Acontecimentos de vida negativos e qualidade de vida percebida pelos
adolescentes
A adolescência é uma etapa do desenvolvimento marcada por diversas
transformações físicas, psicológicas e sociais, interpretadas, por vezes, como
ameaçadoras e suscetíveis de levar os indivíduos a desenvolver e adotar
condutas disfuncionais. As relações entre o adolescente e o meio envolvente
podem moldar o seu desenvolvimento e interferir na sua qualidade de vida (QV).
Estando o adolescente sujeito a diversas transformações compreende-se que as
mesmas poderão estar na origem e manutenção de diversas perturbações emocionais
e comportamentais, que afetam significativamente a sua adaptação psicossocial
(Oliva, 2003).
Por acontecimentos de vida negativos (AVN) consideram-se os eventos que
alteram, ameaçam, danificam ou desafiam as capacidades físicas, psicológicas e
sociais dos seres humanos (Compas, 2004), com efeitos tanto mais prejudiciais
quanto menores as estratégias de enfrentamento e recursos no ambiente do
indivíduo (Oliva, Jiménez, & Parra, 2009). Os AVN são um dos principais
fatores de risco na adaptação psicossocial do individuo devido ao seu impacto
emocional e possível esgotamento de estratégias de enfrentamento (Rutter,
Tizard, & Whitmore, 1970; Jiménez, Menéndez, & Hidalgo, 2008).
A vivência de AVN durante a adolescência pode acarretar repercussões negativas
para o desenvolvimento. No entanto, alguns destes AVS podem significar desafio
ou um processo de aprendizagem. A heterogeneidade de respostas e os diferentes
graus de impacto emocional das adversidades estão relacionados com a natureza
dos acontecimentos stressantes, com o significado que lhes é atribuído, com o
suporte familiar e social para lidar com os mesmos e com as características
individuais e as estratégias de enfrentamento utilizadas (Aggarwal, Prabhu,
Anand, & Kotwal, 2011).
Apesar da ocorrência de AVN tender a aumentar com o tempo, vários estudos
realizados com crianças e adolescentes observaram que a presença de
acontecimentos normativos (preocupações, tensões e dificuldades cotidianas) é a
mais frequente (Coddington, 1972; Compas, 1987; Compas, Davis, & Forsythe,
1985). Geralmente, as raparigas reportam um impacto emocional mais elevado do
que os rapazes e mais AVN de índole interpessoal (ex.: rutura de amizades),
enquanto os rapazes vivenciam mais AVN de carácter comportamental (Jiménez et
al., 2008). No entanto, os adolescentes que usufruem de um bom suporte social e
familiar percecionam os AVN de forma menos catastrófica e utilizam estratégias
de enfrentamento mais assertivas e funcionais (Jose & Kilburg, 2007) e
percecionam a sua QV de forma mais satisfatória ao nível da saúde física,
psicológica, emocional e social (Gaspar & Matos, 2008).
O presente estudo teve como objetivo descrever e analisar os AVN e a sua
relação com a qualidade de vida percebida pelos adolescentes.
MÉTODO
Participantes
Participaram 364 adolescentes residentes no Algarve, com idades compreendidas
entre os 12 e os 18 anos (M= 14,58,DP=1,70), dos quais 55.5% eram raparigas. A
maioria vivia em famílias biparentais (72%). Os pais tinham em média 44,97 anos
de idade (DP = 6,62) e as mães 41,61 (DP = 5,61). A maioria dos pais tinha um
nível de estudos e qualificação laboral baixos (Quadro_1).
Material
Acontecimentos de Vida Negativos. Utilizámos a adaptação portuguesa de Nunes e
Lemos (2010) dos Acontecimientos Vitales Estresantes de Oliva, Jiménez, Parra e
Sanchez-Queija (2008). Este inventário é autoadministrado e avalia a quantidade
e o impacto de 25 acontecimentos negativos vividos nos últimos cinco anos e o
seu impacto emocional Contém situações vividas pelos adolescentes no contexto
familiar, escolar ou no grupo de pares (e.g. divórcio ou separação dos pais,
mudança de casa, a morte de um familiar próximo, repetição do ano letivo,
rutura das relações com o namorado/a, entre outros). O nível de consistência
interna para o impacto emocional obtido com a presente amostra foi de a = 0,80.
Kidscreen-52 (Gaspar & Matos, 2008). Avalia a qualidade de vida percebida
em crianças e adolescentes dos 8 aos 18 anos. É composto por dez subescalas:
Saúde e atividade física, Sentimentos, Estado de humor geral, Sobre ti próprio,
Autonomia e tempo-livre, Família e ambiente familiar, Questões económicas,
Amigos, Ambiente escolar e aprendizagem e Provocação. No presente estudo
obtivemos um nível de consistência interno satisfatório para todas as
subescalas (Saúde: a = 0,82; Sentimentos: a = 0,88; Humor: a = 0,84; Sobre ti
próprio: a = 0,61; Autonomia: a = 0,86; Família: a =0,86; Questões económicas:
a =0,91; Amigos: a = 0,87; Ambiente escolar: a = 0,81 e Provocação a = 0,74).
Questionário sociodemográfico. Utilizámos o questionário de Lemos, Nunes e
Nunes (2013) para recolher dados relativos a idade, sexo, escolaridade,
dimensão e estrutura familiar, qualificações e estatuto laboral dos pais.
Procedimento
Após a obtenção das autorizações da Direção Geral de Inovação e de
Desenvolvimento Curricular (DGIDC) e dos Conselhos Executivos das escolas,
foram obtidos os consentimentos informados dos encarregados de educação. Os
questionários foram aplicados coletivamente, em sala de aula, na presença do
investigador.
RESULTADOS
Como podemos observar na Figura_1, os AVN mais frequentes foram a mudança de
colegas de turma (61,54%), a morte de um familiar (45,88%), a mudança de escola
(38,74%), as zangas entre os pais (35,16%) e as doenças de familiares (34,34%).
No que concerne ao impacto emocional, os acontecimentos de vida negativos com
maior impacto são a morte familiar (M=2,97, DP = 3,96), a doença de um familiar
(M= 2,27,DP = 3,65), as zangas entre os familiares (M= 1.90, DP= 3,15), a
mudança de colegas de turma (M= 1,89, DP= 2,60) e as zangas com o namorado (M=
1.80,DP = 3,15).
Relativamente às subescalas do Kidscreen,podemos observar no Quadro_2 que, no
geral, todas as dimensões se encontram positiva e significativamente
correlacionadas entre si, , exceto as subescalas Escola e aprendizagem com
Provocação.
As subescalas com pontuações mais elevadas foram as de Provocação (M = 4,55, DP
= 0,63), Amigos (M = 4,08, DP = 0,67) e Estado de humor geral (M = 4,04, DP =
0,73).
Quanto aos acontecimentos de vida negativos e o seu impacto emocional,
observámos uma relação negativa e significativa com todas as dimensões da
qualidade de vida percebida exceto com a Saúde e atividade física, Amigos e
Provocação. O impacto emocional percebido só se relacionou negativa e
significativamente com as subescalas: Sentimentos (r = -0,13, p = 0,013) e
Sobre ti próprio (r = -0,11, p = 0,05).
Não observámos diferenças significativas nas subescalas da QV entre rapazes e
raparigas, exceto na subescala Amigos (F(1; 356)= 5,62, p= 0,018), em que as
raparigas percebem uma QV superior (Quadro_3).
Por último, não observámos diferenças estatisticamente significativas no número
total de AVN entre sexos, porém as raparigas reportam um maior impacto
emocional (F (1; 347) = 15,04, p = 0,000) (Quadro_4).
DISCUSSÃO
Neste estudo analisámos a frequência e o impacto emocional causado pelos AVN e
suas relações com a qualidade de vida percebida pelos adolescentes. Tal como
observado em estudos anteriores, os contextos em que os AVN ocorrem com maior
frequência e têm maior impacto emocional são a família e a escola (e.g. Oliva,
Jiménez, Parra, & Sánchez-Queija, 2008; Jiménez, Menéndez, & Hidalgo,
2008). Tal como nestes estudos, a morte de um familiar foi o AVN com maior
impacto emocional para os adolescentes.
Contrariamente a outros estudos (Compas et al., 1985), não observámos
diferenças entre os rapazes e raparigas quanto à frequência dos AVN. No
entanto, as raparigas mencionaram sentir maior impacto emocional. Este
resultado, encontrado também no estudo de Jiménez e colaboradores (2008),
poderá estar relacionado com a precocidade do desenvolvimento físico, emocional
e moral das raparigas, que pode exigir mais competências e um maior ajuste
psicoemocional, que os rapazes só terão que enfrentar mais tarde (Graber &
Stong, 2004).
Em relação à QV dos adolescentes, observámos pontuações mais elevadas em
Provocação, Amigos e Estado de humor geral. Tal como nos estudos de Gaspar e
Matos (2008) e Ravens-Sieberer et al. (2005) a Saúde/atividade física e Escola/
aprendizagem tiveram pontuações mais baixas. Apenas observámos diferenças
significativas entre raparigas e rapazes na subescala amigos. Outros estudos
confirmam esta perceção mais satisfatória das raparigas face ao contexto social
(Gaspar & Matos, 2008; Gaspar, Ribeiro, Matos, Leal, & Ferreira, 2012;
Michel, Bisegger, Fuhr & Abel, 2009; Ravens-Sieberer et. al, 2005). Segundo
Gaspar et al. (2012), isto pode dever-se ao facto das raparigas utilizarem o
suporte social como uma estratégia enfrentamento às adversidades, enquanto os
rapazes tendem a evitar os problemas, exteriorizando as suas emoções (ex.:
agressões) e refugiando-se em comportamentos de adição (ex.: consumo de
substâncias).
Observámos ainda que a frequência e o impacto emocional dos AVN estavam
negativa e significativamente associados à perceção da qualidade de vida pelos
adolescentes. Esta evidência é corroborada pela literatura que, enfatiza a
vulnerabilidade dos adolescentes face à presença de fatores de risco (e.g.
Gaspar & Matos, 2008).
Importa pois que as intervenções psicológicas junto dos adolescentes em
contexto escolar tenham em atenção a exposição a acontecimentos negativos na
infância e adolescência como fatores que podem ter um impacto negativo na
qualidade de vida, salientando-se no entanto, que tais intervenções devem
dirigir-se não apenas aos contextos em que vivem os adolescentes mas também ao
reforço das suas competências ou recursos individuais.