Optimismo, suporte social e morbilidade psicológica em filhos adultos de
doentes oncológicos
O diagnóstico de cancro apresenta implicações não só para o doente mas também
para o seu familiar/cuidador (Figueiredo & Pereira, 2007b). De acordo com
alguns autores, este diagnóstico, implica, potencialmente, a percepção de
disrupção do percurso de vida do paciente (Teles, Ribeiro, & Cardoso,
2003), bem como inúmeras alterações no seio familiar (Given & Given, 2001;
Sherwood et al., 2008). Hernández (1998 in Figueiredo & Pereira, 2007a)
refere que as doenças crónicas, nomeadamente a doença oncológica, podem levar a
modificações da estrutura, rendimento e estabilidade familiar. Nesse sentido,
este tipo de diagnóstico, geralmente tem inerente uma reorganização do dia-a-
dia dos sujeitos implicados, bem como uma alteração ao nível das relações,
planos de futuro, papéis, responsabilidades e padrões de interacção familiar
(Figueiredo & Pereira, 2007a).
Kurtz e colaboradores (1995) salientaram a importância de compreender as
necessidades físicas e psicológicas dos doentes mas também, as reacções do
cuidador a essas mesmas necessidades, tentando conhecer como se vai processando
essa relação ao longo do tempo. Assim, é crucial planear e estudar variáveis
relativas não só ao doente oncológico, mas também a outros significativos, que
influenciam de alguma forma, todo o processo decorrente do diagnóstico e
tratamento, não esquecendo que a maior parte das vezes se vêem envolvidos nesta
nova realidade sem qualquer preparação prévia.
Os avanços nas terapêuticas de combate ao cancro têm-se caracterizado por um
aumento na esperança média de vida do doente e, quase que consequentemente, por
uma alteração das políticas de saúde (Sherwood et al., 2008), que vão cada vez
mais no sentido de um menor tempo de internamento do doente e de uma maior
responsabilização do seu familiar, no que concerne ao apoio emocional e
prestação de cuidados (Sales, 2003). Como não raramente são os filhos adultos
dos pacientes que abraçam a missão de cuidar e garantir económica e
emocionalmente os progressos e recuperação dos seus pais com doença oncológica
(Cameron, Franche, Cheung, & Stewart, 2002), tornase essencial compreender
o impacto que esta tem, de forma a promover a melhor adaptação e qualidade de
vida dos filhos adultos.
A adaptação a este novo e inquietante acontecimento pode ser muito diferente de
indivíduo para indivíduo, de acordo com um conjunto de factores que influenciam
a capacidade de mudança e reorganização familiar. Entre estes factores
encontram-se os recursos que a família possui e, a forma mais ou menos positiva
com que encara a situação (Figueiredo & Pereira, 2007a). Sales e
colaboradores (1992) argumentam que um conjunto de stressores objectivos, como
o tipo, estádio e prognóstico da doença ou as exigências do cuidar e o stress
do paciente, bem como variáveis contextuais (i.e. características familiares do
prestador de cuidados, como a idade, género e estatuto social do cuidador),
variáveis de interrelações na família (como a comunicação e qualidade das
relações), e o suporte social, podem afectar a adaptação da família à doença. A
literatura tem indicado também, que familiares directos e sobretudo cuidadores
de doentes oncológicos, tendencialmente apresentam elevada morbilidade
psicológica (e.g. Kim, Bakker, & Sipillers, 2007; Kurtz, Kurtz, Given,
& Given, 1995), estando mais vulneráveis a patologias cardiovasculares e ao
comprometimento imunológico (Kiecolt-Glaser, Robles, Heffner, Loving, &
Glaser, 2002).
Toseland e colaboradores (1995) apontam um conjunto de estudos (e.g. Ell,
Nishimoto, Mantell, & Hamovitch, 1998; Sales, 1991; Northouse, 1988) que
indicam que familiares de doentes oncológicos experienciam elevada
sintomatologia depressiva, ansiedade, sintomatologia psicossomática, restrições
nos seus papéis e actividades, tensões conjugais e diminuição da saúde física.
De uma forma geral, os estudos neste âmbito apontam para uma maior manifestação
de sintomatologia depressiva no cônjuge, comparativamente com o doente
oncológico, embora, a literatura também aponte no sentido de que essa
manifestação, nas diferentes populações vá variando de acordo com a fase do
processo em que o doente se encontra (Toseland, Blanchard, & McCallion,
1995). Assim, e tal como Sales (2003) salientou, o impacto da doença crónica em
membros da família pode ser muito variado, especialmente se considerarmos os
elementos com uma maior responsabilidade no cuidar, sendo muito importante
perceber, quais as variáveis que podem contribuir para a adaptação do familiar
a esta condição de crise.
A literatura existente tem demonstrado também que, aquando de períodos
stressantes, o suporte social pode actuar como um factor protector de efeitos
nocivos do stress (Lutgendorf et al., 2008; Santos, Pais-Ribeiro, & Lopes,
2003), bem como uma variável de protecção da saúde (Matsukura, Marturano, &
Oisho, 2002). Dunst e Trivette (1990) propõem a existência de cinco componentes
no suporte social: componente constitucional (elementos que remetam para as
necessidades e combinação entre estas e o suporte existente); componente
relacional (abrange os estatutos familiar e profissional, o tamanho da rede de
apoio e a participação em organizações e actividades sociais); componente
funcional (tipo de suporte disponível, qualidade e quantidade); componente
estrutural (proximidade física, frequência de contactos, proximidade
psicológica, nível da relação, proximidade e consistência) e componente
satisfação (referente à utilidade e à ajuda fornecida) ' aspectos que, segundo
estes autores, são fundamentais para o bem-estar dos indivíduos.
Num estudo de Coelho e Ribeiro (2000), a satisfação com o suporte social também
aparece como tendo um papel importante na resistência psicológica ao stress
resultante da doença, na medida em que a satisfação com o relacionamento
interpessoal (família, amigos e intimidade), se encontra relacionado com a
percepção subjectiva de bem-estar. Santos, Pais-Ribeiro, e Lopes (2003),
mencionam alguns estudos levados a cabo nos anos 80 (e.g. Bishop, 1994) que
demonstraram que pacientes com maiores níveis de suporte social percebido
apresentavam uma adaptação mais positiva a doença bem como uma maior taxa de
sobrevivência comparativamente com os restantes pacientes.
O optimismo é também importante neste contexto porque, ao permitir uma
abordagem diferente a esta problemática, pode contribuir para um estilo de
intervenção alternativo, que vise a promoção de estratégias de coping adequadas
a uma boa adaptação e, a uma melhor preparação do filho adulto para lidar com
esta situação do seu progenitor. O construto optimismo pode ser
operacionalizado enquanto expectativa generalizada de resultados de futuro
positivos (Scheier & Carver, 1985) e, inserido na Teoria de Auto Regulação
do Comportamento, onde é assumido que as acções dos sujeitos são, em grande
medida, influenciadas pelas crenças que estas possuem quanto à probabilidade de
ocorrência dessas mesmas acções. A literatura (e.g. Scheier & Carver, 1985,
1987; Segerstrom, 2005; Segerstrom, Taylor, Kemeny, & Fahey, 1998; Simpson,
Carlson, Beck, & Patten, 2002) mostra que sujeitos optimistas lidam com os
stressores de um modo diferente dos não-optimistas, e indica que esses
apresentam menores níveis de humor negativo e comportamentos de saúde mais
adaptativos, o que, em conjunto, pode contribuir para um melhor estado imune no
sujeito.
A literatura relativa a filhos adultos de pais com doença oncológica é ainda
reduzida, pelo menos em Portugal. As investigações em que estes são
contemplados estão essencialmente relacionadas com a prestação de cuidados ou
então com a vulnerabilidade genética e programas de rastreio. A diminuída
atenção pode ter a sua justificação no facto de durante muito tempo se
considerar que o impacto da doença oncológica parental seria mínimo nos filhos
adultos (Northhouse, 1994 in Mosher & Danoff-Burg, 2005), ao contrário do
que aconteceria nos próprios doentes, onde os estudos se têm debruçado (Visser,
Huizinga, Van der Graaf, Hoekstra, & HoekstraWeebers, 2004). Actualmente,
assistese a um aumento do corpo científico nesta área, particularmente devido
aos seguintes aspectos: os filhos adultos serem os principais fornecedores do
suporte social o que está associado a um aumento da qualidade e esperança de
vida em doentes oncológicos (Uchino, Cacioppo, & Kiecolt-Glaser, 1996); os
cuidadores, que em muitos casos são filhos adultos, depararem-se com a tarefa
de conciliar todo um conjunto de necessidades com as exigências que advêm da
prestação de cuidados (Raveis, Karus, & Siegel, 1998). Tal exigência tem
associado um aumento de stress e morbilidade psicológica (e.g. Mosher &
Danoff-Burg, 2005; Given et al., 2005); a própria experiência de possuir um
pai/mãe com neoplasia maligna ser por si só, um desencadeador de stress e
ansiedade, assim como um potencial impulsionador de sintomatologia depressiva,
na medida que os filhos passam pelas diferentes fases da doença dos pais e
confrontam-se não só com a possível mortalidade dos pais, como também com a sua
própria vulnerabilidade à doença (Mosher & Danoff-Burg, 2005).
É ainda importante mencionar que nos estudos como os de Barush e Spaid (1989)
ou Hoyert e Seltzer (1992) em que a amostra utilizada é de cônjuges e filhos
cuidadores, os resultados demonstram que os filhos adultos apresentam menos
problemas financeiros e físicos comparativamente com os cônjuges, mas estão
igualmente vulneráveis à elevada morbilidade psicológica. Compas e
colaboradores (1996) apresentam resultados que mostram que jovens adultos
apresentam níveis mais elevados de sintomatologia ansiosa e depressiva, dado
que variabilidade de exigências inerentes à função de cuidar pode ser física e
psicologicamente exaustiva para os prestadores de cuidados (Porter, Keefe,
Lipkus, & Hurwitz, 2005).
Assim, tendo presente a literatura existente, com este trabalho pretendemos
responder ás seguintes questões tendo por base uma amostra portuguesa de filhos
adultos de doentes oncológicos:
1. Será que existe uma relação entre optimismo e morbilidade psicológica e
entre optimismo e satisfação com o suporte social nos filhos adultos de doentes
oncológicos?
2. Será que existem diferenças entre optimistas e não-optimistas,
relativamente à morbilidade psicológica e satisfação com o suporte social?
MÉTODO
Amostra
Este estudo contou com a participação de 46 filhos adultos de doentes
oncológicos, utentes do Hospital de São Marcos (Braga). Trata-se duma amostra
de conveniência em que todos os participantes são caucasianos e de
nacionalidade portuguesa, cuja média de idade se encontra próximo dos 35 anos.
O Quadro 1 apresenta as características da amostra.
Quadro 1
Distribuição dos Participantes por
Variáveis Sócio-Demográficas
Através do Quadro 2 podemos observar que a neoplasia gastrointestinal maligna
(32.6%) é a patologia mais frequentemente nos pais desta amostra de
participantes e que, relativamente à duração da doença, o mais frequente é o
diagnóstico ter ocorrido durante um período até um ano. Verifica-se ainda que
76.1% dos filhos adultos são cuidadores dos seus pais com neoplasia maligna.
Quadro 2
Distribuição dos Participantes pelas
Variáveis Clínicas
Procedimento
Após parecer favorável da Comissão de Ética do Hospital de São Marcos, iniciou-
se a recolha de dados que decorreu entre Março e Maio de 2008. Os critérios
para inclusão dos sujeitos na investigação foram: filhos com idade superior a
18 anos, sem diagnóstico de doença oncológica e com um progenitor diagnosticado
com neoplasia maligna em tratamento na Unidade de Oncologia do Hospital de São
Marcos sem qualquer outro diagnóstico de doença crónica. Os participantes foram
recrutados quando se apresentavam com os progenitores na Unidade de Oncologia
para consulta médica, tratamento quimioterápico ou internamento.
Instrumentos
As medidas utilizadas neste estudo foram:
- Questionário Sócio Demográfio (Pereira & Amorim, 2008) construído para o
efeito. O seu objectivo é a recolha de informações relativas ao sexo, idade,
estado civil, habilitações literárias, situação laboral, tipo de doença do pai/
mãe, duração do diagnóstico do pai/mãe e tratamentos efectuados pelo
progenitor. Foi ainda abordado o facto do filho poder, ou não, ser cuidador do
seu pai com doença oncológica.
- Escala de Optimismo: instrumento desenvolvido por Scheier e Carver (1985) e
posteriormente revisto por Scheier, Carver, e Bridges (1994). A LOT-R é
constituída por 10 itens, dos quais 6 são indicadores de optimismo (itens
1,3,4,7,9 e 10). Os itens 3,7 e 9 são invertidos e os itens 2,5,6 e 8 não são
cotados. Para cada item a cotação varia entre 0 e 4, sendo que a pontuação
final da escala pode variar entre um mínimo de 0 e um máximo de 24. Cotações
mais elevadas nesta escala significam valores mais elevados de optimismo. Os
sujeitos assinalam a sua opção de resposta de acordo com uma escala de tipo
Lickert. Para este trabalho utilizou-se a versão adaptada da LOT-R, de
Fernandes e McIntyre (2005).
- Escalas de Ansiedade, Stress e Depressão (EADS-21): trata-se duma escala que
avalia os níveis de ansiedade, stress e depressão. Foi utilizado o instrumento
desenvolvido por Lovibond e Lovibond (1995) e adaptado para a população
portuguesa por Pais-Ribeiro, Honrado, e Leal (2004a). Esta é uma escala de 21
itens com opções de resposta em formato Lickert. Pontuações mais elevadas nesta
escala significam maior morbilidade psicológica.
- Escala de Satisfação com o Suporte Social (ESSS): instrumento desenvolvido
por Wethingson e Kessler (1986) validado para a população portuguesa por Pais-
Ribeiro (1999). Em 2003, Santos, Pais-Ribeiro e Lopes procedem à adaptação
deste instrumento a sujeitos com doença oncológica. Esta, é uma escala de auto-
preenchimento do tipo Lickert, composta por 15 frases que permitem ao
participante assinalar o seu grau de concordância com cada uma delas. A ESSS
fornece uma pontuação total em que valores mais elevados correspondem a uma
maior satisfação com o suporte social. Na presente amostra, tendo em
consideração o valor do alpha de cronbach (abaixo de .70), apenas pode ser
utilizada a subescala Intimidade. Esta subescala mede a percepção da existência
de suporte social íntimo através de quatro itens (e.g.Mesmo nas situações mais
embaraçosas, se precisar de apoio de emergência, tenho várias pessoas a quem
posso recorrer, Às vezes, sinto falta de alguém verdadeiramente íntimo que me
compreenda e com quem possa desabafar sobre coisas íntimas).
Análises Estatísticas
Efectuou-se uma análise estatística exploratória das variáveis em estudo,
utilizando os testes de Kolmogrov-Smirnove Shapiro-Wilkpara testar a
normalidade da distribuição. Dado que os resultados apontam no sentido de uma
distribuição não normal dos dados, foram utilizados testes estatísticos não-
paramétricos.
RESULTADOS
Relação entre Optimismo, Morbilidade Psicológica e Satisfação com o Suporte
Social de Intimidade
Podemos observar que as correlações são estatisticamente significativas entre
Optimismo e Morbilidade Psicológica geral (rho = -.647, p<.001), mas também,
entre Optimismo e cada uma das subescalas: Ansiedade (rho = - .465, p<.001),
Stress (rho = -.480, p<.001) e Depressão (rho = -.705, p<.001). Assim,
verifica-se que valores elevados de optimismo, se encontram associados a uma
menor morbilidade psicológica, quer em termos gerais, quer em termos das suas
componentes: ansiedade, stress e depressão. Não se verificam associações entre
optimismo e satisfação com o suporte social medido pela subescala Intimidade
(quadro 3).
Quadro 3
Resultados do Teste de Correlação de Spearman relativamente
às variáveis Optimismo, Morbilidade Psicológica e
Satisfação com o Suporte Social
Diferenças entre Filhos Adultos Optimistas vs. Não-Optimistas na Morbilidade
Psicológica e Satisfação com o Suporte Social de Intimidade
A amostra foi dividida em dois grupos ' Optimistas e Não-Optimistas ', tendo em
consideração o valor da mediana como ponto de corte. Na presente amostra, este
valor é de 13. Nesse sentido, pontuações totais da LOT-R inferiores a este
valor, caracterizavam indivíduos não-optimistas, enquanto valores superiores
definiam sujeitos optimistas. O Quadro 4 apresenta os resultados do teste U de
Mann-Whitney.
Quadro 4
Resultados do teste U de Mann-Whitney relativo às
diferenças na Morbilidade Psicológica e Satisfação com o
Suporte Social em Doentes Oncológicos Optimistas vs. Não-
Optimistas
Podemos observar que, filhos adultos não-optimistas apresentam valores mais
elevados de Morbilidade Psicológica geral (Z= -3.142, p<.001) e que, esta
tendência se mantém ao nível das subescalas: Stress (Z= -2.760, p<.05),
Ansiedade (Z= -2.105, p<.05) e Depressão (Z= -4.226, p<.001). Foram ainda
encontradas diferenças significativas entre filhos adultos optimistas e não-
optimistas ao nível da Satisfação com o Suporte Social, medido através da
subescala Intimidade (Z= -2.158, p<.05). As diferenças encontradas vão no
sentido de filhos adultos optimistas apresentarem menor morbilidade psicológica
e maior satisfação com o suporte fornecido ao nível da intimidade.
Diferenças entre Filhos Adultos Cuidadores vs. Não-Cuidadores ao nível da
Morbilidade Psicológica, Satisfação com o Suporte Social de Intimidade e
Optimismo
Entre filhos adultos cuidadores e não-cuidadores de pais com doença oncológica,
verifica-se que apenas existem diferenças ao nível do Stress (Z= -2.052,
p<.05), sendo que filhos adultos cuidadores tendem a apresentar valores de
stress mais elevados comparativamente com filhos adultos nãocuidadores. O
Quadro 5 apresenta os resultados do teste U de Mann-Whitney.
Quadro 5
Resultados do Teste U de Mann-Whitney entre Filhos Adultos
Cuidadores e Não-Cuidadores ao nível da Morbilidade
Psicológica, Satisfação com o Suporte Social e Optimismo
Variáveis Sócio-Demográfica s/Clínicas e Morbilidade Psicológica, Satisfação
com o Suporte Social de Intimidade e Optimismo
As variáveis sócio-demográficas e clínicas testadas são as que aparecem
descritas nos quadros 1 e 2.
No que concerne ao sexo, as diferenças encontradas (Z= -2.122, p=.034) apontam
no sentido de indivíduos do sexo feminino apresentarem valores mais elevados de
optimismo (ordem média=24.57) comparativamente com sujeitos do sexo masculino
(ordem média=14.44).
Relativamente ao estado civil, o teste de diferenças foi limitado às categorias
solteiro e casado/em união de facto (devido ao número de participantes),
tendo-se utilizado, por este motivo, o Teste U de Mann-Whitney. Os resultados
indicam que apenas é significativa a diferença entre solteiros e casados/em
união de facto, no que concerne ao total de morbilidade psicológica (Z= -
2.056, p=.03), sendo que solteiros tendem a apresentar valores de morbilidade
geral mais elevados (ordem média=22.58) comparativamente com casados e em união
de facto (ordem média=7.50).
Não se verificaram diferenças significativas ao nível das restantes variáveis
sócio-demográficas (situação laboral e habilitações literárias), nem ao nível
das variáveis clínicas (duração doença e tipo de tratamentos) no que concerne à
morbilidade psicológica, optimismo e satisfação com o suporte social de
intimidade.
DISCUSSÃO
Os resultados obtidos neste estudo vão no sentido dos apresentados pela
literatura: optimismo, morbilidade psicológica e satisfação com o suporte
social encontram-se correlacionados i.e. filhos com níveis de optimismo mais
elevados apresentam maior satisfação com o suporte social e menores níveis de
morbilidade psicológica.
Tal como anteriormente mencionado, a investigação tem indicado, que a
experiência de uma doença oncológica é um acontecimento potencialmente
desorganizador quer para o doente, quer para a família (Pereira & Lopes,
2002). Considerando, especificamente, a situação do filho adulto, verifica-se
que este período pode ser destabilizador e implicar um conjunto de alterações
no seu quotidiano, não só por passarem a ter que lidar com a possibilidade de
perda da figura parental e percepção da sua própria vulnerabilidade e
mortalidade (Mosher & Danoff-Burg, 2005), como também pela responsabilidade
acrescida de terem que dar resposta a uma série de exigências para as quais não
receberam qualquer tipo de preparação particularmente a de cuidar (e.g. Raveis,
Karus, & Siegel, 1998). Assim, os filhos adultos passam a ter que conjugar
as necessidades desta nova situação de vida, com todos os outros papéis por que
são responsáveis (e.g. Sales, 2003); quanto mais, e mais exigentes, forem as
novas responsabilidades a que têm que dar resposta, maior será a probabilidade
de manifestação de níveis mais elevados de morbilidade psicológica (Mosher
& Danoff-Burg, 2005; Sales, 2003). Neste sentido, é de extrema importância
compreender quais as características ou factores que podem ajudar não só a uma
melhor adaptação a períodos de crise, mas também, conhecer os que apresentam
algum potencial ao nível da disponibilidade destes, para assumirem as novas
responsabilidades inerentes ao cuidar e à resposta às tarefas que esta
actividade implica.
Estudos têm demonstrado que o optimismo de disposição e o suporte social
funcionam como factores protectores da saúde (Brissete, Scheier, & Carver,
2002). Nesse sentido, sujeitos com uma orientação optimista utilizam
estratégias de coping que permitem uma resolução adequada dos problemas e
dificuldades que a situação de crise impõe, apresentando, ainda, mais e mais
adequadas relações sociais de suporte, bem como uma maior satisfação com elas
(Brissete et al, 2002; Kivimäki et al., 2005; Santos, Pais-Ribeiro, &
Lopes, 2003). De uma forma geral, níveis elevados de optimismo e satisfação com
o suporte social têmse mostrado importantes na contribuição para menores níveis
de morbilidade psicológica (David, Montgomery, & Bovbjerg, 2006), mais
especificamente, para uma menor apresentação de sintomatologia depressiva
(Giltay et al., 2006; Hann et al., 2002), facto aliás, constatado neste estudo.
Considerando o cuidar de alguém com doença crónica imbuído de implicações a
nível físico, psicológico, imunológico e económico (Ivarsson, Sidenvall, &
Carlsson, 2004; Sherwood et al., 2008; Vitaliano et al., 2002), facilmente se
compreende que o diagnóstico e tratamento de neoplasia maligna sejam
acontecimentos que impliquem também, um grande nível de stress, não só para o
doente mas também para o cuidador, que apresenta uma elevada sintomatologia
depressiva, ansiosa e de exaustão (e.g. Given et al., 2005; Kozachik et al.,
2001). Os resultados obtidos no presente estudo são apoiados por esses estudos:
os filhos adultos cuidadores manifestam maiores níveis de stress quando
comparados com filhos adultos não-cuidadores, aspecto potencialmente
justificado, com a alteração das políticas de saúde e o aumento da eficácia dos
tratamentos, que permitem que o doente viva mais tempo e passe menos tempo
institucionalizado. Consequentemente, assiste-se à responsabilização crescente
de familiares no que concerne à prestação de cuidados e suporte, emocional e
económico (e.g. Justo, 2002; Sherwood et al., 2008), principalmente de filhos
adultos. Estas situações levam ao aumento do sofrimento psicológico dos
cuidadores informais, nomeadamente filhos adultos, que se vêem numa situação
para a qual não apresentam qualquer tipo de preparação (e.g. Cotrim &
Pereira in Pereira, 2007), o que aumenta não só os níveis de stress sentidos,
como também os sobrecarrega em termos de tarefas e responsabilidades inerentes
aos restantes papéis que desempenham. É ainda importante não esquecer que esta
vivência da experiência de cuidar e a potencial exaustão que daí pode advir é
também influenciada por factores como a personalidade do cuidador, o suporte
social e a satisfação com este, e o estatuto funcional da família (e.g. Cotrim
& Pereira, 2007). Seguindo esta linha de orientação, níveis elevados de
stress manifestados por filhos adultos cuidadores podem também estar
relacionados com o processo e tempo da prestação de apoio físico e emocional
(Kurtz, Kurtz, Given, & Given, 1995, Mosher & Danoff-Burg, 2005).
A literatura indica que existem diferenças ao nível da morbilidade psicológica
aquando de doenças crónicas, entre sujeitos do sexo feminino e do sexo
masculino (e.g. Gilbar, 1999; Hirsh, 1996). Segundo alguns autores (Mosher
& Danoff-Burg, 2005), a morbilidade é especialmente elevada em filhas
cuidadoras de doentes oncológicos, uma vez que estas têm que conjugar as
exigências dos diferentes papéis que desempenham no diaadia (Brody, 1981;
Mosher & Danoff-Burg, 2005), com a nova responsabilidade inerente à
prestação de cuidados. De acordo com Ravais, Karus e Siegel (1998), filhas
adultas cuidadoras tentam equilibrar as exigências de cada um dos papéis que
desempenham, através da redução das horas de lazer e de trabalho, podendo
mesmo, em alguns casos, despedir-se do emprego como forma de assegurar a
prestação de cuidados e apoio aos pais com neoplasia maligna. Um
particularidade salientada em alguns estudos (e.g. Mosher & Danoff-Burg,
2005) é o facto de, socialmente, ser esperado que as mulheres desempenhem as
tarefas associadas à prestação de cuidados como uma tarefa inerentemente sua, o
que, segundo esses autores, diminui o apoio social de que podem beneficiar, ao
contrários dos cuidadores do sexo masculino, que, estando, supostamente, a
desempenhar algo para além das suas obrigações é reconhecido e recompensado
socialmente com uma maior quantidade/qualidade de apoios disponibilizados. No
presente trabalho, filhas adultas de doentes oncológicos tendem a apresentar
valores mais elevados de optimismo quando comparado com filhos adultos, no
entanto, este resultado deve ser analisado com o devido cuidado uma vez que o
número de elementos que compõem os dois grupos é bastante discrepante.
No que concerne às diferenças obtidas neste estudo, relativamente ao estado
civil, verifica-se que estão apoiadas por estudos prévios. Na maioria das
investigações, os resultados vão no sentido de sujeitos casados manifestarem
melhor estado de saúde geral comparativamente com solteiros, divorciados ou
viúvos (e.g. Aragona, Monteduro, Colosimo, Maisano, & Geraci, 2008;
Goldman, Korenman, & Weinstein, 1995; Kisker, 1990). No presente trabalho,
observam-se também diferenças significativas, sendo que os filhos adultos
solteiros tendem a manifestar níveis de morbilidade psicológica (stress,
ansiedade e depressão) mais elevados, comparativamente com filhos adultos
casados/juntos. Estes menores níveis de depressão e morbilidade psicológica
(stress, ansiedade e depressão) nos filhos casados podem, de alguma forma,
dever-se ao facto de indivíduos casados apresentarem uma rede de suporte mais
alargada, onde os relacionamentos são mais próximos e, o estatuto sócio-
económico que detêm (Goldman, Korenman, & Weinstein, 1995), lhes permite
lidar com esta situação de crise e adaptarem-se melhor à mesma.
Com este trabalho pretendeu-se estudar a relação entre optimismo, morbilidade
psicológica e satisfação com o suporte social, bem como a relação entre estas
variáveis psicossociais e variáveis demográficas e clínicas, numa amostra de
filhos adultos de doentes oncológicos.
Através dos resultados obtidos e apresentados observa-se a existência de uma
relação significativa entre a morbilidade psicológica geral (i.e. enquanto
somatório das subescalas stress, ansiedade e depressão bem como entre cada uma
das subescalas (ansiedade, stress e depressão) e o optimismo, i.e. filhos
adultos de doentes oncológicos que apresentam uma orientação optimista,
manifestam níveis mais reduzidos de morbilidade psicológica geral, assim como
de ansiedade, stress e depressão, individualmente. Observou-se, ainda, que
existem diferenças entre filhos adultos optimistas e não-optimistas no que
concerne à satisfação com o suporte fornecido pela subescala intimidade.
Verificou-se ainda, que participantes do sexo feminino apresentam valores mais
elevados de optimismo e que os filhos adultos casados, apresentam níveis de
morbilidade psicológica mais baixos comparativamente com filhos adultos
solteiros. Um outro dado relevante é o facto de quando os pais apresentam
doença metastizada, os filhos s apresentarem valores mais elevados de
morbilidade psicológica. É ainda importante salientar que, filhos adultos
cuidadores apresentam um maior nível de stress quando comparados com não
cuidadores.
Espera-se que este estudo tenha contribuído não só para identificar a
importância de variáveis cognitivas, como o optimismo, mas também para futuras
intervenções junto de filhos adultos. Neste sentido, será importante
implementar acções que promovam a gestão de stress e ansiedade, bem como o
desenvolvimento de competências de comunicação e prestação de cuidados, de modo
a diminuir a vulnerabilidade à morbilidade psicológica e aumentar a
disponibilidade física e psicológica do cuidador para a prestação de cuidados.
Dadas as limitações do estudo particularmente o tamanho da amostra, os
resultados devem ser interpretados com cuidado, no entanto, vão no sentido da
importância do optimismo na intervenção psicológica na doença oncológica.
Neste estudo a principal limitação prende-se com a amostra de conveniência que
é limitada em termos de localização geográfica e número. Nesse sentido, a
generalização dos resultados é muito limitada o que, muito provavelmente, terá
também limitado a utilização de algumas das subescalas dos instrumentos
utilizados. Além disso, a utilização de instrumentos de auto relato constitui
também uma limitação do estudo. Investigações futuras deveriam incluir amostras
maiores bem como doentes e respectivos filhos com diferentes tipos de cancro e
em diferentes estádios no sentido de ser possível uma comparação entre
diferentes grupos de filhos de doentes oncológicos.