Saúde e qualidade de vida na transição para o ensino superior
(Estado de)Saúde, qualidade de vida e estilo de vida
A saúde é um direito humano fundamental (expresso na declaração resultante da
Conferência Internacional sobre Cuidados de Saúde Primários em Alma-Ata, em
1978) e um meio que permite alcançar bem-estar e felicidade individuais, por um
lado, e desenvolvimento social e económico, por outro (World Health
Organization [WHO], 2009).
Tal como tem sido definida pela agência oficial de coordenação no campo da
saúde a nível internacional (Organização Mundial de Saúde [OMS]), a saúde é um
conceito positivo, amplo (que se cruza com outros construtos, como a qualidade
de vida, da qual não é sinónimo), multifactorial e multideterminado. Entendida
como um estado dinâmico de bem-estar físico, mental, emocional, social e
espiritual (outras dimensões, como a sexual ou a societal/ambiental, poderiam
ser acrescentadas) e não somente ausência de doença (cf., e.g., Naidoo &
Wills, 2009; Scriven, 2010), a saúde individual é determinada por factores
individuais de natureza biológica (e.g., constituição genética, idade, género)
e comportamental (e.g., respostas ao ambiente, estilo de vida), factores
socioeconómicos (e.g., sistema de saúde, estatuto socioeconómico, cultura) e
ambientais (e.g., poluição) (Davies & Macdowall, 2006). É, portanto,
distinta de qualidade de vida(QdV), conceito que se refere à percepção do
indivíduo da sua posição na vida como um todo (Michalos, 2004), i.e., no
contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos
seus objectivos, expectativas, padrões e preocupações, segundo a definição da
OMS (WHOQOL Group, 1994, p. 28). De acordo com alguns autores (e.g., Fleck,
2008), os termos estado de saúde (entendido como o objecto da avaliação das
medidas, mais subjectivas ou objectivas, do conceito holístico de saúde) e QdV
são habitualmente utilizados com pouco rigor e de forma sobreposta, sobretudo
no contexto do sistema de cuidados de saúde, onde a expressão qualidade de vida
relacionada com a saúde se generalizou (Pais-Ribeiro, 2007). Porém, tem-se
verificado algum consenso quanto à necessidade de reconhecer que, apesar de
existirem pontos de interceção entre os dois, estes construtos são
substancialmente diferentes (o segundo não só é um conceito muito mais
abrangente do que o primeiro, como ainda incorpora o estado de saúde na sua
avaliação) (Fleck, 2008; Pais-Ribeiro, 2007).
As políticas e as actividades actuais empreendidas para melhorar e proteger a
saúde (e prevenir e tratar a doença), no âmbito da Promoção da Saúde (PrS) e da
Educação para a Saúde (EpS), de modo a incrementar a sua eficácia, procuram
incluir todos os determinantes, particularmente os de natureza socioeconómica,
que foram mais negligenciados até meados da década de 80, precipitando um
problema de ordem ética conhecido por victim-blaming, designação dada ao efeito
pernicioso que pode resultar da excessiva focalização nas mudanças de
comportamento para estilos de vida mais saudáveis e que se traduz na
culpabilização da vítima pelo seu estado de saúde (Carvalho, 2006; Davies
& Macdowall, 2006). Cientes deste facto, no presente estudo a atenção é
contudo focada nos determinantes comportamentais, mais controláveis pelo
sujeito e, consequentemente, mais facilmente modificáveis.
Na acepção mais ampla do conceito, o estilo de vida tem sido definido como a
forma como o indivíduo gere a sua vida, se relaciona consigo, com os outros e
com o ambiente (Rapley, 2003). Os comportamentos e as atitudes relacionados com
a saúde que fazem parte do estilo de vida encontram-se na literatura da
especialidade agrupados em duas categorias (e.g., Adelmann, 2005; Alwan, 1997;
Cockerham, 2005; Ogden, 2004; Steptoe, 2000; Schwarzer & Luszczynska,
2006), que podem assumir designações diferentes, ainda que equivalentes: (a)
comportamentos/atitudes positivos para a saúde (imunogénicos,
salutogénicos, saudáveis ou determinantes comportamentais positivos) dos
quais são exemplo: abstinência tabágica, nutrição adequada, prática regular de
exercício físico, prevenção rodoviária, planeamento familiar e outros que visam
proteger e optimizar o estado de saúde; (b) comportamentos/atitudes negativos
para a saúde (ou patogénicos, de risco ou determinantes comportamentais
negativos) como, por exemplo, o consumo excessivo de álcool, práticas sexuais
não seguras, auto-medicação, má higiene do sono, entre todos os outros que se
constituem prejudiciais ao estado de saúde.
Desde a divulgação dos resultados do célebre Alameda County Study, que
expressaram, relativamente à saúde e de uma forma geral, uma associação
positiva entre alguns dos comportamentos/atitudes positivos acima
exemplificados e estado de saúde objectivo/percebido, bem-estar e longevidade
(cf. Belloc & Breslow, 1972; Berkman & Breslow, 1983; Guralnik &
Kaplan, 1989; todos cit. por Pais-Ribeiro, 2007), tem-se verificado um número
crescente de investigações na Psicologia da Saúde e da Educação, impulsionadas
também pelos contributos da Medicina Psicossomática e Comportamental (Odgen,
2004; Matos, 2007), com o objectivo de identificar e modificar a constelação de
factores (biopsicossociais e ambientais) preditores dos comportamentos/atitudes
relacionados com a saúde, aumentando assim a probabilidade de ajudar o
indivíduo a adoptar ou a manter um estilo de vida mais saudável (Lucas &
Lloyd, 2005).
Esta linha de investigação mais comportamental tem vindo a reconhecer a
importância de abordagens mais desenvolvimentistas e ecológicas, na medida em
que defende o estudo da já mencionada constelação de factores e intervenções no
âmbito da PrS e da EpS à luz do desenvolvimento do indivíduo ao longo do seu
ciclo de vida e dos vários cenários (e.g., escolar, familiar, laboral, de
lazer) em que vai interagindo (Gaspar, Ribeiro, Matos, & Leal, 2008; Matos,
2007), com particular relevo para instituições de ensino, do nível pré-escolar
ao superior (Precioso & Taveira, 2007), por diversos motivos. Por um lado,
as modificações ecológicas estruturais implicadas nalgumas transições
normativas (e.g., entrada no sistema de ensino, primeiro emprego, casamento)
constituem factor de risco na adopção e manutenção de comportamentos saudáveis
(Matos, 2005, 2007). Por outro, muitos dos comportamentos/atitudes e hábitos
relacionadas com a saúde (e.g., o consumo/a abstinência de tabaco ou de álcool,
o uso de preservativo, o sedentarismo) aprendem-se e iniciam-se precocemente,
tendendo a manter-se ao longo da vida e a exercer impacto a longo prazo na
saúde e no bem-estar do indivíduo (Hancox, Milne, & Poulton, 2004). Acresce
ainda o facto de, em etapas iniciais do ciclo de vida, alguns dos
comportamentos/atitudes negativos (como o consumo de substâncias psicoactivas)
serem percepcionados como normativos, podendo reflectir um comportamento
exploratório saudável e um processo de aprendizagem construtivo (Schwarzer
& Luszczynska, 2006). Por fim, boa parte da vida de muitos jovens
concretiza-se no espaço escolar e universitário (Ministério da Saúde/Direcção-
Geral da Saúde [MS/DGS], 2004) e este pode constituir um cenário privilegiado
na aquisição de conhecimentos e hábitos salutares, dada a receptividade de
aprendizagem por parte dos alunos (Sanmarti, 1988, cit. por Precioso, 2004).
Entre as razões que estão por detrás da concepção do espaço universitário como
um dos settings prioritários para as intervenções fomentadoras de estilos de
vida e padrões de comportamento que condicionem favoravelmente a saúde futura
(MS, 2004, p. 31) estão as mudanças (de natureza educativa, ecológica e
desenvolvimental) subjacentes à entrada neste nível de ensino e o ajustamento
do aluno às mesmas, que conduz a um novo estilo de vida: o de estudante do
ensino superior (Pinheiro, 2004).
Estilo de vida, estado de saúde e qualidade de vida no ensino superior
Na literatura da especialidade, no espaço temporal de duas décadas, abundam
estudos sobre a prevalência de comportamentos/atitudes (particularmente
negativos; Adelmann, 2005) relacionados com a saúde na população estudantil do
ensino superior (ES), desenvolvidos quer pela procura de evidências para os
preditores destes comportamentos (constitui exemplo paradigmático a
investigação levada a cabo por Wardle e Steptoe desde 1989; outros exemplos
são: Deshpande, Basil, & Basil, 2009; Patrick, Maggs, & Abar, 2007;
Schwarzer & Luszczynska, 2008), quer pela análise da sua relação
bidireccional com variáveis como a saúde/doença (e.g., Seabra, 2007; Steptoe,
Peacey, & Wardle, 2006), a qualidade de vida (e.g., Osse, 2008; Vaez &
Laflamme, 2003), o bem-estar (e.g., Geada, Justo, Santos, Steptoe, &
Wardle, 1994; Grant, Wardle, & Steptoe, 2009), o stresse (e.g., Dusselier,
Dunn, Wang, Shelley II, & Whalen, 2005; Loureiro, 2006) ou o (in)sucesso
académico (e.g., DeBerard, Spielmans, & Julka, 2004; Elias, Azevedo, &
Maia, 2009; Trockel, Barnes, & Egget, 2000).
Apesar dos jovens adultos do ES gozarem de um estado de saúde relativamente bom
(Fletcher, Bryden, Schneider, Dawson, & Vandermeer, 2007; Steptoe &
Wardle, 2001) e da sua maioria não apresentar comportamentos/atitudes de saúde
negativos no seu estilo de vida - como constataram, p.e., Faria, Chamorro,
Carvalho e Rocha (2004), numa amostra de 1017 universitários de Beja,
relativamente ao consumo de substâncias psicoactivas - os organismos
responsáveis pela saúde pública e os investigadores tendem a focar os seus
esforços naquele tipo de comportamentos/atitudes da população jovem, devido às
potenciais consequências severas para a saúde (doenças incapacitantes e morte)
e o bem-estar e ao consumo de recursos individuais e comunitários a longo prazo
que daí podem resultar (Adelmann, 2005). Assim, a investigação disponível sobre
a prevalência de comportamentos/atitudes de risco na população em análise
mostra que (1) há um número considerável de alunos que tem hábitos alimentares
pouco salutares (i.e., consumo excessivo de sal, gordura ou açúcar e
deficitário de fibras e omissão da refeição de pequeno-almoço; Deshpande,
Basil, & Basil, 2009; Martins, 2009); exibe uma higiene do sono nociva
(i.e., padrões de sono irregulares, dormir poucas horas; Gomes, Tavares,
Pereira, & Azevedo, 2008; Lund, Reider, Whiting, & Prichard, 2010;
Steptoe, Peacey, & Wardle, 2006); não pratica exercício físico regularmente
(Bray & Born, 2006; Seabra, 2007); consome substâncias psicoactivas como
álcool (destacando-se o padrão de consumo heavy drinking ou binge-drinking),
tabaco ou drogas ilícitas (Agante, 2009; Dantzer, Wardle, Fuller, Pampalone,
& Steptoe, 2006; Preto, 2003); tem práticas sexuais não protegidas
(Oliveira, 2008; Randolph, Torres, Gore-Felton, Lloyd, & McGarvey, 2009);
não monitoriza a saúde com regularidade e automedica-se (Fletcher et al., 2007;
Ribeiro, Oliveira, Silva, Mendes, Almeida, & Silva, 2010); e que (2) estes
comportamentos/atitudes tendem a ser cognitivamente congruentes com o estilo de
vida individual (Geada et al., 1994). O que muitas vezes fica por esclarecer é
se este reportório comportamental de risco para a saúde do aluno do ES reflecte
a continuidade de um estilo de vida anterior à transição para aquele nível de
ensino ou o início de um novo estilo de vida.
Como mencionado previamente, cada um dos comportamentos/atitudes relacionados
com a saúde, à semelhança de outros comportamentos humanos, tem preditores de
natureza biopsicossocial e ambiental (e.g., género, idade, estatuto
socioeconómico, crenças, suporte social, estratégias de coping, estado de
saúde, etc.) que, por economia de espaço, não serão detalhados (para revisão
cf. Steptoe & Wardle, 2004). Não obstante, convém destacar o papel do
processo de adaptação (ou das respostas do aluno às múltiplas mudanças) ao ES
na aquisição de hábitos pouco salutares: de acordo com alguns autores, a
aquisição de comportamentos/atitudes negativos para a saúde como o consumo de
substâncias psicoactivas ou o sono insuficiente (ao nível da duração ou da
qualidade), podem resultar do stresse induzido pelas múltiplas mudanças
(sobretudo pela responsabilidade e autonomia crescentes na vida pessoal e
académica) e pelas épocas de avaliação de desempenho (funcionando aqueles como
reguladores emocionais desadaptativos) (Dusselier et al., 2005; Steptoe, 2000),
bem como da convivialidade com os pares com estilos de vida pouco saudáveis, da
frequência de locais de lazer como cafés, bares e discotecas, da diminuição de
controlo e influência da família (particularmente expressiva nos alunos
deslocados) (Precioso, 2004) e da percepção de invulnerabilidade à doença por
parte dos jovens (Fletcher et al., 2007).
Os estudos comprovam a existência de correlações positivas entre QdV e estado
de saúde (de forma mais expressiva na saúde psicológica; Vaez & Laflamme,
2003) do estudante universitário e a existência de relações bidireccionais
entre o estilo de vida do estudante e respectivos estado de saúde/doença e QdV
durante a transição para o ES: de um modo geral, um estilo de vida saudável
proporciona níveis mais elevados de saúde e de QdV, assim como a saúde e a QdV
(em conjunção com a ausência de indutores de stresse) predizem o evitamento de
comportamentos/atitudes de risco e a manifestação de comportamentos/atitudes
positivos para a saúde do estudante (cf. Geada et al., 1994; Grant, Wardle,
& Steptoe, 2009; Steptoe & Wardle, 2001; Vaez, Kristenson, &
Laflamme, 2004). Em sentido contrário, os estilos de vida que acarretam
mudanças sistemáticas ou erráticas de horários e actividades, segundo os dados
da cronobiologia, são responsáveis pela dessincronização dos ritmos biológicos,
podendo originar degradação do estado de saúde física e mental (decorrente do
aparecimento de patologias como a fadiga crónica, as perturbações de humor com
irritabilidade, as perturbações gastrointestinais ou as perturbações do sono),
acidentes ou redução de desempenho escolar (Silva, 2005).
O presente estudo resultou do interesse em contribuir para esta vasta e actual
investigação sobre promoção da saúde (no contexto específico da transição para
a universidade) e adaptação na transição para o ES (através da adopção e
manutenção de um estilo de vida saudável) e teve por objectivo avaliar o estilo
de vida (especificamente, a percepção das mudanças ocorridas e pretendidas em
sete grupos de comportamentos/atitudes de saúde [CAS] e do impacto das mesmas
no seu estado de saúde), o estado de saúde (física e psicológica) e a QdV dos
primeiranistas, bem como as relações entre estas variáveis e a influência de
alguns CAS relativos ao estilo de vida no estado de saúde e na QdV dos
estudantes.
MÉTODO
Participantes
A amostra total do presente estudo foi composta por 546 participantes, alunos
do 1º ano da Universidade de Coimbra (UC). Destes, 317 eram do sexo feminino
(58%) e 229 eram do sexo masculino (42%). A média das idades do grupo situava-
se nos 18,7 anos (DP = 1,0), havendo alunos com idades compreendidas entre os
17 e os 24 anos. A grande maioria era de nacionalidade portuguesa (n = 524;
96%), sendo o somatório das percentagens de alunos da Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa (n = 13) e de outras nacionalidades (n = 9) igual a 4%, e
proveniente do Centro (n = 392; 72%) e do Norte (n = 113; 21% do total de
participantes), havendo ainda pequenas percentagens de primeiranistas oriundos
de Lisboa, Algarve e Alentejo (18 alunos; 3% da amostra, quando as 3 unidades
do Nível II da Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos
são consideradas em conjunto), das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira (n
= 17; 3%) e de outros países (n = 6; 1%). A totalidade da amostra era solteira
e distribuía-se pelos níveis socioeconómicos (NSE) médio (n = 245; 45%), baixo
(n = 186; 34%) e alto (n = 115; 21%), de acordo com a tipologia de Simões
(1994). A distribuição da amostra, de acordo com as variáveis relacionadas com
a entrada no ES, mostra que 515 alunos (94%) estavam matriculados pela primeira
vez neste nível de ensino e que o ingresso implicou a mudança do local de
residência de 391 alunos (72%). Relativamente à faculdade de pertença, os
grupos de participantes de maiores dimensões estavam matriculados nas
Faculdades de Psicologia e Ciências da Educação (n = 132; 24,2%) e de Ciências
e Tecnologia (n = 124; 22,7%) e os grupos menores pertenciam à Faculdade de
Letras (n = 31; 5,7%) e à Faculdade de Farmácia (n = 34; 6,2%), ao passo que os
restantes participantes se distribuíam de forma relativamente equitativa pelas
faculdades da UC remanescentes. Por fim, cerca de 45% da amostra (n = 244)
tinha pelo menos uma actividade extracurricular, destes 56% (n = 136) optou por
uma actividade de natureza desportiva, 29% (n = 70) mantinha uma actividade
cultural e 15% (n = 36) ocupava os seus tempos livres com uma actividade de
natureza religiosa, havendo ainda pequenos grupos de alunos com actividades de
outra natureza.
Material
Questionário Estilo de vida, saúde e sucesso académico na transição para o
ensino superior:Este questionário de auto-relato, composto por 24 questões (do
tipo aberto, fechado e semi-aberto), foi elaborado pelos autores com o
objectivo de obter informações pertinentes para o estudo não fornecidas pelos
outros instrumentos, nomeadamente:
1. Características sociodemográficas (sexo, idade, nacionalidade, proveniência,
estado civil e NSE) e escolares/académicas do primeiranista (entre outras,
primeira matrícula no ES, faculdade de pertença, mudança do local de residência
com ingresso no ES e participação em actividades extracurriculares e sua
natureza).
2. Caracterização (sobretudo em termos de frequência), em dois momentos
diferentes (antes do ingresso e na UC), de sete grupos de CAS1 do estilo de
vida, nomeadamente: comportamento alimentar, padrão sono-vigília, padrão de
actividades físicas/desportivas, consumo de substâncias psicoactivas (como
álcool, nicotina, cafeína e drogas ilícitas), automedicação, comportamento
sexual e monitorização da saúde. Estes foram ainda convertidos numa medida
geral do estilo de vida (antes e depois do ingresso no ES), a partir da
recodificação das respostas anteriores numa variável dicotómica do tipo
comportamento ou atitude positivo (1 ponto) / negativo (0 pontos), seguida do
somatório da pontuação.
De igual modo, a evolução de cada um dos CAS ' i.e., o desenvolvimento
(alteração/manutenção) dos CAS e o sentido desse desenvolvimento, tendo em
conta o seu efeito (positivo/negativo) potencial na saúde do aluno ' entre os
dois momentos considerados, foi também avaliada. Concretamente, esta evolução
foi aferida a partir da comparação das medidas actuais e retrospectivas dos CAS
(e.g., a duração do sono aumentou, diminuiu ou manteve-se com o ingresso no
ES?), sujeito a sujeito, e da recodificação posterior numa variável de quatro
categorias ' manutenção (de comportamento/atitude) negativa (para a saúde),
alteração negativa, alteração positiva e manutenção positiva ' tendo por base a
literatura sobre CAS positivos (e.g., dormir 7-8 horas/dia) e negativos (e.g.,
fumar).
3. Percepção do estudante sobre o impacto das alterações anteriores no seu
estado de saúde e seu desejo de mudar algum dos CAS reportados.
4. Medida subjectiva e global do estado global de saúde física e psicológica do
sujeito.
Versão em Português Europeu do Instrumento Abreviado de Avaliação da Qualidade
de Vida da Organização Mundial de Saúde (WHOQOL-Bref) (Vaz Serra et al.,
2006):Este instrumento genérico, multidimensional e de essência transcultural,
permite uma avaliação subjectiva da qualidade de vida (e dos seus quatro
domínios: físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente), podendo ser
utilizado em indivíduos saudáveis e não saudáveis da população portuguesa. É
constituída por 26 questões, numa escala com cinco opções de resposta, sendo
duas questões gerais, relativas à QdV geral e à percepção do estado de saúde, e
as restantes 24 representam cada uma das 24 facetas que constituem a versão
longa deste instrumento (WHOQOL-100). O alfa de Cronbach obtido no presente
estudo foi de 0,89, para o conjunto das 26 perguntas do instrumento, e variou
entre 0,66 (relações sociais) e 0,79 (físico), quando analisada a consistência
interna dos seus quatro domínios.
Procedimento
De acordo com os objectivos deste estudo, a constituição da amostra foi
orientada por alguns critérios de inclusão (técnica de amostragem não
probabilística): alunos matriculado no primeiro ano de um curso de graduação da
UC, que tivesse ingressado no ES há, no máximo, 22 meses atrás, com idade
compreendida entre os 17 e os 25 anos e sem filhos. Cerca de 1/6 da população
total em estudo (603 primeiranistas da UC) acedeu participar voluntariamente na
investigação, ainda que 9% da amostra inicial (57 alunos) tenham sido
excluídos, por terem apresentado protocolos inválidos.
Os participantes foram recrutados em contexto de sala de aula (depois de
terminada a aula, em boa parte dos casos transversal a várias cursos da mesma
faculdade, e antes de os alunos saírem da sala), em todas as faculdades da UC,
durante o segundo semestre lectivo (entre os meses de Março e Maio de 2010). A
recolha dos dados foi precedida do consentimento dos directores das faculdades
participantes, assim como dos professores que cederam parte da aula, e dos
alunos, aos quais foram apresentados o tema da investigação e os critérios de
amostragem e garantidos o carácter voluntário da participação, o anonimato e a
confidencialidade das respostas.
Para o tratamento estatístico dos dados utilizou-se a versão 20.0 do programa
SPSS (Statistical Package for the Social Sciences). No âmbito da descrição dos
dados da amostra (estatística descritiva), determinaram-se frequências simples
(absolutas e relativas), medidas de tendência central (médias), de dispersão
(desvios-padrão e mínimos/máximos) e de associação entre as diversas variáveis
(coeficientes de correlação, como a alternativa não paramétrica ao produto-
momento de Pearson, (Rho) de Spearman, perante a violação dos prressupostos),
tendo a interpretação da intensidade das associações obedecido aos critérios
sugeridos por Pestana e Gageiro (2008). O teste de hipóteses sobre as
diferenças entre as variáveis do estilo de vida do estudante (CAS isoladamente
e medida geral) antes e depois do ingresso na universidade fez-se com recurso
ao teste t de Student para amostras emparelhadas ou à sua alternativa não
paramétrica (teste de Wilcoxon), dependendo da natureza da medida das
variáveis. Por fim, na análise do efeito dos factores qualidade do sono e
exercício físico no conjunto das variáveis dependentes QdV e estado de saúde,
foi efectuada uma análise da variância multivariada (Manova).
RESULTADOS
Alterações no estilo de vida, impacto percebido no estado de saúde e desejo do
primeiranista
Pela leitura do Quadro_1 percebe-se que, por um lado, em todos os CAS estudados
se registaram variações entre as medidas relativas aos dois momentos e, por
outro, estas variações (1) nem sempre representaram alterações de
comportamento/atitude negativas para a saúde (como aconteceu para a maioria dos
alunos na variável prática de exercício físico moderado e/ou vigoroso), dado
que nas variáveis qualidade/diversidade nutricional e duração do sono a
diminuição observada nas medidas de tendência central se traduziu em alterações
de comportamento/atitude positivas para a saúde para um número expressivo de
pessoas (entre 33,2% e 48,0% da amostra), ou (2) não exprimem o grande número
de alunos (entre 47,1% e 88,1% da amostra) que mantiveram um estilo de vida
saudável na transição para o ES (sobretudo ao nível das 10 variáveis
restantes).
Analisando cada uma das variáveis em particular, verifica-se que o número médio
de refeições diárias (4) sofreu um ligeiro decréscimo, t(545)=5,66, p<0,01,
ainda que a maioria (76,4%) mantenha ou tenha alterado o seu número de
refeições para um intervalo saudável (4-6). De forma semelhante, a qualidade/
diversidade nutricional dos alimentos ingeridos também diminuiu de forma
estatisticamente significativa, Z= -12,86, p<0,001, havendo uma grande
percentagem de alunos (40,7%) que deixou de ter uma alimentação boa para se
alimentarem de forma satisfatória ou fraca, apesar de que a grande maioria
(86,8%) ter mantido ou alterado este comportamento de forma positiva para a
saúde (i.e., com uma qualidade/diversidade boa ou, pelo menos, satisfatória
para as suas necessidades nutricionais). A duração do sono diário e a sua
qualidade parecem ter sido afectados no mesmo sentido: a transição para o ES
implicou, para os alunos da amostra, uma redução de mais de 1h na duração média
de descanso diário, t(545)=17,30, p<0,001, e uma diminuição de qualidade
(aproximadamente 37% dos alunos deixou de usufruir de um nível bom de
qualidade) estatisticamente significativa, Z= -13,05, p<0,001, sem, no entanto,
representarem comportamentos de risco para a saúde da maior parte dos jovens
(mais de 61% continuou ou começou a dormir 7 a 8 horas por dia e 85% manteve ou
passou a ter um sono qualitativamente bom ou, pelo menos, satisfatório para as
suas necessidades). O padrão de actividades físicas/desportivas também sofreu
uma quebra estatisticamente significativa, Z= -13,12, p<0,001, em termos da
frequência/duração da prática com a transição ' cerca de 38% da amostra
transitou da categoria prática frequente para as restantes, particularmente
para a categoria prática rara, que engrossou em 30,2% ' e reuniu o maior número
de respondentes (62,8%) na categoria alteração negativa que, adicionado ao
efectivo (14,5%) da categoria manutenção negativa, perfazem um total de 77,3%
de alunos que alteraram/mantiveram a frequência e a duração da sua prática de
exercício físico moderado ou vigoroso para/em níveis insuficientes (i.e., rara
ou ocasional).
Em sentido contrário, o consumo das substâncias psicoactivas analisadas
aumentou com o ingresso no ES, sendo as variações nas medidas de tendência
central estatisticamente significativas para todas as variáveis (consumo diário
de álcool, t(545)= -10,41, p<0,001; consumo mensal de álcool em excesso, t
(545)= -11,16, p<0,001; consumo diário de tabaco, t(545) = -5,67, p<0,001;
consumo diário de cafeína, t(545) = -10,85, p<0,001), excepto para o consumo de
drogas ilícitas. Relativamente às substâncias psicoactivas, verificou-se ainda
que a maioria da amostra (excepto no consumo excessivo de álcool, no qual há
apenas uma maioria relativa de 47,1%) preservou um padrão de consumo saudável:
não consumia substâncias ilícitas (88,1%), tinha um consumo diário de álcool
nulo ou moderado (i.e., até ao limite de 24g ou 16g de álcool por dia) (72,3%),
não fumava (77,3%) e ingeria até 300g de cafeína por dia (54,6%). A auto-
medicação aumentou igualmente de forma estatisticamente significativa aquando
da transição para o ES, Z= -4.42, p<0,001, apesar desta variação não se ter
traduzido numa mudança de comportamento/atitude negativa para a saúde de um
grande número de alunos, dado que 77,9% dos respondentes alteraram (para) ou
mantiveram uma frequência da toma nula ou rara.
No que diz respeito ao comportamento sexual confirmou-se que o aumento da
actividade sexual foi acompanhada pelo aumento da utilização de preservativo,
Z= -2,12, p=0,017, no entanto, o padrão de utilização deste contraceptivo e,
simultaneamente, meio de protecção contra as doenças sexualmente transmissíveis
tendeu a manter-se para a grande maioria dos alunos (94,7%): os (66,1%) que
exibiam um comportamento/atitude positivos para a saúde (ou seja, a utilização
constante de preservativo ou a prática da abstinência) antes do ingresso no ES
continuaram a fazê-lo, assim como os (28,6%) que manifestavam um comportamento/
atitude de risco. Embora a frequência da monitorização da saúde tenha diminuído
(Z= -3,98, p<0,001) com a transição, salienta-se novamente a constância no
padrão comportamental/atitudinal para um número significativo de alunos
(83,1%): os que já monitorizavam a sua saúde de forma frequente ou ocasional
(57,5%) mantiveram essa frequência no novo contexto, bem como aqueles que o
faziam de forma rara ou nula (25,6%).
Por fim, a diferença entre as médias da medida geral do estilo de vida antes e
no ES mostrou-se estatisticamente significativa,t(545) = 16,58, p<0,001,
reflectindo uma diminuição no conjunto de comportamentos/atitudes salutares com
a transição. Em média, a amostra deixou de exibir aproximadamente um CAS
positivo que fazia parte do seu reportório no ES.
Quanto à auto-percepção do primeiranista relativamente ao impacto que a
evolução do seu estilo de vida teve no seu estado de saúde, 56,4% (n = 308)
admitiu que as mudanças de estilo de vida tiveram um impacto percebido negativo
(n = 249; 45,6%) ou positivo (n = 59; 10,8%) no seu estado de saúde, face aos
restantes 43,6% (n = 238) que negaram ter percepcionado qualquer impacto na sua
saúde.
Apenas 201 alunos (36,8%) responderam afirmativamente à questão sobre o desejo
de mudar algum dos CAS do seu actual estilo de vida. Entre as respostas
afirmativas destacaram-se os 95 inquiridos (47,2%) que desejavam iniciar ou
aumentar a prática de uma actividade física ou desportiva (destes, 67
mencionaram esta actividade isoladamente e os restantes referiram esta
actividade em conjugação com mudanças no comportamento alimentar e/ou no padrão
de sono-vigília). Registaram-se ainda pretensões de aumentar a qualidade e/ou a
duração do sono e a qualidade/diversidade nutricional dos alimentos ingeridos,
diminuir o consumo de substâncias psicoactivas ou SPA (particularmente tabaco e
álcool) ou fomentar o uso de preservativo e a monitorização da saúde (cf.
Quadro_2).
Cruzando alguns dos dados anteriores, através de tabelas de contingência, foi
possível verificar que dos 249 inquiridos que percepcionaram um impacto
negativo no seu estado de saúde, apenas 138 (55,4% da subamostra de 249 alunos)
responderam afirmativamente à questão sobre o desejo de mudar algum dos CAS do
seu actual estilo de vida, tendo os maiores grupos de alunos seleccionado a
prática de uma actividade física/desportiva (n = 66 ou 47,8% da subamostra de
138 alunos) e a qualidade e/ou da duração do sono (n = 43 ou 31,2% da
subamostra de 138 alunos) como CAS a fomentar.
Estado de saúde, QdV e estilo de vida actual ' estudo de associações
Relativamente aos resultados nos indicadores do estado de saúde e da QdV, as
descritivas expostas no Quadro_3 mostram que a amostra teve, de uma forma
geral, uma boa percepção do seu estado de saúde e valores mais elevados na
dimensão mental do que na física. Também os valores médios da faceta geral e
dos quatro domínios da QdV foram reveladores de uma boa percepção deste
conceito, tendo o domínio das relações sociais obtido a pontuação média mais
elevada e o domínio ambiente alcançado a mais baixa.
O cálculo do coeficiente de Spearman possibilitou verificar associações
estatisticamente significativas (p<0,001) de intensidade variável entre fraca e
moderada (0,23=p=0,53) entre a medida geral do estilo de vida no ES e os CAS
que integravam este estilo de vida. Especificamente, a medida geral do estilo
de vida variou (1) no mesmo sentido que a intensidade das variáveis quantidade
e qualidade/diversidade nutricional das refeições (p=0,33 e p=0,37,
respectivamente), duração e qualidade do sono (p=0,36, para ambos) e prática de
exercício físico (p=0,23), da utilização de preservativo (p=0,25) e da
monitorização da saúde (p=0,34); e (2) em sentido inverso da intensidade das
variáveis consumo de substâncias psicoactivas (nomeadamente: álcool, p= -0,25;
álcool em excesso, p= -0,47; tabaco, p= -0,53; cafeína, p= -0,35; drogas
ilícitas, p= -0,31) e automedicação (p= -0,31).
A análise da associação entre a medida geral do estilo de vida no ES e os
indicadores do estado de saúde e da QdV mostrou a existência de correlações
positivas estatisticamente significativas (p<0,05 e p<0,01), ainda que de
intensidade fraca (0,09=p=0,33; cf. Quadro_4).
Sobressaíram, ainda, do conjunto das associações entre cada um dos CAS no ES e
o estado de saúde e a QdV, as associações positivas entre estes indicadores e a
qualidade do sono e a frequência/duração da prática de exercício físico
moderado e/ou vigoroso no ES (cf. Quadro_4). Na primeira variável observaram-se
as associações de magnitude mais elevadas (0,15=p=0,41) e estatisticamente
significativas (p<0,01) do grupo de CAS com os indicadores em causa, excepto
com o estado de saúde física, cuja associação foi mais elevada e
estatisticamente significativa com a frequência/duração da prática de exercício
físico moderado e/ou vigoroso no ES (p=0,30,p<0,01).
Variabilidade do estado de saúde e da QdV em função da qualidade do sono e da
prática de exercício físico
Face ao destaque que a qualidade do sono e a prática de exercício físico
obtiveram, tornou-se pertinente avaliar a existência de diferenças no conjunto
de variáveis estado de saúde e faceta geral de QdV entre grupos com
comportamentos/atitudes negativos (CAS-) e positivos (CAS+), no que respeita
aos padrões sono-vigília e de actividades físicas ou desportivas.
Os resultados dos testes multivariados evidenciaram efeitos univariados
estatisticamente significativos da qualidade do sono [Lambda de Wilk's = 0,96,
F(3,528)= 7,60, p<0,001] e da prática de exercício físico [Lambda de Wilk's =
0,95, F(3, 528)=9,36, p<0,001], bem como a interacção igualmente significativa
entre os dois factores [Lambda de Wilk's = 0,97, F(3, 528)=4,81, p=0,003].
Com base nos dados fornecidos pelo Quadro_5 é possível verificar a existência
de um efeito univariado estatisticamente significativo da qualidade do sono na
percepção do estado de saúde físicae psicológica, bem como na percepção de QdV.
De igual modo, em relação à prática de exercício físico também se observou um
efeito univariado significativo nos mesmos indicadores. Globalmente, os alunos
com CAS positivos, relativamente à qualidade do sono e à frequência/duração da
prática de exercício físico moderado e/ou vigoroso, apresentaram melhores
resultados na saúde física e psicológica e na QdV percebidas.
Os resultados mostraram ainda a existência de um efeito de interacção entre a
qualidade do sono e a prática de exercício físico na saúde psicológica (cf.
Figura_1), comprovando que o grupo de alunos que manifestou CAS negativos na
frequência/duração da prática de exercício físico moderado e/ou vigoroso
reportou pior percepção do estado de saúde psicológica do que o grupo de
comportamento/atitude opostos, excepto quando os mesmos expressaram uma
qualidade do sono boa ou satisfatória (CAS positivo).
De uma forma geral, o grupo de estudantes com CAS positivo relativamente à
qualidade de sono deteve valores acima da média nas variáveis consideradas [M
(Saúde física)= 3,05 > 2,98; M(Saúde psicológica)= 3,46 > 3,33; M(QdV)= 73,95 >
72,50] enquanto que o grupo com CAS oposto (i.e., com uma qualidade do sono
fraca), apresentava valores abaixo da média [M(Saúde física)= 2,61 < 3,33; M
(Saúde psicológica)= 2,35 < 3,33; M(QdV)= 64,48 < 72,50]; de forma semelhante,
o grupo praticante de uma actividade física/desportiva moderada ou vigorosa com
uma frequência rara ou ocasional (CAS negativo) exibiu resultados abaixo da
média nas mesmas variáveis [M(Saúde física)= 2,87 < 2,98; M(Saúde psicológica)=
3,30 < 3,33; M(QdV)= 71,30 < 72,50], ao passo que os primeiranistas praticantes
frequentes dessa actividade (CAS positivo) evidenciaram resultados acima da
média [M(Saúde física)= 3,37 > 2,98; M(Saúde psicológica)= 3,42 > 3,33; M(QdV)=
76,69 > 72,50].
DISCUSSÃO
Os resultados encontrados neste estudo sobre saúde e transição/adaptação ao ES,
e que teve por objectivo avaliar o estilo de vida, o estado de saúde e a QdV
dos primeiranistas, bem como as relações entre estas variáveis e a influência
de alguns CAS na percepção do estado de saúde e da QdV dos estudantes, vão na
sua maioria ao encontro da literatura revista.
Em primeiro lugar, a variação na prevalência dos CAS (entre os dois momentos
considerados: antes e depois do ingresso no ES) permitiu comprovar que os
comportamentos/atitudes que fazem parte do estilo de vida do sujeito tendem a
mudar, constituindo estas alterações, e de acordo com Pinheiro (2004), exemplos
de respostas de ajustamento às mudanças (de natureza ecológica, educativa e
desenvolvimental) subjacentes à entrada neste nível de ensino. O decréscimo
estatisticamente significativo verificado no valor médio da medida geral do
estilo de vida, resultante da diminuição, também ela significativa, do valor
médio ao nível do comportamento alimentar, do padrão sono-vigília, do padrão de
actividades físicas/desportivas e da monitorização da saúde e dos aumentos
significativos do consumo de substâncias psicoactivas (não verificado para o
consumo de drogas ilícitas), da auto-medicação e do comportamento sexual
protegido, deve ser cuidadosamente interpretado. Esta diminuição do valor da
medida geral não reflecte o grande número de alunos que procedeu a alterações
dentro de um intervalo considerado salutar (previamente determinado pelos
critérios dos autores e da literatura), como as apuradas nas variáveis
qualidade/diversidade nutricional e duração do sono, ou que manteve CAS
positivos ao nível de todas as outras variáveis, frequência/duração da prática
de uma actividade física/desportiva. De facto, em consonância com os resultados
de outras investigações nacionais que se dedicaram ao estudo do estilo de vida
no ensino superior (e.g., Elias et al., 2009; Faria et al., 2004; Loureiro,
2006), a maioria dos primeiranistas da presente amostra não apresentava (nem
manifestava, antes do ingresso no ES) a valência positiva (portanto salutar)
nos grupos de CAS em análise, não obstante das valências negativas existirem no
estilo de vida de muitos sujeitos. As excepções concretizaram-se ao nível do
padrão de actividade física/desportiva, cuja frequência/duração da prática
caiu, com a transição, para níveis insuficientes para quase 2/3 dos alunos (CAS
negativo referido frequentemente na literatura - e.g., Bray & Born, 2006,
Elias et al., 2009; Seabra, 2007), e do já esperado (face ao número crescente
de estudos existentes sobre esta problemática, como por exemplo, Dantzer et
al., 2006; Dusselier et al., 2005; Precioso, 2004; Steptoe, 2000) consumo
excessivo de álcool, que granjeou mais de 1/3 da amostra com a transição.
Por sua vez, a variação diferenciada na prevalência dos CAS em análise mostrou
que há CAS mais resistentes à mudança (como o número de refeições, o consumo
mensal de drogas ilícitas ou o diário de álcool e de tabaco, a auto-medicação,
a utilização de preservativo e a monitorização da saúde, relativamente aos
quais entre 70,6% e 96,2% dos primeiranistas mantiveram um padrão
comportamental/atitudinal negativo ou positivo no novo contexto) do que outros.
O período em que decorreu esta avaliação (ao longo dos 3 primeiros meses do
segundo semestre) pode constituir uma justificação plausível para esta aparente
constância de padrão, sendo previsíveis resultados diferentes no final do
segundo semestre, depois da segunda época de avaliação de desempenho e de um
importante evento da praxe académica: a Queima das Fitas. Por um lado, os
períodos de avaliação de desempenho, enquanto acontecimentos indutores de
stresse, podem desencadear o aumento do consumo de substâncias psicoactivas
(sobretudo da cafeína, do tabaco ou do álcool), que funcionariam como
reguladores emocionais desadaptativos (Dusselier et al., 2005; Steptoe, 2000),
e da auto-medicação (Ribeiro et al., 2010). Por outro, a Queima das Fitas é uma
festa académica conhecida também pelo consumo abusivo de álcool e pela
iniciação sexual de muitos universitários, como comprovaram os estudos de
Agante (2009) ou de Oliveira (2008).
Pese embora a elevada percentagem (45,6% da amostra) de alunos que admitiu ter
sentido um impacto negativo das mudanças de estilo de vida no seu estado de
saúde, pouco mais de metade destes respondeu afirmativamente à questão sobre o
desejo de mudar algum dos CAS reportados. Esta percentagem subiu ligeiramente
(para 37%) quando se consideraram todos os jovens inquiridos. A discrepância
percentual anterior pode ser compreendida à luz de algumas explicações: para os
jovens-adultos (1) a degradação qualitativamente pequena do estado de saúde
(69% da amostra reportou um estado de saúde física bom, muito bom ou excelente
e 77% referiu o mesmo no que diz respeito à auto-percepção do estado de saúde
psicológica) não justifica alterações profundas no estilo de vida (ao contrário
da degradação acentuada provocada pela manifestação da doença e para a qual, no
entender de Fletcher et al. (2007), há uma percepção de invulnerabilidade por
parte dos jovens), (2) há ganhos (p.e., ao nível do sentimento de pertença ao
grupo, com o consumo de substâncias psicoactivas ou com a privação de sono
exigida pela convivialidade nocturna com os pares - Agante, 2009; Precioso,
2004) nas mudanças de CAS que legitimam aquela degradação do estado de saúde e
(3) a modificação de CAS negativos impõe muito mais do que a intenção de mudar
e esta implica outros factores para lá da percepção de risco (como de resto
explicam os modelos sociocognitivos; cf. Armitage & Conner, 2000).
A escolha da prática de uma actividade física ou desportiva (do seu início ou
do aumento da frequência/duração da sua prática), dentre todos os CAS
estudados, pela maioria alunos que expressou intenção de mudar algum
comportamento/atitude do seu estilo de vida actual não é surpreendente dada a
grande percentagem de praticantes (77,3%) que alterou ou manteve a frequência/
duração da sua prática para/em níveis insuficientes (i.e., rara ou ocasional)
com o ingresso no ES e ao claro fenómeno social em que se converteu a procura
crescente de programas de exercício físico. Para além das razões estéticas, de
saúde e qualidade de vida ou de desempenho desportivo que alimentam esta
procura (Gaspar, 2004), é provável que os estudantes reconheçam os benefícios
da prática de exercício físico, na promoção de estados afectivos e de humor
(associados ao bem-estar psicológico), mas também na redução de estados
negativos e emoções associadas frequentemente ao stresse natural das
transições, etapas e momentos mais difíceis do percurso universitário (Cruz et
al., 2008, p. 29).
As associações encontradas entre as variáveis estilo de vida (medida geral e
CAS), estado de saúde (física e psicológica) e QdV, são consistentes com a
literatura (e.g., Geada et al., 1994; Grant, Wardle, & Steptoe, 2009; Pais-
Ribeiro, 2007; Silva, 2005; Steptoe & Wardle, 2001; Vaez, Kristenson, &
Laflamme, 2004). Com efeito, (1) os primeiranistas com estilo de vida mais
saudável eram aqueles que apresentam os valores mais elevados na quantidade e
na qualidade/diversidade nutricional das refeições, na duração e qualidade do
sono, na frequência da prática de exercício físico, na utilização de
preservativo e na monitorização da saúde e os valores mais baixos no consumo de
substâncias psicoactivas e na automedicação (verificando-se o inverso nos
universitários com estilos de vida menos saudáveis); (2) um estilo de vida com
mais comportamentos/atitudes de saúde positivos (i.e., com valores mais
elevados na medida geral) originava percepções da QdV e do estado de saúde
melhores, traduzindo-se tal facto em resultados mais elevados nestas variáveis;
e (3) os indicadores de saúde e QdV dos alunos aumentavam com o aumento da
prática de exercício físico (particularmente a percepção do estado de saúde
física) e da qualidade do sono.
Por fim, o estudo da variabilidade do estado de saúde e da QdV do
primeiranista, em função da sua qualidade do sono e da sua prática de exercício
físico, permitiu averiguar que os indicadores de saúde e de QdV dos alunos com
comportamentos/atitudes positivos eram superiores aos alunos com
comportamentos/atitudes negativos (à semelhança de outros estudos como, por
exemplo, de Bray & Born, 2006; Geada et al., 1994; Gomes et al., 2008;
Silva, 2005; Steptoe & Wardle, 2001; Vaez & Laflamme, 2003). A excepção
manifestou-se ao nível do estado de saúde psicológica dos alunos, para a qual a
qualidade do sono se mostrou determinante, uma vez que o grupo de jovens que
manifestou CAS negativos em relação à prática de uma actividade física/
desportiva (i.e., grupo não praticante ou praticante ocasional/irregular destas
actividades) procedeu a uma avaliação da percepção de saúde psicológica melhor
do que o grupo de comportamento/atitude opostos, quando os mesmos relataram uma
qualidade do sono boa ou satisfatória (CAS positivos). A importância da
qualidade do sono na saúde psicológica dos alunos tem sido sistematicamente
confirmada (cf., por exemplo, Gomes et al., 2008, ou Lund et al., 2010),
relegando para segundo plano o efeito de outros CAS do estilo de vida neste
indicador de saúde.
Embora o presente estudo apresente algumas limitações metodológicas, como o
viés de memória característico das medidas retrospectivas, o viés sistemático
decorrente do desenho transversal ou a não representatividade da amostra que
resulta da técnica de amostragem não probabilística, dele derivaram informações
pertinentes que poderão ser úteis para a implementação de projectos de
intervenção promotores de saúde e QdV e facilitadores da transição/adaptação ao
ES. No seguimento das posições defendidas por autores como Gaspar e
colaboradores (2008), Matos (2007) ou Precioso e Taveira (2007), acerca da
importância de intervenções desenvolvimentistas e ecológicas no âmbito da PrS e
da EpS, e das recomendações de Loureiro (2009), relativamente às competências
necessárias para promover saúde, a planificação de um projecto de intervenção
deverá ser precedida de uma revisão bibliográfica para identificação dos
factores que influem na saúde e na QdV, do envolvimento da população-alvo na
identificação das suas necessidades em saúde (sendo expectável encontrar
variações nas prevalências dos CAS, induzidas pelo ingresso no ES, semelhantes
às deste estudo e prevalências preocupantes de CAS negativos como o
sedentarismo, o consumo abusivo de álcool ou a fraca qualidade do sono, devendo
nesse caso assumir um lugar de destaque na intervenção) e no estabelecimento de
prioridades (a este respeito é importante realçar que o presente estudo
permitiu verificar que é possível encontrar estudantes mais motivados para
alterar positivamente a frequência da prática de actividades físicas/
desportivas do que outros CAS, como o consumo abusivo de álcool, que poderiam
ter sido avaliados precocemente pelo investigador como prioritários), para que
posteriormente se possam formular objectivos relevantes e mensuráveis,
estabelecer parcerias adequadas dentro e fora do sector da saúde e envolver
membros da comunidade no planeamento e na implementação de um projecto de
intervenção consistente, sustentável e eficaz.