Sintomatologia de Couvade e o envolvimento paterno vivenciado durante a
gravidez
Tradicionalmente foi considerado, que os efeitos físicos e psicológicos da
gravidez seriam sentidos apenas pelas mulheres, repercutindo-se o seu
interesse em estudos que recaíram nos sintomas da grávida, relacionando a sua
sintomatologia com alterações fisiológicas e ambivalência face à gravidez
(Brennan, Ayers, Ahmed, & Marschall; Lucette, 2007a; Gomez, 2000).
Nas últimas décadas, os pais foram incluídos na investigação, sendo
demonstrada uma vinculação mútua pai-bebé durante a gravidez, sendo este um
conceito com potencial interesse na pesquisa relativa à área da paternidade-
expectante. Neste domínio, a vivência masculina dos chamados sintomas
simpáticos da gravidez, foi batizada por Síndroma de Couvade (Brennan et al.,
2007a; Cox, Owen, Henderson, & Margand, 1992; Klaus & Kennel, 1993;
Lamb, 1992; Phares, 1992; Trethowan & Conlon, 1965).
O Síndroma de Couvade trata-se de um fenómeno global que acontece em todos os
países industrializados no mundo inteiro, embora não se encontre categorizado
no Diagnostic Statistical Manual of Mental Disorders: DSM ' versão 4 (American
Psychiatric Association, 2000), ou na Internacional Classification of Diseases
(World Health Organization, 1993). O que sugere que nos encontramos perante uma
manifestação natural associada ao período gravítico (Brennan et al., 2007a),
com repercussão sintomatologica a nível físico e psicológico e sem causa
patológica (Klein, 1991; Mason & Elwood, 1995).
Trethowan e Conlon (1965), definiram o Couvade, como um estado de
sintomatologia psicológica, com origem psicogénica, que ocorre em companheiros
de mulheres grávidas. Os sintomas são cronologicamente relacionados com a
gravidez e o seu término, no momento do parto ou num curto período pós-parto,
o que sugere que a causa do síndroma seja subjacente à gravidez (Brennan et
al., 2007a).
Para Brennan et al. (2007a), Clinton (1987), Khanobdee, Sukratanachaiyakul, e
Templeton (1993) e Klein (1991), o Síndroma de Couvade afecta os pais '
expectantes durante o primeiro e terceiro trimestres da gravidez com
diminuição gradual dos sintomas no pós-parto. Contudo, muitos estudos não
confirmam esta evolução (Bogren, 1983; Clinton, 1986; Fawcett & York, 1986;
Gomez, Leal, & Figueiredo, 2002), podendo os sintomas surgir em qualquer
altura até ao nascimento (Williams, 1997).
A incidência internacional da síndrome de Couvade é muito variável e encontra-
se descrita em vários estudos que fazem referência à epidemiologia.
Assumindo como critério a presença de pelo menos cinco sintomas somáticos,
Trethowan e Conlon, reportaram uma incidência de 14% no Reino Unido, mas de
acordo com estimativas recentes varia entre 11% e 50% (Dickens & Trethowan,
1971; Trethowan & Conlon, 1965). A incidência global varia entre 11 ' 97%,
sendo a mesma significativamente proporcional a todas as gravidezes (Brennan et
al., 2007a).
Em termos de distribuição geográfica, Khanobdee et al. (1993), referem que o
Síndroma de Couvade, ocorre nas sociedades onde os rituais de Couvade não são
praticados, contudo estes autores concluíram que não é específico dos países
ocidentais.
A maioria dos estudos relativos ao Couvade, são contraditórios no que diz
respeito à sua relação com os factores sócio-demográficos. Tal trata-se
particularmente evidente, ao examinar a sua relação com a idade, educação e
classe social (Brennan et al., 2007a).
Brown (1983), confirmou uma elevada ocorrência do Síndroma de Couvade em homens
com menos de 30 anos, enquanto Bogren (1989), constatou que o Couvade era mais
comum, em homens com mais de 30 anos, pertencentes a uma classe social mais
elevada e com mais habilitações académicas. O estudo de Srickland (1987),
apresentou resultados contraditórios, ao comparar a classe média, com os homens
pertencentes à classe operária, sendo que os últimos apresentavam um elevado
número de sintomas físicos e psicológicos.
De acordo com os estudos de, Lipkin e Lamb (1982), Munroe (1971, 1980), Munroe,
Munroe, e Nerlove (1973) e Trethowan (1972), a maior prevalência do Síndroma
de Couvade encontra ' se nos homens com menos habilitações literárias,
contrariando os resultados de Bogren (1989). Clinton (1986), contraria todos
os estudos referidos anteriormente, que associam a idade e nível educacional
com a ocorrência do Síndroma de Couvade. Estas diferenças entre factores sócio
demográficos são difíceis de explicar, mas factores, como o tamanho da
amostra, diferentes metodologias de investigação, variabilidade étnica e
diferentes momentos de aplicação da investigação durante a fase da gravidez,
podem explicar as diferenças atrás descritas (Brennan et al., 2007a).
Um estudo realizado em Itália revela que a relação com os filhos é, não só
aceite mas também em parte reivindicada, pelos pais mais jovens que habitam em
meio urbano e têm um alto nível de instrução. Deste modo, a expressão da
afectividade e o envolvimento em algumas actividades de cuidados relativamente
aos filhos, já não são vistos como inadequados, quando não ameaçadores para o
papel paterno ' masculino. É de salientar a importância de algumas
modificações quer na cultura dos especialistas, práticas de serviços, como
também algumas legislações nacionais que indicam, e ao mesmo tempo encorajam,
esta possível transformação (Saraceno & Naldini, 2003).
O síndroma não é exclusivo em homens com primeiros filhos, afectando
igualmente homens com filhos anteriores, sendo no entanto estes dados
igualmente inconsistentes (Brennan et al., 2007a).
Trethowan e Conlon (1965), não encontraram diferenças significativas entre
homens que esperavam o primeiro filho e homens que já tinham filhos. No entanto
Clinton (1986), Condon (1987), e Ferketich e Mercer (1989), demonstraram
estatisticamente uma correlação significativamente positiva entre a ocorrência
do síndroma e o número prévio de filhos.
Sizaret, Degiovanni, Gaillard, e Benichou (1991), no seu estudo considerou a
fase da gravidez como factor determinante na ocorrência do síndroma, ao
identificar uma relação entre a ocorrência do síndroma de Couvade e homens
primíparos, cujas esposas se encontravam no primeiro trimestre de gravidez, em
comparação com homens com filhos prévios.
Clinton (1986), encontrou uma correlação positiva entre o Síndroma de Couvade
e minorias étnicas, prematuridade, estado de saúde antes da gravidez,
envolvimento afectivo na gravidez, stress e preocupação, gravidez não
planeada, insegurança económica, baixa formação, religião e desarmonia do
casal.
A incidência do Síndroma com o planeamento da gravidez também foi investigada.
Clinton (1986,1987) e Strickland (1987), confirmaram uma maior incidência do
Síndroma nos homens que não planearam a gravidez ou não a desejavam.
May (1980), usou o método grounded theory para explorar as atitudes e
comportamentos de 20 pais ' expectantes, primíparos, durante a gravidez de
suas esposas. A investigadora concluiu, que o desejo da gravidez, era
determinante para a ocorrência do Síndroma. Bogren (1983,1984), contrariou os
resultados de May, ao concluir que o desejo da gravidez, não tinha qualquer
influência para o impacto ou susceptibilidade para o Síndroma.
Mason (1995), refere ainda que os factores de risco variam de acordo com os
pais e a cultura. O Síndrome de Couvade deve ser considerada como uma percepção
e interpretação de um processo fisiológico normal no homem que envolve as
responsabilidades paternais, no entanto o ritual Couvade nas sociedades não
industrializadas pode ser considerado como a ritualização do Síndrome de
Couvade (Mason, 1995).
Chalmers e Meyer (1996), reportaram sintomas semelhantes associados ao
Sindroma de Couvade. Cento e quinze pais ' expectantes caucasianos, de origem
Africana (média de idades = 28), foram seleccionados em duas maternidades de
Joanesburgo, sendo a gravidez planeada em 74% da amostra. Os sintomas físicos
de Couvade reportados incluíram, aumento de peso (17%), náuseas (13%), dores
nas costas (11%), e perda de peso (7%). Os sintomas psicológicos incluíram
alterações do sono (22%), ansiedade no último trimestre (20%), cansaço extremo
(13%), labilidade emocional (13%) e irritabilidade (7%). Estes resultados
apresentados foram semelhantes aos apresentados pelo estudo de Tsai e Chen`s
(1997). A amostra consistia num grupo de 150 homens casados, cujas esposas
estivessem no terceiro trimestre de gestação e uma segunda amostra de 150
homens casados, cujas esposas não estivessem grávidas. Para a recolha de dados
foi utilizada a versão traduzida de uma cheklist de 22 sintomas somáticos.
Sessenta e oito por cento da amostra apresentou um elevado número de sintomas
físicos e psicológicos, comparativamente ao grupo de controlo.
O único estudo realizado em Portugal relativo ao Síndrome de Couvade, por Gomez
(2000), em que foi estudado um grupo de pais ' expectantes e outro de homens
não ' expectantes, revelou que a sintomatologia não se associa à idade,
planeamento da gravidez ou estatuto da paternidade. Uma das causas
prováveis para o aparecimento do síndroma de Couvade é a sua associação com
sintomas psicológicos como a ansiedade relativa à gravidez e ao parto (Bogren,
1983; Clinton, 1987). Para outros investigadores, o Síndroma de Couvade pode
expressar o envolvimento subjectivo do pai, sendo nesta última que irá
reflectir a análise do nosso estudo (Clinton, 1986; Clinton, 1987; Condon,
1993; Cronenwett & Newmark, 1974; Drake, Verhulst, & Fawcett, 1988;
Elwood & Manson, 1994; Fekertich & Mercer, 1989; Gomez & Leal,
2007; Lemmer, 1987; Lorensen, Wilson, & White, 2004; Masoni, Trimarchi, De
Punzio, & Fioretti, 1994; May, 1980,1982; Piccinini, 2004, 1983;
RaphaelLeff, 1991; Weaver & Cranley).
O envolvimento paterno durante a gestação não se refere apenas ao
acompanhamento, mas a um envolvimento emocional. Assim entende-se o
envolvimento paterno através da sua participação em actividades relativas às
gestantes, aos preparativos para o nascimento, do apoio emocional proporcionado
à mãe, bem como das preocupações e ansiedades destes pais (May, 1982). O
grau de envolvimento depende de factores como a personalidade, expectativas do
papel sexual, da experiência prévia com serviços hospitalares ou o facto de a
gravidez ter sido planeada e desejada, podendo ser diferente ao longo da
gravidez (May & Perrin, 1985).
Os estudos relativos ao envolvimento pré-natal são raros, por na grande
maioria terem recaído no envolvimento paterno após o nascimento (Coley, 2001;
Deutsch, Servis, & Payne, 2001; Elkins, Megue, & Iacono, 1997;
Marsiglio, Amato, Day, & Lamb, 2000). Os dados disponíveis indicam que na
maioria dos casos o envolvimento paterno começa na gravidez (Beaton, Doherty,
& Ruerter, 2003; Klaus & Kennel, 1993). Os estudos já clássicos de May
(1980,1982), também revelaram a existência de envolvimento paterno durante o
período gravídico.
Weaver e Cranley (1983), encontraram através do seu estudo, uma modesta
correlação (r = 0,23,p ≤0,05) entre o envolvimento fetal antenatal e a
incidência de seis sintomas físicos de Couvade. Em oposição a estes dados,
Schodt (1989), não encontrou qualquer relação entre a sintomatologia de Couvade
e o envolvimento fetal antenatal.
Clinton (1987), concluiu que o envolvimento paterno era correlacionado, com o
número, duração e intensidade dos sintomas em pais ' expectantes,
comparativamente a homens não expectantes. Parte deste processo de
envolvimento está directamente relacionado com a ligação ao seu bebé durante a
gravidez, embora os resultados desta última linha de investigação sejam
contraditórios (Brennan et al., 2007a).
Lemmer (1987), identificou alguns efeitos da gravidez no futuro pai,
semelhantes aos das grávidas: no primeiro e segundo trimestres da gravidez
eram ambivalentes relativamente à gravidez; no terceiro trimestre, a gravidez
começa a tornar-se mais real e os pais tornam-se mais envolvidos e mais
preocupados com aspectos relativos à estabilidade financeira; relação conjugal
e sexualidade assim como adequação ao papel de pai.
Drake, Verhulst, e Fawcett (1988), concluíram através do seu estudo, que
homens com o Síndroma de Couvade são geralmente mais envolvidos durante a
gravidez e nascimento. Por sua vez e contrariando o autor anterior, Raphael-
Leff (1991), concluiu que a adopção de estilos de envolvimento extremos, como
um envolvimento muito activo e participativo ou um envolvimento quase nulo,
pode aumentar a susceptibilidade de os homens desenvolverem o Couvade. A
maioria dos estudos que relacionam o envolvimento paterno ao Couvade,
demonstram que quanto maior for o envolvimento e maior for a sua preparação
para a paternidade, maior vai ser a sintomatologia apresentada (Brennan et
al., 2007a).
Fekertich e Mercer (1989), encontrou uma relação entre a percepção precoce dos
movimentos fetais por parte dos pais e a sua própria percepção do estado de
saúde relativamente à sintomatologia de Couvade.
O modelo de Condon (1993), enfatiza as experiências subjectivas do adulto, o
que é particularmente necessário no contexto pré-natal, já que os
comportamentos em relação ao feto são limitados, em que os progenitores vão
adquirindo de forma crescente uma representação interna da imagem do feto,
associada ao envolvimento emocional. Para o mesmo autor, entre os indicadores
de presença e intensidade do envolvimento paterno, inclui-se o desejo de ter
conhecimento sobre o feto; o prazer na interacção com o feto e o desejo de o
proteger e ir de encontro às suas necessidades.
No estudo de Elwood e Manson (1994), foi identificada uma associação entre
alterações fisiológicas e o Couvade, sendo esta posição reforçada pelos estudos
que encontraram uma correlação positiva entre a ocorrência de sintomas no pai
expectante e o seu envolvimento na gravidez.
Os resultados de um estudo realizado a 230 casais na Noruega, por Lorensen,
Wilson, e White em 2004, revelam que o envolvimento paterno durante a gravidez,
era maior em primeiros filhos, em comparação com segundos filhos. Os
investigadores do referido estudo, apontam como possível causa para um maior
envolvimento, a excitação e a novidade do primeiro filho. Os pais que viviam em
união de facto também revelaram maior envolvimento fetal, do que os casados,
embora os casais em união de facto estivessem em maioria à espera do primeiro
filho, em comparação com os casados (Lorensen, Wilson, & White, 2004).
Piccinini (2004), no seu estudo acerca do envolvimento paterno durante a
gravidez, demonstra que a grande incidência de envolvimento emocional relatada
pelos pais é referente ao terceiro trimestre de gestação, pois é um período
marcado pela proximidade do nascimento do bebé. Como sugere May (1982), que
este é o período em que os pais estão mais conectados emocionalmente com a
gestante a fim de sentirem a gestação como algo presente nas suas vidas e
prepararem-se para a paternidade.
Num estudo recente, sobre vinculação parental durante a gravidez, realizado em
Portugal, por Gomez e Leal (2007), os resultados no terceiro trimestre, em pais
expectantes, sem filhos prévios, reportaram significativamente mais vinculação
do que os pais sem experiência parental.
Tendo por base a literatura existente pretendemos responder às seguintes
questões:
1. Na nossa amostra os pais ' expectantes apresentam o Síndroma de
Couvade?
2. O tipo e número de sintomas vivenciados por pais ' expectantes
diferem ao longo dos três trimestres da gravidez?
3. Em que medida a sintomatologia de Couvade se relaciona com o
envolvimento paterno?
4. Qual o efeito da idade, habilitações literárias, planeamento da
gravidez (planeada vs não planeada/ desejada vs não desejada), idade
gestacional, estatuto da paternidade (primípara vs multípara) e risco
associado à gravidez no número e tipo de sintomas vivenciados pelos pais
expectantes e envolvimento paterno.
MÉTODO
Participantes
Do presente estudo fazem parte 200 pais ' expectantes, cuja companheira esteja
em qualquer estádio de gestação. Trata-se de uma amostra não probabilística, de
conveniência, constituída por todos os homens que acompanharam as suas
companheiras (futuras mães), a três instituições da área da grande Lisboa (uma
maternidade Pública, uma unidade de Saúde Familiar, também pública, e uma
clínica de preparação para o parto privada) e que se mostraram disponíveis
para o preenchimento do protocolo de investigação a pedido dos técnicos da
saúde desses serviços.
Material
O questionário sócio ' demográfico, construído para o efeito e de forma a poder
caracterizar a amostra e a influência das variáveis, inclui informação relativa
à caracterização sócio ' demográfica (idade; estado civil; etnia;
nacionalidade; escolaridade e profissão) e à gravidez (gravidez planeada e
desejada; idade gestacional; existência de filhos prévios e risco associado à
gravidez). Para avaliação da sintomatologia somática em pais ' expectantes,
foi utilizada a versão traduzida do The Symtomatology Inventory(Black,
Holditch-Davis, Sandelowski, & Harris, 1995). Esta é uma checklistde 42
sintomas físicos e emocionais comuns na gravidez, que constitui uma
remodificação do Pregnancy Symptom Diaryde Erikson, já antes modificado por
Leifer (Black, Holditch-Davis, Sadelowski, & Harris, 1995). Os 42
sintomas dividem-se em três categorias: 29 sintomas físicos; 9 sintomas
afectivos negativos e 4 sintomas afectivos positivos.
Para avaliação do envolvimento emocional pré-natal nos homens expectantes, foi
utilizada a forma paterna da Antenatal Emocional Attachment Scale(Condon,
1993), adaptada para a população portuguesa por Gomez e Leal (2007). Esta
escala avalia a vinculação dos pais ao feto, representando duas dimensões
distintas da vinculação pré-natal. A primeira ' Qualidade da Vinculação '
representa a qualidade das experiências afectivas e inclui sentimentos
positivos de proximidade, ternura, prazer na interacção, tensão perante a
fantasia da perda do bebé e conceptualização do feto como uma pessoa pequena. A
segunda ' Intensidade da Vinculação ' representa a força e intensidade da
preocupação com o feto, o que inclui a quantidade de tempo passado a pensar,
falar sobre, sonhar sobre ou palpar o feto, bem como a intensidade dos
sentimentos que acompanham estas experiências (Gomez & Leal, 2007).
Cada item é o início de uma afirmação com cinco opções de resposta para
completar a frase. Alguns itens têm pontuação crescente de 1 a 5, mas a
maioria tem pontuação inversa de 5 a 1. Os totais de cada subescala são
obtidos pela soma dos respectivos itens, embora seja desaconselhado o uso
isolado das subescalas propostas pelo modelo original (Gomez & Leal,
2007). Genericamente notas mais altas indicam um estilo de vinculação mais
positivo, mas não há um padrão standard relativamente ao qual os resultados
possam ser comparados para estabelecer um ponto de corte e definir níveis de
vinculação saudáveis e não saudáveis. A escala demora aproximadamente cinco
minutos a responder e é apropriada para progenitores com e sem filhos prévios
(Gomez & Leal, 2007).
Procedimentos
Foram solicitadas as necessárias autorizações a todas as instituições
envolvidas no protocolo e os participantes. O pedido de participação por
escrito, informava sobre os objectivos genéricos do estudo, autoria e
orientação, âmbito da realização, garantia de confidencialidade e orientações
para o preenchimento dos instrumentos de recolha de dados e para a sua
devolução. Os pais ' expectantes assinaram um documento no qual deram o seu
consentimento livre e esclarecido.
RESULTADOS
Características gerais da amostra
A nossa amostra tem uma média de idades de 31.9% (mínimo de 17 e máximo de 51
anos), sendo que 86% são casados ou vivem em união de facto, 15% são solteiros
e 3% divorciados. 31.5% da amostra possui 12 anos de escolaridade, 30% tem 9
anos de escolaridade, 19.5 % tem 17 anos de escolaridade, 2% 19 anos e apenas
1.5% possui 4 anos de escolaridade.
Relativamente ao planeamento da gravidez, a maior parte dos sujeitos (79%),
planearam a gravidez, enquanto 21% não planearam. Verificou ' se que 99% da
amostra desejava a gravidez, existindo apenas 1% (2 sujeitos da amostra), que
não a desejam.
Quando à distribuição da amostra de acordo com a idade gestacional, verifica-
se, que a maioria da amostra se encontra no terceiro trimestre de gestação, com
80% dos sujeitos; seguindo-se o segundo trimestre, com 12.5% e 7.5% no primeiro
trimestre de gestação.
A maior percentagem da amostra (68.5%) é primípara; 19.5% tem o segundo filho;
9% tem o terceiro filho; 2.5% o quarto filho e 0.5% o sétimo filho. Não existe
risco associado à gravidez, na maior parte da amostra com 63.5%, sendo que
36.5% refere existir risco associado à gravidez.
Tipo e número de Sintomas vivenciados na amostra
Para o cálculo do tipo de sintomas vivenciados pelos participantes, foram
calculadas as frequências absolutas e as percentagens relativas dos sintomas
em cada trimestre da gravidez na amostra, sendo os valores equivalentes ao
número e proporção de sujeitos que vivenciaram cada sintoma.
Recorrendo às categorias que Holditch, Davis, Black, Saldelowski, Harris, e
Belyea (1995), estabeleceram em termos da qualidade dos sintomas, observa-se
que dentro dos sintomas afectivos positivos apenas a euforiase inclui entre os
mais frequentes no primeiro trimestre (26.7%), com ligeiro aumento no segundo
trimestre (32%) e diminuição no terceiro trimestre (19,4%). Relativamente aos
sintomas físicos, os mais frequentes são: dor de cabeça(40%), dores nas costas
(33.3%) e fadiga(33.3%) no primeiro trimestre, no segundo trimestre: dor de
cabeça(32%), dores nas costas(64%), fadiga(56%) e dores musculares(60%), sendo
este último o único sintoma físico que se surge com mais frequência no segundo
e terceiro trimestre. No terceiro trimestre os sintomas físicos mais frequentes
são: dor de cabeça(41.9%), dores nas costas(51.9%), dores musculares(33.8%) e
insónia(33.8%). A categoria referente aos sintomas afectivos negativos mais
frequentes abrange no primeiro trimestre: ansiedade(26.7%), tensão(40%) e
nervosismo(33.3%); no segundo trimestre: ansiedade(44%), tensão(56%),
nervosismo(44%) e irritabilidade(40%), que surge no segundo e terceiro
trimestres. No terceiro trimestre os sintomas afectivos negativos mais
frequentes são: irritabilidade(27.5%), ansiedade(43.1%) e nervosismo(33.8%),
havendo uma diminuição da frequência do sintoma tensão (18.8%) no presente
trimestre.
Quadro 1
Tipo de sintomas vivenciados
Em termos do número de sintomas vivenciados pelos sujeitos, foram calculadas as
frequências absolutas e percentagens relativas e acumuladas dessa variável em
cada um.
A análise dos dados, permite-nos concluir que a maior percentagem dos sujeitos
no primeiro trimestre (26.7%), vivenciaram pelo menos três sintomas (critério
de diagnóstico do Síndroma de Couvadede Bogren, 1983), enquanto no segundo
trimestre a maioria dos sujeitos (12%), referiram pelo menos cinco sintomas
(critério de diagnóstico do Síndroma de Couvadede Trethowan e Conlon, 1965) e
no terceiro trimestre a maior percentagem (16.9%), não referiu sintomas.
O maior número de sintomas referido no primeiro trimestre foi dezassete em 6.7%
da amostra, no segundo trimestre foi quarenta, em 4% da amostra e no terceiro
trimestre 41 sintomas, em 3.8% da amostra respectiva.
Quando se considera o valor mínimo de 5 sintomas de acordo com o critério de
diagnóstico do Síndroma de Couvadede Trethowan e Conlon, 1965, podemos observar
que 26.7 % da amostra no primeiro trimestre apresentam pelo menos cinco
sintomas, enquanto no segundo trimestre 60 %, da amostra apresenta pelo menos
cinco sintomas e no terceiro trimestre 46.9 % apresenta pelo menos cinco
sintomas.
Quadro 2
Número de sintomas vivenciados
Correlações lineares entre as variáveis da amostra
Para o cálculo das correlações, foram previamente realizadas as somas da
sintomatologia de Couvade, que designámos por ISC e da escala de envolvimento
emocional pré-natal, designada por EEEPN.
Para a correlação entre as variáveis: Idade, Habilitações Literárias, Gravidez
Planeada, Gravidez Desejada, Idade Gestacional, Estatuto da Paternidade, Risco
associado à Gravidez, Sintomatologia de Couvade e o Envolvimento Paterno, foram
utilizados testes de correlação linear de Pearson (sempre que as variáveis são
quantitativas) e de Spearman (sempre que trata de variáveis qualitativas
ordinais) (Maroco, 2007), tal como se encontra exposto no quadro abaixo.
Quadro 3
Correlações lineares entre as variáveis da amostra
De acordo com o quadro apresentado, podemos concluir que não existe correlação
entre a idade e os sintomas físicos de couvade, nem com os sintomas afectivos
positivos de couvade.
Relativamente às variáveis, habilitações literárias e o envolvimento paterno,
verificámos que a correlação é negativa e significa, o que demonstra que o
envolvimento paterno aumenta em pais-expectantes com habilitações literárias
mais baixas.
Por sua vez, não existe correlação entre os sintomas de Couvade e as
habilitações literárias, assim como não existe correlação entre o planeamento
da gravidez e os sintomas de Couvade, nem com o envolvimento paterno.
A correlação entre a gravidez desejada e o envolvimento paterno é positiva e
significativa, o que indica que o envolvimento paterno aumenta quando a
gravidez é desejada. Por sua vez, não existe correlação entre os sintomas de
Couvade e a gravidez desejada.
A correlação entre a idade gestacional e o envolvimento paterno, revela que
existe correlação positiva e significativa entre a idade gestacional e o
Envolvimento Paterno, o que nos indica que o envolvimento paterno aumenta, com
a evolução da gravidez. Relativamente à sintomatologia de Couvade e a idade
gestacional, os resultados revelam que não existe correlação.
Existe uma correlação negativa e significativa entre o estatuto da paternidade
e o envolvimento paterno, demonstrando que o envolvimento paterno diminui à
medida que aumenta o número de filhos. Os sintomas de couvade não se
correlacionam com o estatuto da Paternidade. Podemos concluir que não existe
correlação entre o risco associado à gravidez e o envolvimento paterno, nem
relativamente ao Sindroma de Couvade.
Perante os resultados apresentados, fizemos um teste correlação entre as
variáveis e os sintomas físicos e afectivos de Couvade, que nos permitiu
encontrar correlações com significância estatística, relativamente às
variáveis idade e planeamento da gravidez.
A correlação entre a idade e os sintomas afectivos negativos de Couvade, é
negativa e significativa (r = 0,20; p = 0,029), o que nos diz que, quanto
menor for idade dos pais ' expectantes, maior será a existência de sintomas
afectivos negativos de Couvade. Por sua vez, não existe correlação entre a
idade e os sintomas físicos de Couvade (p=0,114) nem com os sintomas afectivos
positivos de Couvade (p=0,73).
Relativamente à correlação entre planeamento da gravidez e as categorias
físicas e afectivas de couvade, os resultados demonstram que se trata de uma
correlação negativa e significativa para os sintomas afectivos negativos
(r=0,18;p=0,046), o que indica, que os sintomas afectivos negativos aumentam
quando não existe planeamento da gravidez. Não existe correlação entre o
planeamento da gravidez e os sintomas físicos (p=0,264)nem com os sintomas
afectivos positivos (p=0,90).
Teste de regressão linear
A análise de regressão linear entre o total da escala da sintomatologia de
Couvade e o envolvimento paterno, permite-nos concluir que o envolvimento
paterno não influência significativamente a sintomatologia de Couvade (β=
0,084; p = 0,278). Este resultado está de acordo com a observação de Schodt
(1989), que não encontrou qualquer relação entre a sintomatologia de couvade e
o envolvimento fetal antenatal.
DISCUSSÃO
No que respeita à incidência dos sintomas na nossa amostra, os resultados
sugerem a existência da síndroma de Couvade, nos três trimestres de gestação,
quando se considera o valor mínimo de cinco sintomas de acordo com o critério
de diagnóstico do Síndroma de Couvadede Trethowan e Conlon (1965), indo de
encontro à incidência internacional (Dickens & Trethowan, 1971; Trethowan
& Conlon, 1965) e dentro da percentagem global, proporcional a todas as
gravidezes (Brennan et al., 2007a).
Perante a análise do número de sintomas nos três trimestres de gestação,
podemos concluir que aumentam de forma crescente, sendo que no primeiro
trimestre referiram um total de 30 sintomas, seguindo-se no segundo trimestre,
40 sintomas e no terceiro trimestre 41 sintomas.
Os sintomas mais referidos pelos sujeitos, são coincidentes: dor de cabeça(no
primeiro trimestre 40 % e terceiro trimestre 41,9 %); tensão e nervosismo(no
primeiro trimestre 40 % e 33,3% respectivamente e no segundo trimestre 56 % e
44 %); dores nas costas e fadiga nos três trimestres, sendo as percentagens
respectivas no primeiro trimestre 33,3 %; no segundo trimestre, 64 % e 56 % e
no terceiro trimestre 51,9 % e 41,9 %, com excepção dos sintomas: dores
musculares(60%), nervosismo(44 %) e irritabilidade(40 %), que apenas foram mais
referidos no segundo trimestre. Os sintomas mais referidos coincidem com os
resultados do estudo de Condon (1987) e de Sizaret, Degiovanni, Gaillard, e
Benichou (1991). Os sintomas, dores nas costas (11%) e irritabilidade (7%),
também foram reportados no estudo de Chalmers e Meyer (1996). Estes resultados
também correspondem aos mais incidentes, no estudo de Black, Holditch-Davis,
Saldelowski, e Harris (1995) e Gomez (2000).
Recorrendo às categorias que Holditch, Davis, Black, Saldelowski, Harris, e
Belyea (1995), estabeleceram em termos da qualidade dos sintomas, observa-se
que os sintomas referidos coincidem com os do estudo de Chalmers e Meyer
(1996), e de Tsai e Chen`s (1997). A categoria de sintomas psicológicos mais
frequentes no nosso estudo foi a referente aos sintomas afectivos negativos,
sendo a ansiedade um dos sintomas mais frequentes, com aumento da sua
frequência do primeiro trimestre (26.7%), para o segundo e terceiro trimestre
(44% e 43.1% respectivamente), tal como nos estudos de Chalmers e Meyer (1996).
A insónia pertencente à categoria dos sintomas físicos apenas se evidenciou com
maior frequência no terceiro trimestre (33.8%), tal como no estudo de Brennan
et al. (2007b).
Pela análise realizada a partir da maioria dos sintomas referidos, não se
confirma que a maioria seja semelhante aos típicos sintomas das mulheres
grávidas, como se verifica no estudo de Brennan et al. (2007b), embora alguns
dos sintomas menos referidos pelos sujeitos, como as náuseas e vómitos (também
coincidentes nos três trimestres), sejam coincidentes com os do estudo de
Brennan et al. (2007b) e Chalmers e Meyer (1996).
No que respeita ao efeito da idade no envolvimento paterno, os resultados
indicam-nos que quanto maior for a idade dos pais-expectantes, menor será o
envolvimento paterno, o que poderá justificar-se pelo facto de o envolvimento
paterno ser condicionado por variáveis como a idade e história única de cada
indivíduo, implicando uma ruptura com os papeis masculinos tradicionais
(Abreu, Goodyear, Campos, & Newcomb, 2000; May & Perrin, 1985).
A correlação entre a idade e os sintomas afectivos negativos de Couvade, diz-
nos que, quanto menor for idade dos pais-expectantes, maior será a existência
de sintomas afectivos negativos de Couvade, o que contraria o estudo de Bogren
(1989), Clinton (1986) e de Gomez (2000).
Relativamente ao efeito das Habilitações Literárias no envolvimento paterno,
concluímos que o envolvimento paterno aumenta em pais-expectantes com
habilitações literárias mais baixas, o que contraria o estudo de Saraceno e
Naldini (2003).
O nosso estudo vai de encontro aos resultados apresentados por Clinton (1986),
que não encontrou correlação entre o nível educacional e a ocorrência do
Síndroma de Couvade, contrariando por sua vez, os estudos de Bogren (1989),
Lipkin e Lamb (1982), Munroe, Munroe, e Nerlove (1973), Munroe (1980) e
Trethowan (1972).
O facto de o planeamento da gravidez não se encontrar correlacionado com o
envolvimento paterno pode dever-se ao facto de que por vezes a gravidez não é
planeada, mas tendo em consideração as condicionantes que envolvem a gestação,
poderá tornar-se aceite e desejada influenciando o envolvimento paterno (Lima,
2006).
A correlação negativa e significativa, entre o planeamento da gravidez e os
sintomas afectivos negativos indica, que os sintomas afectivos negativos
aumentam quando não existe planeamento da gravidez, indo de encontro aos
resultados de Clinton (1986, 1987), e Strickland (1987).
Os resultados entre a gravidez desejada e o envolvimento paterno, indicam-nos
que o envolvimento paterno aumenta quando a gravidez é desejada, indo este
resultado de encontro ao estudo de May e Perrin (1985).
O efeito da idade gestacional no envolvimento paterno, revela que o
envolvimento paterno aumenta, com a evolução da gravidez o que vai de encontro
ao modelo de Condon (1993) e aos estudos de Lemmer (1987) e de Piccinini
(2004).
O efeito do Estatuto da Paternidade no envolvimento paterno, indica-nos que o
envolvimento paterno diminui à medida que aumenta o número de filhos, que vai
de encontro ao estudo de Lorensen, Wilson, e White (2004).
Os sintomas de Couvade não se correlacionam com o estatuto da paternidade,
indo ao encontro dos resultados de Brennan et al. (2007b) e de Trethowan e
Conlon (1965). Por sua vez os nossos resultados contrariam os de Clinton
(1986), Condon (1987) e Ferketich e Mercer (1989).
Não existe correlação entre o risco associado à gravidez e o Envolvimento
Paterno, nem relativamente ao Síndroma de Couvade, o que contraria os
resultados de Clinton (1986).
Concluímos que o envolvimento paterno não influência a sintomatologia de
Couvade, tal como se verificou no estudo de Schodt (1989). Por sua vez este
resultado contraria os estudos de Brennan et al. (2007b), Clinton (1987),
Drake, Verhulst, e Fawcett (1988), Elwood e Manson (1994), Raphael ' Leff
(1991) e Weaver e Cranley (1983).
Uma das limitações do presente estudo, prende-se com o facto de as amostras do
primeiro, segundo e terceiro trimestres não serem equivalentes, com diferenças
significativas entre as mesmas (nomeadamente: n = 15; n = 25 e n = 160), não
tendo sido por esse motivo calcular uma média de sintomas em cada trimestre, de
modo a poder verificar a evolução dos sintomas ao longo da gravidez.
Outro aspecto que poderia influenciar os resultados do presente estudo, prende-
se com os critérios de exclusão da amostra, na medida em que não foi tomada em
consideração a existência de qualquer problema de saúde nos pais expectantes,
que possa justificar alguma sintomatologia confundente com o Síndroma de
Couvade. Sugere-se em futuras investigações ter em consideração este aspecto,
assim como aumentar o tamanho da amostra em cada trimestre de gestação, de modo
a poder verificar a evolução dos sintomas ao longo da gravidez.
Tendo em consideração de que os sintomas físicos e afectivos negativos são os
vivenciados com maior frequência nos pais-expectantes, o apoio dos técnicos de
saúde torna-se essencial, no sentido de prevenir as vivências negativas da
paternidade expectante, fomentando uma participação mais activa do homem,
envolvendo-o na preparação para a parentalidade através de aulas de preparação
para o nascimento e informação relativamente às mudanças emocionais e físicas
decorrentes da gravidez. A este nível também poderiam realizar-se novas
investigações no sentido de verificar por exemplo, se pais que assistissem a
aulas de preparação para o parto poderiam apresentar outra categoria de
sintomas de Couvade ou um maior envolvimento fetal durante a gravidez.