Preditores da qualidade de vida na epilepsia
A epilepsia é uma condição neurológica importante e comum, com muitas
apresentações e diferentes causas (Shorvon, 2009). Em Portugal, estima-se uma
prevalência de cerca de 5/1000 habitantes e uma incidência de sensivelmente de
50 novos casos por 100 mil habitantes por ano (Lima, 2005). A epilepsia é
caracterizada por uma predisposição persistente em originar crises epiléticas,
consideradas como a maior causa de perda de autoconfiança e autoestima
(Shorvon, 2009). Contudo, a epilepsia é muito mais do que ter crises epiléticas
(ILAE, 2003), atendendo às consequências neurobiológicas, cognitivas,
psicossociais, sociais e económicas (ILAE, 2003; World Health Organization
[WHO], 2005), por vezes mais problemáticas e debilitantes para o indivíduo do
que as próprias crises epiléticas (ILAE, 2003; Shorvon, 2009). Assim, o
objetivo do tratamento ultrapassa a remissão total das crises, sendo também
prioritário a melhoria da Qualidade de Vida (QDV) do indivíduo com epilepsia,
no sentido de aprender a lidar com o impacto físico das crises e também com as
consequências psicossociais negativas associadas (WHO, 2005).
Embora o conceito de QDV permaneça um tanto vago e insuficientemente definido,
tem sido conceptualizada como um construto multidimensional, que pode ser
descrito em função dos diferentes domínios que são avaliados (Bishop &
Hermann, 2000). Numa revisão realizada por Taylor, Sander, Taylor, e Baker
(2011), a frequência das crises foi o preditor de QDV mais referido, sendo que
o aumento da frequência das crises se associava negativamente com a QDV.
Resultados semelhantes foram encontrados em pesquisas realizadas com adultos
com epilepsia que identificaram como fatores de risco para redução da QDV: a
frequência de crises, duração das crises, idade de início das crises (Jacoby
& Baker, 2008; Kerr, Nixon, & Angalakuditi, 2011; Wheless, 2006).
Contudo, Salgado e Souza (2003) verificaram que a redução na frequência de
crises epiléticas não produziu uma melhoria na QDV dos indivíduos com
epilepsia, o que reforça a importância das medidas subjetivas na satisfação e
bem-estar. De facto, em indivíduos com epilepsia, os sintomas afetivos são
apontados como maior determinante da QDV, quer na epilepsia refratária ou na
epilepsia bem controlada (Meneses, 2005). Outros estudos apontam para efeitos
da medicação antiepilética, depressão ou ansiedade, falta de apoio social,
estigma, preocupações com o emprego e falta de adesão à terapêutica(Boylan et
al., 2004; Jacoby & Baker, 2008; Kerr et al., 2011; Wheless, 2006).
Relativamente à QDV, a adesão ao tratamento é negativamente associada à
presença de efeitos adversos e correlacionada com melhor QDV (Telles-Correia,
Barbosa, Mega, & Monteiro, 2008). Por outro lado, a não adesão à
terapêutica está associada ao aumento da mortalidade e da morbilidade (Telles-
Correia et al., 2008), bem como à redução no controlo das crises a menor QDV
(Gilliam, 2003; Guekht et al. 2007; Hovinga et al., 2008). A considerar, ainda,
o aumento dos custos médicos e excesso da utilização dos serviços de saúde
associados à não adesão à terapêutica (Telles-Correia et al., 2008).
Assim, a não adesão à terapêutica tem sido uma das primeiras causas para o
insucesso do tratamento (Hovinga, et. al. 2008), constituindo um grave problema
de saúde pública, com enormes repercussões na incidência e prevalência de
inúmeras patologias (Bugalho & Carneiro, 2004). Considera-se que através da
adesão ao tratamento algumas hospitalizações atribuídas à epilepsia podiam ser
prevenidas (WHO, 2005). Deste modo, programas de tratamento na epilepsia,
orientados para o utente, com estratégias comunicacionais que promovam o
autogestão e compreensão da epilepsia são essenciais na maximização do
tratamento e da QDV e na minimização dos custos económicos (Hovinga et al.,
2008).
Na adaptação à doença crónica, algumas estratégias são apontadas de modo a
promover o ajustamento psicológico, nomeadamente: permanecer o mais ativo
possível, reconhecer e expressar as suas emoções de modo a conseguir assumir o
controlo pela sua vida e tentar concentrar-se nos possíveis resultados
positivos da própria doença (De Ridder, Geenen, Kuijer, & van Middendorp,
2008), o que remete para o conceito de coping. De acordo com Livneh e Antonak
(2005), a promoção de estratégias de coping eficazes pode desempenhar um papel
importante para a melhoria da QDV em indivíduos com epilepsia, com benefícios
ao nível da redução do stress e da ansiedade. Paralelamente, intervenções ao
nível estilos de copingtêm revelado associações significativas com a QDV, quer
nos indivíduos com epilepsia, quer nos cuidadores (van Andel, Westerhuis,
Zijlmans, Fischer, & Leijten, 2011).
Adicionalmente, alguns autores apontam para uma associação entre estilo
decoping passivo e pior QDV (Westerhuis, Zijlmans, Fischer, van Andel, &
Leijten, 2011). Resultados semelhantes foram encontrados em cuidadores de
indivíduos com epilepsia, sugerindo que o reconhecimento de estilos pessoais de
coping deve fazer parte de uma abordagem orientada para o utente e seus
cuidadores em tratamento (van Andel et al., 2011). Também para Lua, Neni e
Samira (2012) várias estratégias de copingcom foco no problema estavam
significativamente associadas a indivíduos com epilepsia, com melhor QDV, e que
estratégias como Negação, Desinvestimento Comportamental e Autoculpabilização
estavam associadas a indivíduos com epilepsia com menor QDV.
Noutro estudo, as estratégias Autodistração, Reinterpretação e Humor foram
evidenciadas como significativas para a adaptação à epilepsia (Neni & Lua,
2011). Analogamente, para Pais-Ribeiro, Silva, Meneses, e Falco (2007) a
Reinterpretação Positiva, Autodistração, Coping Ativo, Aceitação e Religião
seriam as estratégias de coping mais eficazes para a QDV. Neste sentido, ajudar
os indivíduos a desenvolver estratégias de coping face à adversidade,
representa uma importante mudança psicológica positiva, que tem sido
francamente negligenciada em indivíduos com epilepsia (Taylor, et al., 2011).
Adicionalmente, uma das estratégias de coping ' entre outras asserções ' que se
tem destacado nos últimos anos é a espiritualidade. A literatura sugere que
existe uma relação consistente entre a doença crónica e a espiritualidade
(Nichols & Hunt, 2011) e que a espiritualidade pode ser um elo entre saúde
e doença, com impacto positivo na QDV (Pinto, & Ribeiro, 2010). Apesar de
religiosidade e a espiritualidade serem conceitos diferentes, muitas vezes a
espiritualidade aparece associada à prática de uma religião (Pinto &
Ribeiro, 2007). Todavia o conceito de espiritualidade difere do conceito de
religião, na medida em que o primeiro é mais amplo, dinâmico, pessoal e
experiencial, enquanto o segundo refere-se ao grau de participação ou adesão às
crenças e práticas de um sistema religioso (Muller, Plevak, & Rummans,
2001).
Relativamente à QDV, a espiritualidade foi correlacionada positivamente com os
domínios psicológico, relacionamentos sociais e ambiente (Rocha & Fleck,
2011). De um modo mais geral, a espiritualidade tem sido sistematicamente
associada significativamente com domínios da QDV (Giovagnoli, Meneses, &
Silva, 2006; Panzini, Rocha, Bandeira, & Fleck, 2007; Wang, Chan, Ng, &
Ho, 2008). Já outros estudos revelaram um valor moderado, embora significativo,
entre a espiritualidade e a QDV (Pinto & Ribeiro, 2010; Sawatzky, Ratner,
& Chiu, 2005), o que sugere que, apesar da espiritualidade se relacionar
com a QDV, permanecem conceitos distintos (Pinto & Ribeiro, 2010).
No domínio da epilepsia repensar a QDV é fundamental, até porque a perceção de
QDV elevada ou normal pode coexistir com a epilepsia (Jacoby, Snape, &
Baker, 2009; Stanton, Revenson, & Tennen, 2007). Acentua-se assim, a
necessidade de se explorarem as relações entre QDV e variáveis psicossociais
(Meneses, 2005).
O objectivo do presente estudo é identificar se adesão à terapêutica,
estratégias de coping e espiritualidade são preditores da QDV de indivíduos com
epilepsia. Acredita-se que a identificação de preditores deste tipo permita
subsidiar o desenvolvimento de intervenções no âmbito da promoção da QDV de
indivíduos com epilepsia.
MÉTODO
Participantes
Participaram no presente estudo transversal, 94 indivíduos com epilepsia, que
constituem uma amostra consecutiva recrutada em unidades de saúde de diversas
zonas do país. Os critérios de inclusão foram os seguintes: 1) diagnóstico há,
pelo menos, 3 anos; 2) idade superior a 16 anos; 3) nível de escolaridade de 6
anos ou mais; 4) vida estável com doença controlada; 5) não apresentar outras
alterações do foro neurológico, nem alterações psiquiátricas. No quadro_1 pode-
se observar as características sociodemográfica e clínica dos participantes.
Material
No desenvolvimento do protocolo de avaliação foi tida em consideração a
literatura científica relevante (sobre a patologia e dimensões psicossociais
pertinentes) e os instrumentos de avaliação existentes (acessíveis em Português
Europeu, a sua extensão, validade facial, grau de dificuldade de compreensão,
administração, cotação, interpretação, e as propriedades psicométricas
relatadas na literatura), de modo a permitir a avaliação das seguintes
variáveis:
Variáveis Sociodemográficas e Clínicas ' sexo, estado civil, profissão, idade,
escolaridade, duração de diagnóstico de epilepsia, um item sobre percepção da
gravidade da doença (Em geral como classificaria a sua doença?; 1=nada grave;
11=muito grave) e medicação antiepilética instituída, foram usadas para
caracterizar a amostra;
Qualidade de Vida'foi utilizado o questionário de Percepção de Saúde versão
reduzida, conhecido por Short Form-36Health Survey' SF-36, na versão 1.0, cujas
propriedades métricas foram estudadas na sua versão Portuguesa, por Ribeiro
(2005). É um questionário com 36 itens, cuja resposta é dada numa escala
ordinal que varia entre dois e seis pontos, o que permite calcular uma
pontuação, entre 0 e 100 (pontuação mais elevada indica melhor QDV),
distribuídos por 8 dimensões ' Funcionamento Físico, Desempenho Físico, Dor
Corporal, Saúde Geral, Vitalidade, Funcionamento Social, Desempenho Emocional,
Saúde Mental e um item de Transição ou Mudança de Saúde. Relativamente à
consistência interna Ribeiro (2005), obteve valores que variaram entre a=0,94 e
a=0,69 (N=2358). No presente estudo (N=94) obtiveram-se os valores de alfa de
Cronbach0,93para o Funcionamento Físico, a=0,76 para Desempenho Físico, a=0,77
para a Dor Corporal, a=0,83 para a Saúde Geral, a=0,74 para Vitalidade, a=0,59
para o Funcionamento Social, a=0,77 para Desempenho Emocional e a=0,84 para a
Saúde Mental;
Adesão à Terapêutica'foi avaliada de acordo com Medida de Adesão aos
Tratamentos (MAT) de Delgado e Lima (2001), uma escala unidimensional
desenvolvida a partir da medida de adesão apresentada por Morisky, Green, e
Levine (1986), que se destina a avaliar a adesão ao tratamento medicamentoso
prescrito. Inclui sete itens, com questões construídas pela negativa, em que a
resposta é dada numa escala ordinal de seis pontos (varia de sempre=1 a
nunca=6). Segundo os autores, os valores obtidos na MAT podem ser categorizados
em: adesão (valores = 5) e não adesão (valores <5), num intervalo possível
entre um a seis, em que valores mais elevados significam maior nível de adesão.
Relativamente à Consistência Interna (alfa de Cronbach) Delgado e Lima (2001)
obtiveram valores de a=0,74 (N=167), no presente estudo o valor de alfa de
Cronbach foi de 0,71 (N=93);
Estratégias de Coping' foram exploradas através do COPE-Resumido (COPE-R), uma
medida breve, com 14 itens (Ribeiro & Rodrigues, 2004). As escalas que
compõe o COPE-R são: CopingAtivo, Planear, Utilizar Suporte
Instrumental,Utilizar Suporte Social Emocional,Religião,Reinterpretação
Positiva,Autoculpabilização,Aceitação, Expressão de Sentimentos,
Negação,Autodistração, Desinvestimento Comportamental, Uso de Substâncias, e
Humor(Ribeiro & Rodrigues, 2004). As respostas podem ser dadas numa escala
ordinal com quatro alternativas (entre nunca faço isto=0 até faço sempre isto
=3) e o resultado final é apresentado como um perfil (Ribeiro & Rodrigues,
2004). A utilização do COPE-R tem benefícios em contextos de saúde e na
utilização de protocolos de avaliação longos, uma vez que permite facilidade no
preenchimento, mantendo as propriedades psicométricas (Ribeiro & Rodrigues,
2004);
Espiritualidade' operacionalizada de acordo com Escala de Avaliação da
Espiritualidade em Contextos de Saúde desenvolvida por Pinto e Ribeiro (2007)
constituída por cinco itens, os quais quantificam a concordância da pessoa
relativamente a questões relacionadas com a dimensão Espiritual. Os cinco itens
distribuem-se por duas subescalas: Crenças, associada à percepção religiosa
(dois itens) e Esperança/Otimismo, associada à esperança do doente (três
itens), sendo as respostas dadas numa escala ordinal com quatro alternativas
entre não concordo(1) a plenamente de acordo(4), fornecendo uma pontuação por
dimensão mais um total (Pinto, & Ribeiro, 2007). Segundo os autores a
cotação de cada uma das subescalas é feita através da média dos itens da mesma,
quanto maior o valor obtido em cada item, maior a concordância com a dimensão
avaliada. Relativamente à consistência interna os resultados foram bastante
aceitáveis (face ao número de itens e valores de referência teóricos) com um
valor de alfa de Cronbach de 0,74 (N=426) para Espiritualidade (total), a=0,92
para subescala Crenças e a=0,69 para a subescala Esperança/Otimismo (Pinto,
& Ribeiro, 2007). No presente estudo, obtiveram-se os seguintes valores de
alfa de Cronbach: 0,81 para Espiritualidade (total), a=0,88 (N=92)para Crenças
e a=0,80 (N=92)para Esperança/Otimismo.
Procedimento
Após os pedidos de autorizações de recolha de dados (dos responsáveis pelas
instituições de saúde, das Comissões de ética, dos técnicos de saúde e dos
doentes ' consentimento informado) em conformidade com a Declaração de
Helsínquia procedeu-se à administração do protocolo de avaliação. Consoante as
capacidades e desejo dos participantes, teve lugar a auto administração
(assistida) ou a administração no contexto de uma entrevista pessoal. Alguns
dos doentes optaram por preencher o protocolo na instituição de saúde, enquanto
outros optaram por preencher/concluir o preenchimento do protocolo mais tarde,
enviando-o preenchido por correio para a equipa de investigação.
Para a análise estatística foi aplicado o coeficiente de correlação de Pearson,
para explorar a associação entre a QDV e: a adesão à terapêutica, as
estratégias de coping e a espiritualidade, cumpridos os pressupostos da
normalidade da amostra, atendendo à dimensão da mesma (Marôco, 2011). Todas as
análises foram efetuadas usando oSoftware Statistical Package for the Social
Sciences (SPSS) 21.0.
De acordo com o objetivo do estudo, inicialmente foram exploradas as
correlações entre os indicadores (preditores ou variáveis independentes) e a
QDV (variável dependente), seguida de uma análise da contribuição de cada
variável. A análise de regressão foi aplicada à variável correlacionada, de
modo a identificar qual a capacidade preditiva da mesma, cumpridos os
pressupostos para realização de regressões (Marôco, 2011).
RESULTADOS
Antes da análise dos dados relativos ao objetivo do presente estudo, apresenta-
se a caracterização da amostra quanto à QDV, adesão à terapêutica, estratégias
de coping e espiritualidade (quadro_2).
Em relação à QDV observam-se valores médios mais elevados nas dimensões
Funcionamento Físico e Funcionamento Social e Desempenho Emocional. Já as
dimensões Vitalidade e Saúde Geral foram as que apresentaram menores valores
médios. Relativamente à adesão à terapêutica, obtiveram-se níveis elevados de
adesão. Quanto à utilização de estratégias de coping registaram-se maior
utilização das seguintes estratégias de coping (por ordem decrescente):
Aceitação, Reinterpretação Positiva,Coping Ativo e Planear. Já o Uso de
Substâncias, Desinvestimento Comportamental e Autoculpabilização, foram as
estratégias de coping com registo de menor utilização. Em relação à
espiritualidade os resultados foram semelhantes para Espiritualidade (total),
Crenças e Esperança/Otimismo e encontram-se acima do ponto médio (2,5).
O quadro_3 mostra as correlações de Pearson entre a QDV, adesão à terapêutica,
estratégias de coping e a espiritualidade. Foram encontradas correlações
estatisticamente significativas com todas as dimensões da QDV, entre fracas a
moderadas (r<0,60), sendo que cada dimensão da QDV correlacionou-se com pelo
menos cinco variáveis. Relativamente à adesão à terapêutica observou-se uma
correlação positiva e estatisticamente significativa com a QDV ao nível das
dimensões: Funcionamento Social e Desempenho Emocional.
Verificou-se uma correlação negativa e estatisticamente significativa entre
todas as dimensões da QDV e as seguintesestratégias de coping: Desinvestimento
Comportamental, Expressão de Sentimentos, Autoculpabilização e Religião.
Portanto, maior utilização destas estratégias de coping estava associada a
menor QDV. Relativamente à estratégia de coping Negação, esta apenas se
correlacionou negativamente com a dimensão Saúde Geral da QDV.
Inversamente a estratégia de coping Aceitação correlacionou-se positiva e
significativamente com Funcionamento Físico, Dor Corporal e Saúde Geral, logo,
maior utilização desta estratégia está associada e a melhor QDV nestas
dimensões. Analogamente, a estratégia de copingHumor, que se correlacionou-se
positiva e significativamente com a dimensão Saúde Mental. No que se refere às
seguintes estratégias de coping: CopingAtivo, Uso de Substâncias,
Reinterpretação Positiva, Autodistração e Planear, não se verificaram
correlações significativas com nenhuma dimensão da QDV (cf. quadro_3).
Similarmente, para a dimensão espiritualidade, não se verificaram correlações
lineares estatisticamente significativas com nenhuma dimensão da QDV. Todavia
Crenças apresenta uma correlação negativamente e estatisticamente significativa
com as dimensões Funcionamento Físico e Desempenho Emocional da QDV e
Esperança/Otimismo correlaciona-se positivamente e significativamente com as
dimensões Dor Corporal, Saúde Geral e Vitalidade da QDV (cf. quadro_3).
Relativamente aos resultados relativos aos modelos de regressão múltipla e a
informação sobre capacidade preditiva das variáveis independentes relativamente
às dimensões da QDV, obtiveram-se os seguintes resultados: todos os modelos de
regressão múltipla foram significativos, isto é, foi identificado pelo menos um
preditor de cada dimensão de QDV da amostra. Os preditores mais significativos
da QDV de indivíduos com epilepsia foram: as estratégias de coping:
Desinvestimento Comportamental, Expressão de Sentimentos e Religião; a
Esperança/Otimismo e a Adesão à Terapêutica.
Mais especificamente, o modelo de regressão múltipla aplicado explica 16,3% da
variância da dimensão Funcionamento Físico, sendo a estratégia de coping
Desinvestimento Comportamental o único preditor significativo (cf. quadro_4).
De acordo com o quadro_5 na dimensão Desempenho Físico, o modelo proposto
explica 29,5% da variância e as estratégias de coping Desinvestimento
Comportamental e Expressão de Sentimentos são os preditores identificados.
Relativamente à dimensão Dor Corporal observa-se no quadro_6 que o modelo de
regressão múltipla aplicadoexplica 22,9% da variância, sendo a estratégia de
coping Expressão de Sentimentos o único preditor.
A nível da dimensão Saúde Geral,o modelo de regressão múltipla aplicado explica
34% da variância, sendo a Expressão de Sentimentose a Esperança/Otimismoos
preditores identificados (quadro_7).
No quadro_8 observa-se que o modelo de regressão aplicado para a dimensão
Vitalidade explica 14,8% da variância verificando-se que a Esperança/Otimismo
foi o único preditor.
Para a dimensão Funcionamento Social, o modelo de regressão múltipla aplicado
explica 29,2% da variância desta dimensão da QDV, tendo-se evidenciado como
preditores mais significativos: adesão à terapêutica e a estratégia de
copingDesinvestimento Comportamental (cf. quadro_9).
Analogamente, para a dimensão Desempenho Emocional a estratégia de coping
Desinvestimento Comportamental também foi o preditor identificado (cf. quadro
10).
Relativamente à dimensão Saúde Mental, o modelo de regressão múltipla explica
32% da variância, sendo as estratégias decoping Expressão de Sentimentos e
Religião os preditores mais significativos (cf. quadro_11).
DISCUSSÃO
Antes de passar à discussão dos resultados propriamente dita, é de sublinhar
que a heterogeneidade em termos sociodemográficos e clínicos da amostra, bem
como a dimensão da mesma, exigem cuidados na interpretação dos resultados
obtidos e impedem a sua generalização. Tal como em alguns estudos, que defendem
que indivíduos com epilepsia podem ter uma QDVnormal ou elevada (Jacoby et al.,
2009; Stanton et al., 2007), verificou-se que todos os valores médios da
amostra eram superiores a 50 (um mínimo de zero e máximo de 100) para todas as
dimensões da QDV (cf. todavia, os resultados normativos para a idade e sexo de
acordo com Ribeiro, 2005).
A salientar que os valores mais baixos foram registados para as dimensões
Vitalidade (que traduz o nível de energia e fadiga) e Saúde Geral (que traduz a
perceção de saúde), o que se compreende já que o diagnóstico da epilepsia
implica saber lidar com o prognóstico de incerteza, face ao controlo das crises
e a outros riscos, bem como com a terapia medicamentosa de longa duração e os
efeitos secundários da mesma (ILAE, 2003).
Relativamente às estratégias decoping, no presente estudo os resultados
evidenciaram maior frequência de utilização estratégias com foco no problema,
que têm vindo a ser associadas a melhor adaptação à epilepsia (p.ex., Neni
& Lua, 2011) e a melhor QDV (p.e., Pais-Ribeiro et al., 2007). Pode também
considerar-se que a elevada pontuação de adesão à terapêutica poderá espelhar
um coping adequado com a situação clínica. No que concerne à relação entre as
variáveis analisadas, Jacoby e Baker (2008) consideram que a trajetória da QDV
em indivíduos com epilepsia ativa é influenciada por fatores que não apenas
clínicos. No presente estudo, das variáveis não clínicas analisadas, onze
estavam associadas à QDV. Relativamente à adesão à terapêutica, foram
encontradas correlações positivas com a QDV, tal como estudos anteriores
(Boylan et al. 2004; Gilliam, 2003; Guekht et al. 2007; Hovinga et al. 2008;
Jacoby & Baker, 2008; Kerr et al., 2011; Wheless, 2006), reforçando o papel
da adesão no sucesso do tratamento (Hovinga et al., 2008) e controlo das crises
(Gilliam, 2003; Guekht et al. 2007; Hovinga et al., 2008). Quanto à relação
entre as estratégias de coping e a QDV, ainda que tenham sido encontradas
algumas correlações estatisticamente significativas, estas eram entre fracas a
moderadas. Também Lua et al. (2012) encontraram uma associação fraca, ainda que
significativa, entre os domínios da QDV e estratégias de coping.
Na análise individual do comportamento das diferentes estratégias de coping,
este estudo mostrou que as estratégias de coping Aceitação e Humor se
correlacionavam positivamente com a QDV. Todavia, algumas estratégias de coping
como: Reinterpretação Positiva, Autodistração e Coping Ativo não se mostraram
correlacionadas com a QDV, contrariamente a alguns estudos (Neni & Lua,
2011; Pais-Ribeiro et al., 2007). Por outro lado, no presente estudo, maior
utilização das estratégias de coping Desinvestimento comportamental, Expressão
de Sentimentos, Autoculpabilização e Religião, foram associadas a pior QDV.
Também, em estudos anteriores, o recurso a estratégias de evitamento foram
associadas a pior QDV (Lua et al., 2012)
Segundo Livneh e Antonak (2005), na adaptação à doença crónica devem ser
promovidas estratégias de coping eficazes, com impacto na QDV. Também neste
estudo os resultados apontam para a importância da identificação das
estratégias de coping capazes de atender às necessidades dos indivíduos, uma
vez que tanto as estratégias passivas como ativas evidenciaram estar associadas
à QDV e paralelamente outras não.
Relativamente à variável espiritualidade (total), Crenças e Esperança/Otimismo
mostraram estar associadas à QDV, tal como estudos prévios (Pinto &
Ribeiro, 2010; Sawatzky et al., 2005). Esta associação verificou-se apenas para
algumas dimensões da QDV, coincidente com estudos anteriores (Giovagnoli et
al., 2006; Panzini et al., 2007; Wang et al., 2008). Com base na definição dos
conceitos, faz sentido que Esperança/Otimismo esteja associada a menor perceção
de dor, melhor avaliação da própria saúde e a maior vitalidade. Paralelamente
Crenças, associada à perceção religiosa, evidencia uma correlação negativa com
a QDV, ao nível do Funcionamento Físico e Desempenho Emocional, associadas à
execução de atividade física e dificuldade em executar o trabalho,
respetivamente. Neste sentido, compreende-se que a estratégias de
CopingReligião se tenha correlacionado com todas as dimensões da QDV
contrariamente à Espiritualidade (total).
Relativamente ao objetivo do presente estudo; identificar se adesão à
terapêutica, estratégias de coping e espiritualidade predizem a QDV de
indivíduos com epilepsia, os modelos de regressão múltipla aplicados explicaram
alguma variância das dimensões da QDV e permitiram identificar quais os
preditores mais significativos. Relativamente a preditores negativos
significativos da QDV, destacam-se as estratégias de coping: Desinvestimento
Comportamental, Expressão de Sentimentos e Religião, tal como foi sugerido num
estudo anterior (Silva, Bettencourt, Moreira, & Canavarro, 2011). Deste
modo, quanto maior a utilização das estratégias de coping Desinvestimento
Comportamental, Expressão de Sentimentos e Religião, pior será a QDV. Por sua
vez, os preditores positivos significativos da QDV foram: Esperança/Otimismo e
a adesão à terapêutica. Assim, quanto maior o nível de Esperança/Otimismo maior
será a perceção QDV, em concordância com estudos anteriores (Pinto &
Ribeiro, 2010; Sawatzky et al., 2005). Simultaneamente, quanto melhor o nível
de adesão à terapêutica maior será a perceção de QDV, em semelhança do que se
verificou em estudos anteriores (Boylan et al. 2004; Gilliam, 2003; Guekht et
al. 2007; Hovinga, et al. 2008; Jacoby & Baker, 2008; Kerr et al., 2011;
Wheless, 2006).
Em suma, este estudo contribuiu para a identificação de preditores
significativos da QDV de indivíduos Portugueses com epilepsia, nomeadamente: a
adesão à terapêutica, Esperança/Otimismo e as estratégias de coping:
Desinvestimento Comportamental, Expressão de Sentimentos e Religião. A
identificação de preditores modificáveis da QDV pode subsidiar intervenções ao
nível da promoção da QDV de indivíduos com epilepsia (Taylor et al., 2011),
através do desenvolvimento de competências por parte do indivíduo, e da
sensibilização dos profissionais de saúde para a importância da QDV e de um
atendimento multidisciplinar, capaz de dar resposta às necessidades do
indivíduo com epilepsia (e seus significativos). Futuramente, seria
interessante analisar até que ponto é que intervenções ao nível destes
preditores se reflete numa melhoria significativa da QDV, bem como quais os
preditores da QDV ao longo do tempo. O presente estudo, sublinha também a
necessidade de clarificar algumas relações nomeadamente ao nível do coping e da
espiritualidade, na medida em que algumas das relações entre as variáveis foram
inesperadas (p.e., relações negativas quando se esperava que fossem positivas),
exigindo aprofundamento em estudos futuros.