Escala de motivação: adaptação e validação da Motivation Scale (M.S.) de
Rempel, Holmes & Zanna
O presente artigo consiste na adaptação e a validação para a população
portuguesa da Motivation Scale, de Rempel, Holmes e Zanna (1985), aqui
designada por Escala de Motivação (E:M).
A Motivação é aquilo que move as pessoas para agir, pensar e desenvolver-se.
Apesar de os processos de motivação poderem ser estudados do ponto de vista dos
mecanismos cerebrais e fisiológicos, há uma grande parte da motivação humana
que é função de variáveis sócio-culturais que influenciam não só o que as
pessoas fazem, mas também o modo como se sentem quando agem, assim como com as
consequências dos seus actos (Deci e Ryan, 2008). Na abordagem deste conceito,
assinalam-se duas tendências fortes no início do século XX: o
comportamentalismo por um lado e a psicanálise por outro, ambas enraizadas numa
perspectiva que via os impulsos biológicos como origem das necessidades
humanas. A abordagem à motivação expandiu-se rapidamente, ultrapassando o
âmbito da biologia. Uma das tendências viu o indivíduo como o centro da sua
própria motivação enquanto outra, sob influência do paradigma do
condicionamento operante, se focou nas recompensas externas e seu papel na
motivação (Mayer, Faber e Xu, 2007). Temos aqui claramente uma antevisão dos
actuais conceitos de motivação intrínseca e motivação extrínseca que constituem
o cerne do instrumento que apresentamos.
Desde os anos 30 até à actualidade, as escalas foram-se tornando mais
especializadas e sensíveis ao contexto. Mayer, Faber e Xu, (2007) estudaram 75
anos de medição da motivação e agruparam os testes que recensearam em grupos. O
nosso questionário é uma das escalas focadas no selfe no seu papel sobre a
motivação.
O que medem os testes de motivação? Poderíamos pensar que todas as escalas de
motivação medem motivos, mas de facto não é assim. Podem medir a sua dinâmica,
o selfcomo motivador, ou ainda aspectos para-motivadores como os valores. O
nosso instrumento corresponde ao grupo dos que medem a dinâmica da motivação,
ou como os motivos estão integrados na vida mental dos indivíduos. Resta a
questão de como é que os testes a medem, isto é, como acedem às diferentes
manifestações da motivação. Na verdade, a forma como um instrumento mede o
motivo é tão importante como o conteúdo motivador em si. As motivações
manifestam-se de diversas formas na personalidade. Assim, o método usado pelas
escalas é uma via directa e acede ao auto conceito consciente, questionando
directamente a pessoa. As escalas de auto-julgamento são usadas para determinar
a internalidade ou autodeterminação de um motivo.
Considera-se que a motivação pode ser intrínseca ou extrínseca. A propósito
destes conceitos centrais, Decy e Ryan (2008) dizem-nos que a motivação
intrínseca implica determinado comportamento, porque a actividade em si própria
é interessante e satisfaz espontaneamente. Alguém intrinsecamente motivado
envolve-se numa acção pelos sentimentos positivos que ela proporciona. Por
outro lado a motivação extrínseca implica que o envolvimento numa actividade
leva a consequências que estão separadas dela. É o que acontece, por exemplo,
quando se age para obter uma recompensa ou evitar a punição Story, Hart,
Stasson e Mahoney (2009) concluíram que os sujeitos intrinsecamente motivados
não só se envolvem mais prazerosamente em pensamento trabalhoso, como estão
mais predispostas ao auto-reforço e á regulação dos seus comportamentos. A
motivação intrínseca está também mais associada a maior auto-eficácia e
expectativas de sucesso. Muitos autores consideram estes dois tipos de
motivação como extremos de um mesmo conceito enquanto outros consideram estar
intrinsecamente ou extrinsecamente motivado como duas coisas bastante
distintas. No entanto, numa série de situações é bem possível que se esteja
motivado de ambas as maneiras. É ainda de salientar que a maior parte dos
comportamentos podem ser interpretados reflectindo qualquer orientação nos
motivos. O elemento crítico é, na atribuição de motivos, a interpretação dada
ao acontecimento ou comportamento (Rempel, Holmes e Zanna, 1985).
MOTIVAÇÃO E CONJUGALIDADE
Motivação Intrínseca, Motivação Extrínseca e Motivação Instrumental.
A ideia que as pessoas são motivadas para formar e manter ligações
interpessoais é antiga. Na psicologia, é um pensamento veiculado de muitas
maneiras, por exemplo por Freud, com os motivos derivados das pulsões e da
relação precoce, Maslow, ao falar de “amor e necessidade de pertença”
colocando-os a meio da sua pirâmide de necessidades, Bowlby, com a teoria da
vinculação, bem como muitos outros autores, sublinham Baumeister e Leary,
(1995). Podemos dizer que os seres humanos são fundamentalmente motivados por
uma necessidade de pertença, ou seja, um desejo de formar e manter relações
interpessoais duradouras. Mas, tal como Seligman, Fazio e Zanna (1980)
comentam, a razão pela qual alguém se sente atraído especificamente por uma
pessoa e não por outra qualquer, é uma questão que se mantém intrigante e cuja
resposta tem muitas vezes sido dada em termos de quais os benefícios que os
indivíduos se proporcionam reciprocamente.
É importante distinguir as recompensas intrínsecas das extrínsecas. Motivos
extrínsecos para se manter ligado estão relacionados com recompensas recebidas
dos outros fora da relação, mas mediadas pelo envolvimento com o parceiro, por
exemplo o estatuto social e respeito, acesso a novas actividades e
oportunidades, as ligações sociais e as de negócios. Motivos intrínsecos são
definidos como um conjunto de recompensas directamente mediadas pela relação
com o parceiro. Quando intrinsecamente motivado o sujeito está envolvido numa
relação íntima pelo prazer das actividades de dia-a-dia do casal. Por outro
lado, se a motivação é extrínseca, ela refere-se a actividades relacionadas com
propósitos instrumentais como a obtenção de consequências positivas ou o
evitamento de resultados negativos. (Blais, Sabourin, Boucher e Vallerand
1990).
Uma dificuldade reside na especificação se uma recompensa ou motivação é, de
facto, intrínseca ou extrínseca. Mas, claramente, interessam-nos aqui as
percepções dos indivíduos e não o facto de as recompensas serem realmente
intrínsecas ou extrínsecas. Um dos aspectos centrais da teoria da atribuição é
explicitado por Bem (1972), referido por Seligman, Fazio e Zanna (1980): as
pessoas percebem que estão intrinsecamente motivadas para um comportamento na
medida em que as contingências externas de reforço estão ausentes. Muitos
trabalhos sobre a satisfação em várias tarefas mostram que no comportamento sob
contingências de reforço externas salientes, se enfraquece a atribuição a
razões intrínsecas, mesmo quando esse comportamento está ligado a razões
apontadas inicialmente como intrínsecas.
Através do desenvolvimento de objectivos interdependentes e da identificação
empática, a felicidade do parceiro torna-se parte do sistema de recompensas do
sujeito. Formas intrínsecas de motivação reflectem muitas vezes a evidência de
que duas pessoas se vêem com um casal Como diz Lerner (1977), citado por Rempel
Holmes e Zanna (1985), têm uma relação de identidade.
Assim, o indivíduo pode estar motivado largamente pelas recompensas
interpessoais recebidas do parceiro, ou, por outro lado, a relação pode ser
valorizada, justamente porque é recompensadora para ambos. No primeiro caso
temos motivos instrumentais que distinguimos do segundo caso, o dos motivos
intrínsecos. Na primeira hipótese, os motivos servem uma série de recompensas
mais ou menos explícitas que os parceiros providenciam um ao outro, como sejam,
serviços directos, bens, elogios, sexo, apoio. O comportamento na relação é
sobretudo um meio para um fim e governado pelas regras da troca social. Em
contraste, recompensas mais associadas a atribuições intrínsecas incluem a
partilha de prazer em actividades conjuntas, demonstrações recíprocas de
afecto, um sentimento de proximidade, envolvimento social como casal, o calor e
a alegria associados com satisfazer as necessidades do parceiro. A distinção
conceptual entre motivação intrínsecae motivação instrumentalnão é nova na
literatura sobre relações próximas. Clark e Mills (1979), por exemplo, citados
por Rempel Holmes e Zanna (1985) distinguem entre troca e relações comunais,
aludindo a esta diferença.
Como sublinham Aimé e colaboradores (2000), uma vez que as relações conjugais
apelam a processos de interdependência é pertinente no plano conceptual tomar
em conta os estilos de motivação de cada um dos parceiros e a sua influência
recíproca. Os variados estados de motivação que descrevemos não são vistos como
independentes uns dos outros. Se as razões extrínsecas são particularmente
salientes, a forca percebida dos motivos instrumentais e intrínsecos diminui.
Similarmente, atribuições a motivos instrumentais enfraquecem o recurso a
explicações intrínsecas Motivos intrínsecos são, por hipótese, os mais
fortemente relacionados com o amor e a felicidade porque reflectem melhor
preocupações não egoístas e cuidado com outrem sem expectativas explícitas de
ganho pessoal (Rempel Holmes e Zanna, 1985).
Blais, Sabourin, Boucher e Vallerand (1990) esquematizam o modelo de motivação
no casal da seguinte forma : O estilo individual de motivação do sujeito para
manter a ligação influencia o seu comportamento de relação íntima; os
comportamentos relacionais de ambos os parceiros influenciam a percepção dos
comportamentos adaptativos do casal; estas percepções individuais têm por sua
vez um impacto na felicidade com a relação. A percepção que ambos, o sujeito e
o parceiro, estão envolvidos na relação porque ela vale por si é necessária
para que sentimentos de amor ocorram, de acordo com Kelley (1979), citado por
Rempel e colaboradores (1985) que também observaram que o amor e a satisfação
se correlacionam positivamente com a motivação intrínseca. Ainda verificaram
uma congruência entre a motivação do próprio e a que ele atribui ao seu
parceiro. Assim, a percepção das suas motivações influencia a percepção que se
tem das motivações do par. Há pois uma tendência congruente nas atribuições.
Seligman e colaboradores (1980) demonstraram também que os membros de um casal
que estão com o seu parceiro por razões extrínsecas referem menos amor quando
comparados com os que o fazem por motivação intrínseca.
MÉTODO
Participantes
A Amostra é constituída por 436 sujeitos, 218 casais, 152 casados e 66 a
viverem em união de facto. A caracterização da amostra é apresentada nos
quadros 1 e 2 e 3.
Quadro 1
Caracterização dos Sujeitos da Amostra
relativamente à Idade
Quadro 2
Caracterização dos Sujeitos da Amostra
relativamente às habilitações literárias
Quadro 3
Caracterização dos Casais relativamente ao Tempo
de Duração da Relação, Existência de Filhos e
Número de Filhos
Relativamente à idade em termos médios existe uma diferença de 3 anos entre os
dois sexos, as mulheres ligeiramente mais novas, com idades entre os 20 e os 73
anos, sendo a média (arredondada) de 42 anos e nos homens a idade a variar
entre os 19 e os 76 anos sendo a média de 45 anos.
Relativamente às habilitações literárias elas são elevadas em ambos os sexos
predominando o ensino secundário e a licenciatura.
Os casais que estão casados, estão juntos há mais tempo do que os casais que
vivem em união de facto. Os casados estão juntos em média há 20 anos, enquanto
os que vivem em união de facto estão juntos em média há 7 anos, sendo a
dispersão em torno da média deste último grupo bastante elevada. Relativamente
à existência de filhos também se verifica diferenças entre os dois grupos.
Enquanto a maioria dos casados têm filhos (89%), essa percentagem nos casais
que vivem em união de facto é de apenas 36%. Quanto ao número de filhos este é
mais elevado no grupo dos casados (média de 2 filhos, sendo a dispersão
bastante elevada, dado haver 4 casais com mais de 3 filhos), enquanto que no
grupo que vive em união de facto a média é de um filho (a esmagadora maioria
tem 1 filho, havendo apenas 4 casais que têm mais do que 1 filho).
Material
A escala da motivação é constituída por 24 itens, sendo a escala de resposta de
9 pontos. A escala deve ser respondida duas vezes segundo perspectivas
diferentes: por um lado a motivação pessoal, por outro a perspectiva que se tem
da motivação do parceiro. Rempel, Holmes e Zanna (1985) encontraram para as
duas escalas 3 factores : I = Intrínseco, R=Instrumental e E = Extrínseco.Os
Alphas de Cronbach dos factores variam entre 0,69 e 0,82 revelando uma boa
consistência interna.
Os autores construíram os itens da escala de motivação em conformidade com as
orientações teóricas. Foi a teoria que serviu de base também à classificação
inicial dos itens em sub-escalas. O facto da amostra usada por Rempel, Holmes e
Zanna (n= 94) não ser suficientemente grande para garantir a estabilidade dos
resultados para efectuar determinados procedimentos estatísticos nomeadamente a
análise factorial levou-os a utilizar critérios conservadores para decidir
quando um item era reclassificado .
CARACTERÍSTICAS PSICÓMETRICAS DO INSTRUMENTO PARA A POPULAÇÃO PORTUGUESA
No sentido de se validar a escala da motivação para a população portuguesa,
depois da fase da tradução, passou-se a escala a 436 sujeitos, 219 casais,
tentando assim ultrapassar algumas das limitações em termos de procedimentos
estatísticos que os autores referiram pelo facto da sua amostra ser pequena (n
= 94).
Sensibilidade
Um primeiro estudo efectuado à sensibilidade dos itens, revela que estes são
discriminativos, dado não se ter verificado uma concentração de respostas acima
de 35% em qualquer das categorias de resposta.
Validade de constructo
A validade de constructo foi estudada recorrendo-se a Análises factoriais. Foi
utilizado o método “medida da adequação da amostragem de Kaiser-Meyer-Olkin”
proposta por Kaiser (1970) e Kaiser & Rice (1974) no sentido de averiguar
se os nossos dados eram viáveis em termos de utilização de uma análise
factorial. O KMO obtido para os dados referentes aos itens dos motivos pessoais
foi de 0,954 e para os itens referentes aos motivos do parceiro de 0,952.
Validade factorial
Os excelentes resultados encontrados permitiram o recurso a análises factoriais
confirmatórias de componentes principais com rotação obliqua. As análises
factoriais não confirmaram uma estrutura factorial tripartida, dado em ambas as
escalas, apenas dois factores registarem “eigenvalues” superiores a 1. Assumiu-
se assim uma estrutura com dois factores tornando-se a submeter a matriz dos
dados a análises factoriais.
Quadro 4
Eigenvalues e Variâncias Explicadas dos três
factores extraídos nas Análises Factoriais
Confirmatórias
Na escolha dos itens para cada factor seguiu-se os critérios de Rempel, Holmes
e Zanna (1985): 1º - Coeficiente de saturação (“Factor Loading”) superior a
0,40 num factor 2º - A diferença entre os coeficientes de saturação dos dois
factores ter um valor igual ou superior a 0,10.
Na Análise factorial relativa aos motivos pessoais constatou-se que embora o
item 1 tenha um coeficiente de saturação no factor 1 ligeiramente abaixo de
0,40 (0,379 – ver quadro_7), o factor loading é bastante mais baixo no factor 2
(0,144), além disso observando o coeficiente de correlação deste item com o
total do factor 1 constatamos que é superior a 0,30 (0,347 – ver quadro 5).
Como tal optou-se por não se eliminar este item, e inclui-lo no factor 1. A
estrutura factorial para escala motivos pessoais está representada no quadro_8,
devendo o item 1 ser incluído no factor 1.
Quadro 5
Análise Factorial de Componentes Principais com
Rotação Obliqua
Para a escala Motivos do parceiro a estrutura factorial encontrada foi bastante
semelhante à da escala motivos Pessoais, apenas se propõe a exclusão do item 3
que revelou factores loadings muito semelhantes nos dois factores (0,56 e 0,57
– ver quadro 6), sendo portanto considerado um item ambíguo. A estrutura
factorial da escala Motivos do Parceiro pode ser observada no quadro 6.
Quadro 6
Análise Factorial de Componentes Principais com
Rotação Obliqua
Além das Análises factoriais efectuaram-se também correlações dos itens com o
total do factor a que pertencem, averiguando se as correlações eram superiores
a 0,30, facto esse comprovado para as duas escalas como se pode observar nos
quadros 7 e 8.
Quadro_7
Correlação entre os Itens que compõem cada Factor
com o Total desse Factor ' Escala Motivos
Pessoais
Quadro_8
Correlação entre os Itens que compõem cada Factor
com o Total desse Factor – Escala Motivos do
Parceiro
Fidelidade
O estudo da Fidelidade da escala foi feita através da avaliação da consistência
interna dos itens, recorrendo-se ao Alpha de Cronbach. Os Alphas dos 2 factores
e dos totais das escalas variam entre 0,87 e 0,96 (ver quadro 9), sendo
bastante superiores aos encontrados pelos autores da escala na sua estrutura
factorial tripartida.
Quadro 9
Alphas de Cronbach para as Duas Escalas
DISCUSSÃO
Não se confirma para a realidade portuguesa a existência dos três factores da
escala original.
Um deles aparece claramente diferenciado, considerando-se pois a existência da
sub-escala de motivação extrínseca, à qual mantemos a designação e que inclui
recompensas mais ou menos explícitas que os parceiros providenciam um ao outro,
recompensas recebidas dos outros fora da relação.
Por outro lado, surge no nosso estudo um factor que soma itens da sub-escala
intrínseca com itens da sub-escala instrumental.
É verdade que nos resultados da análise dos autores originais um padrão
hierárquico relativamente ordenado de resultados emergiu, dando suporte á
existência de um modelo com três componentes. Os seus resultados apoiam a ideia
que motivos intrínsecos e instrumentais correspondem a diferentes categorias,
com diferentes implicações. Mas houve uma excepção a este padrão: sentimentos
de amor nas mulheres estavam tão ligados com motivações instrumentais como com
as motivações intrínsecas. Por várias razões, as mulheres parecem ter uma visão
mais global das relações dependendo menos exclusivamente que os homens das
implicações românticas da atribuição intrínseca. Também parece também haver uma
menor distinção entre intrínseco e instrumental quando o indivíduo faz
atribuições a si próprio. O que a um observador pode parecer uma motivação
extrínseca, surge muitas vezes para o próprio como um motivo intrínseco. Os
autores da escala consideram que esta orientação intrínseca pode estar a servis
interesses próprios. A auto-estima pode ser reforçada pela ideia que as acções
do sujeito são motivadas por motivos centrados no outro No entanto, Rempel e
colaboradores (1985) também têm em conta que alguém interagindo com um
parceiro, terá frequentemente sentimentos positivos essencialmente privados
mais acessíveis ao self que aos outros. Assim, o que é interpretado pelos
outros de uma maneira, pode ser percebido pelo próprio à luz destes sentimentos
privados e interpretado como intrínseco.
Como nos recordam os próprios Rempel, Holmes e Zanna (1985) a percepção dos
motivos instrumentais é complexa porque pressupõe uma série de mensagens.
Atribuições instrumentais são aquelas em que as recompensas são vistas como
constituindo fins de serviço ao próprio, obtidos via relacionamento. Neste
sentido, uma lógica de desvalorização levaria à questão de quão valioso o
relacionamento continuaria se as recompensas deixassem de existir. Também
enfatizaria as trocas sociais e diminuiria as atribuições de amor. (Clark &
Mills, 1979; Holmes, 1981; Kelley, 1979). Mas, ao mesmo tempo, a atribuição de
motivos instrumentais também contêm informação positiva sobre a relação.
Sugerindo que alguém é motivado pelas recompensas providenciadas pelo parceiro,
há o reconhecimento implícito que este parceiro é valioso e se gosta dele.
Assim, se o parceiro é olhado positivamente pela sua aparência, espírito ou
sensibilidade, estas atitudes validam o valor da pessoa como alguém que se pode
amar. Nesse sentido, é auto-afirmativa.
Acreditar que o parceiro está motivado pelas recompensas instrumentais que o
sujeito providência, quer por outro lado dizer que esse parceiro está na
relação porque o sujeito tem características com valor. As consequências de ver
um comportamento com o instrumental na origem, são largamente uma questão de
que mensagem é mais saliente. A atribuição de uma motivação instrumental pode
reforçar sentimentos de amor e ligação ao parceiro apesar de a ligação geral
com o amor ser moderada devido à influência oposta da lógica de desvalorização
(Holmes e Zanna, 1985).
Optamos então por designar este 2º factor por sub-escala de motivação
intrínseca, uma vez que ela inclui recompensas directamente mediadas pela
relação como parceiro. O instrumento toma assim a seguinte forma final (quadro
10).
Quadro 10
Itens finais e respectivas sub-escalas