Reacções parentais ao diagnóstico perinatal de anomalia congénita do bebé
Implicações para a intervenção dos profissionais de saúde
Reacções parentais ao diagnóstico perinatal de anomalia congénita do bebé
Implicações para a intervenção dos profissionais de saúde
O diagnóstico de anomalia congénita no bebé tem um impacto significativo ao
nível da saúde pública, pelo seu efeito negativo na qualidade de vida das
crianças afectadas e dos seus familiares, e pelos serviços médicos, sociais e
educacionais requeridos para melhorar o seu bem-estar (EuroPeristat Project,
2008). O impacto do diagnóstico de anomalia congénita no bebé é também visível
em vários domínios familiares (e.g., financeiro, social, profissional), pelo
que o confronto com esta notícia é, para os pais, um período particularmente
desafiante e exigente, com possíveis implicações a nível emocional (Seligman
& Darling, 2007).
O reconhecimento deste impacto coloca em aberto a necessidade de os
profissionais de saúde considerarem como foco da sua intervenção, quer a
criança com anomalia congénita, quer o bem-estar e as necessidades individuais
dos seus pais, adequando, para isso, diferentes aspectos da prestação de
cuidados a estas famílias. Para isso, necessitam de (re)conhecer a diversidade
de reacções parentais à notícia de um diagnóstico de anomalia congénita do
bebé, bem como a sua variabilidade em função, por exemplo, do momento em que o
diagnóstico é conhecido.
Segundo o nosso conhecimento, a literatura nacional nesta área é escassa;
assim, partindo de uma revisão aprofundada da literatura empírica sobre as
reacções parentais ao diagnóstico de anomalia congénita do bebé, o objectivo
deste trabalho é delinear um conjunto de implicações para a intervenção dos
profissionais de saúde e de Saúde Mental neste contexto.
Dada a multiplicidade de investigações sobre esta temática, optámos por
excluir aquelas que se focam na experiência de perda subsequente à interrupção
da gravidez por diagnóstico de anomalia congénita, pelas características
particulares que lhe estão subjacentes; e aquelas cujo foco principal são
variáveis individuais/interpessoais específicas (e.g., estilos de coping) com
influência na diversidade da resposta parental à notícia do diagnóstico, por se
afastarem do principal objectivo deste trabalho.
A literatura empírica na área em apreço organiza-se, sobretudo, pelo momento
em que o diagnóstico de anomalia congénita do bebé foi conhecido (pré ou pós-
natal). Neste contexto, optámos por apresentar os estudos de acordo com o
momento do diagnóstico para, posteriormente, apresentarmos investigações que
comparam as reacções parentais ao diagnóstico de anomalia congénita no bebé, em
função do momento em que este é conhecido. As principais conclusões dos
estudos serão objecto de reflexão, com vista a desenvolver orientações para a
intervenção dos profissionais de saúde, que serão sistematizadas no último
ponto deste trabalho.
Reacções parentais ao diagnóstico de anomalia congénita no bebé no período pré-
natal
A realização de diagnóstico pré-natal (DPN) é percebida, pelas mulheres, como
um dos acontecimentos mais emocionalmente significativos durante a gravidez, a
par da descoberta da gravidez e do momento do nascimento (Lee, 1995). O
conjunto de técnicas de DPN, cuja utilização é cada vez mais difundida,
possibilita a detecção, no período pré-natal, de um vasto leque de anomalias
congénitas. A sua difusão e integração nas rotinas pré-natais resultaram, com
frequência, numa antecipação do timingdo diagnóstico, do período pós-natal
para o período pré-natal (Bijma, Heide, & Wildschut, 2007). O diagnóstico
pré-natal de anomalia congénita no bebé surge frequentemente de forma
inesperada, por vários motivos: pelo enraizamento da ideia geral, fruto dos
avanços da Medicina, de que gravidez é um processo sem desvios ou complicações;
pela frequente inexistência prévia de sintomas sinalizadores de que algo não
estava bem com o bebé; e, também, pela progressiva construção parental de uma
representação idealizada de um bebé saudável, perfeito e bonito (e.g. Kowalcek,
Mülhoff, Bachmann, & Gembruch, 2002; Seligman & Darling, 2007).
De forma geral, as investigações, utilizando uma metodologia qualitativa,
reportam um forte impacto inicial da notícia de um diagnóstico de anomalia
congénita do bebé, durante o período pré-natal.
São descritas reacções de choque, trauma e ruptura com a concepção prévia do
mundo após a notícia do diagnóstico (Lalor & Begley, 2006; Mitchell, 2004),
que têm subjacente a perda das expectativas prévias de um bebé saudável; quando
o diagnóstico é conhecido através de um procedimento não invasivo de DPN como
a ecografia, acresce a isto a ruptura com a percepção positiva associada a
este procedimento, habitualmente encarado como uma forma de conhecer o bebé, e
não como uma técnica de diagnóstico (Lalor & Begley, 2006).
Com frequência, são também descritas reacções iniciais de negação, descrença e
alienação do mundo; frustração, raiva ou irritabilidade; e culpa, tristeza ou
luto (Chaplin, Schwitzer, & Perkoulidis, 2005; Petrucelli, Walker, &
Schorry, 1998). O contraste entre sentimentos de medo e de alívio é também
referenciado no estudo de Petrucelli e colaboradores (1998); este alívio parece
decorrer da possibilidade de identificação de um problema para o qual
anteriormente já existiam suspeitas, e/ou da inexistência de outras
malformações que impliquem consequências mais graves para o bebé. Estas
reacções são semelhantes às que caracterizam a resposta de luto após uma perda,
o que vai ao encontro da conceptualização do diagnóstico de anomalia congénita
do bebé como um dos tipos de perda que podem ocorrer no período perinatal
(Rolim & Canavarro, 2001).
Após as reacções iniciais, os sentimentos mais comummente experienciados pelos
pais, durante o período final da gravidez, parecem oscilar numa ambivalência
entre esperança e medo, sofrimento e confiança, optimismo e pessimismo;
contudo, uma minoria de pais relata uma experiência subsequente da gravidez
traumatizante e debilitante, marcada por irritabilidade e isolamento (Chaplin
et al., 2005). Jones, Statham e Solomou (2005) identificaram três dimensões
predominantes da vivência materna da gravidez, após a notícia do diagnóstico:
ambivalência, expressa em dúvidas sobre a decisão de continuar a gravidez e em
sentimentos de protecção e rejeição do bebé; incertezaassociada ao prognóstico
do bebé; e perda, quer de um bebé saudável, quer do seu papel central na
gravidez. Relativamente a este último aspecto, os autores esclarecem que, por
exemplo, as recomendações médicas de repouso que impossibilitam as mães de
participar activamente nos preparativos para a chegada do bebé, ou a
perspectiva de que os primeiros cuidados ao bebé poderão ser prestados numa
unidade de cuidados neo-natais, podem contribuir para que as mulheres
percepcionem que o seu papel face ao bebé é diminuído.
Na literatura empírica, dois estudos merecem destaque por apresentarem duas
propostas de compreensão da adaptação materna a um diagnóstico de anomalia
congénita no bebé no período pré-natal.
O primeiro, conduzido por Lalor, Begley e Galavan (2009), foi inovador pela sua
natureza prospectiva, contemplando três momentos de avaliação (pós-
diagnóstico, previa e posteriormente ao nascimento). Os resultados obtidos
descrevem um processo de adaptação materna ao diagnóstico pré-natal de anomalia
congénita do bebé numa sequência de quatro estádios/etapas, não sendo
desprezada a sua natureza cíclica.
De acordo com os autores, a notícia do diagnóstico abala as expectativas
maternas de que tudo está bem com o bebé (estádio inicial), originando
reacções de choque, medo, pânico, sofrimento e tentativa de fuga da realidade
(segundo estádio); algumas mulheres chegam a experienciar curtos períodos de
descrença ou de expectativa de que tenha existido um erro no diagnóstico
efectuado. O terceiro estádio ' procura de significado para o diagnóstico de
anomalia congénita no bebé ', no qual as mães são confrontadas com a
necessidade de adaptação à notícia, caracteriza-se pela ambivalência entre a
procura e o evitamento de informação sobre o diagnóstico; pela procura dos
determinantes causais da anomalia diagnosticada; e pela necessidade de
confrontar e reenquadrar, a um nível mais próximo, expectativas e projectos
para a gravidez e, a um nível mais amplo, crenças prévias sobre o mundo (e.g.
Mulheres saudáveis têm bebés saudáveis). O processo de construção de
significado é idiossincrático, segundo os autores, e o seu timingdependerá de
factores diversos como o prognóstico da anomalia. Finalmente, o último estádio
caracteriza-se por um movimento para a construção de um novo significado sobre
a anomalia fetal e a assunção de uma visão positiva do futuro ' estádio de
reconstrução (Lalor et al., 2009).
Também Aite e colaboradores (2006) procuraram esboçar um modelo de resposta
emocional materna ao diagnóstico pré-natal de anomalia fetal. Os resultados do
estudo sugerem a existência de reacções iniciais de choque e de subsequente
descrença e negação do acontecimento. Seguem-se, durante a gravidez,
sentimentos de culpa e tristeza e, menos frequentemente, raiva, medo e
preocupação com a possibilidade de perder o bebé ou com o risco de outras
anomalias. A predominância do medo ao longo da gravidez parece ter subjacente a
ameaça que o diagnóstico se constituiu para o sentido de controlo, competência
e estabilidade materna. Os resultados evidenciam também que a maioria das mães
atinge, ainda durante a gravidez, um estádio de adaptação, caracterizado pela
flutuação entre a diminuição do sofrimento emocional e restituição do
sentimento de controlo da situação, por um lado, e fortes emoções de medo e
incerteza, por outro.
Os dois estudos reportam uma sequência de respostas semelhante à notícia do
diagnóstico de anomalia congénita, sendo possível estabelecer paralelismos
entre alguns estádios (estádio de reconstrução vs. adaptação). Apesar dos
benefícios da identificação deste processo sequencial, atenção deve ser dada
àquilo que os próprios autores salientam (Lalor et al., 2009) ' a sua natureza
cíclica.
As investigações descritas assumem uma natureza predominantemente exploratória
e apresentam várias limitações metodológicas: reduzido tamanho das amostras;
foco quase exclusivo na vivência materna, deixando por explorar a experiência
paterna de adaptação a um diagnóstico de anomalia fetal; e metodologia de
avaliação retrospectiva. Apesar disso, os contributos apresentados dão conta
de informação relevante para os profissionais de saúde ' o confronto com o
diagnóstico pautado por emoções mais disruptivas, a que se segue,
habitualmente, um período de progressiva adaptação ', da qual podem decorrer
implicações importantes, que assumem para nós particular interesse no presente
artigo e que serão objecto de reflexão noutro ponto deste trabalho.
Reacções parentais ao diagnóstico de anomalia congénita no bebé no período pós-
natal
Algumas anomalias congénitas são apenas detectadas no momento do nascimento,
colocando de forma súbita aos pais um duplo desafio. Por um lado, a perda do
bebé esperado ' perfeito e saudável ' e, por outro, o nascimento de um bebé com
características e exigências distintas, que pode ser percepcionado como
ameaçador (e.g. Messias, Gillis, Sparacino, Tong, & Foote, 1995). Diversas
investigações têm sido realizadas, com o objectivo de caracterizar a reacção
parental ao diagnóstico de anomalia congénita no bebé, quando este é conhecido
no período pós-natal.
De entre elas, destacamos uma investigação pioneira (Drotar, Baskiewicz, Irvin,
Kennell, & Klaus, 1975), de natureza qualitativa, que integrou 25
participantes, pais de crianças com diferentes tipos de anomalias congénitas.
Apesar da discrepância observada no momento de recolha dos dados (desde poucos
dias a treze anos após o nascimento do bebé), os resultados sugerem a
ocorrência sequencial de um conjunto de reacções parentais após o diagnóstico.
As reacções iniciais de choque (disrupção emocional, choro intenso e desespero)
dão progressivamente lugar a um período de negação, pautado pelo desejo de
libertação da inevitabilidade do diagnóstico ou de negação do seu impacto. Os
resultados apontam ainda para a existência posterior de sentimentos intensos de
ansiedade, tristeza e raiva. A progressiva diminuição da reactividade
emocional negativa experienciada, bem como a crescente percepção de conforto
face à situação e de capacidade de cuidar do bebé caracterizam um período
subsequente na trajectória parental, descrito pelos autores como de adaptação e
subsequente reorganização (Drotar et al., 1975). Pela natureza transversal do
estudo, a co-ocorrência de diferentes fases e a sua duração não foram
directamente avaliadas.
Experiências parentais semelhantes foram documentadas noutros estudos sobre
malformações congénitas em geral (Carvalho, Cardoso, Oliveira, & Lúcio,
2006; Petean & Neto, 1998) e sobre malformações específicas, nomeadamente
o lábio leporino e fenda palatina (Johansson & Ringsberg, 2004) ou
Síndrome de Down (Skotko, 2005). Os resultados da investigação de Johansson e
Ringsberg (2004) destacam, de modo particular, a ambivalência dos sentimentos
experienciados após o diagnóstico ' numa sequência que pode não ser tanto
linear, mas cíclica, à semelhança do referido a propósito da adaptação
parental ao diagnóstico de anomalia congénita no período pré-natal (Lalor et
al., 2009).
Tal como salientado no ponto anterior, também as reacções parentais ao
diagnóstico pós-natal de anomalia congénita no bebé se assemelham às reacções
características da resposta de luto por uma perda significativa. Por não
corresponder a uma perda visível, esta pode não ser reconhecida pelos
Profissionais de Saúde e pela sociedade em geral, podendo consequentemente
representar uma exigência acrescida para estes pais, que se sentem isolados na
sua vivência (Rolim & Canavarro, 2001).
Numa outra investigação (Pelchat et al., 1999), foram avaliados os níveis de
stresse sofrimento emocional experienciados pelos pais, seis meses após o
nascimento do bebé. Os autores contrastaram os resultados dos pais de crianças
saudáveis e pais de crianças com diferentes tipos de anomalias congénitas
(anomalia cardíaca congénita, síndrome de Down e fenda palatina e lábio
leporino corrigido cirurgicamente após o nascimento). Os resultados sugerem o
impacto significativo, na adaptação parental, de um diagnóstico de anomalia
congénita no bebé, sendo esse impacto diferencial em função do tipo de anomalia
considerada. Os pais de crianças com síndrome de Down ou anomalia cardíaca
congénita apresentam, comparativamente com os pais de crianças saudáveis ou
com fenda palatina e lábio leporino, níveis significativamente superiores de
stressem relação à aceitação do bebé, sentem-se significativamente mais
ameaçados pela situação parental, percebendo-a como mais incontrolável,
stressantee causadora de maior sofrimento emocional. Neste contexto, parecem
ser as anomalias congénitas que acarretam risco de problemas de
desenvolvimento e/ou sobrevivência para o bebé, aquelas que apresentam maior
impacto na adaptação parental, seis meses após o nascimento do bebé (Pelchat
et al., 1999).
Um outro contributo para o estado da arte na área em apreço é oferecido por um
estudo recente (Grob, 2008), de cariz retrospectivo e qualitativo, que elucidou
acerca do impacto diferencial do diagnóstico de anomalia congénita no bebé, em
função da (in)existência de manifestações sintomáticas da anomalia. Partindo de
uma amostra de pais de bebés diagnosticados com fibrose quística após o
nascimento, o autor salienta que, para os pais cujo bebé apresenta
manifestações sintomáticas da anomalia, as reacções de tristeza e de medo co-
ocorrem com uma sensação de alívio, evidenciando a percepção parental de que a
identificação da anomalia pode possibilitar a realização de tratamentos
conducentes à melhoria do estado de saúde do bebé. Por outro lado, as reacções
dos pais cujo diagnóstico ocorre na ausência de quaisquer sintomas são
descritas como mais devastadoras e inesperadas; estes pais lidam com a
exigência acrescida do confronto com a contradição entre um diagnóstico que
resulta de um teste efectuado e a realidade de uma criança aparentemente
saudável.
Em síntese, os resultados apresentados neste ponto apontam também para a
natureza processual da adaptação parental ao diagnóstico, bem como para a
influência de alguns factores (e.g., tipo de anomalia e suas manifestações) na
diversidade das reacções experienciadas, depreendendo-se desde logo a
necessidade de uma prestação de cuidados diferenciada, em função desses
factores. Tal como as investigações do ponto anterior, estas investigações
padecem do mesmo tipo de limitações metodológicas; esse facto não retira a
importância do seu contributo para o estado da arte na área em apreço e para o
desenvolvimento de orientações para a prestação de cuidados neste contexto
específico, como discutiremos no último ponto deste trabalho.
Reacções parentais ao diagnóstico de anomalia congénita no bebé: o momento
importa?
A análise destes estudos sugere a existência de algumas comunalidades nas
reacções parentais ao diagnóstico de anomalia congénita no bebé,
independentemente de este ter sido conhecido no período pré-natal ou após o
nascimento. No entanto, alguns autores têm procurado averiguar se o momento em
que o diagnóstico é conhecido tem um impacto diferencial nas reacções parentais
experienciadas. Os resultados dos estudos existentes não oferecem uma resposta
inequívoca a esta questão.
No estudo de Skari e colaboradores (2006), por exemplo, verificou-se que, logo
após o nascimento do bebé, o grupo de pais cujo diagnóstico foi conhecido no
período pré-natal apresenta, comparativamente ao grupo de pais que conheceu o
diagnóstico no período pós-natal, níveis superiores de ansiedade e depressão e
maior hiperactivação emocional. Estes resultados são semelhantes às seis
semanas e aos seis meses após o nascimento do bebé, embora o momento do
diagnóstico possua um papel preditor apenas das reacções emocionais dos pais
poucos dias após o nascimento. Numa outra investigação que procurou avaliar a
influência do momento do diagnóstico nos níveis maternos de sintomatologia
ansiosa e depressiva, seis a dez meses após o diagnóstico de anomalia
congénita, os resultados apontam num sentido contrário: uma percentagem
significativamente superior de participantes do grupo que conheceu o
diagnóstico no período pós-natal apresenta pontuações indicadoras de depressão
clínica; os níveis de ansiedade não se distinguem em função do momento do
diagnóstico (Rona, Smeeton, Beech, Barnett, & Sharland, 1998). No entanto,
esta diferença pode justificar-se pelo facto de este estudo ter uma amostra de
participantes exclusivamente do sexo feminino, para além de tomar como
referência o tempo decorrido desde o diagnóstico, e não o tempo decorrido desde
o nascimento do bebé, como no estudo anterior, implicando necessariamente o
facto de, aquando da avaliação, estar também em causa a comparação de
exigências diferentes de prestação de cuidados, pelas diferenças etárias dos
bebés.
De acordo com Nusbaum e colaboradores (2008), o momento em que o diagnóstico
ocorre influencia a percepção parental do grau de controlo e de preparação para
lidar com os acontecimentos circundantes ao diagnóstico do bebé. O
conhecimento pré-natal do diagnóstico associa-se a uma percepção parental de
mais tempo para se preparar e ajustar ao diagnóstico antes do nascimento do
bebé, bem como a uma percepção de controlo acrescido dos acontecimentos. Por
outro lado, os pais cujo diagnóstico apenas foi conhecido no momento do
nascimento percepcionam-se como menos preparados e com menor controlo dos
acontecimentos. Salientam, no entanto, que as exigências de prestação de
cuidados ao bebé com anomalia congénita impõem a necessidade de lidar e de se
ajustarem rapidamente à situação.
Os resultados das investigações existentes sugerem também que o momento em que
o diagnóstico de anomalia congénita no bebé é conhecido, tem um impacto
distinto em função do género dos pais. Por exemplo, os resultados da
investigação de Hoehn e colaboradores (2004) evidenciam que enquanto as mães
apresentam níveis similares de stressparental, independentemente do timingde
conhecimento do diagnóstico, os pais cujo diagnóstico do bebé ocorreu no
período pré-natal apresentam, comparativamente aos outros, níveis superiores de
optimismo e níveis inferiores de ansiedade, bem como percepção de menos
acontecimentos de vida negativos. As discrepâncias nos níveis de
stressparental paterno parecem, de acordo com os autores, ter subjacente uma
diferença na percepção de controlo da situação. Enquanto os pais que conheceram
o diagnóstico no período pré-natal salientaram a oportunidade de planear a
forma de lidar com as principais preocupações associadas ao período pós-parto
(e.g., aspectos profissionais ou financeiros, lidar com outros filhos), isso
não se verificou com os pais que conheceram o diagnóstico no período pós-natal,
a quem acresceu ainda a preocupação com mãe do bebé, muitas vezes ainda
internada e a recuperar do parto (Hoehn et al., 2004).
Já uma outra investigação que procurou avaliar, em média seis meses após o
parto, as reacções de luto e a percepção de sobrecarga (burden) de pais que
receberam um diagnóstico de anomalia congénita no bebé, encontrou também um
padrão distinto, em função do género, da influência do momento em que o
diagnóstico foi conhecido. Por um lado, as mães que conheceram o diagnóstico no
período pré-natal apresentam respostas de luto mais intensas e maior percepção
de sobrecarga, quando comparadas com as mães que conhecem o diagnóstico após o
nascimento. Por outro lado, os pais que conheceram o diagnóstico de anomalia no
período pré-natal diferenciam-se dos pais cujo diagnóstico foi conhecido no
período pós-natal, apenas pela maior percepção de sobrecarga a nível financeiro
(Hunfeld, Tempels, Passchier, Hazebroek, & Tibboel, 1999).
Saliente-se que, apesar da operacionalização das variáveis ser distinta nos
dois estudos que apontam estas diferenças (Hoehn et al., 2004; Hunfeld et al.,
1999), conhecer o diagnóstico no período pré-natal parece ter um efeito mais
positivo logo após o nascimento, para os pais, e um efeito mais negativo, cerca
de seis meses após o nascimento, para as mães.
Uma possível hipótese explicativa para este facto prende-se com o papel
distinto que cabe às figuras materna e paterna, enquanto prestadores de
cuidados. De forma geral, face aos constrangimentos físicos da mãe, no período
imediatamente subsequente ao parto, o pai é frequentemente o principal
receptor da informação clínica e o principal decisor sobre aspectos
relacionados com o diagnóstico do bebé; o responsável pela gestão de outros
aspectos familiares (e.g., outros filhos, questões económicas); bem como o
principal cuidador da mãe, que se encontra ainda debilitada. Nesse sentido, o
conhecimento prévio do diagnóstico permitirá ao pai, uma maior antecipação dos
acontecimentos e a consequentemente percepção do seu controlo, como salientam
Hoehn e colaboradores (2004). Por outro lado, após a recuperação física do
parto, as mães parecem assumir o papel de principais cuidadoras do bebé com
diagnóstico de anomalia congénita. Para aquelas cujo conhecimento do
diagnóstico ocorreu no período pré-natal, o choque da notícia, a incerteza e a
maior medicalização da gravidez podem significar uma vivência mais disruptiva
do período subsequente da gravidez (Chaplin et al., 2005; Jones et al., 2005),
constituindo-se como um factor de desgaste emocional acrescido, que pode ter
repercussões aquando da prestação de cuidados ao bebé, após o seu nascimento.
Apesar de a investigação sobre este tópico apresentar pistas importantes, não é
conclusiva, sendo necessária a realização de estudos adicionais, quer para o
esclarecimento dos resultados encontrados, quer para a validação e produção de
hipóteses explicativas sobre os mecanismos e/ou processos que podem estar
subjacentes ao impacto diferencial do momento do diagnóstico e às suas
especificidades em função do género. O esclarecimento deste tópico pode também
beneficiar da consideração conjunta de outras variáveis (e.g., tipo de
anomalia, forma como é veiculada a informação sobre o diagnóstico).
Implicações para a prestação de cuidados aos pais que se confrontam com o
diagnóstico de anomalia congénita do bebé no período perinatal
Ao longo deste artigo, procurámos reflectir criticamente sobre a literatura
empírica existente no domínio das reacções parentais ao diagnóstico de
anomalia congénita do bebé, quando este é conhecido durante a gravidez ou no
período pós-natal. Não obstante a importância dos estudos revistos, algumas
limitações podem ser apontadas à sua generalidade: i) a natureza
predominantemente retrospectiva, com uma larga amplitude no que respeita ao
momento de avaliação (desde poucos dias ou meses a vários anos após o
diagnóstico); ii) a natureza predominantemente transversal, que dificulta a
captação de trajectórias e de processos; e iii) a reduzida dimensão de algumas
amostras, e a consideração exclusiva, em muitos estudos, da experiência
materna, deixando de lado a vivência paterna. A investigação nesta área,
procurando ultrapassar as limitações encontradas e procurando responder a
outras questões de investigação entretanto formuladas, continua a ser
relevante, em termos futuros.
O reconhecimento da diversidade das reacções parentais ao diagnóstico de
anomalia congénita do bebé descrito ao longo desta revisão emerge, por um
lado, do abandono de perspectivas deterministas do fenómeno em estudo (que
assumiam uma reacção linear entre a notícia do diagnóstico e a perturbação do
funcionamento parental; Ferguson, 2002) e, por outro lado, da realização de
investigações que, progressivamente, avaliaram não só as reacções parentais
negativas, mas aquelas que denotam a adaptação e a restituição do equilíbrio
emocional.
A generalidade das investigações sugere que, perante o confronto com o
diagnóstico, e de forma mais ou menos independente do momento em que este é
conhecido, um acontecimento conotado positivamente ' o nascimento de um bebé '
passa a ter uma tonalidade emocional predominantemente negativa (reacções de
choque e disrupção emocional, a que acrescem sentimentos comuns de ansiedade,
tristeza, raiva ou culpa). Para os pais, o diagnóstico constitui uma perda do
bebé perfeito e saudável, dos projectos e expectativas, mas também do seu
papel parental, cuja vivência extravasa a intimidade familiar e passa a ser
amplamente partilhada pelos profissionais e contextos de Saúde (Seligman &
Darling, 2007).
Por outro lado, os estudos realçam também a ambivalência de sentimentos
experienciados pelos pais (numa oscilação entre uma carga emocional negativa e
algum optimismo, esperança ou mesmo alívio pela confirmação de um diagnóstico
até aí incerto), num movimento que evidencia a natureza processual da
adaptação parental ao diagnóstico, e que é geralmente conducente à restituição
do equilíbrio emocional ' aquilo que alguns autores designam de adaptação ou
reconstrução (Aite et al., 2006; Drotar et al., 1975; Lalor et al., 2009).
A revisão efectuada oferece-nos agora uma oportunidade para reflectir acerca
das implicações para a prestação de cuidados aos pais, por parte dos
profissionais de saúde e de saúde mental, em situações de anomalia congénita do
bebé. Começaremos, neste contexto, por reflectir acerca de algumas implicações
gerais e, posteriormente, implicações específicas, em função do momento em que
ocorreu o diagnóstico.
Em primeiro lugar, parece patente a necessidade de uma prestação de cuidados
coordenada entre os diferentes profissionais de saúde, num ambiente que
possibilite o estabelecimento de relações com os cuidadores, e onde o impacto
emocional de um diagnóstico de anomalia congénita do bebé seja amplamente
reconhecido (Hodapp & Ly, 2005). Idealmente, a prestação de cuidados
deverá ser feita no contexto de uma equipa multidisciplinar especializada, no
qual todos os profissionais de saúde estejam despertos para as reacções
parentais mais frequentes perante o diagnóstico, mas também para a sua
diversidade. No contexto da experiência clínica acumulada na UnIP ' Unidade de
Intervenção Psicológica da Maternidade Dr. Daniel de Matos (Hospitais da
Universidade de Coimbra, EPE), temos comprovado a relevância desta acção
coordenada entre os diversos profissionais envolvidos na prestação de cuidados
a estas famílias, bem como procurado contribuir para a sensibilização destes
profissionais, no que respeita às manifestações emocionais e comportamentais
associadas à notícia do diagnóstico, e de como actuar em adequação às mesmas.
Em segundo lugar, o reconhecimento de que, independentemente do momento em que
o diagnóstico ocorre, as reacções iniciais são de choque e de uma tonalidade
emocional marcadamente negativa (Aite et al., 2006; Drotar et al., 1975;
Mitchell, 2004) e que, consequentemente, tornam difícil o processamento e a
assimilação de toda a informação clínica relativa ao diagnóstico. Nesse
contexto, na comunicação do diagnóstico, os profissionais de saúde devem
procurar, de acordo com as orientações de Spall e Callis (1997) e Marshak,
Seligman e Prezant (1999): 1) preparar os pais para informação que vão
receber; 2) dar, de forma honesta mas empática, a informação chave sobre o
diagnóstico ' informação adicional poderá ser dada gradualmente; 3) dar a
possibilidade, aos pais, de expressarem as suas opiniões e emoções sem receio
de rejeição, numa postura de aceitação e não interferência; 4) procurar obter
feedbackdo que foi compreendido pelos pais acerca do diagnóstico, repetindo a
informação quando necessário; e 5) mostrar disponibilidade para responder a
todas as questões colocadas pelos pais, numa postura de aceitação e
compreensão das suas dúvidas. A forte necessidade de questionamento sentida
pelos pais, pode também advir de alguma expectativa de que o diagnóstico seja
um erro ou da procura de explicações para o sucedido (Lalor et al., 2009), das
incertezas sobre o diagnóstico (Jones et al., 2005), ou ainda, quando o
diagnóstico ocorre após o nascimento, da inexistência de manifestações
sintomáticas da anomalia (Grob, 2008). Cabe aos profissionais de saúde aceitar
e normalizar esta necessidade por parte dos pais, respondendo às suas questões
e mostrando disponibilidade para esclarecimentos adicionais, no futuro.
Segundo Statham, Solomou e Chitty (2000) a comunicação acerca do diagnóstico
entre os profissionais de saúde que prestam cuidados à família assume também
particular relevância, assim como pode ser útil fornecer à família informação
escrita sobre o diagnóstico, seu prognóstico e tratamentos.
Em terceiro lugar, como já referido, o diagnóstico de anomalia congénita no
bebé representa, para os pais, não apenas uma perda do bebé saudável (Rolim
& Canavarro, 2001), mas uma perda do seu papel parental (Jones et al.,
2005). Para além do reconhecimento desta perda não visível, e não obstante o
maior foco colocado na saúde do bebé e na antecipação e planificação dos
tratamentos necessários (Statham et al., 2000), os profissionais de saúde
devem procurar que os pais não sintam o seu papel parental diminuído (e.g., se
for necessário o internamento do bebé, as melhores condições devem ser
proporcionadas para favorecer o envolvimento dos pais na prestação de
cuidados), para além de ajudar os pais a encontrar um equilíbrio saudável entre
as preocupações com a saúde do bebé os outros aspectos do quotidiano que
necessitam de ser geridos (Marshak et al., 1999). Este equilíbrio
proporcionará aos pais a restituição de uma percepção de controlo (ainda que
sob aspectos secundários ao diagnóstico), que foi ameaçada pela notícia do
diagnóstico (Aite et al., 2006). Não obstante o papel de relevo de todos os
profissionais de saúde, os técnicos de saúde mental são determinantes na
restituição parental deste controlo secundário. Aliás, no que concerne aos
procedimentos de actuação da UnIP, este é um domínio essencial de actuação,
quer no que respeita a uma intervenção mais directa com os pais, quer no que
respeita à sensibilização e articulação entre os diferentes profissionais para
uma adequação do contexto envolvente.
Quando o diagnóstico é conhecido durante a gravidez, a existência de um
acompanhamento obstétrico numa consulta específica, com uma equipa
especializada, revelar-se-á benéfica, não só pelo maior domínio e
conhecimento de aspectos médicos da gravidez e do desenvolvimento do bebé, como
também por se tornar um contexto seguro para os pais, proporcionando-lhes um
ambiente de compreensão e empatia para com as suas reacções e emoções.
Adicionalmente, o diagnóstico durante a gravidez acarreta, frequentemente, um
maior grau de incerteza (Jones et al., 2005) acerca do prognóstico e dos
tratamentos necessários para o bebé. Mesmo que para a equipa médica a situação
clínica esteja bem identificada, os pais poderão necessitar de uma maior
monitorização da situação clínica do bebé (Aite et al., 2006) e de mais
esclarecimentos para conseguirem lidar adaptativamente com a situação.
Quando o diagnóstico ocorre no momento do nascimento, os pais vêem-se
confrontados com a necessidade de dar resposta imediata às exigências da
situação clínica do bebé (e.g., tomada de decisão sobre tratamentos), sem que
tenham tido oportunidade de integrar e processar toda a informação sobre o
diagnóstico. Neste contexto, deverão ser proporcionadas aos pais, ainda durante
o internamento, todas as condições institucionais (de tempo e de contexto) para
facilitar a integração da informação, o favorecimento da expressão emocional,
os processos de tomada de decisão, bem como a gradual restituição do controlo
pessoal sobre os acontecimentos. Adicionalmente, os profissionais de saúde
deverão estar sensibilizados para o facto de os pais poderem necessitar de um
tempo particular para iniciar o envolvimento e a prestação de cuidados ao bebé
(sobretudo, por exemplo, quando se trata de uma malformação visível, ou quando
existem exigências particulares na forma como os cuidados são prestados). Mesmo
não sendo objecto de uma revisão aprofundada neste trabalho, os estudos sugerem
reacções parentais diferenciadas em função do tipo de anomalia ou das suas
manifestações (Grob, 2008; Pelchat et al., 1999), levantando a possibilidade de
estas especificidades serem consideradas na prestação de cuidados aos pais que
recebem o diagnóstico pós-natal de anomalia congénita do bebé.
Finalmente, os aspectos salientados pela literatura empírica remetem para a
pertinência de intervenções psicossociais conduzidas por técnicos
especializados, na promoção da adaptação parental ao diagnóstico do bebé. Desde
há vários anos, a UnIP tem prestado acompanhamento psicológico estruturado, em
regime de consulta externa e/ou internamento, às famílias que recebem um
diagnóstico de anomalia congénita do bebé, durante a gravidez ou após o
nascimento. Actualmente, de acordo com os procedimentos da UnIP, estas
situações são, por rotina, objecto de avaliação inicial pelos profissionais de
saúde mental. Partindo da avaliação das manifestações emocionais e
comportamentais dos pais face ao diagnóstico, e da identificação de possíveis
factores de risco e/ou protecção para o desenvolvimento de situações de risco
psico-emocional decidir-se-á, em conformidade com os pais, o grau de
estruturação do acompanhamento psicológico prestado.
No âmbito desta intervenção, são três os objectivos centrais: 1) favorecimento
da expressão emocional, validação emocional e integração da notícia do
diagnóstico; 2) desenvolvimento de estratégias de coping, processos de tomada
de decisão e resolução de problemas que ajudem os pais a lidar com aspectos
associados ao diagnóstico mas também com as restantes áreas de vida; e 3)
proporcionar o confronto com expectativas pré-existentes, adequando-as e
integrando-as em novos significados acerca do diagnóstico e da relação com o
bebé.
No que respeita ao primeiro objectivo, é no contexto de uma intervenção
psicossocial que pode ser oferecida, aos pais, a oportunidade para expressar e
partilhar sentimentos e percepções acerca do diagnóstico, aspectos importantes
para favorecer a validação emocional e a integração do diagnóstico nas suas
representações da criança e de si enquanto pais (Lalor et al., 2009). Os
estudos aqui revistos antecipam que as percepções e significações parentais
(e.g., percepção de controlo sobre os acontecimentos; diagnóstico como ameaça
ao sentido de controlo e competência parental) assumem um papel relevante nos
sentimentos experienciados pelos pais, face ao diagnóstico; a psico-educação
acerca da diversidade de reacções parentais e da relação entre cognições,
emoções e comportamentos pode beneficiar os pais, restituindo-lhes alguma
compreensão sobre o que estão a experienciar.
Outro dos objectivos centrais da intervenção neste contexto consiste no
desenvolvimento de estratégias que facilitem o copingcom as reacções
emocionais e com a incerteza (Aite et al., 2006; Jones et al., 2005) associada
ao prognóstico e tratamentos do bebé (por exemplo, manutenção de um diário,
estruturação de rotinas diárias, estratégias de gestão de ansiedade), bem como
na facilitação de processos de tomada de decisão e de resolução de problemas,
quer relativos ao diagnóstico do bebé, quer relativos a outros aspectos da vida
familiar (e.g., económicos, profissionais, relacionados com outros familiares)
(Marshak et al., 1999).
Adicionalmente, e no que diz respeito ao terceiro objectivo, uma intervenção
psicossocial adequada poderá proporcionar o confronto com projectos e
expectativas prévias e o seu reajuste, assim como com a possibilidade de
construção de novos significados para o diagnóstico. Além disso, pode
constituir uma oportunidade para gerir possíveis diferenças individuais de
copingcom o diagnóstico (Hoehn et al., 2004; Hunfeld et al., 1999), entre os
membros do casal, bem como, como referimos anteriormente, para permitir a
identificação de situações de risco psico-emocional, que necessitem de uma
intervenção mais específica e individualizada.