Avaliação neuropsicológica da perturbação de oposição e desafio
A Perturbação de Oposição e Desafio (POD), como exposto na DSM-IV-TR: Manual de
Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais(American Psychiatric
Association, 2002) encontra-se inserida nas perturbações disruptivas do
comportamento e de défice da atenção que, por sua vez, se incluem numa secção
mais alargada de perturbações da primeira e segunda infância ou da
adolescência. O comportamento disruptivo deve durar, pelo menos, seis meses, e
comportar a ocorrência frequente de, no mínimo, quatro dos seguintes sintomas:
encolerizar-se, discutir com os adultos, desafiar ou recusar cumprir os pedidos
ou regras dos adultos, aborrecer deliberadamente as outras pessoas, culpar os
outros dos seus próprios erros ou mau comportamento, susceptibilizar-se ou ser
facilmente molestado pelos outros, sentir raiva ou estar ressentido, mostrar-se
rancoroso e vingativo. É ainda comum a presença de impulsividade (Borduin,
Henggeler, & Manley, 1995).
É uma perturbação com grande visibilidade em casa, não tendo obrigatoriamente
de se manifestar na escola ou na comunidade. Apresenta comorbilidade elevada
com a Perturbação da Hiperactividade com Défice de Atenção, Perturbações da
Aprendizagem e Perturbações da Comunicação. Os sintomas tendem a aumentar com a
idade, sendo que a sua prevalência antes da puberdade é maior nos rapazes do
que nas raparigas, tendendo depois a igualar-se em ambos os géneros (DSM-IV-TR,
2002). A sua importância reside, ainda, no facto de constituir um antecedente
evolutivo da Perturbação de Comportamento (PC), caracterizada por
comportamentos mais graves, que implicam a violação dos direitos básicos das
outras pessoas ou normas sociais adequadas à idade do sujeito (Lahey, Loeber,
& McBurnett, 2000; Stahl & Clarizio, 1999).
É comum a POD ser estudada em conjunto com a Perturbação de Hiperactividade e
Défice de Atenção (PHDA), devido à comorbilidade elevada entre as duas
perturbações (a prevalência estimada de POD em amostras clínicas de PHDA é
cerca de 50% mais elevada do que na população geral; Serra-Pinheiro, Schmitz,
Mattos, & Souza, 2004). Por vezes, os indivíduos com distúrbios de oposição
na infância podem também ser denominados como tendo comportamentos anti-sociais
(Fonseca, 2000; Pacheco, Alvarenga, Reppold, Piccinini, & Hutz, 2005).
Entende-se, assim, que no decurso desta introdução, se recorra a literatura em
que figurem estes diferentes termos, apesar de ter sido dado especial ênfase às
investigações que retratam a POD de forma isolada e concreta.
É possível encontrar na bibliografia existente uma associação da POD com
défices neuropsicológicos (Giancola, Mezzich, & Tarter, 1998; Henry &
Moffitt, 1997; Loeber & Hay, 1997; Lynam & Henry, 2001; Nigg &
Huang-Pollock, 2003; Speltz, DeKlyen, Calderon, Greenberg, & Fisher, 1999).
Contudo, a informação relativa a uma caracterização neuropsicológica da POD é
escassa e contraditória. Ainda assim, às crianças com POD são normalmente
associados défices nas competências verbais, nas funções executivas (Speltz et
al., 1999), e na atenção (Loeber & Hay, 1997).
Entre as três competências referidas, a atenção é a que é menos vezes associada
à POD, se bem que os problemas de atenção pareçam ser determinantes na
agressividade juvenil, um dos comportamentos visíveis nos jovens com esta
perturbação (Loeber & Hay, 1997). Porém, os problemas de atenção usualmente
surgem associados a comportamentos hiperactivos e impulsivos (Loeber & Hay,
1997), o que torna mais difícil entender se os défices encontrados se devem à
PHDA ou à POD.
O início dos problemas de atenção dá-se, na maior parte das vezes, durante o
período pré-escolar, isto é, na altura em que os comportamentos agressivos
surgem em muitas crianças (Loeber & Hay, 1997). Por outras palavras, os
défices de atenção parecem estar, sobretudo, presentes em casos de início
precoce de perturbações de comportamento de tipo externalizante (Hogan, 1999).
Apesar de menos estudada que as funções executivas (Nigg & Huang-Pollock,
2003), a linguagem também figura na bibliografia existente sobre o
funcionamento neuropsicológico das crianças com POD (Déry, Fortin, Mercier,
Pauzé, & Toupin, 1999; Frost, Moffitt, & McGee, 1989; Henry &
Moffitt, 1997; Loeber & Hay, 1997; Lynam & Henry, 2001; Nigg &
Huang-Pollock, 2003; Speltz et al., 1999). O desenvolvimento normal da
linguagem é visto como um factor essencial nos processos pró-sociais, tal como
na capacidade de adiar uma gratificação, antecipar consequências, e relacionar
punições tardias com transgressões anteriores (Wilson & Hernstein, 1985,
cit in Henry & Moffitt, 1997). Por conseguinte, os efeitos das competências
verbais no princípio da infância podem ser um elemento causal destas
perturbações. Usualmente, graves problemas comportamentais são precedidos por
défices verbais em idade precoce, relação que aumenta para as crianças com uma
história de problemas de atenção (Nigg & Huang-Pollock, 2003). Além disso,
a população com perturbações de comportamento de tipo externalizante apresenta,
normalmente, QI's verbais abaixo da média nas escalas de inteligência (Frost et
al., 1989).
Estudos da situação de POD ou PC em comorbilidade com PHDA, em comparação com
POD ou PC sem PHDA, mostram que a situação de comorbilidade produz défices
verbais mais graves. Contudo, os resultados obtidos na situação isolada
evidenciaram, igualmente, um baixo desempenho, o que apoia a hipótese de estes
défices serem realmente específicos desta perturbação e não apenas um resultado
da comorbilidade com a PHDA (Déry et al., 1999; Speltz et al., 1999).
Não obstante, outros estudos contrariam a hipótese de défice verbal, afirmando
que este não é verificável nos sujeitos com POD relativamente a outros sujeitos
(Frick, O'Brien, Wooton, & McBurnett, 1994; Frost et al., 1989; Hodges
& Plow, 1990; Hogan, 1999), mas antes quando comparamos os seus próprios
resultados em tarefas verbais e não verbais (Hodges & Plow, 1990). Por sua
vez, Frick et al. (1994) encontraram uma correlação negativa entre POD/PC e QI
de Realização, e nenhuma correlação com o QI Verbal.
Já Hogan (1999), numa revisão da literatura, conclui que na maior parte das
vezes em que é encontrado um QI Verbal muito baixo, este é consonante com o QI
de Realização, não se podendo considerar, segundo este autor, os défices nas
competências verbais como área exclusiva e primária das perturbações de
comportamento de tipo externalizante. Como é possível constatar, a informação
existente actualmente é bastante ambígua, visto que acaba por se contradizer
nos pontos essenciais.
O domínio neuropsicológico mais estudado na POD refere-se às funções executivas
(Giancola et al., 1998; Henry & Moffitt, 1997; Hogan, 1999; Nigg &
Huang-Pollock, 2003; Speltz et al, 1999). Estudos de crianças em idade pré-
escolar, como os realizados por Hughes, Dunn e White (1998, cit in Nigg &
Huang-Pollock, 2003) e Hughes, Sharpen e Dunn (2000, cit in Nigg & Huang-
Pollock, 2003), sugerem que os domínios das funções executivas mais
relacionados com as perturbações disruptivas do comportamento são o controlo
inibitório e o planeamento. Um estudo longitudinal de Nigg, Quamma, Greenberg,
e Kusche (1999), mostrou que problemas nas funções executivas, entre os seis e
os oito anos, prediziam problemas de comportamento posteriores,
independentemente do género dos indivíduos.
Outros estudos assinalam que um funcionamento executivo pobre em idade pré-
escolar aparece primariamente relacionado com os sintomas de PHDA, e não da
POD, sendo que essa confusão acontece devido à grande sobreposição entre as
duas perturbações (Clark, Prior, & Kinsella, 2000; Thorell & Wahlstedt,
2006). Por exemplo, Thorell e Wahlstedt (2006) verificaram que, quando a
condição de comorbilidade com PHDA era controlada, as crianças com níveis
graves de sintomas de POD não diferiam nos resultados referentes às funções
executivas em relação a crianças com baixos níveis destes sintomas. No entanto,
esta investigação comporta algumas limitações relevantes, como o facto de
incluir apenas uma tarefa para cada função, e de deixar de lado algumas funções
executivas como a flexibilidade cognitiva e o planeamento.
Por seu turno, Nigg e Huang-Pollock (2003) contrapõem que a relação entre
problemas nas funções executivas e PHDA é mais clara em idades precoces,
enquanto que as relações específicas do controlo executivo com outras
perturbações de comportamento de tipo externalizante são mais visíveis em
idades tardias.
Tal como salientado anteriormente, o perfil neuropsicológico da POD é alvo de
pouca investigação, e a informação existente é ambígua e comporta, por vezes,
limitações metodológicas (Mofitt, 1993, cit in Déry et al., 1999). Uma dessas
limitações é a integração do diagnóstico de POD com outros diagnósticos, o que
impossibilita distinguir os verdadeiros efeitos desta perturbação. Deste modo,
é de grande relevância controlar as diferentes comorbilidades em investigações
de delineação de perfis neuropsicológicos.
O presente estudo tem como objectivo caracterizar o desempenho neuropsicológico
de um grupo de sujeitos com POD, no que se refere ao funcionamento da
linguagem, atenção e funções executivas. Para o efeito seleccionaram-se alguns
testes da Bateria de Avaliação Neuropsicológica de Coimbra (BANC; SAPIENS/
POCTI/354102000, projecto financiado pela Fundação para a Ciência e
Tecnologia). Constitui-se ainda, como objectivo adicional, o estudo da validade
discriminante de alguns testes da BANC e a caracterização do comportamento das
crianças com POD, em situação de teste, com recurso ao Guia de Avaliação do
Comportamento na Sessão de Teste (GATSB).
MÉTODO
Participantes
O grupo clínico foi recolhido no Hospital Pediátrico de Coimbra e no
Departamento de Pedopsiquiatria e Saúde Mental Infantil e Juvenil de Coimbra.
Para este efeito, foram endereçados um pedido de autorização à Comissão de
Ética do Hospital Pediátrico de Coimbra e outro à Direcção do Departamento de
Pedopsiquiatria e Saúde Mental Infantil e Juvenil de Coimbra. A todos os pais
foi pedido o consentimento informado para a participação na investigação. Em 2
dos casos elegíveis, os encarregados de educação negaram-se a autorizar a
participação da criança, uma das crianças apresentou recusa perante a situação
de teste e outra apresentou recusa em um dos testes apresentados (Barragem de 2
Sinais).
Foram avaliadas as crianças que haviam sido identificadas, pelos respectivos
psicólogos ou psiquiatras, como preenchendo os critérios da DSM-IV-TR (APA,
2002) para a POD. Foi usado, igualmente, como critério de integração no grupo
clínico, tratar-se de crianças recentemente identificadas, ou numa fase inicial
de intervenção, de forma a serem controlados enviesamentos provocados pelos
efeitos da intervenção. Foram excluídas as crianças que apresentavam um
diagnóstico comorbido com PHDA.
O grupo de controlo foi seleccionado da amostra normativa da BANC, através de
emparelhamento caso a caso, atendendo primariamente às variáveis idade e género
(Quadro 1). Foram, ainda, consideradas as variáveis ano de escolaridade (Quadro
1), nível socioeconómico
1
(NSE), região geográfica e área de residência.
Quadro 1
Caracterização da amostra em termos de idade, género e escolaridade
No total, 31 crianças com POD e idades entre os 5 e os 15 anos, participaram no
estudo. Em ambos os grupos, 23 das crianças são rapazes e 8 são raparigas e
frequentam, maioritariamente, o 1º ciclo. Além disso, a maioria das crianças do
grupo com POD e do grupo de controlo vivem no litoral (respectivamente, 54.8%
do grupo com POD e 51.6% do grupo de controlo), em áreas predominantemente
urbanas (61.3% e 71%) e são oriundas de NSE baixo (54.8% do grupo com POD) ou
médio (51.6% do grupo de controlo).
Não foram encontradas diferenças significativas entre os dois grupos para
qualquer uma das variáveis utilizadas no emparelhamento, tal como determinado
pelo Teste do Qui-Quadrado em relação ao ano de escolaridade [X2(2) = 0,60; p>
0,05] e ao NSE [X2(2) =0,60 (p>0,05)], pelo Teste Exacto de Fisher em relação à
região geográfica [Teste Exacto de Fisher(1) = 3,72; p> 0,05], e pela prova
LikelihoodRationo que se refere à área de residência [Λ(2) = 1,33; p> 0,05].
Material
De entre os 20 instrumentos que compreendem a BANC, foram seleccionados 10,
passíveis de serem reunidos em seis grupos, para aplicação ao grupo clínico em
questão: 1) Testes de Nomeação Rápida: Cores, Números, Cores e Formas; 2) Teste
de Compreensão de Instruções; 3) Teste da Barragem de 2/3 Sinais; 4)
TrailMaking Test:Partes A e B; 5) Testes de Fluência Verbal: Fonémica e
Semântica; 6) Torre de Coimbra. Esta selecção foi feita com o intuito de
assegurar um período de administração relativamente breve, tentando abranger as
áreas que parecem estar mais implicadas neste tipo de perturbação.
Estudos extensivos da BANC provam que esta bateria é amplamente satisfatória,
no que se refere às suas propriedades psicométricas. Por exemplo, a validade
discriminante da BANC foi comprovada por alguns estudos, tais como os relativos
a crianças vítimas de traumatismo crânio-encefálico severo (Santos, 2006), a
crianças com dificuldades de aprendizagem (Simões et al., 2007) e a crianças
com epilepsia (Lopes, 2007).
A adaptação e aferição foram feitas com uma amostra normativa de 1104 crianças
com idades compreendidas entre os cinco e quinze anos, tendo cada faixa etária
cem sujeitos.
Os testes de Nomeação Rápidaintegram um teste de nomeação de cores para
crianças com 5 e 6 anos; um teste de nomeação de números e um teste de nomeação
de cores e formas, ambos para crianças e jovens com idades compreendidas entre
os 7 e os 15 anos. Em qualquer um destes testes, solicita-se à criança que
nomeie o mais depressa que lhe for possível 50 estímulos visuais constantes num
cartão, os quais se repetem em sequências aleatórias e lhe são familiares. Além
disso, todos comportam 10 estímulos ou itens de prática, sendo 5 nomeados pelo
examinador e os restantes pela criança.
Os resultados reportam-se ao tempo total dispendido e à precisão das respostas
ou ao número de erros que elas comportam.
Estes testes reflectem a forma automática como a informação na memória
semântica pode ser recuperada (Korkman, Kirk & Kemp, 1998). Além disso,
apelam à velocidade de processamento da informação e a uma hábil coordenação
entre a percepção visual, a atenção, a memória e a articulação (Albuquerque,
2003). Correlacionam-se, ainda, com as funções executivas no sentido que
comportam competências de flexibilidade reactiva e de inibição (Baron, 2004).
O teste de Compreensão de Instruçõesé constituído por 27 instruções
apresentadas oralmente a crianças e jovens, com idades compreendidas entre os 5
e os 15 anos de idade, as quais lhe solicitam que aponte para uma ou mais
figuras dispostas num cartão.
As 27 instruções distribuem-se, em igual número, por 3 partes que envolvem
graus de complexidade e materiais diferentes e que se destinam
preferencialmente a determinadas faixas etárias.
Assim, as 9 instruções da 1ª parte: têm como alvo prioritário crianças com 5 e
6 anos de idade; requerem que elas apontem para um ou mais cãezinhos, de entre
um conjunto de 8 cãezinhos que diferem, entre si, em termos de determinados
atributos figurativos; em casos pontuais, é exigida compreensão de conceitos de
localização, identidade e coordenação.
Por sua vez, as 9 instruções da 2ª e da 3ª parte: destinam-se a crianças com
idades compreendidas entre os 5 e os 15 anos de idade; requerem que elas
apontem para uma ou mais figuras geométricas de entre um total de 9; implicam a
compreensão isolada ou simultânea de conceitos de coordenação, sequência,
localização, inversão temporal, inclusão/exclusão e identidade/diferença. As
instruções da 3ª parte são mais complexas do que as da 2ª parte.
O resultado total corresponde ao número de instruções correctamente executadas.
Dificuldades nesta tarefa podem ser indicativas de problemas na capacidade de
abstracção verbal e no processamento e resposta a instruções verbais de
diferente complexidade sintáctica (Korkman et al., 1998), sendo que a
Compreensão de Instruções é, sobretudo, uma medida da linguagem receptiva
(Baron, 2004). Adicionalmente, este teste é, ainda, susceptível à facilidade
que a criança tem de usar a memória de trabalho e à capacidade de se manter
atenta a ordens de complexidade crescente (Baron, 2004).
O teste da Barragem de 2/3 sinaisconsiste em duas folhas A3, com 1600
quadrados, dos quais, apenas 10 ou 15 (consoante se trate da Barragem de 2 ou 3
sinais) em cada linha são iguais a um dos modelos apresentados no topo da
folha. A Barragem de 2 sinais aplica-se a crianças dos 5 aos 9 anos, enquanto a
de 3 sinais é aplicada dos 10 aos 15 anos.
A tarefa do sujeito consiste em desenhar um traço por cima dos quadrados alvo
(2 ou 3, de acordo com o teste e a idade do sujeito), durante 10 minutos.
Podem ser derivadas várias pontuações deste teste. O número de estímulos
correctos (C) refere-se ao número de estímulos que o sujeito acertou
independentemente dos erros, as lacunas (L) são os estímulos que o sujeito
omitiu e os erros de comissão (E) são os estímulos que assinalou
incorrectamente. O resultado total é calculado a partir da fórmula [C '
(L+E×2+1)] /10 ou, na ausência de lacunas e erros, por C/10.
Este teste avalia, essencialmente, a atenção selectiva e a sustentada, ou seja,
a capacidade de atender a um estímulo em detrimento de outros e a aptidão para
manter a atenção numa tarefa por um período de tempo alargado (Alberto, 2003).
Adicionalmente, são necessárias capacidades de exploração visual com exactidão,
e activação e inibição de respostas rápidas.
O Trail Making Testé composto por duas partes distintas: a Parte A e a Parte B.
A Parte A é aplicável dos 5 aos 15 anos, mas a Parte B apenas se aplica a
partir dos 7 anos de idade.
Na Parte A, o sujeito deve traçar uma linha que una 25 círculos numerados,
distribuídos aleatoriamente numa folha, pela ordem apropriada, desde o 1 ao 25.
Na Parte B, o sujeito deve traçar uma linha de forma a unir, sequencialmente,
25 círculos com números ou com letras, distribuídos aleatoriamente numa folha,
alternando números, do 1 ao 13, e letras, do A ao M (por ex. 1, A, 2, B, 3, C,
etc.).
Os resultados correspondem ao tempo necessário para a realização da tarefa e ao
número de erros.
O Trail Making Test tem uma grande sensibilidade para identificar a presença de
défices cognitivos. É descrito como uma medida de competências motoras e
espaciais simples, competências de sequenciação básicas, flexibilidade mental,
atenção selectiva, competências visuo-perceptivas, velocidade motora e funções
executivas (Mitrushima, Boone, Razani, & D'Elia, 2005). Contudo, a Parte B
é uma medida mais complexa do que a parte A pois requer uma alternância
sequenciada.
Os testes de Fluência Verbalavaliam a aptidão para gerar palavras de acordo com
categorias semânticas (Fluência Verbal Semântica, FVS) e fonémicas (Fluência
Verbal Fonémica, FVF). Na FVS, que se aplica dos 5 aos 15 anos, o sujeito deve
produzir o máximo de nomes de animais (item 1), depois o máximo de nomes de
meninos e meninas (item 2) e, finalmente, o máximo de coisas para comer
(item 3), todos eles no tempo de um minuto. Na FVF, aplicável apenas a crianças
entre os 7 e os 15 anos de idade, os sujeitos devem nomear o máximo de palavras
começadas pelas letras P (item 4), M (item 5) e R (item 6), em ensaios de um
minuto por cada letra. Os resultados correspondem ao número de palavras
correctas.
Estes testes requerem a mobilização de um conjunto de aptidões como a
linguagem, a memória e as funções executivas. A nível da linguagem, a FVF
reflecte melhor as aptidões fluidas, enquanto a FVS envolve as aptidões
cristalizadas (Simões, 2003). Envolvem a rapidez de produção lexical, acesso
lexical automático e reflectem a organização lexical (Baron, 2004). São tarefas
bastante utilizadas para avaliar as funções executivas, recorrendo ao nível de
iniciativa e atenção para se manter em produção (Simões, 2003), ou ainda, à
inibição da quebra de regras (Baron, 2004).
O teste Torre de Coimbraé uma adaptação da Torre de Londres, aplicável dos 5
aos 15 anos. É constituído por 12 ou 14 modelos que o sujeito tem de reproduzir
numa torre com três bolas de cores diferentes (azul, vermelha e verde), tendo
como estímulo um conjunto de fotografias. Existem três regras que devem ser
respeitadas para o sucesso desta tarefa. Os erros de tipo I ocorrem quando o
sujeito tenta colocar no pino mais bolas do que aquelas que pode fisicamente
conter; os erros de tipo II, quando o sujeito movimenta em simultâneo duas ou
mais bolas, ou mantém uma ou duas na mão enquanto move a outra, ou coloca uma
ou duas na mesa; e os erros de tipo III sucedem quando o sujeito efectua mais
movimentos do que os permitidos para a reprodução do modelo. Em cada modelo são
permitidos até quatro ensaios.
Nesta investigação, serão analisados os seguintes resultados: número
padronizado de problemas correctos no primeiro ensaio; total padronizado de
problemas correctos; número total padronizado de ensaios realizados; total
geral padronizado (calculado a partir de um sistema de pontos que tem em conta
o número do ensaio, para cada modelo, em que a criança conseguiu atingir o
objectivo); e o número de erros total e de tipo I, II e III.
A Torre de Coimbra avalia as seguintes funções executivas: planeamento,
monitorização, auto-regulação e resolução de problemas (Korkman et al., 1998),
sendo utilizada, principalmente, para avaliar a capacidade de planeamento
(Lezak, Howieson, & Loring, 2004).
O Guia de Avaliação do Comportamento na Sessão de Teste (GATSB, Guide to the
Assessment of Test Session Behavior for the WISC-III and the WIAT, Glutting
& Oakland, 1993)é uma escala de 29 itens que avalia o comportamento da
criança durante a sessão de teste. Pode ser utilizada com crianças dos 6 aos 16
anos e foi criada para avaliar o comportamento das crianças ao longo da
aplicação da WISC-III e/ou do WIAT.
O GATSB possui elevada consistência interna, estabilidade teste-reteste
satisfatória e validade de construto consubstanciada por várias análises
factoriais (Glutting & Oakland, 1993).
Esta escala é composta por três factores: evitamento, desatenção e não
cooperação. O factor evitamento é composto por itens de aversão e medo da
tarefa, o factor desatenção é caracterizado por itens que descrevem problemas
de controlo dos impulsos e atenção pobre, e o factor não cooperação mede
comportamentos mais específicos das sessões de teste, reflectindo o ajustamento
da criança, a persistência, e a necessidade de elogio durante a sessão. Por
conseguinte, pontuações elevadas no GATSB podem ser interpretadas como
evidência de comportamento inapropriado na sessão de teste.
A versão portuguesa utilizada neste estudo é uma adaptação da versão americana
(Simões et al., 2000). Neste caso, assumiu-se, que apesar de o GATSB ter sido
criado com o intuito de ser utilizado com a WISC-III e/ou o WIAT, poderia ser
útil na delineação de um padrão comportamental, na presente situação de teste,
das crianças com POD.
Procedimento
Todos os testes foram administrados num local isolado, silencioso, com o menor
número de estímulos distratores possível e apenas na presença do examinador e
da criança. O GATSB foi preenchido somente em relação ao grupo POD e foi
respondido imediatamente após a administração de todos os testes. Devido à
idade de aplicação do GATSB ir dos 6 aos 16 anos, uma das crianças do grupo POD
foi excluída por ter apenas 5 anos.
A análise estatística foi elaborada com recurso ao programa SPSS 15.0 para
Windows.
RESULTADOS
Nomeação Rápida
Dos testes de Nomeação Rápida (Quadro 2), o mais discriminativo entre os grupos
foi o de Nomeação Rápida de Cores e Formas, que dos três é o que acarreta um
maior nível de exigência, visto ser o mais complexo. Com efeito, as crianças do
grupo POD demoraram significativamente mais tempo a executar a tarefa, tal como
calculado pelo tempo padronizado
2
(quanto mais tempo demoram, pior é o seu desempenho e, consequentemente, menor
é o resultado padronizado relativo ao tempo) e cometeram mais erros. Além
disso, o teste de Nomeação Rápida de Números apresentou diferenças
estatisticamente significativas no resultado tempo padronizado, em que, tal
como no anterior, as crianças com POD demoraram mais tempo do que as crianças
do grupo clínico.
Quadro_2
Comparações entre os grupos em Testes de Linguagem
No teste de Nomeação Rápida de Cores não foram encontradas quaisquer diferenças
para os erros ou para o tempo. Contudo, como a amostra, neste caso, é muito
pequena (n=2), os resultados não se afiguram representativos.
Para o grupo POD, estes dados podem indicar dificuldades no acesso à memória
semântica e na velocidade de processamento. O facto das diferenças mais
visíveis se situarem na Nomeação Rápida de Cores e Formas é indicativo de
problemas, não só ao nível das competências mencionadas, mas também ao nível
das funções executivas, no que diz respeito às competências de flexibilidade
cognitiva e inibição.
Compreensão de Instruções
No teste Compreensão de Instruções (Quadro_2), foram encontradas diferenças
significativas entre os grupos, indicando que o grupo POD terá dificuldades no
processamento e resposta a instruções verbais de diferente complexidade
sintáctica, ou seja, na linguagem receptiva. Como este teste é susceptível à
capacidade da memória de trabalho e de manter a atenção, estas dimensões também
poderão estar diminuídas.
Barragem de 2/3 Sinais
Na Barragem de 2/3 Sinais (Quadro 3), que avalia tanto a atenção selectiva como
a sustentada, foram encontradas diferenças apenas para um dos grupos de idade,
o dos 5 aos 9 anos, que realizou a Barragem de 2 Sinais. Estas diferenças
situaram-se nos sinais correctos, mas não nos erros e lacunas, o que se
reflecte também no resultado total padronizado. Tal poderá indicar que a maior
dificuldade das crianças com POD será manter um nível atencional eficaz para a
realização da tarefa, o que produzirá um ritmo mais lento e, por sua vez, uma
proporção menor de acertos. Na situação de teste, foi possível observar que a
Barragem de 2/3 Sinais foi o teste onde as crianças apresentaram maior
resistência, patente no facto de perguntarem muitas vezes quanto tempo faltava
para acabar, de afirmarem que não iam fazer tudo e elaborarem a prova de forma
mais lenta e com necessidade de incentivo constante para que não parassem, o
que vai de encontro aos resultados aqui encontrados.
Quadro_3
Comparações entre os grupos em Testes de Atenção Testes de Fluência Verbal
Já na Barragem de 3 Sinais, aplicada a crianças entre os 10 e os 15 anos, não
foram encontradas diferenças significativas em qualquer dos resultados.
Contudo, as médias dos sinais correctos e do total padronizado para o grupo
POD, foram inferiores às do grupo controlo e ao analisar o valor do desvio-
padrão notou-se, também, uma dispersão mais elevada de resultados tanto nos
sinais correctos como nas lacunas.
É possível, a partir destes resultados, conjecturar que as dificuldades na
atenção sustentada serão mais visíveis nas crianças com POD em idades precoces
do que em idades mais avançadas. Pode ainda acontecer que uma amostra mais
alargada produzisse resultados significativamente diferentes na Barragem de 3
Sinais.
TrailMaking Test
Na realização do Trail Making TestParte A (Quadro_3), os grupos diferiram
significativamente, apenas no número de erros, sendo o grupo POD o que cometeu
maior número de erros. Ainda assim, o grupo POD obteve resultados no tempo
padronizado mais baixos que o grupo de controlo, ou seja, demorou mais tempo na
realização da tarefa.
Na realização do TrailMaking TestParte B, tarefa de maior complexidade,
encontraram-se diferenças significativas nos dois resultados utilizados, ou
seja, o grupo POD além de ter cometido mais erros, também demorou mais tempo na
execução da tarefa.
O facto de terem cometido mais erros na Parte A poderá dever-se a dificuldades
na atenção selectiva, mas também, a dificuldades nas funções executivas, mais
propriamente na capacidade de flexibilidade cognitiva. Isto porque, apesar de
não apresentarem diferenças significativas no tempo dispendido na Parte A,
apresentam diferenças nos dois resultados da Parte B, que além de avaliar a
parte atencional, requer, sobretudo, um mecanismo de alternância cognitiva.
Testes de Fluência Verbal
Nos testes de Fluência Verbal (Quadro 4), observou-se que o total padronizado
do teste de FVS não mostrou diferenças significativas. Apesar disso, os
resultados médios foram inferiores aos do grupo de controlo, e o nível de
significância do teste t de Student, aproximou-se bastante do nível de
significância de .05 (p = 0.06).
Quadro_4
Comparações entre os grupos em Testes de Funções Executivas
Num plano qualitativo, e quando analisadas as respostas dadas neste teste,
verificou-se que, acima de tudo, o número de respostas fornecidas foi pobre,
mas além disso, também foi possível encontrar vários tipos de erros. Os erros
mais comuns prenderam-se com repetições de palavras e o uso de géneros
diferentes para a mesma palavra. Foi, ainda, visível que algumas destas
crianças recorriam à activação de sub-categorias a que se limitavam (por ex. na
categoria dos animais só diziam nomes de animais selvagens ou na comida apenas
nomes de fruta), o que poderá ter ajudado a que conseguissem produzir um número
de palavras suficiente para que não fossem constituídas diferenças
significativas entre os grupos, mesmo que apresentando menor diversidade e
riqueza no tipo de palavras.
Já no Teste de FVF, a partir do resultado total padronizado, verificou-se que
as crianças do grupo POD produziram significativamente menos palavras do que o
grupo de controlo. O resultado total padronizado da Fluência Verbal mostrou-se
significativamente diferente nos dois grupos, com o grupo POD a mostrar maiores
dificuldades.
Deste modo, os resultados apontam para dificuldades nas funções executivas
(quer seja pela falta de iniciativa e atenção para se manter em produção, como
pela ausência de controlo na quebra de regras ou, ainda, por problemas no
acesso à memória de trabalho), e para dificuldades na produção e rapidez
lexical.
Torre de Coimbra
Relativamente às competências de resolução de problemas, planeamento,
monitorização e auto-regulação, tal como são avaliadas pela Torre de Coimbra
(Quadro_4), foi possível constatar que as crianças do grupo POD distinguiram-se
pelo número total padronizado de problemas correctos no 1ºensaio, número
padronizado de problemas correctamente resolvidos, e resultado total
padronizado que são significativamente inferiores aos do grupo de controlo. Por
conseguinte, há indicações de que as crianças com POD apresentam dificuldades
na monitorização e auto-regulação das suas acções. Verificou-se, ainda, que o
grupo POD realizou significativamente um maior número padronizado de ensaios
que o grupo de controlo e cometeu mais erros, o que fez com que se
evidenciasse, em todos os resultados deste teste, por ter maiores dificuldades.
Dentro do tipo de erros, o grupo POD também se destacou por ter maior número de
erros do que o grupo de controlo, tanto no Tipo I, como no II e no III.
Estes resultados indicam que o grupo POD tem maiores dificuldades no
planeamento das acções, mas que também é possível que haja a interferência de
comportamentos impulsivos, tal como é visível por cometerem maior número de
erros do tipo I e do tipo II do que o grupo de controlo.
GATSB
Através da análise dos resultados do GATSB nas crianças com POD (Quadro 5),
verificou-se que, no factor de não cooperação, estas crianças atingiram uma
média elevada (M= 7,40) e que, tendo em conta o desvio-padrão (DP= 5,22), se
registaram algumas pontuações muito próximas do máximo possível para esse
factor (16). Sendo este o factor que avalia os comportamentos mais específicos
da situação de teste (por ex., ajustamento, persistência), este resultado
espelha a tendência para as crianças com POD apresentarem comportamentos
opositores neste contexto.
Quadro 5
Resultados do GATSB
No factor evitamento, usualmente associado a perturbações internalizantes, a
média (M= 8,87) e o resultado máximo (19) estão mais distantes do máximo
possível (22).
Da análise do factor desatenção é possível referir que a média foi elevada (M=
8,07) e que o máximo atingido (19) esteve muito próximo do máximo possível
(20), o que vai de encontro ao esperado, dado que este factor avalia problemas
de controlo de impulsos e comportamento.
Além disso, foi possível constatar que existe uma grande variabilidade nos
resultados, dado que, os mínimos e os máximos atingidos no total e em cada um
dos factores, aproximaram-se tanto do mínimo possível (0) como do máximo e que
os desvios-padrão foram bastante elevados.
Os dados da observação directa na situação de avaliação permitem compreender
melhor estes resultados. A variabilidade é explicada, pois o comportamento do
grupo POD variava tanto de criança para criança, como dentro da própria
situação de teste. Algumas das crianças apresentavam oposição, com
comportamentos de inércia ou comportamentos de agitação e desafio; outras
mostravam-se colaborantes e com vontade de realizar tudo de forma correcta,
numa tentativa de agradar ao examinador, apesar de, na sua maioria, terem
apresentado comportamentos disruptivos; outras ainda começavam por apresentar
comportamentos de oposição e desafio acentuados, acabando por, com o tempo e
alguma desvalorização dos comportamentos, por parte do examinador, colaborarem
na tarefa com agrado.
De uma forma geral, a observação directa permitiu, ainda, concluir que apesar
de nem todas as crianças do grupo POD apresentarem comportamentos disruptivos
em situação de teste, na sua maioria necessitam de incentivos constantes para
não desistirem pois são muito relutantes em cooperar; têm uma grande tendência
a dispersarem a atenção e a falarem de assuntos não relacionados com as
tarefas; recorrem bastantes vezes à manipulação, tentando negociar com o
examinador as tarefas que querem fazer; e perguntam várias vezes, ao longo da
avaliação, quanto tempo falta para acabar.
DISCUSSÃO
Relativamente à caracterização do funcionamento neuropsicológico das crianças
com POD, optou-se por agrupar os diferentes testes em domínios
neuropsicológicos (linguagem, atenção e funções executivas), para facilitar a
organização e síntese dos dados obtidos. Contudo, será necessário não perder de
vista que o esquema organizativo adoptado possui um carácter meramente
aproximativo.
Desta forma, nos domínios da linguagem, atenção e funções executivas,
verificamos que o grupo POD se distingue da população normal em algumas das
competências características destes domínios.
Linguagem. No domínio da linguagem, o grupo clínico distingue-se dos seus pares
por apresentar resultados inferiores, tal como previsto na bibliografia (Frost
et al., 1989). Os dados sugerem dificuldades na velocidade de processamento e
na linguagem receptiva, com capacidades diminuídas na assimilação de conceitos
detentores de alguma complexidade gramatical e na abstracção verbal, visível
nos resultados obtidos na Nomeação Rápida e na Compreensão de Instruções.
Henry e Moffitt (1997) encontraram resultados mais baixos, nas crianças com
POD, nos testes de Fluência Verbal, que além de avaliarem as funções
executivas, têm uma componente de linguagem. Tal resultado é replicado no
presente estudo no que concerne à FVF e ao resultado total de FV, o que vai de
encontro, mais uma vez, à existência de um défice ao nível da linguagem neste
grupo de crianças.
Atenção. As crianças do grupo POD distinguem-se do grupo de controlo pelos
resultados inferiores na atenção selectiva e sustentada. Foram encontrados
défices ao nível da atenção selectiva, avaliados pelo TrailMaking TestPartes A
e B. Contudo, na Parte A, os resultados foram significativos apenas para o
número de erros e não para o tempo, o que levanta a hipótese de haver
interferência de comportamentos impulsivos, pois como é sabido, os problemas de
atenção surgem, usualmente, associados à impulsividade (Loeber & Hay,
1997).
Nos testes da Barragem, apenas a Barragem de 2 Sinais, apresentou diferenças
entre os grupos. Tal resultado é indicador de as dificuldades de atenção
selectiva e sustentada poderem estar mais presentes em idades precoces, o que
vai de encontro à bibliografia existente, que aponta que os défices de atenção
serão mais evidentes em casos de início precoce de perturbações do
comportamento de tipo externalizante (Hogan, 1999).
Funções Executivas.As funções executivas constituem uma área onde o grupo POD
se distinguiu dos seus pares por resultados inferiores, com incidência na
flexibilidade cognitiva, na evocação de informação fonológica obedecendo a
regras e na resolução de problemas. Este resultado vai de encontro à literatura
disponível pois esta é a área neuropsicológica que, ao longo de diferentes
estudos, tem mostrado maior evidência de estar afectada nas perturbações de
tipo externalizante (Giancola et al., 1998; Henry & Moffitt, 1997; Hogan,
1999; Nigg & Huang-Pollock, 2003; Speltz et al., 1999).
As dificuldades das crianças com POD na flexibilidade cognitiva reflectem-se no
facto de demorarem mais tempo na resolução de tarefas que exigem esta
competência e, também, por cometerem mais erros na sua execução.
Na resolução de problemas, o grupo POD distingue-se em todas as dimensões
avaliadas pela Torre de Coimbra, apontando para um défice nas competências de
resolução de problemas, planeamento, monitorização e auto-regulação. Da mesma
forma, o grupo POD comete maior número de erros e em todos os tipos, com
destaque para os que traduzem impulsividade (erros de tipo I e II) e falta de
planeamento (erros do tipo III).
GATSB. Pela análise do GATSB constata-se que o comportamento das crianças com
POD em situação de teste comporta uma grande variabilidade. Apesar disso, quer
o facto de os máximos atingidos por estas crianças se aproximarem bastante dos
máximos possíveis de atingir nesta escala, quer os elementos provenientes da
observação directa, indicam que estas crianças podem realmente apresentar os
comportamentos de oposição e desafio, típicos da POD, em situação de teste.
Isto é, sobretudo, visível no Factor de Não Cooperação que, tendo em conta a
média e o desvio-padrão, foi o que mais se aproximou dos valores limite.
Em síntese, foi possível encontrar um padrão neuropsicológico associado às
crianças com POD, no que diz respeito aos domínios da atenção, linguagem e
funções executivas, que é consonante com as investigações já realizadas
(Giancola et al., 1998; Henry & Moffitt, 1997; Loeber & Hay, 1997;
Lynam & Henry, 2001; Nigg & Huang-Pollock, 2003; Speltz et al., 1999).
Por sua vez, estes dados permitem concluir que a BANC se encontra revestida de
capacidade para discriminar este grupo clínico.
Como vantagens deste estudo pode apontar-se: a utilização de vários testes para
avaliar um mesmo e diferentes construtos; o facto de a amostra do grupo POD ter
sido constituída por crianças ou adolescentes no início do tratamento
psicológico, o que exclui a hipótese de já terem ocorrido modificações
resultantes do tratamento; o controlo da comorbilidade com a PHDA, que permitiu
contornar um dos problemas mais comuns na bibliografia existente, isto é,
perceber se os défices neuropsicológicos encontrados estão associados à POD ou
à PHDA. Neste caso, como esta variável foi objecto de controlo, é possível
afirmar que os défices observados, ainda que também possam estar presentes na
PHDA, são característicos das crianças com POD.
Apesar disso, o facto de apenas ser controlada a comorbilidade com a PHDA,
deixa de lado outras perturbações que também poderão ter influência nos
resultados, visto que quando aumentam as comorbilidades também aumenta a
probabilidade de défices neuropsicológicos (Frost et al., 1989). Além disso, o
tamanho da amostra, embora seja superior ao encontrado noutros estudos de
crianças com POD, com a situação de comorbilidade com PHDA controlada (Clark et
al., 2000; Speltz et al., 1999; Thorell & Wahlstedt, 2006), é restrito.
Em suma, os elementos encontrados parecem-nos ajudar a esclarecer, um pouco
mais, o funcionamento desta perturbação, que tanto carece de informação actual.