Impacto de intervenções de reminiscência em idosos com demência: revisão da
literatura
ABSTRACT
Despite the relevance of reminiscence intervention with older people, their
impact on people with dementia lies understudied. This study aims to implement
an integrated literature review on the main effects of reminiscence in people
with dementia.
Twenty eight articles met the inclusion criteria defined in the research
databases MEDLINE, PsycInfo, CINAHL, LILACS and SciELO, being the last survey
conducted on 30 January 2013.The results suggest an overall positive impact of
reminiscence therapy in participants with dementia and their caregivers,
particularly in dimensions: cognition, behavior, mood, depressive symptoms,
well-being, quality of life, communication, functional ability and caregiver
burden. However, highlight the lack of research methodologically consistent
with extended samples, defined inclusion criteria and longitudinal designs that
allow firm decisions about the effects of reminiscence in people with dementia
that allows conclusions. This theme also lacks robust reviews of its
effectiveness in dimensions as the identity and well-being and yet evidence of
its impact as a complementary therapy to the pharmacological or non
pharmacological treatment in cases of dementia.
Key- words - Reminiscence; Dementia; Autobiographical memory, Literature review
Ao falarmos de reminiscência é necessário diferenciar dois processos distintos,
que fazem uso do mesmo conceito: reminiscência enquanto processo normativo de
pensar sobre o seu passado, inerente e transversal ao ser humano e
reminiscência enquanto estratégia estruturada de intervenção na velhice
(Afonso, 2011; Gonçalves, Albuquerque, & Martin, 2008). A reminiscência é
um processo mental que implica a recuperação de memórias autobiográficas
significativas (Cappeliez, Guindon, & Robitaille, 2008). A reminiscência,
como estratégia de intervenção, consiste, assim num processo psicológico de
recuperação de experiências pessoais, vividas no passado que são utilizadas
para fins terapêuticos.
A reminiscência tem vindo a ser utilizada em pessoas idosas como técnica de
intervenção para promover a autoaceitação e bem-estar (Pinquart, &
Forstmeier, 2012). Os resultados sobre os seus benefícios apoiam a sua
implementação na melhoria da saúde mental e tem suscitado a atenção de vários
investigadores da área de gerontologia (e.g. Webster, Bohlmeijer, &
Westerhof, 2010; Westerhof, Bohlmeijer, & Webster, 2010). Apesar das
evidências sobre a eficácia da reminiscência nos casos de demência não serem
tão consistentes e consensuais como para os idosos em geral, a reminiscência
tem-se apresentado, também, como uma técnica com potencial para a intervenção
nestes idosos (e.g. Lin, Dai, & Hwang, 2003; Woods et al., 2005).
Podem distinguir-se três formas de aplicação de reminiscência como intervenção
com pessoas idosas: reminiscência simples, revisão de vida e terapia de revisão
de vida (Pinquart, & Forstmeier, 2012; Webster et al., 2010; Westerhof et
al., 2010). A reminiscência simples estimula as funções sociais da
reminiscência (comunicação, ensino, informação) através da recuperação de
acontecimentos autobiográficos positivos de forma não estruturada (Pinquart,
& Forstmeier, 2012; Westerhof et al., 2010). A revisão de vida implica uma
descrição mais abrangente e avaliativa dos principais acontecimentos
autobiográficos do ciclo de vida, no sentido dos mesmos serem integrados numa
história de vida coerente (Pinquart, & Forstmeier, 2012; Westerhof et al.
2010). Por último, a terapia de revisão de vida reporta a sua aplicação a
pessoas com problemas de saúde mental, tais como a depressão, com o intuito de
reduzir os efeitos potencialmente negativos da reminiscência (reavivamento da
amargura, tédio) aliviando a sintomatologia depressiva (Pinquart, &
Forstmeier, 2012; Westerhof et al. 2010).
Pinquart, e Forstemeier (2012) destacam, a partir da realização de uma meta
análise sobre o efeito da reminiscência nas variáveis psicossociais, que esta
terapia produz melhorias ligeiras a moderadas na sintomatologia depressiva,
integridade do ego, bem-estar, propósito na vida, maestria, cognição,
integração social e preparação para a morte. Os resultados sobre o impacto dos
programas de revisão de vida evidenciam melhorias significativas na autoestima
(Chiang, Lu, Chu, Chang, & Chou, 2008), satisfação com a vida (Chiang et
al., 2008), depressão (Pot et al., 2010; Serrano, Latorre, & Montañes,
2005; Serrano et al., 2012) e maestria (Pot et al., 2010). A evidência
relativamente à eficácia da reminiscência simples é, todavia, menos consistente
no que concerne aos seus efeitos na saúde mental (Westerhof et al., 2010),
encontrando-se mais relacionada com a felicidade, enquanto a revisão de vida
aparece mais relacionada com o bem-estar psicológico e a terapia de revisão de
vida com o alívio da depressão (Westerhof et al., 2010). A reminiscência em
pessoas idosas apresenta efeitos positivos na melhoria da sintomatologia
depressiva (e.g. Afonso, & Bueno, 2010; Bohlmeijer, Kramer, Smit, Onrust,
& Marwijk, 2009; Bohlmeijer, Valenkamp, Westerhof, Smit, & Cuipers,
2005; Chiang et al., 2010; Shellman, Mokel, & Hewitt, 2009; Watt, &
Cappeliez, 2000), bem-estar psicológico (Afonso, Bueno, Loureiro, &
Pereira, 2011; Chiang et al., 2010), solidão (Chiang et al., 2010), auto-estima
(Chao et al., 2006), maestria (Bohlmeijer et al., 2009; Bohlmeijer et al.,
2005), integridade do ego (Afonso et al., 2011).
Em pessoas com demência, a evidência sobre a eficácia da terapia de
reminiscência não é conclusiva, apesar dos indícios relativos aos seus
benefícios. Woods et al. (2005), por exemplo, referem, com base numa análise
sistemática de literatura que incluiu cinco estudos, que a cognição, o estado
de ânimo, o comportamento das pessoas com demência e o desgaste do cuidador
apresentam melhorias durante a aplicação da terapia de reminiscência até um
período de quatro a seis semanas após a intervenção. Os autores ressalvam, no
entanto, o facto do impacto da reminiscência depender da fase de demência em
que a técnica é implementada. Nos casos de demência grave, o impacto ao nível
da cognição e comportamento não era estatisticamente significativo, ao
contrário do que acontecia nos casos de demência leve a moderada (Woods et al,
2005). Outra revisão, desenvolvida por Cotelli, Manenti, e Zanetti (2012) que
incluiu sete estudos, concluiu que a terapia de reminiscência melhora o humor e
algumas habilidades cognitivas na população com demência.
Tendo como ponto de partida, por um lado, a relevância da intervenção de
reminiscência com pessoas idosas (Gonçalves, Albuquerque, & Martin, 2008)
e, por outro lado, a necessidade/escassez de estudos consistentes sobre o seu
impacto em pessoas com demência, pretende-se, com este artigo, efetuar uma
revisão integrada de literatura que permita sistematizar os principais efeitos
observados e analisados nos estudos de investigação existentes.
MÉTODO
Este estudo adotou a metodologia de revisão integrada de literatura. Esta
metodologia consiste na análise da literatura/estudos realizados com distintas
metodologias, permitindo elaborar uma síntese e compreensão que possa gerar e
validar conhecimentos para aplicação na prática (Wittemore, & Knafl, 2005).
Trata-se de uma revisão com recurso às bases de dados MEDLINE (PubMed),
PsycInfo, CINAHL, LILACS e Scielo, sendo a última pesquisa efetuada a 30 de
Janeiro de 2013. As palavras-chave utilizadas para pesquisa eletrónica foram
Reminiscence and Dementia e Life Review and Dementia, tendo-se usado o
termo Reminiscence no caso das pesquisas com as duas primeiras expressões não
oferecerem resultados. Esta pesquisa foi complementada com a procura de
referências bibliográficas que constavam nos artigos disponíveis.
Foram incluídos nesta revisão os artigos de investigação empírica e monografias
académicas (dissertações de mestrado e teses de doutoramento), publicados em
português, inglês, francês e espanhol, cujo texto integral estivesse
disponível. Constituíram critérios de inclusão, neste âmbito, trabalhos que
apresentavam investigações com: (i) pessoas com mais de 65 anos com demência;
(ii) aplicação de terapia de reminiscência ou revisão de vida; (iii) avaliação
do impacto da intervenção de reminiscência através de metodologia quantitativa
ou qualitativa. Excluíram-se os artigos de revisão de literatura, protocolos de
estudo, monografias e manuais.
No total, como se pode observar no quadro_1 e na figura_1, foram encontradas
121 referências através de pesquisa eletrónica, rastreadas através da leitura
do título e resumo, para verificação dos critérios de inclusão e decisão sobre
a inclusão dos artigos nesta revisão. Numa primeira análise foram selecionadas
35 referências, às quais se acrescentaram 6 artigos encontrados através de
pesquisa manual. Posteriormente, com base nos critérios de inclusão
estabelecidos para este estudo de revisão da literatura, foram selecionados 28
estudos que obedeciam aos mesmos. Os restantes 13 foram excluídos pois não
focavam os resultados da intervenção de reminiscência.
RESULTADOS
Dos 28 estudos incluídos nesta revisão da literatura, 26 foram publicados sob a
forma de artigos científicos e 2 constituem teses de doutoramento.
Relativamente à metodologia dos trabalhos selecionados, foram identificados 11
estudos experimentais, 6 estudos quási-experimentais e 11 estudos não
experimentais.
O impacto das intervenções de reminiscência nos estudos considerou distintos
domínios: cognição, comportamento, depressão/humor, comunicação, qualidade de
vida, bem-estar e atividades de vida diária. Cada um destes domínios foi
avaliado com recurso a instrumentos específicos, cuja sistematização se pode
observar no quadro_2.
A avaliação do impacto da reminiscência na cognição é encontrada em 18 dos
estudos revistos (e.g. Akanuma et al., 2011; Sue et al., 2012), observando-se
uma melhoria significativa desta variável em cinco (Haight et al., 2003; Haight
et al., 2006; Nawate et al., 2008; Tadaka, & Kanagawa, 2007; Wang, 2007).
Os restantes estudos não encontraram diferenças estatisticamente significativas
na cognição e nenhum reportou efeitos negativos desta terapia a este nível.
Dois dos estudos analisados no âmbito desta revisão, avaliaram especificamente
a componente memória, indicando melhorias estatisticamente significativas após
o uso de reminiscência (Beavis, 2008; Yamagami, Oosawa, Ito, & Yamaguchi,
2007) ao nível da memória geral e da recordação imediata.
O impacto da reminiscência ao nível do comportamento foi analisado em 16
estudos, sendo que 11 indicaram melhorias comportamentais (e.g. Azcurra, 2012;
Cleary et al., 2012), nomeadamente a diminuição do distúrbio social (Wang et
al., 2009) e apatia (Hsieh et. al, 2010), aumento da participação ativa
(Ashida, 2000), da participação social (e.g. Azcurra, 2012; Huang et al, 2009),
da ingestão de alimentos (Cleary et al., 2012) e da concentração e atenção
(Yasuda et al., 2009). Nos restantes estudos não se obtiveram resultados
estatisticamente significativos, sendo de referir, todavia, que os autores de 3
estudos indicaram que se observaram melhorias nesta dimensão (Gudex et al.,
2010; Haight et al., 2006; Thorgrimsen, Schweitzer, & Orrell, 2002) e 2
referiram a manutenção dos comportamentos (Baillon et al., 2005; Ito et al.,
2007).
A avaliação do impacto da terapia de reminiscência na sintomatologia depressiva
de pessoas com demência foi analisada em 8 dos estudos abrangidos por esta
revisão indicaram uma diminuição estatisticamente significativa dos sintomas
depressivos em 5 estudos (e.g. Chung, 2009; Hsieh et al., 2010). De referir que
um dos estudos utilizou dois instrumentos para avaliar a depressão e que a
diminuição da sintomatologia depressiva só foi significativa nos resultados
obtidos a partir da aplicação de uma das escalas - CSDD (Wang, 2007). Nos
restantes estudos, embora tenha ocorrido diminuição da sintomatologia
depressiva nos sujeitos submetidos a terapia de reminiscência, esta não foi
estatisticamente significativa (Akanuma et al., 2011; Huang et al., 2009; Sue
et al., 2012). Em relação ao nível de humor, o impacto da terapia foi avaliado
em 6 estudos, sendo que 3 constataram melhoria significativa desta variável
após o uso de reminiscência (O`Rourke et al., 2011) e após revisão de vida
(Haight et al., 2003; Haight et al., 2006).
O impacto da reminiscência na comunicação de pessoas com demência é encontrado
em 5 estudos, sendo que 4 destes estudos indicaram melhorias na comunicação
(Haight et al., 2006; Huang et al., 2009; Okumura et al., 2008; O`Rourke et
al., 2011), mais especificamente ao nível da comunicação não-verbal (Okumura et
al., 2008) e interação pessoal (comunicação positiva, interação positiva e
participação) (Huang et al., 2009). Os resultados dos estudos analisados
indicaram, também, melhorias significativas ao nível da linguagem (O´Rourke et
al., 2011) e, em particular, ao nível da fluência verbal (Okumura et al.,
2008).
A qualidade de vida foi avaliada em 5 estudos, dos quais 3 indicaram melhorias
estatisticamente significativas na qualidade de vida em geral (Azcurra, 2012;
Chung, 2009) e na subescala resposta ao ambiente, até seis meses após a terapia
(Gudex et al., 2010). Os restantes estudos não indicaram diferenças
estatisticamente significativas a pós a intervenção de reminiscência (Lin,
2010; Thorgrimsen et al., 2002).
A dimensão do bem-estar foi analisada em 5 estudos, dos quais 4 estudos
observaram melhoria desta variável (Brooker, & Duce, 2000; Lai et al.,
2004; Lin, 2010; O`Rourke et al., 2011). O impacto da reminiscência na
felicidade das pessoas com demência foi positivo, tendo sido avaliado em 2
estudos (Huang et al., 2009; Lin, 2010).
Quanto ao impacto da reminiscência nas atividades de vida diária, avaliado em 5
estudos, apenas 1 estudo observou melhoria estatisticamente significativa nesta
variável, na subescala contacto social (Tadaka, & Kanagawa, 2007).
O impacto ao nível da identidade foi avaliado num estudo experimental
desenvolvido por Beavis (2008), não tendo sido observadas diferenças
estatisticamente significativas após a intervenção de reminiscência em pessoas
com demência.
MacKinlay, e Trevitt (2010) analisaram o impacto da terapia de reminiscência
nas pessoas com demência ao nível do sentido na vida e do crescimento pessoal.
Os resultados indicaram que a família e as relações sociais eram as principais
dimensões do sentido de vida nos participantes, sendo considerados os
principais motivos para continuarem a viver. Em relação ao crescimento pessoal,
os participantes referiram a manutenção da esperança, sentido de realidade,
humor e luta, apesar da demência. O estudo de MacKinlay (2009) focou-se na
análise do impacto da reminiscência em três emigrantes (pertencentes à amostra
do estudo anterior). A autora identificou, após análise das gravações das
sessões de terapia de reminiscência espiritual, os temas: sentido de vida,
ligação e relações sociais, práticas espirituais e religiosas, vulnerabilidade
e transcendência, sabedoria e memória e esperança e medo. A terapia de
reminiscência proporcionou momentos de partilha, sabedoria e estratégias de
coping para lidar com as perdas e incapacidades progressivas relacionadas com a
situação de demência.
Alguns dos estudos analisados, avaliaram o impacto da reminiscência em
indicadores biológicos. Dos 3 estudos que focam esta variável observou-se um
aumento do metabolismo da glicose cerebral, nas pessoas com DV (Akanuma et al.,
2011), diminuição da frequência cardíaca, após terapia de reminiscência e
Snoezelen, embora não se tratasse de uma diferença estatisticamente
significativa (Baillon et al., 2005) e aumento das ondas rápidas cerebrais com
diminuição das ondas lentas (sugestivo de melhoria do estado mental) após
reminiscência (Huang et al., 2009).
Além da análise do impacto da reminiscência ao nível dos indivíduos com
demência, alguns estudos debruçaram-se sobre o seu efeito nos cuidadores
formais e informais (e.g. Gudex et al., 2010; Yamagami et al., 2007) e
voluntários participantes nos grupos de reminiscência (Chung, 2009). O impacto
foi analisado de forma qualitativa e quantitativa.
Os resultados quantitativos sobre o impacto da reminiscência com pessoas com
demência nos seus cuidadores avaliaram o stresse (Thorgrimsen et al., 2002) e a
saúde geral, (Thorgrimsen et al., 2002; Gudex et al., 2010) não obtendo
diferenças estatisticamente significativas. Dos estudos analisados, 2 avaliaram
a sobrecarga do cuidador, sendo que num deles se observou diminuição
estatisticamente significativa desta variável (Haight et al., 2003). O estudo
de Gudex et al. (2010) avaliou variáveis relacionadas com o ambiente laboral e
burnout, observando melhorias ao nível do papel profissional, desenvolvimento,
atitude perante as pessoas com demência residentes e ainda melhorias ao nível
da realização pessoal, despersonalização e exaustão emocional.
Os resultados qualitativos sobre o impacto ao nível dos cuidadores das pessoas
com demência indicaram melhorias no relacionamento interpessoal com os colegas
de trabalho, com as pessoas com demência e uma atitude mais cooperante
(Yamagami et al., 2007). Os cuidadores formais referiram um feedback positivo
do programa de reminiscência, considerando-a uma boa ferramenta de trabalho com
idosos, que promove a comunicação, compreensão e relação com as pessoas com
demência (Gudex et al., 2010).
Os voluntários participantes em grupos de reminiscência foram avaliados em
relação aos conhecimentos sobre a demência e autoestima, verificando-se
melhorias significativas nos conhecimentos sobre demência, não tendo sido
encontradas diferenças ao nível da autoestima após participação no programa de
reminiscência.
O quadro_2 sintetiza as dimensões avaliadas e instrumentos usados no estudo do
impacto da terapia de reminiscência em pessoas idosas com demência.
DISCUSSÃO
A análise dos resultados obtidos nesta revisão sugere um impacto globalmente
positivo da terapia de reminiscência nos participantes com demência e seus
cuidadores. Pode destacar-se o impacto da reminiscência em pessoas com demência
nas dimensões: cognição, comportamento, humor, sintomatologia depressiva, bem-
estar, qualidade de vida, comunicação, capacidade funcional e sobrecarga dos
cuidadores.
Os resultados das investigações revistas, indicam melhorias no funcionamento
cognitivo (Haight et al., 2003; Haight et al., 2006; Nawate et al., 2008;
Tadaka, & Kanagawa, 2007; Wang, 2007) e no comportamento (Akanuma et al.,
2011; Ashida, 2000 ; Azcurra, 2012; Cleary et al., 2012; Hsieh et al., 2010;
Huang et al., 2009; Lai et al., 2004; Nawate et al., 2008 ; Yamagami et al.,
2007; Yasuda et al., 2009 Wang et al., 2009), o que corrobora os resultados
evidenciados noutras revisões prévias (e.g. Cotelli et al., 2012; Woods et al.,
2005).
Quanto ao impacto da reminiscência ao nível do humor das pessoas com demência,
encontra-se um impacto positivo da reminiscência (Haight et al., 2003; Haight
et al., 2006; O`Rourke et al., 2011), na linha do referido Cotelli et al.
(2012), ocorrendo diminuição da sintomatologia depressiva (Ashida, 2000; Chung,
2009; Haight et al., 2006; Hsieh et al., 2010; Wang, 2007) e melhoria do bem-
estar (Brooker & Duce, 2000; Lai et al., 2004; Lin, 2010; O`Rourke et al.,
2011) e da qualidade de vida (Azcurra, 2012; Chung, 2009; Gudex et al., 2010).
A comunicação dos participantes com demência parece, também, evidenciar algumas
melhorias com intervenções baseadas na reminiscência (Haight et al., 2006;
Huang et al., 2009; Okumura et al., 2008; O`Rourke et al., 2011). Esta dimensão
não foi analisada em revisões anteriores, embora tenha sido recomendada a sua
avaliação em estudos com esta população (e.g. Woods et al., 2005).
O impacto da reminiscência, ao nível da identidade e da capacidade funcional
das pessoas com demência, nos artigos revistos, é menos analisado. Apesar do
impacto ser expectável, em termos teóricos, na identidade dos pacientes
(Pinquart & Forstmeier, 2012; Woods et al., 2005), não foi apoiado pelos
resultados do estudo de Beavis (2008). O impacto na capacidade funcional dos
participantes com demência (atividades de vida diária) analisado por Tadaka e
Kanagawa (2007), sugere melhorias a este nível, resultado similar ao de Woods
et al. (2005) que referem uma ténue melhoria nesta variável. Destaca-se ainda o
impacto que a reminiscência apresenta nos cuidadores de pessoas com demência,
observando-se diminuição da sobrecarga (e.g. Haight et al., 2003), o que vai de
encontro ao referido por Woods et al. (2005).
Globalmente, podem apontar-se algumas fragilidades metodológicas das
investigações revistas sobre o impacto da reminiscência em pessoas com
demência, que limitam a análise da eficácia deste tipo de intervenção tais como
o tamanho da amostra, o tipo de estudos e amostragem e a sensibilidade dos
instrumentos utilizados. Em primeiro lugar pode referir-se o tamanho da
amostra, tendo-se constatado que a maioria dos estudos foi realizado com grupos
pequenos (e.g. O´Rourke et al., 2011; Yamagami et al., 2007; Yasuda et al.,
2009) o que, tal como já foi referido por outros autores, não permite a
generalização dos dados (Cotelli et al., 2012; Woods et al., 2005). Destaque-
se, no entanto, que nos últimos anos a investigação se tem direccionado no
sentido de se constituírem amostras mais alargadas (e.g. MacKinlay, &
Trevitt, 2010; Sue t al., 2012). Em segundo lugar, destaca-se a escassez de
estudos experimentais, sobretudo devido à amostragem não aleatória dos
participantes (Cotelli et al., 2012; Olazarán et al., 2010; Woods et al.,
2005). De facto, apesar de terem sido analisados 11 estudos experimentais
randomizados (e.g. Akanuma et al., 2011; Azcurra et al., 2012; Hsieh et al.,
2010), a maioria da investigação (17 estudos) foi realizada com amostragens por
conveniência (e.g.Cleary et al., 2012; Lin, 2010), não experimentais e sem
comparação entre grupos (e.g. Chung, 2009; Okumura et al., 2008).
Para além da lacuna na aleatorização dos participantes, outro aspeto
metodológico que se destaca é a falta de clareza na definição dos critérios de
inclusão nos estudos, aspeto já anteriormente referido por outros autores (e.g.
Ashida, 2000; Huang et al., 2009; Woods et al., 2005). Estas lacunas podem
estar relacionadas com a heterogeneidade dos quadros e fases demenciais que
dificulta a homogeneização dos grupos/ amostras com quem são realizados os
estudos. De ressalvar, no entanto, que estudos mais recentes tendem a definir
mais claramente critérios de inclusão e métodos de rastreio da tipologia e
estádios de demência (e.g. Akanuma et al., 2011; Azcurra et al., 2012; Cleary
et al., 2012).
O terceiro aspeto que parece limitar a evidência de resultados da reminiscência
nas pessoas idosas com demência reporta-se ao uso, muitas vezes desadequado, de
escalas pouco sensíveis para esta população. Sabe-se que esta população tem
particularidades que dificultam o seu estudo e avaliação, relacionadas com as
limitações a nível cognitivo e comportamental da demência, nomeadamente
dificuldades na comunicação com esta população (Tolson & Schofield, 2012)
assim como dificuldades das pessoas com demência em expressar emoções (Lawton,
Van Haitsma, & Klapper, 1996). Acresce-se ainda a necessidade premente de
criação de novas escalas e/ou técnicas e estratégias, multidimensionais, que
avaliem a panóplia de sintomas presentes e se tornem aplicáveis aos vários
estádios de demência (Robert et al., 2010). Apesar disso, ainda se observam
muitos estudos da demência com utilização de escalas geriátricas (e.g.
Geriatric Depression Scale; Multidimensional Observation Scale for Elderly
Subjects) não adaptadas à pessoa com demência e sem resultados estatisticamente
significativos (e.g. Akanuma et al., 2011; Ito et al., 2007; Sue et al., 2012;
Thorgrimsen et al., 2002). Tendo como ponto de partida que as escalas para a
demência têm pouca sensibilidade e não avaliam aspetos com impacto no
participante e cuidador (Robert et al., 2010), parece evidente que utilizando
escalas ainda menos sensíveis, os resultados não poderão ser visíveis ou com
impacto nas dimensões a avaliar.
Os estudos sobre a eficácia da reminiscência com pessoas com demência sugerem
indícios da sua eficácia, no entanto, salienta-se a falta de investigações
metodologicamente consistentes, nomeadamente estudos experimentais, com
amostras alargadas, critérios de inclusão definidos e desenhos longitudinais
que permitam conclusões consistentes sobre os efeitos desta intervenção
(Cotelli et al., 2012; Olazarán et al., 2010; Woods et al., 2005).
Para além da melhoria dos aspetos metodológicos, a investigação da terapia de
reminiscência carece ainda de avaliação efetiva da sua eficácia em algumas
dimensões, tais como a identidade e o bem-estar. De acordo com Beavis (2008)
entender a relação entre as perdas cognitivas e a identidade, com as suas
implicações no bem-estar, é um aspeto importante nesta população devido à sua
provável influência na perda de sentido de continuidade do ego. Outro ponto a
investigar é a influência desta terapia como complemento ao tratamento
farmacológico ou a outras terapias não farmacológicas, eventuais benefícios e
vantagens para a pessoa idosa e família.