TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

EuPTHUHu1645-00862009000200007

variedadeEu
ano2009
fonteScielo

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Inventário de burnout de Maslach para estudantes portugueses

A Escala de Burnoutde Maslach para Estudantes tem como objectivo avaliar a síndrome de Burnout em estudantes. A síndrome de Burnoutdefine-se como uma resposta prolongada no tempo a stressores interpessoais crónicos no trabalho, composta por três dimensões chave: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal (Maslach, 1993). Por exaustão emocional entende- se uma sobre solicitação ou esgotamento dos recursos emocionais, morais e psicológicos da pessoa. A despersonalização traduz uma distanciação afectiva ou indiferença emocional em relação aos outros, nomeadamente àqueles que são a razão de ser actividade profissional (pacientes, clientes, alunos, etc). A realização pessoal exprime uma diminuição dos sentimentos de competência e de prazer associados ao desempenho de uma actividade profissional.

Historicamente, o Burnout surgiu associado a profissões de relação de ajuda (médicos, enfermeiros, advogados, professores), mas a investigação mostrou não haver razão para restringir esta síndrome a esses domínios profissionais. O conceito tem-se estendido a todas as actividades profissionais (Leiter & Schaufeli, 1996), inclusivamente àquelas que, não sendo uma actividade profissional propriamente dita, partilham com as primeiras alguns pontos comuns, como é o caso de mães a tempo inteiro (Pelsma, Roland, Tollefson & Wigington, 1989), e de estudantes (Balogun, Helgemoe, Pellegrini, & Hoeberlein, 1996; Koeske & Koeske, 1991; McCarthy, Pretty, & Catano, 1990; Schaufeli, Martinez, Marques Pinto, Salanova & Bakker, 2002).

A escala de avaliação de Burnout mais popular, Maslach Burnout Inventoryou MBI, foi criada por Christina Maslach (Maslach, Jackson & Leiter, 1996), estimando-se que seja usada em cerca de 90% dos trabalhos empíricos publicados sobre a síndrome (Schaufeli, Bakker, Hoogdoin, Schaap & Kadler, 2001; Tecedeiro, 2005), embora existam instrumentos alternativos (Schaufeli, Enzmann & Girault, 1993; Demerouti, Bakker, Vardakou & Kantas, 2003). Trata-se de uma escala de autoavaliação de tipo Likert em que é pedido ao sujeito que avalie, em sete possibilidades, com que frequência sente um conjunto de sentimentos expressos em frases (Maslach, Jackson & Leiter, 1996).

Actualmente existem três versões distintas em função da área profissional do respondente: uma versão com 22 itens para profissionais da área da saúde (MBI- HSS, de Human Services Survey), uma versão com o mesmo numero de itens adequada a quem trabalha em contextos educacionais (MBI-ES) e uma versão de 16 itens adaptada à população trabalhadora em geral (MBI-GS). Todas as versões possuem uma estrutura tri-factorial, em linha com a conceptualização do Burnout proposta por Christina Maslach, existindo correlações fracas a moderadas entre subescalas (Maslach, Jackson & Leiter, 1996). A escala não permite o cálculo de uma pontuação global de burnout. Na versão MBI-GS, a dimensão Despersonalização tomou o nome de Cinismo.

A versão da MBI para estudantes foi adaptada por Schaufelli, Martinez et al.a partir de trabalhos anteriores (Balogun et al., 1996; Gold & Michael, 1985) tendo por base o MBI-GS. Designada por Maslach Burnout Inventory Student Survey(MBI-SS), a escala ficou constituída por 15 itens, passando a dimensão despersonalização/cinismo a ser designada por Descrença (Schaufeli, Martinez et al., 2002). No estudo conduzido junto de amostras de estudantes de três países europeus (Portugal, Espanha e Holanda), os autores mostraram a validade da estrutura tri-factorial da escala, em linha com a conceptualização teórica de Maslach, embora essa estrutura não seja invariante entre as três amostras, devido à existência de variações na saturação dos três factores de país para país.

O Burnout está na origem de um importante sofrimento pessoal manifestado através de sinais psico-sociais tão diversos quanto o consumo excessivo de medicamentos, álcool e outras substâncias psicotrópicas, quebra de produtividade, aumento do absentismo, baixas médicas prolongadas, reformas antecipadas, episódios depressivos graves, perturbações psicossomáticas graves (Tecedeiro, 2005). A população estudantil, face às pressões sociais e profissionais que sofre relativamente ao financiamento dos estudos, aproveitamento escolar e relacionamento com professores e colegas, apresenta-se como uma população onde a ocorrência de Burnout poderá limitar fortemente quer o bem-estar psico-social quer o rendimento escolar dos alunos. Nesta óptica a mensuração do nível de Burnout e os seus determinantes no ensino superior é uma mais-valia para a compreensão e intervenção psicológica neste domínio. Neste artigo apresentamos o resultado de um estudo de validade factorial da MBI-SS numa amostra de estudantes do ensino superior da área da Psicologia.

MÉTODO Material A escala MBI-SS de Schaufeli et al. (2002) é uma escala auto-aplicável constituída por 15 itens referentes a sentimentos/emoções de estudantes em contexto escolar. Os respondentes manifestam a frequência de ocorrência de cada um dos 15 itens numa escala ordinal de 7 pontos descritos no quadro 1.

Quadro 1 Chave da codificação da escala MBI-SS, versão Portuguesa adaptada de Schaufeli et al.(2002)

A tradução da versão original inglesa de Schaufeli et al.( 2002) foi feita seguindo de perto a versão portuguesa do MBI-SS (Tecedeiro, 2005), apenas com as consequentes adaptações. A validade facial da tradução foi controlada por 2 especialistas da área da psicologia clínica e da psicologia educacional. Os 15 itens que constituem a versão portuguesa usada neste estudo são dados no quadro 2.

Quadro 2 Sub-escalas e respectivos itens da Escala MBI-SS (versão Portuguesa adaptada de Schaufeli et al., 2002)

Participantes A amostra de validação foi constituída por 654 estudantes do Instituto Superior de Psicologia Aplicada nos anos lectivos de 2006-07 e 2007-08 sendo 83% do sexo feminino. A idade média da amostra foi 23.5 ano (SD=6.22). Os participantes distribuem-se, com frequências semelhantes, pelos 3 turnos lectivos: manhã (36%), tarde (34%) e noite (30%).

CARACTERÍSTICAS PSICOMÉTRICAS Sensibilidade A sensibilidade dos itens foi avaliada pelas medidas de assimetria (sk) e curtose (ku). O quadro 3 apresenta os valores das medianas, mínimo, máximo e medidas de forma com respectivos rácios críticos.

Quadro 3 Mediana, mínimo, máximo e medidas de assimetria (Sk) e Curtose (Ku) com respectivos rácios críticos (Sk/SEsk; Ku/SEKu) para os 15 itens da MBI-SS versão Portuguesa (n=654).

Os itens com distribuição mais assimétrica e leptocurtica são os itens da dimensão Descrença. Contudo, e de acordo com Kline (1998), nenhum dos itens apresenta valores absolutos de curtose superioresa3oude achatamento superiores a 7 que comprometam a sensibilidade dos itens da MBI-SS como avaliado nesta amostra.

Validade factorial A validade factorial das 3 dimensões da MBI-SS foi avaliada com uma análise factorial confirmatória. Os pesos factoriais de cada factor, a consistência interna avaliada com o α de Cronbach e as correlações observadas entre os factores são apresentadas no quadro 4.

Quadro 4 Pesos factoriais obtidos com a análise factorial confirmatória, consistência interna (α de Cronbach), variância média extraída (AVE) e correlações entre factores da MBI-SS.

Os índices de qualidade de ajustamento tri-factorial da MBI-SS suportam, de forma razoável, a estrutura original proposta (X2(88)=446.935; p<0.001; CFI=0.912; PCF=0.765; GFI=0.912; PGFI=0.669; RMSEA=0.079; P(rmsea≤0.05)<0.001).

Fiabilidade A fiabilidade dos 3 factores da Escala MBI-SS foi estimada pelo α de Cronbach (v. quadro 4). De acordo com a descrição de Maroco & Garcia-Marques (2006) a consistência interna dos factores Exaustão e Descrença é elevada, sendo razoável no factor Realização. A variância média extraída (AVE) é superior a 0.5 para os factores Exaustão e Descrença, sendo porém mais reduzida para o factor Eficácia. Esta estatística indica a proporção da variância dos itens retida pelos factores respectivos. Apenas o factor Eficácia apresenta uma fiabilidade de constructo abaixo do aceitável.

COTAÇÃO Na sua versão original a MBI-SS permite calcular, pela soma dos itens respectivos, os scores de Exaustão, Descrença e Eficácia. Um indivíduo é diagnosticado com a síndrome de burnout, relativamente ao seu grupo, se simultaneamente se encontrar acima do percentil 66 dos scores de Exaustão e Descrença e abaixo do percentil 33 dos scores de Realização. Os valores decilicos e os percentis 66 e 33 dos 3 factores da MBI-SS são apresentados no quadro 5.

Quadro 5 Valores médios (M), desvios-padrão (SD), valores decilícos e percentis 33 e 66 dos 3 factores da MBI-SS na amostra do estudo.

DISCUSSÃO O estudo da escala MBI-SS de Schaufeli et al. (2002), mostra algumas limitações psicométricas quando avaliadas numa amostra de estudantes universitários.

Chamámos a atenção para o facto de o factor Eficácia apresentar uma fiabilidade de constructo inferior ao desejável. Também a estrutura factorial poderia ser melhorada pela remoção dos itens 4, 14 e 15, sugestão que desenvolvemos num estudo complementar (Maroco, Tecedeiro, Martins & Meireles, 2008).

Finalmente, a escala MBISS não apresenta um score global de Burnout, facto este que tem sido apontado como uma das principais limitações à utilização da escala (Kristensen, Borritz, Villadsen & Christensen, 2005). Também num outro estudo complementar (Maroco et al. 2008) apresentamos uma sugestão de cálculo de score global que carece, contudo, de validação empírica. Ainda assim a Escala de Burnout para Estudantes, por ter revelado uma adequada validade factorial e fiabilidade na amostra sob estudo, demonstra ser um instrumento sensível, válido e fiável na avaliação da síndrome de Burnout em estudantes universitários da área da Psicologia.


transferir texto