Estudo sobre a auto-estima em adolescentes dos 12 aos 17 anos
Na adolescência a construção da identidade assume um papel central (Erikson,
1972) e encontra-se intimamente relacionada com a auto-estima, que é
fundamental para o ajustamento psicológico e social (Antunes et al., 2006;
Quiles & Espada, 2009) e para a realização do potencial do indivíduo
(Baumeister, 1993) nesta etapa do ciclo desenvolvimental. A auto-estima é,
assim, considerada, uma dimensão central para se alcançar com sucesso a
identidade na adolescência (Quiles & Espada, 2009).
A adolescência é, segundo Erikson (1972), uma fase de moratória psicossocial em
que o adolescente procura a continuidade, integra várias identidades e
experimenta papéis que o vão preparar para as exigências da idade adulta.
Moujan (1986) propõe a divisão do processo de aquisição da identidade em três
períodos: (1) período da puberdade, em que o adolescente constrói o novo
esquema corporal; (2) adolescência intermédia, em que se constrói o novo mundo
interno, sendo alteradas ideias, objectivos e cognições e (3) adolescência
final, em que se constrói o novo mundo social, com o suporte das identidades já
adquiridas e em que se assume a perspectiva de que se é percepcionado de outra
forma pelos outros.
Nesta fase de desenvolvimento ocorrem acentuadas transformações físicas,
cognitivas, psicológicas e sociais (Bowker, 2006; Faria & Azevedo, 2004;
Fleming, 1993; Klomsten, Skaalvik & Espnes, 2004; Quiles & Espada,
2009), que são potencialmente indutoras de stress e podem gerar alterações na
percepção que o adolescente tem de si próprio e na sua auto-estima (Gullotta,
2000; Santos & Carvalho, 2006). A auto-estima pode ser definida como o
resultado do valor que uma pessoa atribui aos elementos afectivos e sociais da
representação que tem sobre si própria, (Avanci, Assis, Santos & Oliveira,
2007; Feldman, 2002; Pedro & Peixoto, 2006). Pode, por conseguinte,
entender-se como a avaliação que cada um faz do seu auto-conceito (Gallahue
& Ozmun, 2005; Mckay, 1991), sendo um elemento central para a compreensão e
explicação do comportamento humano (Bernardo & Matos, 2003).
Pelo facto da auto-estima ser um conceito desenvolvimental e dinâmico, ao longo
do tempo e das circunstâncias altera-se e redefine-se (Quiles & Espada,
2009). O estudo do desenvolvimento da auto-estima ao longo da adolescência não
tem reunido consenso, no entanto, observa-se alguma concordância quanto ao seu
decréscimo na passagem da infância para a adolescência (Harter, 1990; Robins,
Trzesniewski, Tracy, Gosling & Potter, 2002). A evolução do auto-conceito e
da auto-estima com a idade pode-se representar, segundo Marsh (1992), por uma
curva em forma de U, evidenciando um declínio da auto-estima no início da
adolescência, que se reverte no meio deste período e aumenta no seu final e
início da idade adulta. A diminuição da auto-estima no início da adolescência
pode ser explicada pela crescente noção de realismo que os indivíduos adquirem
ao longo do tempo, por oposição à auto-avaliação positiva e irrealista
característica da infância (Faria & Azevedo, 2004). Com a entrada na
adolescência, devido às características do desenvolvimento cognitivo desta fase
desenvolvimental, nomeadamente a aquisição das operações formais, surgem novas
possibilidades para se lidar com informação, resultantes da capacidade de
abstracção (Robins et al., 2002). A capacidade de abstracção permite que o
adolescente pense sobre si próprio e que desenvolva as suas auto-percepções
(Riding, 2001) que são, nesta fase, mais propicias a distorções e a
enviesamentos cognitivos (Harter, 1993).
Averiguar a existência de diferenças ao nível da auto-estima na adolescência
tendo em consideração diferentes variáveis, representa um importante contributo
para a compreensão dos processos de adaptação à multiplicidade de
acontecimentos da adolescência (Faria & Azevedo, 2004). Sabe-se, por
exemplo, que os adolescentes com elevada auto-estima são mais maduros
emocionalmente, estáveis, realísticos, relaxados e com boa tolerância à
frustração, comparativamente aos que têm uma auto-estima mais reduzida
(Baumeister, 1993; Plummer, 2005).
Apesar de algumas inconsistências nas investigações consultadas, algumas das
variáveis consideradas importantes para a compreensão da auto-estima dos
adolescentes são: a idade (Antunes et al., 2006; Faria & Azevedo, 2004;
Gobitta & Guzzo, 2002; Robins et al., 2002), o género (Antunes et al.,
2006; Faria & Azevedo, 2004; Robins et al., 2002; Romano, Negreiros &
Martins, 2007) e a prática desportiva (Altintas & Asci, 2008; Bernardo
& Matos, 2003; Findlay & Bowker, 2009).
O presente estudo tem como objectivo avaliar e comparar os valores de auto-
estima em diferentes fases da adolescência (adolescência inicial, adolescência
intermédia e adolescência final). Adicionalmente, pretende averiguar a
existência de diferenças ao nível da auto-estima na adolescência
comparativamente entre géneros, contextos sociais, intenção de ingresso no
ensino superior, prática desportiva, tipo de prática e as horas semanais de
prática.
MÉTODO
Participantes
Participaram no estudo 360 sujeitos com idades compreendidas entre os 12 e 17
anos, sendo a Mediana de 14,50 e a Média de 14,50 (DP = 1,71). Destes
participantes, 120 (33,33%) apresentam idades entre 12 e 13 anos (grupo
adolescência inicial), 120 (33,33%) têm idades entre 14 e 15 anos (grupo
adolescência intermédia) e 120 (33,33%) apresentam idades entre 16 e 17 anos
(grupo adolescência final).
No que diz respeito ao género, 220 (61,10%) são do género feminino e 140
(38,90%) do género masculino. Quanto ao contexto social, 180 (50%)
participantes provêm do meio rural e 180 (50%) do meio urbano.
Relativamente à distribuição dos participantes por anos escolares, 6 (1,70%)
frequentam o 6º ano, 66 (18,30%) o 7º ano, 75 (20,80%) o 8º ano, 65 (18,10%) o
9º ano, 41 (11,40%) o 10º ano, 81 (22,50%) o 11º ano e 26 (7,20%) frequentam o
12º ano. A Mediana corresponde ao 9º ano e a Média da escolaridade foi de 9,16
(DP = 1,66). Quanto à intenção de ingresso no ensino superior, 322 (89,40%)
revelam esse objectivo e 38 (10,60%) não o revelaram.
Quanto à prática desportiva, 196 (54,44%) dos participantes praticam desporto1
e 164 (45,66%) não praticam. Quanto ao tipo de prática, 129 (35,80%) praticam
desporto por lazer, 66 (18,30%) praticam por competição. Relativamente às horas
semanais praticadas, o mínimo foi uma hora semanal e o máximo nove horas
semanais, sendo a Mediana 3 e a Média 3,51 (DP = 1,85)
Instrumentos
Questionário Sócio-demográfico - No âmbito desta investigação foi construído um
Questionário Sócio-demográfico, para recolha de informações sobre idade,
género, escolaridade, contexto social, intenção de ingresso no ensino superior,
prática desportiva. Quanto à prática desportiva permitiu obter informação sobre
o tipo de prática (competição ou lazer) e as horas semanais praticadas.
Escala de Auto-Apreciação Pessoal ou Auto-Estima- A Escala de Auto-Apreciação
Pessoal ou Auto-Estima de Ribeiro (2003), é um instrumento unidimensional e
breve que permite avaliar a auto-estima, ou seja, a avaliação da atitude para
consigo próprio. O instrumento apresenta uma boa consistência interna (a=0,82)
(Ribeiro, 2003).
Esta escala foi construída com base numa sub-escala do The self-Perception
Profile for College Studentde Newman e Harter (1986). A versão original tem
seis itens e a versão portuguesa tem sete (Ribeiro, 2003) dos quais três são
invertidos (1, 3 e 5).
Quanto ao formato de resposta, são apresentadas quatro alternativas para cada
item. O preenchimento implica dois passos: (1) O sujeito escolhe de duas
afirmações antagónicas aquela com que mais se identifica e (2) centrando-se
nessa afirmação, o sujeito indica se se trata de uma identificação exacta com a
afirmação ou apenas de uma aproximação ("sou mesmo assim" ou "sou mais ou menos
assim") (Ribeiro, 2003).
Cada item é cotado de 1 a 4 e o somatório dos valores varia entre 7 e 28, em
que valores mais elevados correspondem a uma apreciação pessoal ou auto-estima
mais favorável (Ribeiro, 2003). No presente estudo, este instrumento apresentou
uma consistência interna de 0,93, sendo considerada excelente segundo o
estipulado por DeVellis (1991).
Procedimento
Após solicitar a autorização para a utilização da Escala de Auto-Apreciação
Pessoal ou Auto-Estima foi feito um pré-teste com 10 adolescentes para se
avaliar a adequação dos itens dos instrumentos utilizados à população-alvo do
presente estudo. Não foram necessárias alterações.
A condição de participação neste estudo foi ter idade entre 12 e 17 anos, tendo
sido recolhido o mesmo número de participantes de cada uma das idades e do meio
social (meio rural e urbano).
Inicialmente pretendeu-se fazer a recolha da amostra em duas escolas. Foi feito
contacto informal com presidentes executivos de escolas que aceitaram
colaborar. Posteriormente foi feito pedido de autorização formal na Direcção
Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGIDC). Devido à demora da
resposta da DGIDC, optou-se, também, pela aplicação dos inquéritos sem ser em
contexto escolar.
Quando se obteve autorização da DGIDC foram aplicados 70 questionários numa das
escolas previamente contactadas. Para salvaguardar as questões éticas da
investigação com menores, antes de proceder à recolha de dados na escola, foi
solicitada a autorização por escrito do director da escola. Adicionalmente, foi
sempre solicitada autorização por escrito aos encarregados de educação. Junto
dos participantes foi explicado o objectivo da investigação e solicitada a
colaboração no preenchimento dos questionários.
Quanto à recolha de dados fora do contexto escolar, os adolescentes foram
contactados em locais públicos (bibliotecas, jardins, miradouros, cafés,
lojas), para um contacto informal a solicitar a participação no estudo. Após
obtenção de autorização por parte dos encarregados de educação e depois de
obtido o consentimento informado, foram aplicados os instrumentos. Os
inquéritos foram recolhidos nos concelhos de Belmonte, Guarda, Covilhã e
Fundão. Seguiu-se a construção da base de dados, análise e discussão dos
resultados.
Análise de dados
A análise estatística dos dados foi elaborada com o programa Statistical
Package for Social Sciences(SPSS) versão 17.0 para Windows. Foram feitas as
estatísticas descritivas para a caracterização dos participantes. Para avaliar
a consistência interna da escala utilizada para avaliar a auto-estima calculou-
se o coeficiente Alphade Cronbach.
Recorreu-se ao teste Kolmogorov-Smirnov (K-S) para analisar a normalidade de
distribuição das variáveis em estudo (Maroco, 2003). Constatou-se que as
variáveis em estudo não se distribuíam de acordo com a curva normal. Apesar do
passo mais habitual ser a utilização de testes não-paramétricos, tendo em
consideração que: (1) estes são menos potentes que os testes paramétricos,
especialmente para amostras grandes (Maroco, 2003); (2) os testes paramétricos,
especificamente a análise de variância (ANOVA) e o t-student, são bastante
robustos para amostras grandes (neste caso n=360) mesmo quando a distribuição
da variável em estudo não é do tipo normal (Maroco, 2003) e (3) de acordo com o
teorema de Bernoulli ou o teorema do limite central quando a distribuição da
população não for normal mas o número de casos for grande, pode-se assumir que
a distribuição das variáveis é normal (Barany & Vu, 2007; Dinov, Christou
& Sanchez, 2008; Hald, 1998; Henk, 2004; Johnson, 2004; Klartag, 2008;
Rosenthal, 2000; Zabell, 2005), optou-se pela utilização dos testes
paramétricos.
Os testes paramétricos utilizados para analisar a existência de diferenças
estatisticamente significativas entre grupos foram o t-student e a ANOVA. Foram
ainda efectuadas análises de correlação, através do cálculo do coeficiente de
correlação de Pearson. Para todas as análises foi fixado o nível de
significância de p = 0,05.
RESULTADOS
Relativamente à pontuação total obtida na Escala de Auto-Apreciação Pessoal ou
Auto-Estima, os valores obtidos situam-se entre o valor mínimo de 7 e o valor
máximo de 28, correspondendo a Média a 16,86 (DP = 5,98), a Moda foi 12. A
Mediana observada foi 16 e a Mediana teórica foi 17,50, o que pode indicar uma
auto-estima tendencialmente inferior ao valor mediano.
Os resultados obtidos ao nível da auto-estima indicam que os participantes do
grupo adolescência final são os que apresentaram um valor médio de auto-estima
mais elevado (M = 18,73; DP = 5,14). Segue-se o grupo adolescência intermédia,
que apresenta uma média da pontuação de auto-estima (M = 18,16; DP = 5,31)
superior ao valor médio de auto-estima do grupo adolescência inicial (M =
13,70; DP = 6,16). As diferenças entre os valores médios de auto-estima face as
fases da adolescência são estatisticamente significativas (F (2; 357) = 29,45;
p = 0,000).
Quando se comparam os valores médios de auto-estima entre diferentes idades,
observa-se que os adolescentes que apresentam valores médios de auto-estima
mais elevados são os que têm 16 anos (M = 18,90; DP = 4,89). Por ordem
decrescente seguem-se os adolescentes que têm 17 anos (M = 18,55; DP = 5,41),
14 anos (M = 18,42; DP = 5,48) e os adolescentes que têm 15 anos (M = 17,90; DP
= 5,17). Os adolescentes de 12 e 13 anos apresentam valores mais baixos que os
restantes. Não obstante, os de 12 anos apresentam valores médios de auto-estima
(M = 11,92; DP = 4,71) inferiores aos de 13 anos (M = 15,48; DP = 6,92). As
diferenças entre os grupos são estatisticamente significativas (F (5; 354) =
14,74; p = 0,000).
O estudo das correlações entre a idade e a pontuação obtida na Escala de Auto-
Apreciação Pessoal ou Auto-Estima revela uma correlação positiva
estatisticamente significativas considerada positiva fraca (p = 0,000; r =
0,35). Por conseguinte, pode-se referir que com um aumento da idade se observa
um aumento ao nível da auto-estima na adolescência.
Os adolescentes do género feminino apresentam um valor médio de auto-estima (M
= 15,30; DP = 5,62) inferior aos adolescentes do género masculino (M = 19,31;
DP = 5,73), sendo esta diferença estatisticamente significativa (t (358) = -
6,54; p = 0,000).
Quanto ao contexto social, os adolescentes do meio rural apresentam um valor
médio de auto-estima (M = 15,89; DP = 6,11) inferior aos adolescentes do meio
urbano (M= 17,83; DP = 5,70). Esta diferença também é estatisticamente
significativa (t(358) = -3,12; p = 0,002). O quadro 1 apresenta a comparação da
pontuação obtida na escala utilizada para avaliar a auto-estima mediante as
variáveis idade, género e contexto social.
Quadro 1
Comparação de médias de auto-estima entre grupos de diferentes idades, géneros
e contextos sociais
Em relação à escolaridade, os adolescentes que apresentam o valor médio de
auto-estima mais elevado frequentam o 11º ano (M = 19,63; DP = 5,24). Seguem-
se, por ordem decrescente, os que frequentam o 9º ano (M = 17,74; DP =5,07), o
10º ano (M= 17,22;DP = 5,17), o 12º ano (M = 16,69;DP = 3,88), o 8º ano escolar
(M= 16,40; DP = 6,80) e os adolescentes que frequentam o 7º ano (M = 13,48; DP
= 6,08). Os adolescentes que apresentam valores médios de auto-estima mais
baixos são os que frequentam o 6º ano (M = 11,17; DP = 4,36). As diferenças
entre o valor médio de auto-estima face a escolaridade são estatisticamente
significativas (F (6; 353) = 8,62; p = 0,000).
O estudo das correlações entre a escolaridade e a pontuação obtida na escala
utilizada para avaliar a auto-estima indica uma correlação positiva
estatisticamente significativa que pode ser considerada fraca (p = 0,000; r=
0,29). Ou seja, os resultados indicam que à medida que a escolaridade aumenta,
a pontuação obtida na escala de auto-estima utilizada também aumenta.
Relativamente à intenção futura de ingressar no ensino superior, os
adolescentes que manifestam essa intenção apresentam um valor médio de auto-
estima (M= 17,04; DP = 5,91) superior aos adolescentes que não a manifestam (M
= 15,34; DP = 6,42). Não obstante, esta diferença não é estatisticamente
significativa (t (358) = 1,66; p = 0,098). O quadro 2 apresenta a comparação da
pontuação total obtida na escala utilizada para avaliar a auto-estima mediante
as variáveis relacionadas com a vida escolar.
Quadro 2
Comparação da pontuação total face as variáveis relacionadas com a vida escola
Os adolescentes que praticam desporto apresentam um valor médio de auto-estima
(M = 19,35; DP = 5,29) superior aos adolescentes que não praticam (M = 13,88;
DP = 5,38), sendo esta diferença estatisticamente significativa (t (358) =
9,70; p = 0,000).
Em relação ao tipo de prática desportiva, os adolescentes que fazem desporto
por lazer apresentam um valor médio de auto-estima (M = 18,21; DP = 5,10)
inferior aos adolescentes que praticam por competição (M = 21,53; DP = 5,01).
Esta diferença é estatisticamente significativa (t (193) = -4,33; p = 0,000).
No que concerne às horas semanais de prática de desporto, os adolescentes que
apresentam um valor médio de auto-estima mais elevados são os que praticam 9
horas semanais (M = 24,00; DP = 6,08), seguidos daqueles que se dedicam 6 horas
semanais (M = 21,74; DP = 4,69) e 8 horas semanais (M = 21,50; DP = 3,54).
Seguindo uma ordem decrescente da pontuação obtida, sucedem-se aos referidos os
que praticam 1 hora semanal (M = 20,63; DP= 5,02), 5 horas semanais (M = 20,60;
DP = 7,06) e os que praticam 3 horas semanais (M = 20,00; DP = 4,54). Os que
apresentaram um valor médio mais baixo são os que praticam 4 horas semanais (M
= 19,49; DP = 3,77) seguidos dos que praticam 2 horas semanais (M = 17,10; DP =
5,58). As diferenças de auto-estima entre os grupos com diferentes horas de
prática de desporto são estatisticamente significativas (F (7;187) = 3,94; p =
0,000).
O estudo das correlações entre as horas semanais de prática de desporto e a
auto-estima indica uma correlação estatisticamente significativa que pode ser
considerada positiva fraca (p = 0,000; r = 0,28). Este valor indica uma
tendência para se observar um aumento da auto-estima à medida que as horas
semanais de prática de desporto aumentam. O quadro 3 apresenta a comparação da
pontuação total obtida na escala utilizada para avaliar a auto-estima mediante
as variáveis relacionadas com a prática desportiva.
Quadro 3
Comparação da pontuação total face as variáveis relacionadas com a prática
desportiva
DISCUSSÃO
Globalmente, os resultados deste estudo indicam que os adolescentes têm uma
auto-estima baixa. Uma vez que a Escala de Auto-Apreciação Pessoal ou Auto-
Estimausada nesta investigação não apresenta ponto de corte, calculou-se a
mediana teórica, tendo os resultados sido inferiores à mesma. Assim, estes
resultados corroboram a perspectiva de Marsh (1992) e de Harter (1990) que
indicam uma auto-estima mais baixa na adolescência do que em outras etapas do
ciclo vital. Esta diminuição pode relacionar-se com as acentuadas
transformações típicas da adolescência (Bowker, 2006; Faria & Azevedo,
2004), potencialmente indutoras de stress Bowker (2006). Estes resultados
podem, ainda, estar relacionados com o facto de se estar a formar identidade
(Erikson, 1972) e com as características cognitivas, nomeadamente o acesso ao
raciocínio hipotético-dedutivo típico da adolescência.
Relativamente à auto-estima nas diferentes fases da adolescência, os resultados
corroboram a perspectiva de Harter (1999), que sugere que os adolescentes
passam por várias transformações cognitivas, físicas e emocionais, que os
dirigem progressivamente à maturação que se pode traduzir num aumento
progressivo de auto-estima ao longo da adolescência. Assim, a fase que
corresponde à transição da infância para a adolescência (adolescência inicial)
é a que apresenta valores mais baixos de auto-estima. Por outro lado, o aumento
da auto-estima observado neste estudo nas fases seguintes da adolescência,
apoia, também, o estudo de Marsh (1989) que considera que se regista um aumento
da auto-estima durante a adolescência. Por outro lado, estes resultados não
apoiam o estudo de Romano et al. (2007) que refere que, ao longo da
adolescência, não se registam mudanças ao nível da auto-estima, ou o estudo de
Robins et al. (2002) que revela que se observa uma diminuição da mesma.
A falta de consenso em relação ao facto da auto-estima, ao longo da
adolescência, se alterar ou não pode estar relacionada com a influência de
variáveis como o género (Robins et al., 2002). Ou pode, também, prender-se com
a instabilidade, que, segundo o estudo de Trzesniewski, Donnellan e Robins
(2003), pode caracterizar o início e o meio da adolescência. Contrariamente aos
resultados deste estudo, o estudo de Faria e Azevedo (2004) revela que são os
adolescentes mais novos que apresentam uma auto-estima mais elevada.
Os resultados deste estudo não apoiam, igualmente, os resultados de Antunes et
al. (2006) que indica que os valores médios da auto-estima apresentam uma
diminuição significativa aos 14 anos, nem os de Gobtta e Guzzo (2002) que
sugerem que a faixa etária dos 13 aos 15 é a que apresenta uma auto-estima mais
elevada. De facto, no presente estudo, são os adolescentes de 16 anos os que
apresentaram valores médios de auto-estima mais elevados e os de 12 anos os que
apresentam os valores mais baixos.
Em relação ao ano escolar frequentado, os resultados desta investigação indicam
que o valor médio de auto-estima mais elevado é o dos alunos que frequentam o
11º ano e o valor mais baixo é o dos alunos do 6º ano. Estes resultados surgem
em consistência com os relativos à idade e que apoiam a ideia de uma auto-
estima mais baixa no início da adolescência e mais elevada no final da mesma.
Relativamente ao género, o estudo evidencia que os rapazes apresentam valores
de auto-estima consideravelmente superiores às raparigas, o que apoia outros
estudos (Kling, Hyde, Showers & Buswell, 1999; Romano et al., 2007; Robins
et al., 2002). Este facto corrobora a perspectiva de Quiles e Espada (2009),
segundo a qual as transformações físicas que ocorrem na adolescência parecem
influenciar mais as raparigas do que os rapazes, o que pode se repercutir numa
auto-estima inferior nas raparigas. Esta diferença pode estar relacionada com o
papel que a maturação inerente à puberdade desempenha na auto-estima (Robins et
al., 2002) e que, socialmente é muito diferente entre géneros.
No entanto, estes resultados vão contra os de alguns estudos que indicam que a
auto-estima nas raparigas não diverge muito da auto-estima nos rapazes (Hyde,
2005). Uma meta-análise realizada sobre este tema (Gentile, Grabe., Dolan-
Pascoe, Twenge, Wells & Maitino, 2009) revela que as diferenças de género
são mais visíveis nalguns domínios da auto-estima do que na auto-estima global,
apesar de não serem muito significativas. Por sua vez, os resultados do estudo
de Antunes et al. (2006) revelam que as raparigas apresentam uma auto-estima
mais baixa do que os rapazes, mas só a partir dos 14 anos.
Quanto ao contexto social, os adolescentes provenientes de meio rural
apresentaram valores de auto-estima inferiores aos adolescentes de meio urbano.
Este resultado poderá estar relacionado com a forma como se vivencia e é
valorizada esta etapa de desenvolvimento nos dois contextos. Trata-se de um
resultado a aprofundar, uma vez que as diferenças e semelhanças entre as
comunidades rurais e urbanas são, actualmente, multifacetadas e complexas (Yang
& Fetsch, 2007) apesar de se considerar que as comunidades rurais se estão
a tornar semelhantes às urbanas (MacTavish & Salamon, 2003). Este resultado
não apoia a ideia de Yang e Fetsch (2007) de que as diferenças na auto-estima
consoante o meio social (rural ou urbano) não são tão demarcadas como esperado.
Relativamente à intenção de ingresso no ensino superior, embora a diferença não
seja estatisticamente significativa, o valor médio de auto-estima dos
adolescentes que revelam esta intenção foi superior aos que não a revelam. Este
resultado pode estar relacionado com o facto de o estabelecimento de metas
escolares poder, de alguma forma, influenciar e ser influenciado pela auto-
estima. Pode ainda ser explicado pela valorização social que é atribuída ao
ensino superior em detrimento de outras opções formativas.
Quanto ao desporto, os adolescentes praticantes apresentam valores de auto-
estima superiores aos não praticantes. Este resultado corrobora outros que
indicam que a prática regular de desporto constitui um meio privilegiado para
melhorar a auto-estima física (Atlintas & Asci, 2008; Bernardo & Matos,
2003; Folsom-Meek, 1991; Faria & Silva, 2001; Mota & Cruz, 1998;
Weiler, 1998; Weinberg & Gould, 2001). Para além disso, os resultados
apoiam outros estudos que indicam uma correlação positiva da prática desportiva
na auto-estima de adolescentes (Bowker, 2006; Delaney & Lee, 1995; Erkut
& Tracy, 2002; Findlay & Bowker, 2009; Pedersen & Seidman, 2004).
Ainda em apoio a esta ideia, os resultados deste estudo indicam que são os
adolescentes que o praticam em competição e durante mais horas semanais os que
apresentam valores de auto-estima mais elevados.
Assumindo que a auto-estima desempenha um papel fundamental no crescimento
humano (Jonovska, Franïïkovi, Kvesi, Nikoli & Brekalo, 2007), assim como no
bem-estar e estabilidade emocional (Sonstroem, 1997) estes resultados alertam
para as suas diferenças ao longo da adolescência. Estes resultados sugerem,
ainda, que a prática de desporto pode estar relacionada com a auto-estima nesta
fase de desenvolvimento
Como limitação deste estudo pode apontar-se a escala usada, resultante da
escassez de instrumentos adaptados à população portuguesa que permitam avaliar
de forma mais abrangente a avaliação da auto-estima. Destaca-se ainda, como
limitação, o facto de tratar de um estudo transversal, que não permite
controlar aspectos relacionados com efeitos geracionais, entre outros. Seria,
neste sentido, pertinente desenvolver um estudo longitudinal ou sequencial para
aprofundamento dos resultados obtidos, que permitisse uma melhor compreensão da
evolução da auto-estima ao longo da adolescência com a finalidade de
desenvolver medidas adequadas à promoção da mesma em cada uma das etapas.