiente domiciliário, para que os seus
resultados possam demonstrar a importância positiva desta relação e assim,
direcionar programas promotores de saúde, e facilitar a implementação de
políticas de saúde que respondam às necessidades particulares desta população
específica.
O presente estudo, pretendeu analisar o nível de QdV e o da rede de SS
percebidos, e a sua relação com as características sociodemográficas e o nível
de independência funcional (NIF) nas AVD, em utentes inscritos na RNCCI
(domiciliários) no Algarve.
MÉTODO
Participantes
A amostra de conveniência constitui-se por 60 pessoas inscritas na RNCCI
(domiciliários), distribuída pelas ECCIs, de Olhão com 18 (30%), Faro 13
(21,7%), Portimão 11 (18,3%), Lagoa 6 (10%), Silves 5 (8,3%), Loulé 4 (6,7%), e
Quarteira com 3 (5%). Os critérios de inclusão dos participantes, incluíram ter
capacidades cognitivas que viabilizassem o preenchimento dos instrumentos de
avaliação, usufruir do apoio das ECCIs do Algarve e consentir voluntariamente
em participar no estudo: 33(55%) eram do sexo feminino e 27 do masculino (45%),
com idades entre 36-94 anos (M=75,65; DP=11,62), distribuídas por 27 (45%) com
=80 anos, classificado como muito idoso(a), 23 (38,3%), entre =65 e <80 anos em
idoso(a) e 10 (16,7%) com <65 anos em adulto(a). A amostra, no estado civil,
distribuiu-se por 33 (55,1%) casado(a), 20 (33,3%) e 7 (11,6%) solteiro(a) ou
divorciado(a)/separado(a), e na situação laboral em 95% (n =57) reformado(a) e
5% (n=3) noutra situação (desempregado/a ou de baixa médica). Na coabitação,
54,4% (n=31) vivia com o cônjuge, 29,8% (n=17) com familiares diretos, 12,3%
(n=7) sozinho(a) e 3,5% (n=2) com outros.
No que concerne ao NIF nas AVD, 37 (60,3%) encontravam-se parcialmente
dependentes, 12 (20,7%) totalmente independentes e 11 (19%) totalmente
dependentes.
Material
Foi utilizado um questionário sociodemográfico que permitiu recolher dados
relativos à idade, sexo, estado civil, coabitação e situação laboral.
O NIF foi avaliado pelo Índice de Independência nas AVDde Katz e Akpom (1976),
seguindo um protocolo específico, que avalia a autonomia física e os resultados
do tratamento e prognóstico em idosos e doentes crónicos (Wallace &
Shelkey, 2008). Este protocolo, segue uma categorização alfabética por cada
tipo de independência/dependência nas AVD. Seguiu-se este protocolo,
questionando os participantes numa escala de Sim/Não para a sua independência
em cada AVD, pontuada em 0 para independente e 1 para dependente. Somou-se o
número de atividades em que o participante era dependente, considerou-se o
score 0 para independência total, 1 dependência parcial com ajuda de
acessórios, 2 dependência parcial com ajuda humana, e 3 dependência total. Para
apresentação dos resultados, categorizaram-se os participantes em totalmente
independente (em todas as atividades), parcialmente dependente (em 2 a 5
atividades) e totalmente dependente (em todas as atividades).
A QdV foi avaliada através do WHOQOL-Brefversão portuguesa de Vaz Serra et al.,
(2006b). Este instrumento avalia a QdV nos seus diferentes domínios (físico,
psicológico, relações sociais e ambiente) e o nível geral de perceção da QdV e
o nível de saúde, não contabilizadas nos restantes domínios. A escala de
resposta é do tipo Likert pontuada de 1 a 5, cujos resultados nos domínios são
calculados pela média aritmética, para as facetas dos resultados obtidos nas
questões que constituem o instrumento. A pontuação total e por domínio são
convertidas numa escala de 0 a 100 pontos, em que valores mais elevados estão
associados a uma avaliação mais positiva de QdV.
O SS percebido foi avaliado pela Arizona Social Support Interview Schedule
(ASSIS) de Barrera adaptado por Nunes et al. (2011). É um guia de entrevista
com 27 itens, que medem o tamanho disponível e a composição da rede, na
necessidade e satisfação percebidas com o suporte recebido, no apoio emocional,
material e informativo, numa escala de 1 (nenhuma necessidade/satisfação) a 10
(total necessidade/satisfação).
Procedimento
Estudo quantitativo, tipo descritivo e correlacional, com recorte transversal.
A recolha de dados ocorreu entre fevereiro e março de 2011, após obtenção da
autorização da ARS Algarve e o consentimento informado dos participantes.
A descrição das variáveis foi realizada por frequências absolutas e relativas,
bem como média e desvio padrão. Para comparação dos valores das variáveis foram
utilizados o teste Mann-Whitney e o de Kruskal-Wallis, uma vez que as variáveis
apresentaram distribuição não normal. Comparações estatísticas entre a QdV e
SS, variáveis sociodemográficas e o NIF nas AVD, foram realizadas pelos
coeficientes de correlação de Pearson e Spearman. Para análise dos dados, foi
utilizado o programa SPSS para ambiente Windows, versão 19.
RESULTADOS
Verificou-se, que a maioria dos participantes são mulheres muito idosas,
casadas, vivem com o cônjuge, reformadas e parcialmente dependentes nas AVD. Na
constituição das redes de SS, os familiares emergiram como a sua única fonte, e
através destes, os participantes percecionaram maior apoio material (84,7%),
informativo (73,3%) e emocional (66,7%). O conjunto de familiares e amigos, foi
a fonte da rede percecionada, no apoio emocional (30%), informativo (18,3%), e
material (11,9%). Fontes de apoio informativo foram, só os amigos (6,7%), e a
combinação com os profissionais (1,7%).
As médias mais elevadas do SS, apresentaram-se na necessidade de apoio
emocional (M=4,29; DP=2,08) e material (M=3,56; DP=2,44), a mais baixa no
informativo (M=1,98; DP=1,59). Médias da satisfação com o apoio emocional
(M=6,1; DP=2,65), material (M=4,36; DP=2,7) e informativo (M=3,26; DP=3,04),
mostraram satisfação com o SS.
Nos valores das médias dos domínios da QdV, foram o ambiente (M=50,1; DP=11,6),
psicológico (M=48,8; DP=15,7) e relações sociais (M=47; DP=18) os níveis mais
elevados, e o físico (M=34; DP=16,3) os mais baixos. A consistência interna da
versão portuguesa do WHOQOL-Bref aplicada à amostra, apresentou valores de alfa
de 0,89 nos 26 itens, 0,83 no domínio físico, 0,79 no psicológico, 0,72 no
ambiente e 0,69 nas relações sociais.
O quadro_1 sugere a existência de correlações significativas (p<0,05) entre a
satisfação no apoio emocional do SS percebido e o domínio físico e o
psicológico da QdV, e entre o total da rede no apoio emocional e nas relações
sociais da QdV.
A análise da significância da influência das variáveis sociodemográficas e o
NIF nas AVD, nos domínios da QdV e dimensões do SS percebido, confirma a
existência de diferenças significativas (p=0,04) entre o sexo e a QdV, em que
as mulheres apresentaram nível mais elevado no domínio físico da QdV (M=37,28;
DP=16,02). No estado civil, considerando-se duas categorias, agrupadas em
solteiro(a)/viúvo(a)/divorciado(a)/separado(a), e em com cônjuge e sem
cônjuge, verificou-se diferenças significativas positivas entre estes grupos
no domínio ambiente da QdV (p=0,01) com a necessidade de apoio material
(p=0,04) no SS, verificando-se serem as mulheres com cônjuge a percecionarem
melhor QdV (M=53,22; DP=11,24) com nível superior de necessidade de apoio
(M=40; DP=2,3).
No quadro_2, observa-se a existência de diferenças significativas positivas
entre o NIF nas AVD e a perceção de necessidade (r=0,47; p<0,01) e de
satisfação no apoio material(r=0,26; p<0,05) do SS, e correlações
significativas negativas com o domínio físico (r=-0,36; p<0,01) e o psicológico
(r=-0,35; p<0,01) da QdV. A faixa etária não apresentou relações significativas
com o SS e com a QdV.
DISCUSSÃO
Os resultados da caracterização sociodemográfica da amostra deste estudo,
retratam mulheres muito idosas, casadas, a viverem com o cônjuge e reformadas.
Perfil este, globalmente apresentado noutro estudo (Paskulin, Córdova, Costa
& Vianna, 2010). Alguns aspetos específicos, também são consistentes, o
agravamento da dependência aumenta com a idade e assim diminui a autonomia
(Rosa, Benício, Latorre & Ramos, 2003), as mulheres são mais dependentes,
pela tendência de viverem mais do que os homens até idades mais avançadas
(Organização Mundial da Saúde, 2005) e consequentemente, maior expetativa de
vida, condição que pode contribuir para um envelhecimento sem apoio do cônjuge
e restantes familiares (Martins et al., 2009), caso venham a desenvolver algum
tipo de dependência. O NIF avaliado pelo Índice de Independência nas AVD de
Katz e Akpom (1976) a maioria encontrava-se parcialmente dependente (60,3%).
Resultados, nesta mesma classificação de dependência, superiores aos de estudos
realizados no Brasil (10,4%) (Del Duca, Silva & Hallal, 2009) e em Portugal
(49,5%) (Amaral & Vicente, 2000), mas inferiores aos elaborados em França
(69, 7%) (Artaud et al., 2013) e no Brasil (79%) (Duarte, Andrade & Lebrão,
2007). Diferenças, que podem ser atribuídas à associação de fatores, internos e
externos, que variam em consequência das características sociais, demográficas,
de cada realidade geográfica. A literatura que segue esta linha de investigação
(Wallace & Shelkey, 2008), demonstra a importância do seu uso na avaliação
da capacidade funcional relacionada com a necessidade e satisfação no SS e com
a QdV percebidas. Várias pesquisas, utilizam-na, normalmente associada a outras
medidas de avaliação (Duarte et al., 2007; Reijneveld, Spijker &
Dijkshoorn, 2007).
Na composição da rede de SS no domicílio, através da adaptação da ASSIS (Nunes
et al., 2011), observou-se que a receção de maior apoio no total da rede e das
dimensões do SS recaiu nos familiares, predominantemente no apoio material. O
conjunto de familiares e amigos, constituiu-se boa fonte de apoio emocional,
enquanto só os amigos (maioritariamente) e a combinação com os profissionais
foram fracas fontes de apoio informativo. Efetivamente os dados disponíveis são
consensuais. Estudo desenvolvido em pessoas com doença oncológica, concluiu que
à medida que a idade aumenta, diminuiu a satisfação com o SS proveniente dos
amigos (Santos, Pais-Ribeiro & Lopes, 2003). Os familiares e amigos, são os
que mais ajudam na dependência física (Faquinello & Marcon, 2011). Os
amigos e vizinhos constituem fontes de apoio informativo em idosos,
consequência do estabelecimento de relações horizontais, do sentimento
coletivo, e da passagem de conhecimentos de pessoas que já experienciaram
situações semelhantes, observando-se assim uma transmissão de saberes de
informações de carater popular (Brazil et al., 2012) em detrimento ao apoio
informativo cientificamente fornecido por profissionais. As pessoas querem e
precisam de se sociabilizar, pois as situações diárias sucedem-se. Poder contar
com alguém disponível a ajudar nos cuidados, escutar, conversar, aconselhar,
informar e solucionar as situações, é fundamental. As vivências diárias
integradas na existência dos idosos, principalmente quando dependentes, devem
ser uma realidade. A partilha de sentimentos, ajuda física e material na
dependência, necessidade de aconselhamento, ocorre principalmente entre
familiares, e amigos. Contudo, muitos não têm familiares próximos e contam só
com os amigos para os ajudar nas AVD, constituindo-se assim a sua rede de SS
(Leite, Battisti, Berlezi & Scheuer, 2008). Confirmou-se, elevada perceção
de necessidade e satisfação no apoio emocional, resultados que indiciam, a
importância da relação do apoio de interação social positiva com o apoio
afetivo.
Nos valores obtidos na QdV percecionada, pela versão portuguesa do WHOQOL-Bref
(Vaz Serra et al., 2006b), destacou-se o domínio ambiente com maior
significado, e o físico com menor. Estudo aplicado em idosos portugueses,
corrobora estes resultados, apresentando médias elevadas no ambiente e baixas
no físico (Oliveira, 2011). Avaliar o idoso/pessoa dependente no ambiente
domiciliário, é importante, pois este pode ser, promotor de perceção de maior
satisfação e melhor QdV (Paschoal, 2011). O WHOQOL-Bref demonstrou boa
fiabilidade, com alfas de Cronbach de 0,89 nos 26 itens e 0,83 a 0,69 nos
respetivos domínios, resultados apoiados por Vaz Serra et al. (2006b) pelo
valor de alfa de 0,92 encontrados nos 26 itens na sua versão portuguesa.
Os participantes mais satisfeitos com o apoio emocional percecionaram melhor
QdV física e psicológica. Autores sustentam, a particular relação da satisfação
com a intimidade e o afeto relacional, e níveis de autonomia funcional mais
elevados, apoiados por melhor significado de autoimagem e autoestima (Pereira
et al., 2006). A perceção de maior apoio emocional na totalidade da rede de SS
relacionou-se com uma melhor QdV nas relações sociais. Efetivamente ter
relações de maior proximidade e intimidade afetiva com familiares e/ou amigos,
tendo-os como confidentes e fontes de conforto e cuidados, influencia
positivamente a perceção que se tem de QdV social. A baixa consistência interna
no domínio das relações sociais verificado, foi encontrada noutras pesquisas
(Skevington, Lotfy & O'Connell, 2004).
As mulheres idosas apresentaram melhor perceção no domínio físico da QdV. Este
significado, parece relacionar-se com o sentido ambíguo conferido pelas
mulheres ao processo de envelhecimento. Por um lado, entendem-no como um
período de limitações e dependência, por outro lado, experienciam-no como uma
oportunidade para desfrutarem livre e positivamente os anos de vida restantes,
com maior atenção à saúde e ao autocuidado, enquanto, que para os homens
idosos, parece estar relacionado à doença, dependência, aposentação e limitação
produtiva (Fernandes & Garcia, 2010). No entanto, numa investigação em
idosos brasileiros, verificou-se serem os homens os que melhor gerem o seu
envelhecimento, por apresentarem maiores valores no domínio físico do WHOQOL-
Bref, e maior capacidade funcional, do que as mulheres (Pereira et al., 2006).
As idosas casadas com cônjuge evidenciaram melhor QdV no domínio ambiente e
maior necessidade percebida no apoio material. Defendendo que, à medida que se
envelhece, as capacidades de adaptação vão diminuindo, tornando-se por isso o
idoso mais sensível à sua segurança e proteção física vivenciadas no lar, e à
eficácia e disponibilidade na ajuda nos cuidados de saúde e sociais que
possibilite a sua participação, tornando assim, agente relevante na promoção do
SS percebido. Neste sentido, é nas relações mais íntimas, que a mulher se
apresenta menos sozinha/insatisfeita, ao avaliar subjetiva e positivamente, o
ambiente e as redes sociais que a rodeia (Paúl et al., 2005), sentindo-se por
isso mais segura e protegida no ambiente experienciado no lar. A maior
necessidade percecionada de apoio material, poderá ser explicada pela
necessidade de ajuda de terceiros para cuidarem e também para serem cuidadas!
Observou-se melhor nível de apoio material nas dimensões do SS percebido,
resultado corroborado pelos dados do estudo de Britoe Pavarini (2012). A
perceção de níveis mais baixos no domínio psicológico e no físico da QdV foi
também observada. Alexandre, Cordeiro e Ramos (2009) num estudo desenvolvido em
idosos, apoiam estes dados.
Com este estudo esperamos contribuir para o delineamento de estratégias de
promoção do envelhecimento positivo da saúde nesta população específica no
Algarve.