Adaptação da escala de ansiedade pré-escolar, de s. Spence
Adaptação da escala de ansiedade pré-escolar, de s. Spence
Anxiety in portuguese pre-school children ' adaptation of the spence pre-school
anxiety scale
As perturbações da ansiedade representam um dos conjuntos de patologias mais
frequentes na infância (Albano, Chorpita & Barlow, 2003; Cartwright-Hatton,
McNicol, Doubleday, 2006) afetando entre 5,7 e 17,7% de crianças e jovens
(Costello & Angold, 1995). Havendo um aparecimento precoce, têm um impacto
marcado no processo de desenvolvimento da criança, na adequação aos contextos
educativos, no desempenho académico e na vida e saúde mental do adulto (Shamir-
Essakow, Ungerer & Rapee, 2005) pelo que se torna premente o seu despiste e
diagnóstico precoce de forma a implementar estratégias de intervenção adequadas
que minorem o seu impacto.
A ansiedade e o medo são um conjunto de estratégias precocemente desenvolvidas
que vão desde a perceção (de ameaça) até à execução rápida de ações que têm
como objetivo a proteção do indivíduo perante uma ameaça ou o perigo. Esta
função geral de proteção deverá ser entendida como um componente de um sistema
de alarme e defesa perante o perigo (Baptista, 2000) que desencadeará uma
resposta diversa consoante o tipo de ameaça percebida.
Em termos desenvolvimentais o primeiro estudo sobre a evolução das
manifestações ansiosas na criança data de 1935, realizado por Jersid e Holmes
(citado por Barros, 1996), os quais procuraram inventariar os principais
estímulos desencadeadores de medo na criança. Com base neste estudo e na imensa
literatura entretanto produzida considera-se que as primeiras reações de medo
(primeiro semestre de vida) têm características inatas (Wenar, 1990) e são
desencadeadas por estímulos intensos e súbitos como ruídos, quedas ou
movimentos bruscos. Posteriormente, já com interferência das experiências de
vida precoces, surge a ansiedade à aproximação de estranhos e de separação das
figuras de vinculação emocional e o medo das alturas (conforme experiência do
abismo percetivo). A ansiedade de separação, descrita como afeto negativo, é
despoletada pela antecipação, ou subsequente ao afastamento ou perda de uma
figura de vinculação (Barros, 1996) aparece como um medo generalizado a todas
as crianças. Tem o seu apogeu entre os 9 e os 13 meses diminuído gradualmente a
partir dos 30 meses. Com o desenvolvimento e a exposição a uma maior
diversidade de estímulos, são crescentes os desencadeadores de medo e
ansiedade. Surgem os medos e fobias a objetos simples (animais ferozes, como
aranhas, baratas ou mesmo aos mamíferos domésticos mais corpulentos ou ativos)
ou situações (trovoadas ou tempestades) potencialmente causadoras de dano à
integridade física da criança. As oportunidades de socialização da criança (com
adultos exteriores ao núcleo familiar ou com pares) favorecem a expressão não
só de ansiedade de separação das figuras de vinculação emocional como também de
angústias associadas a situações sociais que implicam a exposição da criança,
surgindo igualmente medo que o seu comportamento ou atitudes sejam alvo do
ridículo por parte de outros adultos ou crianças ou do insucesso do seu
desempenho (Wenar, 1990). Ao longo desta faixa etária, paralelamente ao
desenvolvimento simbólico e da capacidade de representação mental bem como da
linguagem, vão surgindo medos fundamentados na imaginação da criança: monstros,
fantasmas ou outros seres fantásticos podem povoar os locais afastados, escuros
ou mesmo a noite.
Nesta faixa etária a maioria das crianças ainda não possuem competências
metacognitivas que permitam analisar e relatar os seus pensamentos e emoções,
capacidade que se vai desenvolvendo entre os 5 e os 7 anos de idade, com o
acesso ao pensamento concreto (Piaget, 1971) e o treino de competências
escolares de tipo cognitivo (Flavell, Green & Flavell, 2000).
Avaliação do Medo na Idade Pré-Escolar
Analisando as manifestações mais precoces do medo e ansiedade na criança,
apesar da informação ser escassa, considera-se que um conjunto de sintomas está
presente desde cedo com uma frequência e intensidade que lhe conferem
relevância clínica. Apesar de se considerar que na idade pré-escolar se possam
encontrar padrões comportamentais compatíveis com os critérios de diagnóstico
de perturbações de ansiedade tais como ansiedade de separação, ansiedade social
(e a sua manifestação extrema, o mutismo seletivo), ou as fobias específicas,
não existem muitas evidências empíricas em populações de idade pré-escolar, as
quais demonstrem conclusivamente que essas manifestações poderão preencher os
critérios de diagnóstico tal como são formulados na DSM-IV (2000).
Um obstáculo significativo na ação dos clínicos que trabalham com crianças em
idade pré-escolar ou dos investigadores da saúde mental infantil reside na
ausência de instrumentos de avaliação fidedignos e adaptados à população
portuguesa em idade pré-escolar. Esta dificuldade tem sido contornada com o
recurso a escalas de avaliação global das perturbações internalizadoras (CBCL
1,5-5, Achenbach, 1992) que integram na mesma subescala (inespecificamente)
padrões comportamentais relacionados com a ansiedade, o isolamento social e a
depressão, fornecendo pouca informação específica sobre sintomatologia
específica da ansiedade. Desta constatação decorre a necessidade dos clínicos
possuírem um instrumento de diagnóstico desenvolvimentalmente adequado, fiável
e específico para a população pré-escolar portuguesa pelo que se tornou
premente a concretização do nosso objetivo de adaptação de um instrumento.
A Escala de Ansiedade Pré-Escolar de Spence (P.A.S.) o único instrumento
encontrado na literatura internacional sobre a avaliação de ansiedade pré-
escolar. Desenvolvida a partir da classificação da DSM-IV visto ser o sistema
dominante quer na clínica quer na investigação das perturbações de ansiedade na
infância. O P.A.S. apresenta um conjunto de sintomas bem especificados que
devem ser respondidos pelos progenitores de acordo com a frequência da sua
presença numa escala de 4 pontos que varia entre nunca e sempre. Os itens,
consistentes com as categorias da DSM-IV, foram selecionados por peritos no
tema tendo em conta a literatura, medidas de diagnóstico internacional e
entrevistas clínicas (Edwards, Rapee, Kennedy & Spence, 2010). A validação
original do instrumento (Spence at al, 2001) foi administrada a crianças entre
os 3 e os 5 anos de idade e está organizada em cinco categorias de diagnóstico:
Perturbação de ansiedade generalizada (PAG), perturbação de ansiedade social
(PAS), ansiedade de separação (AS), perturbação obsessivo-compulsiva (POC) e
medo de dano físico (MDF) as quais estão associadas num fator ansiedade
superordenado responsável pelo covariância entre os fatores sugerindo que, em
idades precoces, a ansiedade poderá ser um constructo unitário. As dimensões
responsáveis por uma variância considerada suficiente para serem clusters
independentes foram a PAS, POC E MDF. A ansiedade geral e a ansiedade de
separação estavam altamente correlacionadas e relacionadas com o fator geral
ansiedade. Os autores hipotetizam que, no seu conjunto, estes resultados
poderão indicar que existirá alguma diferenciação precoce de subtipos de
perturbações de ansiedade os quais se tornarão gradualmente mais específicos ao
longo do desenvolvimento. Outro aspeto relevante quanto às propriedades
psicométricas do P.A.S. é a validade de constructo, afirmada por uma correlação
significativa com a Escala de Internalização do Child Behavior Checklist (CBCL,
Achenbach, 1991). Não se encontraram diferenças significativas entre sexos e,
por fim, encontraram-se ligeiras diferenças entre níveis etários com as
crianças mais novas a obterem níveis de ansiedade ligeiramente mais elevados.
Evidência de validade transcultural das escalas de ansiedade de Spence existe
para as versões para populações em idade escolar (Spence Child Anxiety Scale
'SCAS-, Spence, 1997) sendo apenas disponível para a P.A.S. um estudo de
adaptação para crianças romenas (Benga, Tincas & Visu-Petra, 2010). Os
resultados deste estudo globalmente confirmam os dados recolhidos na construção
da escala original.
O objetivo do estudo é analisar as propriedades psicométricas da versão
portuguesa do P.A.S.pt. Em segundo lugar, explorar e avaliar as perturbações de
ansiedade numa população em idade pré-escolar. Mais especificamente conhecer os
principais medos e problemas de ansiedade presentes na população pré-escolar
(prevalência de sintomas e potenciais diferenças ao longo da idade e devido ao
género).
MÉTODO
Participantes
Participaram 562 indivíduos: crianças que frequentam Jardins de Infância e o 1º
ano de escolaridade da área metropolitana das duas principais cidades de
Portugal (Lisboa e Porto). Optamos por alargar a nossa amostra às crianças do
1º ano de escolaridade) 6 e 7 anos visto que em Portugal os instrumentos
disponíveis para a avaliação da ansiedade em crianças apenas estarem validados
para crianças com idade de 8 anos ou superior. Com este procedimento evitamos a
existência de uma lacuna na avaliação das perturbações de ansiedade nesta faixa
etária.
As famílias foram contactadas com a colaboração das Educadoras e Professoras
para participar num estudo sobre o desenvolvimento emocional e avaliação da
ansiedade em crianças de idade pré-escolar e início de escolaridade. Os
questionários foram preenchidos pelas mães, no domicílio, e devolvidos
posteriormente. A amostra clínica foi recolhida numa população de crianças
referidas para uma consulta de psicologia pediátrica por apresentarem sintomas
de ansiedade.
Foram recolhidos 562 protocolos com respostas ao P.A.S.-pt (53% do sexo
masculino e 47% do sexo feminino - não foi possível identificar o sexo em 4
protocolos) de crianças com idades compreendidas entre os 28 e os 84 meses de
idade (m= 51,19 meses; dp=13,39), dos quais 98 responderam à Escala de
Internalização do CBCL 1,5-5 (Achenbach, 1992). A amostra clínica é composta
por 49 crianças (8,7%).
Material
O P.A.S.-pt é um questionário aos pais composto por 28 itens que avaliam
problemas relacionados com 5 tipos de perturbações de ansiedade presentes na
idade pré-escolar: Ansiedade generalizada, ansiedade social, ansiedade de
separação, medo de dano físico e perturbação obsessivo-compulsiva. Seis itens
adicionais avaliam a presença de sintomas de perturbação de stresse pós-
traumático. A resposta a cada item era dada numa escala tipo Likert de 04
pontos (em que 0= nunca e 4= sempre). Os resultados parciais e o resultado
global calculam-se pelo somatório das respostas aos itens.
Como forma de obter uma medida de validade de constructo uma sub-amostra de 98
mães respondeu aos itens da subescala de Internalização do Child Behavior
Questionnaire (CBCL, Achenbach, 1992) na tradução para o português de Almeida e
colaboradores (Fonseca, Simões, Rebelo, Ferreira & Cardoso, 1994). O CBCL
foi inserido no procedimento, tal como no estudo original (Spence, Rapee,
McDonald & Ingram, 2001) enquanto indicador de validade concorrente através
da previsão de correlação significativa entre o resultado global do P.A.S.-pt e
a Escala de Internalização do CBCL. Este questionário de rastreio de
perturbações comportamentais é bastante utilizado na clínica e bem conhecido na
investigação em crianças com idades compreendidas entre os 1,5 anos e 18 anos.
Inclui 113 itens descritores de comportamentos da criança (agrupados em duas
subescalas: Internalização e Externalização) em que os progenitores assinalam
numa escala de três pontos (não é verdadeiro=0; algumas vezes verdadeiro=1; e
muito verdadeiro=2) se o comportamento ocorre no presente ou se manifestou ao
longo dos últimos 6 meses. A subescala de Internalização é composta por 31
itens que avaliam a ocorrência de comportamentos associadas à ansiedade,
depressão, queixas somáticas e isolamento social.
Procedimento
O processo teve início com o pedido de autorização aos autores para utilização
do instrumento supracitado. Procedeu-se à tradução da escala e à sua aplicação
aos participantes a fim de validar a escala à população portuguesa.No
desenvolvimento da versão Portuguesa seguiram-se os seguintes passos para a
validação: Tradução para Português dos itens originais; Discussão com
especialistas, no sentido de escolher uma versão em língua portuguesa que
refletisse o conteúdo dos itens em Inglês; Inspeção da análise de conteúdo de
cada item (algumas modificações pontuais foram necessárias); Identificação da
população alvo do inventário;
Obteve-se a autorização dos Conselhos Diretivos das Escolas em que a Escala foi
aplicada e elaborou-se o formulário de consentimento informado para os pais;
obteve-se a autorização da Comissão de Ética para a amostra clínica;
Aplicou-se a Escala à população de estudo, solicitado às mães para responder à
tradução portuguesa da Spence Preschool Anxiety Scale (P.A.S.-Pt) realizada
pelo primeiro autor, de acordo com as orientações do International Test
Commission (van der Vijver & Hambleton, 1996).
RESULTADOS
Efeitos de idade e sexo
A análise da relação entre a idade e os resultados do P.A.S.pt foi realizada
inicialmente através de um teste de correlação (Pearson) o qual revelou um
aumento do número total de problemas de ansiedade com o avançar da idade
(r=0,16; p<0,001). Esta constatação verificava-se igualmente nas subescalas
Perturbação de Ansiedade Geral (r=0,15;p<0,001), de Ansiedade Social (r=0,12;
p<0,005), de Medo de Dano Físico (r=0,11; p<0,01) e de Ansiedade de Separação
(r=0,16; p<0,007). Podemos verificar que, apesar de positivas e de apontarem no
sentido previsto pelos autores da escala original, bem como da teoria atrás
revista, estes valores são pouco elevados.
O quadro_1 apresenta os valores obtidos na amostra para o resultado global do
P.A.S-pt e subescalas.
Num segundo momento, analisamos a prevalência dos problemas de ansiedade ao
longo das diversas idades. A comparação do nível de significância dos
resultados referidos foi efetuada através de uma ANOVA com testes post-hoc e
correção de Bonferroni. Constatamos uma progressão dos resultados entre os 3 e
os 6 anos de idade, sendo que a progressão dos problemas de ansiedade é
estatisticamente significativa (F(4, 426)=4,60; p=0,001) do 3º e do 4º para o
6º ano de idade e um declínio aos 7 anos para a P.A.S.pt Total; para a
subescala Perturbação de Ansiedade Geral a evolução dos resultados é semelhante
com um incremento significativo do 4º para o 6º ano de idade (F(4,488)=4,93;
p=0,001); Na subescala Ansiedade Social encontramos um perfil evolutivo
semelhante mas com uma evolução estatisticamente significativa (F(4,500)= 4,02;
p=0,003) entre os 3 e os 5 anos; Na subescala Medo de Dano Físico constatamos
uma progressão da frequência dos sintomas até aos 5 anos, sendo a progressão
significativa do 3º ano e do 4º ano (F(4, 497)= 6,41; p=0,001) para o 5º ano de
idade e um declínio nas idades seguintes; Para a subescala Ansiedade de
Separação, após um ligeiro aumento entre os 3 e 4 anos de idade, ocorre um
incremento acentuado mas não significativo (F(4,493)=2,17; p=0,07) para os 5
anos com estabilização posterior; Finalmente na POC encontramos uma subida dos
comportamentos compulsivos e das obsessões entre os 3 e os 4 anos
(estatisticamente não significativo ' F(4, 506)=1,35; p=0,25) e uma
estabilização nas idades subsequentes.
Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas, analisadas
através de um teste t, entre os resultados da escala total (t=1,58; p=0,39) ou
subescalas entre rapazes e raparigas.
Prevalência de sintomas de ansiedade
Uma estimativa da prevalência de cada sintoma de ansiedade foi determinada a
partir da percentagem de mães que assinalaram o item como ocorrendo Quase
Sempre (nota 3) ou Sempre (nota 4). Os problemas mais comuns (respostas com
frequência superior a 10%) para a população estudada são apresentados no quadro
2.
Constatamos que os problemas mais frequentes ao longo da fase pré-escolar são
relativos à separação dos pais e o medo de dano físico associado a algo
específico (cães, insectos ou trovoadas).
Os 12 problemas mais comuns anotados para a população em estudo referem-se a
ansiedade de separação dos pais (dormir fora de casa) ou que algo negativo lhes
aconteça ou ainda que algo impossibilite a contacto com os progenitores, medo
de dano físico (medo de alturas, do escuro, de insetos ou cães), ansiedade
social (ter comportamentos desajustados, que envergonhem a criança frente a
outras pessoas), dois itens referentes a ansiedade geral (dificuldade em
controlar-se/acalmar-se e em dormir quando preocupado) e um item que reflete um
comportamento repetitivo (verificar se fechou a porta ou a torneira).
Nas idades mais precoces são mais prevalecentes os problemas especificamente
associados à separação (o item 6 ' ter receio de dormir sem a companhia do pai
ou mãe fora de casa o item 12 - ter medo que alguma coisa má aconteça aos pais)
são mais prevalentes em crianças de ambos os sexos aos 3 e 4 anos de idade
seguidos pelo medo de dano físico (medo do escuro ' que está igualmente
associado às separação dos pais para dormir no quarto próprio); os problemas de
ansiedade social emergem pelos 6 anos de idade (item 2 e item 19 ' preocupação
relativa à realização de comportamentos que deixem a criança embaraçada em
situações publicas) em ambos os sexos. A constância de respostas assinaladas no
item 3 (constante verificação da realização de ações de modo correto) poderá
estar associado à disponibilidade desenvolvimentalmente benéfica da criança
para realizar aprendizagens instrumentais das quais poderá decorrer algum
benefício social.
Estrutura Fatorial
Spence et al. (2001) testaram, inicialmente através da análise fatorial
exploratória e, posteriormente, pela análise confirmatória, vários modelos de
análise e explicação dos resultados, destacando-se as variantes com quatro
fatores inter-relacionados (em que não se diferenciava entre ansiedade geral e
ansiedade de separação), uma variante com cinco fatores e ainda um modelo de
cinco fatores com um fator sobre-ordenado, tendo concluído que o modelo de
cinco fatores era o que melhor se adequava aos resultados (validado pela
análise fatorial confirmatória). Tal resultado foi confirmado no estudo de
Benga, et al. (2010) para a população Romena. Pelo que decidimos seguir os
mesmos passos para o nosso estudo.
Análise em componentes principais
A medida de adequação da amostra fornecida pelo teste Kaiser-Meyer-Olkin (0,86)
e o teste de esfericidade de Bartlett (x2= 3702,52; p< 0,001) indicam a
adequação de realizar a análise fatorial com os dados presentes. Realizamos uma
análise de componentes principais com rotação obliminal (tal como na versão
original) para extração dos fatores tendo entrado todos os itens na solução
final.
O scree-test mostra uma solução com cinco fatores que explicavam 49,53% da
variância dos resultados, sendo que os itens que os integram coincidem com os
descritos na versão original. A análise dos valores de alfa para as diferentes
subescalas permitiu obter valores indicadores de consistência interna
satisfatória para todas as subescalas. Verificamos que para a subescala de
ansiedade generalizada obtivemos um valor de alfa=0,74; Na subescala medo de
dano físico o valor de alfa foi de 0,73; Para a subescala de ansiedade social
registamos um valor de alfa=0,70; na subescala de ansiedade de separação
encontramos um valor de alfa=0,69, por fim, na subescala POC o valor
determinado foi alfa=0,63.
Análise de fidedignidade
A análise da consistência interna foi determinada pela computação do Alfa de
Cronbach. O valor obtido para a escala total foi de alfa=0,88 (0,87 no PAS-ro,
versão romena) e, indicador de boa consistência, enquanto para as subescalas a
consistência variou entre 0,63 e 0,73 Ansiedade Generalizada =0,69, Ansiedade
Social =0,70, Perturbação Obsessiva =0,63, Medo de dano Físico =0,73 e
Ansiedade de Separação =0,69. todos estes valores são indicadores de uma
consistência interna satisfatória.
Validade convergente
Como anteriormente referimos, com o objetivo de fornecer suporte para a
proposição que afirmava que os itens selecionados para o P.A.S.-pt avaliavam o
constructo ansiedade na população pré-escolar, a validade concorrente foi
determinada com recurso à Escala de Internalização do CBCL, sendo que uma
correlação positiva entre ambos indicaria a capacidade do P.A.S.-pt para
alcançar o seu propósito. Apesar de a escala de Internalização fornecer uma
avaliação mais ampla dos problemas internalizadores, dos quais a ansiedade é um
dos componentes, esperava-se uma correlação moderada a alta.
Calculamos o Coeficiente de correlação produto-momento de Pearson entre o
resultado total da referida escala e o resultado global do P.A.S.-pt e
encontramos uma correlação significativa entre os valores (r=0,61;
n=349;p<0,01) o que confirma a nossa hipótese (quadro_3). Também se verifica a
existência de correlações significativas entre a Escala de Internalização do
CBCL com a subescala de Ansiedade Generalizada (r=0,50; p=0,0001), de Ansiedade
Social (r=0,33; p=0,0001), Perturbação Obsessiva (r=0,42; p=0,0001), Medo de
dano Físico (r=0,39, p=0,0001) e Ansiedade de Separação (r=0,46; p=0,0001).
Validade Discriminante
Procuramos conhecer a capacidade de o P.A.S.-pt discriminar entre a população
normativa de crianças inseridas em Jardim de Infância e uma amostra de crianças
referidas para uma consulta de psicologia pediátrica por apresentarem sintomas
de ansiedade.
Relativamente aos resultados do grupo clínico, constata-se que esta amostra
obtém valores significativamente mais elevados quer no resultado global do
P.A.S.pt quer nas subescalas Ansiedade Geral, Ansiedade Social, Medo de Dano
Físico (quadro_3). Não se encontrou diferença significativa nas subescalas POC
(o grupo referenciado não incluía nenhuma criança com este tipo de
sintomatologia) nem na subescala de Ansiedade de Separação, apesar do grupo
clínico apresentar valores mais elevados.
DISCUSSÃO
O presente estudo examinou as propriedades psicométricas da versão portuguesa
da Escala de Ansiedade para o Período pré-escolar (P.A.S.-pt)1 numa amostra de
crianças de Jardim de Infância e do 1º ano de escolaridade. Em termos gerais os
resultados confirmam o agrupamento de sintomas apresentado no DSM-IV e as
investigações realizadas em contextos culturais diversos (Austrália e Roménia)
com algumas especificações. Desde já teremos que ter algum cuidado na análise
dos resultados pois, à semelhança do estudo de Benga et al. (2010), a nossa
amostra era constituída por crianças mais velhas (entre os 3 e os 7 anos de
idade, com os mais crescidos já a frequentar o 1º ano de escolaridade) e um
grupo de controlo com sintomatologia clínica, referido para uma consulta de
especialidade por apresentar perturbações de ansiedade.
Devido ao reduzido número de respostas aos itens da escala de stress pós-
traumático, estes não foram analisados no presente estudo (tal como ocorreu nos
estudos de Benga, et al., 2010, e de Edwards, et al., 2010).
Começando por efetuar a análise da prevalência e intensidade dos diversos
sintomas de ansiedade, destaca-se, desde logo a discrepância entre a expressão
de sintomas de ansiedade encontrados na nossa população e os registados pelos
autores da escala. Os registos de prevalência são significativamente mais
elevados na nossa população (semelhantes aos encontrados para a população
romena).
Uma análise das diferenças entre sexos revelou que não foram encontradas
diferenças significativas entre rapazes e raparigas quer para a escala total
quer para as diversas subescalas, o que vai de encontro ao registado na
adaptação da escala original mas contraria a literatura que refere serem as
raparigas mais propensas às manifestações de ansiedade ou de comportamentos
fóbicos (Bouldin & Pratt, 1998). Podemos concluir que, na nossa população,
não existirão diferenças significativas na expressão de medo ou ansiedade em
crianças de idade pré-escolar, segundo o registo das mães. Estudos
complementares poderão ser importantes para esclarecer este resultado bem como
sobre as considerações teóricas sobre a sua etiologia (inata ou adquirida ao
longo do processo de socialização) e a evolução dos medos pois é sabido que
existe uma diferenciação na sua expressão ao longo da infância e adolescência.
Relativamente à idade das crianças, apesar de estatisticamente significativos,
a magnitude dos valores de correlação é incipiente, mas constatamos um
incremento das manifestações de ansiedade entre os 3 e os 6 anos de idade com
declínio para os 7 anos. No geral, as crianças de 3 anos expressam um menor
número de medos, tal como se pode constatar pela análise do resultado da
P.A.S.pt Total; para a subescala Perturbação de Ansiedade Geral a evolução dos
resultados é semelhante com um incremento significativo do 4º para o 6º ano de
idade; Na subescala Ansiedade Social encontramos um perfil evolutivo semelhante
mas com uma evolução estatisticamente significativa entre os 3 e os 5 anos; Na
subescala Medo de Dano Físico constatamos uma progressão da frequência dos
sintomas até aos 5 anos, sendo a progressão significativa do 3º ano e do 4º ano
para o 5º ano de idade e um declínio nas idades seguintes; Para a subescala
Ansiedade de Separação, após um ligeiro aumento entre os 3 e 4 anos de idade,
ocorre um incremento acentuado mas não significativo para os 5 anos com
estabilização posterior. Estes resultados contrariam o estudo original mas,
mais uma vez, vão de encontro ao constatado por Benga, et al., (2010) na
população romena. Estes resultados parecem apontar para algum tipo de
influência cultural com as portuguesas e romenas a revelarem uma maior
expressão emocional, provavelmente associada a maior sensibilidade e menor
desenvolvimento do controlo emocional ao longo da idade pré-escolar, mais uma
vez seriam necessários estudos complementares para confirmar esta hipótese.
Constata-se que o incremento de medos durante a idade pré-escolar parece
corresponder a uma crescente tomada de consciência do lugar da criança no mundo
e das potenciais ameaças que enfrenta sem que corresponda ainda o
desenvolvimento de estratégias de confronto para lidar com esses medos (Compas,
Connor-Smith, Saltzman, Thomsen, & Wadsworth, 2001).
Os itens com prevalência mais elevada (registo materno de quase sempre ou
sempre) revelam que os sintomas de ansiedade de separação e de medo de dano
físico como sendo os mais frequentes, seguidos dos problemas de ansiedade
social. Dos 15 medos mais frequentes entre as crianças portuguesas, 10 são
coincidentes com os encontrados pelos autores do estudo original e com 13
registados na população romena. Relativamente aos medos de separação, constata-
se um incremento na sua expressão ao longo de toda a faixa etária estudada
(medo que alguma coisa má aconteça aos pais ou à própria criança) com exceção
do médio de dormir fora de casa que, aumentando até aos 6 anos de idade, começa
a diminuir a partir deste ponto. Uma justificação possível será a experiência
de socialização representada pelo ingresso, aos 5 anos, na pré-escola e aos 6
na escolaridade obrigatória que trará maior conforto junto das crianças para
lidar com as experiências de afastamento. Quanto ao medo de dano físico,
constata-se um incremento na expressão de ansiedade (até aos 6 anos de idade)
associada ao confronto com cães, insetos ou trovoadas e diminuição posterior; o
medo do escuro cresce na sua expressão até aos 5 anos diminuindo
posteriormente. Os indicadores de ansiedade social aumentam a sua expressão até
aos 5 anos (medo de fazer algo estúpido ou de falar com estranhos) ou 6 anos
(fazer algo que envergonhe a criança) diminuindo posteriormente. Aqui, parece
ser evidente uma tomada de consciência de si próprio ao longo da idade pré-
escolar com, mais uma vez, as experiências normativas de socialização (ingresso
no sistema educativo) a serem determinantes de uma dessensibilização e de maior
regulação emocional e menor expressão de ansiedade em situações ou contextos
sociais (Buss, 1984).
Quanto à analise da estrutura dos sintomas de ansiedade na idade pré-escolar,
realizada através de uma análise exploratória, a qual se justifica pela
influencia que o contexto sócio-educativo diverso pode exercer sobre o processo
de desenvolvimento da criança, gerando significações diversas e estilos de
resposta distintos. Ao contrário do estudo original (Spence et al. 2001) e da
adaptação para a população romena (Benga, et al., 2010) encontramos uma
associação dos itens em cinco factores. Como referimos, alcançamos valores
aceitáveis para a consistência interna da escala total (a=0,88). Nas diferentes
subescalas o valor de alfa variou entre a=0,63 na subescala Perturbação
obsessivo-compulsiva e a=0,74 para a subescala de ansiedade generalizada.
Quanto à validade de constructo, a análise das correlações entre os resultados
da escala total, bem como das subescalas, com a escala de internalização do
CBCL permitiu verificar que estes valores são bastante satisfatórios o que nos
fornece evidência da validade do constructo da P.A.S.pt.
Relativamente à validade discriminante, determinada pala capacidade de
diferenciar crianças normais com um grupo de crianças referenciadas a uma
consulta de psicologia clínica devido a perturbações de ansiedade ou fobias,
registamos uma diferença significativa quer para a escala total quer para as
subescalas com exceção das perturbações obsessivas. Estes resultados indicam
que a escala em estudo apresenta uma boa capacidade para diferenciar as
crianças com sintomatologia ansiosa.
Existem várias limitações na presente investigação que tinha como objetivo a
adaptação à população portuguesa do P.A.S.. Desde logo, a representatividade da
amostra que, apesar do numero de sujeitos que a compõe, foca apenas duas áreas
geográficas do país (grande Porto e Lisboa) de características urbanas. Em
segundo lugar, os dados baseiam-se na perspetiva da mãe, não havendo registo
paterno (e do acordo entre estes observadores) ou da educadora de infância nem
tão pouco de observação direta do comportamento ansioso da criança. Não podemos
descartar algum enviesamento na apreciação do comportamento da criança
realizado pela mãe, podendo esta estar ansiosa ou deprimida. Seria desejável o
recurso a um estudo mais amplo que registasse a opinião de diversos
observadores (mãe, pai e educadora) e a observação direta da criança ou o
próprio registo desta. Em terceiro lugar, o conteúdo da escala deverá ser
considerado pois, apesar dos itens terem sido selecionados com uma perspetiva
desenvolvimental, a partir várias fontes (literatura prévia, opinião de
especialistas ou relato parental), existe a possibilidade de existência de
outros sintomas que não integram a escala. À medida que novas evidências
surjam, será necessário proceder a uma atualização do instrumento, podendo
desde já acrescentar-se uma questão em aberto questionando os pais sobre outros
desencadeadores possíveis de ansiedade.