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Representação em texto

EuPTHUHu1645-00862013000200008

variedadeEu
ano2013
fonteScielo

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Acontecimentos de vida stressantes e apoio social em famílias em risco psicossocial

As famílias em risco psicossocial enfrentam graves problemas, vivem em contextos carentes de recursos e acumulam múltiplos acontecimentos de vida estressantes. As circunstâncias pessoais e relacionais em que vivem dificultam ou limitam as suas competências parentais (Menéndez, Hidalgo, Jiménez, Lorence, & Sánchez, 2010; Lerner, Lerner, Almerigi, & Theokas, 2005; Moreno, 2002; Rodrigo, Martín, Máiquez, & Rodríguez, 2007; Rodríguez, Camacho, Rodrigo, Martín, & Máiquez, 2006; Sousa & Rodrigues, 2009). Por sua vez, o isolamento social pode levar a que os pais percam oportunidades e recursos para enfrentar as condições psicossociais negativas que enfrentam (Gaudin & Pollane, 1983), pelo que a identificação, ampliação e proteção das redes de apoio social é uma das principais tarefas para os profissionais que intervêm junto destas famílias.

O apoio social é um constructo multidimensional que engloba diferentes aspetos estruturais e funcionais. Barrera (1986) distingue ao grau de integração social, o apoio social recebido e o apoio social percebido e define três tipos de apoio social: o emocional, que se refere a aspetos como a intimidade, o afeto, o conforto e o cuidado; o tangível, que se refere à provisão de assistência a nível material; e o informativo, que se refere aos conselhos, orientação ou informação relevante para determinada situação. No presente estudo analisaremos o apoio social percebido pois este tem um impacto maior na saúde e bem-estar do que o apoio recebido (Cohen & Wills, 1985).

O apoio social tem sido uma variável amplamente estudada devido aos seus efeitos diretos e indiretos na redução do impacto negativo dos fatores de risco sobre o bem-estar físico e psicológico (Coelho & Ribeiro, 2000). Todavia, em Portugal existem poucas investigações que estudem o apoio social em famílias com menores em risco psicossocial e não possuímos estudos publicados acerca do tamanho e a composição das redes sociais nem sobre as necessidades e a satisfação com o apoio social nesta população.

No nosso país, o apoio social disponibilizado às famílias em risco psicossocial é assegurado por várias instituições públicas ou privadas, as quais, na sua maioria têm uma abordagem centrada no problema (Matos & Sousa, 2006). Matos e Sousa (2004), num estudo qualitativo sobre o apoio social formal com 56 famílias multiproblemáticas do distrito de Aveiro, observaram que 59% dessas famílias recebiam apoio de uma ou mais entidades sociais, maioritariamente traduzido em bens materiais (por exemplo, alimentos, medicamentos) ou dinheiro.

Neste estudo o apoio foi fornecido principalmente pela Segurança Social (70%), e secundado por instituições particulares de solidariedade social, autarquias e paróquias.

Outros estudos realizados em Espanha indicam que as mulheres de famílias em risco psicossocial tinham mais necessidades e menos satisfação com o apoio emocional e informativo do que com o apoio tangível. Embora a sua rede de apoio social não fosse reduzida, era frequentemente disfuncional, pois procuravam apoio emocional junto dos seus filhos menores e dos profissionais. Estas mulheres acumulavam vários acontecimentos de vida estressantes (AVS) e relatavam necessitar mais recursos pessoais e cognitivos para lidar com sucesso com as suas tarefas parentais (López, Menéndez, Lorence, Jiménez, Hidalgo, & Sánchez, 2007; Menéndez et al, 2010; Rodrigo, Maiquez, Martín, & Byrne, 2008).

Deste modo, parece-nos que o estudo detalhado destas famílias, das suas relações e circunstâncias contextuais é relevante porque a eficácia das intervenções depende em grande parte do seu grau de adaptação às suas necessidades.

O objetivo do presente estudo foi o de investigar as características do apoio social e a sua relação com o número e impacto dos AVS em mães de menores em risco psicossocial.

MÉTODO Participantes A amostra foi composta por 133 mães, com idades compreendidas entre os 16 e os 58 anos (M=36,22, DP=8,32), utentes de serviços de proteção de menores do Algarve. Os critérios de seleção foram (1) ter pelo menos um filho menor de idade no agregado familiar; (2) sofrer diversos problemas e situações de risco que, embora importantes, não obrigavam à retirada do menor da família.

Material Dados sociodemográficos: Utilizámos um questionário sociodemográfico (Nunes, Lemos, Costa, Nunes & Almeida, 2011) que permitiu recolher dados relativos à idade, nível de escolaridade e situação laboral das participantes, composição e estrutura familiar, número, idade e sexo dos filhos, rendimento familiar e sua procedência.

Acontecimentos de vida stressantes: Utilizámos o Inventário de Situações Stressantes e de Risco de Hidalgo, Menéndez, Sánchez, López, Jiménez, e Lorence (2005), composto por uma lista de 16 eventos stressantes e potencialmente negativos (por ex.: "Relação conflituosa com os filhos" ou "Ser vítima de maltrato") relativos ao indivíduo e ao seu ambiente próximo, tanto no presente como no passado. Permite ainda quantificar o impacto emocional destes AVS numa escala de três pontos (de 1 ' não me afetou a 3 ' afetou-me muitíssimo).

Apoio social percebido:Utilizámos o Arizona Social Support Interview Schedule de Barrera (1980). Este instrumento é administrado através de uma entrevista semiestruturada e avalia o tamanho e composição da rede de apoio emocional (participação social e sentimentos pessoais), apoio tangível (assistência física e material), e apoio informativo (aconselhamento e feedback positivo), assim como a rede de conflito. Avalia igualmente, numa escala de 1 a 10, as necessidades e a satisfação do sujeito com as redes de diferentes tipos de apoio. Utilizámos ainda a Escala de Apoio Social para Situações Vitais Estressantes de López et al. (2007) para recolher informação sobre o tamanho, composição, necessidades e satisfação com a rede de apoio social em situações stressantes e de risco.

Procedimento As participantes foram selecionadas pelos técnicos das instituições que acederam participar na investigação com base nos critérios acima referidos. A participação foi voluntária e não foi oferecida qualquer compensação. Foram garantidas a confidencialidade e o anonimato no tratamento dos dados. As entrevistas foram conduzidas por investigadores treinados para o efeito, no domicílio das participantes ou nas instalações da instituição colaborante e duraram, em média, 60 minutos.

RESULTADOS A maioria das participantes vivia em famílias biparentais (73,68%), estáveis (88,72%), compostas em média por 4,37 membros (DP=1,44) e tinham de 1 a 6 filhos dependentes (M=2,89, DP=1,66). Tinham um nível de escolaridade baixo (82,71% tinham apenas a escolaridade primária incompleta ou completa) e uma situação laboral e económica precária, uma vez que 61,65% das mulheres estavam desempregadas e 63,73% das famílias auferiam um rendimento que as situava abaixo do limiar nacional de pobreza. A maioria das mães que trabalhava tinha qualificações profissionais baixas ou nulas (73,08%).

As participantes reportaram um número médio de 4,76 (DP=3,00) AVS atuais. No ambiente próximo, o número médio de AVS atuais era superior (M=6,18, DP=3,78).

Observámos igualmente esta tendência no que diz respeito aos AVS do passado: as participantes sofreram em média 3,88 (DP=1,48), enquanto os membros da sua família sofreram 4,64 (DP=2,21).

Os AVS atuais mais frequentes foram os problemas económicos (75,94%), precaridade laboral (60,15%), conflitos conjugais (44,36%), problemas de saúde mental (39,85%) e problemas com a justiça (36,84%). No que diz respeito ao ambiente próximo, os mais frequentes foram os económicos (60,90%), problemas com a justiça (54,14%), morte de um familiar (51,13%), precaridade laboral (48,12%) e problemas de saúde mental (48,12%) (Fig._1).

Os AVS com maior impacto emocional foram o despejo (M=2,93, DP=0,27), maltrato na vida adulta (M=2,75, DP=0,48), problemas de saúde mental (M=2,68,DP=0,61), precariedade laboral (M=2,66,DP=0,55) e problemas económicos (M=2,65, DP=0,59).

Quanto à rede de apoio social, esta era composta em média por 6 pessoas (DP= 3,32), com uma amplitude de 2 a 20 membros. Cerca de 60,15% das mulheres tinham predominantemente familiares na sua rede de apoio e 15,04% predominantemente amigos, enquanto 24,81% indicaram uma presença equilibrada de familiares e amigos. A maioria das participantes mencionaram o cônjuge como fonte de apoio social (66,17%), 53,38% apresentavam pelo menos um filho menor de idade como fonte de apoio e 36,84% mencionaram os profissionais como membros na sua rede de apoio. A rede mais extensa era a informativa (Quadro_1).

A dimensão média da rede de conflito foi de 1,80 (DP=1,28), composta maioritariamente pelos filhos (45%), marido (31,67%) e familiares (26,67%).

O tamanho médio da rede de apoio social em situações de risco foi de 3,02 (DP=2,09), e incluiu familiares e amigos para 21,97% das participantes, predominantemente familiares para 49,24% e predominantemente amigos para 7,58%.

De salientar que 2,27% das participantes contava apenas com o apoio de profissionais em situações de risco. No quadro_2 apresentamos as necessidades e a satisfação com a rede de apoio social.

As mães relataram uma necessidade significativamente mais elevada de apoio emocional. No quadro_3 podemos observar as relações entre as várias dimensões em estudo. As participantes que sofreram mais AVS na sua trajetória vital foram as que relataram maior impacto emocional (r=0,95,p=0,000).

De igual modo, o número de AVS (atuais + passado) encontra-se positivamente e significativamente relacionado com as necessidades de apoio tangível (r=0,32, p=0,002), informativo (r=0,24, p=0,02), e negativa e significativamente associado com a satisfação com apoio emocional (r=-0,22, p=0,04.) e tangível (r=-0,32, p=0,02).

Por sua vez, o impacto emocional dos AVS estava positivamente e significativamente associado com as necessidades de apoio emocional (r=0,32, p=0,000), tangível (r=0,44, p=0,000), informativo (r=0,24, p=0,000), e negativamente associado com a satisfação com o apoio emocional (r=-0,22, p=0,021) e tangível (r=-0,32, p=0,008).

Observámos igualmente que as mães com mais necessidades emocionais eram as que apresentavam mais necessidades materiais (r=0,45, p=0,000) e informativas (r=0,59, p=0,000). Por outro lado, as mães mais satisfeitas com o apoio emocional eram as que estavam mais satisfeitas com o apoio tangível (r=0,37, p=0,004) e informativo (r=0,60, p=0,000).

DISCUSSÃO No presente estudo encontrámos uma elevada precariedade económica e laboral e um nível educativo muito baixo. Apenas tinham emprego 38,35% das participantes, uma percentagem mais baixa que a das mulheres com emprego na população geral portuguesa (50%) (INE, 2011). A elevada proporção de falta de qualificações profissionais poderá estar relacionada com a percentagem de mulheres com uma instrução ao nível da escolaridade primária (73%). Este nível educativo é significativamente mais baixo que o da população portuguesa (X2=9,042, 3 gl., p=0,03) (PORDATA, 2011). É de realçar que 63,73% da nossa amostra vivia abaixo do limiar de pobreza. Em Portugal, em 2010, a taxa de risco de pobreza em mulheres entre os 15 e os 64 anos após efetuadas as transferências sociais foi de 16,4% (Comissão Europeia, 2012). Apesar da vulnerabilidade económica referida, a estrutura familiar, a estabilidade e o tamanho médio das famílias que estudámos constituem características protetoras. Ainda que a maioria das famílias sejam biparentais, é de salientar a considerável proporção de famílias reconstituídas (25,56%) e monoparentais (17,29%).

É difícil comparar os nossos resultados com os de outros estudos portugueses (Matos & Sousa, 2004; 2006) devido às diferenças na amplitude e dispersão de idades e metodologias utilizadas. No entanto, a nossa amostra apresenta características similares à dos estudos de López et al. (2007) e de Menéndez et al. (2010) relativamente à idade, número de filhos e tamanho da família.

A análise conjunta dos problemas que afetam as mulheres individualmente e o seu meio mais próximo indica, simultaneamente, a convergência do seu impacto e a diversidade dos problemas. De facto, a acumulação de uma média de dez ou mais tipos de AVS sugere que esta população necessita um forte apoio social para enfrentar com sucesso a adversidade. Por outro lado, o tipo de problemas que afetam as mulheres e o seu meio são bastante diferentes, sugerindo uma interação complexa entre estes e o aumento da vulnerabilidade.

Alguns estudos referem o isolamento social como uma característica importante das famílias em risco psicossocial (Gaudin & Pollane, 1983; Moreno, 2002).

Na nossa amostra a rede de apoio social não é pequena, sendo semelhante à dos estudos com mães andaluzas (López et al., 2007; Menéndez et al., 2010). Apesar da dimensão relativamente normativa da rede social, a presença de filhos menores de idade na rede emocional e informativa em mais de metade das mulheres indica alguma disfuncionalidade do sistema familiar, uma vez que as crianças devem receber apoio emocional e informativo, ao invés de serem uma fonte de apoio para os pais (Rodrigo et al., 2008). No entanto, podemos considerar como um fator positivo do funcionamento familiar a presença do cônjuge na rede de apoio para a maioria das mulheres.

Em situações de adversidade a rede de apoio decresce para metade, mantendo-se a predominância dos familiares. Importa referir que os profissionais foram referidos como única fonte de apoio em situações de risco apenas por 2,27% das nossas participantes, enquanto nos estudos de Menéndez et al. (2010) foram mencionados por 35% das mães.

A necessidade de apoio referido pelas mães foi moderada e o seu nível de satisfação foi elevado. A necessidade de apoio emocional foi mais elevada do que a tangível e informativa. Este resultado, semelhante ao de outros estudos (López et al., 2007; Menéndez et al., 2010), enfatiza a importância da intervenção psicossocial junto destas famílias no fortalecimento e ampliação das redes de apoio informais. Este aspeto da intervenção psicossocial é ainda mais importante se tivermos em conta que no nosso país, as famílias em risco psicossocial recebem maioritariamente apoio material dos serviços e muito raramente apoio emocional (Matos & Sousa, 2004). Os programas de educação parental, previstos no artigo 41º da Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo (1999), constituem uma oportunidade para o alargamento das suas redes de apoio informal. Conhecer outros pais numa situação semelhante, trocar ideias e experiências, poderia constituir uma fonte adicional de apoio emocional, que como vimos é o tipo de apoio mais necessitado.


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