Apoio social, acontecimentos stressantes, adaptabilidade e coesão em famílias
em risco psicossocial
A família é o primeiro e mais importante contexto de influência no processo de
socialização, educação, aprendizagem e desenvolvimento dos indivíduos. No
entanto, algumas famílias não promovem o bem-estar dos seus membros nem
asseguram o seu desenvolvimento adequado. Os principais fatores que
caracterizam os contextos familiares de risco são o baixo nível educativo dos
pais, a precaridade económica e profissional, a monoparentalidade e insegurança
da zona de residência (Rodrigo, Máiquez, Martín, & Byrne, 2008; Sousa,
2005). Estas famílias tendem a enfrentar e acumular múltiplos acontecimentos de
vida stressantes (López, Menéndez, Lorence, Jiménez, Hidalgo, & Sánchez,
2007; Nunes, Lemos, Costa, Nunes, & Almeida, 2011), dificultando a tarefa
educativa dos pais e o exercício adequado das suas competências parentais.
Tendo em conta os efeitos negativos dos acontecimentos de vida stressantes e de
risco e as suas repercussões no bem-estar, parece-nos importante analisar o
funcionamento das famílias com menores em risco psicossocial, especificamente,
a coesão e a adaptabilidade do sistema familiar. Outra dimensão relevante no
estudo destas famílias é o apoio social percebido, em particular, as
características dos recursos que dispõem para lidar com os problemas
quotidianos e situações stressantes (Hidalgo, Menéndez, Sanchez, Lorence, &
Jiménez, 2009; López et al., 2007).
Neste estudo analisámos as relações entre a coesão e adaptabilidade familiares,
os acontecimentos de vida stressantes e o apoio social em famílias com menores
em risco psicossocial
MÉTODO
Participantes
Os 51 participantes tinham idades compreendidas entre os 16 e os 57 anos
(M=36,33, DP=7,98), 64,71% eram mulheres e 35,29% homens. Os participantes
foram selecionados atendendo aos seguintes critérios: 1) ser pais e mães de
crianças ou jovens com um processo aberto na Comissão de Proteção de Crianças e
Jovens de Faro, 2) as situações de perigo que originaram a abertura dos
processos de não apresentavam gravidade suficiente para a separação do menor da
sua família de origem.
Material
Funcionamento familiar: Utilizámos a Escala de Avaliação da Coesão e
Adaptabilidade Familiar(FACES III, Olson, 1986). Esta escala, composta por 20
itens, avalia duas dimensões do funcionamento familiar: a coesão (a proximidade
emocional entre os membros da família) e a adaptabilidade (o grau de
flexibilidade que a família manifesta para mudar as regras e papéis). Os
participantes respondem numa escala de 1 a 5 pontos, que vão desde (1) nunca ou
quase nunca a (5) quase sempre. Considerando as dimensões avaliadas no estudo,
os valores alfadeCronbachforam de 0,75 para a Coesão Familiar e de 0,43 para a
Adaptabilidade Familiar.
Acontecimentos vitais stressantes: Foi administrado o Inventário de Situações
Stressantes e de Risco (ISER) de Hidalgo, Menéndez, Sánchez, López, Jiménez, e
Lorence (2005). Este questionário inclui 26 itens e avalia a existência de
acontecimentos especialmente difíceis ocorridos no passado e no presente, ao
sujeito ou a alguém do seu ambiente próximo, bem como o impacto emocional que
os mesmos tiveram na sua vida, numa escala de 1 a 3 pontos (1 ' afetou-me
pouco; 2 ' afetou-me bastante; 3 ' afetou-me muitíssimo). No presente estudo a
consistência interna para a Afetação do Próprio(a)foi de a= 0,82 e de a = 0,76
para a Afetação do Ambiente Próximo.
Apoio social percebido: Aplicámos a Entrevista de Apoio Social Arizona
(Barrera, 1980). Esta avalia o tamanho e composição da rede de apoio social, o
grau de necessidade e de satisfação com o apoio emocional, material e
informativo recebido (de 1 a 10 pontos), e o grau de conflito com a rede de
apoio. Utilizámos ainda a Escala de Apoio Social para Situações Vitais
Stresantes(López et al., 2007), que recolhe informação sobre o tamanho,
composição, necessidades e satisfação com a rede de apoio social em situações
stressantes e de risco.
Dados sociodemográficos: Utilizámos um Questionário de Dados Sociodemográficos
(Nunes et al., 2011) que permitiu recolher dados relativos à idade, nível de
escolaridade e situação laboral dos participantes, composição e estrutura
familiar, número, idade e sexo dos filhos, rendimento familiar e sua
procedência.
Procedimentos
Após obter as autorizações e o consentimento informado dos participantes,
realizámos a recolha dos dados através de uma entrevista individual, no
domicílio familiar ou na sede da CPCJ de Faro, em conformidade com parecer
técnico e disponibilidade dos participantes.
RESULTADOS
Ao analisar as características sociodemográficas dos participantes, observámos
um baixo nível educativo (52,94% sem completar escolaridade obrigatória) e uma
elevada taxa de desemprego (45,10%). A qualificação laboral da maioria dos
participantes era baixa (62,10%) e a maioria tinha trabalhos irregulares
(52,90%) e sem vinculação a um contrato (54,90%).
Os rendimentos familiares mensais eram em média de 817,22, obtidos
principalmente através do trabalho e ajudas sociais (51%). Uma parte importante
dos participantes (49%) obtinha os rendimentos apenas através do trabalho.
Apenas 8% das famílias contavam exclusivamente com as ajudas sociais como única
fonte de rendimentos.
Quanto à estrutura familiar, a maioria das famílias eram biparentais (64,7%).
Tinham um tamanho moderado (M=3,76, DP=1,35), com dois menores (M=2,22,
DP=1,45) (Quadro_1) e a maioria (92,2%) vivia num ambiente familiar estável,
sem mudanças recentes na composição do seu agregado familiar.
Observámos um elevado número de acontecimentos de vida stressantes e de risco
nas circunstâncias atuais dos participantes (M=7,16, DP=2,63) e do seu ambiente
próximo; M=9,57, DP=3,24), e uma elevada incidência de acontecimentos de vida
negativos passados individuais (M=5,31, DP=1,55)e do ambiente próximo (M=6,15,
DP=1,35).
No que se refere aos acontecimentos de vida stressantes e de risco atuais os
problemas mais comuns relatados pelos participantes foram económicos (94,1%),
psicológicos (94,1%), profissionais (78,4%), judiciais (62,7%) e conjugais
(58,8%). No que diz respeito ao ambiente próximo, os problemas mais comuns
foram psicológicos (92,2%), judiciais (88,2%), económicos (86,3%), laborais
(82,4%) e conduta violenta (74,5%) (Ver Figura_1).
Relativamente ao passado, observámos que os problemas mais frequentes foram os
psicológicos (96%), económicos (94%), judiciais (84%) e desemprego (80%).
Quanto ao ambiente próximo dos participantes, verificamos que os problemas mais
frequentes foram os psicológicos (98%), económicos (90%), desemprego (84%),
conduta violenta (84%) e judiciais (84%).
Os níveis de coesão familiar (M=36,20, DP=6,14) foram superiores aos níveis de
adaptabilidade familiar (M=26,63, DP=4,49) (Quadro_1).
Observámos uma associação significativa e positiva entre coesão e
adaptabilidade familiar (r=0,34, p<0,01), o que indica as famílias mais coesas
são as que apresentam maiores níveis de adaptabilidade (Quadro_1).
Quanto à composição da rede social de apoio, verificámos que a maioria é
constituída principalmente por familiares (51%), sendo que 27,5% são compostas
igualmente por familiares e não familiares, e 21,6% principalmente por não
familiares. A rede de apoio social mais ampla é a informativa (M=4,45,
DP=2,27), constituída sobretudo por familiares e não familiares (Quadro_2).
66,67% mencionaram a presença dos filhos menores na rede de apoio e 64,71%
mencionaram a presença do conjugue. Apenas 31,37% contava com o apoio de
profissionais.
Os participantes sentiram mais necessidade de apoio emocional (M=6,54) do que
informativo (t(45)=1,76, p=0,085) ou material (t(45)=1,87, p=0,07), no entanto
estas diferenças não alcançaram significação estatística. Quanto à satisfação
com o apoio social percebido, não observámos diferenças significativas entre os
três tipos de apoio (ver Quadro_3).
Os participantes apresentaram uma rede social de apoio mais reduzida face à
vivência de acontecimentos de vida stressantes e de risco (M=2,76),
comparativamente com a rede social de apoio que dispõem em acontecimentos de
vida mais normativos (M=7,27). Esta rede estava composta na sua maioria por
familiares (45,1%). Constatámos ainda que a rede de conflito dos participantes
era constituída sobretudo pelo cônjuge e ex-cônjuge (76,4%) e filhos (13,7%),
com uma média de 2 pessoas (DP=1,18).
DISCUSSÃO
O presente estudo permitiu-nos conhecer o perfil psicossocial das famílias com
menores em risco psicossocial. As famílias em situação de risco psicossocial
não constituem um grupo homogéneo e são caracterizadas pela diversidade
(Hidalgo et al., 2009). Todavia, apesar desta diversidade podemos identificar
algumas características sociodemográficas comuns (Menéndez, Hidalgo, Jiménez,
Lorence, & Sánchez, 2010). Apresentam uma elevada precaridade económica,
profissional e baixo nível educativo, tratando-se de um grupo especialmente
vulnerável. Estes resultados são semelhantes aos de outros estudos
desenvolvidos com famílias de risco em Portugal (Nunes et al., 2011; Sousa
& Ribeiro, 2005; Sousa & Rodrigues, 2009) e em Espanha (Arruabarrena
& De Paúl, 2002; Hidalgo et al., 2009; Martín, Camacho, Rodrigo, Martín,
& Máiquez, 2004; Menéndez, Arenas, Pérez, & Lorence, 2012; Menéndez et
al., 2010; Moreno, 2002; Rodrigo, Máiquez, Correa, Martín, & Rodriguez,
2006; Rodríguez, Camacho, Rodrigo, Martín, & Máiquez, 2006).
Para além das características sociodemográficas mencionadas, os nossos dados
mostraram que as trajetórias e as circunstâncias atuais destas famílias são
marcadas pela presença e acumulação de acontecimentos de vida negativos com um
elevado impacto emocional. Os problemas que mais afetaram os participantes e o
seu ambiente próximo foram semelhantes quanto à sua natureza, diversidade e
intensidade. Os problemas mais frequentes foram os problemas económicos,
psicológicos, profissionais, judiciais e conjugais, sugerindo a diversidade e
interação dos mesmos. É de esperar que estes problemas tenham repercussões
importantes na dinâmica familiar e no desenvolvimento das crianças e dos
jovens. A presença de acontecimentos de vida stressantes dificulta a realização
adequada da tarefa dos pais e a acumulação de fatores de risco tem um efeito
negativo no desenvolvimento e adaptação psicossocial das crianças e dos jovens
(Rodríguez et al., 2006), o que confirma a necessidade de realizar intervenções
psicoeducativas junto destas famílias.
O facto de os participantes mencionarem os conflitos familiares (com o cônjuge,
os filhos e a família) como acontecimentos de vida stressantes indica que as
intervenções com os pais de menores em risco deverão incidir especialmente nos
problemas existentes na dinâmica familiar.
No presente estudo, os níveis de coesão familiar foram superiores aos níveis de
adaptabilidade familiar. Estes resultados coincidem com aqueles observados por
outros autores (Hidalgo et al., 2009; Peréz, Nunes, Nunes, & Hidalgo,
2012). Tal como noutros estudos, encontrámos uma associação positiva entre
coesão e adaptabilidade familiar (Curral, Durado, Torres, barros, Palha, &
Almeida, 1999; Hidalgo et al., 2009; Martinez-Pampliega Iraurgi, & Sanz,
2011; Noller & Shum, 1990).
Alguns estudos empíricos têm sugerido que o isolamento é uma caraterística
importante das famílias com menores em risco (Arruabarrena & De Paúl, 2002;
Gracia, Musito, & García, 1994; Gracia & Musitu, 2003; Moreno, 2002).
Contudo, os resultados obtidos no nosso estudo não mostram que estas famílias
estejam isoladas, uma vez que a sua rede de apoio tinha em média sete membros,
o que nos permite afirmar que a nossa amostra não dispõe de uma rede social
especialmente reduzida.
No entanto, a presença dos menores como fonte de apoio para 66,67% dos pais e a
presença do cônjuge na rede de conflito (41,18%) sugerem alguma
disfuncionalidade da rede social. Estes resultados são semelhantes aos de
outros estudos com este tipo de famílias (López, 2006; López et al., 2007;
Menéndez et al., 2010; Nunes et al., 2011; Rodrigo et al., 2008). Normalmente,
as relações conjugais das famílias em situação de risco psicossocial tendem a
ser instáveis e conflituosas (Rodríguez et al., 2006).
É de notar que a maioria dos participantes (68,6%) não referiu nenhum tipo de
apoio proveniente por parte de profissionais (e.g. emocional, material ou
informativo). Este resultado contradiz aqueles obtidos por Menéndez, et al
(2010) numa amostra de mães andaluzas com características sociodemográficas
semelhantes à nossa. Estes autores observaram uma elevada dependência das mães
dos profissionais como fonte de diversos tipos de apoio. Se bem, como apontam
os autores, a dependência dos profissionais ao nível do apoio emocional reflita
alguma disfuncionalidade, também é preocupante a sua ausência na rede de apoio
informativa e material dos nossos participantes. Este resultado pode indicar
que as instituições não são capazes de dar resposta às necessidades de apoio
destas famílias e precisaria ser melhor estudado.
Tal como noutros estudos (López et al., 2007; Menéndez et al., 2010), os
participantes sentiram maior necessidade e menor satisfação com o apoio social
emocional do que com outros tipos de apoio. Isto sugere a necessidade de
incluir como prioridade o fortalecimento e ampliação das redes de apoio
emocional informais nas intervenções com estas famílias.
Em relação às limitações do nosso estudo, a reduzida dimensão da amostra e a
sua restrição geográfica não nos permitem generalizar os resultados obtidos à
restante população em risco psicossocial do Algarve. Todavia, este estudo
contribui para um melhor conhecimento das características e necessidades deste
grupo social vulnerável, que podem ser úteis para os profissionais que intervêm
junto dele.