Hábitos saudáveis na velhice: efeitos de uma intervenção psicoeducativa com
homens idosos
ABSTRACT
The present study aimed to investigate the effects of a psycho educational
intervention designed to strengthen self-care in older men. Participated
thirteen men of an social center for elderly in operation at a private
university located in Brasilia, Brazil, ages 62 to 78 years (M = 69.5). All of
them were married, literate, retired and with chronic diseases. Data relating
to the habits of life of the elderly were obtained through individual
interviews conducted before and after the engagement of these in nine thematic
group meetings grounded in cognitive-behavioral model. The results showed the
strengthening of physical exercise, healthy eating and assertive behaviors by
participants, as well as greater emphasis on beliefs about the benefits of
health-promoting behaviors. The intervention was useful to maximize healthy
habits, although it has larger effects to sensitize and maintain than to change
behaviors.
Key- words- Elderly, men, psychosocial intervention, healthy habits.
Alterações nos padrões de morbimortalidade aliadas ao fortalecimento do modelo
biopsicossocial evidenciaram a necessidade de uma maior contribuição da ciência
psicológica às questões de saúde e doença. Nesse cenário, destaca-se o
surgimento, no final da década de 1970, da Psicologia da Saúde, campo de
conhecimentos e práticas aoqual foi atribuído os objetivos de colaborar para a
promoção e a manutenção da saúde, bem como para a prevenção e o tratamento de
doenças. Em atuação conjunta com profissionais de outras especialidades, os
psicólogos que pautam suas práticas conforme estes objetivos buscam, em âmbito
individual ou coletivo, favorecer a aquisição de repertórios de comportamento
apropriados à saúde e ao enfrentamento de doenças, bem como a modificação de
comportamentos de risco para agravos a saúde (Marks, Murray, Evans, &
Willig, 2000). Atualmente, observa-se uma ênfase crescente na saúde comunitária
e na promoção da saúde.
A promoção da saúde compreende a combinação de apoios educacionais e ambientais
que visam promover ações conducentes à saúde e favorecer o empoderamento
(empowerment) da comunidade, de modo a dotá-la em seu cotidiano de autonomia
para o enfrentamento de problemas e a aquisição de hábitos de vida saudáveis
(WHO, 1986). As estratégias de promoção da saúde pressupõem auxílio ao
indivíduo ou grupo na identificação e satisfação de suas necessidades, na
criação de ambientes saudáveis e no desenvolvimento de competências pessoais e
sociais (Sícoli & Nascimento, 2003).
A prevenção, por sua vez, implica em ações antecipadas para impedir a
ocorrência de fatos prejudiciais à saúde e - no caso de sua ocorrência -,
evitar a progressão de seus efeitos. Inclui ações de promoção da saúde e
medidas específicas para evitar certos agravos (prevenção primária); ações
voltadas para a redução dos riscos ou severidade de doenças mediante
diagnóstico precoce e tratamento oportuno (prevenção secundária) e ações
realizadas para minimizar as conseqüências de doenças ou distúrbios já
instalados (prevenção terciária) (Brown et al., 2002). Em prevenção primária,
parte-se do pressuposto de que o comportamento do indivíduo desempenha, em
curto ou em longo prazo, papel de destaque em seus processos de saúde e doença,
contribuindo para o surgimento de vários agravos que causam morte prematura ou
trazem prejuízos para a qualidade de vida. No entanto, ajudar as pessoas a
mudar com êxito comportamentos de risco e a adotar padrões de comportamento
saudáveis constitui uma tarefa complexa.
O Modelo Transteórico (Transtheoretical Model), que serviu de base para a
composição do referencial teórico-metodológico do presente trabalho, reconhece
diferenças entre os indivíduos quanto à prontidão para mudanças rumo à
aquisição e manutenção de condutas que podem melhorar a saúde. O modelo
fundamenta-se na premissa de que a adoção de um comportamento de saúde é um
processo dinâmico que abarca cinco estágios pelos quais a pessoa progride, com
avanços e retrocessos, até alcançar mudanças em seus hábitos de vida: 1. pré-
contemplação, em que não se reconhece a necessidade ou mostra-se resistência em
realizar a mudança comportamental; 2. contemplação, em que se reconhece os
benefícios e contempla-se a possibilidade de mudança dentro dos próximos seis
meses, mas não há ainda um plano para a ação; 3. preparação, em que se
intenciona mudar o comportamento num futuro próximo e já se realiza alguns
passos nesta direção; 4. ação, em que se modifica o comportamento ou o ambiente
e mantém-se a mudança por um período de até seis meses; e 5. manutenção, em que
se mantém a mudança comportamental ocorrida a, no mínimo, seis meses, agindo de
modo a prevenir recaídas e a consolidar os ganhos obtidos (Prochaska,
DiClemente, & Norcross, 1992; Prochaska & Velicer, 1997).
Os conceitos principais e estágios do Modelo Transteórico (MT) têm fornecido
diretrizes para programas de intervenção aplicados a vários comportamentos
prejudiciais a saúde, como o tabagismo e o abuso de álcool. As intervenções são
planejadas de acordo com as necessidades psicológicas relacionadas ao estágio
em questão e buscam aumentar a consciência do indivíduo sobre causas e
consequências do comportamento de risco mediante feedback e estratégias
educativas (Prochaska & Velicer, 1997). Entre idosos, Nigg et al. (1999)
identificaram a pré-contemplação como o principal estágio a ser alvo de
intervenções quando a meta era perder peso, usar protetor solar e praticar
exercícios. Por outro lado, uma parcela expressiva dos 1.615 idosos
entrevistados neste estudo revelou encontrar-se no estágio de manutenção em
relação a importantes comportamentos de saúde.
A adoção de estilos de vida específicos, incluindo exercício físico regular e
abstenção do comportamento de fumar, apresenta benefício potencial para a
preservação da saúde e da independência dos idosos. Nessa perspectiva, tornam-
se importantes ações diversas e efetivas para promover o envelhecimento
saudável. Por conseguinte, vários programas têm sido dirigidos a esse segmento
da população com o propósito de oferecer-lhes atividades grupais orientadas
para a promoção da saúde ou para a prevenção e controle de enfermidades. Em
grupos, são abordadas questões referentes, por exemplo, a nutrição e a
atividade física e os idosos são auxiliados a integrar as orientações
fornecidas em suas rotinas (Assis, Hartz, & Valla, 2004; Bode & Ridder,
2007; Dapp, Anders, von Renteln-Kruse, & Meier-Baumgartner, 2005).
Todavia para que os programas de promoção da saúde na velhice alcancem a
eficácia almejada torna-se crucial compreender envelhecimento e saúde em uma
perspectiva de gênero (Lunenfeld, 2002; Stlin, Eckermann, Mishra, Nkowane,
& Wallstam, 2007). O termo gêneroé usado para assinalar as diferenças entre
homens e mulheres que são relativas a características construídas socialmente
nas diferentes culturas e que envolvem atitudes, sentimentos, valores, condutas
e atividades vinculadas à definição do masculino e do feminino (Laurenti,
Jorge, & Gotlieb, 2005).
As construções sociais moldaram, ao longo do processo de socialização, uma
forma de ser e agir de acordo com o sexo biológico do sujeito e em conformidade
com os padrões esperados (Silva, 2006). As sociedades ocidentais desprezaram,
assim, as construções singulares e passaram a descrever o sujeito por meio de
modelos normativos. Nas concepções dominantes do masculino, representadas pelo
modelo patriarcal, ser homem é tido como ser racional, ativo, provedor,
poderoso, forte, protetor, violento, decidido, corajoso, invulnerável e com
corpo resistente (Braz, 2005; Gomes & Nascimento, 2006). Tal identidade de
gênero revela uma naturalização do poder masculino, sem a devida
contextualização do significado de ser homem.
Essa masculinidade idealizada, ao defender a invulnerabilidade e uma
sexualidade instintiva, tende a gerar comportamentos pouco saudáveis ou de
risco e, assim, predispõe os homens a certas doenças, lesões e mortes (Braz,
2005; Figueiredo, 2005; Lee & Owens, 2002). De fato, o ideal heroico de ser
do homem coloca-o numa posição de vulnerabilidade física e psíquica para
aquisição e agravamento de doenças, que se revela na baixa adoção de práticas
de autocuidado, na postergação da busca por serviços médicos e na dificuldade
de verbalizar as próprias necessidades de saúde (Figueiredo, 2005).
Não obstante, parece existir uma lacuna entre as necessidades de saúde da
população masculina e a organização das práticas de saúde, sobretudo em atenção
primária, o que pode culminar na invisibilidade dos homens nos serviços de
assistência à saúde (Couto et al. 2010; Gomes et al., 2011; Schraiber et al.,
2010). Esta invisibilidade masculina é muitas vezes produzida ou reforçada pela
expectativa dos próprios profissionais, que assumem o estereótipo de que os
homens não cuidam de si e não procuram os serviços. Dessa forma, comumente
deixam de estimulá-los a praticar ações de promoção e prevenção. É necessário,
por conseguinte, identificar e acolher suas necessidades e demandas, de modo a
oferecer-lhes estratégias especiais de assistência.
Nessa perspectiva, torna-se urgente conhecer os determinantes sociais que
resultam na vulnerabilidade da população masculina aos agravos à saúde, assim
como abordar as questões masculinas nos programas de intervenção em saúde
(Schraiber, Gomes, & Couto, 2005). É nessa linha de investigação que se
situa a presente pesquisa, desenvolvida com o objetivo de averiguar, a partir
de indicadores verbais, os efeitos de uma intervenção psicoeducativa realizada
com um grupo de homens idosos sobre o fortalecimento de hábitos de vida
saudáveis. Ou seja, buscou-se compreender como, a partir de conhecimentos e
estratégias psicológicas, é possível auxiliá-los a ampliar seus repertórios de
cuidados a si mesmos, em especial prática regular de exercícios físicos,
hábitos alimentares adequados, regulação emocional e comportamento assertivo.
MÉTODO
Participantes
O estudo contou com a participação voluntária de treze homens entre 62 e 78
anos de idade (M= 69,5), aposentados, casados e portadores de pelo menos um
tipo de adoecimento crônico, com prevalência de doenças cardiovasculares e
diabetes. Estes senhores foram recrutados em um Centro de Convivência para
Idosos (CCI) de uma universidade privada do Distrito Federal, onde frequentavam
aulas de informática e espanhol e/ou realizavam atividades físicas como
natação, hidroginástica e musculação. No presente trabalho, eles foram
designados por nomes fictícios, de modo a preservar suas identidades.
Material
Para os fins da pesquisa, foi construído e testado um questionário composto de
32 questões abertas e fechadas, distribuídas em cinco partes, denominado
Questionário de Avaliação da Saúde do Homem Idoso ' QUASHI. O instrumento visa
a coleta de informações junto aos respondentes acerca dos seguintes aspectos:
condições pessoais de saúde e doenças autorreferidas, concepções de
envelhecimento saudável, frequência de busca a serviços de saúde e de
comportamentos preventivos, fatores que facilitam ou dificultam o autocuidado,
e metas de saúde. As propriedades psicométricas do questionário não foram
testadas, mas sua clareza e objetividade foram avaliadas em um estudo piloto.
Os dados utilizados neste artigo foram provenientes do conjunto de questões
elaboradas para verificar os tipos e a frequência de comportamentos emitidos na
busca por um envelhecimento saudável, tais como praticar exercícios físicos;
alimentar-se de frutas, verduras e fibras; evitar ou diminuir o consumo de sal,
açúcar e gordura; usar proteção à exposição ao sol; seguir as orientações dos
profissionais de saúde; fazer coisas que ajudam a relaxar e expressar
sentimentos e necessidades. As respostas autorrelatadas foram registradas em
escala Likert de quatro pontos.
Procedimento
A pesquisa foi desenvolvida em cinco etapas. Na etapa inicial, foram realizadas
atividades preparatórias para a coleta de dados, incluindo contatos
institucionais, aprovação do projeto por um Comitê de Ética em Pesquisa, o
estudo piloto do QUASHI e acesso a possíveis participantes a partir de uma
lista nominal fornecida pela coordenadora do CCI. A segunda etapa,
correspondente ao levantamento da linha de base, compreendeu o agendamento de
avaliações individuais, que foram realizadas em salas com isolamento acústico e
livres de interrupções. Nestes encontros, houve a assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido e a aplicação do QUASHI, que ocorreu com o
auxílio da pesquisadora mediante leitura de cada questão em voz alta e registro
em áudio das respostas apresentadas.
Finalizadas as avaliações iniciais, deu-se início à intervenção em grupo, cujo
foco recaiu sobre cuidados gerais com a saúde e comportamentos preventivos
capazes de contribuir para o impedimento, diagnóstico precoce ou controle de
doenças prevalentes entre o segmento idoso da população. Nove sessões
psicoeducativas com embasamento cognitivo-comportamental foram conduzidas com
periodicidade semanal e duração aproximada de 90 minutos cada uma, norteadas
por temas geradores pré-definidos, tais como os determinantes da saúde do
homem; o adoecer e o cuidar de si; a importância da prevenção e habilidades
sociais assertivas. As estratégias de trabalho em grupo utilizadas consistiram
em fornecimento de informações, discussões em grupo, com troca de informações e
experiências; uso de materiais educativos, escritos ou em vídeo; dramatizações;
vivências e técnicas de grupo.
Após o término das sessões grupais, ocorreu a quarta etapa do estudo, referente
à avaliação pós-intervenção, com agendamento e condução de novas entrevistas
individuais mediante a utilização de uma versão simplificada do QUASHI. Como
quinta e última etapa, foram conduzidas avaliações de seguimento quatro meses
após o término das intervenções.
Com o livre consentimento dos idosos, as respostas ao questionário, em todas as
etapas de sua aplicação, foram gravadas em áudio e, posteriormente, foram
transcritas integralmente para favorecer a análise das informações concedidas.
Os relatos coletados mediante questões abertas foram submetidos à análise de
conteúdo, segundo o modelo de Bardin (2002), com categorização e contagem de
frequências.
Modificações no repertório comportamental dos idosos quanto à aquisição ou
ampliação de práticas preventivas foram organizadas e analisadas de modo
quantitativo e qualitativo tendo por base os relatos fornecidos nos três
momentos de avaliação da pesquisa ' linha de base, pós-intervenção e
seguimento. Com embasamento no Modelo Transteórico - MT, as informações
coletadas foram categorizadas de acordo com o relato de intenção de mudança ou
de emissão de condutas importantes para a promoção, manutenção ou recuperação
da saúde.
RESULTADOS
Na avaliação das ações de autocuidado emitidas pelos integrantes do estudo, a
adoção de hábitos de vida favoráveis à saúde abarcou a prática regular de
exercícios físicos e a manutenção de padrão alimentar saudável, bem como a
regulação emocional e a assertividade nas relações sociais.
Prática de exercícios físicos
A prática de exercícios físicos estava incorporada ao cotidiano da maioria dos
entrevistados, antes e após as intervenções. A principal modalidade de
exercício desempenhada era a caminhada regular, mencionada por dez deles.
Outros tipos de atividades relatadas foram hidroginástica (n=7), natação (n=1),
musculação (n=2) e dança (n=1). Seis idosos, em todas as entrevistas,
avaliaram-se, em escala de quatro pontos, como frequentemente ativos. Estes
idosos, em geral, evidenciaram a crença na influência positiva do exercício
sobre o estado pessoal de saúde, além de cultivarem a percepção do próprio
vigor e condicionamento físicos como elevados. Nesses casos, a principal
estratégia utilizada na intervenção foi o reforçamento dos comportamentos alvo.
Constatou-se a manutenção desse padrão de comportamento, relativa à
continuidade dos exercícios e evidências, em três casos, do fortalecimento do
nível de atividades, com o acréscimo de outros exercícios além da caminhada.
Para seis participantes, a meta principal estabelecida para a intervenção
consistiu em aumentar a frequência semanal de exercícios físicos, mediante a
valorização de um padrão de vida ativo e ao estímulo para maior engajamento em
alguma modalidade de exercício. Esses idosos declararam realizar exercícios
físicos em frequência menor do que três vezes por semana ou de modo irregular.
No entanto, sinalizaram intenção de iniciar ou retomar padrões regulares de
atividade física (estágio de contemplação no MT). Na avaliação de seguimento,
três destes idosos afirmaram o aumento de práticas como natação, hidroginástica
e caminhadas, indo de frequência moderada para alta. Por outro lado, dois
idosos, após aumento na realização de exercícios, conforme relato fornecido
logo após a intervenção, indicaram decréscimo nesta prática na avaliação
seguinte, o que foi justificado por mudanças recentes em suas rotinas. Outro
idoso continuou no estágio de contemplação, já que demonstrou não ter realizado
mudanças em seus níveis de exercícios físicos, embora tenha indicado ainda
planejar fazê-lo.
Alimentação saudável
Em relação à alimentação, foi investigado o hábito dos participantes quanto à
quantidade e à frequência do consumo de alimentos tanto prejudiciais como
favoráveis à saúde. Nove deles julgaram que, de modo frequente, consumiam
alimentos recomendados do ponto de vista nutricional (vegetais, frutas,
verduras e cereais) e cinco afirmaram hábitos já consolidados de controle de
açúcar, sal e/ou gorduras, motivados, em grande parte, por restrições
alimentares em planos de tratamento pessoais e/ou de suas esposas. Para estes
idosos, houve reforço contingente às declarações de práticas condizentes com o
padrão alimentar necessário à manutenção da saúde e ao controle de doenças.
Verificou-se maior atenção ao consumo alimentar nos relatos pós-intervenção.
No entanto, oito idosos evidenciaram dificuldades para evitar ou moderar a
ingestão de açúcar, sal e/ou gorduras ou para reduzir a quantidade diária de
calorias consumidas. Para esses participantes, a mudança no padrão de
alimentação constituiu uma das metas da intervenção, com estímulo e orientações
para adoção de uma dieta mais saudável. Os estágios iniciais identificados
foram a contemplação e a preparação, pois todos eles manifestaram intenção de
melhorar a qualidade de seus hábitos alimentares, com dois deles já
apresentando iniciativas nessa direção.
Nas avaliações que se seguiram às sessões grupais, foram observadas mudanças
comportamentais em seis dos participantes alvo dessa meta, confirmadas nas
avaliações de seguimento. Por exemplo, Berilo (75 anos) adotou a estratégia de
controle de estímulos, evitando a compra de doces. Oscar (70 anos), incitado
pela descoberta recente do diagnóstico de diabetes, recorreu à ajuda de uma
nutricionista, que o auxiliou no processo de reeducação alimentar. Gastão (62
anos) conseguiu realizar mudanças em sua alimentação e nível de atividades
físicas, obtendo uma redução de aproximadamente cinco quilos em seu peso. Um
caso aparte foi o de Franco (78 anos), cujo esforço inicial para o alcance de
uma alimentação saudável, comunicado logo após a intervenção, foi inibido
devido a problemas pessoais que alteraram sua rotina com reflexos sobre sua
alimentação, em termos não somente da qualidade, mas sobretudo dos horários das
refeições.
Regulação emocional
Três idosos relataram histórico de depressão e outros três se descreveram como
mais sensíveis no momento atual de suas vidas, atribuindo o fato à ocorrência
de seus agravos à saúde ou ao próprio envelhecimento. Sete participantes se
descreveram como nervosos ou ansiosos em situações de estresse cotidiano ou de
conflitos familiares, evidenciando dificuldades no controle emocional. Dois
deles inclusive associaram efeitos do estado emocional sobre o agravamento de
seus sintomas físicos. Exemplo: O problema da pressão é problema de ansiedade,
quando eu fico ansioso, assim qualquer coisa, eu noto que a pressão sobe
(Edgar, 69 anos). A meta de buscar maior autocontrole emocional foi comum a
estes idosos, que mostraram estar no estágio da contemplação, com sinalização
do desejo e crença na própria capacidade de alcançarem maior controle da
ansiedade ou da raiva.
Nas sessões em grupo, foram discutidas as relações entre o estado emocional e o
comportamento, bem como foram levantadas estratégias possíveis na busca por
melhor controle das próprias emoções. Ao final, quatro idosos se descreveram
como menos ansiosos. Um relato ilustrativo das mudanças foi o de Eusébio (63
anos): Eu era nervoso no trânsito, hoje eu tô calmo. Em casa também, se eu
chegava e via as louças sujas na pia, eu ficava nervoso, ficava estressado.
Hoje não. Não fico mais. Então, graças a Deus, tô conseguindo controlar.
Gastão (62 anos) teve como meta específica para ele a redução de suas queixas e
lamentações acerca de perdas recentes em sua vida, incluindo a perda da
condição de sadio e do status de trabalhador formal decorrentes de doença
cardiovascular e, consequente, aposentadoria por invalidez. Prevalecia, em
comparação aos seus pares, uma visão mais pessimista frente à vida e uma
tendência a imputar suas dificuldades a variáveis externas, atribuindo-as quase
sempre a problemas financeiros, a falta de tempo ou a terceiros, sem implicar-
se no processo quanto à busca de novas oportunidades. Manifestava a crença de
que a pessoa somente pode ser considerada útil se goza de perfeitas condições
físicas e desempenha trabalhos socialmente reconhecidos. Como intervenção,
houve estímulo para adoção de formas alternativas de expressar suas emoções e
dores, bem como para iniciativas na busca de novas atividades. Após as sessões
grupais, ele apresentou reflexões acerca do seu padrão de comportamento
queixoso e cogitou a possibilidade de realizar novas atividades e cursos, com
levantamento de alternativas para modificar sua situação presente.
Habilidades sociais assertivas
Vários idosos evidenciaram dificuldades em assertividade. Oito deles declararam
que apenas raramente expressavam o que estavam sentindo, mesmo para seus
familiares. Nove afirmaram que raramente (n=6) ou nunca (n=3) recorriam
deliberadamente à ajuda de outras pessoas, isto ocorrendo em geral apenas em
casos de grande necessidade e como último recurso. A assertividade, entendida
como a ação de defender direitos e expressar opiniões e sentimentos sem
agressividade ou passividade, foi afirmada como frequente apenas por três
idosos. Os demais a exercia apenas às vezes, raramente ou mesmo nunca. A estas
dificuldades correspondeu a meta de aumentar a emissão de comportamentos
assertivos, comum a nove idosos que mostravam limitações para expressar
sentimentos e necessidades, dizer não e/ou defender os próprios direitos.
Raramente ou nunca expunham seus sentimentos quando contrariados ou em
sofrimento, descrevendo-se como reservados, precavidos ou fechados. Por
exemplo: Eu sei que ninguém vai me recriminar, mas eu sinto assim pra dentro.
(...) às vezes eu faço igual jabuti, recolho a cabeça (Ozias, 73 anos). Esses
idosos, em geral, declararam não ter intenção de ampliar a exposição de suas
necessidades e opiniões a outras pessoas do entorno, alegando como motivos para
isso evitar conflitos e não aborrecer parentes ou amigos.
Como estratégia de intervenção, houve discussão e oferecimento de modelos sobre
modos de agir assertivo e incentivo à prática da expressão e defesa dos
próprios sentimentos, opiniões e direitos. Ao final, Artur (66 anos) relatou
ações com evidências de comportamento assertivo. Exemplo: Eu já sofri muito
assim por não discordar das coisas erradas. Mas hoje eu sou mais seguro (...).
Eu tive muito problema assim por causa do não dizer não, já tive muito prejuízo
(...). Eu tô me reservando mais sabe.
Quatro outros idosos também trouxeram, nas entrevistas pós-intervenção e/ou de
seguimento, relatos de comportamentos assertivos. Exemplos:
(...) a pessoa dava opinião e eu aceitava, porque eu tinha assim aquele receio
de ofender a pessoa, sabe? Mas depois mudou. Pensei "que negócio é esse? Vou
ser covarde comigo mesmo? Não, tá errado" Agora não. Se eu estou certo, tenho
certeza, digo "Não é assim não." Aí dou a minha opinião. (Sérgio, 63 anos)
Ultimamente, eu não tô suportando, por exemplo, ficar calado diante de tudo
não. Pisou no meu calo, na medida do possível eu dou resposta. Sem estressar,
numa boa. Antes, eu ouvia, sofria calado, ficava magoado. Agora eu sou igual
qualquer outro. (Oscar, 70 anos)
Vale destacar ainda que, tanto após o término das intervenções quanto no
seguimento, quatro idosos enfatizaram espontaneamente a importância do saber
ouvir de forma empática e atenciosa e de considerar e respeitar as opiniões dos
demais.
DISCUSSÃO
Os participantes dessa pesquisa destacaram o idoso como responsável pela sua
própria saúde e evidenciaram disposição para implementar ou manter
comportamentos de saúde em geral, com ênfase nos benefícios potenciais das
medidas destinadas a reduzir ameaças à saúde. Em sua maioria, eles estavam
engajados em exercícios físicos de modo regular e, correspondendo à
expectativa, mantiveram ou intensificaram suas rotinas de exercícios, em
especial a caminhada regular. Nas comparações do estilo de vida ativo entre os
gêneros tem sido constantemente verificado que a prática de exercícios físicos
é mais frequente entre os homens, com as mulheres adotando um estilo de vida
mais sedentário (Benedetti, Borges, Petroski, & Gonçalves, 2008; De Vitta,
Neri, & Padovani, 2006; Ribeiro, Neri, Cupertino, & Yassuda, 2009).
A atividade física constitui um elemento crucial para o envelhecimento bem-
sucedido, já que promove melhor saúde e ajuda os idosos a permanecerem
independentes (Depp & Jeste, 2009; Franklin & Tate, 2009). O hábito do
exercício na velhice coopera para melhorar o desempenho em atividades de vida
diária, o controle de doenças crônicas, o senso de controle e de autoeficácia e
a autopercepção de saúde (De Vitta et al., 2006; Ribeiro et al., 2009). Tem
sido verificado ainda que o envolvimento dos idosos em exercícios físicos está
associado à incidência menor de demências e depressão (Benedetti et al., 2008;
Larson et al., 2006).
A evidência dos benefícios do estilo de vida ativo destaca a importância da
inclusão de orientações e estratégias para estímulo à prática regular de
exercícios físicos nos programas educativos voltados para idosos, o que requer
a consideração de suas crenças, respostas emocionais e sintomas físicos sobre
esse tema. As intervenções podem incluir o treino de habilidades
autorregulatórias relativas ao estabelecimento de metas, automonitoração e
autorreforçamento, bem como levar os idosos a reconhecerem e modificarem
pensamentos e interpretações errôneas acerca dos exercícios (Schneider, Cook,
& Luke, 2011).
Em relação ao padrão alimentar, vários participantes evidenciaram crenças e
práticas condizentes com uma alimentação saudável. Segundo Nigg et al. (1999),
a manutenção de dieta pobre em gorduras e rica em fibras aumenta com o avançar
da idade, sugerindo que os idosos são mais preocupados com seu comportamento
alimentar do que os mais jovens. No entanto, os cuidados com a alimentação eram
delegados pelos participantes, em grande parte, a suas esposas e a restrição a
certos tipos de alimentos era consequência frequente da necessidade de conter o
avanço de doenças. Drummond e Smith (2006) pontuam que, devido à forma como a
masculinidade tem sido construída socialmente, os homens mostram-se pouco
cientes de sua nutrição pessoal e delegam a suas esposas a escolha e o preparo
de alimentos, evidenciando valores patriarcais e fragilidades em caso de
viuvez.
Nas sessões grupais, foi evidenciada e discutida a relação entre emoções e
comportamento e apontadas estratégias gerais de enfrentamento de situações
estressoras. Não foram empregadas técnicas específicas para manejo da ansiedade
ou do estresse. Ainda assim, verificou-se o relato de alguns idosos, após a
participação no grupo, quanto a estarem sentindo-se menos ansiosos em situações
de estresse cotidiano. Gastão foi o idoso com maior dificuldade nesta área,
exibindo um padrão de comportamento caracterizado por queixas e pessimismo. Ao
final do trabalho, ele próprio declarou-se mais calmo e evidenciou reflexões
sobre a inutilidade de suas lamentações do ponto de vista da resolução de seus
problemas, bem como planejou a busca de novos cursos e atividades. De acordo
com Figueiredo et al. (2007), a baixa autoestima vivenciada por alguns homens
parece atrelada a condições vivenciadas no processo de envelhecimento, como o
acometimento por doenças crônicas e a aposentadoria, que podem implicar em
perda ou diminuição de aspectos valorizados na socialização masculina,
incluindo poder, autonomia econômica e liberdade. Esse pareceu ser o caso de
Gastão, que mostrou dificuldades de adaptação a perdas decorrentes da
aposentadoria por invalidez. Agravava esta situação o fato dele perceber baixo
suporte social, inclusive em seu meio familiar.
Na área das habilidades sociais, os participantes demonstraram tentativas de
alcançar um estilo de interação mais assertivo. Carneiro e Falcone (2004)
averiguaram que as situações sociais em que os idosos manifestam comportamentos
habilidosos são, em sua maioria, aquelas que não envolvem conflitos de
interesse e que não demandam lutar pelos próprios direitos. No entanto, é
preciso mais investigações acerca dos déficits em habilidades sociais entre
homens idosos, já que em tal estudo os entrevistados eram predominantemente do
sexo feminino (90%). Outros autores ressaltam os papéis de gênero na relutância
dos homens em buscar ajuda e em evitar a expressão emocional (Gannon, Glover,
O'Neill, & Emberton, 2004; Lee & Owens, 2002).
A maioria dos idosos afirmou ganhos em habilidades sociais oriundos da própria
participação no grupo, em especial a diminuição da timidez para falar em
público, o aumento da empatia e da capacidade de escuta e a maior aceitação de
diferenças comportamentais e de opinião observadas nos colegas. Isso mostra que
o trabalho em grupo constitui um espaço importante para a aprendizagem e o
exercício de comportamentos sociais. As oportunidades para engajamento social
tornam-se especialmente importantes para os homens quando eles não cultivaram
habilidades necessárias para desenvolver novas redes sociais na vida tardia.
A intervenção implementada nesta pesquisa representa uma alternativa de
educação participativa com idosos ancorada no modelo biopsicossocial
preconizado pela Psicologia da Saúde. Propostas como esta permitem romper com o
enfoque tradicional de atenção a idosos, centrado em doenças, e fomentar
cuidados de saúde que lhes possibilitem, de forma ativa, evitar ou amenizar
limitações provenientes do envelhecimento e de processos de doença.
O conjunto dos dados obtidos revelou que a intervenção psicoeducativa foi útil
para sensibilizar os participantes acerca das vantagens de engajar-se em um
estilo de vida saudável. As experiências no grupo atuaram para reforçar e
legitimar suas práticas ou para sensibilizá-los a respeito de novas e
desejáveis mudanças. No entanto, é importante destacar que os idosos
participantes mostraram previamente já serem bons cuidadores de si mesmos,
partindo de frequências elevadas nos comportamentos que se pretendia avaliar e
modificar. Esse dado impõe a necessidade de adaptações no planejamento de
intervenções futuras voltadas para idosos com características diferenciadas, em
especial aqueles viúvos, que residem sozinhos, e com menor escolaridade, os
quais possivelmente trariam necessidades e demandas decorrentes de outras
possíveis vulnerabilidades.
Nesse sentido, o ideal teria sido contar com idosos detentores de maiores
dificuldades quanto à aquisição ou manutenção de comportamentos preventivos. No
entanto, o acesso a idosos com esse perfil na comunidade revela-se difícil,
considerando que o recrutamento destes requer estratégias especiais para
mobilização e manutenção de suas presenças ao longo de várias semanas de
intervenção. Desse modo, pode-se apontar como uma limitação da pesquisa o fato
do recrutamento dos participantes não ter ocorrido de modo aleatório e de não
ter sido utilizado um grupo controle na avaliação dos efeitos da intervenção.
Há que se considerar, por outro lado, que as maiores possibilidades de
desenvolvimento de trabalhos voltados para a promoção da saúde ocorrem em
contextos institucionais, dada a necessidade de estrutura física e recursos
humanos para o desenvolvimento das atividades. Assim, torna-se urgente pensar
em estratégias de captação de idosos na comunidade, sobretudo homens, levando-
os a tomar conhecimento da existência de projetos sociais e a reconhecerem os
benefícios potenciais da própria participação.
Outras limitações do estudo estiveram associadas ao delineamento e à
metodologia utilizados: a repetição das avaliações em momentos diferentes pode
ter constituído um estímulo a mais para a mudança comportamental; a abrangência
da intervenção dificultou medir os efeitos de cada tipo de abordagem temática e
metodológica adotada; a provável propensão em apresentar respostas de maior
aceitação social (desejabilidade social), comum em medidas de autorrelato, pode
ter influenciado a fala dos entrevistados, mesmo que cuidados tenham sido
tomados para evitar este tipo de influência.
Os resultados deste estudo reforçam a possibilidade dos homens, tanto quanto
das mulheres, envolverem-se em processos grupais educativos, com engajamento na
discussão de temas que usualmente não são tidos como de seus interesses e em
atividades de ajuda mútua e resolução conjunta de problemas. Os homens podem se
beneficiar - no contato educativo com profissionais e pares - da oportunidade
de permutar experiências e conhecimentos, o que potencializa a manutenção do
autocuidado e sensibiliza para a mudança de comportamentos prejudiciais à
saúde.