Exercício físico e satisfação com a vida: Um estudo com adolescentes
Exercício físico e satisfação com a vida: Um estudo com adolescentes
Exercise and satisfaction with life: A study with teens
Esta investigação foi efectuada no âmbito da temática de estudos de "Psicologia
do Exercício e Saúde", tendo como objectivo verificar a existência, ou não
existência de uma relação entre a prática de exercício físico e a satisfação
com a vida. Concebemos este tema tendo por base a actualidade do assunto e o
facto de cada vez mais se tentar estabelecer uma ligação entre a prática de
exercício físico e a satisfação pessoal. Além disso é necessário que se efectue
uma consciencialização junto dos adolescentes para a prática de exercício
físico e para as vantagens que este acarreta.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), "a Saúde consiste num estado de
completo bem-estar físico, social e mental e não apenas na simples ausência de
doença". (WHO, 1948).
Nesta perspectiva, a actividade física tem tido cada vez mais impacto na
satisfação com a vida. Segundo Pavot e Diener (1993), a satisfação com a vida
envolve um julgamento cognitivo consciente acerca da vida da própria pessoa em
que os critérios para tal julgamento são-lhe intimamente inerentes. Relaciona-
se com a experiência de vida em relação às várias condições da existência do
indivíduo. A satisfação com a vida é uma apreciação cognitiva de alguns
aspectos específicos na vida como a saúde, o trabalho, as condições de moradia,
as relações sociais, a autonomia entre outros, ou seja, um processo de
avaliação geral da própria vida segundo um critério próprio (Joia, Ruiz, &
Donalisio, 2007).
Os autores Bouchard e Shepard (1994), referindo-se aos factores que afectam a
prática de actividade física, identificaram o meio social como a combinação dos
condicionantes sociais, culturais, económicos e políticos que interferem na
aderência a actividades físicas, na condição física relacionada com a saúde e
no estado de saúde.
Tal como sugeriram McDowell, McKenna e Naylor (1999), a prática regular de
actividade física ajuda a prevenir e reduzir o risco associado a certas
doenças, além de produzir um efeito benéfico noutro tipo de doenças como a
osteoporose, diabetes, hipertensão e depressão.
Indo ao encontro daquilo que Oliveira e Rolim proferiram, Berger e McInman
(1993; cit. por Araújo, Calmeiro, & Palmeira, 2005) o exercício físico
reduz também os estados de depressão e de ansiedade, ajuda a controlar o peso
corporal, reduz a tensão arterial, mantém o bom funcionamento do sistema
músculo-esquelético e melhora a mobilidade dos idosos. Além disso melhora a
auto-estima e promove efeitos positivos associados à interacção social.
Num outro estudo foram exploradas as relações entre a satisfação com a vida e a
actividade física em adolescentes. Deste modo, observou-se que não realizar
qualquer tipo de exercício nem participar em qualquer tipo de actividade física
conduz, a uma reduzida satisfação com a vida (Valois, Zullig, Huebner, &
Drane, 2004).
Grosso modo, parece evidente que a prática de exercício físico está associada a
maiores níveis de satisfação com a vida e felicidade (Stubbe, de Moor, Boomsma,
& de Geus, 2007), sendo que ao longo da revisão bibliográfica foi
encontrada outra investigação que vem reforçar esta ideia. Foi estudado o
efeito de um programa de exercício funcional em mulheres com excesso de peso e
foram medidas diversas variáveis fisiológicas, bem como o Índice de Satisfação
com a Vida tendo-se verificado melhores resultados nas variáveis fisiológicas,
assim como uma evolução positiva nos índices de satisfação com a vida naquelas
que foram submetidas a um programa de actividade física (Grant, Todd,
Aitchison, Kelly, & Stoddart, 2004). Do mesmo modo, McCullagh, Murphy e
Mater (2008) num outro estudo, chegaram a resultados semelhantes aos referidos
anteriormente.
Num estudo ainda recente verificou-se que as mulheres que eram mais activas
fisicamente revelaram significativamente menos sintomas somáticos, uma auto-
estima muito mais valorizada e uma maior satisfação com a vida. Os resultados
revelaram então uma correlação positiva entre a actividade física e a
satisfação com a vida, concluindo-se assim, que ser fisicamente activo,
incrementa a satisfação com a vida (Elavsky, & McAuley, 2004).
O exercício físico regular tem uma influência positiva no tratamento de
mulheres com depressão, verificando que as praticantes reduzem mais
significativamente os seus níveis de depressão, o que por conseguinte aumenta a
sua satisfação com a vida (Vieira, Porcu, & Rocha, 2007).
Mulheres activas, comparativamente com mulheres sedentárias, registaram valores
significativamente superiores na satisfação com a vida (Diener, 1984). De
acordo com vários estudos, podemos afirmar que o exercício físico acarreta
benefícios não só para os jovens, mas para a população em geral (Barriopedro,
Eraña, & Mallol, 2001). A prática regular da actividade física de tipo
aeróbico ou de fortalecimento muscular e as mudanças para a adopção de um
estilo de vida activo no dia-a-dia do indivíduo são parte fundamental de uma
vivência com saúde e qualidade (Matsudo, 2006). Concretamente na adolescência,
o exercício torna-se um elemento facilitador na busca da melhoria da qualidade
da sua vida (Gaspári, & Schwartz, 2001).
Num âmbito geral, parece evidente que os rapazes tendem a ser fisicamente mais
activos que as raparigas, sobretudo em eventos associados à prática de
exercício físico ou desporto. Com a idade, os níveis de prática de actividade
física habitual tendem a reduzir, principalmente entre as raparigas. Os rapazes
que pertencem a uma classe socioeconómica mais alta mostraram ser mais activos
fisicamente, pelo contrário nas raparigas observa-se a situação inversa: as
mais activas fisicamente pertencem à uma classe socioeconómica mais
privilegiada (Guedes, Guedes, Barbosa, & Oliveira, 2001). Assim, quando
existe incentivo à prática de exercício físico, este torna-se um hábito, e com
o passar dos anos aumenta a probabilidade deste comportamento se manter
(Azevedo, Araújo, Silva, & Hallal, 2007).
Para verificar a consistência destes artigos, formulamos os seguintes
objectivos que orientaram a presente investigação:
1- Analisar a satisfação com a vida em adolescentes de ambos os sexos;
2- Analisar as diferenças entre os sexos quanto à frequência de exercício
físico nos adolescentes;
3- Analisar os diferentes níveis de frequência de exercício físico com os
diferentes níveis de satisfação com a vida nos adolescentes.
Para além disto, e baseando-nos na nossa revisão da literatura, avançamos com a
exploração da ideia de que quanto maior os níveis de frequência de exercício
físico, maiores serão os níveis de satisfação com a vida.
MÉTODO
Este estudo é de natureza quantitativa, transversal, tendo a amostra sido
recolhida numa população não clínica, assim como comparativo e quasi-
experimental. Na sua essência, é um estudo descritivo e exploratório, na medida
em que procura verificar como se influenciam variáveis numa amostra ainda não
estudada.
Participantes
Para a realização deste estudo foram inquiridos 219 adolescentes, 109 do sexo
masculino e 110 do sexo feminino, residentes no norte de Portugal, com idades
compreendidas entre os 12 e os 17 anos. A média das idades dos participantes
situa-se nos 14,42 anos e o desvio padrão é de 1,59.
Para uma melhor análise dos dados, agrupámos a amostra em subgrupos de acordo
com as variáveis a considerar. Deste modo, dividimos a amostra de acordo com a
frequência de exercício físico em inactivos, insuficientemente activos,
moderadamente activos e muito activos, bem como de acordo com o facto de
atingirem ou não as recomendações da prática de exercício físico.
Esta amostra não é representativa da população adolescente em geral, sendo por
isso a generalização dos resultados um pouco limitada.
Material
A operacionalização das variáveis foi realizada através da utilização de dois
questionários relacionados com o Exercício Físico e a Satisfação com a Vida.
Para a variável Exercício Físico foi utilizada a Escala de Actividade Física
moderada a vigorosa (Prochaska, Sallis, & Long, 2001).
Enquanto para a variável Satisfação com a Vida foi aplicada a Escala de
Satisfação com a Vida (SWLS; Diener, Emmons, Larsen, & Griffin, 1985;
versão traduzida e adaptada por Neto, 1990, 1993).
Seguidamente proceder-se-á à descrição de cada um dos questionários
separadamente, quanto às temáticas e às características psicométricas.
Escala de Actividade Física moderada a vigorosa - A Escala de Actividade Física
moderada a vigorosa foi desenvolvida por Prochaska e colaboradores (2001) e foi
baseada em itens do Youth Risk Behavior Survey. É uma escala de auto-resposta
composta por dois únicos itens que avaliam o número de dias em que os
indivíduos fazem exercício físico pelo menos por uma hora nos últimos 7 dias,
bem como numa semana normal. Para o cálculo dos números de incidência de
exercício físico fizemos a média dos dois itens. A "actividade física vigorosa"
é definida como a que "aumenta a tua pulsação, ao ponto de ficares ofegante
(respirar depressa e com dificuldade) e/ou transpirares", por exemplo, a
corrida ou o jogar futebol. O que é mensurado são os dias por semana em que os
adolescentes acumulam pelo menos 60 minutos de prática de exercício físico.
Escala de Satisfação com a Vida- A SWLS é uma escala de auto-resposta
desenvolvida por Diener, et al. (1985) que permite avaliar apreciações
cognitivas globais dos sujeitos acerca da sua própria vida. É constituída por
uma escala de 5 itens do tipo Likert, sendo o resultado global obtido pela soma
das cotações de cada item, podendo variar entre 5 e 25 pontos, correspondendo a
nota mais baixa a uma menor satisfação com a vida e a mais alta a uma
satisfação com a vida mais elevada. Embora não permita avaliar a satisfação com
a vida em domínios específicos como a saúde ou as finanças, permite, no
entanto, que os sujeitos ponderem e integrem estes domínios do modo como melhor
entenderem. Assim, quanto maior for a pontuação obtida, melhor é a apreciação
cognitiva do sujeito em relação à sua própria vida.
Neste estudo utilizou-se a versão portuguesa adaptada por Neto (1993), sendo
que no seu estudo observou-se um coeficiente de consistência interna de 0,78.
Procedimentos
Após seleccionarmos a amostra, procedemos á entrega dos inquéritos, que foram
aplicados e recolhidos pelas próprias autoras do estudo, o que constituiu uma
abordagem directa aos indivíduos que caracterizam a amostra, explicando os
objectivos e condições destes e esclarecendo eventuais dúvidas quanto aos
objectivos e metodologias utilizadas na investigação. Também garantimos aos
participantes o anonimato e a confidencialidade dos dados obtidos, bem como a
sua utilização exclusiva num trabalho de investigação.
Análise Estatística
Para a análise estatística dos dados adquiridos, utilizámos a versão 15.0 do
SPSS (Statistical Package for the Social Sciences). Inicialmente fizemos uma
análise exploratória dos dados, para verificarmos possíveis erros ou valores em
falta, o que tal não se observou. Também testámos a consistência interna que se
refere à análise da fiabilidade de uma escala ou de um factor, e verificamos
que a escala é razoavelmente consistente e fiável com um "a" de Cronbach de
0,73. Procedemos então à análise comparativa dos dados, utilizando testes t de
Student de modo a comparar dois subgrupos, por exemplo, para comparar
diferenças entre os sexos no que diz respeito à frequência de exercício físico,
bem como a análise de variância (ANOVA) univariada de forma a comparar três ou
mais subgrupos, como por exemplo para compararmos as diferenças entre os quatro
subgrupos definidos de acordo com os níveis de frequência de exercício físico
no que diz respeito à satisfação com a vida. Por último, efectuamos uma
correlação entre a satisfação com a vida e o exercício físico.
RESULTADOS
Após o tratamento dos dados recolhidos, procedemos à apresentação e análise dos
resultados obtidos, de acordo com as variáveis em estudo.
No quadro 1 é apresentada a análise descritiva das variáveis em estudo, em que
analisámos a média e o desvio-padrão. Deste modo, para o índice total de
satisfação com a vida a média é de 17,95 e o desvio-padrão é de 3,40.
Quadro 1
Média, desvio-padrão, Skewness. Kurtosis e ? de Cronbach das variáveis em
estudo
Nos dois quadros seguintes estão representados os dados das frequências
referentes à prática de exercício físico. Deste modo, no quadro 2 podemos
verificar que 7,8% dos adolescentes inquiridos são considerados inactivos,
32,4% são insuficientemente activos, 35,2% inserem-se no grupo moderadamente
activo e, por último, 24,7% dos adolescentes são muito activos. Por outro lado,
no quadro 3, podemos verificar que 75,3% dos adolescentes abordados não atingem
as recomendações aconselhadas para a prática de exercício físico, sendo que
apenas 24,7% estão no nível recomendado, o qual se refere à ocorrência de
exercício físico ao longo de 5 ou mais dias, durante 60 minutos.
Quadro 2
Subgrupo de adolescentes, definido de acordo com a frequência de exercício
físico
Quadro 3
Subgrupo de adolescentes, definido de acordo com o atingir ou não das
recomendações
Seguidamente, comparamos através do teste t de Student os valores de satisfação
com a vida tanto do sexo masculino como do feminino (ver quadro 4), verificando
que os membros do sexo masculino apresentam uma maior satisfação com a vida
(18,34±3,50) do que os do sexo feminino (17,55±3,27), embora essa diferença não
seja estatisticamente significativa.
Quadro_4
Comparação entre os valores de Satisfação com a Vida em função das variáveis em
estudo
No quadro 4 estão representados os valores de satisfação com a vida para os
indivíduos que atingem ou não as recomendações para a prática de exercício
físico. Assim sendo, os sujeitos que atingem as recomendações apresentam,
claramente, uma maior satisfação com a vida (19,52±2,76) do que os que não
atingem (17,43±3,44).
Verificámos igualmente que os indivíduos do sexo masculino praticam
significativamente mais exercício físico do que os do feminino, e apresentamos
no quadro_4 os valores referentes a ambos os sexos: 3,83±1,64 dias para o
masculino e 2,00±1,61 dias para o feminino.
Realizámos do mesmo modo uma análise de variância (ANOVA) para compararmos os
valores de satisfação com a vida entre os quatro subgrupos definidos de acordo
com a frequência de exercício físico (ver quadro_4). Assim, apenas a partir do
nível mais elevado de frequência de exercício físico (muito activos) é que se
verificam níveis mais elevados de satisfação com a vida (19,52±2,76), apesar de
ter sido verificado um valor elevado no subgrupo inactivo (18,29±3,53).
Finalmente, por último, efectuamos uma correlação entre a satisfação com a vida
e o exercício físico e encontrámos uma correlação positiva e significativa
entre as duas dimensões (r=0,28; p<0,001).
DISCUSSÃO
Após a obtenção e apresentação dos resultados, concluímos que os mesmos estão
em conformidade com os estudos já publicados e mencionados na introdução sobre
a relação entre o exercício físico e a satisfação com a vida.
O exercício físico proporciona benefícios a nível psicológico, na medida em que
permite aos jovens aumentar a sua auto-confiança e auto-estima melhorando as
relações de interacção com os outros, diminuindo os níveis de stress e
consequentemente melhorando a saúde mental, aumentando a satisfação com a
própria vida. Nos adolescentes, a prática de exercício regular permite entre
outras coisas um maior convívio e proximidade entre os jovens. Além disso fá-
los sentir-se mais seguros de si mesmos e das relações que estabelecem dentro
do seu grupo. Consequentemente, esta segurança transmitirá ao adolescente
maiores níveis de satisfação com a vida. Esta ideia vai de encontro aquilo que
foi proposto por Valois, et. al. (2004) que afirmaram que um menor envolvimento
em actividades físicas revela menores índices de satisfação com a vida.
Os resultados desta investigação revelaram que os níveis de satisfação com a
vida são mais elevados no grupo que pratica exercício físico muito activamente,
apesar de termos obtido um resultado relativamente elevado no grupo inactivo,
que pode ser explicado por outros factores que não o exercício físico.
Verificamos também que é nos rapazes que se verifica uma maior aderência à
prática de exercício físico e, consequentemente, é também no sexo masculino que
se registam maiores índices de satisfação com a vida. Esta conclusão confirma
aquilo que já anteriormente foi referido por Guedes, et. al. (2001) que
sugeriram que os rapazes são fisicamente mais activos que as raparigas.
Os nossos resultados vão assim de encontro ao estudos referidos no início desta
investigação, daí podermos afirmar convictamente que a prática regular de
exercício físico é benéfica em praticamente todos os aspectos físicos e
psicológicos do ser humano, assim como aumenta significativamente os níveis de
satisfação com a vida.