Funções executivas em sujeitos candidatos e submetidos a cirurgia bariátrica
Funções executivas em sujeitos candidatos e submetidos a cirurgia bariátrica
Executive functions in patients seeking and undergoing bariatric surgery
Susana Sousa1, Olga Ribeiro 2, José Góis Horácio 2 & Luís Faísca3
A obesidade é definida como uma acumulação de gordura corporal que constitui
risco para a saúde (World Health Organization [WHO], 2004). É considerada uma
condição crónica (Cassell & Gleaves, 2006) que acarreta riscos acrescidos
para a saúde pública. A sua etiologia é heterogénea e pode ser classificada
segundo dois grandes contextos, que se influenciam mutuamente: 1) obesidade
endógena, relacionada com componentes genéticos, neuropsicológicos, endócrinos
e metabólicos; 2) obesidade exógena, influenciada por factores externos de
origem comportamental, dietética e/ou ambiental (Monteiro & Angellis,
2007).
A cirurgia bariátrica é uma modalidade terapêutica que produz redução de peso
prolongada, através da restrição do volume da ingestão e do controlo da
absorção da alimentação ingerida. É realizada quando a dieta, o exercício
físico e os tratamentos médicos ou farmacológicos para perda de peso não
resultam. O procedimento bariátrico é definido pela alteração cirúrgica do
estômago ou intestino. Além da redução de peso, a cirurgia contribui para a
redução das comorbilidades associadas à obesidade (Johnson & DeMaria,
2006).
A classificação mais comum do nível de gordura corporal é o Índice de Massa
Corporal (IMC), calculado pela fórmula: peso (Kg)/altura2 (m). A obesidade é
definida a partir de um IMC igual ou superior a sendo possível distinguir três
níveis de gravidade: obesidade moderada ou classe I, quando o IMC se situa
entre 30 e 34,9; obesidade grave ou classe II, se o valor de IMC está entre 35-
39,9; e obesidade extrema ou Classe III quando o IMC é superior a 40 (WHO,
2004).
São vários os estudos que têm analisado a relação entre o IMC e possíveis
modificações estruturais e metabólicas ao nível do sistema nervoso central
(SNC), pois parecem existir diferenças morfométricas cerebrais em sujeitos
obesos quando comparados com sujeitos com IMC normal (Ward, Carlsson, Trivedi,
Sager & Johnson, 2005). Gunstad et al. (2008), verificaram existir uma
correlação negativa entre o IMC, o volume cerebral e o volume de massa cinzenta
(Gunstad, Paul, Cohen, Tate, Spitznagel & Grieve 2008): os sujeitos obesos
possuem menor volume cerebral do que sujeitos normais, assim como menor volume
na massa cinzenta das regiões frontais, temporais e parietais do cérebro.
Volkow et al. (2008) analisaram o metabolismo cerebral da glicose em sujeitos
obesos saudáveis (sem comorbilidades associadas) através de PET (Positron
Emission Tomography), tendo verificado uma correlação negativa entre o IMC e a
actividade metabólica no córtex pré-frontal e no giro cingulado anterior
(Volkow et al., 2008). Observaram ainda que o nível de metabolismo pré-frontal
desses indivíduos se correlacionava positivamente com o desempenho em provas de
funções executivas (nomeadamente, Wisconsin Card Sorting Test(WCST), Trail
Making Test (TMT) e Stroop Interference Test), confirmando assim estudos
anteriores que associavam a actividade metabólica destas regiões cerebrais ao
desempenho de tarefas executivas (Goldstein et al., 2004).
As funções executivas são um termo abreviado para um conjunto complexo de
competências, que incluem um largo espectro de processos cognitivos e
comportamentais como o planeamento, resolução de problemas, flexibilidade
cognitiva, monitorizarão do comportamento, memória de trabalho, multitasking,
utilização de feedback, sequenciação, iniciação e inibição e resistência à
interferência (Chan, Shum, Toulopoulou, & Chen, 2008). Alguns estudos têm
analisado o funcionamento executivo na obesidade. Em 2007, Gunstad et al.
encontraram uma relação inversa entre o IMC e o desempenho em provas
cognitivas, numa amostra de obesos adultos saudáveis (Gunstad, Paulb, Cohenb,
& Tateb, 2007). Boeka e Loken (2008) verificaram que sujeitos com obesidade
extrema revelam maior prevalência de erros e perseveração no WCST, alcançado
assim pior desempenho do que indivíduos com IMC normal. Dois anos depois,
Lokken, Boeka, Yellumahanthi, Wesley e Clements (2010) encontraram resultados
mais baixos no WCST por parte de candidatos a cirurgia bariátrica, sugerindo
dificuldades na resolução de problemas, planeamento e perseveração. Também
Davis, Patte e Reid (2010) encontraram pior desempenho em tarefas de tomada de
decisão em mulheres obesas com e sem compulsão alimentar, quando comparadas a
mulheres com peso normal. Estes resultados sugerem uma tomada de decisão não
adaptativa e dificuldades na capacidade para adiar a gratificação e lidar com
benefícios a longo prazo.
No entanto, é necessário levar em conta as comorbilidades psicológicas da
obesidade, entre as quais se destacam a depressão e a ansiedade (Scott et al.,
2008), que podem justificar os baixos desempenhos de sujeitos obesos em provas
que avaliam as funções executivas. Cserje et al. (2009) mostraram que, numa
amostra de mulheres obesas, a presença destes sintomas psicológicos pode
mediar, pelo menos parcialmente, o efeito do IMC sobre as dificuldades ao nível
da flexibilidade cognitiva e atenção sustentada (Cserje, Luminet, Poncelet,
& Lénárd, (2009).
Existem poucos estudos que exploram as alterações cognitivas após o tratamento
da obesidade. Num estudo realizado no Brasil, verificaram-se melhorias na
atenção e no cálculo em obesos operados, apontando os autores como principais
causas os benefícios ao nível dos sistemas circulatório e respiratório,
causados pela redução de peso, que por sua vez levam a melhoria das funções
cerebrais (Pinto, Satler, & Tomaz, 2010). Observou-se ainda desempenhos
inferiores face a um grupo de obesos não operados, ao nível da memória e da
aprendizagem, resultados que podem ser explicados por carências nutricionais
sentidas na fase pós-operatória, nomeadamente de vitamina B1, indispensável ao
funcionamento cerebral.
Num estudo realizado em 2010, Gunstad et al. constataram melhorias na memória
(aprendizagem, memória a curto prazo, memória a longo prazo e reconhecimento)
ao fim de 12 semanas após cirurgia bariátrica. Observaram-se ainda melhorias
nas funções executivas, mas sem que essas alterações fossem estatisticamente
significativas (Gunstad et al., 2010). Para estes autores, o reduzido número de
estudos existentes que analisam o desempenho cognitivo após cirurgia bariátrica
justifica a necessidade de conduzir investigação adicional para clarificar os
efeitos da redução de peso nas funções cognitivas avaliadas no período pós-
operatório.
O principal objectivo deste estudo é explorar o desempenho cognitivo de
indivíduos obesos candidatos a cirurgia e de indivíduos já submetidos a esse
procedimento cirúrgico. Admitindo que a obesidade é um fator de risco nas
funções executivas e considerando os efeitos positivos da cirurgia bariátrica
na redução de peso, estabelece-se como hipótese que os participantes submetidos
a cirurgia e que tenham reduzido o seu IMC apresentem um desempenho executivo
superior ao dos participantes obesos ainda não operados. A ser confirmada tal
hipótese, estar-se-á a contribuir para o esclarecimento do papel da obesidade
nas alterações ao funcionamento cognitivo, nomeadamente ao nível das funções
executivas.
MÉTODO
Participantes
Participaram dois grupos, cada um com 30 participantes: obesos candidatos a
cirurgia bariátrica (grupo pré) e obesos já submetidos ao mesmo procedimento
cirúrgico (grupo pós). O processo de amostragem foi não probabilístico, sendo
os participantes selecionados entre os sujeitos acompanhados pelo Projeto de
Tratamento Cirúrgico da Obesidade do Hospital Egas Moniz de Lisboa. Foram
definidos os seguintes critérios de inclusão: a) Ter diagnóstico de obesidade;
b) Ser candidato a cirurgia para tratamento da obesidade ou já ter efectuado a
cirurgia; c) Idade compreendida entre os 25 e os 60 anos; d) Ausência de
deterioração cognitiva ou história de doença neurológica ou consumo de drogas.
Os dois grupos são predominantemente constituídos por participantes do sexo
feminino, casados ou em união de facto, maioritariamente com escolaridade ao
nível do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário, com idades entre os
26 e os 59 anos (M= 43,9 anos). Os dois grupos são equivalentes em termos de
sexo, idade, escolaridade, situação profissional e rendimento mensal.
No grupo pós-operatório, 40% dos sujeitos foram submetidos a Sleeve Gástrico,
37% a Bypass Gástrico e 23% colocaram Banda Gástrica. Estes indivíduos têm em
média um tempo de pós cirurgia de 22,6 meses (DP = 23,1) e apresentam uma
redução de 31,5% na média do peso relativamente ao seu peso pré-cirurgia.
Em comparação com os sujeitos candidatos a cirurgia, os sujeitos operados
apresentam valores de IMC moderadamente mais baixos. Verifica-se um IMC médio
de 42,71 (DP = 5,98) no grupo pré (Obesidade Extrema) e um IMC médio de 32,63
(DP= 4,33) no grupo pós-operátorio (Obesidade Moderada). Regista-se assim uma
diferença de 10,09 pontos no IMC, sendo esta diferença de magnitude elevada e
estatisticamente significativa (t = 7,48; p < 0,0001; d de Cohen = 1,93).
Relativamente ao peso, o grupo pré apresenta uma média de 117kg e o grupo pós
uma média de 88kg, o que corresponde a uma diferença estatisticamente
significativa e de grande magnitude (t = 6,35; p = 0,0001, d de Cohen = 1,60).
Material
A todos os participantes foi explicado que a sua participação seria voluntária
e confidencial, através de Consentimento Informado. Foram utilizados os
seguintes instrumentos para recolha de dados: Questionário Sociodemográfico e
Clínico, a versão portuguesa da Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS)
(Zigmond & Snaith, 1983; versão portuguesa de Pais-Ribeiro, Silva,
Ferreira, Martins, Menezes, & Baltar, 2007), e cinco provas de avaliação
das funções executivas: Mapa do Zoo (Wilson, Alderman, Burges, Emslie, &
Evans, 1996), TMT (versão portuguesa de Cavaco, Pinto, Gonçalves, Gomes,
Pereira, & Malaquias, 2008), Stroop (Golden, 1975), WCST (Heaton, Chelune,
Talley, Kay, & Curtiss, 2001) e Iowa Gambling Task ' IGT (Bechara, 2007).
Procedimentos
Após concedida autorização por parte da instituição, iniciou-se a recolha
individual dos dados. A cada participante foi explicado, num primeiro momento,
o propósito do estudo e o facto de a sua participação ser voluntária e
confidencial, através da leitura e preenchimento de Consentimento Informado. De
seguida passou-se ao preenchimento dos instrumentos de recolha de dados e à
realização das provas neuropsicológicas. Posteriormente, os dados recolhidos
foram submetidos a análise estatística através do programa Statistical Package
for Social Sciences (SPSS).
RESULTADOS
A quase totalidade das diferenças observadas entre os dois grupos nos
parâmetros de avaliação neuropsicológica é de magnitude reduzida (d de Cohen <
0,5) e não significativa (Quadro 1), à exceção dos erros cometidos na parte B
do TMT, tendo o grupo pós-operatório apresentado um número de erros
significativamente superior ao grupo pré-operatório (t = -2,52; p= 0,01).
Quadro 1
Resultados das provas de avaliação neuropsicológica e da HADSpara os grupos
pré- e pós-operatório (pontuações diretas; média ± desvio-padrão)
As pontuações obtidas na HADS indicam que ambos os grupos apresentam
indicadores de sintomatologia ansiosa leve, não diferindo entre si (p = 0,23).
No que respeita à depressão, existe uma diferença significativa e de grande
magnitude (p = 0,0001), apresentando o grupo pré-operatório valores superiores
e indicadores de sintomatologia leve e situando-se o grupo pós-operatório no
limite normal.
Admitindo que a presença de sintomas depressivos pode afectar o desempenho em
provas neuropsicológicas, os resultados nulos encontrados na comparação entre
dois grupos poder-se-iam dever, pelo menos parcialmente, aos níveis de
depressão mais elevados do grupo pré-operatório. No entanto, após realizar uma
ANCOVA em que a medida de depressão entrou como co-variável, a ausência de
diferenças significativos entre grupos manteve-se, indicando que o desempenho
nas provas neuropsicológicas não parece ser afectados pelas diferenças nos
níveis de depressão.
Numa segunda análise, procedeu-se à comparação dos valores obtidos pelos dois
grupos com os valores de referência (ajustados para idade e escolaridade) de
cada prova neuropsicológica, sempre que os mesmos estavam disponíveis
(nomeadamente, TMT, Stroop, WCST e IGT). Verificou-se que o desempenho dos dois
grupos foi sistematicamente inferior ao esperado atendendo à idade e
escolaridade dos participantes. Na parte A do TMT, verifica-se que ambos os
grupos apresentam tempos médios de execução claramente superiores ao esperado
(grupo pré: t = -4,21, p= 0,0001; grupo pós; t = -3,24, p< 0,003), embora o
número de erros não difira significativamente dos níveis de referência (grupo
pré: t = -1,78, p= ns; grupo pós: t= -1,00, p = ns). Na parte B do TMT, ambos
os grupos apresentaram um número médio de erros superior ao esperado (grupo
pré: t = -2,71, p < 0,01; grupo pós: t= -3,86, p < 0,001), embora apenas o
grupo pré-operatório tenha despendido na execução um tempo significativamente
superior ao valor de referência (grupo pré: t = -3,17, p < 0,004; grupo pós: t
= -1,02, p = ns). Em três das medidas proporcionadas pela prova de Stroop,
tanto o grupo pré- como o grupo pós-operatório se posicionaram claramente
abaixo dos níveis de referência (prova de leitura, prova de nomeação e prova de
interferência; valores de p < 0,001); no entanto, relativamente ao parâmetro
nível de interferência, apenas o grupo pós-operatório mostrou desempenho abaixo
do esperado (t = -2,10, p < 0,04). No WCST, os dois grupos apresentam
resultados significativamente abaixo do esperado em todos os parâmetros
considerados (% de erros, % de respostas perseverativas, % de erros
perseverativos, % de erros não perseverativos; valores p < 0,01). Também a
comparação com os valores de referência do IGT indica que ambos os grupos
alcançaram resultados totais claramente abaixo dos valores de referência (p <
0,01).
DISCUSSÃO
Com o objetivo de explorar as implicações da obesidade nas funções executivas,
o presente estudo comparou o desempenho cognitivo de dois grupos de sujeitos
obesos: antes de realizar cirurgia para redução de peso (grupo pré-operatório)
e depois de submetidos à cirurgia bariátrica (grupo pós-operatório) cirúrgica.
Desta forma, pretendia-se averiguar o impacto da perda de peso após cirurgia no
funcionamento executivo.
A ausência de diferenças de desempenho entre os dois grupos não permitiu
confirmar a hipótese segundo a qual se esperava melhoria no funcionamento
executivo após a perda de peso induzida por cirurgia bariátrica (Duchesne et
al., 2009; Gunstad et al., 2007).
Uma possível explicação para não se observarem melhorias a nível do
funcionamento executivo remete para eventuais restrições nutricionais e
alimentares decorrentes do procedimento cirúrgico e da dieta pós-intervenção,
as quais podem ter impacto no SNC pela redução do metabolismo de glicose no
cérebro (Benton & Sargent, 1992). A redução da capacidade gástrica e a
diminuição do trato intestinal também podem originar distúrbios nutricionais
específicos por redução da capacidade de absorção, por exemplo na vitamina B1,
que potenciam alterações cognitivas após cirurgia (Martinez-Vall & Andres,
2007).
Pode-se ainda questionar se a perda de peso dos sujeitos operados terá sido
suficiente para se verificarem as melhorias esperadas a nível cognitivo. Apesar
da redução de cerca de 10 pontos no IMC registada no momento da avaliação,
muito sujeitos operados ainda se encontram num grau de obesidade moderada ou
grave.
O facto de ambos os grupos mostrarem sistematicamente desempenhos abaixo do seu
grupo de referência nas diferentes provas aplicadas parece reforçar a evidência
de que a obesidade se associa a dificuldades nas funções executivas. Estes
resultados são consistentes com outros estudos que relatam dificuldades
cognitivas específicas em sujeitos obesos (Cserje et al., 2009; Duchesne et
al., 2009; Gunstad et al., 2007) e são compatíveis com a hipótese de existir um
perfil cognitivo característico desta população que não seja consequência
directa de um IMC elevado (Feil et al., 2009).
No que respeita à ansiedade e depressão, os resultados vão ao encontro de
investigações que relatam melhorias nos sintomas depressivos após perda de peso
e a manutenção dos níveis de ansiedade após tratamento da obesidade (Dixon,
Dixon, & O'Brien, 2003). As melhorias na sintomatologia depressiva podem
dever-se à redução de peso, à diminuição das limitações físicas associadas à
obesidade, à melhoria no estado geral de saúde e na qualidade de vida (Dymek,
Le Grange, Neven, & Alverdy, 2002). A prevalência dos sintomas de ansiedade
após cirurgia pode ser explicada pela necessária adaptação dos sujeitos às
mudanças provocadas pela perda de peso resultante da cirurgia (Dymek et al.,
2002). Por outro lado, e uma vez que os sintomas de ansiedade estão presentes
nos dois grupos, pode-se avançar a hipótese de constituírem traços psicológicos
característicos destes sujeitos, tal como sugerido por Scott et al. (2008).
Em síntese, a intervenção cirúrgica e consequente perda de peso parece não ter
tido o efeito esperado na melhoria do desempenho cognitivo dos participantes
avaliados no presente estudo. De um modo geral, e independentemente de terem
sido ou não submetidos a intervenção cirúrgica e consequente perda de peso, o
desempenho dos participantes indiciou um funcionamento executivo claramente
abaixo dos níveis esperados atendendo à sua idade e nível de escolaridade.
O perfil executivo dos dois grupos indica dificuldades na produção de respostas
atencionais e comportamentais alternativas, sendo compatível com as
dificuldades relatadas pelos sujeitos obesos em estabelecer novos padrões de
saúde relacionados com a alimentação e a actividade física. Considera-se
provável que sujeitos obesos com dificuldades nestas funções cognitivas estejam
em risco de aumento de peso ou até mesmo perpetuar a sua obesidade, devido à
influência que o funcionamento executivo tem na capacidade auto-reguladora do
comportamento.
O estudo conta com algumas limitações, nomeadamente a sua natureza transversal
com grupos independentes, quando o ideal seria um estudo longitudinal (pré-,
pós-cirurgia e follow-up). A amostra, recolhida em função da disponibilidade
dos participantes, não permitiu obter grupos totalmente equivalentes em termos
de idade, escolaridade e comorbilidades. Por outro lado, a heterogeneidade do
grupo pós-operatório relativamente ao tipo de cirurgia e ao tempo pós-cirúrgico
pode ter aumentado a variabilidade dos resultados e camuflado eventuais
diferenças.
Futuras investigações deverão recorrer a planos longitudinais, para avaliar o
funcionamento executivo desde a pré-cirurgia e até 36 meses após a intervenção,
de modo a melhor caracterizar a evolução das funções cognitivas executivas e
clarificar se essa evolução se associa à progressão na perda de peso.
Acreditamos que o recurso a paradigmas de avaliação neuropsicológica, em
conjunto com o estudo biológico dos mecanismos cerebrais subjacentes, pode
ajudar a compreender os aspectos comportamentais da alimentação excessiva e do
aumento de peso. Assim, seria importante prosseguir com a exploração dos
factores cognitivos que possam caracterizar população obesa.